Causos Que Os ANTIGOS Sempre RESPEITARAM… Quais destas coisas você já fez? | Pessoa Espiritual
Causos Que Os ANTIGOS Sempre RESPEITARAM… Quais destas coisas você já fez? | Pessoa Espiritual 
ou de casa, que Deus lhe dê sossego por dentro e sombra boa por fora. Aqui quem fala é: “Vou, teão do sertão.” Tem coisa que não grita para assustar, não. Ela só encosta na gente para lembrar que existe limite, existe respeito. Depois me diga de onde você tá me escutando e qual foi o sinal mais estranho que já viu na sua terra.
Primeiro causo. O café não espelha à toa. Aconteceu em Jucurutu, Rio Grande do Norte, no ano de 1962. Eu conto como me contaram, acredita quem quiser. Naquele tempo, o sertão estava de testa franzida, como quem segura a chuva no dente. O barro rachado parecia boca pedindo água e o povo vivia agarrado em costume, reza e promessa, que era o jeito de não desandar por dentro.
No fim da tarde, quando o sol se deitava por trás das cercas, era café coado e conversa miúda. Café ali não era só bebida, não. Era visita, era perdão, era notícia, era acordo feito sem papel. E foi justamente por causa de um café que o caos começou. Tinha um vaqueiro naquelas bandas chamado Bastião Casusa, homem de braço forte, mas língua atravessada.
Desses que não perdiam chance de alfinetar os outros, principalmente quem mexia com fé e cura. Dizia que benzedeira era invenção de gente sem trabalho, que oração era canto para enganar doente e que promessa era muleta de quem não aguentava a vida no peito. No povoado, quem benzia era a dona Madalena da Bica, uma velha pequena de corpo e grande de olho.
Morava perto de uma cacimba, num canto onde o vento sempre passava mais frio. Não era mulher de chamar atenção, só fazia o que sabia. calada e quando recusava atender alguém, recusava sem tremer. Tinha quem dissesse que ela lia a pessoa pelo jeito que pisava no terreiro. Bastião implicava com isso e implicava com gosto.
Numa manhã de feira, ele passou por dona Madalena e soltou alto para todo mundo ouvir, como quem joga pedra e quer aplauso. Reza, não enche pote. Quero ver é água caindo do céu. A velha não respondeu na hora, só encarou Bastião como quem mede um animal brabo sem levantar o chicote. Depois virou as costas e seguiu com a calma de quem não tem pressa de vencer discussão.
A tarde caiu e Bastião foi para casa com os amigos. Tinha a cachaça escondida e conversa de valentia, aquele riso que nasce mais do orgulho do que da alegria. A mulher dele, Luzia, ainda tentou segurar a onda. Hoje é dia de sossego, Bastião. Deixe a velha em paz. Ele deu de ombros e pediu café do jeito dele, como se café fosse ordem de mando.
Luzia coou. O cheiro subiu bonito, forte, daquele que abraça a cozinha. Só que quando ela foi despejar no bule, o líquido não caiu liso. Fez uma volta estranha, como se tivesse escolhido o caminho sozinho. Ela franziu a testa, mas não disse nada. Pôs a caneca na mesa. Bastião tomou o primeiro gole e fez careta. Tá com gosto de ferro.
Luzia provou da própria caneca. Para ela tava normal, quente e amargo como sempre. Ela quis responder, mas o olhar de Bastião já vinha afiado. Café é café. Tu que tá inventando coisa, mulher. Ele mexeu com a colher com força e a colher parou no meio da caneca em pé. Não caiu nem pro lado, nem para trás.
Ficou ali como se alguém segurasse por baixo. Bastião ficou um segundo sem rir. A mão dele gelou de leve, mas o orgulho veio primeiro que o medo. Truque de cozinha. Isso é o pó grosso. Ele bateu na borda da caneca. A colher caiu, o café ondulou e, por um instante, a superfície ficou lisa demais, lisa, feito espelho de água parada.
E naquele brilho escuro, Bastião viu uma coisa que não era para estar ali, um formato fundo, redondo, marcado, como pegada de casco. Ele piscou, tornou a olhar. A marca continuava bem no centro, como se o café tivesse guardado a pisada. Bastião empurrou a caneca para longe e forçou uma risada que saiu seca. Ô Luzia, tu tá querendo me botar medo com café agora? Mas por dentro alguma coisa nele já tinha entendido.
Naquela noite a cozinha não era só cozinha, o café não era só café. E do lado de fora, no terreiro, o cachorro de casa, que sempre latia para qualquer sombra, não latiu para nada. só sentou, olhando fixo pro escuro do quintal, e começou a chorar mingar baixinho, como se estivesse vendo alguém chegar sem fazer barulho.
Bastião tentou fazer de conta que era besteira, levantou a caneca e foi despejar o café no terreiro para quebrar encanto, como ele mesmo disse com deboche. Só que o café caiu no chão de terra batida e, em vez de sumir no pó, ficou ali um instante, formando uma roda escura, redondinha, com um miolo mais preto no centro, parecendo pupila.
A roda tremia de leve, como água parada quando o bicho bebe e se afasta. Luzia puxou a mão dele baixinho. Bastião, deixa isso. Tem coisa que a gente não cutuca. Ele puxou a mão de volta, nervoso. Agora tu virou medrosa também. Mas o jeito que ele falou não tinha firmeza, tinha pressa. Tinha aquele gosto ruim de quem percebeu que mexeu num trem sem tamanho.
Naquela noite, Bastião não quis mais café, quis cachaça. Achou que a bebida ia amansar a cabeça, só que a cachaça desceu e não esquentou. ficou fria no estômago, feito pedra de rio. E toda vez que ele passava perto da mesa, via a caneca vazia brilhando, como se ainda tivesse líquido lá dentro. Deitou, mas o sono não veio direito.
Quando cochilava, era pouco, era ruim. Sonhou com um curral escuro, as rees todas paradas, olhando para ele com olho de gente. E no meio do curral, um coador de pano pingava sem parar. Não era café, era um caldo grosso e preto que caía no chão e virava marca de casco. Acordou suado com a garganta seca, foi beber água do pote e a água tinha um gosto de ferro, o mesmo do café.
Aí ele sentiu um aperto no peito, não deença, de peso, como se alguém tivesse sentado no alto do coração dele sem pedir licença. No outro dia cedo, foi paraa Lida, tentando espantar o pensamento. A roça estava igual sempre, o sol subindo devagar, o cheiro de terra quente, o canto dos bichos. Mas tinha um detalhe: as vacas, que costumavam aceitar ele de perto se esquivavam.
O cavalo dele empinou sem motivo e puxou pro lado, como se visse coisa no vazio. Bastião chamou o vizinho que passava, um homem chamado Nicanor, sujeito de olho miúdo e fala doce demais. Meu cavalo tá danado hoje. Nicanor olhou pra cara dele e soltou feito com elho jogado no vento. Tem gente que amanhece com o corpo pesado e acha que é cansaço.
Às vezes não é. Bastião franziu a testa. Tá falando o quê? Nicanor deu um sorriso curto desses que não mostram dente. Nada não, só dizendo. E foi embora sem olhar para trás. Aquilo entrou em Bastião como espinho. Porque Nicanor era dos que viviam rondando conversa, ouvindo mais do que falavam.
E Bastião tinha tempos atrás feito pouco dele em público na feira por causa de um negócio de compra de bezerro. >> [limpando a garganta] >> tinha humilhado o homem sem necessidade, só para se mostrar maior. Na hora achou que era só brincadeira, mas palavra ruim não some não. Ela cria ninho. Bastião voltou para casa mais cedo, com a cabeça fervendo. Luzia percebeu no jeito dele.
Tu tá pálido. É o sol. Sol não deixa olho desse jeito. Ele mandou ela calar por vergonha, mas por dentro já estava ouvindo os próprios passos como se não fossem dele. No fim da tarde, quando a sombra começou a crescer no quintal, Luzia foi coar café de novo, por costume. Ela nem queria, mas casa de roça tem seus ritos e o café era um deles.
