CLARICE… A MULHER QUE AMEI POR 3 MESES JÁ ESTAVA MORTA HÁ 50 ANOS | História de Terror Real
CLARICE… A MULHER QUE AMEI POR 3 MESES JÁ ESTAVA MORTA HÁ 50 ANOS | História de Terror Real 
Sou coveiro na capital de São Paulo há 20 anos e conheço cada ruído que as lápides fazem quando a cidade dorme, mas nada me preparou para o silêncio de um beijo gelado. O meu nome é João, tenho 56 anos e levo no peito a culpa de terme apaixonado por [música] quem não devia. Durante três meses, viveu um romance intenso entre as alamedas com uma mulher misteriosa que aparecia sempre nos fins de tarde, com a pele pálida e um sorriso triste.
Sentia-me fraco e doente cada vez que ela se ia embora, como se ela levasse um pedaço de mim, mas eu achava que era o cansaço do amor. A ilusão acabou na tarde em que fui limpar um jazigo abandonado coberto de limo. E ao esfregar a foto de porcelana datada de 1970, vi o rosto da minha namorada me encarando. Ela não queria apenas o meu coração, ela queria a vida que corria nas minhas veias para preencher o vazio da morte dela.
Para que possa entender como um homem da minha idade, calejado pela vida e pela morte caiu numa armadilha destas, é preciso compreender a solidão de quem trabalha com a terra. O cemitério municipal, onde [música] trabalhava na altura é uma ilha de silêncio no meio do caos de São [música] Paulo e do lado de fora ouve-se as buzinas da Avenida Dr.
Arnaldo e o barulho dos autocarros e a correria de milhões de pessoas que fingem que nunca vão morrer. Do lado de lá dentro, o tempo parece que pára e as árvores são gigantes e antigas e cobrem o céu com uma sombra eterna. E os Os mausoléus das famílias ricas parecem casinhas de bonecas tristes alinhadas em ruas de paralelepípedos. Eu passava mais tempo a falar com as estátuas de anjos de pedra do que com gente viva.
E a solidão é um buraco que tentamos tapar com trabalho, mas uma hora transborda. Tudo começou numa tarde de chuvisco miudinho, daquelas bem típicas de São Paulo, que deixam o céu cinzento chumbo e molham-nos sem a gente perceber. Estávamos no final de maio e o outono já estava a trazer aquele ventinho gelado que entra pela gola da camisa.
E eu estava a terminar o serviço do dia, recolhendo as ferramentas perto da ala [música] dos imigrantes, que é uma parte mais antiga e repleta de túmulos com inscrições em italiano. O cemitério já estava praticamente vazio e só restavam alguns gatos vadios e os seguranças na portaria lá longe quando Vi-a pela primeira vez. Ela estava parada diante de um qualquer túmulo de costas para mim.
E o que me chamou a atenção não foi a presença dela ali, porque gente triste a visitar o parente é o que mais há. Mas o que me chamou a atenção foi a roupa, pois usava um vestido azul marinho muito elegante, de um corte que parecia antigo, com uma saia rodada que ia até meio da canela e um casaquinho de lã por cima. Eu me aproximei-me lentamente, fazendo barulho com o bota no cascalho para não assustar a rapariga e perguntei-lhe se precisava de ajuda para encontrar a saída, porque o portão já [música] ia fechar.
Ela se virou-se lentamente e quando ela olhou para mim, senti um tranco no peito que eu não sentia desde que era miúdo, pois era linda, mas era uma beleza triste e pálida. A pele dela parecia porcelana fria e os olhos eram grandes e escuros como duas jabuticabas. Ela sorriu um sorriso tímido e disse-me que não estava perdida e que só gostava da paz daquele lugar.
E a voz dela era baixa e rouca. Parecia música lenta. Ela disse-me que se chamava Clarice, mas não disse apelido e eu [música] não perguntei. Nessa primeira conversa, a gente falou pouco e ela elogiou o meu cuidado com as plantas e disse que achava bonito ver alguém que respeitava o sono dos outros. E senti-me importante, pois coveiro é uma profissão invisível e ninguém nos olha para a cara, a não ser para se queixar ou chorar.
