AVISO DOS ANTIGOS: CAMINHO MISTERIOSO ONDE VOCÊ JAMAIS DEVE PISAR TARDE DA NOITE

AVISO DOS ANTIGOS: CAMINHO MISTERIOSO ONDE VOCÊ JAMAIS DEVE PISAR TARDE DA NOITE

O Vão agradece de coração a ajuda da Emí, do Osvaldo e do Ricardo, que acreditaram neste cantinho de histórias e deram força para que este canal seguisse em frente. Que Deus abençoe cada um dos vocês. E para quem também quiser ajudar o Votião a continuar a contar causos, é basta digitalizar o QR code aqui ao lado.

 Todo o apoio é bem-vindo e guardo-o no coração. Boa noite, minha gente. Café está no fogo e o votião do sertão chegou com causo. Senta-te aí. Hoje vou falar de estrada, não de uma auto-estrada com matrícula e GPS, de estrada de terra batida do interior, daquelas que não aparecem em mapa. Esse causo vem do interior do Maranhão, de Caxias, no leste do estado.

 Foi-me contado por seu lindo Omar Paz, camionista reformado, 73 anos, que fez o mesmo atalho durante 7 anos seguidos, e que só passados 7 anos descobriu que a estrada não existia desde 1962. Antes de começar, deixa já o like, minha gente, e subscreve o canal. Ativa o sininho e conta-me nos comentários de onde estás a assistir essa noite.

 Cidade e estado, interior, capital. Isso começou em 1984. O seu lindomar tinha 31 anos, estava h se no ofício de camionista, fretes de interior, mercadoria de pequena cidade para cidade pequena. Aquele circuito de estrada de terra batida que quem não a faz não imagine-se o tamanho que tem no Nordeste, a quantidade de concelho que só existe na prática porque há algum camionista disposto a entrar pela estrada vicinal sem asfalto com uma carga de 15 toneladas e sair do outro lado com o veículo inteiro.

trabalhava com camião próprio, um Mercedes-Benz velho comprado de segunda mão, mantido com aquele cuidado de homem que sabe que a ferramenta é o sustento e que ferramenta parada não paga conta. O troço entre Caxias e Colinas, cidades separadas por uns 140 km, parte pavimentado, parte terra batida. O seu lindo mar fazia com frequência.

 Havia a principal rota que todos usavam e havia um atalho menor na distância, maior em má qualidade de estrada que um camionista mais velho lhe havia ensinado anos antes. Quando a BR estava tomada de acidente ou de barro de chuva, o atalho compensava. A entrada era numa vicinal de terra depois de uma quinta com porteira pintada de azul, do lado direito de quem ia de Caxias para Colinas.

 Cerca de 40 km de terra batida, que atravessavam fazendas, atravessavam dois ribeiros com mata ciliar fechada e saíam numa pequena estrada que emendava com a vicinal principal uns 20 km antes de colinas. Sem matrícula, sem nome, só a porteira azul como referência. e o instinto de quem já foi algumas vezes como guia.

 O seu lindomar usou esse atalho cerca de 15, 20 vezes entre 1984 e 1991. Sempre funcionou, sempre chegou ao outro lado. O caminho tinha as mesmas referências, de cada vez: porteira azul, a descida íngreme, logo de seguida os dois riachos, o troço de cerrado fechado antes de abrir de novo a saída na vicinal principal. tão consistente que chegou a recomendar a outros camionistas como alternativa quando a O BR estava mau.

 Em 1991, numa conversa num posto de abastecimento de combustível em Caxias, o seu belo Omar descreveu o atalho para um motorista de uma empresa que fazia o mesmo troço. O outro ouviu com a atenção de quem está a mapear alternativa de rota na cabeça e no final perguntou: “Porteira azul depois da quinta do coronel Humberto?” Isso.

 O senhor Lindomar confirmou logo depois da placa de curva. O condutor ficou em silêncio por um momento. Tem a certeza que é azul? Desde sempre que uso. Eu passo por aquela quinta todas as semanas faz 4 anos. O motorista disse devagar. A porteira é vermelha, sempre foi. O seu lindomar deu uma curta gargalhada. Do jeito que a gente rifundiu. Não, home azul.

 Posso apostar? O condutor não apostou, ficou com uma expressão que o seu lindomar não esqueceu. Não de dúvida, não de discordância, de desconforto, como quem tinha outra coisa para dizer e estava a decidir se dizia. Na semana seguinte, o seu lindomar fez o trecho de novo. Procurou a porteira azul com a tensão deliberada, da forma que a gente olha para coisa que alguém disse que não existe.

 A porteira era vermelha, não tinta nova, não recente, vermelha com aquele desgaste que não vem de mês, que vem de ano. Porteira que estava vermelha há muito tempo. O seu lindomar parou o camião na berma da estrada, desceu, ficou a olhar para a porteira por um momento. Entrou pelo atalho na mesma, porque a referência era a quinta, não a cor, e a quinta era a mesma.

 Fez os 40 km de terra, chegou ao outro lado, tudo igual a sempre. Mas no regresso para Caxias, parou num armazém de beira de estrada para beber água e perguntou ao proprietário, homem de cerca de 50 anos que conhecia claramente cada detalhe daquele troço de chão sobre o atalho. Descreveu a entrada, a estrada vicinal, os dois riachos, a saída.

 O homem do armazém ouviu, ficou em silêncio por um tempo antes de responder. Este trecho que o senhor tá descrevendo passa pela antiga quinta da família Cassimiro. Pode ser, o seu Lindomar, disse. Não conheço o nome das quintas. A quinta do Cassimiro. O homem continuou com aquela voz de quem está dizendo coisa que preferia não ter de dizer. Foi abandonada em 1962.

Quando abandonaram, fecharam a estrada vicinal de acesso, deitaram terra, plantaram vedação em cima. Não há como passar por lá de camião desde então. Seu lindoar ficou a olhar para o homem, mas eu passo por lá há 7 anos. O homem do armazém não respondeu, apenas olhou de volta com aquela expressão quieta de quem vive no interior e que aprendeu que há coisas que acontecem naquele chão que não necessitam de explicação para serem reais.

O seu lindo Omar pagou a água. saiu, ficou sentado na cabine do camião com o motor desligado durante um tempo que não soube medir, olhando paraa estrada à frente, com 7 anos de atalho a correr na cabeça, com a porteira vermelha, com o homem do armazém, com aquela conta que não fechava e com a pergunta que levou a semana inteira a tentar responder se a estrada não existia desde 1962, que exatamente ele tinha percorrido 40 km dentro de cada vez durante 7 anos.

 O seu lindoar passou a semana seguinte tentando resolver o que não tinha como resolver de forma prática. procurou o mapa da região, os mapas rodoviários que existiam na época, papel dobrado de posto de abastecimento de combustível com as principais rodoviárias e vicinais desenhadas à escala que não captava os caminhos menores.