Quando o pó molhou no coador, veio um cheiro bom, só que por baixo tinha outro cheiro junto, um cheiro azedo, de coisa guardada úmida. O café caiu no bule e, dessa vez, formou na superfície um brilho liso, igual espelho de açude sem vento. Luzia chamou Bastião com a voz pequena. Vem cá. Ele chegou e olhou.
No espelho escuro do café, ele viu o próprio rosto, só que atrás do ombro dele tinha uma sombra. Não era sombra de parede, era sombra de gente parada, como quem observa. Bastião virou num golpe, pronto para xingar alguém. Não tinha ninguém. Quando voltou a olhar pro bule, a sombra também não estava mais. Mas o café no meio tinha a mesma marca redonda, aquela pupila preta olhando de volta.
Bastião empurrou o bule e o vidro bateu na madeira seco. Eu vou lá na Madalena. Luzia respirou aliviada, como quem ouve a primeira palavra certa depois de muita teimosia. Vai e vai com respeito. Ele atravessou o povo no fim de luz. [roncando] A casa de dona Madalena ficava num canto baixo perto da cacimba. Chegou e bateu palma.
A velha apareceu na porta. sem sorriso, sem raiva, só com o olhar firme. O que foi, Bastião Cazusa? O céu não caiu não, mas o senhor tá com cara de quem viu. Ele engoliu seco. Tem coisa estranha lá em casa. Ela respondeu sem pressa. Estranho é o senhor achar que pode falar do sagrado como se fosse poeira.
Bastião tentou retrucar, mas a voz falhou. Dona Madalena continuou. Eu não tiro mal de quem entra aqui com deboche. Primeiro você me diga quem foi que você feriu com a língua. Porque inveja não nasce do nada. Ela pega a carona na porta aberta. Bastião apertou a mão, lembrando do riso na feira, do olhar de Nicanor, da vergonha que ele fez o outro engolir. Ninguém.
A velha deu meio passo para trás e começou a fechar a porta. Então vá para casa com o seu ninguém e leve junto o que tá lhe olhando no café. Bastião segurou no batente desesperado. Madalena, pelo amor de Deus. Ela parou, mas não amoleceu. Volte quando sua boca souber pedir e antes de voltar, desamarre o nó que você fez no peito de alguém.
Senão eu rezo e o mal volta, porque a raiz continua enterrada. Bastião saiu dali com o corpo mais pesado do que entrou. No caminho de volta, o escuro parecia acompanhar o passo dele bem rente, como o bicho habituado a caçar devagar. Quando chegou a casa, Luzia já estava à porta esperando. Abriu a boca para dizer alguma coisa e do lado de dentro, a caneca vazia em cima da mesa deu um estalinho sozinha, como se alguém tivesse encostado a ela com uma unha.
E Bastião compreendeu que aquela noite ia ser cumprida. A noite caiu de vez. E Bastião ficou a andar pela casa como quem procura um lugar para pôr a cabeça e não acha. A Luzia acendeu uma vela perto do oratório e não disse palavra dura. Só olhou para ele com um cansaço de quem já avisou antes.
Ele tentou comer e não desceu. Tentou beber água e a água voltou com o mesmo sabor a ferro. O peito apertava num só ponto, como se alguém pusesse um peso mesmo em cima do coração e ficasse ali quieto, à espera ele admitir o que não queria. E depois, sem ninguém encostar, a caneca na mesa começou a suar por fora, como se estivesse cheia.
O Bastião chegou perto e viu no fundo, onde era suposto ter apenas barro e sombra, tinha um resto de café escuro, liso, redondo, aquele espelho de novo. Puxou a caneca e encarou-a. A superfície devolveu-lhe o rosto, mas não era o rosto de agora. Era ele na feira rindo alto, apontando o dedo, fazendo o outro engolir em seco. A lembrança veio tão viva que doeu mais que qualquer medo.
Mas no reflexo, atrás dele aparecia o rosto de Nicanor, parado, com os olhos demasiado abertos, sem piscar. Bastião virou-se de supetão. Não não tinha ninguém. Quando olhou de novo para o café, o espelho tinha mudado. Agora não era recordação, era uma coisa mais feia, a marca do casco mesmo no centro, como se alguém tivesse pisado dentro da caneca e deixado o peso.
No entanto, o pior não foi ver, o pior foi sentir. O peito dele afundou de uma só vez e o ar não entrou. Bastião levou a mão à garganta e caiu sentado, a puxar fôlego como peixe fora d’água. A Luzia correu e segurou o ombro dele, rezando baixinho, à maneira dela, sem teatro. E Bastião ali entendeu a primeira verdade daquela história.
Coragem não é peitar o escuro. Coragem é reconhecer a sua própria culpa. Por isso ele levantou-se como deu, pegou no chapéu e foi para a rua a meio da noite mesmo. Luzia tentou segurar. Deixe para amanhã. Ele não deixou. Se deixar, não acordo. A estrada até à casa de Nicanor parecia mais comprida.
O vento raspava nas folhas secas e as sombras das vedações se mexiam como se quisessem acompanhar. Quando chegou, bateu palmas com força. Nicanor abriu a porta devagar, sem surpresa nenhuma. Eu sabia que vinhas. Bastião engoliu o orgulho, o que restava dele, e a voz saiu partida. Eu vim pedir perdão ao forma como eu lhe tratei. Foi feio.
Eu diminuí-lhe para me achar grande. Nicanor ficou a olhar um tempo como quem pesa uma medida. Só que o olho dele não tinha alegria, tinha cansaço. Tinha um fundo escuro de quem já engoliu muita humilhação. Perdão é palavra que cura Bastião, mas não cura sozinha. Ela precisa de gesto. Bastião baixou a cabeça. Diga o que quer.
Nicanor deu um passo para fora e apontou para o rumo da feira, como se o caminho fosse uma sentença. Quero que diga isso onde se riu, à frente de quem ouviu. Porque o mal desta vida não é só a inveja, não é a vergonha que nós planta nos outros e pensa que morre no mesmo dia. Bastião ficou parado, sentir o peso no peito dar uma folga pequena, como se alguém afrouchasse um nó só para ver se ele ia cumprir.
Eu faço. No outro dia de manhã, o Bastião foi para feira. O povo estranhou quando ele subiu no batente da venda e pediu atenção. Ele não fez um discurso bonito, só falou simples com o olho baixo. Ofendi Nicanor sem precisão. Fiz pouco do homem e fiz pouco de mim também. Peço perdão a ele e a vós que tiveram de ouvir e peço a Deus que tirem-me essa língua má de dentro.
Teve gente que riu por costume, mas o riso morreu rapidamente quando viram que ele não estava a encenar. Depois disso, Bastião foi a casa da dona Madalena. Não bateu como quem manda, bateu como quem pede. Ela [pigarreia] abriu e ficou à espera que ele falasse. Bastião entrou e a primeira coisa que fez foi pedir bênção.
A velha deixou passar um silêncio, daqueles que limpam. Agora sim, a sua boca aprendeu a forma. Ela preparou o café na frente dele, forma mais comum do mundo, e, no entanto, parecia um ritual. Quando despejou no bule, o café caiu liso, sem volta estranha. Quando serviu na caneca, a colher caiu, como sempre cai.
Não ficou de pé, não espelhou. Dona Madalena apenas disse: “A inveja é como o pó fino. Entra pela menor fresta e a maior fresta do homem é o orgulho. Hoje você fechou uma porta. Trate de não abrir de novo. Bastião voltou paraa casa mais leve, não porque se tornou santo, mas porque tornou-se gente.
O cão naquela noite deitou-se sem chorar mingar. A Luzia dormiu inteiro como fazia tempo que não dormia. E a caneca? A caneca ficou. Ninguém partiu, ninguém o deitou fora. Ficou com uma pequena mancha no fundo, um círculo escuro que nunca saiu bem. Não era ameaça, era recordação. Porque o café não espelha à toa.
Quando espelha é porque há coisa dentro da gente a pedir acerto. Venha chegando devagar, que o segundo causo não começa por grito, começa com aviso. Aqui quem fala é o votião do sertão. E quem viveu em mato fechado sabe, nem tudo o que brilha é achado, por vezes é armadilha. Se já viu a natureza cobrar de mansinho, depois me conte, que estas histórias se entendem entre si.
