9 ANOS DEPOIS NA EXUMAÇÃO.. EU ENCONTREI ALGO QUE NÃO DEVERIA ESTAR ALI | História de Terror Real
9 ANOS DEPOIS NA EXUMAÇÃO.. EU ENCONTREI ALGO QUE NÃO DEVERIA ESTAR ALI | História de Terror Real 
Trabalho como coveiro desde 1998, mas em 2001 enterrei algo que não deveria estar ali, algo que ficou escondido durante 9 anos. E quando descobri o que era, percebi porque é que aquele lugar nunca teve paz. O meu nome é Carlos Eduardo, tenho hoje 55 anos, comecei a trabalhar no cemitério municipal de Nova Londrina em 1998.
Tinha 27 anos na altura, era jovem e cheio de energia e não tinha medo de trabalhar com a morte. Até que chegou o ano de 2001. Foi no início de maio. Eu cheguei ao trabalho de manhã cedo. Era cerca de 7 horas. O supervisor passou-me a ordem de serviço. Era preparar uma cova na ala S, bloco 6, lote 42.
O enterramento estava marcado para as duas da tarde. O nome do falecido Souza Cardoso, de 49 anos. Peguei nas ferramentas e fui pro local. A ala S fica no fundo do cemitério. É um local tranquilo e com poucas visitas. A maioria dos túmulos por ali eram antigos. Gente que tinha falecido há anos e famílias que não vinham mais.
E quando comecei a escavar, Percebi que a terra estava dura e seca. Demorei cerca de 3 horas para terminar. Quando acabei estava cansado, mas era um cansaço normal, nada de mais. E quando eram cerca das 2 horas da tarde, a família começou a chegar. Não era muita gente, eram umas 12 pessoas no máximo. Gente simples, roupa escura, alguns a chorar baixinho, outros apenas a olhar para o chão.
O padre chegou e fez a cerimónia e rezou as orações. Tudo normal, tudo como sempre é. Mas percebi uma coisa, a família estava estranha. Não era aquela tristeza pesada que vemos nos enterros de quando a pessoa perdeu alguém que amava muito, que está destruída. Não era isso, era outra coisa.
Era como se as pessoas estivessem ali porque tinham de estar, mas não porque queriam. Ninguém se aproximava muito do caixão. Eles ficaram todos ali parados a uma distância, como se tivessem com medo ou nojo. Eu não sei explicar direito. Quando a cerimónia acabou e o padre foi-se embora, a família começou a sair devagar e em silêncio. Ninguém dizia nada, só iam embora.
Eu esperei que todos saíssem e aí comecei o meu trabalho. Foi aí que aconteceu. Na hora que a primeira pá de terra caiu em cima do caixão, senti uma angústia do nada. Uma angústia que subiu do peito paraa garganta, como se algo estivesse errado, muito errado. Eu parei por um segundo, respirei fundo e pensei: “Calma, Carlos, é só cansaço, tu só está cansado”.
E continuei a trabalhar, mas a sensação não passava, só piorava. E a cada pá de terra que lançava, aquela angústia aumentava. E aí começaram os arrepios. Arrepios que vinham do nada, em plena tarde, com sol ainda no céu. Eu nunca tinha sentido nada assim antes. Em trs anos de cemitério, nunca senti nada assim. Mas ali, naquele dia, naquele túmulo, tinha algo de diferente, algo que não estava certo.
Eu continuei o trabalho porque não podia parar e precisava terminar. Mas o meu corpo estava tenso, as minhas mãos suavam frio, o coração batia mais rápido que o normal. E quando acabei de cobrir a cova, coloquei as flores que a família tinha deixado e arrumei tudo direitinho. Todos já tinham ido embora e eu estava ali sozinho, sozinho com aquele túmulo e aquela sensação horrível no peito.
Já eram quase 6 horas da tarde, o cemitério ia fechar. Eu estava a pegar nas minhas ferramentas para ir embora quando ouvi passos e quando olhei para trás. Eu vi uma mulher a vir na minha direção. Ela estava sozinha, vestido preto, cabelo preso. Não era velha. Devia ter uns 40, 45 anos.