 O atalho não estava em nenhum mapa, o que era esperado, muitos atalhos de interior não estavam, não provava nada. Procurou a secretaria de obras do município de Caxias, perguntou sobre a viinal. O funcionário consultou o registo e disse que não havia nenhuma estrada vicinal registada naquele trecho desde os anos 60.

 Havia uma que tinha sido oficialmente encerrada, terra planada incorporada numa fazenda particular. “Qual quinta?”, o seu Perguntou Lindomar. “Cassimiro, o funcionário disse, sem ter de consultar de novo.” Voltou ao troço no dia seguinte, parou na porteira vermelha, desceu do camião, andou a pé pela estrada vicinal de entrada.

 Os primeiros 50 m, depois 100. A vi sinal estava lá. Terra batida, erva dos dois lados, o caminho aberto, como sempre. Voltou ao camião, foi até ao primeiro riacho. O riacho estava ali. A mata ciliar estava lá. A passagem estava lá. parou no meio do atalho, desligou o motor, ficou sentado na cabine em silêncio, ouvindo o interior do Maranhão em redor, o vento no cerrado, o canto dos pássaros do meio do dia, o motor a arrefecer com aquele estalo de metal que camião velho faz quando pára depois de horas a rodar.

 E foi então que se apercebeu da coisa que não tinha percebido em 7 anos de utilização daquele atalho. Não havia sinal de outro veículo, não marcas de pneus, não sumos de chuva que preservam rasto de rodado, não poeira levantada que indica a passagem recente. Terra batida, sim, mas batida de uma maneira, que não tinha a irregularidade de caminho utilizado com frequência, que não tinha os desvios de buraco que toda a estrada de interior adquire com o trânsito de carga.

 Era liso de uma forma diferente, liso como terra que não foi pisada, que estava ali, mas não estava a ser utilizada, exceto por ele. O seu lindo Omar ficou na cabine por um tempo longo, depois ligou o motor e foi até ao fim do atalho. Saiu na vicinal principal, como sempre saía, os 20 km antes de montes, tudo no lugar certo.

Só que desta vez, antes de pegar no vicinal, parou e olhou para trás. O ponto de saída do atalho, o troço onde a vicinal secundária emendava com a principal, estava fechado. Não com porteira, não com vedação, fechado com vegetação, erva alta, arbusto de cerrado, aquela cobertura que toma estrada abandonada no Maranhão, com a rapidez de quem está a recuperar o que é seu. Crescimento de ano, não de semana.

A saída que utilizara por sete anos já não existia do lado de fora. O seu belo Omar nunca usou o atalho de novo. Não por medo, era um homem de estrada longa e não era tipo de homem que evitasse caminho por susto. Mas porque na semana seguinte tentou entrar pela porteira vermelha e a vicinal dos primeiros metros tinha desaparecido.

 erva alta, arbusto, vegetação fechada, sem caminho visível, como se a estrada tivesse decidido que tinha terminado o que tinha para fazer e que não havia motivo para continuar a existir. Quando contou-me este causo, seu lindo Omar ficou em silêncio por um momento antes de dizer a última coisa. Eu carreguei mercadoria por aquele atalho 7 anos.

Cheguei dentro do prazo todas as vezes. Nunca atrasei-me, nunca me perdi, nunca tive problema. Assim, fosse o que fosse, não era coisa má. Era apenas um caminho que existia para quem necessitava e que deixou de existir quando não precisou mais. Interior tem disso. Por vezes, o chão abre passagem que o mapa desconhece e volta a fechar quando a passagem foi usada. Pausa.

 O que eu nunca compreendi foi uma coisa só, disse ele. Em s anos de atalho, não encontrei um veículo vindo em sentido contrário, nem uma vez. A estrada era só de ida. Nunca de volta para mais ninguém. Minha gente, o interior nordestino tem mais estrada do que mapa, mais caminho do que registo, mais passagem do que explicação. E de de vez em quando, segundo os mais velhos, há troço que o sertão abre quando alguém precisa e que fecha quando o necessidade foi cumprida, sem pedir licença, sem dar satisfações, sem deixar rasto suficiente para quem vem depois

confirmar que existiu. Às vezes o interior cuida de quem está dentro dele de formas que não pedimos e não entende, só recebe. Que Deus o guarde e os seus. O votião lê tudo o que vocês escrevem lá em baixo. Tem brasa no carvão, minha gente. E o próximo causo vem do interior do Maranhão, de um rezador respeitado, 35 anos de ofício, que do dia para a noite recusou todos os chamados, sem luta, sem explicação, sem doença, apenas disse: “Já não posso”.

 E o que viu no último atendimento que o fez parar para sempre é o próximo causo. Este causo vem de Balsas, no sul do Maranhão. Foi-me [pigarreando] contado pela dona Carminda, sobrinha do protagonista, hoje 68 anos, que acompanhou o tio de perto nos últimos anos de ofício e que esteve presente na tarde que mudou tudo.

 Antes de começar, ela disse uma coisa que ficou guardada. O meu tio era um homem que não recuava. O dia que recuou foi porque o que estava na frente dele era maior do que 35 anos de ofício. O tio chamava-se Rosana, o seu Rosana Veras, 70 anos em 1976, quando esta história acontece. Rezador de ofício desde os 30 e poucos.

 não de escolha deliberada, mas de chamamento, que era a forma como ele explicava quando alguém perguntava como tinha começado. Não fui eu que escolhi o ofício, foi o ofício que me escolheu. Dito sem arrogância, com aquela objetividade de homem que está a descrever facto, não se gabando de virtude. O Sr.

 Rosana atendia de tudo. Quebranto, mau-olhado, vento virado, espinhela caída, mal de inveja, criança que não parava de chorar sem causa médica identificável. atendia adulto, criança, animal, porque rezador do interior que se limita às pessoas e ignora bicho, é rezador que ainda não entendeu que o dom não pergunta à espécie de quem precisa, cobrava o que achava justo, que às vezes não era nada, e às vezes era um frango do campo, dependendo de quem estava à frente e do que havia disponível.

 Nunca mandou ninguém embora por falta de condição de pagar. Em 35 anos de ofício de 1941 a 1976, o seu Rosana não tinha recusado atendimento nenhuma vez. Carminda fazia questão de marcar esse ponto antes de tudo, 35 anos. Não tinha recusado criança com febre às 3 da madrugada. Não tinha recusado o homem bêbado que chegou sem hora marcada e sem respeito.

 Não tinha recusado o atendimento de uma mulher que os vizinhos coxixavam, que havia mandado o mal, que agora queria desfazer. Atendia sem julgamento, porque o dom não era dele, era emprestado. E emprestado não se guarda. Seu Rosana tinha um quarto separado no fundo da casa, onde fazia as rezas. Não era grande.

 Cabiam duas cadeiras, uma mesa pequena no meio, uma imagem de Nossa Senhora na parede, uma vela sempre acesa, nada mais. Carminda dizia que aquele quartinho tinha um silêncio diferente do resto da casa, mais fundo, mais antigo, como se o silêncio de 35 anos de oração se tivesse depositado nas paredes de Adobe e aí ficado acumulado com aquela consistência de coisa que passou a fazer parte da estrutura do lugar.