Esse causo aconteceu emá, Bahia, no ano de 1971. O segundo caus mel preto, não é presente. Dizem que foi num juazeiro velho, perto de um cruzeiro de estrada, que um homem encontrou um grande enxame demais para ser apenas abelha e trouxe para casa um mel escuro que não era para ter sido mexido. Há lugar que a gente pisa e já se sente no calcanhar.
Ali tem regra que não foi escrita, mas foi vivida. Quem nasceu num sertão sabe, o mato não é só mato. Ele dá sustento, dá sombra, dá caminho, mas também tem a sua forma de dizer não. Em Uauá, na Bahia, no ano de 1971, vivia um homem conhecido por Zeca Dourado. Não era mau de coração, não. Era mau, era de freio, trabalhador, daqueles que acordam antes do sol e regressam quando o escuro já está sentado no terreiro.
Só que o Zeca tinha um defeito que cresce como mato em cerca abandonada. A sua mão era comprida para vantagem. Onde via a sobra queria pegar. Onde via abundância queria levá-lo. E melheiro que cheirava a doce. Naquelas bandas, o povo tirava mel com cuidado no tempo certo, pedindo licença, deixando parte para o enxame seguir vivo.
Tinha até um dito antigo que os velhos falavam sem ameaçar, só avisando: “Mel de oco velho não se toma à força. Abelha tem dono que ninguém vê”. Zeca ria-se disso. Dizia que o dono de uma abelha era conversa. Foi numa tarde de calor parado que viu o sinal pela primeira vez. regressava de uma lida, cortando o caminho por uma estrada de barro, e passou por um cruzeiro de beira da estrada, daqueles de madeira escurecida, cheio de fita velha e promessa esquecida.
Ali perto havia um juazeiro grande, tronco grosso, oco no meio, parecendo guardar água por dentro, mesmo na seca. O Zeca escutou um zumbido diferente. Não era aquele zumbido fino de abelha comum, não. Era grave, fundo, contínuo. Parecia que vibrava dentro do peito como tambor abafado. Ele parou, olhou para o juazeiro e viu o movimento.
A entrada do oco parecia respirar, indo e regressando com uma vida própria. Elha, entrando e saindo, mas não em alvoroço, num serviço calmo, organizado, como se soubessem exatamente o que faziam. Zeca sorriu. Na cabeça dele não era aviso, era achado. Chegou a casa e falou com a mulher Rita, já a preparar o bornal.
Amanhã volto lá cedo, há meler. A Rita franziu o rosto sem sabor a briga, mas com medo de pressentimento. Perto do cruzeiro, naquele juazeiro oco. O meu pai dizia para não mexer ali. Teu pai tinha medo a mais. Não é medo, Zeca, é respeito. Ele fez pouco caso. E quando fazemos pouco do respeito, o mundo costuma ajeitar-se de um jeito que a gente não compreende.
No outro dia, antes do sol aquecer de vez, o Zeca voltou com faca, pano, um fumo improvisado. Chegando perto do cruzeiro, o zumbido já estava à espera como se nunca tivesse parado. Ele acendeu o fogo para dar fumo e aproximou-se do oco. As abelhas não atacaram de imediato, apenas fizeram uma roda no ar lentamente, como que medindo o homem.
O Zeca achou aquilo bonito, achou aquilo fácil, meteu a mão, cortou um pedaço de favo da beira. Foi aí que o cheiro subiu. Não era só doce, tinha um fundo de ferrugem e uma coisa azeda de fruta passada no chão. O Zeca puxou o favo e viu o mel a escorrer grosso, quase preto, com um brilho oleoso que não parecia de mel verdadeiro.
Ele devia ter parado ali. Devia ter deixado o favo quieto e ido embora. Mas a ganância não escuta conselhos. O Zeca lambeu a ponta do dedo. No início foi doce, bonito, mas logo a seguir veio um amargo que agarrava no fundo da língua como se tivesse raiz. Cuspiu para o chão e esfregou a boca na manga, só que a sensação ficou.
Era como se o mel tivesse criado uma película no céu da boca dele, uma camada fina que nem água tirava. Mesmo assim, encheu um pote e, antes de se ir embora, olhou para o Cruzeiro e soltou uma frase estúpida: “Dessas que o orgulho fala quando quer mostrar-se maior que o mundo. Se tem dono invisível, que venha cobrar.
” Regressou a casa antes do meio-dia. Rita abriu o pote e recuou no cheiro. Isso tá demasiado escuro. É mel forte. Vale mais. De tarde, o Zeca já sentiu o corpo amolecer. As pernas pesaram, a nuca aqueceu, um cansaço estranho tomou o peito. Achou que era sol, achou que era lida e deitou-se. Quando a noite chegou, acordou com a boca seca e aquele sabor a ferro a voltar, misturado com o mau doce do mel.
Levantou-se para beber água e percebeu outra coisa. O silêncio da casa era diferente, não era sossego, era como se o ar tivesse ficado cheio. E de algum local muito baixo, começou um zumbido. Não do lado de fora, de dentro. O Zeca parou no meio do quarto, a olhar para o teto de palha, tentando perceber de onde vinha.
O som parecia viver nas paredes, correndo por detrás da madeira, entrando pelos cantos como se toda a casa fosse um ninho. A Rita chamou com a voz pequena. Zeca, estás a ouvir? Ele respondeu sem coragem para mentir. Tô. E o zumbido devagarinho foi aumentando, como quem se aproxima sem pressa, porque sabe que a noite é longa.
O zumbido foi crescendo e o Zeca começou a andar pela casa como quem procura o dono do barulho. A Rita ficou no canto com as mãos apertadas no avental, a olhar para o teto de palha como se esperasse cair alguma coisa. Zeca bateu com o cabo da faca numa das ripas. Deve ser enxame a querer entrar. Amanhã fecho essas fras.
Mas enquanto falava, o som mudou. ficou mais grave, mais fundo, como se não viesse do alto, e sim de dentro das paredes, por detrás do barro, correndo igual bicho miúdo em rumo certo. Mas não apareceu uma única abelha. Ele tentou dormir e não conseguiu. Quando fechava o olho, via o oco do juazeiro por dentro, escuro e a brilhar como garganta de bicho.
A boca continuava com aquela película e a água não limpava. A Rita fez chá de folha de laranjeira, fez rea baixinha, mas o mal-estar só aumentou. A meio da madrugada, o Zeca levantou-se de novo, dirigiu-se à varanda e aí viu que a noite estava mais pesada do que devia. O ar parecia melado, pegando na pele. O cruzeiro da estrada, lá longe, mal aparecia, mas era como se o escuro apontasse para ele.
Porém, o que assustou mesmo foi o pote. O pote de melando por fora. Uma gosma preta escorria lentamente pela borda, mesmo com a tampa bem fechada, e pingava para o chão. E o cheiro, o cheiro era mais forte, com ferrugem e fruta podre misturados, fazendo o estômago revirar. A Rita se aproximou-se, fez menção de tocar e o Zeca puxou o pote para junto de si, como quem protege tesouro.
Não mexa, isso vale dinheiro. Ela olhou para ele com uma tristeza que não tinha raiva. Vale, é doença. O Zeca ia responder, mas não houve tempo. No tecto, sem vento nenhum, a palha fez um estalinho curto, depois outro, depois um terceiro mais comprido, como se alguém arrastasse unha por cima. O Zeca pegou na candeeiro e levantou-se e viu.
Não era a abelha a entrar, nem bicho se escondendo. Era uma orla escura se formando na fenda entre a parede e o tecto, muito devagar, igual cera sendo puxada. e esticada, uma linha preta, grossa, viva, que crescia sem pressa, tapando a passagem como quem fecha uma boca. Por isso, o Zeca deu um passo para trás.
A cabeça rodou, a vista deu uma falha e o peito apertou. O zumbido veio mais perto, como se se tivesse ajeitado dentro dele. A garganta queimou e ele sentiu a língua pesada, pegajosa, como se ainda tivesse mel nela. A Rita correu paraa porta e abriu, querendo chamar alguém, mas quando abriu, parou. A voz não saiu.
