PERDI MEU FILHO MATEUS EM 2009… NO CEMITÉRIO, ANOS DEPOIS, VI UM GAROTO IGUAL A ELE

“Pensei ter ido ao cemitério para visitar meu filho. Só mais tarde compreendi que outra criança me esperava entre aqueles túmulos. Fazia tempo demais. Naquela manhã, não vi nenhuma assombração saindo de trás da cruz, nem ouvi uma voz chamando meu nome. Se tivesse sido assim, talvez eu tivesse encontrado um jeito de rir disso mais tarde.”
“O problema foi justamente o contrário. Tudo aconteceu de um jeito muito comum. Um menino sentado perto de um túmulo antigo, um pedaço de madeira na mão, um rosto que lembrava o do meu filho nos detalhes que passei anos tentando esquecer. E a impressão, difícil de explicar sem parecer loucura, de que ele já sabia que eu ia passar por ali.”
“Meu nome é Antônio, mas quase ninguém me chama assim. Na cidade, sou o Tonho do material de construção. Trabalho no armazém há mais de 20 anos, de uma loja que vende cimento, azulejo, cano, areia. Essas coisas que deixam a roupa da gente sempre com um pó fino, mesmo depois do banho. Quem olha de fora acha que é só carregar saco, conferir nota e atender pedreiro apressado.”
“Mas quem passa a vida nesse tipo de serviço aprende a reparar nos detalhes. Uma pilha torta pode cair. Um azulejo trincado indica um lote ruim. Um cliente que mal te olha nos olhos sempre deve dinheiro ou vai pedir fiado. Nunca fui homem de acreditar em tudo. Na verdade, sempre fui o contrário.”
“Desconfiava de curandeiro, de promessa, de sonho com morto, dessas histórias que o povo conta sentado na calçada depois da janta. Respeitava, mas não comprava a ideia. Depois que perdi meu filho, fiquei ainda mais duro. O nome do meu menino era Mateus. Morreu novo, antes de ter idade para entender metade das coisas que prometi fazer com ele.”
“Não vou entrar nisso, do jeito que o povo gosta de perguntar. Tem dor que, quando a gente começa a explicar, vira curiosidade pros outros. E a morte de um filho não devia virar assunto de mesa. O que posso dizer é que, depois que ele foi enterrado, fiquei como a minha mulher soube conseguir. Ela chorava de portas abertas. Eu chorava escondido, quando chorava.”
“Ela queria ir ao cemitério toda semana. Eu dizia que ia junto, mas sempre inventava serviço. Tinha caminhão chegando, cliente esperando, boleto atrasado, dor nas costas, tudo servia. No começo, ela brigava comigo, depois cansou. Com o tempo, nosso casamento virou tipo uma casa fechada.”
“Ainda está de pé, mas ninguém sabe direito o que acontece lá dentro. Ficamos juntos um tempo, mais por costume do que por força. Depois, ela foi morar com a irmã em outra cidade. Não teve escândalo, prato quebrado, só uma mala, umas roupas dobradas e uma frase que ficou na minha cabeça.”
“Você deixou ele sozinho até depois de morto.”
“Disse que era injusto. Na época, eu precisava dizer isso. Hoje, não tenho tanta certeza. O cemitério de Santa Rita fica no alto de uma rua estreita, depois da última padaria e antes de começar o mato. Não é grande. Tem um muro baixo pintado de branco uma vez por ano, mas que sempre descasca antes da próxima pintura. O portão é de ferro, pesado, com umas partes enferrujadas perto da dobradiça.”
“Quando venta, faz um rangido curto, não como aqueles de filme, mas um som de coisa velha reclamando. Eu conhecia o caminho pro Campaus sem precisar contar fileira. Passei pela capelinha, virei depois de uma cruz de cimento quebrada na ponta. Segui por dois túmulos de família com azulejo azul e cheguei no corredor onde ele estava. Aquele dia, fui sozinho.”
“Fazia anos desde a morte dele. Tinha acordado cedo, antes do despertador. Sentei na cama um tempo, olhando para a parede do quarto. Ainda tinha uma marca retangular mais clara no lugar onde ficava uma estante com os brinquedos dele. Eu tinha tirado tudo quando minha mulher foi embora. Guardei numa caixa no quartinho dos fundos e fechei com fita.”
“Não por cuidado, por covardia. No caminho do cemitério, passei pela venda do Seu Lindo Ar e comprei flores simples, daquelas que ficam num balde de água na porta. Ele me olhou por cima dos óculos e não perguntou nada. Talvez soubesse da data. Em cidade pequena, até o silêncio dos outros tem memória.”
“O sol estava forte, mas eu já tinha prometido castigar. A rua subia devagar, com casas antigas de um lado e um terreno baldio do outro. Um cachorro dormia na sombra de um caminhão sem roda. Duas mulheres conversavam no portão e pararam quando me viram com as flores na mão. Fiz um aceno de cabeça e segui. Tinha pouca gente no cemitério.”
