EX-COVEIRO RELATA O QUE ACONTECEU APÓS O ENTERRO DO MENINO JOÃO VITOR EM 1988
EX-COVEIRO RELATA O QUE ACONTECEU APÓS O ENTERRO DO MENINO JOÃO VITOR EM 1988

O ofício de coveiro carrega um silêncio muito particular. Não é apenas a ausência de som, mas um silêncio denso, que parece feito das palavras que as pessoas não conseguiram dizer antes da despedida. Meu nome é Geraldo Aparecido Ramos. Hoje tenho setenta anos, mas no ano de 1988, eu era apenas um homem de trinta e dois anos, ganhando a vida no Cemitério Municipal de Maringá, no interior do Paraná.
Eu já trabalhava ali havia dois anos. Já tinha visto muita terra cobrir despedidas difíceis. Mas até aquela manhã de sol forte, eu nunca havia sepultado uma criança. O nome dele era João Vittor. Tinha apenas seis anos de idade.
Quando o cortejo despontou e eu vi aquele caixão pequeno se aproximando, algo mudou dentro de mim. Senti um aperto esquisito no peito, uma angústia que eu não havia experimentado em nenhum outro enterro. O silêncio daquela manhã era pesado. Parecia entrar pela nossa garganta e ficar entalado, recusando-se a descer.
Enquanto o padre proferia as últimas palavras, meus olhos se voltaram para a mãe do menino. Ela não derramava uma única lágrima. Seus olhos estavam secos, mas o corpo inteiro tremia sem parar. Eu já tinha visto pais desabarem em prantos, pessoas precisando ser seguradas para não caírem na terra, mas o estado daquela mulher era diferente. Ela parecia estar ali de corpo presente, mas sua alma estava vagando em algum lugar muito distante.
Me posicionei como sempre fazia, segurando as cordas, pronto para iniciar a descida do pequeno caixão de madeira. Foi nesse instante, enquanto eu estava bem perto dela, que escutei sua voz. Era um sussurro, quase um sopro. Ela falava baixinho, repetindo para si mesma que talvez pudesse ter feito mais. Dizia que a culpa de tudo aquilo era dela.
Aquelas palavras me marcaram de um jeito inexplicável. Não era o lamento comum do luto. Era uma dor funda, um peso esmagador que só ela parecia enxergar. Comecei a afrouxar as cordas, descendo o caixão devagar.
No momento exato em que a madeira passou da borda da cova, a mãe se soltou dos braços dos parentes. Ela deu um passo brusco para a frente, quase despencando no buraco, e soltou um grito que rasgou a manhã de Maringá: “Eu quero o meu filho de volta!”
O grito ecoou entre as lápides de mármore e as cruzes de ferro. Por um segundo, o tempo parou. Ninguém ousou se mexer. E foi bem aí que eu senti o ar mudar. Um arrepio violento subiu pelos meus braços, mesmo debaixo daquele sol quente do Paraná. Foi a nítida sensação de que algo invisível havia passado muito perto de mim.
Olhei ao redor, disfarçando, mas ninguém mais parecia ter sentido aquilo. Terminei o meu trabalho em silêncio. A família levou muito tempo para conseguir afastar a mãe da beira da sepultura. Fechei a cova com o respeito de sempre, mas fui para casa no fim da tarde carregando aquela cena cravada na mente.
Eu tentava me convencer de que era apenas cansaço, de que o enterro de uma criança naturalmente mexe com a cabeça da gente. Mas os dias que se seguiram provaram que eu estava enganado.
Tudo começou com pequenos detalhes. Certa tarde, enquanto eu consertava a cerca de um jazigo próximo, um visitante veio falar comigo. Ele estava visivelmente incomodado. Disse que escutara um choro de criança vindo de trás de um dos túmulos, mas que, ao procurar, não havia encontrado ninguém. Quando ele apontou a direção de onde vinha o som, meu coração gelou. Era exatamente a direção do túmulo de João Vittor.