Do lado de fora, no terreiro, não havia movimento de bicho nenhum, só um monte de sombra à volta da casa, como se o escuro tivesse engrossado. E ali, na madeira da porta, mesmo no batente, já tinha uma mancha de cera preta acabada de colar, com o mesmo brilho oleoso do mel. O Zeca tentou rir por costume de não se render, mas o riso saiu fraco. É, é só cera, é só abelha.
Só que não vinha nenhuma abelha com asa a bater, não vinha revoada, não vinha ataque. Era pior, porque parecia inteligência, parecia serviço. A cera foi subindo pela porta devagar, fechando frestinha por frestinha, sem pressa nenhuma, como se alguém do lado de fora estivesse trancando a casa por dentro.
Rita começou a chorar baixinho. Zeca, a gente tá a ficar preso. Ele puxou o machete e cortou a cera na porta. A lâmina entrou, mas o corte não abriu como devia. A cera colava-se ao metal e puxava de volta elástica, teimosa, como carne de bicho. O Zeca sentiu o medo a morder o orgulho.
Foi aí que bateram, no lado de fora, não à porta. Três pancadas no barro da parede, perto do canto, espaçadas. Não era vizinho a chamar, não era gente a pedir entrada, era como se fosse aviso. O Zeca gelou. Quem está aí? Ninguém respondeu. As pancadas vieram de novo, um pouco mais para o lado, como se alguém andasse por fora sem pisar o chão. A Rita agarrou-se no braço dele.
Por amor de Deus, Zeca. Ele não sabia o que fazer. E homem quando não sabe, costuma escolher o pior, insistir no erro. Pegou no pote, abriu a tampa e falou para a noite num desafio que já não era valentia, era desespero. Se quer cobrar, cobre logo. Na mesma altura, o pote borbulhou. O mel preto levantou um fedor quente e o zumbido explodiu dentro da casa, tão alto que pareceu fazer as paredes tremerem.
O Zeca sentiu uma ânsia subir e o corpo dobrou. E no vómito que veio não saiu comida. Saiu uma gosma escura, espessa, com brilho de óleo caindo no chão, como se fizesse parte daquele mel. A Rita gritou pelo vizinho, pela santa, por qualquer força. E como se o destino esperasse pela hora certa, o velho delegado Valdemar, que vivia duas casas depois e tinha ouvido o barulho, apareceu no terreiro com uma lamparina na mão.
Ele olhou para a porta a ser tomada de cera e não fez pose de autoridade. Só disse baixo, como quem fala com uma coisa que merece cuidados. Rapaz, mexeste onde não devia. O Zeca tentou explicar, mas a língua embolou. Valdemar não entrou, nem se aproximou demais. só apontou com o queixo para o pote e falou: “Aquilo ali não é luta de facas, é acerto.
Amanhã, antes do sol abrir a vista, você vai levar esse mel de volta para o lugar que tirou e vai pedir licença com a boca limpo, senão esta casa vira colmeia” e vocês viram criação.” O Zeca olhou para o teto e viu a linha preta crescer mais um palmo. E compreendeu tarde demais que a mata não cobrava à pressa, ela cobrava com certeza.
E nessa madrugada a cera começou a fechar também. A última janela O Zeca passou o resto da madrugada sentado no chão, encostado à parede, com a Rita abraçada a ele e o zumbido comendo o silêncio. A cera já tinha tomado as beiradas da janela e a parte inferior da porta, como se a casa estivesse a ser embrulhada devagar. Não era um ataque de bichos, não era revoada.
Era um cerco quieto de quem tem tempo. O delegado Valdemar ficou do lado de fora, vigiando sem entrar. De vez em quando dizia alguma coisa para não deixar o medo crescer mais do que precisava. Não fique a bater faca nisso, não. Há coisa que não é para enfrentar, é para acertar. Quando o primeiro clarão do dia riscou o céu, o zumbido diminuiu um tantinho, como se a noite tivesse recuado apenas para respirar. A cera deixou de crescer.
A casa ficou ali trancada pela metade, igual bicho que segura a presa sem terminar de engolir. Valdemar chamou Zeca à porta pela fresta que ainda tinha. É agora. Pegue no pote e vá com a boca certa. O Zeca pegou no pote com as duas mãos. O mel preto no interior parecia mais pesado do que ontem, como se não fosse líquido, fosse vontade.
[pigarreia] A Rita quis ir junto e Valdemar deixou. Melhor. Palavra de mulher às vezes abre caminho. Eles foram pela estrada de terra batida, ainda com o dia nascendo, o povoado calado, só um ou outro cão a olhar. O cruzeiro apareceu no rumo escuro contra o céu claro, e o juazeiro perto dele estava do mesmo jeito, grande, oco, quieto, sossegado demais.
O zumbido ali era baixo, como se estivesse a dormir com um olho aberto. O Zeca parou a uns passos. A garganta dele ainda tinha aquele mau sabor e a a vergonha pesava mais que o pote. Rita encostou a mão ao braço dele. Fale certo, não é tempo de valentia. Respirou fundo e, sem levantar a voz, falou para o juazeiro e para o morasse ali, visível ou não. Eu vim devolver.
Eu mexi no que não era meu. Eu peço licença e peço perdão. Eh, foi simples, mas foi de verdade. E verdade tem um som que o mato escuta. Mas mesmo assim nada aconteceu de imediato. Não houve vento, não houve trovão, não houve luz, apenas um silêncio mais limpo, como se o mundo estivesse à espera do próximo passo.
Porém, quando o Zeca se aproximou do oco, ele viu uma coisa que fez o peito dar um pulinho. Na borda do buraco, mesmo na madeira escura, tinha uma mancha oleosa, preta, igual o brilho do mel. Era como se o juazeiro tivesse deixado um aviso de que se lembrava. Valdemar falou baixo, sem mandar.
Não derrame de qualquer jeito. Devolva como quem entrega algo de volta ao dono. O Zeca abriu o pote. O cheiro a ferrugem subiu forte. Ele sentiu o estômago embrulhar, mas aguentou. deitou o mel lentamente no pé do juazeiro, sem espalhar com o pé, sem cuspir, sem riso. O mel caiu grosso e foi entrando na terra como se a terra bebesse.
E o Zeca percebeu que nem formava poça, desaparecia. Por isso, ele compreendeu. Aquilo não era meler, era coisa que voltava para o lugar de onde não devia ter saído. Rita, [pigarreia] com cuidado, atou uma fita clara no cruzeiro, da maneira que o povo fazia. quando queria deixar pedido e também respeito. Não era uma grande promessa, era apenas um gesto dizendo: “Aprendemos”.
Só que na altura em que o último fio de mel desapareceu no chão, o zumbido aumentou um segundo, como se alguém respirasse fundo, e depois apagou de uma vez como candeeiro quando falta óleo. O Zeca ficou parado à espera do resto. Nada veio. Nenhuma abelha atacou. Nenhuma sombra apareceu.
Só um canto de passarinho ali longe, como se o dia tivesse voltado a ser dia. Eles voltaram para casa e aí foi que viram. A cera na porta e no janela, que antes era teimosa e viva, estava seca, quebradiça, como casca velha. Valdemar encostou a ponta do facão e a cera soltou-se em placas, caindo no chão feito escama. Por dentro, o ar da casa parecia mais leve, como se alguém tivesse aberto as janelas por dentro do peito.
A Rita entrou primeiro com cuidado. Zeca entrou depois e foi direito à mesa. A boca dele ainda tinha a película, mas já não colava tanto. Ele bebeu água do pote e, pela primeira vez em dias não sentiu ferro, sentiu água. Valdemar ficou à porta e falou sem cara de sermão: “A floresta dá sustento, mas não é feira de graça.
Quem apanha demais paga com o que tem por dentro. E o pior pagamento é perder o sossego. Zeca assentiu com a cabeça baixa. Não pediu desculpa com barulho. Só mudou o jeito. Nos dias seguintes, não entrou mais sozinho em Oco Velho, não. Quando foi voltar a tirar mel, foi no tempo certo. Deixou parte para o enxame e antes de cortar falou baixinho, como quem conversa com o invisível, com licença.