Mas tinha algo nela, algo jeito dela andar, na forma dela olhar, que me deixou desconfortável na altura. Os olhos dela eram estranhos. Não sei explicar direito, mas quando ela olhou para mim, senti um frio na barriga. Ela parou perto de mim, a cerca de 3 m de distância, me olhou, depois olhou para o túmulo que eu tinha acabado de fechar.
É o túmulo do Sousa Cardoso? Ela perguntou. A voz era baixa, calma, mas havia algo naquela voz que me arrepiou. Sim, senhora respondi. Acabei de terminar o serviço. O cemitério já vai fechar. Ela não respondeu, apenas ficou ali parada e a olhar para o túmulo. Depois ela deu uns passos para frente, aproximou-se da cova, parou bem na beira e baixou a cabeça.
E eu estava ali guardando as ferramentas para ir embora. E foi quando a ouvi a falar baixinho, sussurrando, tão baixo que eu quase não ouvia. Só consegui escutar algumas palavras. “Não merece paz”, disse ela. E continuou a falar mais coisas. eram palavras que eu não conseguia entender direito. Parecia uma reza ou uma oração.
Ela ficou ali uns dois minutos sussurrando com a mão direita estendida na direção do túmulo. Depois ela parou e levantou a cabeça. Olhou para o túmulo mais uma vez e depois ela virou-se e começou a andar em direção à saída. Quando ela passou por mim, não disse nada, nem olhou, só passou e foi-se embora. Eu fiquei ali parado e a vê-la ir embora.
E foi nesta altura que senti o ar mudar. Foi como se algo tivesse mudado naquele lugar. E de uma hora para a outra, o ar tornou-se mais pesado, mais difícil de respirar. Era como se a temperatura tivesse caído. O meu coração começou a bater depressa e as minhas mãos começaram a tremer e a suar frio.
Eu olhei para o túmulo e, pela primeira vez na vida, eu tive medo de um túmulo. Eu não pensei duas vezes, juntei as ferramentas rápido e saí dali. Eu andei o mais rápido até ao sala dos funcionários, guardei tudo, Peguei na minha mochila e fui embora. No caminho para casa, não conseguia parar de pensar quem era aquela mulher, o que ela tinha feito ali, o que ela tinha dito [música] e por eu tinha sentido aquilo tudo.
Quando cheguei a casa, não Consegui relaxar. Aquela sensação ainda estava comigo, aquele peso no peito e aquele medo que eu não compreendia. Eu demorei a dormir porque ficava pensando naquele túmulo e naquela mulher, nas palavras que tinha sussurrado. Eu ainda não sabia, mas aquele foi apenas o início. Aquele túmulo nunca ia ter paz e eu ia descobrir porquê. Os dias foram passando.
A primeira semana depois daquele enterro foi estranha. Eu não conseguia tirar aquilo da cabeça. Cada vez que passava perto da ala S, sentia um aperto no peito, mas não falei nada com ninguém. Pensei que ia passar, que era só impressão minha. Mas depois comecei a reparar numa coisa. Aquele túmulo nunca recebia visita.
No cemitério a gente conhece os túmulos que tem família. Tem pessoas que vêm todos os dias, todas as semanas, todos os meses e traz flores, acende uma vela, limpa lápide e conversa com o morto. A as pessoas vêem isso directamente, mas o túmulo do Souza Cardoso esteve abandonado desde o primeiro dia. Ninguém lá ia, nunca, e nenhuma vez.
As flores que a família deixou no enterro secaram ali mesmo. Ninguém veio trocar ou limpar nada. Isso já era estranho, mas há pessoas que são assim mesmo, enterra e não volta. Acontece, não é comum, mas acontece. Passaram duas semanas, três semanas, um mês. Eu estava a tentar esquecer naquele dia, mas não conseguia. Aquela angústia que senti, aquela mulher, as palavras que ela sussurrou ficaram na a minha cabeça.
Até que um dia, à hora do almoço, decidi contar aos outros funcionários. Estávamos todos na sala, eram seis, sete funcionários a conversar e falando disparates. Depois contei sobre o enterro da sensação estranha que tive e da mulher que apareceu no final e sobre as palavras que ela sussurrou. Alguns riram-se na hora. Ah, Carlos, tu está a ver fantasma agora? Você trabalhou demais nesse dia.