 Nas tardes de quarta-feira, que era o dia fixo de atendimento, Carminda ficava na cozinha, recebia quem chegava, servia café e água, organizava a ordem de entrada. Ouvia voz do tio nas rezas, não as palavras, que eram demasiado baixas, mas o ritmo, aquele ritmo cadenciado que conhecia desde criança, constante e regular como batida de relógio antigo.

Som que para ela era sinónimo de tarde de quarta, de varanda interior, de tudo o que era normal e esperado naquela casa. Numa quarta-feira de outubro de 1976, chegou o senhor Cícero Barroso, homem de 50 e poucos anos, agricultor de porte médio nos arredores de Balsas, que Carminda conhecia de vista, mas com quem nunca tinha trocado mais do que o cumprimento de passagem.

 chegou sozinho, sem avisar com antecedência, com aquela expressão de quem carregava algo há muito tempo e que tinha chegado a um ponto em que o peso era maior do que o orgulho de não pedir ajuda. Este tipo de expressão, Carminda reconhecia bem. Era a expressão mais comum que via nas tardes de quarta-feira. “O senhor Osana está a atender?”, Cícero perguntou. Ela disse que estava.

 Mandou entrar, serviu água, foi chamar o tio. O senhor Hosana saiu do quartinho, viu o Cícero na sala, cumprimentou com aquela cordialidade discreta de sempre e os dois foram pro cômodo dos fundos. Carminda voltou pra cozinha, ouviu o ritmo da reza começar, o som de fundo familiar, a cadência de sempre. Por uns 3, 4 minutos, tudo foi como deveria ser.

Então, o ritmo parou. Não foi o fim da reza, o fim tinha cadência própria que Carminda reconhecia tão bem quanto reconhecia o início. Foi parada abrupta no meio, o tipo que não tem finalização, que acontece quando alguma coisa corta o que estava em andamento sem avisar. O silêncio que veio depois era diferente do silêncio normal do quartinho, mais tenso, mais carregado, com aquela qualidade de ar que mudou de consistência sem que ninguém abrisse janela. Depois ouviu a cadeira raspar.

Passos, a porta do quartinho abrindo. Seu Rosana saiu com uma expressão que Carminda nunca havia visto no rosto dele em 40 anos de convivência. Não era medo. Ela pensou nisso depois e tinha certeza. Era aquela palidez específica de reconhecimento de quem acabou de ver alguma coisa que entendeu completamente e que preferia não ter entendido.

 Passou pela cozinha sem parar, foi até a varanda, sentou na cadeira de palha, ficou olhando pro terreiro com as mãos no colo e os olhos parados num ponto do horizonte que não tinha nada de especial. Carminda foi até a porta do quartinho, olhou para dentro. Seu Cícero Barroso estava sentado na cadeira do lado de lá da mesa, de cabeça baixa, com aquela postura de quem ainda estava esperando a reza continuar.

 Não havia nada visível diferente no cômodo. A vela acesa, a imagem no lugar, as duas cadeiras, a mesa pequena, as paredes de adobe, mas havia algo no ar daquele espaço que Carminda notou sem conseguir nomear. Não cheiro, não som. Uma qualidade diferente do ambiente, como quando se entra numa casa depois de briga séria.

 Não tem sinal visível de nada, mas o lugar guardou o que aconteceu e devolve para quem entra sem pedir permissão. Seu Cícero! Ela disse com cuidado. O senhor pode voltar amanhã? Meu tio não tá se sentindo bem. Cícero levantou a cabeça devagar, olhou para ela com uma expressão que ela descreveu assim quando me contou esse causo, muitos anos depois, com a precisão de quem revisitou aquele momento muitas vezes na memória, a expressão de homem que sabia que não ia ter outra tentativa, não de raiva, não de decepção, de quem já sabia antes de

chegar que podia não ter resposta e que a falta de resposta confirmava alguma coisa que ele não queria que fosse confirmada. saiu sem falar. Carminda foi até a varanda, sentou do lado do tio, ficou em silêncio por um tempo, porque havia aprendido em 40 anos de convivência que seu Rosana não era homem de forçar palavra antes da hora.

 Quando tinha alguma coisa para dizer, dizia quando estava pronto. Apressar esse processo era desperdiçar a conversa. Ficaram os dois em silêncio por uns 20 minutos, o terreiro quieto, o fim de tarde de balças ao redor, a vela ainda acesa no quartinho dos fundos. Então seu Hosana falou sem tirar os olhos do horizonte: “Não posso mais atender o Cícero.

 Por que, tio? Porque o que ele trouxe não é para mim resolver”. Carminda ficou em silêncio esperando mais. Comecei a reza, ele disse, mas no meio eu vi o que estava nele. E o que estava nele não entrou por descuido, não entrou por acidente, não entrou porque alguém quis o mal dele sem que ele soubesse. Foi convidado. E coisa que foi convidada não sai com reza de quem não entende o que foi convidado.

 Porque quem não entende o que está tocando carrega um pedaço de volta consigo quando sai. Ficou em silêncio por um momento. Sei rezar o que vem de fora, seu Rosana, disse por fim. Não sei desfazer o que foi pedido de dentro. E a diferença entre as duas coisas é tudo. Na semana seguinte, para a surpresa de Carminda, seu Rosana comunicou que ia parar com os atendimentos de forma geral, não por doença, não por cansaço.

 Estava bem de saúde para os 70 anos. disse simplesmente que o ofício havia chegado onde tinha que chegar, que 35 anos era tempo suficiente, que havia cumprido o que tinha para cumprir. Carminda não aceitou de primeira, não de forma confrontadora. Não era o tipo de sobrinha que contrariava tio mais velho com arrogância de geração mais jovem, mas havia crescido naquela casa, havia visto o ofício de perto por décadas e entendia melhor do que ninguém o que aquele trabalho significava pro tio.

 Não era só o que seu hosana fazia, era o que ele era. E pessoa que para de ser o que é sem explicação suficiente merece pelo menos uma tentativa de entendimento de quem está do lado. Tentou de formas diferentes ao longo dos meses seguintes. Tentou na conversa de varanda quando o assunto chegava perto, sem que ela precisasse conduzir.

 Tentou depois da missa, quando seu Rosana ficava mais expansivo do que o costume. sentou uma vez de forma direta, sentou do lado do tio numa tarde de domingo, olhou para ele e perguntou sem rodeio o que havia visto naquele cômodo em outubro de 1976. Seu Rosana ouviu a pergunta com aquela atenção de homem que dá o peso devido ao que foi perguntado.

 Ficou em silêncio por um tempo que Carminda não soube medir. Depois respondeu com o cuidado de pessoa que manuseia a palavra com responsabilidade, que sabe que palavra dita tem destino próprio e que destino de palavra errada não volta para quem falou pedir desculpa. Tem coisa que a gente vê que não deve colocar em palavra.