E aquela casa ficou com marca. No batente da porta. Onde a cera tinha pegado, ficou uma mancha escura que não saía com água nem com sabão. A Rita dizia que era para recordar. O Zeca não discordava. Tem lembrança que é bênção disfarçada, porque o mel preto não é presente e a mata cobra devagar.
Mas cobra? Agora se você pensa que só mata fecha a conta, eu lhe digo, há noite que faz serviço dentro de casa. O próximo causo aconteceu em Pombal, Paraíba, no ano de 1986. E terceiro causo, há rede que vira armadilha. Dizem que um homem passou a acordar cansado como se trabalhasse a dormir, até compreender que nem todo o peso vem das costas.
Naquele tempo, o Pombal tinha uma rua de pó, um quintal de cerca baixa e um açude ali perto. Daqueles que quando o vento passava por cima, parecia que a água coxixava. De dia era só vida a correr, roçado, rede de pesca, panela ao lume. Mas de noite, quando o povo apagava a luz e a casa ficava só com o alento de quem dorme, havia canto que não era bom de encarar durante muito tempo.
O homem deste causo chamava Raimundo N, pescador de açude, ombro largo, mão calejada, daqueles que falam pouco e fazem muito. Só que O Raimundo tinha um defeito que não é de maldade, é de dureza. Ele guardava tudo para dentro. Tristeza, raiva, saudade. Ele amarrava como quem amarra saco de farinha e atira-o para um canto, achando que um dia desaparece.
Acontece que dois anos antes tinha perdido a filha pequena Lia, numa febre que veio ligeira e foi-se levando consigo à alegria da casa. A A sua mulher não aguentou viver com aquele silêncio e acabou por ir embora para casa de um familiar, dizendo que não dava para viver onde ninguém falava o nome da menina. Raimundo ficou sozinho com a casa e com o buraco.
E o buraco, quando não olha para ele, vira porta. As primeiras noites foram normais, cansaço de lida, sono pesado. Só que numa segunda-feira Raimundo acordou como se não tivesse dormido. Parecia que tinha carregado pedra a madrugada inteira. O peito doía, a cabeça latejava e os braços amanheceram moles, sem força de puxar nem a rede.
Pôs a culpa no calor, na água, na idade, tomou café, foi ao açude, trabalhou na mesma. voltou moído e deitou-se cedo. No outro dia acordou pior e no outro ainda pior. Aí começou o miúdo estranho. Todas as manhãs o pote de água da cozinha amanhecia com menos água do que Raimundo se lembrava ter usado. Não era fuga, não era fenda, era como se alguém bebesse de mansinho durante a noite.
Ele olhou para o chão, procurou uma marca de goteira e nada, apenas o pote quieto e a água mais baixa. O Raimundo não contou a ninguém. Homem teimoso, tem vergonha de confessar susto. E susto, quando não ganha palavra, ganha força. Na quarta noite veio o primeiro sinal que não cabia em explicação boa.
Raimundo deitou-se na rede, no mesmo canto de sempre. A casa estava calada, só com o barulho do açude ali fora e o canto de um sapo longe. Ele fechou o olho e, já quase a dormir, sentiu a rede ranger. Não foi ranger de madeira velha, não. Foi como se alguém sentasse devagar ao pé da rede, ajeitando o peso com calma. Raimundo abriu o olho num pulo e levantou a cabeça. Não viu ninguém.
Acendeu a luz, olhou para a casa toda, foi à porta, olhou para o terreiro, nada. Deitou-se de novo com o corpo duro. A rede rangeu outra vez do mesma forma, um peso curto, discreto, como quem encosta e tira. Raimundo levantou-se de vez, pegou no facão por costume e ficou no meio da sala, a olhar para o teto de palha.
O coração batia feito asa de passarinho preso. Ele falou alto, tentando mandar no medo. Se tem alguém aí, apareça. Ninguém apareceu. Mas o ar da casa ficou diferente. Não ficou frio, não. Ficou pesado, como se a respiração tivesse engrossado. E Raimundo sentiu um cheiro rápido que veio e desapareceu. Cheiro de vela apagada e roupa guardada.
Cheiro que lembrava dia de enterro. No outro dia, foi à venda e perguntou por remédio, por chá, por benzimento. Fingiu que era a fraqueza do corpo. O dono da venda, velho sabido, apenas disse: “Fraqueza do corpo às vezes é do peito.” Raimundo voltou zangado com aquele conselho, como se conselho fosse ofensa. Na sexta-feira, já de noite, decidiu fazer o que o homem orgulhoso faz quando quer provar que manda.
resolveu vigiar o próprio sono, pôs a lamparina no canto, deitou-se na rede e ficou com o olho aberto, à espera do tal peso. Demorou. O escuro foi ficando mais fundo e o cansaço foi puxando o Raimundo como puxa um boi teimoso no laço. A vista dele começou a falhar e o pensamento foi-se misturando com lembrança de Lia a correr no quintal a rir.
Foi aí que a rede rangeu. Desta vez não foi só um encostar, foi um sentar inteiro, firme, pesado, [pigarreia] mesmo em cima do peito dele. Raimundo tentou levantar-se e o corpo não obedeceu e ele compreendeu no susto seco que aquela noite não ia ser só mais uma. Raimundo tentou puxar o ar e não conseguiu direito.
Era como se alguém tivesse posto uma mão grande e calma em cima do peito dele e dissesse sem palavra, fique rede rangia debaixo do peso, mas não era peso de gente viva, era um peso que não ajeita-se, não se mexe, apenas aperta. Ele quis gritar o nome de alguém, mas a voz não saiu. A boca abriu e fechou seca, e o som morreu dentro da garganta.
Só os olhos dele se mexiam arregalados, presos no teto de palha. Mas o pior não foi a falta de ar. foi perceber que a casa inteira parecia estar a escutar. O o silêncio não era ausência, era a presença. Era como se o escuro tivesse encostado as costas à parede e cruzado os braços, à espera. No canto do teto, onde as ripas se encontravam, uma sombra começou a formar.
Não foi de uma vez, foi devagar, como fumo que decide descer em vez de subir. Ela espalhou-se pela palha, escorrendo num movimento preguiçoso, certo, como se conhecesse o caminho até ele. No entanto, não tinha cheiro a queimado. Tinha aquele cheiro triste a vela apagada, pano guardado e um fundo de água parada do açude. Raimundo tentou virar o rosto, mas o pescoço não obedecia.
A sombra desceu mais um tanto e sentiu o peso no peito apertar, como se quisesse medir até que ponto o coração aguentava. Foi então que ele ouviu. Não foi barulho de telha, nem estalido de madeira. Foi uma voz pequena de criança chamada mansa, bem no ouvido, da maneira que só uma filha chama quando quer colo. Pai. O corpo de Raimundo tentou levantar-se no susto do amor, mas não levantou. A garganta dele queimou.
Os olhos encheram-se de água na mesma hora, porque aquilo puxava uma saudade que ele tinha enterrado sem reza, e a sombra, como se sentisse o sabor dessa saudade, ficou mais pesada. Por isso, no desespero, tentou rezar. tentou puxar um Pai Nosso que a mãe dele ensinou quando era menino. Só que a reza vinha falhada, sem som, só pensamento.
E o pensamento, quando tem medo, vira a porta destrancada. A sombra desceu até encostar no peito dele. Não tinha forma de mão, não tinha forma de bicho, era apenas um peso vivo que respirava lentamente, apertando e soltando, apertando e soltando, como se estivesse alimentando-se do fôlego dele. Só que no meio deste aperto, Raimundo apercebeu-se de uma coisa.
A voz que chamava pai não tinha calor, tinha oco, tinha um fundo gelado. Era igual quando ouvimos alguém chamando à beira do açude e não vê ninguém. E mesmo assim sentimos que não deve ir. Ele quis fechar os olhos para não ouvir, mas os olhos não fechavam. A sombra parecia querer que ele visse. E quanto mais lutava, mais o peito se afundava, mais o ar se tornava pouco e a rede rangia como se fosse arrebentar.
