EM 2003, ELA FOI AO FUNERAL DELA….E ALGO MUDOU NAQUELE TÚMULO! | HISTÓRIA DE TERROR REAL
EM 2003, ELA FOI AO FUNERAL DELA….E ALGO MUDOU NAQUELE TÚMULO! | HISTÓRIA DE TERROR REAL 
Em 25 anos de cemitério, já vi muita coisa em enterro, mas só uma vez vi alguém chegar a um funeral e mudar tudo com um olhar. E foi no dia 5 de junho de 2003. Eu não sabia ainda quem era aquela mulher e eu só fui compreender meses depois, quando o que ficou naquele túmulo não me deixou outra hipótese. Meu nome é José Carlos Oliveira, tenho 55 anos e trabalho no cemitério municipal de Irati, no Paraná.
E essa é a minha história em minutos. Eu cheguei cedo nessa manhã no cemitério e fui direto levantar a ficha do serviço. Marcos Aurélio Dias, 45 anos. O enterro estava marcado para o meio-dia. Então eu peguei nas ferramentas e fui preparar a cova. Eu Trabalhei nessa manhã sem nada de diferente. O frio do ar, o cheiro a terra húmida, o silêncio daquele corredor.
Tudo estava normal, como qualquer outra manhã de serviço. Eu acabei de cavar a cova um pouco antes das 10 e fui arrumando as coisas à espera que o enterro comece. Então a família começou a chegar um pouco depois das 11 horas. Era um grupo pequeno. Eu vi uma senhora que era provavelmente a mãe do Marcos. Estava destruída, com aquele rosto de quem chora há dias e já já não há lágrima, só aquela dor que não passa.
E mais alguns familiares e amigos. Nada fora do normal. A dor era de verdade, dava para sentir. Era uma tristeza pesada de quem perdeu alguém cedo demais. Então o padre chegou logo depois, um homem de uns 50 e tal anos, jeito calmo, voz firme, o tipo que conduz uma cerimónia sem pressa e sem enrolar. Tudo estava dentro do normal. Fiquei no meu lugar de sempre, um pouco afastado, perto das ferramentas, apenas observando e esperando o momento de fechar o túmulo.
E foi então que eu vi uma mulher entrar pelo portão lateral. Ela não era da família. Dava para perceber pela forma como as pessoas em redor reagiram quando ela apareceu. E o que eu vi naquele momento foi diferente. Todos os rostos se viraram na direção dela, os olhares que trocaram entre si, coxichos que começaram assim que ela chegou.
Ela não era bem-vinda ali. Dava para sentir isso. A mulher tinha uns 30 e poucos anos, o cabelo escuro preso atrás, roupa simples e caminhava com passo firme, sem hesitar, como alguém que tinha decidido estar ali e não ia mudar de ideias por nada. Mas ela não foi em direção ao grupo. Ela parou num canto afastado do outro lado do corredor e ficou de pé, a olhar para o enterro de longe e com os braços cruzados à frente do corpo, com uma expressão no rosto que não parecia tristeza.
Era outra coisa que naquele momento ainda não sabia. Então o padre iniciou a cerimónia com a família reunida em redor do caixão. A mãe do O Marcos esteve o tempo todo com a mão de um dos filhos a segurar a dela. Eu olhei algumas vezes para a mulher que está no canto. Ela não se mexeu. só ficou parada nesse mesmo local durante toda a cerimónia, olhando, sem rezar em conjunto, sem aproximar-se, sem fazer qualquer gesto, só olhando com aquela expressão que eu não conseguia tirá-lo do canto do olho.
Tinha algo naquele olhar que me inquietava, sem eu saber dizer o que era. Assim, a cerimónia foi chegando ao fim. O caixão começou a descer e a família tornou-se aproximou-se para a despedida. Um a um, uns colocando a mão no caixão, outros apenas olhando para baixo em silêncio. A mãe foi a última.
