JOGADA VIVA DO PENHASCO? A Teia de Mentiras, a Empresária Caçadora e a Delegada Sob Suspeita no Macabro Caso Berenice

A brisa costeira de Ubatuba, no litoral norte de São Paulo, sempre foi sinônimo de tranquilidade e turismo para a maioria de seus visitantes e moradores. No entanto, por trás da fachada de cartões-postais paradisíacos, um crime de contornos cruéis e sombrios escancarou as portas de um submundo onde o poder, a impunidade e a crueldade se entrelaçam. A vítima: Berenice, uma cozinheira trabalhadora e mãe de família. A principal suspeita: Eliane, uma empresária, colecionadora de armamentos e praticante de tiro. O cenário final: um penhasco de difícil acesso na região de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro.
O que começou como um simples desacordo trabalhista após quatro meses de serviço prestado transformou-se em um dos casos mais intrigantes e revoltantes da crônica policial recente, mobilizando desde equipes de resgate de alta montanha até a pressão implacável de canais investigativos e da mídia independente.
Nesta reportagem exclusiva do Báo BR, destrinchamos os absurdos revelados nas últimas semanas, as falhas grotescas da investigação inicial e a pergunta que ecoa e tira o sono de peritos e familiares: Berenice foi jogada viva daquele abismo?
O Início do Pesadelo: Um Acerto de Contas Fatal
Berenice trabalhou arduamente por quatro meses em um restaurante gerido pela empresária Eliane. A relação entre as duas, que já vinha sofrendo desgastes, culminou na demissão da cozinheira. Ao contrário do que muitos fariam, Berenice decidiu que não sairia de mãos abanando. Ela exigiu seus direitos trabalhistas, buscando até mesmo a orientação de um advogado para garantir que a lei fosse cumprida.
O que Berenice não sabia era que essa postura afirmativa, essa tentativa de lutar por justiça, selaria o seu destino. No dia 30 de junho, data marcada para o suposto acerto de contas presencial com sua antiga patroa, o advogado de Berenice estava fora da cidade. Desprotegida e sem instrução legal naquele momento crucial, ela foi ao encontro de Eliane. Esse foi, tragicamente, um bilhete só de ida.
A partir daquele instante, Berenice desapareceu sem deixar rastros. A família, desesperada, iniciou uma busca angustiante, mas encontrou apenas portas fechadas e o silêncio gélido da empresária, que alegava total desconhecimento sobre o paradeiro da ex-funcionária.
A Frieza de um Predador e o Rastro no Asfalto
Eliane não é uma mulher comum. Descrita nos autos da investigação e por analistas comportamentais como o psicanalista Gustavo Negreiro como alguém de perfil controlador, altivo e extremamente confiante, a empresária possui um histórico que chama a atenção: é atiradora esportiva, caçadora e colecionadora de armas de fogo. Essa familiaridade com o abate e o sangue desenha o perfil de alguém que não se intimida facilmente e que, possivelmente, enxerga os outros como peças descartáveis em seu tabuleiro de poder.
Quando finalmente foi confrontada pela polícia nos dias que se seguiram ao sumiço, Eliane apresentou um álibi que, à primeira vista, parecia inabalável. Em depoimento formal, afirmou com veemência que, após o encontro, havia deixado Berenice no trevo de Ubatuba, em um ponto de ônibus que daria acesso à região de Caraguatatuba ou outras cidades do litoral norte paulista.
No entanto, a arrogância muitas vezes cega o criminoso para os detalhes tecnológicos do mundo moderno. Os investigadores, ao puxarem as imagens de câmeras de segurança e os registros de radares rodoviários, depararam-se com uma contradição gritante. A caminhonete de Eliane nunca parou no tal trevo. Pelo contrário, o veículo foi flagrado seguindo na direção diametralmente oposta: rumo ao Estado do Rio de Janeiro.
O mapeamento digital revelou que a caminhonete percorreu cerca de 160 quilômetros desde Ubatuba até a Serra d’Água, em Angra dos Reis. Mais perturbador ainda foi o dado extraído do GPS e dos radares da Rodovia Lídice: o veículo de Eliane permaneceu estacionado por aproximadamente duas longas horas em um ponto ermo e específico da estrada. O que exatamente aconteceu dentro daquela caminhonete e à beira daquela estrada durante essas duas horas é o que compõe o núcleo macabro desta investigação.
