EU O ENTERREI EM 2001… MAS, DE REPENTE, ELE PASSOU DIRETO POR MIM E ENTROU NO CEMITÉRIO.

EU O ENTERREI EM 2001… MAS, DE REPENTE, ELE PASSOU DIRETO POR MIM E ENTROU NO CEMITÉRIO.

Durante quase 30 anos, trabalhei como coveiro em Belém do Pará e nos primeiros seis meses não senti absolutamente nada de diferente, mas depois comecei a perceber coisas que não conseguia explicar. Sensação constante de ser observado, vozes a sussurrar onde não não havia ninguém, vultos que desapareciam quando olhava direito.

 Tudo mudou em Setembro de [música] 2001, quando sozinho no cemitério, ao final do dia, vi um homem parado a fitar-me. E quando lhe pedi para sair, pois já estava fechado, ele simplesmente caminhou na minha direção e passou através do meu corpo, como se eu fosse ar, deixando um frio gelado que atravessou o meu peito.

 Quando virei, ele tinha desaparecido e então reconheci. Era Marcos Ferreira, o jovem de 25 anos que tínhamos enterrado apenas duas horas antes. O meu nome é Antônio Carlos Ribeiro, tenho 48 anos e esta é a história de como descobri que quem trabalha com os mortos acaba desenvolvendo conexão com o outro lado. Nasci em Belém do Pará em 1977.

Filho da dona Francisca Ribeiro, lavadeira, e o seu Manuel Ribeiro, estivador do porto. Cresci no bairro do Jurunas, região popular junto ao rio [música] Guamá, onde as casas são simples e a vida é dura, mas honesta. Éramos cinco irmãos, eu, o segundo mais velho, três irmãos e duas irmãs. A infância foi de muito trabalho e pouca folga, mas nunca passou fome.

 O meu pai trabalhava no porto carregando e descarregando navios. Voltava para casa com o corpo dolorido, as mãos calejadas, mas sempre comida na mesa. A minha mãe [música] lavava roupa para fora, acordava antes do sol nascer e passava o dia inteiro na beira do igarapé esfregando roupa alheia. Eu ajudava desde cedo.

 Aos 10 anos já carregava baldes de água, estendia roupa no varal, cuidava dos irmãos mais novos. Estudei até terminar o ensino fundamental. Não consegui ir mais longe. Com 14 anos, precisei começar a trabalhar de verdade para ajudar em casa. Fui ajudante de pedreiro, carregador de mercado, ajudante de mecânico, trabalho braçal, pesado, mas que pagava.

 Aos 17 anos casei com Maria José, uma rapariga do bairro que conhecia desde criança. Ela tinha 16. Casar cedo era normal por ali. Tivemos três filhos, dois rapazes e uma rapariga. Aos 23 anos, em março de 1998, estava desempregado havia do meses. Bico aqui, bico ali, mas nada fixo. Foi o meu cunhado quem me falou da vaga. Tinha aberto o concurso para coveiro no cemitério público de São João Batista.

Vencimento fixo, contrato assinado, benefícios. Não era trabalho que todo o mundo queria, mas eu não podia escolher muito. Fiz a inscrição. Era concurso simples, teste físico e entrevista. No teste físico, precisava de cavar um buraco de 1 m³ em tempo determinado. Consegui. Na entrevista, o administrador, o senhor Arnaldo, perguntou se tinha problema em trabalhar com morte.

 Respondi que não, que trabalho era trabalho. [música] Ele olhou para os meus braços, viu que eu era forte e deu-me contratou. Comecei na segunda-feira seguinte, 16 de Março de 1998. O cemitério público de São João Batista é antigo. Foi inaugurado em 1922, então já tinha mais de 70 anos quando comecei. [música] Ocupa uma área enorme, vários quarteirões com setores divididos por letras, setor A, B, C, até ao J.

 Cada setor tinha características [música] diferentes. O A era o mais antigo, com jasigos de mármore de famílias tradicionais. O J era o mais novo. Sepulturas simples, muitas, sem lápide. Quem me treinou foi o senhor Raimundo, coveiro veterano de 68 anos, que trabalhava [música] ali havia 40.