Ela ficou parada na beira da sepultura por um tempo despedindo-se do filho e depois afastou-se. As pessoas começaram a ir-se embora aos poucos e foi nesse momento que aquela mulher que estava afastada no canto mexeu-se. Ela saiu do local onde estava e começou a caminhar em direção ao túmulo, lentamente, com aquele passo firme de antes, como se soubesse exatamente para onde ia e não tivesse qualquer dúvida sobre isso.
Uma pessoa da família viu e gritou: “O que está a fazer aqui? O que você quer? Não tem vergonha de aparecer aqui depois de tudo?” A voz cortou o corredor de uma ponta à outra. Todo mundo que ainda estava a sair parou. O padre olhou. Eu olhei e depois o clima mudou. Foi como se aquele grito tivesse despertado alguma coisa no ar daquele corredor, uma pressão que senti nos ombros antes de conseguir explicar o que estava a acontecer.
O ambiente que estava pesado pelo luto tinha mudado. Estava diferente, mais denso, como se algo que estava quieto até ali tivesse sido acordado por aquelas palavras. Mas a mulher não parou. Ela não respondeu. Não olhou para quem tinha gritado, só continuou a caminhar em direção ao túmulo, como se o grito não tivesse chegado até ela.
E com uma firmeza que me perturbou mais do que qualquer coisa até ali. Uma mulher da família deu um passo em direção a ela e um dos homens segurou-a pelo braço. Assim, quando a mulher chegou à frente do túmulo, ela parou e olhou para baixo, para o caixão que estava lá ao fundo. Era como se ela visse o homem que estava lá dentro, como se olhasse diretamente para ele.
Ela ficou parada por alguns segundos e falou algo que não consegui escutar. Eu estava demasiado longe e a voz dela era baixa e sem choro. Mas eu via o rosto dela enquanto falava, e não eram expressões de adeus e nemhuma despedida. Então, ela ficou ali menos de um minuto e depois virou-se para ir embora. E foi nesse momento que o seu olhar cruzou-se com o meu, e por um segundo apenas, os olhos dela passaram pela minha direção e olharam para mim antes de continuar caminhando em direção à saída.
E eu vi tudo que estava naquele olhar, a raiva, a dor e o ódio. E nesse mesmo segundo eu senti algo mudar naquele túmulo. Foi uma sensação que chegou de fora para dentro e um arrepio que percorreu todo o meu corpo no momento exato em que o olhar dela cruzou-se com o meu. Foi como se aquele peso que estava no ar naquele momento se tivesse fixado ali naquele túmulo. Não sabia o que era.
Nunca tinha sentido nada assim. Eu não sabia se era a coisa da minha cabeça ou se era o peso da cena que eu tinha acabado de ver. Mas senti. Aquela mulher foi embora sem olhar para trás. O corredor foi esvaziando até ficar só eu e o serviço que precisava de ser feito. Então, fechei o túmulo do Marcos Aurélio Dias sozinho naquela tarde fria de junho.
E quando a última pá de terra cobriu tudo, parei por momentos com a pá na mão e olhando para aquele túmulo. Alguma coisa estava ali diferente. Eu ainda não sabia o que era, mas estava e ia continuar por muito tempo. Nos dias seguintes ao enterro, tentei não pensar no que tinha sentido naquele corredor, mas não consegui, porque toda a vez que passava perto daquele túmulo, eu sentia.
Era uma inquietação que começava no peito. O meu coração acelerava, a minha respiração alterava-se, ficava mais pesada. Era como se algo estivesse a ocupar aquele espaço. E isso só passava quando afastava-me daquele lugar. Eu tentei encontrar uma explicação para tal, o cansaço ou talvez a cena que tinha visto no funeral, que foi algo que nunca tinha visto antes.
