EDUARDO BORGES MORREU HÁ 13 ANOS… E ALGO MUDOU DEPOIS DO ENTERRO | Contando histórias de terror 

EDUARDO BORGES MORREU HÁ 13 ANOS… E ALGO MUDOU DEPOIS DO ENTERRO | Contando histórias de terror

Trabalho no cemitério municipal de Paranaguá desde 1999. São 27 anos. Deve imaginar que passado tanto tempo já nada assusta. Mas o que aconteceu em 2015 mudou tudo. Eu não senti apenas algo, eu vi. Se você pensa que sabe o que acontece atrás dos portões de um cemitério, prepare-se, porque o que eu lhe vou dizer agora, eu nunca vi nada igual em quase três décadas de profissão.

 O meu nome é Carlos Eduardo Silva, tenho 52 anos e sou o funcionário mais antigo hoje em dia no cemitério municipal de Paranaguá. Já vi muita coisa durante todo este tempo, mas tem coisas que nunca esquecemos. Tem coisas que nos marcam para o resto da vida. Vou contar uma história que aconteceu comigo, que começou lá em 2002, já lá vão mais de 20 anos, mas lembro-me de cada detalhe e às vezes ainda hoje me faz perder o sono.

 Foi no final de um enterro, o enterro de um homem chamado Eduardo Borges. Era um dia de semana. A gente estava a terminar o serviço, fechando o túmulo dele. Trabalho normal, nada de diferente. Ou pelo menos era para ser assim, mas tinha algo de estranho naquele enterro. Eu não percebi na altura. Só fui perceber depois, quando as coisas começaram a acontecer.

 O enterro foi demasiado tranquilo, demasiado calmo. Pois é, a família estava lá, claro, umas 10, 15 pessoas, mas o silêncio era pesado. As pessoas olhavam para o caixão. Não era aquela tristeza, era outra coisa, como se tivessem de estar ali, mas não queriam. Eu e o outro funcionário, a gente comentou depois.

 Que enterro esquisito, certo? Os primeiros dias depois do enterro foram normais. A gente voltou para a rotina, mas comecei a sentir uma coisa diferente. Não sei explicar direito. Era como se o cemitério tivesse mudado. O ar estava mais pesado. Aí começou a história que mudou tudo. Foi cerca de duas semanas depois do enterro do Eduardo Borges.

 A gente sempre se encontrava de manhã na sala dos funcionários. Era a hora da troca de turno. O vigia da noite estava terminando e a gente estava a chegar para trabalhar. O vigia era um tipo chamado Roberto. Trabalhava aqui há uns 5 anos. A gente sempre conversava, falava de futebol, de mulheres, das coisas da vida.

 Por vezes contava que algum maluco tinha tentado saltar o muro para entrar no cemitério de madrugada, mas naquele dia foi diferente. A gente entrou na sala e o Roberto estava sentado. Parecia cansado, muito cansado. E tinha algo na cara dele. Dava para ver que não estava bem. Ele estava com a cara branca, os olhos meio arregalados, como se tivesse visto algo que não devia. Bom dia, Roberto.

 Tudo bem? Eu perguntei. Ele demorou um pouco a responder, só ficou a olhar para nós. Depois suspirou fundo e disse: “Aconteceu uma coisa esta noite. Disse que estava a fazer a ronda lá para as 3:15 da manhã. Tudo estava silencioso, como fica sempre de madrugada num cemitério. Aí ouviu um som estranho. Parecia vir da alaem.

 Um barulho que ele não conseguia identificar direito. Não era vento, não era bicho, era outra coisa. Ele pensou que alguém tinha saltado o muro sem ele ver. Isso acontece às vezes. Gente bêbeda, louca, querendo fazer gracinha. Depois pegou na lanterna e foi ver o que era. Quando começou a aproximar da ala M, a luz da lanterna começou a ficar fraca.