“Um homem capinava perto do muro. Uma senhora ajeitava velas num túmulo novo. Mais pra frente, um funcionário empurrava um carrinho de mão com vaso quebrado, pedaço de plástico, flor queimada de sol e resto de fita. Deixei as flores no túmulo do meu filho. Tirei umas folhas secas que estavam presas no canto da pedra.”
“Passei os dedos pelo nome dele, como se aquilo pudesse servir de conversa. Mateus de Oliveira. O nome parecia pequeno demais ali. Fiquei parado, sem rezar. Nunca soube rezar direito depois dele. Antes, quando a vida ainda obedecia alguma ordem, eu até fazia o sinal da cruz. Pedia proteção, agradecia. Depois, fiquei com vergonha de pedir qualquer coisa. Parecia tarde demais.”
“Não sei quanto tempo fiquei parado. Talvez uns minutos. Talvez mais. O cemitério tem um jeito estranho de fazer a gente perder a medida. O barulho da rua fica abafado, os passos parecem mais altos e até o vento, quando passa entre os vasos e as coroas velhas, faz a gente se virar. Foi aí que vi o menino.”
“Ele estava mais à frente, depois de uma fileira de túmulos antigos, sentado no chão, perto de uma cova baixa, sem placa visível. Usava roupa clara, simples, como as que poderiam ser de qualquer criança. Estava de costas, inclinado pra frente, riscando o chão com um pedaço de madeira. No começo, achei que fosse filho de alguém que trabalhava ali.”
“Criança em cemitério não é comum, mas também não é impossível. Tem mãe que leva porque não tem com quem deixar. Tem neto que acompanha a avó. Tem menino que se enfia onde adulto não presta atenção. Mas tinha uma coisa errada. Ele estava sozinho demais.”
“Não olhava pros lados, não chamava ninguém. Não parecia perdido, parecia estar esperando. Fiquei olhando mais tempo do que devia. E, como se tivesse sentido, o menino parou de mexer no chão, virou o rosto. Foi ali que senti meu corpo falhar. Não era o Mateus. Eu sei disso. Meu filho estava morto.”
“Eu tinha visto o túmulo dele diante de mim, tinha colocado flores lá, tinha tocado o nome gravado. Não sou homem de inventar milagre pra sobreviver, mas aquele menino se parecia com ele de um jeito que me fez até esquecer de respirar. Não era uma semelhança de fotografia. Não era o rosto inteiro igual. Era no jeito de levantar o queixo, no jeito de olhar, sem abrir muito os olhos, na boca quieta, como se guardasse uma pergunta.”
“Ei!”
“Chamei baixo. Minha voz saiu menor do que eu queria. O menino continuou olhando. Dei um passo, depois outro. Passei por entre os túmulos, desviando de vaso rachado, cruz baixa, placa torta. Não queria assustar a criança, mas também não conseguia parar. Tinha uma parte de mim dizendo pra virar as costas, outra parte, mais funda e mais burra, queria chegar perto.”
“Quando estava a poucos metros, ele se levantou, não fugiu, não fez nenhum gesto assustado, só ficou de pé e entrou atrás dos túmulos, como criança que encontra um atalho. Apertei o passo. Passei por um túmulo com o cimento quebrado do lado, depois por outro coberto de azulejo velho. Quando cheguei no lugar onde ele tinha virado, olhei para os dois lados. Nada.”
“O menino tinha desaparecido entre os túmulos. Não estou dizendo que ele sumiu no ar. Não foi isso. Não vi o corpo dele apagar, não vi a sombra esticar. Não vi nada dessas coisas. Foi pior, porque era possível demais. Ele entrou por trás dos túmulos e, quando cheguei, não tinha corredor, buraco, portão aberto, muro baixo por onde uma criança pudesse ter passado tão rápido.”
“Chamei de novo, ninguém respondeu. Olhei pro chão. Onde ele estava sentado, tinha uns riscos feitos com a madeira. Eram linhas tortas sem um desenho claro. No meio delas, um círculo quase fechado e três marcas curtas, uma do lado da outra. Agachei olhando praquilo, como se fosse entender alguma coisa.”
“Atrás de mim, o homem que capinava se virou. Levantei rápido, com vergonha de ser visto ali, agachado perto de um túmulo que nem era da minha família. Passei ainda alguns minutos procurando. Dei a volta na fileira. Olhei atrás do túmulo alto, perto do muro, do lado da capelinha. Nada.”
“Na saída, perguntei pro funcionário do carrinho de mão se tinha alguma criança ali.”
“Criança? Tinha um menino lá pra baixo, perto dos túmulos antigos.”