O escuro tornou-se espesso e Raimundo teve uma certeza feia. Aquilo vinha toda a noite, apanhava um tiquinho do seu fôlego e ia-se embora antes do dia nascer. Por isso acordava quebrado. Por isso o pote amanhecia mais vazio. A casa não estava a ser só visitada, estava a ser usada. Quando o primeiro clarão do dia entrou pelas brechas, bem fraquinho, como fio de faca, a sombra começou a subir de volta.
Não desapareceu a correr, não. Subiu com calma, como quem termina o serviço, e se retira sem pressa. O peso no peito afrouchou, o ar entrou de supetão e Raimundo caiu da rede no chão, torcindo com o corpo inteiro a tremer. Ele ficou ali um tempo no barro da sala, respirando como quem volta debaixo de água.
Quando conseguiu levantar-se, foi ao pote e bebeu água com raiva. A água desceu, mas deixou um amargo, como se a sua garganta tivesse sido raspada por dentro. Naquela manhã, não foi para o açude. Ficou sentado no batente, olhando para o quintal com a cabeça baixa, tentando perceber o que fazer com aquilo sem se tornar motivo de riso alheio.
Homem sozinho, quando tem medo, torna-se segredo, só que segredo cresce. Na noite seguinte, Raimundo tentou não dormir. Sentou-se numa cadeira com o machete no colo, à espera que o escuro mostrasse a cara, mas o corpo dele estava fraco demais. O olho pesou e quando deu por si, já estava na rede outra vez. E o peso voltou.
Desta vez, além do aperto, veio um som miúdo, quase nada. um balançar de rede ao lado, como se uma rede invisível também tivesse sido ali armada e alguém pequeno se deitasse nela. E a voz muito mansa, muito perto: “Pai, vem!” Raimundo sentiu o coração partir-se onde já estava rachado. E, por um instante ele quase foi, quase entregou o peito para aquilo, só para ouvir mais uma vez a filha a chamar.
Foi nesse instante que ele compreendeu a maldade maior. Não era só medo, era o engodo. Era o luto dele a ser utilizado como caminho. Quando amanheceu, procurou ajuda. E a única pessoa que ouviu dizer que entendia dessas coisas sem espalhar era uma parteira velha, de mão firme, chamada Dona Anacleta, que vivia num canto mais afastado, perto de um pé de umbu.
Raimundo pôs o chapéu, saiu sem tomar café e foi. E chegou lá com a cara de que não dorme há muito tempo, mas também com a cara de quem finalmente decidiu parar de fingir. Dona Anacleta recebeu Raimundo sem pressas, como quem já viu muito peito partido. Era velha, de mão firme e olho quieto, daqueles olhos que não se assustam com conversa atravessada.
pô-lo sentado num banco baixo, serviu um gole de água e ficou escutando até ao fim, sem interromper, sem fazer cara de espanto. Quando ele terminou, ela disse uma frase só que entrou nele como uma faca em couro molhado. Isso não é a tua menina, Raimundo. Isso é a sua dor vestida de chamada. Ele baixou a cabeça como quem leva pancada e não revida.
Tentou justificar, mas a voz era igual. Igual sim, porque a dor sabe imitar o que adoramos e o escuro gosta de casa onde ninguém diz o nome do morto. Raimundo engoliu em seco. A palavra morto do ele nunca dizia. Dizia a menina, dizia aquilo, dizia nada. Mas a dona Anacleta não o deixou fugir pelo silêncio. Vai fazer três coisas e vai fazer bem.
Primeiro, hoje vai dizer o nome dela em voz alta. Sem vergonha. Segundo, vai limpar essa casa por dentro e por fora, mas não é varrer pó, não é varrer o que ficou parado. Terceiro, vai fechar as fendas do telhado, onde o escuro se habituou-se a entrar, e vai selar o seu peito também. Ela mandou o Raimundo ir buscar sal grosso, um punhado de alecrm do mato e barro novo.
Mandou-o voltar para casa e não passar na venda, não falar com ninguém, só cumprir. Quando chegou, ela já estava lá na porta, como se a estrada tivesse trazido junto. Entrou, sem olhar para os cantos com medo e foi direto à rede. É aqui que ele senta-se. Raimundo sentiu o rosto queimar. Não sei se é ele. Porém, antes de ele terminar a frase, a rede rangeu sozinha, um pequeno rangido, curto, como quem responde.
Dona Anacleta nem pestanejou. Sabe sim. Ela fez Raimundo tirar a rede do gancho e pôr no chão. Espalhou o sal no batente da porta nas janelas e mandou-o amassar barro com mais sal até se tornar uma massa dura. Com aquilo, foi fechando as fendas do telhado por dentro, uma a uma, como quem tapa buraco da vedação para não passar bicho.
Depois, ela acendeu um tiquinho de brasa num fogareiro e deitou o alecrim. A fumo subiu branco e forte, cheiro de mato limpo, e a dona Anacleta falou sem levantar a voz: “Não é para expulsar com raiva, não é para lembrar a casa quem manda nela.” Depois ela apontou para o pote d’água.
E essa água vai respeitar, não deixa aberta de noite e antes de dormir deita-se o primeiro gole no chão do quintal. A água também carrega coisa, só que a parte mais difícil ela guardou para o fim. Ela puxou Raimundo para perto do oratório, onde tinha uma santinha pequena e uma vela velha, e mandou-o ajoelhar. Raimundo, duro, resistiu com o corpo.
Eu não sei rezar direito. Não é reza que eu quero, é verdade. Ela [pigarreando] ficou atrás dele e falou devagar. Diga o nome dela. Raimundo travou. A garganta fechou. Os olhos encheram-se e ele tentou segurar. Diga. Abriu a boca e não saiu som. Tentou novamente e veio partido como pedra a rachar. Lia. A casa pareceu ficar mais quieta, não de medo.
De escuta. A Dona Anacleta continuou. Agora diga o que nunca disse. E ali o homem grande tornou-se menino por dentro. Eu tinha raiva. Eu tinha raiva de Deus. Eu tinha raiva de mim. Eu enterrei-a e enterrei a minha voz junto. Eu deixei a casa transformar-se em silêncio. Eu deixei. As palavras saíram em tropeço, mas saíram.
E quando saíram, Raimundo desabou num choro que guardava há dois anos. Não era choro bonito, era choro de enchurrada levando barro. Foi nessa altura que a rede lá no chão deu um estalido seco, como corda a rebentar sem ninguém tocar. Raimundo levantou assustado e a dona Anacleta segurou o braço dele. Deixe ir. Não corra atrás. Quem se alimenta do que escondes enfraquece quando o mostra.
Naquela noite, o Raimundo dormiu. Não dormiu leve, não. Dormiu pesado, mas inteiro. Acordou ainda cansado, só que diferente. O cansaço era de corpo, não de alma sugada. Nos dias seguintes, cumpriu tudo, fechou as fendas, selou o pote, deitou o primeiro gole no quintal e toda a noite acendeu um tiquinho de alecrim.
E, principalmente, passou a falar de Lia sem medo, sem se castigar por lembrar. Antes, Raimundo vivia com a dor trancada, pensando que o silêncio era força. Depois compreendeu que o silêncio demais torna-se convite. O peso no peito foi rareando como nevoeiro quando o sol aprende o caminho. A rede deixou de ranger sozinha e o pote de água amanheceu como deveria amanhecer, quieto, no mesmo nível.
A Dona Anacleta, quando se despediu, deixou apenas um simples aviso. A saudade é coisa santa, mas luto guardado demais vira fresta. E fresta, meu filho. O escuro agradece. E esse foi o ensino que ficou. Há assombro que não entra pela porta trancada, entra pela ferida escondida. Agora, para fechar esta ronda de história, digo-lhe outra regra velha do sertão.
Coisa de morto não se toma. O último causo aconteceu em Cabaceiras, Paraíba, no ano de 2009, e o nome dele é Coisa de morto não se toma. Ele vem buscar. Dizem que um homem guardou um pertence alheio numa gaveta. E depois disto a casa começou a escutar passo onde não estava ninguém. Cabaceiras é terra de pedra e vento.