 Ele disse que bateu na lanterna pensando que a pilha estava a acabar, mas não resolveu. E foi ali que ele viu. Estava lá alguém. Parecia um homem parado entre os túmulos, mas tinha algo de estranho. O Roberto não conseguiu explicar bem. Disse que a figura estava parada, mas era como olhar para alguém.

 através de uma janela parecia desfocada. Ele disse que chamou: “Ei, senhor, o cemitério já está fechado.” A figura não respondeu, não se mexeu, ficou apenas ali parada. Então, resolveu aproximar-se mais. Ele tinha que tirar a pessoa dali, era o trabalho dele. Mas quando deu mais uns passos, a lanterna apagou-se completamente. Por um segundo ficou tudo escuro, um escuro total.

 Quando a luz voltou, não não estava lá mais ninguém. Ele disse que procurou, andou pela alaem inteira, olhou para trás dos túmulos, nas árvores, em todo o canto. Nada. A pessoa tinha desaparecido. Não tinha para onde fugir, não tinha como sair dali tão depressa sem fazer barulho, mas tinha desaparecido. Ele terminou de contar a história e ficou a olhar para gente, à espera da reação.

 A sala explodiu em gargalhadas. Ah, Roberto, está de brincadeira, fantasminha. É, deve ter bebido ontem, hein? Outro funcionário gritou. Todo o mundo riu. Acharam que era piada, que o Roberto estava a inventar história para nos assustar, mas eu olhei para a cara dele e ele não estava rindo. Os olhos dele não mentiam.

 Ele tinha visto alguma coisa, alguma que o tinha assustado de verdade. Um homem que trabalha a noite inteira sozinho num cemitério não se assusta fácil, mas estava assustado. Eu não ri-me, só fiquei a olhar para ele e vi. Era medo, medo de verdade. Pode rir, pessoal, disse, levantando-se. Mas eu vi o que vi.

 Pegou na mochila dele e foi-se embora sem dizer mais nada. A gente continuou a brincadeira mais um pouco, mas quando todos saíram para trabalhar, ficou aquela coisa no ar, aquele clima estranho, como se no fundo ninguém tivesse a certeza se era uma piada ou não. Eu fui fazer o meu trabalho, mas o dia inteiro fiquei a pensar no que o O Roberto tinha contado e o que podia ser.

Na altura não sabia, mas ia descobrir da pior forma possível. As coisas estavam só a começar. Os meses foram passando. A história do Roberto tornou-se piada entre a gente. Toda vez que alguém ia trabalhar para a ala M, os outros brincavam: “Cuidado com o fantasma, não esquece a lanterna”. Este tipo de coisas.

A gente ria. Mas o Roberto não achava graça. Ele continuava a trabalhar, mas mudou. Ficou mais calado, mais fechado. Depois começaram a acontecer outras coisas. Primeiro foi com o senhor Alberto. Ele estava a trabalhar na ala M, fazendo manutenção num túmulo. Era meio-dia, sol quente, nada de estranho.

 De repente, voltou para a sala dos funcionários. A cara dele estava branca. Que foi? Eu perguntei. Comecei a sentir-me mal, ele disse. Uma forte dor de cabeça. E do nada não aguentei e tive de parar. A gente pensava que era o sol, calor forte, falta de água, essas coisas, mas ele jurou que não era isso.

 Disse que a dor veio de repente quando estava mesmo no meio da alaem. Era como se alguém tivesse apertando com força a cabeça dele. Poucas semanas depois, foi a vez da dona Ana. Trabalhava na limpeza, mesma coisa. Passou mal na alaem, com dor de cabeça, tonturas e mal-estar. teve que ir embora mais cedo. Aí começou a aparecer mais gente com os mesmos sintomas, sempre na alaem.

 A dor de cabeça súbita e intensa, a tontura repentina, aquela sensação má que obrigava as pessoas a pararem o que estavam a fazer. Não era todos os dias, mas quando acontecia era sempre no mesmo lugar. E não éramos só nós. Os visitantes também começaram a queixar-se. A administração do cemitério começou a receber chamadas, pessoas a dizer que tinha passado mal quando foi visitar parente.