A cabeça da gente é capaz de criar coisas onde não tem nada. Eu sabia disso e repeti-o para mim mesmo várias vezes naqueles primeiros dias. E algumas semanas depois do enterro, fui fazer a manutenção da área, limpeza de corredor e verificação de túmulos. Era um serviço de rotina e que precisava de ser feito. E quando vi, já estava perto do túmulo do Marcos.
Foi quando senti aquela pressão e uma dor de cabeça que nunca tinha sentido antes. Aquilo chegou de uma vez. Então Parei e não dei nem mais um passo. Foi quando olhei para aquele túmulo e estava igual a todos os outros ao redor. Não havia nada de diferente, mas aquela dor de cabeça e aquela pressão que não ia embora e eu não conseguia perceber o que estava a acontecer.
Simplesmente afastei-me devagar e fui terminar o serviço noutra área. E foi na semana seguinte que ouvi falar pela primeira vez de quem era a mulher do enterro. Foi a dona Neusa que me contou. Ela trabalhava no cemitério há muitos anos. Serviços gerais, limpeza, essas coisas. De vez em quando fazia algumas diárias em casas da cidade quando tinha folga.
Era uma senhora de uns 55 anos. Eu estava no intervalo do almoço, sentado num banco perto do guarita. Quando a dona Neusa chegou e sentou-se ao meu lado, ela perguntou se tinha sido eu que fiz o enterro do Marcos Aurélio Dias e se algo estranho tinha acontecido. Eu disse que sim. Depois ficou quieta por um segundo e depois chegou um passo mais perto e começou a falar.
Ela disse que conhecia a história daquele rapaz e ela já tinha feito algumas diárias em casa deles e que ao longo do tempo se tinha tornado sabendo muita coisa sobre o Marcos e a Vera, que era a mulher que tinha aparecido no funeral. Então eu fiquei quieto à espera que ela continue. Dona Neusa disse que cerca de três anos antes de morrer, o Marcos descobriu um cancro forte e que já estava num estágio avançado.
Era um daqueles casos que os os médicos olham e dizem logo que o caminho vai ser difícil e que talvez não houvesse muito tempo. Mas a Vera ficou do lado desde o primeiro dia. Ela deixou o emprego para cuidar dele, abdicou de tudo. Ela estava lá nas consultas, nos dias maus e nas noites que o Marcos não conseguia dormir com dores.
Sempre cuidou dele com uma dedicação que a dona Neusa disse que nunca tinha visto igual em muitos anos. Parei o que estava fazendo e fiquei só a ouvir. Ela disse que o Marcos foi melhorando aos poucos e que o tratamento foi funcionando. E depois de meses muito difíceis, a doença começou a ceder. Assim, os médicos foram ficando mais esperançosos e num determinado momento ficou claro que ele tinha passado pelo pior e estava começando a melhorar.
Então perguntei o que aconteceu por a Vera estar com tanta raiva e ódio dele no dia do enterro. A Dona Neusa baixou a cabeça e a voz e depois disse quando tudo começou a mudar que Marcos se foi distanciando aos poucos. Primeiro ficou mais quieto, mais fechado, como se algo estivesse errado. Até que num dia se foi embora sem briga e sem explicação.
Ele simplesmente foi embora e deixou a Vera para trás depois de tudo o que ela tinha feito por ele. Eu fiquei em silêncio processando aquilo. E então a dona Neusa disse uma coisa que guardei comigo. Ela disse que 7 meses depois de ter saído, o cancro voltou e que desta vez não respondeu ao tratamento e que acabou morrendo sozinho e sem ninguém.
A dona A Neusa ficou quieta depois disso e foi embora sem dizer mais nada. Eu passei o dia inteiro a pensar e fui para casa naquela noite com aquela história na cabeça e com uma dúvida que não fechava. O que eu estava a sentir naquele túmulo tinha a ver com as palavras que a Vera tinha dito no funeral, com o ódio que eu tinha visto no rosto dela, ou era alguma coisa que vinha do próprio Marcos, uma culpa que não deixava aquela alma descansar.