“Ele parou de empurrar o carrinho. Olhou na direção que apontei, mas demorou um pouco antes de responder.”
“Não vi nenhuma criança hoje.”
“Disse isso e empurrou o carrinho. Podia ter acabado aí.”
“Fui embora tentando escolher a melhor explicação, limpa. Filho de alguém, menino ligeiro. Confusão minha. A saudade pregando peça. O sol batendo nos olhos. Cabeça cheia por causa da data. Quando a gente perde um filho, as pessoas dão permissão pra que se veja coisa errada. Ninguém chama de loucura no começo. Chamam de luto, chamam de trauma, chamam de fase.”
“É quase uma licença pra desconfiar da gente mesmo. Eu aceitei essa licença. Voltei pra casa antes do almoço. Minha casa ficava numa rua simples, com calçada estreita, portão baixo e um pé de acerola no quintal dos fundos. Era uma casa comum, com sala pequena, cozinha comprida, dois quartos e um quartinho nos fundos onde eu guardava ferramenta, lata de tinta, ventilador quebrado e a caixa de coisas do Mateus.”
“De dia, a casa não tinha nada de estranho e isso foi o que mais me incomodou depois. O chão de lajota tava manchado perto da porta, porque eu chegava com pó do depósito. A janela da cozinha emperrava, o relógio da sala atrasava se faltasse luz de noite. O sofá tinha um rasgo no braço esquerdo.”
“A mesa da cozinha balançava se alguém apoiasse o cotovelo. Nada ali parecia preparado para guardar mistério. Esquentei o almoço. Arroz requentado, ovo, café passado de manhã. Depois deitei no sofá, mas não dormi. Toda vez que fechava o olho, via o rosto. Não o rosto todo, só aquele jeito de olhar. À tarde, fui pro trabalho.”
“O movimento na loja tava pesado. Caminhão de cimento chegou atrasado. Um cliente discutiu por causa de entrega e um rapaz novo derrubou uma pilha de cano no corredor. Passei o resto do dia irritado, o que ajudou. A irritação é uma boa distração. A gente fica com raiva de coisa pequena pra não olhar pro grande. De noite cheguei em casa cansado, tomei banho, liguei a televisão sem prestar atenção e deixei a casa aberta até tarde por causa do calor.”
“Antes de ir dormir, fui no quartinho dos fundos pegar uma extensão. A caixa do Mateus tava num canto, embaixo de uma prateleira. Eu não encostava nela fazia muito tempo. Era uma caixa de papelão grosso, dessas de mudança, fechada com fita larga. Em cima, a minha mulher tinha escrito ‘Mateus’ de caneta preta. A letra dela continuava firme lá, mais corajosa que eu.”
“Não sei por que reparei tanto naquela caixa aquele dia. Talvez por causa do menino. Talvez porque alguma parte de mim já sabia que a coisa não ia ficar quieta. Peguei a extensão e saí. Na manhã seguinte, antes de ir pro trabalho, abri a porta dos fundos pra jogar água no quintal. Foi aí que vi o carrinho. Ele estava perto do portão, encostado no murinho, virado pra fora.”
“Era um carrinho de plástico duro, vermelho, pequeno, com uma roda meio torta. Tinha sido do Mateus. Lembrei de como ele gostava de empurrar aquilo pela sala, fazendo barulho com a boca. O carrinho não devia estar ali. Fiquei olhando, parado com a mangueira na mão, como se alguém tivesse colocado uma cobra no chão.”
“Fui pro quartinho dos fundos. A caixa estava no mesmo lugar. A fita, porém, tinha uma parte levantada do lado. Não muito, só o suficiente pra caber uma mão pequena, se alguém insistisse. Eu não queria abrir. A verdade é essa. Não queria, porque abrir aquela caixa era abrir um pedaço da casa que eu tinha fingido não existir.”
“Mas o carrinho tava no quintal e eu precisava provar pra mim mesmo que existia explicação. Arranquei a fita devagar. Lá dentro tinha roupa dobrada, cobertor, livro de capa grossa, uma boneca sem uma das mãos, uma bola murcha, umas pecinhas de montar dentro de um pote e o espaço vazio onde o carrinho devia ter ficado.”
“Peguei o carrinho no quintal. Ele estava coberto de um pó claro, seco, daquele que gruda na beira do sapato depois que a gente passa por obra velha. Tinha pó nas rodas, na parte de dentro, até na fresta onde ficava o eixo. Pensei em rato. Foi a primeira explicação que me veio. Rato mexe em tudo, arrasta pano, papel, plástico.”
“Mas um rato não ia tirar um carrinho de dentro de uma caixa fechada e deixar perto do portão, virado pra rua. Então, pensei em criança. Algum menino da vizinhança podia ter pulado o muro, entrado no quartinho dos fundos, mexido na caixa e largado o brinquedo no quintal. A ideia era ruim, mas ainda era melhor que a outra.”