Vento que passa assobiando entre as casas, seca que racha o barro e noite que fica bem quieta quando a serração baixa do nada. Ali, quando alguém se vai, o povo faz o possível para não deixar o morto mal acomodado. Não é medo, não é cuidado com o que fica pendurado entre um mundo e outro. O homem que morreu neste causo chamava-se Targino Galdino, velho vaqueiro, mão calejada, palavra pouca e olhar direito.
Tardino tinha um costume. Ele não gostava de nada fora do sítio e de tudo que possuía tinha uma coisa que era mais dele do que o próprio chapéu. Uma faca de vaqueiro, cabo gasto de tanto uso, bainha bem cuidada, oferta do pai. Ele dizia que aquilo não era só ferramenta, era memória. Quem ficou foi a viúva, dona Severina, mulher de oração mansa, daquelas que choram por dentro para não deitar a casa abaixo por fora.
No velório, ela pôs o marido bem arranjado, como manda o respeito, e perto do caixão colocou a bainha da faca em cima da mesa para depois decidir se ia junto, se ia para estar com a família, essas coisas que dóem. Só que tinha um cunhado no meio, o Lourival Bitu, homem de conversa fácil e olho comprido.
Chegou com cara de luto, mas por dentro já tinha contado o valor da faca, o tanto que aquilo rendia numa mão errada. Lourival ficou a rondar a mesa, puxando o assunto, esperando distração. E quando a dona Severina foi para a cozinha ajudar com café e pão, ele fez o que faz. Quem pensa que o mundo é bolso aberto? pegou na faca e enfiou-a por baixo do casaco como quem guarda um segredo.
Não foi por necessidade de comer, não. Foi por cobiça mesmo. E cobiça, meu povo, tem sempre pressa. Enterraram o seu targino no cemitério pequeno, de cruz de madeira e chão duro. A tarde estava cinzenta, com vento frio. A Dona Severina foi-se embora com o coração torto, sentindo que faltava alguma coisa, mas sem perceber o quê. Luto deixa-nos semino.
Na casa, Lourival ficou mais uns dias para ajudar. Ajudar era o que ele dizia. Na verdade, ele queria tempo para desaparecer com a faca, sem ninguém reparar. Guardou numa gaveta funda da cómoda da sala, embrulhada num pano, e ainda pôs por cima uns papéis, como se papel escondesse culpa. Na primeira noite, nada de mais, apenas aquela quietude de casa depois de enterro que já assusta por si.
Na segunda, veio o primeiro sinal. O cão da casa, um viraata velho que o seu targino criava desde pequeno, parou em frente da cómoda e começou a rosnar baixinho. Não rosnou para porta, não rosnou para a janela, rosnou para gaveta como se ali houvesse bicho vivo. Lourival deu um ligeiro pontapé no chão para espantar o cão e também para espantar a própria consciência.
Sai daí, peste. O cão não saiu. Só recuou um pouco com o rabo entre as pernas e ficou olhando com um medo respeitoso destes que bicho sente antes de gente. Dona Severina de dentro do quarto perguntou: “Que foi aquilo?” Lourival respondeu rápido para não abrir conversa. Nada. Bicho tá doido. Deitou-se na rede, mas o sono veio inteiro.
E quando pegava no sono, era leve, quebradiço, como telha velha. A meio da madrugada, acordou com um som que não combinava com a casa, um som miúdo, cadenciado, insistente. Tic tac, tic tac. Lourival sentou na rede, o ouvido esticado. Não tinha relógio na sala. Seu Targino nunca gostou de relógio batendo. Dizia que o tempo já fazia barulho demais na cabeça do homem.
O tic-tac continuou firme, ocupando tudo, como se viesse de dentro da parede. Lourival levantou, foi até a sala, e o som parecia mais perto da cômoda. Ele puxou a gaveta com cuidado, a faca estava lá embrulhada no pano e o tictac parou na hora. Lorival soltou o ar rindo sem vontade. Besteira, foi impressão.
Só que quando ele fechou a gaveta, veio outra coisa. Um cheiro úmido, pesado, que não tinha ali antes. Cheiro de terra molhada, de cova recém-aberta, cheiro de barro vermelho com chuva em cima. Lourival puxou o pano de novo e viu no cabo da faca uma manchinha escura como lama fina. Ele passou o dedo, achando que era sujeira antiga.
A lama estava fresca. E naquele mesmo instante do corredor veio um arrastar baixo, como passo de bota em chão, molhado, bem devagar, parando bem na porta da sala. Loural ficou duro, segurando a faca na mão, sentindo que tinha coisa ali que não era do mundo dele. E no silêncio, bem perto, como quem fala sem abrir a boca, uma voz sem pressa pareceu dizer: “Isso não é seu.
” Lourival ficou com a faca na mão, parado no meio da sala, sem coragem de olhar pro corredor. A casa toda parecia ter prendido a respiração. Ele forçou a garganta e falou alto para ver se o som da própria voz espantava o resto. Isso é invenção da minha cabeça, é cansaço. Mas a frase saiu fraca, sem mando, e o cheiro de terra molhada continuava ali, grosso, feito cova aberta depois da chuva.
Ele deu um passo pro corredor e não viu ninguém. Só viu o escuro se juntando nos cantos, como se o breu tivesse mais corpo do que devia. voltou paraa sala e embrulhou a faca de novo com pressa, como se o pano pudesse calar o que já tinha acordado. Mas quando ele fechou a gaveta, o tictac voltou. Não vinha de relógio nenhum.
Vinha de dentro da madeira, de dentro do ar, batendo no ouvido dele por dentro. Lorival puxou a gaveta de supetão. O som parou na hora. Ele sentiu o suor frio descendo nas costas. E para não admitir medo, fez o que homem covarde faz. Decidiu esconder melhor. Se levantou ainda de madrugada, pegou a faca e foi pro quintal.
Achou uma lata velha perto do muro, cavou um buraco raso e enterrou-a ali, embrulhada no pano e numa sacola. Pisou por cima, ajeitou a terra e voltou pra rede, sem dizer nada à dona Severina. Porém, antes de dormir, ele percebeu uma coisa. O cachorro não saiu do lugar. Ficou sentado na porta da sala, olhando fixo pro corredor, com o corpo duro, como se esperasse alguém passar.
Na manhã seguinte, Lourival acordou com o gosto de barro na boca. Foi direto pro quintal conferir a lata. A terra estava mexida, não muito, só o suficiente para mostrar que alguém tinha tocado. Ele cavou com as mãos tremendo. A lata estava vazia. Lorival ficou um tempo com a boca aberta, sem som. Olhou pros lados, procurando pegada.
No chão, de areia dura tinha marca de sola, mas não era sola de gente. Era uma marca comprida, funda, irregular, como se alguém arrastasse bota molhada sem levantar o pé. Ele entrou correndo e puxou a gaveta da cômoda. A faca tava lá dentro, embrulhada do mesmo jeito, com o pano dobrado direitinho, como se alguém tivesse guardado com cuidado.
Lorival sentiu o estômago revirar. O coração batia forte, mas o orgulho ainda tentava arrumar desculpa. Severina deve ter achado e guardou. Só que dona Severina nem tinha saído do quarto e quando ela apareceu na porta com a cara cansada de luto, perguntou: “Lourival, tu tá mexendo nas coisas de Targino?” Ele quase negou por reflexo, mas a voz dele falhou no meio.
E falha de voz é confissão de quem não consegue mentir direito. Eu só tô ajeitando. Dona Severina olhou para ele como quem enxerga uma rachadura antiga. Ajeitando o quê? Ele não respondeu. Fez que ia sair, inventar serviço na rua, qualquer coisa para fugir daquele olhar. Só que quando ele passou pela sala, ouviu o som da bainha raspando, como se uma faca fosse puxada e devolvida sem mão.
Um raspar miúdo, insistente, vindo de dentro da gaveta. Lourival travou e num impulso abriu. A faca tava ali, só que o cabo que antes era seco, agora tinha lama fresca nas ranhuras e um fio de terra vermelha escorria devagar, manchando o pano. Dona Severina levou a mão à boca, sem gritar, como quem confirma um pressentimento.