Eles zoavam e faziam piada. E até dei uma gargalhada juntos, porque no fundo também queria acreditar que era apenas impressão, que não tinha sido nada. Mas houve gente que não riu. O senhor João, que era coveiro mais velho, com cerca de 60 anos na altura, não falou nada. Só baixou a cabeça e ficou quieto e continuou a comer devagar, como se estivesse a pensar.
A dona Júlia, que trabalhava na limpeza, também ficou séria. Ela olhou para mim, mas não disse nada. Só abanou a cabeça levemente. Achei aquilo estranho, mas não perguntei nada. Voltei pro trabalho e tentei esquecer, mas as coisas estavam só começando. Foi cerca de dois meses depois que aconteceu o primeiro incidente. [pigarreia] O Marcos, que era coveiro também, estava a fazer manutenção na ala S.
Tinha ali um túmulo perto do Souza Cardoso que necessitava de reforma. Era a troca de placa e limpeza geral. Coisa simples. Eram umas duas da tarde. O Marcos estava a trabalhar tranquilo quando de repente sentiu um cheiro. Ele contou-me depois. disse que era um cheiro muito forte, muito mau, que parecia algo podre, algo em decomposição, mas era diferente, mais forte do que qualquer cheiro que ele já tinha sentido no cemitério.
E a gente que trabalha com a morte, conhecemos cheiro de corpo, conhece cheiro de cova velha, mas aquele cheiro, segundo o Marcos, era diferente, era pior. O pior é que o cheiro vinha da direcção do túmulo do Souza Cardoso. O Marcos parou o trabalho e olhou em redor, mas não não encontrou nada.
Não tinha nenhuma cova aberta, não havia nada de errado. O cheiro durou uns 8 segundos, forte, insuportável, e depois desapareceu de repente, como se nunca tivesse existido. Ele ficou ali parado e confuso, tentando compreender o que tinha acontecido, mas não conseguiu voltar a trabalhar em condições. Contou-me que passou o resto do dia com o corpo pesado, muito pesado, e com uma dor de cabeça que vinha de repente.
Do nada latejava, depois passava e voltava. Quando ele me contou que na sala dos funcionários, no dia seguinte, gelei, porque lembrei-me, lembrei-me daquele dia do enterro, daquela sensação, daquele peso. “Foi perto do túmulo do Souza Cardoso?”, perguntei. O O Marcos olhou para mim. Como sabe?” Eu contei-lhe. Contei tudo de novo.
O enterro, a mulher, as palavras, a sensação estranha. Ele ficou quieto e pensando. Depois disse: “Há algo de errado naquele lugar, Carlos. Senti, não sei que é, mas tem.” A partir desse dia, começámos a prestar mais atenção e descobrimos que não éramos só nós. A dona Júlia, a senhora da limpeza, tinha 58 anos na época.
Era uma mulher simples, trabalhadora, muito religiosa, sempre com o terço no bolso. Ela nunca tinha contado nada a ninguém. Mas depois que o Marcos falou do cheiro, ela resolveu contar também. Ela disse que há há uns seis meses ela estava a limpar a ala S. Era de manhã cedo, cerca das 8 horas ela ia varrendo, juntando as folhas secas e de repente ela sentiu um arrepio.
Arrepio forte, como quando se sente que tem alguém a olhar para si. Sabe aquela sensação? Ela deixou de varrer e olhou em redor. Não estava ninguém. O cemitério estava vazio. Ela estava sozinha. Mas a sensação continuava, a sensação de que algo estava ali observando muito perto. Ela tentou voltar a trabalhar, mas não conseguia. O arrepio só aumentava.
E, juntamente com o arrepio veio outra coisa, uma aflição, uma angústia no peito, como se algo de mau estivesse prestes a acontecer. E foi aí que ela viu um vulto. Ela disse que foi rápido, muito rápido, coisa de segundos. Mas ela viu, alguma coisa passou entre os túmulos, alguma coisa escura que não era sombra de árvore e nem animal.