“Verifiquei a porta dos fundos, que tava trancada, janela do quarto também. O portão não tinha sinal de arrombamento. Mesmo assim, aceitei a explicação. Quem tá cansado escolhe a resposta que deixa a vida seguir. Levei o carrinho pra dentro, limpei com um pano velho e coloquei de volta na caixa. Fechei com outra fita.”
“Dei duas voltas, depois três. Empurrei a caixa mais pro canto e coloquei uma lata de tinta em cima. Fui trabalhar sem contar nada pra ninguém. No armazém, passei o dia ouvindo barulho de saco de cimento batendo no chão, o telefone tocando, a empilhadeira velha falhando pra subir.”
“Tudo normal, tudo bruto, tudo real. Eu me agarrei naquilo. Quando cheguei em casa, perto das 8 da noite, a primeira coisa que fiz foi ir pro quartinho dos fundos. A caixa tava fechada. A lata de tinta continuava em cima. Ri sozinho. Um riso curto, de vergonha. Pensei que tava virando um velho impressionado por causa de uma manhã no cemitério.”
“Tomei banho, esquentei comida e dormi mal, mas dormi. No outro dia, a boneca apareceu no quintal. Estava perto do mesmo lugar, encostada no portão, sentada, com as pernas abertas. Era uma boneca de borracha pequena, sem uma das mãos. Mateus tinha mordido aquela mão quando era mais novo. Minha mulher falou pra jogar fora, mas ele não deixou.”
“Fui pro quartinho dos fundos, a caixa fechada, a lata de tinta em cima, a fita intacta. Foi naquela hora que comecei a sentir uma coisa diferente. Não era medo ainda. Medo a gente só admite quando não consegue mais explicar. Aquilo era uma raiva nervosa, uma vontade de pegar alguém no flagra. Pensei nos vizinhos de novo.”
“Pensei em moleque entrando pelo telhado. Pensei até em parente brincando comigo, o que não fazia sentido, porque ninguém da minha família ia brincar com as coisas do meu filho. Mesmo assim, eu precisava que fosse alguém vivo. Limpei a boneca, coloquei de volta na caixa e, dessa vez, passei barbante por cima da fita e dei um nó bem apertado.”
“Encostei uma cadeira na porta do quarto dos fundos antes de dormir. Se alguém abrisse, eu ia ouvir. De madrugada, acordei com sede. A casa tava silenciosa. O ventilador do quarto girava, fazendo um estalo a cada volta. Levantei, fui na cozinha e bebi água direto do filtro.”
“Quando voltei pelo corredor, parei. A cadeira estava no lugar, mas tinha uma marca fina no chão, saindo da porta do quartinho dos fundos pra cozinha. Não era uma pegada, era como se alguma coisa pequena tivesse sido arrastada. Acendi a luz do corredor. A marca ia até a porta dos fundos. Abri devagar. No quintal, perto do portão, estava a bola murcha. Ela estava fora da caixa.”
“Não dava pra dizer que caiu, que rolou sozinha, que eu tinha esquecido ela ali. A bola foi colocada no mesmo ponto dos outros brinquedos, como se aquele lugar tivesse sido escolhido. Fiquei tanto tempo parado que a lâmpada da cozinha atraiu mosquito. Só depois fui pro quartinho dos fundos.”
“A cadeira continuava encostada na porta do lado de fora. O nó do barbante tava fechado, a lata de tinta em cima da caixa, no mesmo lugar. Não abri. Não tive coragem daquela vez. Voltei pro quarto com a bola na mão e sentei na beira da cama. Ela estava áspera de pó.”
“Apertei o plástico murcho com os dedos e lembrei do Mateus tentando chutar aquilo no corredor, tropeçando no próprio pé, rindo antes de cair. Foi aí que eu chorei. Não chorei bonito, não era alívio. Era uma coisa feia, presa, como se o peito tivesse desaprendido. Na manhã seguinte, levei a bola pra loja comigo.”
“Não sei por quê. Talvez porque não queria deixar o brinquedo sozinho em casa. Talvez porque, se ele aparecesse no quintal de novo estando comigo, eu ia ter que aceitar alguma coisa. Guardei a bola dentro do armário do depósito junto com a minha mochila. Passei o dia olhando pro relógio. Quando o expediente acabou, abri o armário. A bola estava lá.”
“Senti vergonha de mim mesmo outra vez. Fechei a mochila, fui pra casa e tentei seguir a vida como se nada tivesse acontecido. Mas já não era a mesma casa. O corredor parecia comprido demais. O quartinho dos fundos parecia esperar que eu passasse. O portão dos fundos, que antes eu mal notava, virou uma coisa que eu olhava o tempo todo.”