 Ele disse: “Porque palavra da forma e forma da força, eu vi o que vi naquele quarto. Fiz o que devia fazer, que foi sair. E não falar sobre o que vi também é parte do que devia ser feito.” Carminda ficou esperando. Mas posso dizer uma coisa, seu Rosana continuou. Naquele quarto, naquela tarde de outubro, eu entendi porque o dom tem limite.

 Não é fraqueza do rezador, é proteção para quem reza e para quem é rezado. Tem mal que se você tenta tocar sem saber o que é, você carrega um pedaço de volta com você quando sai. Esse pedaço não pede licença, não avisa que veio. Você só percebe depois, quando já está dentro. E o senhor sentiu alguma coisa antes de sair? Carminda perguntou.

sentiu o suficiente para saber que precisava sair antes de sentir mais. Ficou em silêncio por um momento longo. Depois disse a última coisa que disse sobre o assunto em toda a vida que lhe restou. Eu tinha 70 anos, tinha família, tinha sobrinha sentada do meu lado agora fazendo pergunta que se eu respondesse direito ia fazer mal para ela também.

Não era hora de carregar pedaço de coisa que não era minha e não é hora agora. Carminda entendeu, nunca mais perguntou. Seu Rosana parou de atender em novembro de 1976 e nunca mais voltou atrás. Nos anos seguintes, quando alguém chegava pedindo ajuda, indicava outros rezadores da região com quem tinha confiança, mas ele mesmo não.

 A porta do quartinho dos fundos ficou fechada, não trancada, não vedada, simplesmente fechada, com aquela definitividade silenciosa de espaço que cumpriu sua função e que foi encerrado com respeito. Carminda me disse que nos anos que se seguiram à tarde de outubro, ouviu histórias sobre seu Cícero Barroso, não de fonte única, de gente diferente, em momentos diferentes, sem que uma pessoa soubesse o que a outra havia dito.

 A fazenda de Cícero foi indo mal, não de uma vez, não de forma dramática, devagar, da forma que coisa podre por dentro vai se desfazendo sem que a superfície dê sinal imediato. morrendo sem causa clara, colheita que não vinha mesmo nos anos em que os vizinhos colhiam bem, funcionários que pediam dispensa sem explicar o motivo direito, como se houvesse algo no lugar que as pessoas sentiam antes de nomear e que quando sentiam iam embora, sem querer dar explicação que soasse como loucura em voz alta.

 Em 1983, Cícero vendeu o que restava da fazenda e foi embora de balças. Ninguém soube para onde. Nenhum vizinho, nenhum conhecido, nenhum dos que haviam trabalhado na propriedade. Sumiu da forma que pessoa some quando não quer ser encontrada ou quando o que está carregando não permite que fique num lugar com gente ao redor por muito tempo, sem que essa gente comece a sentir também.

 Carminda nunca descobriu o que Cícero havia feito, nunca soube o que havia sido convidado, por qual razão, com qual intenção original. Seu Rosana havia levado esse conhecimento consigo quando morreu em 1987, com 81 anos, lúcido até o fim, numa tarde de março, com o sol de balças entrando pela janela do quarto e Carminda sentada do lado, segurando a mão dele.

 Não havia mencionado o nome de Cícero Barroso uma única vez desde 1976. O que Carminda sabia era o suficiente. Sabia que o tio havia tomado a decisão certa naquela tarde, recuando no batente do quartinho, passando pela cozinha sem parar, sentando na varanda com as mãos no colo e ficando em silêncio com o que havia visto, até que fosse hora de falar o mínimo necessário e não uma palavra a mais.

 Sabia que 35 anos de ofício não são encerrados por fraqueza, são encerrados por discernimento, por aquela sabedoria específica de quem chegou à fronteira, do que é seu, e reconheceu a fronteira antes de cruzá-la sem preparo. A coisa mais corajosa que meu tio fez em toda a vida. Carminda me disse numa tarde em balsas, com o café esfriando na mesa entre a gente, não foi nenhuma das rezas que ele fez, foi a reza que ele não fez.

 Saber parar no meio com o que estava vendo do outro lado daquela mesa e sair sem tentar resolver o que não era para ele resolver. Isso é uma coragem que a maioria das pessoas não entende porque nunca esteve num quartinho com aquilo na frente. Ficou em silêncio por um instante. E que bom que nunca estiveram. Minha gente, dom. Sabedoria não é só saber o que se pode fazer, é saber o que não se deve.

 Seu Rosana Veras rezou 35 anos sem recusar ninguém. E quando chegou o dia que precisava recusar, recusou sem drama, sem anúncio, sem cerimónia de encerramento. Simplesmente fechou a porta do quartinho e não voltou a abrir. Isto não é fraqueza. É o tipo de discernimento que só vem de quem viveu o suficiente para saber onde fica a fronteira entre o que é seu e o que não é.

 Que Deus guarde si e os seus. O votião lê tudo o que vocês escrevem lá em baixo. Tem brasa no carvão, minha gente. O próximo causo vem do interior do Piauí, de uma família inteira que acordava toda a noite com aubio do lado de fora. Sempre depois da meia-noite, sempre do mesmo lado da casa. O pai proibiu todo o filho de responder.

 Durante semanas, ninguém respondeu. Até que o filho mais velho respondeu uma vez. E o que veio nas noites seguintes é o próximo causo. Esse causo vem de Simplício Mendes, no Piauí. Foi-me contado pela dona Naná, Antonieta, que ninguém chamava Antonieta desde o batizado, filha do meio do seu Feliciano Luz, que era o pai desta história.

 Dona Naná tem hoje 72 anos, vive em Teresina e quando me contou este causo, começou com uma frase que ficou guardada. Meu pai tinha razão em tudo o que proibiu. O problema é que filho de interior às vezes precisa de aprender da forma mais difícil. Isso aconteceu em 1965. O senhor Feliciano Luz tinha 46 anos. Agricultor, homem de família numerosa, cinco filhos, o mais velho com 19 anos e o mais novo com oito.

 Casado com a dona Teresa, mulher tranquila de palavra e firme de carácter, daquelas que não precisam falar alto, porque quando falam uma vez já foi dito tudo. viviam numa casa de Adobe, nos arredores de Simplício Mendes, a cerca de 3 km do centro, numa zona de roça que o senhor Feliciano trabalhava com os filhos mais velhos desde que tiveram idade suficiente para segurar enchada.

 O filho mais velho chamava-se Gilvan, 19 anos em 1965, altura de homem feito, com aquela mistura de força física e capacidade de julgamento ainda incompleto que os 19 anos do interior produzem, corpo que já pode tudo e cabeça que ainda está a aprender o que deve e o que não deve. O assubio começou numa segunda-feira de junho.

A Naná lembrava-se do mês porque era inverno no Piauí, a época em que chovia de verdade e em que as noites se tornavam mais fechadas, com aquela escuridão densa de noite de interior, que não tem iluminação pública e que fecha de vez depois das 8. A família estava dentro de casa, o senhor Feliciano na cadeira da sala, dona Teresa a costurar, os filhos nos os seus lugares, cada um com o que tinha para fazer àquela hora da noite.