Ela tinha a certeza que não era pessoa. E nesta altura a dona Júlia disse que sentiu uma pressão no peito, uma pressão forte, como se alguém estivesse a apertar, esmagando, e que ela não conseguia respirar direito. Ela largou a vassoura ali mesmo e não pensou duas vezes. Saiu a correr, veio direito para a sala dos funcionários.
Ela sentou-se e ficou ali a tremer e a suar frio. Não terminou o serviço nesse dia, não conseguiu e nunca mais quis limpar a ala s sozinha. Pedia sempre para alguém ir junto. Quando ela acabou de contar, fiquei em silêncio porque sabia que tinha algo de errado naquele lugar. E o pior é que não era sempre, não havia dia certo e nem hora.
Não era como estas histórias que a gente ouve por aí. Ali era diferente, acontecia quando menos esperava, de repente, do nada, e depois desaparecia como se nunca tivesse existido. Havia dia que a gente trabalhava na ala s e não sentia nada. Era tudo normal, tudo tranquilo, mas havia dia que era impossível ficar ali.
A sensação de angústia era tão forte que tínhamos que sair. E não éramos só nós. Alguns visitantes também começaram a aperceber-se. A administração do cemitério começou a receber queixas. Pessoas a dizer que tinham sentido cheiro mau na ala s. Pessoas a queixarem-se que a área parecia abandonada, suja, mal cuidada.
E a gente, a gente não sabia o que fazer, não podia dizer a verdade, não podia dizer: “Olha, há algo estranho a acontecer ali”. Iam pensar que éramos malucos, iam rir-se da gente. Assim, continuávamos a trabalhar, fazendo o nosso serviço e tentando ignorar, fingindo que era normal. Mas no fundo sabíamos a verdade, mas eles não sabiam o quanto era difícil trabalhar ali, sentir aquele peso, aquela presença e aquele medo.
Os anos foram passando e nada mudava. A ala s continuava assim e aquele túmulo continuava abandonado. E aquela sensação continuava ali até que chegou o ano de 2010 e tudo ia mudar. 9 anos se passaram desde esse enterro. 9 anos de 2001 até 2010. Nesse tempo, muita coisa aconteceu. Envelheci e fiquei mais experiente.
Tinha 30 anos quando enterrei o Souza Cardoso e agora tinha 39.Eu já tinha visto de tudo no cemitério, ou pelo menos era o que eu achava. Já tinha passado por tanta coisa que pensei que nada mais me ia assustar, mas enganei-me. Foi em abril de 2010, uma quinta-feira. Eu cheguei pro trabalho de manhã, eram cerca de 7 horas. Eu bati o ponto e fui para a sala dos funcionários tomar um café e conversar antes de começar a trabalhar.
Então o supervisor entrou na sala e chamou o meu nome, Carlos. Preciso de falar contigo. Fui ter com ele. Tinha uma pasta na mão. Era de documentos e formulários. Chegou um pedido de esumação. Ele disse: “Família Cardoso, Souza Cardoso, sector S, bloco 6, lote 42. O meu coração parou por um segundo.
A família pediu transferência dos restos mortais pro ossário. O supervisor continuou: “Preciso que seja feito hoje.” Eu fiquei ali parado sem saber o que dizer. Tem problema?”, perguntou. “Não, não, respondi rapidamente. Sem problema. Mas tinha problema. Tinha muito problema. Meu corpo inteiro já estava tenso só de ouvir aquele nome.
“A família vai acompanhar?”, perguntei. “Porque a regra é essa. Quando há esumação, tem de haver alguém da família presente. É obrigatório.” “Es avisaram que não vão poder vir”. O supervisor disse: “Enviaram autorização por escrito, está tudo aqui nos documentos, pode fazer sozinho”. Concordei com a cabeça. Eu peguei nos papéis e fiquei ali parado e olhando para os documentos.
Sousa Cardoso, nasceu em 1952, faleceu em 2001, 9 anos enterrado. E agora ia ter que abrir aquela cova. Voltei para a sala e terminei o café, mas não sabia a nada. Tentei conversar com os outros, mas não conseguia prestar atenção. A minha cabeça estava naquele túmulo. Deu meio-dia, 1 hora, 2 horas e não dava mais para adiar.