Mas a A Clarice olhava-me. Ela olhava-me com interesse, com uma curiosidade que me deixou sem graça e vaidoso ao mesmo tempo. E ela foi-se embora antes de escurecer, desaparecendo totalmente na neblina que descia a alameda principal. Eu Fiquei ali parado, com a enchada na mão, sentindo o cheiro do perfume dela, que não era cheiro de flor de cemitério como crisântemo ou coroa de flores, mas era cheiro a alfazema e coisa limpa e antiga, de gaveta de avó, mas de um jeito bom.
Ela voltou no dia seguinte e no outro e no outro sempre no mesmo horário. Ao final da tarde, quando o sol estava a pôr-se e o cemitério ficava naquela luz dourada e melancólica, a gente começou a encontrar-se todos os dias. E no início só caminhávamos lado a lado, a falar sobre coisas da vida, pois era uma mulher culta e falava bonito usando palavras que eu mal conhecia, mas ela nunca falava dela.
Quando lhe perguntava onde ela morava ou com o que trabalhava, ela desconversava e dizia que a vida dela ali fora era cinzento e sem graça e que ela só sentia-se viva ali dentro comigo. E aquilo inflou o meu ego de um jeito perigoso e pensei que estava com sorte. A primeira vez que lhe toquei foi na segunda semana quando estava muito vento e ela estremeceu de frio.
E tirei o meu blusão de uniforme [música] e coloquei sobre os ombros dela. E a minha mão encostou-se ao braço dela e o toque foi um choque, pois a pele dela era gelada, não fria de quem está no vento, mas gelada de quem saía de um frigorífico. E era um frio que parecia vir de dentro do osso.
Eu comentei que ela estava a congelar e ela riu e segurou a minha mão, que também era pura gelo, e disse-me, olhando nos meus olhos, que era porque ela tinha o coração frio e precisava do meu calor para se aquecer. Na altura aquilo soou como poesia [música] romântica, mas hoje sei que era uma confissão e um aviso.
Nós beijamo-nos nesse dia atrás de um mausoléu da família Matarazo, escondidos dos vigias, e o beijo dela sabia a metal [música] e hortelã, e a boca era fria, mas a língua era ávida. E quando ela me beijou, senti uma tontura e uma fraqueza nas pernas, como se a minha pressão tivesse baixado subitamente, e o mundo girava e escureceu nas bordas da a minha visão.
Tive que me segurar na parede de mármore para não cair e ela se afastou-se, sorrindo e passando a mão no lábio, como quem acaba de beber um bom vinho. E ela parecia mais corada e as bochechas dela ganharam uma corzinha rosa que não tinham antes. Já eu me sentia-se exausto, como se tivesse corrido uma maratona.
O romance engatou de vez e durante três meses aquilo tornou-se a minha rotina. E eu contava os minutos para o expediente terminar, só para encontrar a Clarice. E namorava-se nos bancos de pedra e nas capelinhas abandonadas debaixo das árvores centenárias. Mas quanto mais nos envolvíamos, pior eu ficava de saúde.
E eu, que sempre fui um homem forte de carregar saco de cimento nas costas, comecei a emagrecer e as minhas calças começaram a cair. Eu olhava no espelho de manhã para fazer a barba e via um homem pálido, com olheiras profundas e roxas. E os meus colegas de trabalho repararam, o Toninho que trabalhava comigo na jardinagem vivia a dizer-me que eu estava com cara de doente e perguntava se estava a comer corretamente ou se tinha apanhado tuberculose e eu ria-me e dizia que era o amor que [a música] tirava o apetite. Não sentia fome e só sentia
uma sede constante e um cansaço que não passava nem a dormir 12 horas seguidas. E sentia um frio constante e mesmo nos dias quentes, andava de blusa, pois parecia que o frio da pele do A Clarice tinha passado para mim e se instalado na minha medula. Já ela estava cada dia mais bonita e a sua pele perdeu aquela palidez mortal [música] e ficou viçosa.