 Uma senhora ligou a dizer que desmaiou ali. Outra disse que o filho dela vomitou sempre na mesma zona. A coisa começou a espalhar-se. Era como se que, fosse o que fosse, estivesse crescendo, tomando conta aos poucos. Primeiro era só a alaem. Depois começou a aparecer gente a passar mal na ala L, que fica ao lado, depois na ala N, como uma mancha que ia crescendo lentamente, mas o pior foram os dias em que aquele cheiro aparecia. Ui, aquilo era de matar.

Aconteceu duas vezes em todo este tempo. A primeira vez foi cerca de seis meses depois do funeral do Eduardo Borges. Cheguei de manhã para o trabalho e senti logo um odor insuportável, muito forte. Muito mau. Parecia cheiro de bicho morto, mas pior, muito pior. Era um cheiro que dava ânsia. Todo mundo sentiu. Visitantes reclamaram.

 A administração ficou desesperada. Tem que descobrir o que é isso o chefe disse. A gente pensava que era algum túmulo com problema. Por vezes a terra cede, aparecem fissuras, essas coisas. O corpo está exposto e dá cheiro. Já aconteceu antes. A gente sabe lidar com isso. Fizemos horas extra, eu e mais dois funcionários.

 Passámos o dia inteiro verificando túmulo a túmulo. Olhamos tudo. Terra, estrutura, tampas, tudo. Procuramos fenda, buraco, qualquer sinal de problema, nada. Não tinha nada errado, sem jazigo com problema, nenhuma explicação. No dia seguinte, aquele cheiro podre tinha desaparecido como se nunca tivesse existido. A segunda vez foi cerca de dois anos depois.

 Mesma coisa, cheiro de decomposição impressionante, horrível. A gente verificou tudo de novo. Nada. Ninguém conseguia explicar de onde vinha aquele cheiro, porque aparecia e desaparecia assim, não fazia sentido nenhum. Mas a gente continuava trabalhando. Cemitério não pára. E o Roberto, continuou no turno da noite, mas estava diferente, muito diferente.

 Ele já não falava da história que tinha visto, não contava mais nada para nós. Chegava de manhã, trocava de turno e ia embora rapidamente, sem conversa, sem brincadeira, nada. Os olhos dele tinham mudado. Parecia cansado o tempo todo, com medo o tempo todo, como se estivesse a carregar um peso que ninguém via.

 Um ano depois daquela noite que viu a figura, o Roberto pediu demissão. Não avisou nada antes. Chegou um dia, foi à administração e pediu para sair. Disse que tinha arranjado outro emprego. A gente tentou falar com ele. Que emprego, Roberto? Onde vai trabalhar? Não respondia direito, só dizia que estava a sair. No último dia dele, tentei conversar.

 A gente estava sozinho na sala dos funcionários. Roberto, o que aconteceu mesmo naquela noite? Eu perguntei. Pode dizer-me? Ele olhou para mim. Os olhos dele estavam encovados, cansados. Abriu a boca para falar, mas parou. Ficou em silêncio uns segundos. Depois disse só isso. Carlos, se um dia vir alguma coisa estranha aqui, sai.

 Não fica, não tenta compreender, só sai. Pegou na mochila e foi embora. Nunca mais voltou. A gente tentou falar com ele. Depois ligamos para o número dele, enviamos mensagem e nada. O O Roberto simplesmente desapareceu. Na época a gente achou estranho, mas deixou para lá. Cada um com a sua vida, certo? Mas hoje compreendo, hoje sei.

 O Roberto tinha visto algo, algo que o assustou de verdade. A sua fuga era um aviso, um grande e claro aviso na nossa cara. Mas ninguém acreditou. A gente não quis entender. Achou que era um exagero. Se eu tivesse prestado atenção ao aviso do Roberto, muita coisa poderia ter sido diferente. Poderia ter evitado o que aconteceu comigo.

 Mas ninguém prestou atenção. Os anos foram passando. 2003, 2004, 2005. Os enterramentos continuavam, o trabalho continuava, a alaem continuava a dar problema, pessoas a passar mal. aquele mau tempo, mas a gente se acostumou. Sabe como é? Quando uma coisa se vira rotina, deixa de dar importância. Até que chegou o dia em que tudo mudou para mim.