“Nos dias seguintes, os brinquedos continuaram. Nem sempre de manhãzinha. Às vezes, eu voltava do trabalho e achava um deles no quintal. Às vezes, acordava e via pela janela da cozinha um carrinho, a boneca, a bola, depois as pecinhas pequenas de montar, sempre em três, alinhadas no chão perto do portão. Três pecinhas, sempre três.”
“Comecei a reparar nisso. No cemitério, o menino tinha feito três marcas no chão com um pedaço de madeira. No quintal, as pecinhas apareciam de três em três. Na terceira vez em que o carrinho voltou, estava virado pra rua, com as rodas marcadas de pó de cova. Não de casa, não de depósito. Eu conheço pó.”
“Passei a vida trabalhando com isso. Aquele era fino, claro, misturado com farelo de cimento velho e resto de folha seca esfarelada. Era pó de lugar parado. Foi aí que liguei pra minha irmã. Não contei tudo. Só disse que tinha ido no cemitério e visto uma criança perto dos túmulos velhos. Perguntei se ela sabia de alguma família que levava o menino lá de manhã.”
“Do outro lado da linha, ela ficou quieta.”
“O que foi?”
“Perguntei.”
“Nada. Você sabe de alguma criança assim?”
“Tonho, para com isso.”
“O jeito que ela falou meu nome me incomodou mais do que se tivesse gritado.”
“Parar com o quê?”
“Você já fica cismado por causa da data. Não procura coisa onde não tem.”
“Só perguntei se tinha criança.”
“Ela respirou fundo.”
“Não volta lá por um tempo.”
“Por quê?”
“Porque não é bom.”
“Minha irmã sempre falou demais. Naquele dia, falou pouco. E quem fala pouco de repente, quase sempre tá escondendo o resto. No sábado, fui na venda do Seu Arindo. Ele era mais velho do que meu pai seria se estivesse vivo. Conhecia todo mundo.”
“Lembrava de velório, casamento, briga de família e de terreno vendido errado. Comprei uma garrafa de café e fui atrasando o assunto até a venda esvaziar. Aí, perguntei da parte velha do cemitério. Ele limpava o balcão com um pano sujo. Parou.”
“Qual parte?”
“Aquela lá de baixo. Depois dos túmulos com azulejo quebrado.”
“Ele continuou passando o pano, mas no mesmo lugar.”
“Tem muito antigo lá. Tem criança enterrada lá. Cemitério tem de tudo, Tonho.”
“Um menino.”
“Seu Arindo levantou os olhos.”
“Você viu alguma coisa?”
“Não gostei da pergunta.”
“Eu perguntei primeiro.”
“Ele largou o pano.”
“Tem assunto que não é bom desenterrar.”
“Eu não tô desenterrando nada. Só quero saber quem era.”
“Ele olhou pras apostas, foi até a porta da venda, como se alguém pudesse estar escutando lá fora.”
“Teu pai nunca te contou?”
“Senti o estômago apertar. Meu pai tinha sido funcionário da prefeitura por muitos anos. Cuidava de manutenção, capina, muro, encanamento, essas coisas. Às vezes, prestava serviço no cemitério, quando faltava gente. Lembrei dele chegando em casa com calça suja, mão grossa e um silêncio que a minha mãe não cutucava.”
“Contou o quê?”
“Seu Arindo se arrependeu antes de continuar. Dava pra ver.”
“Deixa pra lá, tô velho. Misturo as coisas.”
“Eu segurei a beira do balcão.”
“O nome.”
“Ele fingiu não entender.”
“Qual nome?”
“Do menino.”
“A boca dele endureceu.”
“André.”
“Só isso. André. Na mesma hora, lembrei de uma conversa antiga, daquelas que a gente escuta quando é criança e finge que não ouviu.”
“Devia ter uns 10 anos. Tava no corredor de casa brincando com um carrinho de madeira que meu pai tinha trazido de algum lugar. Minha mãe, na cozinha, falava baixo com ele. Disse o nome André. Meu pai respondeu bravo, mandando ela nunca mais tocar naquele assunto. Na época, não entendi, ou não quis entender.”
“Voltei pra casa com aquele nome batendo na cabeça, André. Quando abri o portão, já senti que tinha alguma coisa errada. O quintal tava limpo demais, não limpo de varrido, limpo de ausência. Os brinquedos de Mateus não estavam ali. Pela primeira vez em dias, não tinha nada perto do portão. Entrei devagar. A casa estava quente, abafada, com aquele cheiro de janela fechada e móvel velho.”
“Fui na cozinha, deixei a sacola na mesa, bebi água. O tempo todo ouvia meu próprio coração. Depois, fui pro quartinho dos fundos. A porta tava encostada, eu sempre deixava fechada. Empurrei com o pé. A caixa do Mateus estava aberta. As roupas continuavam dobradas. Os livros, o pote de pecinhas, a boneca, o carrinho e a bola estavam lá dentro, tudo no lugar.”