 Por volta das 10, o açubio veio do lado nascente da casa. Nanad escreveu assim: “Não era um assobio de boca comum, era diferente, mais fino, mais comprido, com aquela nota que não desce nem sobe, fica no mesmo tom do princípio ao fim, como se quem estava a soviar não precisasse parar para respirar”.

 Seu Feliciano levantou-se da cadeira, ficou parado no meio da sala, a ouvir. O assobio veio de novo, mesma nota, mesmo lado, mesma duração. Gilvan foi até à janela. Pai, vou ver quem é. Não vai. O seu Feliciano disse com a voz que não discute, Gilvan parou, mas pode ser alguém a precisar de ajuda. Quem precisa de ajuda bate à porta e diz o nome.

 O pai disse: “Assobio de noite neste horário não é de pessoas que precisam de ajuda.” Gilvan ficou. O assubio veio uma terceira vez, depois parou. A família foi dormir. A Naná ficou acordada por um tempo, ouvindo silêncio depois do assubio. Aquele silêncio que parecia mais carregado do que o silêncio normal, como se o ar tivesse ficado diferente depois do som e não tivesse voltado completamente ao que era antes.

 Na terça-feira à noite, à mesma hora, o açubinio voltou. Mesmo lado, mesma nota, mesma duração. O senhor Feliciano não levantou-se da cadeira desta vez. disse para família toda, sem olhar de um rosto para outro, com aquela voz de quem está estabelecendo regra e [pigarreia] não abrindo para debate, ninguém responde, ninguém vai à janela, ninguém faz nada, ninguém fez nada.

 Na quarta-feira regressou, na quinta voltou, toda a noite, a mesma hora, mesmo lado, aquela nota que não precisava de respiração. Naná descrevia o som como o mais perturbador que já tinha ouvido. Não por ser alto, não por ser ameaçador, mas por ser paciente, como se quem estava do lado de fora soubesse que tinha tempo, que podia esperar.

 O seu Feliciano foi ter com o vizinho mais velho que conhecia, o senhor Honorato, 70 e tal anos. homem que o interior tinha formado com aquela mistura de experiência prática e conhecimento de coisas que não entram em livro nenhum. Contou o a subiu sem rodeios. O Seu Honorato ouviu, perguntou o lado leste, o seu Feliciano disse.

 O velho ficou em silêncio durante um momento. Não responde, não vai [pigarreia] à janela. Não faz gesto nenhum de reconhecimento. Finge que não ouve durante quanto tempo até parar sozinho. Coisa assim para quando se percebe que não vai ter resposta, mas para só se realmente não tiver nenhuma. O seu Feliciano voltou para casa com esta instrução e repetiu à família palavra por palavra.

 Proibiu a janela, proibiu resposta, proibiu tudo o que pudesse ser interpretada como reconhecimento de que o açubio tinha sido ouvido. Durante duas semanas, a família cumpriu. Durante duas semanas, o assobio veio toda a noite, paciente, regular, do mesmo lado, com a mesma nota que não precisava de respiração e que a Naná disse que começou a aparecer nos seus sonhos durante esse período.

 não de forma ameaçadora, de forma persistente, como o som que o ouvido ouviu repetições suficientes para memorizar e que a cabeça adormecida reproduzia-se sem pedir permissão. E então, numa sexta-feira de Julho, 14ª noite consecutiva, Gilvan respondeu: “A Naná disse que não foi de propósito, que foi reflexo. O assubio veio e antes que o julgamento pudesse agir, o corpo agiu.

 Silvan estava na cama meio a dormir e quando o assobio veio, assobiou de volta no mesmo tom, no mesmo comprimento, como quem continua no meio do sonho, uma conversa que já estava a acontecer. Silêncio. E depois o açubio voltou, mas diferente de todas as noites anteriores, mais perto, com aquela proximidade que não era de passo a aproximar-se, não era de pessoa que caminhava em direção à casa, era proximidade que [pigarreia] aconteceu sem deslocação, como se a distância entre o som e a parede da casa tivesse simplesmente diminuído, sem que

nada se tivesse movido para isso acontecer. Gilvan acordou completamente com o próprio som que tinha feito. Ficou sentado na cama no escuro, o coração acelerado, compreendendo o que tinha feito antes mesmo de a cabeça conseguir formular a extensão do problema. Do outro lado da parede, ouviu o pai. O senhor Feliciano havia acordado com o açobio de volta, o açubio mais próximo, que tinha passado pela parede da casa, com uma claridade diferente de todas as noites anteriores.

 Ouviu os passos do pai a levantar-se, atravessando o corredor. A porta do quarto de Gilvan abriu-se. O seu Feliciano ficou no batente. Não era necessário acender luz para saber qual dos filhos tinha respondido. Havia só um quarto de um filho homem mais velho naquele corredor e havia apenas um filho na casa com 19 anos e com a teimosia específica desta idade que faz com que o corpo atue antes da cabeça acabar de pensar.

 Você respondeu? O pai disse: “Não”, pergunta. Conclusão: Gilvanou. O senhor Feliciano ficou em silêncio no batente durante algum tempo que Naná, do quarto ao lado, mediu pela ausência de som. sem palavra, sem movimento, sem sequer o barulho de respiração pesada de homem que está a controlar a raiva, o silêncio completo, do tipo que é mais difícil de suportar do que grito.

 “Levanta-te”, ele disse por fim. “Vem comigo.” Os dois foram até à varanda. O seu Feliciano ficou de pé ao centro, Gilvan ao lado. Ficaram parados no escuro da varanda piauiense de Julho. Frio de Inverno, céu fechado de nuvem, o silêncio da lavoura em redor, que agora tinha uma textura diferente, como se o ar estivesse à espera de alguma coisa.

 O assubio não voltou naquela noite, mas voltou na seguinte, só que diferente, já não do lado nascente, apenas de dois lados ao mesmo tempo, leste e norte, com aquela sobreposição que faz com que a origem fique difusa, que o ouvido não consegue triangular de onde está a vir com precisão, e mais perto do que nunca tinha estado nas duas semanas anteriores.

 como se a resposta de Gilvan tivesse dado não só morada, mas também permissão de chegar mais. Seu Feliciano foi de volta ao seu honorato na manhã seguinte, desta vez com Gilvana ao lado, porque tinha julgado que o filho precisava de ouvir o que o velho ia dizer, sem intermediário, sem filtro pai, que suaviza o que é grave para não assustar quem já errou e que já está assustado o suficiente.

 Seu honorato ouviu a atualização com aquela imobilidade de homem que está confirmando o que suspeitava. ficou em silêncio. Depois olhou para Gilvan com aquela atenção directa de velho do interior que não usa rodeio, quando o rodeo seria desperdício de tempo que não há. Quando responde, disse, o senhor dá morada.