 Homem magro, baixo, todo enrugado pelo [música] sol, mas forte como um touro. Ensinou-me tudo nos primeiros 15 dias. Como medir e marcar o retângulo correto no chão. Como cavar respeitando as medidas. 2 m de profundidade, 80 cm de largura, 2,10 m de comprimento. Como usar picareta quando tinha raiz? Como descer caixão com cordas sem deixar cair? Como compactar terra em camadas ao cobrir? O senhor Raimundo era homem de [música] poucas palavras, mas de sabedoria profunda.

Dizia sempre: “O cemitério é um lugar de respeito. Trate os mortos como gostaria de ser tratado. Nunca faça piadas. Nunca desrespeite.” Segui isso à risca durante todos os anos que trabalhei. Além do seu Raimundo, tinha mais dois coveiros, Jorge, com cerca de 30 anos, e Edilson, com 26. [música] Ambos boa gente, trabalhadores.

Dávamos-nos bem, fazia o serviço a falar, a rir, normal. A rotina era sempre igual. Chegava às 7 da manhã, trocava de roupa no balneário, pegava nas ferramentas, pá, enchada, picareta, [música] balde, cordas. Verificava a lista de enterramentos do dia. Alguns dias tinha um, outros dias seis ou sete, dependia. A gente dividia o trabalho.

[música] Se havia três enterramentos, cada um cavava um. Se tinha seis, cavava dois cada. Trabalho pesado, mas honesto. Os os enterros aconteciam geralmente de manhã ou à tarde. Quando o cortejo chegava, a gente já tinha a cova pronta. Ficava ali perto, respeitoso, aguardando a cerimónia terminar.

 Quando o padre ou o pastor terminava, descíamos o caixão com cordas. Família atirava flores, terra. Depois de todos irem embora, a gente cobria a cova, alisava a terra, colocava a cruz de madeira com nome e data. Tinha dias tristes, muito tristes. Quando era criança, a família ficava destroçada. Quando era jovem, os amigos choravam muito.

 Quando era idoso, com uma família grande, o cortejo era imenso. Cada enterro carregava uma história, uma vida que terminou, pessoas que ficaram sofrendo, mas eu não podia deixar que aquilo afetar-me demais. Era o meu trabalho, precisava de ser forte. Nos primeiros seis meses, tudo absolutamente normal. Não não senti nada de diferente.

 Cemitério era apenas cemitério. Lugar tranquilo, silencioso, com muitas árvores. Mangueiras antigas davam. Tinha erva bem cuidada. Era até bonito se olhasse sem pensar no que significava. Eu chegava, trabalhava, ia embora. Simples assim. Almoçava ali mesmo, levava marmita de casa, [música] sentava-se debaixo da mangueira grande, perto do portão, comia com o Jorge e Edilson.

 [música] Falávamos sobre futebol, sobre família, sobre as contas, a vida normal. Fim de semana descansava, via a família, jogava dominó com os vizinhos, ia à igreja no domingo. Vida simples, mas boa. Maria José perguntava por vezes: “Não sente medo aí?” E eu respondia: “Medo de quê? É só um cemitério. Os mortos não fazem mal.

” E era verdade. Durante seis meses [música] não sentia absolutamente nada. Nenhum arrepio, nenhuma sensação estranha, nenhum medo. Era apenas trabalho. Lembro que na altura até achava graça às histórias que o Jorge contava. Ele dizia que o senhor Raimundo via coisas, [música] que tinha um coveiro antigo que precisou sair porque desenvolveu sensibilidade.

Ouvia, ria, achava exagero, pensava que era superstição, [a música] estava errado, porque foi depois dos primeiros seis meses que as coisas começaram a mudar. Foi em Outubro de 1998, oitavo mês a trabalhar, que senti pela primeira vez. Não foi nada assustador, foi subtil, tão subtil que quase ignorei. Era uma tarde de calor intenso, típico de Belém, céu azul, sol a arder, temperatura acima dos 35º.

Eu estava a fazer manutenção próximo [música] ao muro das traseiras, carpin do mato, que crescia entre sepulturas antigas do setor H. De repente senti frio. Não era brisa, não era sombra de nuvem, era frio que vinha do nada. Uma onda gelada envolveu-me completamente. Durante cinco, talvez 10 segundos, senti como se estivesse dentro de um congelador.

 Meu corpo arrepiou-se todo. Depois passou. O calor voltou. Olhei em redor confuso. Nada. Apenas sepulturas, o mato, o sol forte. Pensei que fosse impressão, corpo pregar [música] partida. Continuei a trabalhar, mas aquela sensação ficou na memória. Foi a primeira de muitas. Depois disso, começou a acontecer com mais frequência.