“Mas tinha uma coisa diferente em cima. Um brinquedo que eu nunca tinha visto adulto, mas que reconheci de criança. Um carrinho de madeira, pequeno, mal lixado, com rodas grossas presas por prego torto. Tinha uma fita de pano amarrada na parte de trás e uma etiqueta velha, amarelada, presa por barbante. Peguei com cuidado.”
“A etiqueta tinha um nome escrito à mão, quase apagado. André. Sentei no chão do quartinho dos fundos porque as pernas não queriam continuar. O carrinho tava coberto daquele pó claro e seco, mas por baixo dele tinha marcas de dedos pequenos, como se alguém tivesse segurado o brinquedo muitas vezes no mesmo lugar. Eu conhecia aquele carrinho, não de adulto, de lembrança velha.”
“Era o brinquedo que eu usava no corredor, quando ouvi meus pais discutindo. Tinha esquecido completamente dele, ou achei que tinha. Naquela noite não dormi. Fiquei sentado na cozinha até clarear com o carrinho de madeira na mesa. De vez em quando, passava um carro na rua. Um cachorro latia longe. O relógio da sala atrasou 15 minutos, depois parou.”
“Não aconteceu nada de sobrenatural e talvez por isso tenha sido uma das piores noites da minha vida. Na manhã seguinte, fui procurar minha mãe. Ela morava numa casa pequena, perto da igreja. Já tava de idade, andava devagar, mas a cabeça ainda era melhor que a minha. Quando me viu no portão com o carrinho de madeira dentro de uma sacola, o rosto dela mudou antes que eu dissesse qualquer palavra.”
“Mãe reconhece a coisa antes de ouvir a explicação.”
“Quem te deu isso?”
“Perguntou.”
“Achei lá em casa.”
“Ela se apoiou na porta.”
“Onde?”
“No quartinho dos fundos, em cima da caixa do Mateus.”
“Ela fechou os olhos.”
“Pedi pra entrar.”
“Ela não respondeu, só saiu da frente. A casa dela cheirava a café requentado, pomada e roupa guardada.”
“Sentei na mesa da cozinha. Ela ficou em pé um tempo, como se sentar fosse aceitar a conversa. Coloquei o carrinho na mesa.”
“Quem era André?”
“Minha mãe botou a mão na boca, mas não chorou. Minha mãe aprendeu a chorar pra dentro.”
“Seu pai devia ter te contado.”
“Então, conta a senhora.”
“Ela olhou pra janela, pro quintal, pra qualquer lugar que não fosse o brinquedo.”
“André era filho de uma mulher que trabalhava na casa de família do seu pai. Isso antes de você nascer. A moça morreu cedo. O menino ficou de favor. Naquele tempo, o povo fazia muita maldade dizendo que ajudava.”
“E como ele morreu?”
“Ela balançou a cabeça.”
“Não vou falar disso.”
“Eu preciso saber.”
“Não precisa. Ele apareceu pra mim.”
“A frase ficou na cozinha igual copo quebrado. Minha mãe sentou devagar.”
“Como assim, apareceu?”
“Contei do cemitério, do menino entre os túmulos, dos brinquedos no quintal, das três marcas, do nome na etiqueta. Minha mãe escutou sem me interromper. Quando terminei, ela parecia menor.”
“O André foi enterrado naquela parte velha.”
“Perguntei.”
“Ela assentiu.”
“Sem nome?”
“Com nome em papel da prefeitura, mas não no túmulo. Ninguém quis pagar taxa, ninguém quis assumir. Teu avô disse que menino sem família não precisava de luxo.”
“E o meu pai?”
“Ela apertou as mãos no colo.”
“Seu pai era novo quando ajudou a carregar o caixão. Depois, quando foi funcionário, mexeu muito naquela parte do cemitério. Teve reforma. Abriram corredor, mudaram cova de lugar, juntaram osso velho, fizeram o que fizeram. Ele trouxe esse carrinho pra casa. Um dia. Roubou de um túmulo.”
“Ela não respondeu de imediato.”
“Ele disse que brinquedo enterrado apodrece pra nada.”
“Senti um nojo do meu pai, de mim, de casa, daquele carrinho.”
“E eu brinquei com isso.”
“Você era criança. E o senhor deixou?”
“Eu não sabia de onde vinha, no começo. Quando descobri, já era tarde. Depois, pedi pra ele devolver. Ele não devolveu.”
“Por quê?”
“Minha mãe olhou pra mim. E naquele olhar tinha pena e tinha medo.”
“Porque o seu pai não acreditava em descanso de morto. Ele dizia que gente morta não sente falta de brinquedo.”
“Fiquei calado. Ela continuou.”