 Antes eras só barulho de casa no escuro para eles. Depois que respondeu, viraste o destino. Gilvan ficou quieto com aquilo. O que faz agora? O senhor Feliciano, perguntou. O seu honorato levantou-se sem pressa. Foi ao divisão dos fundos da casa, o tipo de cómodo que toda a casa de homem velho do interior tem, cheio de coisa acumulada de décadas, que não tem nome de coleção, mas que tem a função de guardar o que pode fazer falta na altura em que a gente menos espera.

 E voltou com um punhado de coisa que colocou na mão do seu Feliciano. de arroz benta, um pedaço de fita roxa e um papel dobrado com escrita que a Naná. Quando me contou, disse que o pai nunca o mostrou a ninguém da família. guardou-o no bolso ali mesmo na casa de o seu honorato e nunca mais tirou daquele bolso, a não ser para fazer o que precisava de ser feito.

 Três noites, o seu Honorato disse: “Põe no batente da porta de entrada e nos cantos do quarto do menino. Três noites seguidas, sem falhar uma, e o rapaz, o velho, olhou para o Gilvan de novo. O menino não responde mais nenhum assobio de noite enquanto viver nessa casa. Nenhum. Não importa se reconhece a voz, não importa se parece de vizinho, não importa se parece inofensivo, nenhum.

 Fizeram o que seu honorato mandou. Três noites com os objetos nos locais indicados, sem falhar, sem questionar o método, com aquela obediência prática de quem chegou num ponto em que já não tem posição para duvidar do que está a ser orientado. Na primeira [pigarreia] noite, o assobio vinha dos dois lados, como tinha vindo desde que Gilvan respondera.

 Leste e norte, sobreposto próximo. Na segunda noite, veio só do leste outra vez. Voltou para a origem, como se estivesse a recuar lentamente para o ponto de onde havia partido antes da resposta. Na terceira noite não veio. A Naná disse-me que ficou acordada até quase às 2as da manhã à espera, que o O silêncio daquela terceira noite tinha uma qualidade diferente de todos os silêncios anteriores, mais fundo, mais definitivo, com aquela consistência de coisa que se encerrou de verdade e não [pigarreia] só de coisa que

está a fazer pausa antes de voltar. A diferença entre os dois tipos de silêncio, o interior conhece e o interior ensina, mesmo que não tenha nome preciso para distinção, o assobio não voltou nunca mais àquela casa, nessas noites. Gvan ficou a viver no sítio até aos 23 anos, altura em que casou e foi para terreno próprio.

 Naqueles 4 anos que se seguiram ao mês de julho de 1965, nunca mais respondeu a Sobio de noite. A Naná disse que não era obediência ao pai, que depois daquelas três semanas, Gilvan já não precisava de instrução de ninguém. Tinha compreendido de dentro, da forma que nós entendemos quando experimenta a consequência antes de ter maturidade suficiente para a evitar.

 O que o pai tinha tentado ensinar antes que necessitasse de ser experimentado. O seu Feliciano morreu em 1989. Gilvan estava ao lado juntamente com Naná e os outros irmãos. No velório, quando a conversa entre os filhos chegou às histórias do pai, da forma que chega nestes momentos de varanda com café e madrugada a passar devagar, o episódio do assubio foi o primeiro que Gilvan trouxe.

 Nem com vergonha, nem com drama, com aquela seriedade tranquila de adulto, que olha para a decisão de jovem e que reconhece, sem precisar de muito, o preço que pagou pela aprendizagem e o quanto foi barato, tendo em conta o que poderia ter custado. O meu pai proibiu uma coisa e eu desobedeci. Giovan disse nessa madrugada com um copo de café na mão e os irmãos em redor: “E aprendi que quando o homem mais velho do interior proíbe sem explicar porquê, é porque a explicação piora o que está proibido.

” Porque quem sabe o porquê entende que o porquê é pior do que a proibição. E proibição sem compreender o motivo, assusta menos do que compreender o motivo. “Ficou em silêncio por um momento. O meu pai me poupou do motivo”, disse. E eu fui lá e procurei o motivo mesmo assim, que é exatamente o que faz um filho de 19 anos quando não devia.

 Minha gente, o interior tem regras que não vieram de código, não vieram da escola, não vieram de lugar que se possa citar em debate. Vieram de geração em geração, de gente que aprendeu da forma difícil e que passou a regra paraa frente para que o próximo não necessitasse de aprender do mesmo jeito.

 Assobio de noite no interior não se responde. Não porque seja superstição vazia, porque aviso que chegou com experiência suficiente para trás para ser levado a sério. O senhor Feliciano sabia, seu Honorato sabia. E Gilvan aprendeu do forma como aprendemos, quando a A sabedoria do mais velho não foi suficiente para segurar a curiosidade do mais jovem.

 Que Deus o guarde e os seus. O votião lê tudo o que vocês escrevem lá em baixo. Tem brasa no carvão, minha gente. O próximo causo vem do interior da Baía, de um homem e de uma égua que se conheciam há anos. Animal manso, sem histórico de problema, que de uma tarde para a outra se recusou a entrar num pasto específico.

 Todos os dias na mesma porteira parava e não passava. O dono tentou de tudo, a égua não passava. E o que encontrou enterrado naquele pasto meses depois é o próximo causo. Este causo vem do concelho de Itapicuru, no nordeste da Bahia. me foi contado por Deiro, filho do senhor Olavo Sampaio, o protagonista desta história, que estava presente em tudo o que vou narrar e que tinha 12 anos em 1979, quando isso aconteceu.

 Antes de começar, ele disse uma coisa que me ficou. O meu pai era um homem que não desperdiçava atenção. Quando prestava atenção a alguma coisa, era porque aquela coisa merecia. E quando a brisa parou no porteira, ele prestou atenção desde o primeiro dia. O Sr. Olavo Sampaio tinha 51 anos. Criador de gado misto, sitiante de médio porte, homem que crescera com animal desde que compreendia o mundo e que tratava o gado com aquela mistura de dureza prática e respeito genuíno que o interior usa.

 Não é afeto sentimental, é reconhecimento de que o animal bem tratado rende mais e dura mais tempo, e que esta simples verdade vale mais do que qualquer teoria que venha de fora. A égua chamava-se Brisa, 8 anos em 1979, Baahía com uma estrela branca na testa, que o senhor Olavo tinha comprado potrinha e criado desde o princípio, com aquele cuidado de quem sabe que cavalo bem formado vale o trabalho da criação.

Animal de temperamento equilibrado. Não era uma égua brava, não era uma égua nervosa, não era o tipo que espantava com sombra ou que necessitava de maneio especial. Era aquilo a que o vaqueiro chama de animal de confiança, que se monta sabendo o que vai encontrar do outro lado. O pasto sul era o mais pequeno dos três pastos da propriedade, uns [pigarreando] oito alqueires de terra boa, com sombra de aroeira no canto norte e com um bebedouro de cimento que o senhor Olavo havia feito 20 anos antes. Brisa pastava no

pasto sul regularmente. Havia ali pastado desde potrinha. Conhecia cada metro daquele terreno de cor. Em abril de 1979, numa segunda-feira de tarde, Delmiro [pigarreia] estava a ajudar o pai a trocar os animais de pasto: Rotação habitual, gado no pasto norte, égua e dois cavalos no pasto sul.