Eu não sabia se este realmente era possível, mas talvez fosse uma explicação para o que eu estava sentindo naquele túmulo, uma vez que mais nada fazia sentido. E nos dias seguintes, parece que tudo tinha piorado. As dores de cabeça e os arrepios continuavam. E não era só comigo. Outros funcionários também sentiam que aquele túmulo estava diferente dos outros.
O senhor Fernando, o vigia da noite. Certo dia, escutei ele a falar com outro funcionário quando estava a passar pela guarita para ir embora. Ele disse que estava a escutar sons em algumas noites vindos da ala l, era onde estava o túmulo do Marcos. Mas nunca tinha escutado nada naquela área e nem junto ao túmulo durante o dia, até começar a prestar mais atenção.
E isso demorei a aceitar que estava a ouvir de verdade. As primeiras vezes, pensei que fosse algum visitante a conversar em voz baixa num corredor próximo, mas aqueles sussurros não vinham de lado nenhum que consegui identificar e não dava para compreender nenhuma palavra, mas estavam lá. E então, num fim de tarde, antes de partir, decidi enfrentar, seja lá o que fosse aquilo que estivesse ali acontecendo.
Eu fui logo para aquele corredor. Assim que cheguei à entrada da Ala, senti uma pressão. Era como se algo soubesse que eu estava aproximando-me. Mas continuei andando até ao túmulo do Marcos, como se estivesse a tentar provar para mim mesmo que tudo aquilo era mentira. Mas foi aí que tudo começou. aquela dor de cabeça que agora chegou antes de eu chegar ao túmulo e um arrepio forte do cimo da cabeça até à cintura.
Mesmo assim eu não parei. Continuei e assim que cheguei à frente do túmulo do Marcos, sentindo toda aquela pressão que me parecia sufocar. Eu estava ali há uns dois minutos quando tudo parou e comecei a respirar fundo, tentando acalmar-me e me convencendo que era realmente coisa da a minha cabeça e que a história que a dona A Neusa tinha-me contado estava a pesar mais do que devia.
Mas foi quando os sussurros começaram. O meu corpo gelou na hora. Era como se estivesse dentro da a minha cabeça. Eu ainda não percebia. Mas tinha a certeza de que eram palavras. Era como se alguma coisa naquele ponto específico do cemitério estivesse tentando dizer algo que não conseguia compreender ainda.
Assim, a dor de cabeça voltou pior e juntamente com ela, uma tontura leve, mas presente. O tipo que faz o chão parecer que se move debaixo dos pés. Nessa altura pensei em sair a correr e simplesmente ir embora e nunca mais lá voltar. Mas o meu corpo não respondeu. Era como se algo não quisesse que eu me fosse embora.
E de repente eu senti um frio como se o ar tivesse alterado naquele ponto do cemitério num segundo só. E foi quando vi atrás do túmulo do Marcos uma sombra que conforme se aproximava ia ficando mais nítida. Eu Fiquei a olhar para aquilo sem piscar. com o coração acelerado e a dor de cabeça a latejar. E a cada segundo que passava aquela forma ficava um pouco mais definida, um pouco mais presente, como se estivesse a tomar um contorno.
Eu não consegui ir embora. O meu corpo estava em choque. Eu fiquei parado, olhando para aquela sombra que ia tornando-se mais nítida a cada segundo e com os sussurros que eu não compreendia vindos de dentro da minha cabeça. E a sombra continuava a ficar mais nítida, devagar. E quando reconhecia a silhueta, o meu estômago virou de uma só vez. Era o Marcos.
Não tinha como ser outra coisa. Eu tinha visto aquele homem no caixão, tinha via a foto na ficha do serviço e era ele que estava de pé à minha frente. Eu tentei gritar, abri a boca, forcei o ar e nada. Silêncio. Era como tentar gritar dentro de um sonho. A minha cabeça agora parecia que tinha algo a apertá-la por dentro e junto com ela um zumbido, um som constante no ouvido que foi crescendo até cobrir quase tudo ao redor.