A Operação de Resgate e a Borboleta
Com a localização exata do GPS em mãos, a polícia fluminense e os bombeiros montaram uma força-tarefa colossal na região da Serra d’Água. Foram quatro dias exaustivos de varreduras em meio à densa Mata Atlântica. Devido à topografia extremamente hostil e íngreme do local, o uso de cães farejadores e buscas terrestres tradicionais era quase impossível. A tecnologia precisou intervir.
Drones foram lançados aos céus para mapear o abismo verde. Foi através das lentes de alta resolução de um desses equipamentos que a equipe avistou, lá no fundo, uma mancha anômala na vegetação. A confirmação visual deu início a uma das operações de resgate mais complexas do ano.
Bombeiros militares altamente treinados precisaram utilizar técnicas de rapel para descer quase 30 metros de um penhasco vertical e rochoso. Lá embaixo, em meio à umidade e à escuridão da mata, o pior cenário se confirmou. O corpo de uma mulher foi encontrado em avançado estado de decomposição, atestando que ela estava ali jogada à própria sorte por 17 longos dias.
A identificação oficial no Instituto Médico Legal (IML) de Angra dos Reis foi um capítulo à parte de pura dor. Devido ao estado do cadáver, o reconhecimento facial era inviável. Coube ao filho de Berenice a tarefa devastadora de olhar os restos mortais da mãe e reconhecê-la através de um detalhe singular que o tempo e a natureza ainda não haviam apagado: a tatuagem de uma borboleta.
Os exames preliminares da perícia apontam que Berenice foi morta no mesmo dia de seu desaparecimento, 30 de junho. Contudo, o grande foco da investigação médica agora gira em torno de um detalhe sádico e horrendo: Berenice já estava sem vida quando foi arremessada ao precipício, ou foi jogada viva, agonizando e consciente de seu fim iminente? Considerando a autoconfiança desmedida da suspeita, especialistas em criminologia não descartam a terrível hipótese de que a cozinheira tenha sido deixada lá para sofrer até o último suspiro.
A Sombra da Justiça: O Escândalo da Delegada
Se o crime em si já carrega contornos de filme de terror, os bastidores da investigação policial inicial em Ubatuba flertam abertamente com a corrupção e a prevaricação. O elemento mais revoltante para a família e para a sociedade civil foi o envolvimento da delegada titular responsável pelos primeiros passos do inquérito, Ana Carolina Pereira.
Não demorou muito para que a internet e jornalistas investigativos descobrissem um fato estarrecedor: a delegada e a principal suspeita, Eliane, eram amigas íntimas. Um vasto material vazou nas redes sociais e em grupos de aplicativos de mensagens, mostrando fotos e vídeos de festas, encontros casuais e visitas da delegada à residência da empresária. Assim que o cerco começou a se fechar, a delegada correu para deletar essas imagens de seus perfis públicos, numa clara tentativa de apagar os rastros dessa relação promíscua com a investigada.
As atitudes da delegacia sob o comando de Ana Carolina durante os dias cruciais após o desaparecimento foram descritas como “completamente letárgicas” por analistas criminais. Informações cruciais não foram checadas. Um exemplo bizarro e revoltante ocorreu quando testemunhas relataram ter visto Eliane atirar um aparelho celular pela janela de sua casa. O que a polícia fez? Absolutamente nada. Nenhuma viatura foi deslocada para averiguar o entorno da residência de imediato. O celular, uma peça-chave para quebrar o sigilo de mensagens da suspeita, só foi procurado e encontrado 15 dias depois.
Outro episódio documentado que beira o deboche institucional ocorreu quando os investigadores finalmente pediram o disco rígido (DVR) do sistema de câmeras de segurança da casa de Eliane. Em vez de uma apreensão formal com mandado de busca, a interação foi amigável. Eliane simplesmente disse: “Ah, tudo bem, outro dia eu levo para vocês”. E a polícia consentiu. Foi dado à suspeita o tempo perfeito e necessário para limpar, deletar e manipular as imagens antes de entregá-las às autoridades.
A impunidade parecia tão certa na cabeça de Eliane que ela sequer se deu ao trabalho de se livrar de seus pertences comprometedores logo após o crime, aguardando até os minutos finais antes de sua inevitável prisão para tentar ocultar provas. Essa letargia policial gerou um verdadeiro levante popular. Assistentes sociais e advogados começaram a denunciar o caso abertamente, acusando a delegada de proteger a investigada.