 Não era todos os dias, mas era comum. Estava a trabalhar e de repente aquela vaga de frio sem explicação, [música] ou então aquela sensação de ser observado, como quando sente alguém a olhar, mas quando vira não tem ninguém. A primeira vez que senti ser observado foi numa manhã de novembro. Estava a cavar sepultura no setor F, zona antiga com jazigos de mármore.

 Era manhã nublada, fria para padrões de Belém. Eu estava sozinho. O George e o Edilson [música] estavam em outra área. De repente, senti aquela certeza absoluta de que tinha alguém atrás de mim. Deixei de cavar, virei devagar. Nada. Apenas as árvores, os túmulos, os silêncio. Voltei a escavar, mas a sensação não ia embora.

 Aquele peso nas costas, aquela presença. Terminei rápido e saí dali. Não era medo, propriamente, era desconforto, como estar numa sala pensando que há alguém escondido. Depois disso, passou a acontecer regularmente, sempre nos mesmos locais. O setor F era um, o setor H perto do muro também. Tinha uma área junto ao depósito velho que me dava sempre aquela sensação.

Então, começaram [música] os sons. Uma tarde estava a varrer folhas perto de Jazigos do sector A, quando ouvi vozes baixinhas, pareciam duas pessoas conversando. Não conseguia compreender as palavras, mas eram vozes claras, uma mais grave, outra mais aguda. Parei de varrer e prestei atenção. As vozes pararam.

 [música] Olhei em redor. O cemitério estava vazio. Era meio-dia, hora que normalmente não tinha visitantes. Chamei. Está alguém aí? Silêncio. Voltei a varrer. As vozes voltaram. [música] Mais baixas ainda. Parei outra vez. Silêncio de novo. Fiquei ali parado por uns 5 minutos, apenas a ouvir. Nada. Terminei o serviço e saí.

 Mas sabia que tinha ouvido. Não era vento, não era imaginação, eram vozes. Depois vieram os vultos. Via no canto do olho, sombra passando rápida, figura em movimento. Quando virava uma cabeça para olhar direto, não tinha nada. No início, tentei ignorar. É o sol a bater forte. Pensava: “É cansaço, mas quanto mais acontecia, mais difícil se tornava ignorar.

Houve um episódio que me marcou. Eu tinha deixou a enchada encostada a um túmulo enquanto ia buscar o carrinho de mão. Quando regressei, a enchada estava do outro lado, a cerca de 4 m de distância. Fiquei olhando sem compreender. Tinha a certeza absoluta de onde tinha deixado. [música] Olhei para o Jorge, que estava perto.

 Você mexeu na minha enchada? Ele olhou confuso. Que enchada. Nem o vi com enchada. Peguei na ferramenta e não comentei mais nada, mas aquilo ficou na cabeça. Como a enchada mudou de lugar, ninguém tinha pegado. Eu estava sozinho naquela área. Não fazia sentido. Essas pequenas coisas foram-se acumulando. Ferramentas que desapareciam e apareciam em outro lugar. Sensação de ser seguido.

Vozes onde não havia ninguém. Voltos passando. Não estava com medo. Era mais inquietação, curiosidade misturada com desconforto e a crescente certeza de que havia ali algo que eu não entendia. Foi quando decidi falar com o seu Raimundo. Era final de tarde. Estávamos lavando as ferramentas na torneira perto do depósito. Cheguei perto dele.

 O seu Raimundo, posso perguntar uma coisa? Ele olhou [música] para mim. Pode, rapaz. Fala. Respirei fundo. O senhor já sentiu coisas estranhas aqui. Ele parou de lavar a pá. Sorriu de canto. Que tipo de coisa? Sensação de alguém perto, ouvir vozes, ver vultos. Secou as mãos, acendeu um cigarro de palha, deu uma passa longa.

 Há gente que nasce com sensibilidade. Ele disse, não é toda a gente, mas tem. Esta sensibilidade permite ver, sentir, ouvir o que está para além. E quem trabalha num cemitério, se tem essa sensibilidade, ela acorda. Deu outra tragada. Você deve ser um desses. E o senhor? O senhor sente? Ele encolheu os ombros. Às vezes não muito, mas sei quando tem presença por perto. Isto é normal? Perguntei.