 Abriram a porteira do pasto sul. O gado entrou. Os dois cavalos entraram. Brisa ficou parada na porteira. O senhor Olavo picou o animal com o calcânio. O toque suave de quem não está a forçar, está a solicitar. Brisa não se mexeu. Plantou os quatro cascos com aquela firmeza que não é nervosismo, é decisão. Olhava para dentro do pasto com as orelhas em pé, o corpo em posição de alerta, sem tremer, com aquela rigidez específica de animal que está a processar algo que o humano ao lado ainda não captou.

Anda, brisa! O senhor Olavo disse em voz firme. A égua não andou. Ele desceu do cavalo que montava, pegou na Brisa pelo cabresto, tentou conduzi-la pela porteira a pé. Brisa recuou dois passos, não de medo, de recusa, com aquela distinção que quem lida com um cavalo reconhece sem ter de aprender em livro. Cavalo com medo recua e treme.

Cavalo que está a recusar, recua e fica firme. Brisa estava firme. Seu Olavo examinou o animal com cuidado, verificou as patas, verificou se havia algo no chão da porteira que justificasse a resistência. Olhou para o pasto à procura de cobra, de buraco, de qualquer coisa que o olho humano pudesse identificar como causa. Nada.

 Deixou brisa no pasto norte com o gado, foi verificar o pasto sul a pé. Percorreu toda a extensão, procurando o que o animal podia ter sentido. Não encontrou nada fora do lugar. Terra normal, pasto normal, bebedouro normal. Na terça-feira tentou de novo, brisa não entrou. Na quarta-feira, quinta, sexta-feira, a Brisa não entrou.

 Todos os outros animais entravam sem problema. Só brisa ficava na porteira, as orelhas apontadas para o interior do pasto, o corpo em posição de alerta, quieto, sem agitação e sem ceder. O Delmiro disse-me que havia algo no comportamento da égua que distinguia aquela recusa de qualquer comportamento animal que tinha visto antes.

 Não era medo, não era capricho, não era desorientação, era clareza. como de bicho que está perante algo que entende perfeitamente e que com base nesse entendimento tomou uma decisão que não vai reverter. No fim da segunda semana, o senhor Olavo fez uma coisa que Delmiro disse que nunca tinha visto o pai fazer antes. Foi perguntar paraa égua, não com palavra, com observação.

 Levou brisa na trela até ao porteira do pasto sul, abriu a porteira e, em vez de tentar fazer com que o animal entrar, ficou parado do lado de fora junto com ela, olhando para o pasto no mesmo ângulo que a égua olhava, tentando ver o que ela via. Brisa ficou parada com o focinho apontado para o canto sudeste do pasto, a zona mais afastada da porteira, a cerca de 70 m de distância, perto de um pé de jurema que ficava rente à cerca do vizinho.

 O seu Olavo ficou a olhar para aquele canto durante muito tempo. Não havia nada visível. Jurema normal, cerca normal, terra normal. Mas havia uma depressão no solo, pequena, quase imperceptível. O tipo que só aparece quando estamos procurando, quando o olho está calibrado para ver irregularidade de terreno. Uma área de cerca de 2 m², onde o chão estava ligeiramente afundado em relação ao meio envolvente, com aquele aspecto de terra que assentava diferente, que era mexida em algum momento e que não voltou a completamente ao nível do restante. O seu

Olavo ficou a olhar para aquela depressão durante um tempo longo. Havia comprado aquele sítio 8 anos antes, em 1971, de um homem chamado Seu Agripino, que estava a vender [pigarreando] para se mudar para Feira de Santana, onde os filhos viviam. Tinha comprado sem história, preço justo, terra boa, vizinhança sem problema.

 Nenhum comentário sobre aquele pasto, sobre aquele canto, sobre nada que precisasse de especial atenção, mas terra de interior guarda o que nela aconteceu, independentemente de quem comprou saber ou não saber. E animal que vive nesta terra por vezes sente o que foi guardado antes que o dono pense em procurar.

 Delmiro ficou ao lado do pai, olhando para o mesmo canto. Eram 2 m quadrados de terra ligeiramente afundada, perto de um pé de jurema, num pasto de [pigarreia] oito alqueir no nordeste da Baía, numa tarde de Abril de 1979 e brisa parada na porteira, apontando o focinho para exatamente aquele local, como tinha feito toda a tarde desde o início do mês.

 Parte um entregue aguardando confirmação para a parte dois com encerramento final. Preparado utilizando Claude Son 4. Se thinking siga causo 4 a égua que não entrava no pasto. Parte dois. O senhor Olavo ficou com aquilo durante três dias, a passear pelo sítio, a trabalhar, a dormir, mas com a depressão no canto sudeste do Pasto Sul, rodando na cabeça com aquela persistência de problema não resolvido, que é o tipo de coisa que o homem prático do interior suporta mal.

Havia algo naquele pasto que a égua sabia e que não sabia. E não saber o que o animal sabia era uma inversão da ordem natural das coisas que o incomodava de uma forma que não conseguia ignorar, por mais que tentasse preencher o dia com trabalho suficiente para não pensar. Na sexta-feira chamou Delmiro e os dois foram para o canto sudeste com enchadas.

 A terra afundada cedia diferente, não com a resistência normal de solo não mexido, mas com aquele leveza de terra que já foi remexida antes e que foi reposta sem a compactação que o tempo natural produz. Cavaram cerca de 40 cm. Encontraram uma lona de saco de serapilheira enrolada e atada com arame velho, escurecido de humidade e de tempo.

 O senhor Olavo parou, ficou olhando para o embrulho na cova por um momento sem tocar. Delmiro disse-me que o pai teve uma expressão naquele instante que nunca esqueceu, não de susto, não de curiosidade, de confirmação, como de homem que estava esperando encontrar alguma coisa e que ao encontrar sente menos surpresa do que reconhecimento.

Aquela sensação de conta que estava aberta e que finalmente apareceu para ser fechada. Vai buscar o senhor Valdemar”, disse o pai. O Sr. Valdemar era o rezador da região, homem de 70 anos, que lidava com este tipo de coisa. Fazia décadas com aquela expertise tranquila, de quem já viu o suficiente para não se surpreender com quase nada do que o interior produz.

O Delmiro foi, voltou com o seu Valdemar meia hora depois. O rezador olhou para o embrulho ainda na cova. Não tocou, ficou agachado, olhando com aquela atenção específica de quem está a avaliar antes de qualquer ação. Não pressa, não hesitação. A calma deliberada de quem sabe que o primeiro movimento importa.

Depois levantou-se devagar. De onde veio esse sítio? perguntou. Seu Olavo contou sobre o seu Agripino e antes de Agripino, o senhor Olavo não sabia. Tinha comprado a Agripino a história anterior nunca tinha investigado porque nunca tinha tido motivo para investigar. O seu Valdemar ficou em silêncio durante algum tempo, olhando para o canto sudeste do pasto, com aquele olhar que passa pela superfície e procura outra coisa.