A defesa de Ana Carolina Pereira tentou reagir, emitindo notas oficiais afirmando que a delegada “nunca favoreceu nenhuma pessoa envolvida” e ameaçando processar criminalmente quem espalhasse tais “difamações”. No entanto, a pressão exercida pela mídia tradicional e, principalmente, por canais de True Crime no YouTube, tornou a permanência do inquérito em Ubatuba insustentável. Para garantir um mínimo de lisura, o caso precisou ser arrancado das mãos de Ana Carolina e transferido para a seccional de São Sebastião, uma movimentação rara que expõe a ferida da parcialidade no sistema de justiça local.
Assimetria Comportamental: A Mente da Assassina
A dinâmica entre Eliane e Berenice levanta questões profundas sobre poder e psicopatia. O psicanalista Gustavo Negreiro, ao analisar o caso, aponta para um fenômeno conhecido como “assimetria comportamental”. Em relações marcadas por desníveis de poder financeiro e social, o polo dominante (a empresária) tende a se tornar cada vez mais agressivo, altivo e insensível às necessidades alheias, enquanto o polo mais fraco (a funcionária) geralmente adota uma postura submissa.
O ponto fora da curva nesta história macabra foi a quebra dessa submissão. Berenice ousou confrontar o sistema. Ao buscar um advogado e exigir o que lhe era devido por direito, ela ameaçou o ego e a estrutura de poder corrompida de Eliane. Para a empresária, a cozinheira deixou de ser uma subordinada e passou a ser um estorvo insuportável que precisava ser “abatido”.
A confiança de Eliane era tão inabalável que suas mentiras no primeiro depoimento foram quase infantis. Ela mudava a versão sobre o paradeiro de seu próprio carro de um minuto para o outro. “O carro está não sei onde”, “não, o carro estava na garagem”. Era a fala de alguém que genuinamente acreditava que seu status social e suas amizades influentes na polícia seriam escudos impenetráveis contra as garras da lei.
Como pontua Negreiro, embora existam padrões registrados no comportamento de homicidas, a individualidade da construção de poder de Eliane mostra um nível de inibição moral nulo. Ela priorizou seus interesses financeiros e seu orgulho acima do valor sagrado de uma vida humana, agindo com a mesma frieza que usaria para abater um alvo em um estande de tiro. E, embora Eliane esteja atualmente detida, a investigação trabalha com a forte convicção de que ela não agiu sozinha. Carregar e arremessar um corpo em um penhasco de beira de estrada exige força física e logística, apontando para a provável existência de cúmplices e capangas que ainda caminham livres pelas ruas.
O Clamor Que Vem do Fundo do Abismo
O caso Berenice é um soco no estômago da sociedade brasileira. Ele expõe a vulnerabilidade do trabalhador comum diante de uma elite muitas vezes blindada pelo compadrio e pela corrupção estrutural. Não fossem as câmeras de pedágio, os radares de velocidade e a teimosia das equipes de resgate de Angra dos Reis, Berenice seria apenas mais uma estatística nos arquivos de desaparecidos do Estado de São Paulo. Não fosse o grito ensurdecedor das redes sociais e dos criadores de conteúdo investigativo, as relações espúrias na delegacia de Ubatuba continuariam varridas para debaixo do tapete.
Hoje, enquanto o corpo da cozinheira repousa e aguarda o veredicto definitivo dos exames forenses, sua família vive o luto misturado à sede por justiça. A transferência do caso para a seccional de São Sebastião trouxe um fio de esperança de que a verdade, por mais dura e sangrenta que seja, finalmente venha à tona em sua totalidade.
Eliane permanece em silêncio na prisão, talvez ainda crente de que sua rede de proteção a salvará no tribunal. Contudo, o eco da queda de 30 metros daquele penhasco não pode mais ser silenciado. Berenice, a mulher da tatuagem de borboleta, não pôde voar para fora daquele abismo, mas a força de sua história agora quebra barreiras, destrói alibis e exige que a justiça, ainda que tardia, seja absolutamente implacável.
O Báo BR continuará acompanhando cada desdobramento deste caso tenebroso. Acompanhe nossas redes para atualizações exclusivas e em tempo real sobre os laudos do IML e as próximas convocações da justiça.