 Ele riu. Normal. É relativo, rapaz, mas acontece. Faz parte de trabalhar num lugar como aquele. E tenho que fazer alguma coisa, basta respeitar, não mexer com o que não compreende, seguir o seu trabalho, manter o respeito. E eles deixam-no em paz. Eles quem? As almas que não foram, os espíritos, não sei. Não percebo muito bem essas coisas.

 Só sei que existem. [música] E se você respeita, fica tudo bem. Aquela conversa acalmou-me. Saber que não era só eu, que o senhor Raimundo com 40 anos ali também sentia. Continuei trabalhando normalmente, as sensações continuaram, mas aprendi a viver com isso. Quando sentia presença, apenas respeitava e seguia.

 Quando ouvia vozes, não tentava compreender. Quando via vultos, não corria atrás. Os meses foram passando. Completei um ano de trabalho, depois um ano e meio, depois do anos. As as coisas continuavam a acontecer. Algumas semanas eram mais intensas, outras mais calmas, mas fazia parte da rotina. Agora eu me tinha acostumado.

 Tinha até dias que nem sentia nada. chegava a pensar que talvez tivesse imaginado tudo, mas no fundo sabia que não. Sabia que era real e quanto mais tempo passava, mais eu tinha a certeza. O cemitério não era lugar comum. Havia ali algo, algo que eu sentia, mas não compreendia completamente. O meu tio materno, Sebastião, [música] que era pai de santo, disse que o cemitério é portal natural, que a barreira entre mundos é mais fina ali.

 E quem trabalha nesses locais fica marcado espiritualmente, fica entre dois mundos. Levei aquilo a grave, comecei a tomar cuidados. Sempre tomava banho quando chegava a casa. Não levava nada do cemitério para dentro de casa. Mantinha respeito sempre e continuei a trabalhar. Do anos passaram a 2 anos e meio, depois 3 anos, depois 3 anos e meio.

 E depois chegou 23 de Setembro de 2001, 3 anos e meio exatos desde que comecei. Foi nesse dia que deixei de ter qualquer dúvida. Foi nesse dia que vi algo impossível de negar, impossível de explicar como imaginação, impossível de esquecer. 23 de setembro de 2001, domingo. Lembro-me de cada detalhe daquele dia. Acordei às 6 da manhã, como sempre.

A Maria José fez café. Tomei com pão e manteiga. Os meninos ainda dormiam. Peguei na minha marmita, eu [música] despedi-a. O céu estava nublado. Parecia que ia chover, mas não chovia. Cheguei ao cemitério às 7 horas. O seu O Arnaldo passou-me a programação. Tinha funeral marcado para as 15 horas. Um jovem, 25 anos.

 Marcos Ferreira da Silva morreu num acidente de moto na madrugada de sábado. Coitado, o senhor Arnaldo, disse. Bateu num poste, morreu no local. [música] Fui cavar a sepultura com Jorge. Edilson tinha folgado. O setorê, onde seria o enterro, era numa zona intermédia, nem muito antiga, nem muito nova. A terra estava húmida de chuva que tinha caído durante a semana, facilitava o trabalho.

 Terminamos antes do meio-dia. Almoçamos debaixo da mangueira, mas estava inquieto. Não sei explicar. Tinha uma sensação estranha no peito, como pressentimento. Está quieto hoje? O Jorge falou. Tô cansado. Só, respondi. Mas não era cansaço, era outra coisa. Às 15 horas, o cortejo começou a chegar. Tinha muita pessoas, mais de 80 pessoas, amigos, família, gente nova a chorar muito.

Quando há um enterro com tanta gente jovem, já sabe que foi tragédia. O caixão era simples, mas estava coberto de flores. A família estava destroçada, mas quem estava pior era a noiva. Uma rapariga com cerca de 23 anos, loira, magra, vestido preto. Ela estava a ser segurada por duas amigas. Chorava sem parar.

Durante a cerimónia, desmaiou duas vezes. Precisaram de reanimá-la. Na terceira vez, quase desmaiou de novo. O pai do Marcos também estava muito mal. Homem grande, forte, com cerca de 50 anos. Chorava alto, sem vergonha. Quando começámos a descer o caixão, ele tentou entrar na cova junto, gritava: “Leva-me também”.

 Os irmãos precisaram de segurar -lhe com força. Era uma das cenas mais tristes que já vi. E olhe que vi muitas em três anos e meio. Mas aquela dor era diferente. Era dor de quem perdeu alguém jovem demais, alguém que tinha uma vida inteira pela frente. O padre falou sobre injustiça da morte precoce, sobre como a vida é frágil.