Peguei nas ferramentas e coloquei tudo o que precisava no carrinho e fui. O caminho até à ala S pareceu mais longo que o normal. Cada passo pesava. O meu coração batia mais depressa, as mãos suavam. “Calma, Carlos”, eu pensava. “Já fez isso mil vezes. É apenas mais uma esumação, nada de mais”. Mas eu sabia que não era verdade.
Quando cheguei ao túmulo e parei em frente, eu olhei para a lápide e vi aquele nome, Sousa Cardoso. Senti um arrepio, vendo aquelas flores velhas de plástico. Nenhuma vela, nada. 9 anos e ninguém nunca tinha visitado. Respirei fundo, Fiz o sinal da cruz. Vamos lá”, falei baixinho. Comecei a tirar as flores de plástico que estavam em cima do túmulo, velhas, sujas, desbotadas pelo sol.
Atirei tudo para o lado e comecei a tirar a primeira pedra da tampa. Foi nessa altura que aconteceu. No momento em que a primeira pedra saiu do lugar, senti a pressão. Voltou tudo de uma vez. Aquela pressão no peito, aquela sensação de que algo estava errado, muito errado. Era a mesma coisa que eu tinha sentido há 9 anos atrás, mas agora era mais forte, muito mais forte.
Parei, coloquei a mão no peito, o meu coração estava disparado. E depois veio aquele cheiro. Aquele era o mesmo cheiro que o Marcos me tinha contado, forte, podre, insuportável. Encheu-me o nariz e entrou na garganta. Dava vontade de vomitar e o frio, o meu corpo inteiro gelou. Fiquei ali parado, tremendo, com medo. Medo a sério. Pela primeira vez em 12 anos de cemitério, tinha medo de fazer o meu trabalho.
Pensei em ir embora, em voltar para a sala, em dizer ao supervisor que não ia conseguir, mas não podia. Eu tinha que fazer esse serviço. Então, fechei os olhos, juntei as mãos e rezei. Orei pedindo proteção e força para que Deus me ajudasse a terminar aquele trabalho. E pedi licença ao Souza Cardoso. Desculpa incomodar-te, falei baixinho, mas preciso de o fazer.
É o meu trabalho. Não te quero faltar ao respeito. Só quero fazer o meu trabalho e ir embora. Abri os olhos, respirei fundo, peguei no alavanca de novo e continuei. Tirei as pedras uma a uma. A pressão no peito continuava, o cheiro continuava, mas eu não parei. Tirei todas as pedras. A tampa do túmulo estava exposta.
Agora quando encaixei a alavanca na borda e comecei a forçar, senti que a tampa estava pesada, muito pesada. Normalmente conseguia tirar sozinho, mas naquele dia parecia que pesava o dobro, o triplo, como se algo estivesse a segurar ou impedindo. forcei até que a tampa cedeu e o caixão apareceu, aquela madeira escura já deteriorada em alguns lugares.
E quando abri o caixão, foi quando vi que tinha algo ali dentro juntamente com os restos mortais, algo que não deveria estar ali. Uma caixa. Uma pequena caixa de madeira. Estava enrolado em fita isolante preta, várias voltas de fita, como se alguém tivesse querendo selar aquilo muito bem. A caixa estava no meio do caixão, misturada com os ossos.
O meu corpo gelou porque aquilo não era normal. Eu nunca tinha visto nada assim. Fiquei ali a olhar, sem saber o que fazer. Foi nessa altura que senti como se tivesse algo a aproximar-se. Não era pessoa, tinha a certeza, era outra coisa, alguma coisa que estava a vir na minha direção. Devagar, muito devagar. A pressão no peito voltou mais forte, muito mais forte, como se alguém estivesse a apertar, a esmagar.
Eu não conseguia respirar corretamente e a dor, a começou a dor de cabeça. De repente, uma dor violenta, como se alguém estivesse martelando-me a cabeça por dentro. Levei a mão à cabeça e fechei os olhos. A dor era insuportável. Quando abri os olhos de novo, olhei em redor e foi aí que vi atrás da lápide do Souza Cardoso, algo que não deveria estar ali.