E o cabelo brilhava e ela parecia ter rejuvenecido 10 anos e estava radiante e cheia de energia. Ela ria alto e corria entre os túmulos, me puxando pela mão. E ela estava literalmente a beber a minha vida, gole por gole e beijo por beijo. E eu, feito um idiota apaixonado, deixava, porque quando estava com ela, a tontura parecia êxtase.
O ponto de viragem aconteceu numa terça-feira cinzenta, em agosto, quando a administração do cemitério decidiu fazer um mutirão de limpeza numa ala antiga, a ala 7. que tinha ficado meio abandonada nos últimos anos por causa de uma disputa judicial de terrenos e o mato estava alto e os túmulos estavam cobertos de limo negro e musgo.
O chefe mandou-me para lá com balde e escova [música] de aço e sabão, dizendo que queria que eu deixasse aquelas lápides a brilhar, pois teria visita da câmara municipal na semana seguinte. E fui-me arrastando com as pernas pesando chumbo e com uma [música] dor de cabeça constante que pulsava atrás dos olhos.
Cheguei à ala sete e comecei o serviço e era um trabalho pesado, pois tinha de raspar o musgo e esfregar a pedra e lavar com lixívia. Eu Comecei por um jazigo de granito preto imponente, mas muito sujo, onde a inscrição do nome estava quase ilegível de tanta sujidade acumulada. e passei a tarde toda ali a esfregar. O sol nem apareceu nesse dia e o céu ficou num tom de cinzento triste o tempo todo.
E por volta das 16 horas, já tinha limpado a maior parte da pedra e faltava apenas a lápide vertical, onde se encontrava a foto e os dados do falecido. Eu joguei um balde de água com sabão e comecei a passar a escova na moldura de bronze do foto, que era uma daquelas fotos ovais de porcelana muito comuns nos túmulos antigos, e a sujidade cobria o [música] rosto da pessoa.
Eu esfreguei com cuidado para não riscar e a espuma do sabão ficou preta de terra e deitei água limpa para enxaguar. E a água escorreu, levando a sujidade embora e revelando a imagem aos poucos. Primeiro apareceu o cabelo preto ondulado e depois a testa e depois os olhos escuros, grandes e jabuticabas. E parei a mão no ar e o coração disparou no peito, falhando uma batida, e pensei que estava a delirar de febre.
Deitei mais água, passando a mão para limpar o vidro, e o rosto revelou-se por completo, com o sorriso tímido e o vestido de gola alta e o olhar melancólico. E era ela, era a Clarice. Dei um passo atrás, tropeçando no balde e caindo sentado na terra molhada, e fiquei a olhar para a foto, tentando encontrar uma explicação lógica, pensando desesperado que devia ser a mãe dela ou a avó, pois eram muito parecidas.
Levantei-me tremendo as minhas mãos sujas de lama e aproximei-me da pedra para ler o nome que tinha acabado de limpar. E as letras douradas brilharam na pedra molhada, revelando o nome Clarice Almeida, nascida a 12 de abril de 1948 [música] e faleceu a 15 de maio de 1970. 1970. e ela tinha morrido há mais de 50 anos.
E a conta bateu-me na cabeça como uma marretada, pois na foto aparentava ter uns 22 anos, que era a mesma idade que a mulher que eu beijava aparentava ter. a mesma idade e a mesma beleza e o mesmo olhar. Eu olhei para a data da morte e vi que era Maio, o mesmo mês em que nos conhecemos e olhei em volta, esperando vê-la aparecer a rir e dizendo que era uma brincadeira.
Mas o cemitério estava silencioso e apenas o vento balançava as folhas secas e a ficha caiu rasgando. Pois o frio e a palidez e o modo antigo de falar e o facto de ela nunca sair do cemitério faziam sentido. Agora, quando ela dizia que pertencia àquele lugar, ela não estava a ser poética, mas estava a ser literal.