Tentei tranquilizar o homem, dizendo que o vento às vezes faz barulhos estranhos ao passar pelas frestas das sepulturas. Mas, poucos dias depois, um colega de trabalho me chamou no canto durante o café. Ele contou que, no fim da tarde anterior, viu um vulto pequeno correndo entre os túmulos daquele mesmo setor. Quando apertou o passo para ver quem era, o vulto simplesmente desapareceu.
Eu ouvia tudo calado. O choro, o vulto. E houve também o caso de uma senhora idosa que ia toda quinta-feira visitar o marido, sepultado ali perto. Ela passou mal subitamente, sentindo uma tontura forte e uma dor de cabeça insuportável ao passar em frente à cova do menino. Ela me disse que nunca havia sentido uma energia tão pesada naquele lugar.
Mas o que realmente me fez perder o sono aconteceu cerca de cinco dias após o enterro.
Eu estava agachado, arrumando uma pedra rachada pela chuva, quando uma família chegou para visitar um túmulo vizinho. Traziam flores, um balde d’água e uma flanela. Com eles, estava um menino de uns sete anos. Como qualquer criança saudável, ele não entendia a seriedade do lugar. Corria, pulava entre as calçadas dos túmulos e brincava enquanto os pais limpavam a lápide.
Continuei meu serviço, de costas para eles, querendo terminar logo antes que escurecesse. De repente, ouvi passos leves se aproximando por trás de mim. Me virei e vi o menino. O sorriso de brincadeira havia sumido do rosto dele. Ele me olhou com uma seriedade assustadora para a idade e falou:
“Moço, o menino que tá ali tá com medo. Ele perguntou se a mãe dele não vai vir ver ele. Se ela esqueceu dele.”
Um nó se formou na minha garganta. Perguntei, tentando manter a voz firme, de que menino ele estava falando. Sem hesitar, a criança levantou o braço e apontou. Ele apontava, com absoluta precisão, para a terra ainda fresca do túmulo de João Vittor.
Na mesma hora, a mãe chamou o garoto. Ele virou as costas e saiu correndo de volta para os pais, voltando a sorrir como se nada tivesse acontecido, alheio ao peso do que acabara de me dizer.
Terminei meu turno, mas não fui embora. Decidi que precisava ir até lá sozinho antes de bater o ponto. Eu não sabia o que iria encontrar, mas sentia que devia isso ao menino.
Caminhei devagar pelo corredor de pedras. O sol já estava se escondendo. Quando parei em frente à pequena sepultura, inicialmente não senti nada. Pensei que talvez fosse tudo fruto da imaginação coletiva. Mas, no momento em que dei as costas para ir embora, o ar pesou novamente.
O arrepio voltou, dez vezes mais forte. Meu peito foi esmagado por uma pressão invisível, como se houvesse um bloco de concreto sobre os meus pulmões. Minhas pernas fraquejaram, uma dor latejante tomou conta da minha testa e eu precisei me apoiar na cruz de pedra do túmulo vizinho para não cair de joelhos.
A vontade era de fugir correndo. Mas se eu fugisse, estaria abandonando aquela criança no escuro. Respirei fundo, lutei contra a fraqueza e tirei o meu boné. Abaixei a cabeça e comecei a rezar.
Não foi uma reza decorada. Foi uma conversa sincera com Deus. Pedi pela alma daquele menino assustado. Pedi que ele encontrasse a luz, que pudesse descansar. E pedi, com a mesma força, pela mãe dele. Pedi que os céus levassem embora aquela culpa que a estava destruindo por dentro.
Enquanto eu rezava, ouvi claramente um choro distante. Era um som triste, miúdo. O choro continuou do começo ao fim da minha oração. Quando terminei e disse amém, senti o peso desaparecer dos meus ombros. O ar voltou a circular livremente. Coloquei o boné de volta e fui para casa, sabendo que algo muito real havia acontecido ali.