“Quando Mateus nasceu, seu pai quis dar o carrinho pra ele. Sua mulher não gostou. Disse que era velho, feio, cheio de farpa. Eu escondi. Depois da morte do Mateus, achei que tinha jogado fora.”
“Não jogou. Pelo visto, não.”
“Peguei o carrinho da mesa.”
“Por que ele parece com o meu filho?”
“Minha mãe demorou.”
“Talvez porque você só ia olhar se parecesse.”
“Aquilo doeu de um jeito que não consegui responder. Passei a tarde com a história na cabeça. André, um menino enterrado sem placa, um carrinho tirado do túmulo, meu pai mandando calar a boca, eu brincando com um brinquedo que não era meu.”
“O Mateus quase recebendo aquilo como presente. E agora, anos depois, os brinquedos do meu filho sendo levados pro quintal, sempre virados pro portão, como se alguém pedisse devolução ou troca. No fim da tarde, voltei pro cemitério. Levei o carrinho de madeira dentro de uma sacola. Levei também o carrinho vermelho do Mateus. Não sei explicar por que levei os dois.”
“Talvez porque uma parte de mim achava que André queria o que era dele. Outra parte de mim tinha medo que ele quisesse alguma coisa do meu filho também. O cemitério tava quase vazio. O funcionário do carrinho de mão não apareceu. A capela estava fechada. Tinha umas velas apagadas perto de um túmulo recente e um gato magro deitado numa pedra quente.”
“Fui no túmulo do Mateus. Fiquei diante do nome dele e, pela primeira vez em muitos anos, falei em voz alta.”
“Desculpa.”
“Foi só isso. Não senti alívio, não ouvi resposta, mas falei. Depois, desci pra parte velha. Os túmulos ali eram mais apertados, uns tortos, outros quase tomados pelo mato rasteiro. Procurei o lugar onde tinha visto o menino sentado.”
“Achei os riscos no chão, já fracos, o círculo torto, as três marcas. Atrás da cova baixa, tinha uma pedra sem nome. Não era uma lápide, era só uma placa velha, rachada, de cimento enterrado no pó. Passei a mão por cima e senti umas letras quase sumidas. Não dava pra ler.”
“Tirei o carrinho de madeira da sacola, coloquei em cima da pedra. Fiquei esperando. Não aconteceu nada. O mundo continuou do mesmo tamanho. Um carro passou na rua de baixo. Um passarinho pousou no muro. Um vento fraco mexeu numa fita velha num túmulo perto. Então, teve um passo. Não atrás de mim, do meu lado. Me virei devagar.”
“O menino estava entre dois túmulos, de pé, olhando pro carrinho. De perto, a semelhança com Mateus era menor. Ainda doía, mas não enganava mais. O rosto parecia outro por baixo da lembrança, como se a minha saudade tivesse colocado sobre ele uma máscara conhecida. Ele não sorriu. Também não parecia bravo, só olhava pro brinquedo.”
“Você é o André?”
“Perguntei. A criança levantou os olhos pra mim. Não respondeu. Eu sei como isso soa. Sei que contado assim, parece que eu fiquei lá falando com o que a minha cabeça inventou. Talvez exista uma explicação. Talvez o cansaço, a culpa e a data tenham feito alguma coisa dentro de mim que nenhum médico conseguiria explicar em palavras simples.”
“O problema é que eu tava lá. E o menino também. Peguei o carrinho vermelho do Mateus e segurei contra o peito.”
“Esse não.”
“Falei antes mesmo de entender por quê. O menino olhou pro brinquedo na minha mão. Depois, olhou pro túmulo do meu filho lá em cima, como se pudesse enxergar através das fileiras. Foi a única vez que senti medo de verdade, porque naquele gesto havia compreensão.”
“Não era uma criança perdida qualquer, não era só uma lembrança. Aquilo sabia onde o meu filho tava, sabia de quem era o brinquedo. Sabia o que tinha sido tirado, guardado, escondido, negado. Coloquei o carrinho vermelho de volta na sacola.”
“Isso é dele.”
“Minha voz tava trêmula.”
“Eu trouxe o seu.”
“O menino baixou os olhos pro carrinho de madeira, agachou diante da pedra sem nome e tocou o brinquedo com dois dedos.”
“Não vi luz, não ouvi choro, não teve vento forte, nem sino, nem nada que facilite a história. Ele só agachou lá, quieto, como uma criança que finalmente encontra uma coisa esquecida. Quando pisquei, ele já tava mais longe. Não tô dizendo que sumiu. Ele levantou, virou entre os túmulos e desapareceu no corredor estreito, passando por trás das covas, até que não consegui ver mais.”
“Dessa vez, eu não fui atrás. Fiquei parado até o sol começar a baixar. Antes de ir embora, procurei alguém da administração. Achei um homem numa salinha perto do portão, cercado de papel velho, recibo, chave pendurada e um ventilador fazendo mais barulho que vento. Perguntei sobre o nome da cova. Ele disse que aquele setor era muito antigo, que muita coisa não tava digitalizada, que os livros ficavam no arquivo da prefeitura.”