Senti um enjoo violento e vomitei ali mesmo ao lado do túmulo. E enquanto eu limpava a boca com a manga da camisa suja, ouvi passos ligeiros no cascalho atrás de mim e senti aquele cheiro de perfume de lavanda inconfundível. [música] Ouvi a voz dela a chamar-me pelo nome com aquele tom doce e rouco que eu conhecia bem.
E congelei sem querer virar-se e sem querer olhar. Ela disse-me que eu tinha demorado nesse dia e que ela estava à minha espera perto do anjo, mas eu não tinha ido e ela estava parada mesmo atrás de mim. Eu conseguia sentir o frio que emanava do seu corpo chegando nas minhas costas e virei-me devagar, ainda ajoelhado no chão.
Ela estava lá linda, como sempre, usando o mesmo vestido azul da foto e o mesmo penteado. E ela olhou para mim e depois olhou para o túmulo limpo. E o sorriso dela não desapareceu, mas mudou, deixando de ser tímido e tornando-se algo faminto. Ela não parecia assustada por ter sido descoberta, mas parecia desiludida por ter acabado o jogo.
Ela disse-me, passando a mão na própria foto de porcelana que eu tinha deixado tudo tão bonito e que ninguém cuidava dela há tanto tempo, e a mão dela atravessou o vidro por um instante antes de solidificar. E eu tentei falar, mas a voz não saiu e apontei para a data, sussurrando que era ela e que estava morta. Ela se baixou, ficando à minha altura [música] e o rosto dela estava a centímetros do meu sem rugas e sem poros, como uma máscara perfeita de beleza morta.
E ela sussurrou que a morte era apenas uma palavra e que o que importava era o que sentíamos. e me perguntou se eu também não sentia muito. Ela disse que sentia a minha vida batendo com força dentro de mim e que sentia o meu calor e estendeu a mão para tocar o meu rosto. Eu recuei arrastando-me para trás na lama, tomado pelo pavor, e pela primeira vez vi o que estava por trás daquela beleza, pois os olhos dela ficaram pretos por inteiro, sem a parte branca, e a boca abriu um pouco mais do que o normal, revelando dentes que pareciam normais. mas que me davam a
sensação de serem de vidro cortante. Ela disse-me para não fugir dela e se levantou-se e a voz dela ecoou como se vinha de dentro de um poço fundo, dizendo que ainda tínhamos tanto tempo e que a eternidade era longa quando se estava sozinha. Eu larguei o balde e larguei [música] a escova e larguei tudo e levantei-me e corri como nunca corri na vida, tropeçando nas cruzes e rasgando as calças nos espinhos das rozeiras.
Eu ouvia a gargalhada dela atrás de mim. E não era um riso de bruxa histérica, mas era uma gargalhada baixa e suave e triste, de quem sabe que a presa não tem para onde ir. E cheguei na administração sem ar e branco como papel, quase desmaiando. E o Toninho me segurou, perguntando se eu tinha visto um fantasma e eu não consegui responder, e só conseguia [música] tremer e sentir que, mesmo longe dela, o frio continuava dentro de mim.
Naquela noite, eu não voltei para casa e fui para a igreja mais seguinte e fiquei sentado no último banco, rezando até o sol nascer. Mas eu sabia que a reza não ia adiantar. pois eu tinha-a convidado a entrar e tinha dado permissão. E agora precisava descobrir como desfazer o laço antes que eu virasse o vizinho de cova dela. Passei essa noite em claro no banco duro da igreja, tremendo de frio, apesar do calor que fazia lá fora, e sentindo que algo dentro do meu peito tinha sido roubado para sempre.
Quando o sol nasceu, sabia que não podia voltar para o cemitério sem uma proteção ou uma resposta, pois a Clarice não ia desistir fácil. E eu sentia a presença dela na a minha mente como uma sombra fria que não desgrudava. Decidi que precisava de ter certeza absoluta antes de fazer qualquer coisa e por isso fui ao cartório e depois ao arquivo morto da administração do cemitério procurar o registo do enterro da ala 7.