 Isso não foi feito por Agripino disse por fim. Isso tem mais tempo do que 8 anos. Pelo jeito da terra, pelo jeito do arame, 10 anos no mínimo, talvez mais. Pediu que o senhor Olavo e Delmiro saíssem do pasto. Os dois foram até à porteira e ficaram do lado de fora. Brisa estava no pasto norte, a cerca de 50 m e o Delmiro disse-me que a égua ficou com o focinho virado na direção do Pasto Sul.

 Durante todo o tempo que o seu Valdemar esteve lá dentro, 40 minutos sem desviar a atenção, como o bicho que está acompanhando o processo, que entende, mas que não pode executar. O senhor Valdemar saiu do pasto com o embrulho na mão, ainda fechado, enrolado na estopa original. Não disse o que estava lá dentro, não disse o que tinha feito nos 40 minutos sozinho naquele canto. Disse apenas duas coisas.

Pode abrir o pasto amanhã, o animal vai entrar. E depois, já a ir embora pelo caminho de terra batida, terra de interior, guarda o que nela foi posto, mas também avisa quando quer que seja tirado. A égua foi o aviso. Ouviu na altura certa. Na manhã seguinte, o senhor Olavo levou brisa até à porteira do pasto sul.

 A égua parou na porteira, como tinha parado toda a tarde do último mês. As orelhas se levantaram, mas diferente das outras vezes, não em posição de alerta, não apontadas para dentro, com aquela rigidez de recusa, em posição de verificação do tipo que animal utiliza quando está a verificar se o que havia antes ainda lá está.

 Ficou assim por alguns segundos o focinho ligeiramente levantado, lendo o ar do pasto, com aquela capacidade que o bicho tem e que o homem perdeu ao longo de gerações de vida em lugar fechado. Depois entrou, foi direito ao canto sudeste, pastou a a cerca de 2 m da cova tapada, onde a terra estava nivelada de volta, a jurema do lado, acerca do vizinho ao fundo.

Bastou com aquela tranquilidade de sempre, sem hesitações, sem o menor sinal de que havia algo naquele canto que merecesse atenção. Delmiro ficou parado na porteira durante um tempo, olhando para a égua naquele canto, com 12 anos e com aquela observação de menino do interior que aprende mais vendo do que perguntando.

 Entendeu que tinha assistido a alguma coisa que não tinha um nome certo, mas que tinha sido completamente real do princípio ao fim. O embrulho na terra, a égua na porteira, o senhor Valdemar a sair com o pacote na mão e agora brisa a pastar no mesmo lugar, como se nunca tivesse acontecido nada. O senhor nunca perguntou ao seu Valdemar o que estava no embrulho? E eu perguntei ao Delmiro quando me contou este causo, muitos anos depois, numa varanda em Itapicuru, com o fim de tarde da Baía em redor.

 Perguntei, ele disse, uma só vez. O que é que ele respondeu? Disse que era coisa que tinha sido ali posta com intenção. A má intenção enterrada em terra tem efeito em tudo o que vive naquela terra. Gado, planta, colheita, família. Vai minando devagar, da maneira que raiz de árvore vai minando fundação de muro, sem que ninguém veja acontecer.

 A égua não entrava porque sentia o que estava embaixo. Animal sente antes de homem e sente com mais clareza. Porque não tem a parte da cabeça que nos convence de que o que está a sentir real. E o que fez o senhor Valdemar com o embrulho? Delmiro ficou em silêncio por um instante. Disse que tinha dado o destino certo.

 Não explicou mais do que isso. E o meu pai, que era um homem de pergunta direta quando queria saber alguma coisa, não perguntou mais. que quando o senhor Valdemar diz que deu o destino certo, é porque deu e porque o que vem depois desta frase não é informação que melhora a vida de quem recebe. O senhor Olavo faleceu em 2003. Brisa tinha morrido anos antes, com 15 anos, no mesmo sítio onde tinha passado a vida inteira.

 O Delmiro disse-me que o pai nunca mais teve qualquer problema naquele pasto sul, nem com animal, nem com colheita, nem com nada que crescesse ou vivesse naquele pedaço de terra, como se o que havia sido enterrado tivesse drenado alguma coisa do lugar ao longo dos anos, e que com a retirada o lugar tivesse voltado para o que era antes de alguém decidir usar aquele chão para guardar intenção que não era dele.

O que aprendi com isso? Delmiro me disse, levantando o copo de café da mesa da varanda. É que um animal de lavoura não é apenas ferramenta e não é apenas companhia. É parceiro que partilha o mesmo chão e que sente esse chão de formas que a gente ainda não aprendeu a medir. Meu pai sabia disso.

 Por isso, quando a brisa parou na porteira, ele não forçou. esperou, observou, foi perguntar paraa égua antes de ir perguntar a qualquer pessoa. Ficou em silêncio por um momento e a égua respondeu da maneira que bicho responde, sem palavra, sem explicação, só apontando o focinho para o sítio certo e mantendo-se firme até que alguém tivesse juízo suficiente para olhar para onde ela estava a olhar.

 Minha gente, bicho de roça não é decoração e não é só ferramenta. É um parceiro de trabalho que partilha o mesmo chão e que sente este chão de formas que ainda não aprendeu a medir. Brisa ficou na porteira durante um mês inteiro, não por medo da sombra, não por capricho de animal difícil, por aviso. E quando o aviso foi atendido, a égua entrou tão simples quanto isso, sem drama, sem cerimónias.

como se o trabalho dela tivesse sido cumprido e o assunto estivesse encerrado. O interior tem sabedoria que não está em livro. Está no comportamento do animal, no silêncio do mais velho, na depressão da terra que o olho treinado enxerga. Está em quem presta atenção antes de forçar, em quem ouve antes de decidir que não há nada para ouvir.

Minha gente, chegámos ao fim desta roda de causos. Quatro histórias, quatro pedaços de interior que gente de verdade viveu e que o Votião teve a honra de trazer até esta varanda que cresce toda vez que vocês aparecem aqui. A estrada que o mapa não sabia, o rezador que soube a hora de parar, o assobio que não devia ser respondido e a égua que ficou na porteira até que alguém tivesse juízo de olhar para onde ela apontava.

Histórias diferentes, mas com o mesmo fio por baixo. O interior ensina quem está disposto a prestar atenção e cobra de quem não está. Se este causo tocou em você, diga-me nos comentários. Se você tem um causo semelhante de animal que avisou, de lugar que não existia, de coisa que o seu pai proibiu sem explicar o porquê, manda cá para baixo.

 O votião lê tudo e por vezes o melhor causo da semana que vem vem do comentário da semana que passou. Inscreve no canal, ativa o sininho e envia este vídeo para alguém que cresceu no interior e que vai reconhecer cada pedaço do que foi contado aqui hoje. Boa noite, minha gente. Que Deus o guarde a si e aos seus. Até à próxima roda.

 

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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