 As pessoas choravam, umas em silêncio, outras não conseguiam segurar. Descemos o caixão devagar, com muito cuidado. O padre deitou terra. proferiu as últimas palavras. As pessoas começaram a despedir-se, atiraram flores. A noiva caiu de joelhos em frente da cova, ficou ali a olhar para dentro, chorando baixinho. As pessoas foram-se embora aos poucos.

 Passou meia hora, uma hora. O cemitério ia fechar às 18 horas. Eram quase 17:30. A noiva ainda lá estava ajoelhada. As amigas tentavam levantá-la, mas ela não queria sair. Aproximei-me devagar. Não queria ser grosseiro. Menina, falei baixinho. Eu sinto muito, mas já está tarde. O cemitério vai fechar. Ela olhou para mim, os olhos vermelhos inchados.

A gente ia casar no próximo mês. Ela disse, a voz rouca. Sinto muito, menina. Ela ficou a olhar para mim, depois levantou com dificuldade. As amigas ajudaram. Eu volto amanhã, disse ela. Pode vir quando quiser. A gente cuida bem daqui. Elas foram embora. [música] Fiquei a ver desaparecerem pelo portão.

 O Jorge já tinha ido fazia tempo. Tinha terminado outro serviço e saído direto. Seu Raimundo também. Eu estava sozinho. Olhei pro céu. Estava a escurecer rápido, as nuvens carregadas. Parecia que ia chover forte a qualquer momento. Só queria ir embora. Tinha sido dia muito pesado. Fui buscar as minhas ferramentas que tinha deixado perto do armazém.

 Peguei em tudo, coloquei no carrinho de mão. Olhei para o cemitério uma última vez. Silencioso agora, apenas o vento nas folhas das árvores. Comecei a empurrar o carrinho em direção ao armazém para guardar e ir embora. Foi então que vi. Tinha um homem parado a meio do caminho, a cerca de 10 m de distância, parado, a olhar para mim.

 Parei também. Ele estava ali imóvel, apenas me encarando. A expressão dele era tranquila, calma. Não parecia perdido nem assustado, apenas estava ali. Moço, o cemitério já fechou. Falei. Ele não respondeu, apenas continuou a olhar para mim. Pensei que talvez não tivesse ouvido. Falei mais alto. O cemitério já fechou.

O senhor precisa de sair. Nada. Ele apenas ficou ali parado, a olhar para mim. Senti um frio subir pela espinha. Não era medo ainda. Era mais reconhecimento, como se alguma parte de mim soubesse que algo estava errado. Mas o meu cérebro ainda não tinha processado. Então começou a andar.

 vinha na minha direção, lentamente, passos normais, não tirava os olhos de mim. Fiquei parado a segurar o carrinho. Ele chegou perto, muito perto, 1 metro de distância. Consegui ver o rosto dele [música] nitidamente, jovem, cabelo escuro, camisa clara, calças de ganga. E depois ele simplesmente passou por mim. Não passou ao lado, passou através de mim.

 Senti, senti claramente um vazio profundo no peito, como se algo tivesse sido sugado de dentro de mim. Um frio tão intenso que o meu coração pareceu parar por um segundo. Não era frio normal, era frio que vinha de dentro das entranhas. Durou uns 5 segundos que pareceram a eternidade. Depois passou. Virei-me rápido. Ele não estava mais lá.

 Sumiu, desapareceu, Olhei para todos os lados. Nada, apenas o cemitério vazio, o silêncio, o vento. Fiquei ali parado a tentar processar. O meu coração batia descompassado, as minhas mãos tremiam [música] e depois caiu a ficha, a cara. Eu tinha visto aquele rosto hoje, poucas horas atrás no caixão. Era Marcos, o rapaz que tínhamos enterrado.

 Marcos Ferreira da Silva, de 25 anos, morto num acidente de moto. Era ele, nítido, claro, real. Larguei o carrinho ali mesmo. Corri até o depósito. Guardei as ferramentas de qualquer jeito. [música] Peguei na minha mochila, saí a correr do cemitério, tranquei o portão a tremer. Corri até ao paragem de autocarro duas quadras depois.

Sentei-me no banco tentando respirar. Não era medo que sentia. Não exatamente, era choque, compreensão, certeza absoluta. Eu vi. Vi de verdade. Não foi vulto, não foi sombra, não foi impressão. Foi ele, Marcos, nítido, completo, [música] real. E ele passou através de mim. Senti no corpo aquele vazio, aquele frio.

