NETO E CASAGRANDE PERDEM A PACIÊNCIA E REVELAM O QUE PENSAM DE ANCELOTTI
A Seleção na corda esticada: o empate que tirou Neto e Casagrande do sério na estreia da Copa
A estreia da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2026 deixou um gosto amargo na boca de quem esperava um futebol propositivo, agressivo e, acima de tudo, corajoso. O modesto empate em 1 a 1 contra o Marrocos acendeu o sinal amarelo — ou melhor, o sinal vermelho — nos estúdios e nas redes de transmissão esportiva pelo país. Se a apatia em campo foi evidente, a reação fora dele foi avassaladora. Ícones do nosso futebol e vozes fortes da crônica esportiva, Neto e Walter Casagrande não pouparam críticas à condução da equipe por parte do técnico Carlo Ancelotti. A avaliação foi unânime e duríssima: faltou ousadia, sobrou teimosia e a gestão do grupo, especialmente no banco de reservas, beirou o incompreensível.

O tom adotado pelos comentaristas reflete a frustração de um torcedor que não aguenta mais ver a Amarelinha presa a amarras táticas e escolhas conservadoras. Para quem esperava que a chegada de um treinador multicampeão europeu trouxesse um sopro de modernidade e pragmatismo corajoso, o que se viu foi a repetição de velhos vícios que já custaram caro em Mundiais anteriores.
A escolha inicial e a falta de “fome”
O principal foco da ira de Neto e Casagrande foi a montagem do onze inicial e a insistência em peças que, na visão deles, já não entregam a intensidade exigida em um nível de Copa do Mundo. A começar pelo meio-campo, onde Casemiro foi alvo de contestações severas. A crítica não recai apenas sobre a fase técnica, mas sobre a dinâmica coletiva: um jogador que, segundo a análise inflamada da transmissão, já não cumpre o papel de marcação com a mesma voracidade de antes e acaba servindo mais como uma figura de estabilidade hierárquica do que como motor de transição.
Mas o grande abacaxi da escalação inicial teve nome e sobrenome: Igor Thiago. A aposta em um centroavante de referência física, forte pelo alto, gerou debates intensos sobre a proposta de jogo. A teoria de colocar um “gigante” na área para aproveitar cruzamentos ruiu na prática quando o primeiro tempo se arrastou sem que a Seleção conseguisse produzir jogadas reais de linha de fundo.
“Se o objetivo era o jogo aéreo, cadê a bola na área?”, questionavam os analistas, apontando que o atacante acabou isolado, disputando bolas longas e divididas perdidas contra a sólida defesa marroquina, enquanto opções de maior mobilidade mofavam entre os reservas.
A comparação com a “fome” de vitória foi o grande mote da discussão. Para Casagrande e Neto, o futebol atual exige sangue nos olhos, aquela urgência típica de quem ainda tem tudo a provar. Jogadores consagrados, muitas vezes acomodados em suas zonas de conforto contratuais e status, parecem carecer daquele apetite voraz que empurra times desacreditados rumo ao topo. É justamente aí que entra o abismo geracional que a comissão técnica insistiu em ignorar na estreia.
O caso Endrick: um mistério que revolta a torcida
Se a escalação inicial foi contestada, a gestão das substituições beirou o insuportável para quem assistia ao duelo. O jovem Endrick, acostumado a decidir jogos importantes e a carregar o peso ofensivo quando a situação aperta, passou os noventa minutos aquecendo o corpo e esfriando a cabeça no banco de reservas.
A cena de Endrick correndo ao longo da linha lateral no segundo tempo, pronto para entrar, enquanto o relógio passava e o time continuava inofensivo, revoltou Neto. As comparações com o drama histórico de Jorge Mendonça na Copa de 1978 vieram à tona: um jogador em plena forma, com histórico recente de gols salvadores e energia de sobra, deixado de lado por puro excesso de cautela.
O que se questiona nos bastidores e nos microfones é o medo institucional que os treinadores da Seleção parecem ter de apostar em jovens talentos nos momentos decisivos. Raphinha, por exemplo, permaneceu em campo durante toda a partida, mesmo tendo uma atuação apagada, sem conseguir controlar bolas, vencer duelos individuais ou criar perigo real pelo setor direito. A demora de Ancelotti para mexer na equipe — e a pouca inspiração nas trocas que fez — travou qualquer tentativa de reação brasileira.
Como um técnico com o currículo de Ancelotti, vencedor de múltiplas Ligas dos Campeões e com passagens por gigantes do futebol mundial, hesita em colocar um garoto de 19 anos que respira intensidade e gol? A cobrança foi direta: faltou coragem. Faltou personalidade para quebrar o protocolo e entender que a camisa pesada, por si só, não ganha mais jogo se a perna não acompanhar o ritmo.
O peso da repetição e a necessidade de quebrar o molde
O empate com o Marrocos não é apenas um tropeço pontual na fase de grupos; ele reabre uma ferida antiga no futebol brasileiro. Estamos falando de ciclos e mais ciclos de Mundiais em que o debate se repete ciclicamente: a dificuldade de renovar estruturas, a dependência de nomes consagrados e a relutância em oxigenar o vestiário com sangue novo.
Neto foi categórico ao afirmar que o problema não reside exclusivamente em Ancelotti, lembrando que gestões anteriores, como a de Dorival Júnior, também demonstraram a mesma relutância em dar protagonismo absoluto às joias da nova geração. Existe um molde enraizado, uma panela invisível que dita quem joga por hierarquia e não por momento técnico.
Enquanto seleções menores ou rivais tradicionais adotam posturas cada vez mais verticais, dinâmicas e baseadas na explosão física e mental de atletas jovens, o Brasil parece preso a uma cartilha burocrática. A atuação contra o Marrocos escancarou um time previsível, lento na circulação de bola e completamente inofensivo no terço final do campo durante longos períodos da partida.
A entrada de jogadores com mais mobilidade e agressividade — nomes como Rayan, Luiz Henrique ou o próprio Endrick — era gritante desde o intervalo. No entanto, a inércia técnica prevaleceu até que o tempo regulamentar se esgotasse, deixando a torcida com a sensação de oportunidade perdida.
O que vem pela frente?
Com o apito final decretando a igualdade no marcador, a pressão sobre a comissão técnica multiplica-se exponencialmente para os próximos compromissos do grupo. O torneio não espera por ajustes lentos, e a margem para erros encolheu drasticamente. A necessidade de vitória contra os próximos adversários obriga Ancelotti a rever conceitos, engolir eventuais resistências internas e, principalmente, dar ouvidos ao que o campo e a arquibancada gritam em uníssono.
A torcida brasileira não quer apenas o resultado; quer ver a alma de um time que joga com fome, com ousadia e com a alegria característica que parecia ter ficado nos vestiários. Se a lição da estreia servir para sacudir o ambiente e arrancar os medalhões da zona de conforto, o empate amargo poderá, ao menos, ter cumprido o papel de um chacoalhão necessário antes que seja tarde demais. Resta saber se o comando técnico terá a hombridade de mudar os rumos da barca ou se continuará apostando na mesma receita que já nasceu desgastada.