Precisava de saber quem ela tinha sido e se havia alguém vivo que me pudesse ajudar a compreender aquele mistério. Descobri nos papéis velhos e amarelados que a Clarice Almeida tinha sido enterrada pela família em 1970 e que a concessionária do Jazigo ainda estava em nome de uma tal dona Margarida Almeida que constava como mãe da falecida.
O endereço era antigo numa moradia no bairro da climação. E eu não sabia se a mulher ainda estava viva ou se lá vivia, mas era a única pista que eu tinha. Apanhei um autocarro e fui até ao local com o coração na mão e encontrei um sobrado antigo, com as janelas fechadas e o jardim mal cuidado. Mas toquei à campainha, mesmo assim rezando para alguém atender.
Uma senhora muito velhinha, com o cabelo branco [música] ralo e andando com dificuldade, abriu a porta e olhou-me com desconfiança, perguntando o que eu queria. Eu me apresentei como funcionário do cemitério e disse que estávamos a fazer um recadastramento dos jazigos antigos e que precisava de confirmar alguns dados sobre a Clarice Almeida.
Quando eu falei o nome da filha, os olhos da velha se encheram-se de lágrimas e ela convidou-me para entrar, servindo um café ralo numa chávena de porcelana lascada. A casa cheirava a mofo e a tempo parado, e nas paredes da sala havia dezenas de retratos de uma jovem e bonita rapariga em várias fases da vida.
Era ela em cada foto e não havia dúvida nenhuma. Vi a Clarice na primeira comunhão e via a Clarice na formatura e vi a Clarice num piquenique sorrindo aquele sorriso tímido que eu conhecia tão bem. Perguntei com jeito o que tinha aconteceu com ela e a dona Margarida suspirou fundo e contou-me [música] que a filha tinha morrido de desgosto e de uma doença que os médicos nunca explicaram direito.
Ela disse que a Clarice tinha-se apaixonado perdidamente por um rapaz que prometeu casamento, mas que desapareceu no mundo, deixando-a sozinha e deshonrada na altura. A menina parou de comer e deixou de sair de casa e foi definhando até morrer numa tarde de outono, chamando pelo nome do amado e dizendo que ia esperar por ele, nem que fosse na outra vida.
Aquilo gelou-me à espinha, pois entendi que não era especial para ela e que eu era apenas um substituto daquele amor que ela nunca teve. Eu era a bateria que ela usava para se voltar a sentir viva e para continuar à espera eterna dela. Agradeci o café e saí de casa da mãe dela, com a certeza de que estava a lidar com uma alma obsessora e faminta, fui direto para a casa de uma benzedeira muito forte que vivia na Brasília chamada A Dona Cida, que era conhecida por tirar encosto de gente que se mexia com cemitério. Quando cheguei ao portão da
dona Cida, nem me deixou entrar e gritou [música] lá de dentro que eu carregava a morte às costas e que o cheiro a defunto estava impregnado na minha aura. Ela saiu com um ramo de arruda e um copo de água com sal grosso e começou a benzer-me ali mesmo na calçada, rezando Pai Nossos e Avé Marias num ritmo frenético.
Eu senti o meu corpo pesar como se estivesse carregando sacos de chumbo e comecei a suar frio enquanto ela passava a arruda no meu peito e nas minhas costas. Ela me disse que a mulher que estava comigo não queria o meu mal por ódio, [música] mas sim por fome, e que ela estava a drenar a minha energia vital para se manter presa na terra.
A Dona Cida explicou-me que se continuasse a encontrar com ela, eu ia morrer em poucos meses, seco e sem vida, como uma casca de árvore velha, e que eu precisava [de música] cortar o laço imediatamente. Ela deu-me um escapulário de aço que tinha sido benzido em sete igrejas e me disse para nunca mais o tirar do pescoço e mandou-me procurar um padre para fazer uma missa de libertação no túmulo da Clarice, mas avisou-me que não podia estar presente na missa.