 Estávamos em 2015, fazia mais ou menos 13 anos do funeral do Eduardo Borges. Eu já tinha 41 anos. Eu tive que ficar até mais tarde. Uma família tinha pedido reforma num túmulo na ala S. Era um grande serviço, tinha que terminar naquele dia. Então fiquei. Era por volta das 17h40 quando aconteceu. E foi aí então que eu compreendi. Entendi o aviso do Roberto porque agora era a a minha vez.

 Eu estava a trabalhar na renovação de um jazigo na ala S, serviço pesado. Tinha que trocar a tampa, arranjar a estrutura, limpar tudo. A família queria deixar bonito para o dia de finados que estava a chegar. Trabalho demorado, mas eu estava quase terminando. Eram cerca das 5:40 da tarde. O sol já estava baixo. O cemitério começava a ficar vazio.

 Os visitantes tinham ido embora, os outros funcionários também. Eu estava sozinho, ou pelo menos era para estar. De repente senti algo, uma presença. Sabe quando sente que tem alguém a olhar para você? Aquela sensação na nuca, aquele arrepio, era isso. Só que mais forte, muito mais forte. Pensei: “Não deve ser nada.

 O cemitério dá sempre essa sensação em nós. Já tinha sentido isso muitas vezes, mas desta vez era diferente. A sensação não passava, tornava-se mais forte, como se algo estivesse mesmo atrás de mim, parado, me olhando. Continuei a trabalhar. Tentei ignorar, mas não conseguia. O coração começou a bater mais depressa, as mãos começaram a suar, aquela sensação só aumentava. Aí pensei: “Vou desenrascar-me”.

Não vai ter nada. Nunca tem. Vou olhar e vai estar vazio como sempre. Virei-me devagar, esperando ver nada, mas estava errado. Estava ali alguém, um homem parado a cerca de 5 m de mim, a olhar para mim. Meu coração parou por um segundo. Ele estava parado, totalmente parado. Não piscava, não se mexia, apenas olhava.

 O olhar dele era estranho, não era um olhar normal de pessoa, era vazio, frio, como se ele estivesse a estudar-me, a analisar-me, tentando perceber alguma coisa. Eu nunca já tinha visto um olhar assim antes. Fiquei ali segurando a pá, sem saber o que fazer. O meu corpo tinha travado, como se não me conseguisse mexer.

 A sensação era horrível. Era como estar preso, paralisado, mas não tinha nada me segurando. Era só aquele olhar. Uns segundos se passaram, pareceram horas. Depois começou a andar devagar, muito devagar, passos lentos, cadenciados, como se me estivesse a observar enquanto se movia. Os seus olhos não saíam de mim. Consegui voltar a mexer-me.

Respirei fundo. Calma, Carlos. É só um visitante. Deve ter ficado depois do horário. Só isso. Tentei falar. A voz saiu trémula. O senhor precisa de ajuda? O cemitério já vai fechar. Ele não respondeu, não disse nada. Continuou andando. Passou ao meu lado, muito perto, demasiado perto.

 Senti um frio quando ele passou. um frio que não era normal. Ele continuou a caminhar e em direção à ala M. Os passos lentos, o corpo meio rígido, sem olhar para trás. Uma sensação de o medo tomou conta de mim. Um medo que eu não conseguia explicar. Era medo de algo que não compreendia, algo que não era normal.

 Fiquei ali parado a vê-lo desaparecer entre os túmulos, o coração batendo com força, as mãos a tremer. “Acaba logo o serviço e vai-se embora”, pensei. “Acaba e sai daqui.” Voltei para o trabalho. As mãos tremiam tanto que quase derrubei a ferramenta. Trabalhei rápido, muito rápido. Não parei, não Olhei para trás. Só queria acabar depressa.

Quando terminei, já eram quase 7 horas. O sol tinha-se posto, estava a começar a escurecer aquela luz ténue do fim da tarde, a hora em que tudo parece mais triste, mais pesado. Juntei as ferramentas e a levar para guardar na sala de equipamento, depois arranjar-me e ir embora. Comecei a andar. O caminho para a sala era pela alacá, depois virava à esquerda. caminho que fazia todos os dias.