No dia seguinte, contei tudo a um coveiro mais velho, um homem que trabalhava na terra muito antes de mim. Ele me ouviu com paciência, olhando para o chão, e depois me disse algo que nunca esqueci.
“Geraldo,” ele começou, “os antigos dizem que, às vezes, não é o morto que se recusa a ir embora. É o vivo que segura a alma dele aqui. A culpa e o desespero de quem fica formam uma corrente pesada. A pessoa não solta quem ama, e quem morreu não consegue achar o caminho da paz.”
Aquelas palavras fizeram todo o sentido do mundo.
Nove dias se passaram desde o enterro. Era de manhã cedo, o cemitério estava vazio e silencioso. Ao caminhar pelo setor, vi uma figura solitária parada em frente ao túmulo de João Vittor. Era ela. A mãe.
Ela estava diferente. Usava um vestido simples, os cabelos presos. A postura ainda carregava uma dor imensa, mas o desespero selvagem do primeiro dia não estava mais lá.
Fiquei de longe, com medo de atrapalhar. Pensei em dar meia-volta. Um coveiro não deve invadir o luto íntimo de uma mãe. Mas senti um empurrão invisível no coração e caminhei até ela.
Parei ao seu lado com muito respeito, tirei o boné e falei em voz baixa. Disse que eu era o homem que havia feito o sepultamento do filho dela. Desejei meus pêsames, disse que era muito bonito vê-la ali cuidando do espaço dele, e afirmei que não podia nem imaginar o tamanho daquela dor.
Ela olhou para mim. Demorou um pouco, como se escolhesse as palavras. E, de forma surpreendentemente calma, começou a desabafar.
Contou que João Vittor havia morrido de meningite. Foi algo fulminante. Começou parecido com um resfriado comum, uma febre boba, uma dorzinha de cabeça, e evoluiu em questão de horas. Quando ela percebeu a gravidade e correu para o hospital, já não havia mais o que a medicina pudesse fazer.
Ela me disse que, durante toda a última semana, não conseguiu dormir, torturada pela ideia de que deveria ter percebido antes. Que deveria ter sido uma mãe mais atenta.
“Mas hoje cedo eu entendi”, ela falou, olhando para a terra onde o filho repousava. “Eu fiz tudo o que estava ao meu alcance com o que eu sabia naquele momento. Eu amei o meu filho em cada dia dos seis anos que ele esteve comigo. Eu lembrei do sorriso dele, das nossas brincadeiras. E eu entendi que a culpa não pode ser maior que o nosso amor.”
Fiquei ali, imóvel, sendo apenas ouvidos e presença. Abracei o silêncio para que ela pudesse esvaziar o peito. O choro dela agora era manso. Era o choro da saudade pura, livre das correntes da culpa.
Ela se abaixou com delicadeza, endireitou um vasinho de flores, tocou a lápide com carinho e se levantou. Agradeceu por eu ter parado para ouvi-la. Disse que precisava falar aquilo em voz alta para alguém. E, caminhando devagar pelo corredor de terra, foi embora.
Desde aquele dia, o túmulo de João Vittor mergulhou na mesma paz que repousa sobre o resto do cemitério.
Trabalhei lá até me aposentar. Enterrei centenas de pessoas. Vi lágrimas de todos os tipos. Mas nunca deixei de acender uma vela toda vez que passava por aquele cantinho específico.
A história desse menino e dessa mãe me ensinou a lição mais valiosa da minha vida. Me ensinou que o amor verdadeiro também significa saber soltar a mão na hora certa. Que não podemos acorrentar quem amamos à nossa própria dor, e que o perdão, especialmente o perdão a si mesmo, é a chave que liberta tanto os vivos quanto os que já partiram.
Nesta vida, precisamos ter a coragem de amar profundamente, e a força necessária para deixar ir, guardando no coração apenas a luz de quem um dia caminhou ao nosso lado.