“Voltei no dia seguinte e no outro. No terceiro dia, consegui ver um livro grande, de capa dura, com as folhas amareladas. O funcionário passou o dedo pelos nomes, datas, números de quadra, observações feitas à mão. Achou o André. Não vou dizer o sobrenome, não por mistério, por respeito. Do lado do registro, tinha uma nota curta.”
“Sepultamento simples, sem identificação externa.”
“Simples. Era assim que chamavam uma criança enterrada, sem ninguém querer lembrar. Paguei por uma placa pequena com o nome dele. Nada bonito demais, nada que chamasse atenção, só o nome, a data aproximada que tava no livro e uma frase simples.”
“Aqui também teve uma criança.”
“Quando a placa ficou pronta, levei ao cemitério. O homem que instalou não perguntou muito. Talvez estivesse acostumado com gente tentando consertar tarde demais alguma coisa. Enquanto ele mexia com o cimento, fiquei afastado, segurando o carrinho vermelho do Mateus dentro da sacola. Não sei por que levei ele de novo.”
“Acho que eu ainda não confiava que tinha terminado. Depois que a placa foi colocada, deixei o carrinho de madeira ao lado dela. Naquela noite, cheguei em casa esperando encontrar o quintal cheio de brinquedo. Não tinha nada. O portão tava igual, o chão limpo, porta dos fundos trancada. Fui no quartinho dos fundos. A caixa do Mateus estava fechada, sem fita rompida, sem pó em volta, sem marca de mão pequena.”
“Pela primeira vez em muitos dias, consegui dormir, mas não quero dizer que a história acabou. Algumas semanas se passaram, depois meses. Minha irmã perguntou por que eu tava indo mais no cemitério. Eu disse que era por causa do Mateus. Não era mentira, só não era tudo. Minha mãe nunca mais falou o nome do André.”
“O Seu Lindo Ar, quando me via, dava um bom-dia mais baixo. A cidade continuou a mesma. Gente comprando fiado, caminhão atrasando, cachorro dormindo na sombra, sino da igreja marcando a hora errada. Eu continuei também, mas mudei algumas coisas. Passei a visitar meu filho nos domingos de manhã. Não todos, mas muitos. Limpei o túmulo, troquei as flores sempre que pude.”
“Tinha um pouco. Às vezes, passava pela parte velha e olhava pra placa pequena do André. O carrinho de madeira ficou lá por um tempo. Depois de um dia, não tava mais. Eu não procurei. Tem coisa que a gente aprende a não chamar de volta. O que ainda acompanha não é o menino no cemitério. Com o tempo, a imagem dele ficou menos nítida.”
“O que não sai da minha cabeça são os brinquedos no quintal, porque eles não apareceram na porta da frente, não apareceram na sala, não apareceram perto da caixa, sempre apareceram do lado do portão dos fundos, virados pra rua, como se uma criança tivesse tentando sair ou como se outra tivesse tentando entrar. Hoje, quando alguém me pergunta se eu acredito em alma penada, eu digo que não sei. E é verdade, não sei.”
“Não gosto dessa palavra. Parece coisa de gente contando história pra assustar os outros. Eu sei de uma coisa mais simples. Tem morto que não pede muito. Às vezes, eles só querem que alguém diga o nome deles direito. Às vezes, eles querem de volta uma coisa pequena que ninguém achou importante.”
“Às vezes, eles escolhem a pessoa errada pra cobrar uma dívida que não começou com ela. Mas eu também sei que a culpa não morre com quem causou. Ela fica na casa, muda de quarto, espera a gente abrir uma caixa, espera uma data, espera a coragem faltar. Eu ainda guardo os brinquedos do Mateus no quartinho dos fundos. A caixa continua lá. Não é mais lacrada.”
“De vez em quando, eu abro, passo um pano, olho as coisas, fecho de novo. O carrinho vermelho fica por cima de tudo. Na maioria das noites, não acontece nada. Mas, de vez em quando, quando acordo antes de clarear o dia, vou na cozinha beber água e olho pela janela. O quintal tá vazio, o portão tá fechado. Mesmo assim, tem manhãs em que eu encontro três riscos finos no pó, bem perto da saída. Não conto isso pra ninguém.”
“Quando alguém pergunta, eu digo que deve ter sido gato, vento, folha arrastando no chão. Eu digo isso porque é mais fácil. Mas, toda vez que vou ao cemitério e passo pela parte velha, eu evito olhar rápido demais pra trás dos túmulos. Não porque tenho certeza de que vou ver o menino, é porque tenho medo dele estar lá sentado de novo, esperando que eu reconheça mais alguma coisa que a minha família preferiu esquecer.”