Ela disse que se a Clarice me visse lá, ia tentar puxar-me junto para a cova no momento do desligamento e que devia pedir transferência de cemitério e nunca mais pisar a ala 7ete. Eu obedeci a cada palavra da benzedeira, pois o medo da a morte é o maior conselheiro que um homem pode ter. Fui até à paróquia perto do cemitério e conversei com o padre Anselmo, que era capelão, e entendia dessas coisas, e contei-lhe tudo, sem esconder nada, incluindo a parte do namoro e dos beijos.
O padre ficou sério e deu-me uma [música] bronca, dizendo que os vivos não se devem misturar com os mortos e que eu tinha aberto uma porta perigosa, mas aceitou fazer o ritual. Foi até ao jaigo da família Almeida nessa mesma tarde, armado com água benta e o livro de exorcismo. E eu fiquei na administração a roer as unhas e à espera que o telefone toque.
Os vigias contaram-me depois que na altura em que o padre começou a rezar, o tempo fechou de repente e um vento gelado varreu a ala sete, derrubando vasos de flores e fazendo as árvores estalarem como se fossem quebrar. Disseram que ouviram um choro agudo [música] e triste, que parecia vir debaixo da terra e que a foto de porcelana da Clarice estalada sozinha, fazendo um barulho seco de vidro a rebentar.
[música] O padre voltou pálido e suado e disse-me que tinha feito o que podia e que tinha encomendado a alma dela para a luz, mas que a vontade dela de ficar era muito forte e que tinha apenas enfraquecido o laço e não cortado totalmente. Disse-me para sair dali e nunca mais voltar, e foi o que fiz. Pedi transferência imediata, alegando problemas de saúde, e fui enviado para o cemitério de Vila Formosa, que fica do outro lado da cidade, e é um local mais aberto e menos sombrio.
Levei meses para recuperar fisicamente e tive que tomar muitos medicamentos para a anemia e vitamina para voltar a ter cor bochechas. O frio que sentia nos ossos demorou quase um ano a passar. E até hoje, nos dias de chuvisco miudinho, eu Sinto uma pontada no peito, como uma recordação daquele beijo gelado. Hoje trabalho na Vila Formosa e sou um homem mais fechado e converso pouco e evito olhar muito para as mulheres que visitam os túmulos sozinhas ao fim da tarde.
Carrego o meu escapulário dia e noite e rezo antes de dormir pedindo proteção. Mas as notícias correm entre os coveiros e acabamos por saber das coisas. Encontrei um antigo colega do cemitério municipal estes dias num bar e perguntei como estavam as coisas por lá e ele baixou a voz e contou-me que a ala sete continua estranha.
Ele disse-me que um coveiro novato, um rapaz jovem e bonito, tinha começado a trabalhar lá há uns dois meses e que o menino andava estranho e pálido e com olheiras profundas. disse que o rapaz ficava até mais tarde depois do [música] expediente e que tinha sido visto a conversar sozinho, perto do jazigo da família Almeida, sorrindo para o nada como um parvo [música] apaixonado.
E contou também que a foto de porcelana que tinha estalado apareceu nova em folha no dia seguinte, sem ninguém ter trocado, e que o túmulo vivia limpo e sem uma folha seca em cima, como se alguém cuidasse dele com muito amor. Eu não disse nada ao meu colega e apenas paguei a conta e fui embora sentindo um arrepio na nuca. Eu sei o que está a acontecer e sei que a Clarice não se foi embora e que apenas [música] mudou de namorado.
Ela continua lá, bela e pálida, com [música] o seu vestido azul e o seu perfume de lavanda, aguardando o próximo solitário para sugar a vida e preencher o vazio do coração gelado dela. Dizem que ela procura o amor que lhe foi negado em vida, mas sei que ela não procura amor, e sim companhia para o inferno. Se você passar pelo cemitério municipal de São Paulo num fim de tarde cinzento e sentir um cheiro doce a lavanda e ver uma rapariga bonita e triste, parada sozinha, não pare e não ofereça ajuda e nem lhe pergunte o nome, siga em frente
e não olhe para trás, porque o amor dela é a única coisa mais fria do que a própria morte. E uma vez que ela te beija, nunca mais sente calor de verdade.