 Era impossível negar. Sentei-me ali por 20 minutos, apenas processando tudo o que tinha sentido nos últimos três anos, as presenças, as vozes, os vultos. Era real. Tudo era real. E agora já sabia. Agora tinha certeza absoluta. O autocarro chegou. Entrei, fui para casa em automático. Maria José apercebeu-se que algo estava errado. O que aconteceu? Perguntou.

Nada, apenas cansaço. Menti. Não conseguia contar. Não, ainda precisava processar sozinho primeiro. Aquela noite não dormi. Ficava a passar tudo, a imagem dele parado, caminhando, passando através de mim, [música] aquela sensação, aquele vazio, aquele frio. E a certeza era Marcos, o espírito de Marcos ainda ali, ainda no [música] cemitério, não tinha ido embora.

 Na segunda-feira Voltei ao trabalho. Cheguei cedo. O seu O Raimundo já lá estava, olhou para mim. Viu algo? Não foi? Não foi pergunta, foi constatação. Assenti. Ele acenou com a cabeça. Conta. Contei tudo. O homem parado, ele a passar através de mim. O reconhecimento de que era Marcos. O senhor Raimundo ouviu em silêncio.

 Fumou dois cigarros enquanto eu falava. Quando terminei, ele ficou quieto durante algum tempo. “Você desenvolveu a sensibilidade completamente?”, disse. “Finalmente”. Nos primeiros meses, você sentia presença, ouvia, via de relance. Agora vê nítido, completo. Você cruzou o limiar. “Porquê?”, perguntei. “Porque é que aconteceu comigo?” Ele deu de ombros. Ninguém sabe.

 Há gente que trabalha aqui a vida toda e nunca sente nada. Há pessoas que em se meses já sente. Você é um dos que sente e quanto mais tempo passa, mais forte se torna. Tem como parar? Ele abanou a cabeça. Não. Uma vez que acorda, não volta a adormecer. Vai ver essas coisas pelo resto da vida.

 E o que é que eu faço? [música] Aprende a conviver. Respeita. Não tem medo deles. Não fazem mal. A maioria só está perdida ou não aceita que morreu ou tem algo que os prende aqui. Com o tempo aprende-se a diferenciar e vai voltar a acontecer ver outros. Ele assentiu. Vai. Não todos, mas alguns, os que não conseguem partir. Aquilo assustou-me, mas também me tranquilizou de certa forma.

 saber que era permanente, que fazia parte agora e que o senhor Raimundo [música] entendia. Nos dias seguintes, voltei à rotina, mas estava mais atento e começou realmente a acontecer mais. Via presenças com regularidade e agora não era todos os dias, mas era comum. Havia dias que via alguém parado entre os túmulos.

 Quando piscava, sumia. Havia dias que sentia presenças tão fortes que precisava de sair daquele setor durante uns minutos. Aprendia a identificar padrões enterros muito tristes, onde a família ficava muito tempo [música] a chorar, geralmente resultavam em presença, como se o falecido ficasse preso [música] pela dor dos vivos.

Jovens que morriam de forma violenta também. acidentes, assassinatos, pareciam ter mais dificuldade em partir. Ficavam ali perdidos, confusos. Aprendi a não ter medo, a apenas respeitar. Quando vi alguém, apenas desviava o olhar e seguia o meu caminho. Nunca tentei interagir, nunca tentei [música] falar. O meu tio Sebastião, o pai de santo, me explicou melhor.

 Disse que o cemitério é um dos portais naturais entre mundos. A barreira ali [música] é fina e quem trabalha nesses locais desenvolve sensibilidade, fica marcado, consegue ver o que os outros não vêem. É um dom, mas também é peso. Ensinou-me proteções, banhos de ervas, orações, como me fechar espiritualmente quando [a música] necessário. Aprendi e usei. Ajudava.

 Nos anos seguintes, continuei a trabalhar. Vi muitas coisas, mesmo muitas. Teve época que via várias presenças num mesmo dia. Houve uma altura que ficava semanas sem ver nada. Aprendia a conviver, a aceitar. Fazia parte de quem eu era agora, da minha realidade e percebi algo interessante. Quanto mais aceitava, menos me incomodava.