Conhecia de olhos fechados, mas algo estava errado. Andei, andei, andei e quando olhei em redor, não estava na ala K, estava na ala M. Como tinha ido parar ali? Não fazia sentido. Eu conhecia todo aquele cemitério. Não era possível perder-me, mas estava lá, no meio da ala M, sem saber como tinha chegado.

 E o pior, estava parado bem do lado do túmulo de Eduardo Borges. Meu corpo ficou gelado, as pernas ficaram fracas. Olhei para o túmulo, a lápide com o seu nome, Eduardo Borges. 1960 2002. Sai daqui, Carlos. Eu pensei. Sai agora. Tentei mexer-me, mas não consegui porque senti de novo aquela presença, aquele frio, aquela sensação de que algo estava perto de mim, muito perto.

 Virei devagar e ele estava ali à minha frente, o mesmo homem parado a olhar para mim. Dessa vez estava mais perto, muito mais perto. Dava para ver o rosto dele direito agora. Um rosto magro, olhos encovados, a pele pálida, mas o pior eram os olhos, aquele vazio nos olhos e o cheiro. Meu Deus, o cheiro era aquele odor insuportável que aparecia no cemitério, aquela emanação pútrida, horrível, mas agora estava muito mais forte.

 Entrava pelo nariz, descia para a garganta, dava vontade de vomitar. A dor de cabeça começou, uma dor forte. muito forte, como se alguém me tivesse martelado a cabeça por dentro. Depois veio a dor no corpo, em cada parte do corpo, nos braços, nas pernas, nas costas, no peito. Tudo doía. Uma dor insuportável, como se cada músculo estivesse a ser esmagado.

 Caí de joelhos, as ferramentas caíram no chão. Fiz barulho, mas não conseguia levantar-me. A dor era muita. E foi aí que começou o pior, a voz. Mas não era uma voz normal, não vinha de fora, era de dentro, de dentro da a minha cabeça. Pensamentos que não eram os meus começaram a aparecer. Palavras que não estava a pensar, como se alguém tivesse-as colocado lá, plantado-as dentro do meu cérebro.

 Pausa dramática 2 segundos. Foi você. Pausa dramática 2 segundos. Não, não fui eu. O quê? Do que está a falar? Por que razão fez isso? Eu não fiz nada. Eu não sei do que é que está a falar. Era para ser outra pessoa. Que outra pessoa? Que outra pessoa. Você não pode fazer isso. Eu não fiz nada. Eu juro. Eu não fiz nada.

 Mas as palavras não me saíam da boca. Eu estava tentando gritar, tentando responder, mas nada saía. As palavras ficavam presas e aqueles pensamentos continuavam a vir, sendo colocados dentro de mim, como se algo me estivesse a entrar na cabeça. Senti que algo estava a tentar entrar no o meu corpo, tomar conta de mim, invadir cada parte de mim.

 Era uma sensação horrível de violação, de estar a ser tomado por algo que não era eu. A dor piorou, muito pior. Dores que nunca tinha sentido na vida, que nem sabia que existiam. A angústia era insuportável, uma tristeza profunda, um desespero sem fim, como se todo o sofrimento daquela coisa tivesse caído em cima de mim de uma só vez.

 Não era só dor física. Era dor na alma, um vazio, uma dor que não tinha nome. Tentei gritar, tentei pedir ajuda, mas não conseguia. A voz não saía, o corpo não respondia, as palavras continuavam na a minha cabeça. Foi você, foi você, foi você. Tudo começou a escurecer. A visão ficou desfocada, as dores ficaram distantes, como se eu estivesse a se afastando-se do próprio corpo.

 A última coisa que me lembro é de cair no chão, do lado do túmulo de Eduardo Borges e daquele olhar vazio a fitar-me. Depois nada, ficou tudo preto. Acordei com a sensação de que alguém estava a bater na a minha cabeça com um martelo, uma dor forte, muito forte. Abri os olhos devagar. Tudo estava meio desfocado. Demorei uns segundos a perceber onde eu estava.