Eu via, mas não conseguia perceber o que estava a ver. Parecia uma pessoa, tinha forma de uma pessoa, mas não era. Era como olhar para alguém através de um vidro embaciado. forma estava ali, mas não era clara, não estava definida e estava a olhar para mim. Sentia, mesmo sem ver o rosto direito, mesmo sem ver os olhos, eu sentia aquele olhar em mim.
O meu corpo ficou paralisado, preso. Não conseguia mexer-me. As pernas e os braços não respondiam. Eu só ficava ali parado, olhando para aquela coisa. O cheiro tornou-se mais forte, insuportável. A dor na cabeça agravou-se, era como se a minha cabeça fosse explodir. A pressão no peito aumentou, não conseguia respirar. E foi aí que começaram as vozes.
Não era a voz de fora, não era alguém falando perto de mim, era de dentro, de dentro da minha cabeça. Como se alguém tivesse lá colocado as palavras e as tivesse plantado no meu cérebro. Ele não vai ter paz. A voz era estranha. Não era voz de homem, não era voz de mulher, era outra coisa. Distorcida, como várias vozes a falar ao mesmo tempo. Ele não vai ter paz.
E de novo, a mesma frase, repetindo e repetindo, eu levei as mãos à cabeça e apertei. Tentei fazer parar as vozes, mas não paravam. Só ficavam mais altas e mais fortes. E juntamente com as vozes vieram as imagens. Não eram imagens claras, eram flashes, pedaços, como o de um filme partido que passava demasiado rápido.
Eu vi o rosto de um homem a chorar e a gritar. Vi uma porta fechada e uma sensação de medo. Muito medo. Não percebi o que era. Não consegui compreender, mas senti. Senti o terror daquelas imagens, o desespero, a dor. E nessa altura lembrei-me desse dia, o dia do enterro, que ve anos atrás aquela mulher que apareceu de vestido preto e olhos estranhos e as palavras que ela sussurrou: “Tu não merece paz”, tinha dito ela para o túmulo.
E eu compreendi naquele momento, compreendi tudo. Aquela mulher tinha feito alguma coisa, alguma coisa naquele túmulo, alguma coisa com aquela caixa. E o que quer que ela o tivesse feito tinha funcionado durante 9 anos. Aquele lugar nunca teve paz. O que será que o Souza Cardoso tinha feito? O que ele fez de tão mau que alguém lhe fez isso depois de morto? As perguntas não deixavam de vir.
Eu não conseguia pensar direito. A dor na minha cabeça e as vozes só aumentavam. E aquela coisa atrás da lápide estava cada vez mais próxima. Senti que ela se estava a mexer e vindo na minha direção lentamente. Tentei mexer-me, tentei sair dali, mas não conseguia. O meu corpo não respondia. Era como se algo me estivesse a prender ali.
As vozes tornaram-se mais altas e continuavam a repetir: “Ele não vai ter paz. Ele não vai ter paz. Ele não vai ter paz.” A minha visão começou a ficar embaçada. Tive tonturas, náuseas, as as pernas ficaram fracas e eu caí. Caí de joelhos ali mesmo, do lado da cova aberto, as mãos no chão, a cabeça pesando, o corpo tremendo, o terror tomou conta de mim.
Era um terror que eu nunca tinha sentido na vida, pior que qualquer medo, porque era um medo de algo que eu não compreendia, era algo que não era natural. E a única coisa que eu consegui pensar em fazer foi rezar. Fechei os olhos, juntei as mãos a tremer e comecei a rezar. Pai nosso que estais no céu, comecei com a voz a sair trémula, fraca, santificado seja o vosso nome.
As vozes tentaram continuar, mas rezei mais alto. Venha a nós o vosso reino. Seja feita a vossa vontade. E Continuei a rezar com toda a força que me tinha, assim na terra como no céu. E pedi, pedi com toda a minha alma. Senhor, tira este mal daqui, tira este espírito daqui. Seja o que for, mande embora, por favor, em nome de Jesus. E aos poucos senti, a pressão no peito começou a diminuir lentamente, muito devagar, como se algo se estivesse a afastando.
O cheiro começou a desaparecer, ficando mais fraco, até desaparecer. A dor na cabeça começou a passar, as vozes começaram a ficar mais baixas e mais distantes até desaparecerem completamente. Abri os olhos lentamente, com medo do que ia ver. E quando olhei para trás, onde aquela coisa estava, não havia mais nada ali, pelo menos não da forma que estava antes, mas ainda sentia que algo ainda estava ali, só que mais fraco.