Misericórdia. Lorival fechou a gaveta com força, como se pudesse trancar o assunto. É sujeira antiga, deve ter ficado do cemitério, do velório, mas nem ele acreditava. Naquela noite, o tictac voltou mais cedo, mais alto. A casa inteira parecia bater junto, como se o som tivesse virado coração de madeira.
Lourival deitou na rede e ficou olhando pro teto, tentando piscar. Foi aí que começaram os passos. Não eram passos secos de chão de casa, eram passos molhados, pesados, devagar, como se viessem de longe e não tivessem pressa de chegar. Passavam pelo corredor, paravam à porta do quarto de dona Severina, ficavam um instante e seguiam.
Quando pararam à porta do quarto onde Lourival estava, sentiu o corpo gelar todo, do couro da cabeça até à planta do pé. O tic-tac tornou-se mais forte, como se batesse dentro do peito dele. E do lado de fora, bem rente à madeira, veio um sopro de voz grave, sem raiva, sem ameaça, apenas certeza. Devolva. Lourival semicerrou os olhos com força, rezou da maneira errada, prometeu por dentro o que nunca prometeu e até assim o som não se foi embora.
Só andou de novo arrastando-se até à sala. Na manhã seguinte, Lourival amanheceu com a cara amarela, sem coragem para encarar a dona Severina. A mulher, que já tinha chorado o que tinha para chorar, falou firme pela primeira vez desde o enterro. Se lhe tirou alguma coisa, devolva, porque prefiro passar vergonha com vivo do que passar medo com o morto.
Lorival ainda quis endurecer, mas o o peito dele já estava pequeno. A cobiça, que antes parecia vantagem, agora parecia um peso atado ao pescoço. E como se a casa quisesse fechar a conta de vez, quando foi abrir a gaveta para pegar na faca e desaparecer com ela, viu uma coisa que lhe fez tremer a mão. Ao lado do pano tinha um punhado de terra vermelha fresquinha e em cima, bem marcado, o desenho de dois dedos compridos, como quem acaba de deixar recado.
Aí Lourival entendeu que não era só barulho de noite, era visita. Naquela manhã, o Lorival não comeu. Não tinha fome que pegasse. A boca dele estava seca e a cabeça parecia cheia de areia. Dona Severina ficou de pé na sala, sem chorar, só com o rosto duro de quem já compreendeu o tamanho da falta de respeito. Eu não o vou amaldiçoar, não, Lourival, mas também não vou segurar o que está a vir.
Se tem medo, faça o certo. Abriu a gaveta devagar, como se tivesse uma cobra ali dentro. A faca estava embrulhada no pano, mas o pano estava agora manchado de barro vermelho. Lourival pegou com a ponta dos dedos, com nojo e culpa misturados, e pôs dentro de um saco. Mas quando deu o primeiro passo em direção à porta, o tic-tac voltou, só que diferente.
Não batia na casa toda, batia perto dele, dentro do ouvido, como se o tempo tivesse passado a ser cobrança pessoal. Dona Severina falou baixo sem encarar. Leve e devolva e não faça o morto esperar. Ele saiu com o saco apertado contra o peito e seguiu para o cemitério. Cabaceira estava ventando fino, daqueles ventos que levantam poeira e lembrança ao mesmo tempo.
No caminho, Lorival sentia que a rua estava demasiado comprida, como se o chão esticasse só para ele não chegar logo. No entanto, o pior surgiu quando ele passou perto do portão do cemitério. Um cheiro a terra molhada subiu outra vez fresco, como se tivesse chovido ali e em nenhum outro lugar. E o tictac parou como se dissesse agora.
O coveiro era um homem calado chamado seu gumercindo, daqueles que conversam pouco com a Vivo e menos ainda com morto. Lourival chegou com a cara pálida e a voz miudinha. Eu preciso abrir a cova de Targino Galdino. O coveiro franziu o senho. Isso não se faz assim, não. Lourival tentou tirar dinheiro do bolso, mas a mão não firmou.
Aí desistiu de barganha e falou a verdade da forma que deu. Eu levei uma coisa dele e ele veio buscar. O seu Gumercindo olhou paraa cara dele e, por um instante, pareceu escolher entre a razão e o pressentimento. No fim, pegou na pá. Então vamos logo que há um erro que apodrece se o deixarmos no tempo. Eles abriram a cova com cuidado.
A terra estava demasiado húmida para um lugar tão seco. Lourival sentiu as pernas fracas, mas ficou ali porque fugir não adiantava mais. Quando a tampa apareceu, o seu Gumerindo fez o sinal da cruz e deixou o Lourival chegar. Por isso, pela primeira vez em muitos anos, Lourival baixou a cabeça como o homem que reconhece que fez demasiado pequeno.
Ele abriu o saco, tirou a faca e a lâmina brilhava limpa. Só que o cabo ainda tinha aquele barro vermelho entocado nas ranhuras, como se tivesse vindo de dentro da própria sepultura. Ele falou para o corpo, mas era mais para alguma coisa que escutava por detrás do mundo. Eu errei. Eu levei o que não era meu. Eu devolvo-o e peço perdão.
Só que pedir perdão é fácil quando a boca está com medo. Difícil é enfrentar a vergonha. Mesmo assim, Lourival meteu a faca no lugar onde ela devia estar desde o começo, junto do dono, da forma que o o respeito manda. Acomodou-se no peito do falecido, como quem devolve uma peça que faltava.
Na altura em que a faca encostou, um vento passou pelo cemitério e fez as folhas secas a rodar. Não foi vento forte, não foi vento certo, como se alguém respirasse de alívio. O seu Gumercindo fechou a cova sem pergunta. Quando terminou, Lourival ficou parado, esperando o resto, passo, voz, tictac, qualquer coisa. Mas o cemitério ficou quieto do jeito que cemitério deve ficar. Um silêncio de descanso.
Ele voltou para casa sem olhar pros lados. Ao entrar na sala de dona Severina, percebeu a diferença antes de ver. O cachorro estava deitado, com a cabeça no chão, sem rosnar para nada. E dentro da casa não tinha mais aquele peso, nem aquele cheiro de barro molhado. Dona Severina olhou para ele uma vez só. Devolveu? Devolvi.
Ela a sentiu como quem fecha uma conta e não quer mais conversa. Lorival pegou o embornal e saiu antes do sol descer. Não pediu café, não pediu bênção, não pediu desculpa para ela, porque tinha coisa que já estava grande demais paraa palavra comum. Nos dias que vieram, a casa voltou ao normal. Noite quieta, parede calada, gaveta só gaveta.
Mas ficou uma marca. No fundo da cômoda, onde a faca tinha sido guardada, ficou uma mancha escura que não saía. Dona Severina não limpou com força, deixou ali como lembrança para ninguém achar que pode tomar o que é de quem já foi. E Lourival, dizem que nunca mais encostou a mão no que não lhe pertencia, não por bondade repentina, mas porque aprendeu do jeito que dói.
Tem coisa que o mundo não perdoa com conversa, só perdoa com devolução. Coisa de morto não se toma, porque tem morto que vem buscar e quando vem não vem com pressa, vem com certeza. Pois então, minha gente, tá contado. O que aconteceu em Cabaceiras, Paraíba, em 2009, não foi para fazer espetáculo, não.
Foi só para lembrar uma regra, que os mais velhos já diziam sem alarde: “Tem coisa que a gente não toma nem por precisão, nem por cobiça, porque respeito é cerca que protege a alma da gente.” Lourival aprendeu do jeito mais seco. Quando a gente pega o que não é nosso, não é só a mão que se suja. O sono é que fica leve, a casa é que estranha.
O silêncio é que muda de gosto e tem cobrança que não vem com grito, vem com presença. Se esse causo lhe cutucou por dentro, me diga aí de qual cidade você tá me ouvindo e se na sua terra também existe essa lei antiga de não mexer com o que pertence a quem já foi. Aqui cada comentário é como lamparina acesa no terreiro. Ajuda a gente a não caminhar sozinho no escuro.
Eu vou ficando por aqui, que a noite já tá deitada no mundo e amanhã o dia pede trabalho. Que Deus abençoe sua casa, sua família e seu descanso. E que o que é seu fique com você e o que não é passe longe da sua mão. Até a próxima, se ele quiser.