 Estava na sala dos funcionários, deitado no chão, o corpo todo dorido, a boca seca, a cabeça latejando. Que sensação é esta? Pensei o que me aconteceu? Tentei lembrar-me. Tinha imagens na cabeça. O homem, a ala M, o túmulo de Eduardo Borges, aquela voz dentro da minha cabeça, as dores, mas estava tudo confuso, meio baralhado, como um pesadelo que se não sabe bem se foi real ou não.

Tentei levantar-me, as pernas estavam fracas, o corpo pesado, consegui sentar-me, encostei-me à parede, respirei fundo. A dor de cabeça era terrível. Quem era ele? Eu pensava: “Ou aquilo? O que era aquilo?” As perguntas não paravam de vir. Foi você? Por que razão fez isso? Era para ser outra pessoa.

 O que aquilo queria dizer? Eu não percebia nada. Não fazia sentido nenhum. De repente, a porta da sala abriu-se. Quase saltei de susto. Era o Marcelo, o vigia do turno da noite. Olhou para mim com a cara de espanto. Carlos, estás bem? Ele perguntou preocupado. Eu, estou, respondi, mas a voz saiu-me fraca. Rapaz, ouvi uns gritos aqui dentro da sala.

Pensei que tinha alguém a atacar-te. Vim correndo. Gritos. Eu tinha gritado, não lembrava-se de ter gritado ou tinha. Que horas são? Perguntei. 19h30 da noite. Estás aqui desde que horas? 7:30. Eu tinha desmaiado. Quanto tempo? Quanto tempo fiquei apagado? Será que eu sonhei? Pensei.

 Será que nunca estive na ala M? Será que foi tudo na minha cabeça? Mas as dores eram reais. O cansaço era real. E aquela sensação, aquela sensação horrível de ter sido invadido, isso também era real ou não? Quer que eu chame alguém? Uma ambulância?”, o Marcelo perguntou: “Não, não, estou bem. Só, só preciso de um pouco de água.” Ele trouxe água.

 A garganta estava seco, a água ajudou, mas a dor de cabeça continuava. Fiquei ali mais uns 5 minutos a tentar juntar as peças, tentando compreender, mas não conseguia. Estava tudo demasiado confuso. “Vou embora”, disse para o Marcelo. “Obrigado pela água. Tem a certeza? Quer que eu lhe leve a casa?” “Não é preciso, já passa”.

Peguei nas minhas coisas e saí. Fui direto para o carro, entrei, fechei a porta e Fiquei ali sentado no escuro, só respirando, tentando acalmar-me. Dirigi para casa devagar, a cabeça doía, o corpo doía, mas cheguei bem. Aquela noite não dormi. Fiquei deitado na cama, olhando para o teto, pensando, repassando tudo na cabeça mil vezes.

 Será que tinha aconteceu mesmo ou foi tudo imaginação? No outro dia estava de volta ao trabalho. Não podia faltar. tinha serviço para fazer, mas estava cansado, muito cansado. Parecia que não tinha dormido há dias. O dia todo fiquei pensando, evitei a ala M. Mantive-me longe a partir daí, trabalhei noutras áreas, mas não conseguia parar de pensar.

 Até que no fim da tarde criei coragem. Vou lá, decidi. Vou ver o túmulo do Eduardo Borges. Vou ver se tem alguma coisa diferente. Se foi tudo sonho, não vai não ter nada. Se foi real, bem, aí vou saber. Caminhei até à ala M, o coração batendo com força, as mãos suadas. Tinha medo do que ia encontrar ou do que não ia encontrar.

 Cheguei ao túmulo do Eduardo. Parecia normal. Fiquei ali parado, a olhar. Foi sonho. Então, pensei, só isso. Eu passei mal, desmaiei e sonhei tudo. Ia virar-se para ir embora quando algo me chamou a atenção. Na lateral da lápide tinha algo, uma marca. Aproximei-me mais, abaixei-me para ver melhor. Era uma marca.