Dei-me conta que estava a segurar alguma coisa. Olhei para baixo e vi. Era a caixa. Ela estava na minha mão. Eu não me lembrava de a ter apanhado, mas ela estava ali na minha mão. Olhei para aquela pequena caixa e pesada, selada com aquela fita preta. O que tinha lá dentro, o que era aquilo. Pensei em abrir, em ver, mas algo dentro de mim gritou: “Não abras”.
E foi nessa altura em que surgiu a ideia de queimar. tinha que queimar aquela coisa, destruir, fazer desaparecer, fazer desaparecer. Não pensei em levar paraa administração, não pensei em mostrar a ninguém, não não pensei em nada além de me livrar daquilo o mais rapidamente possível. Levantei-me, as pernas ainda estavam fracas, mas Consegui manter-me em pé.
Olhei para o túmulo aberto, para os restos mortais do Souza Cardoso ali dentro. Desculpa, falei baixinho. Eu vou terminar o serviço. Vou levar-te ao ossário, como tem de ser. Mas antes, preciso de me livrar disso aqui. Larguei as ferramentas, deixei a cova como estava e fui para a parte mais isolada do cemitério, lá ao fundo, onde ninguém ia, onde ninguém via.
Peguei num pouco de mato seco que havia ali perto, ramos secos, folhas e fiz uma pilha pequena. Coloquei a caixa no meio e Tirei o isqueiro do bolso e acendi-o. O fogo pegou rapidamente, as chamas começaram a subir e a fita começou a derreter. Fiquei ali a olhar e a esperar, alimentando o fogo, lançando mais ramos, mais papel.
E foi nessa altura que eu senti. O ar ficou um pouco mais leve. A pressão que ainda estava no meu peito diminuiu mais, mas não desapareceu completamente. Ainda tinha algo, algo que continuava ali, só que mais fraco e mais distante, mas ainda estava ali. Fiquei até o fogo se apagar, até não restar nada daquela caixa, só cinzas.
E depois voltei para o túmulo do Souza Cardoso e terminei o serviço. Retirei os restos mortais, coloquei-o no saco apropriado e levei ao ossário. Durante todo o trabalho, aquela sensação continuou leve, como um peso no ar, como se algo ainda estivesse ali a observar. Mas não era mais aquele terror de antes, era outra coisa.
Nos dias seguintes, precisei de voltar à ala S para outros serviços. E cada vez que passava perto daquele lugar, sentia, mas não era assustador como antes, mas estava ali uma presença, um desconforto. Foi aí que eu entendi. Queimar a caixa tinha ajudado, tinha aliviado, mas não tinha resolvido tudo. Alguma coisa não queria ir embora tão fácil.
E foi nessa altura que decidi. Eu passei a rezar e a acender uma vela quando conseguia. Todas as vezes que vou fazer algum trabalho e passo ali, paro e rezo um Pai Nosso, uma Avé Maria e peço paz paraa alma do Sousa Cardoso. Senhor, dá paz a esta alma. Seja o que for que ele tenha feito. Seja lá porque lhe fizeram aquilo.
Dá paz e descanso. E faço-o até hoje, 15 anos depois. Cada vez que passo por ali, eu oro. Não sei se as minhas orações ajudam, mas às vezes quando estou ali a rezar, Sinto outra vez aquela presença, só que leve e não assustadora. Nunca descobri quem era aquela mulher, nunca soube o que ela tinha feito exatamente, nunca soube o que o Souza Cardoso tinha feito para merecer aquilo e acho que nunca vou saber.
Há coisas que a gente não vai compreender nunca. Mas eu sei uma coisa, alguns mortos transportam mais do que os seus pecados, transportam maldições. E maldições não morrem facilmente. Mesmo quando a gente tenta destruir, elas ficam, persistem. Hoje, quando vejo um enterro muito silencioso, uma família muito distante, presto atenção, porque às vezes o que está a ser enterrado não é apenas um corpo, às vezes há mais, muito mais.
E pro Souza Cardoso, onde quer que esteja agora.