O barulho do vento nas árvores desapareceu, o som da cidade lá fora desapareceu e ficou apenas aquele zumbido e o silêncio pesado daquele corredor. Os arrepios não pararam mais. Agora eram constantes, como se o corpo inteiro estivesse tentando avisar-me. Mas já era tarde demais. As minhas pernas cederam, fui perdendo as forças, todas aquelas sensações, tudo aquilo conseguia segurar.
E quando dei por mim, estava de joelhos no cimento frio daquele corredor com as mãos no chão. Eu levantei os olhos para o Marcos e este continuava de pé em frente do túmulo. Ele não se tinha movido. Estava parado naquele mesmo ponto, olhando na minha direção com uma expressão que eu conseguia ver agora com uma clareza que não tinha antes.
E o que eu via naquele rosto não era o que eu esperava. Não era raiva nem ameaça, era tristeza e culpa. Era o rosto de alguém que fez algo que não tem forma de desfazer e que sabe disso. Eu fiquei a olhar para ele no chão daquele corredor, sem conseguir mexer-me. Portanto, foi como se algo me tomasse a mente.
Era uma memória, mas não era minha. Era uma imagem dentro da minha cabeça, clara, nítida, como se estivesse a ver e não lembrando. Vi o Marcos sentado na beira de uma cama num quarto sozinho, com a cabeça baixa e os ombros curvados para a frente, daquele jeito de quem está carregando um peso ou uma culpa que não consegue segurar. E ele estava a chorar.
Mas não era raiva e não era medo. Era o choro de quem tomou uma decisão, de quem já decidiu e está a sofrer. Assim, a imagem desapareceu tão depressa como chegou. Não conseguia entender o que tinha acabado de ver. Foi quando escutei o sussurro. Só que diferente de todos os outros que tinha ouvido, estava dentro da cabeça e com uma clareza que fez-me demorar um segundo para perceber que não era um som vindo do exterior.
E ele dizia: “Ela não tem de passar por isto. Quatro palavras ditas com uma voz que eu não reconhecia, mas que soaram como alguém a falar para si próprio e não para mim. como quem está a convencer a si mesmo de uma decisão que já tomou, mas que ainda dói. E antes que eu conseguisse juntar algum pensamento, a segunda imagem chegou.
Desta vez era a Vera, a mulher do enterro. Ela estava sentada numa cadeira de hospital com o cabeça apoiada numa das mãos, cansada de uma forma que não era só de um dia mau. Era o cansaço de meses, de quem acordou cedo e dormiu tarde durante muito tempo, de quem pôs tudo de lado para cuidar de outra pessoa e que já estava a chegar ao limite do que uma pessoa consegue carregar.
E o Marcos estava deitado na cama, olhando-a com uma expressão de tristeza e culpa, o olhar de alguém que já não suporta ver o que aquela pessoa está a passar. E de novo a imagem desapareceu. O zumbido era tão alto agora que mal conseguia pensar. A dor de cabeça latejava em todo o rosto. Eu estava com as duas mãos no chão, tentando cair para o lado.
Quando vi um quarto com uma cama feita, uma mala aberta em cima da cama com roupa dobradas para dentro, o Marcos de costas para mim, arrumando as coisas e antes de fechar a mala ele parou e virou-se para a cama. E em cima da cama, ao lado da mala, tinha uma foto pequena. daquelas fotos de casal que ficam em porta-retratos, ele e a Vera juntos, os dois sorrindo, num tempo que parecia muito mais leve do que aquele momento.
Depois ficou olhando para aquela foto e depois foi-se embora, deixando a foto em cima da cama. E, juntamente com essa última imagem, tudo começou a desaparecer. O zumbido foi diminuindo gradualmente. Os arrepios foram parando um a um. A dor de cabeça foi cedendo lentamente. O frio que estava à volta do meu corpo foi saindo como se alguém tivesse aberto uma janela e deixado entrar o ar normal de volta.