 Parecia, parecia uma mão. Cinco dedos marcados no mármore, como se alguém tivesse passado a mão ali. Não era sujidade, não era riscos de vandalismo, era uma marca. Passei o dedo na marca. Estava ali, real. Não foi um sonho, pensei. Não foi imaginação. Foi real. Aconteceu de verdade. Senti as pernas ficarem fracas de novo.

 Sentei-me no chão do lado do túmulo. Fiquei ali só a olhar para aquela marca. O que faço agora? Pensei. Conto a alguém? Falo pro padre. Para quem? Mas dizer o quê? Que algo me entrou na cabeça, que tem uma marca de mão numa lápide? iam achar que eu tinha enlouquecido. Fiquei ali muito tempo só a pensar, a tentar entender. Aí veio-me à cabeça aquela angústia, aquela tristeza profunda que eu tinha sentido.

 Não era raiva, não era ódio, era sofrimento, era dor. Como se aquela alma estivesse a sofrer demais, como se não encontrasse a paz. Eduardo Borges! Falei baixinho, olhando para a Lápide. O que aconteceu consigo? O que fizeram com você? Não tive resposta, claro, mas aquela sensação continuava ali, aquele peso, aquele sofrimento.

 E foi aí que eu decidi. A única coisa que posso fazer é rezar por si, disse. Não sei o que aconteceu. Não sei por que sofre tanto, mas vou rezar. Vou pedir a Deus que te dê paz, para que encontre descanso. Juntei as mãos e rezei ali mesmo, pedir para ele encontrar a paz, para ele parar de sofrer.

 Quando terminei, senti algo diferente. Não sei explicar bem, mas era como se o ar tivesse ficado mais leve, como se aquele peso tivesse diminuído um pouco. Levantei-me, olhei mais uma vez para a marca na lápide. Ainda estava lá, ia estar sempre. Vou voltar. Prometi. Sempre que puder, voltarei aqui e rezar por si. E foi o que eu fiz. E é o que faço até hoje.

 Sempre que posso, passo no túmulo do Eduardo Borges. Por vezes é uma vez por semana, às vezes duas, depende do serviço. Mas vou sempre. Levo flores quando posso, limpo a lápide e rezo. Sempre rezo. Nunca soube o que lhe aconteceu. Nunca Descobri porque é que ele sofre tanto, porque aquela alma não encontra a paz, o que significava aquelas perguntas.

 Mas eu Sinto o sofrimento dele, sinto a angústia, a dor. E isso é muito forte, muito real. A marca continua lá na lateral da lápide, nunca desapareceu. Chuva não apaga, sola, está ali permanente. Um testemunho de algo que aconteceu, algo que vi, algo que vivi. Nunca vi nada assim antes. Em 27 anos de cemitério, vi muita coisa, mas aquilo, aquilo foi diferente.

 Por isso, continuo orando, continuo a pedir para ele encontrar a calma, encontrar a paz, encontrar descanso. Não sei se as minhas as orações ajudam, não sei se ele me ouve, mas é o que posso fazer. Às vezes, quando estou ali sozinho, a rezar do lado do túmulo, sinto aquela presença de novo, leve, não assustadora como foi nesse dia, mas é como se ele estivesse ali a ouvir: “O cemitério continua, a vida continua, ou melhor, a morte continua.

 Todos os dias há enterro, todos os dias tem trabalho. Mas agora sei, sei que há coisas que a gente não entende, coisas que não explicamos, coisas que estão para além da nossa compreensão. E quando passo pela ala M, olho para os túmulos e penso: “Quantas histórias estão aqui enterradas? Quantos segredos, quantos sofrimentos que ninguém conhece. Trabalho no cemitério desde 1999, são 27 anos.

 Nunca vi nada assim antes e espero nunca mais o ver. Mas se Eduardo Borges precisar das minhas orações, vou estar lá, porque algumas as almas precisam de ajuda para encontrar paz. E essa é a minha forma de ajudar. E se quiser ajudar, deixe uma rosa nos comentários que me lembrarei de todos quando orar pelo Eduardo.

 

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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