ABEL SURTA APÓS DERROTA DO PALMEIRAS — MAS FOI O QUE VEIO À TONA DEPOIS DA COLETIVA QUE FEZ O BASTIDOR PEGAR FOGO!
O “pavio curto” de Abel Ferreira e a crise de identidade: Até onde o sucesso autoriza o silêncio?
O futebol, como toda paixão brasileira, é movido por uma liturgia que alterna entre o êxtase da vitória e a terra arrasada da derrota. No entanto, raramente vemos essa fronteira ser tão tensionada quanto na recente entrevista coletiva do técnico Abel Ferreira, após a derrota do Palmeiras para o Fluminense, no Maracanã. O resultado por 3 a 2, com uma virada emocionante protagonizada pelo ídolo tricolor Germán Cano, foi apenas o estopim. O verdadeiro espetáculo — ou o drama — aconteceu na sala de imprensa.
Para quem acompanha o dia a dia do futebol brasileiro, é comum que treinadores se sintam pressionados. Mas a reação de Abel, visivelmente contrariado com os questionamentos dos jornalistas, levantou uma questão que vai muito além da tática: o peso das críticas sobre um ciclo vitorioso e a linha tênue entre a autodefesa e a soberba.
O Maracanã e o choque de realidade
Dentro de campo, o Fluminense, sob o comando interino de Marcão, deu uma aula de atitude. O time, que vinha de um jejum incômodo de oito jogos sem vitória, reencontrou sua essência. Quando Germán Cano saiu do banco, mesmo fora de suas melhores condições físicas, para decidir a partida, o torcedor tricolor sentiu o peso da camisa e a importância de ter um artilheiro que entende o DNA do clube.
Já o Palmeiras, líder do campeonato e dono de um dos elencos mais qualificados do continente, parecia alheio ao jogo por boa parte do tempo. A apatia defensiva e a falta de criatividade no meio-campo foram evidentes. O torcedor alviverde, acostumado com um time que “tem fome”, viu uma equipe que caminhava em campo, desinteressada, como se o resultado fosse uma mera formalidade.
Se esse é o Palmeiras que se apresenta hoje, o alerta vermelho está aceso para a Libertadores. Não se trata de uma crítica clubista, mas de uma constatação baseada no rendimento. Se a equipe mantiver essa postura apática diante de desafios continentais, o risco de uma eliminação precoce — que traria um terremoto para a Academia de Futebol — é real.
A “blindagem” e a perda da paciência
É aqui que o cenário se complica. Na coletiva, Abel Ferreira não poupou o tom agressivo ao responder a questionamentos sobre a queda de rendimento nos últimos dois anos. O técnico português, por vezes, dá a entender que a imprensa e os críticos se acham os “deuses do futebol” por apontarem o óbvio: o time não está jogando o que pode.
O ponto central da discussão de Abel é o “negativismo”. Ele questiona se os jornalistas estão ali para fazer perguntas ou para redigir artigos de opinião. “Vocês querem que o Palmeiras ganhe todos os anos?”, chegou a disparar, citando títulos recentes como um escudo contra qualquer questionamento sobre o momento atual.
A estratégia de Abel é clara: ele tenta blindar o elenco, protegendo seus comandados do fogo amigo. Contudo, há um risco latente nessa postura. Quando um treinador se recusa a aceitar a crítica construtiva — aquela que aponta a falta de intensidade ou os erros táticos repetitivos — ele cria uma narrativa de “nós contra eles”. Isso funciona para criar coesão interna por um tempo, mas, quando os resultados deixam de vir, o silêncio que ele exige torna-se insustentável.
A crise que ainda não chegou, mas está no horizonte
Abel Ferreira tem razão ao dizer que o Palmeiras não está na última colocação e que segue vivo em todas as competições. De fato, o clube é vitorioso e a história recente do treinador no Brasil é indiscutível. Mas o torcedor não vive de passado. O “abismo” que Abel diz ser criado pela imprensa é, na verdade, um reflexo do nível de exigência que o próprio treinador impôs ao clube.
O Palmeiras mudou de patamar nos últimos anos porque o padrão de jogo era alto. O time era consistente, aguerrido e, acima de tudo, organizado. Se hoje o torcedor cobra, é porque sabe que aquele time de 2023/2024 é capaz de muito mais.
Ao tratar toda pergunta crítica como um ataque pessoal ou uma tentativa de “criar narrativas”, o treinador perde a oportunidade de fazer uma autocrítica pública mais madura. O futebol brasileiro tem essa característica de “terra arrasada” pós-derrota, mas um profissional do calibre de Abel deveria saber filtrar o ruído e focar na correção de rotas. Se os jogadores já não “compram” mais a ideia do técnico — algo que a postura em campo contra o Fluminense sugere fortemente —, então a culpa não é da pergunta do jornalista, mas da mensagem que não chega mais ao vestiário.
O desafio de retomar as raízes
O que o torcedor alviverde espera, e o que o futebol precisa, é que Abel Ferreira recupere a simplicidade e a fome de outrora. O Palmeiras precisa voltar a ser o time que sufoca o adversário, não o que sofre viradas no final de jogos importantes.
Se Abel continuar focado em “dar o troco” em entrevistas coletivas, ele acabará entrando em uma espiral perigosa. O futebol não perdoa a soberba, e o sucesso de ontem não garante a vaga na próxima fase da Libertadores. A crise, que ele insiste em dizer que não existe, pode muito bem bater na porta na próxima quarta-feira.
Ao final, a verdade é simples: o Palmeiras tem um elenco fantástico, um técnico competente e uma estrutura invejável. Mas nada disso entra em campo sozinho. Se a autocrítica não vier de dentro para fora, o ambiente externo, inevitavelmente, se tornará tóxico.
Para Abel, o conselho é um só: menos coletiva, mais treino. Menos “nós contra eles”, e mais foco naquilo que tornou o Palmeiras uma máquina de vencer títulos: a humildade de entender que, independentemente do tamanho do currículo, em campo, todo jogo é uma prova de fogo que precisa ser vencida com suor, não com justificativas.
A torcida, soberana e impaciente, continuará exigindo. E, no fundo, é isso que mantém o futebol vivo. Se Abel Ferreira quer ser o gigante que sua história no Brasil sugere, ele precisa entender que até os “deuses do futebol” precisam ouvir, de vez em quando, o barulho das arquibancadas — mesmo que, em dias de derrota, esse barulho venha em forma de crítica.