Assim, levantei a cabeça devagar e o Marcos ia desaparecendo aos poucos, ficando menos presente, menos visível, como uma imagem que vai desvanecendo até ao momento em que olhei e ele tinha sumido. O corredor estava vazio, o sol já estava a baixar e tudo estava exatamente como quando tinha entrado ali. Fiquei sentado no chão por um tempo, com as três imagens a passarem na cabeça, uma depois da outra.
Ele chorando à beira da cama. A Vera destruído na cadeira do hospital, a foto deixada em cima da cama quando foi embora e as quatro palavras que tinha ouvido dentro da cabeça. Ela não tem de passar por isso. Eu fui juntando tudo aquilo devagar. A história que a dona A Neusa tinha-me contado, o choro dele sentado na cama, o olhar de Marcos para a Vera e a foto abandonada naquele imagem.
E quando as peças começaram a encaixar, eu entendi uma coisa que a Vera não sabia, que provavelmente ninguém sabia. O Marcos não tinha ido embora por falta de amor. Tinha ido embora por causa dele, por se sentir um peso, por ver a Vera destruída e achar que era por causa dele, por não conseguir ficar e ver a pessoa que amava se acabando por sua causa.
E achar que ir embora era a única coisa que ele ainda podia fazer por ela. E ele tinha destruído tudo com este pensamento e tinha morrido sabendo disso. Eu me levantei-me do chão lentamente. As pernas estavam fracas, mas obedeciam de novo. Assim, saí daquele corredor em passo lento e com três imagens na cabeça que não eram minhas, mas que iam ficar comigo durante muito tempo.
Saí daquele corredor nessa tarde e fui direto para o vestiário. Sentei-me num banco e fiquei ali durante muito tempo, sem fazer nada, sem tirar o equipamento, sem pegar no mochila, sem mexer, apenas sentado, a olhar para o chão e repetindo aquilo na minha cabeça, tentando perceber o que tinha acontecido e o que eu tinha visto e sentido.
Eu cheguei a casa naquela noite, mais calmo do que o habitual. A minha esposa perguntou se estava bem. Eu disse que estava apenas cansado. Ela me olhou daquela maneira, já sabendo que não era apenas cansaço, mas decidiu não perguntar nada naquele momento. Então tomei um banho e deitei-me. Mas eu Fiquei na cama, a olhar para o teto e com uma pergunta que não me saía da cabeça.
Será que ela sabia a verdade? Será que alguém lhe tinha contado o que o Marcos estava realmente a sentir quando se foi embora e que o homem que ela odiava, na verdade, foi-se embora porque não suportava vê-la sofrer por ele? Eu acho que não. Mas como contar o que tinha acontecido sem parecer que tinha perdido o juízo? Eu passei dias carregando aquilo e nessa semana passei pelo corredor do Marcos algumas vezes e agora a agitação que eu tinha sentido nos meses anteriores estava diferente.
Não tinha desaparecido, mas estava mais quieta, como um motor que ainda está ligado, mas que baixou a rotação. como se o que ali estava tivesse entregue o que tinha para entregar e estivesse à espera agora, à espera de alguma coisa que eu não sabia o que era. E foram quase dois meses assim, eu indo trabalhar todos os dias, passando por aquele corredor, sentindo aquela presença mais quieta, mas ainda presente e transportando aquilo comigo.
Até que naquela manhã de Agosto eu estava do outro lado do cemitério fazendo a verificação de uma área de túmulos mais antigos. Quando Olhei para o fundo e vi movimento no corredor da ala L. Parei o que estava fazendo e vi. Era uma mulher que andava lentamente em direção ao fundo do corredor, cabelo escuro e passos que reconheci antes de ver o rosto. Era a Vera.
Ela tinha voltado. Fiquei parado no lugar onde estava apenas a observar. Ela caminhava com a cabeça ligeiramente baixa e os ombros mais curvados do que no dia do enterro. mais lenta, mais pesada, como alguém que chegou a um lugar depois de uma caminhada longa que custou mais do que ela esperava.
Então, ela chegou à frente do túmulo do Marcos e parou. E ficou ali parada por um tempo. Dava para notar que ela estava diferente do dia do enterro. Parecia que ela não carregava mais aquele ódio. Não era como antes. Era como se ela tivesse chegado a uma conclusão que custou caro e que ainda não sabia se era a conclusão certa.
Em algum momento, ela abriu a bolsa e tirou algo. Não conseguia ver o que era da distância onde me encontrava. Ela se inclinou-se ligeiramente para a frente e colocou-o em cima da lápide com cuidado e ficou mais um tempo parada, a olhar para o túmulo. E depois virou-se e foi embora, sem olhar para os lados e sem olhar para trás.
Então fui andando lentamente na direção do corredor depois que ela saiu do cemitério, sem pressas. Deixei passar um tempo antes de entrar naquela zona e quando entrei no corredor da Ala, a sensação diferente naquele momento, uma leveza que não estava lá antes, pequena, mas presente. Quando cheguei à frente do túmulo do Marcos e Olhei para o que estava em cima da lápide, era uma foto que estava amassada, como se tivesse sido dobrada várias vezes e tivesse ficado guardada num lugar pequeno durante muito tempo e que foi desamassada à pressa antes de ser
ali colocada. Eu tirei a foto com cuidado e olhei. Eram os dois juntos. Eu senti que era a mesma foto na altura em que eu vi. Ela tinha guardado aquela foto durante todos estes anos, amassada dentro de alguma gaveta ou bolsa, guardada de uma forma que mostrava que ela não tinha conseguido deitar fora, mas que também não aguentava olhar para aquilo e agora tinha vindo deixá-lo aqui.
Eu voltei a colocar a foto em cima da lápide com cuidado. Fiquei ali parado durante mais alguns minutos. Não rezei, não não disse nada em voz alta, apenas fiquei parado naquele corredor que me tinha dado tantos meses de dor de cabeça e arrepio e medo, e que naquele momento estava mais quieto do que tinha sentido desde o dia 5 de junho.
Não sei o que aquela foto significou para a Vera, se era perdão ou se era apenas despedida, se ela tinha conseguido soltar alguma coisa que estava a prender os dois, ou se ainda carregava a raiva sem saber a verdade que o Marcos nunca conseguiu contar. Não sei se o Marcos foi embora daquele corredor depois desse dia.
O que eu sei é que a partir daquela manhã de agosto, a presença que sentia na ala A L foi ficando cada vez mais fraca. Os sussurros desapareceram de vez. A dor de cabeça que chegava cada vez que eu passava perto foi-se embora. O frio, diferente daquele ponto, foi-se também. E ficou apenas o silêncio normal de cemitério.
Mas ainda hoje, quando passo por aquele corredor, paro por um segundo. Não por medo ou porque sinto alguma coisa. Paro porque me lembro das imagens, das palavras que disse e da foto amassada em cima da lápide naquela manhã de agosto. E lembro-me de um homem que foi embora a pensar que estava protegendo a pessoa que amava e de uma mulher que ficou sem perceber porquê e de como, por vezes, a coisa mais errada que fazemos na vida é a que fazemos com a melhor intenção do mundo.
E você acha que ele fez bem? que ele estava preso pela culpa ou pelas palavras de ódio que a sua ex-mulher deixou no seu enterro. Será que ela descobriu e percebeu no final o que ele fez? E se fosse você, o que faria? Deixe nos comentários. Quero saber a sua opinião. E descanse em paz. Marcos Aurélio Dias. Não.