Era como se sentissem que eu não tinha medo, que respeitava. [música] e deixavam-me em paz. Houve uma vez, já com cerca de 7 anos de trabalho, que viu uma mulher idosa sentada num banco do cemitério. Era início da manhã, cemitério ainda fechado, só funcionários. Ela estava ali tranquila, olhando para um jazigo.

 Não tentei falar com ela, apenas trabalhei normalmente. Quando passei por ali de novo, ela tinha sumido. Outra vez vi uma criança a correr entre os túmulos, menino de cerca de 8 anos rindo, brincando como se estivesse vivo. Parei e fiquei a observar. Ele correu por entre várias sepulturas, depois sumiu. Não senti tristeza por ele.

Parecia feliz. Talvez para algumas almas, especialmente as crianças, o cemitério não seja [música] prisão, seja apenas mais um lugar. Com o tempo, desenvolvia habilidade adicional. Conseguia sentir quando o espírito de recém-falecido não tinha partido. Era sensação específica, [música] peso no ar, temperatura mais fria naquela área específica.

Quando sentia isso, às vezes avisava a família discretamente, dizendo que seria bom rezar mais, que a alma ainda estava presa. Alguns ouviam e agradeciam, outros achavam que eu estava louco. Não preocupava, fazia o que achava certo. Os anos foram passando. Completei 10 anos, 15, 20, 25, quase 30 [música] anos ali trabalhando.

 Vi centenas de presenças nesse tempo, algumas apenas uma vez, outras viárias [música] vezes nos mesmos locais. Teve uma presença específica no setor H que vi durante anos. Homem de fato, sempre parado junto a um jazigo específico. Cada vez que passava por ali, estava ali imóvel, olhando. Nunca interagi, apenas respeitei.

 Passados uns 15 anos, Deixei de vê-lo. Talvez finalmente [música] tenha partido. Em 2023, decidi aposentar-me. Tinha 46 anos. poderia trabalhar mais, mas estava exausto, não fisicamente, mentalmente, espiritualmente. Ver estas coisas durante 25 anos cobra preço. Além disso, tinha começado a ter sonho recorrente, centenas de espíritos chamando-me [música] pelo nome.

 Toda a noite era perturbador. Conversei com o meu tio Sebastião. Ele disse que estava na hora de parar, que eu tinha cumprido o meu papel [música] ali, que agora precisava de me fechar espiritualmente, se afastar. Segui o conselho, pedi reforma, foi aprovada. O meu último dia foi 20 de dezembro [música] de 2023. Foi estranho. 25 anos naquele lugar.

Conhecia cada canto, cada árvore, cada setor. Fazia parte de mim, mas também estava cansado, precisava de descansar. Me Despedi-me do senhor Raimundo, que ainda trabalhava mesmo com mais [música] de 90 anos. Despedi-me dos colegas novos e fui embora. Hoje tenho 48 anos. Estou reformado há 2 anos.

 Não volto ao cemitério, não visito, não passo nem perto. O meu tio ensinou-me ritual de fechamento espiritual. [música] Fiz. Funcionou parcialmente. Ainda sinto coisas às vezes quando passo perto de cemitérios, hospitais, [música] lugares onde a morte é presente, mas é mais fraco agora, controlável. Aprendi muito nestes 25 anos.

 Aprendi que o mundo é maior do que aquilo que vemos. que existe mais entre vivos e mortos do que imaginamos, que um cemitério não é um fim, é transição. E alguns ficam presos nesta transição por dor, por não aceitar, por laços que não conseguem romper. Aprendi que quem trabalha nesses locais desenvolve [música] ligação, laço, sensibilidade.

 Não é todo o mundo, mas quem tem sabe, sente, vê e aprende a conviver. Aprendi respeito profundo pelos mortos, pelas almas, pelo mistério da morte. Já não tenho medo. Tenho compreensão. Se conhece alguém que trabalha num cemitério há muitos anos, pergunte. Pergunte se já sentiu algo. Aposto que se vai surpreender com a resposta.

 A maioria não conta por medo de ser chamado de louco, mas no fundo sabem, [música] sentem. O meu nome é Antônio Carlos Ribeiro, tenho 48 [música] anos. Fui coiro durante 25 anos em Belém do Pará. Vi coisas que a maior parte das pessoas nunca verá. Desenvolvi sensibilidade que carregarei para o resto da vida. E aprendi que a morte não é um fim, é apenas passagem.

 E alguns ficam no meio do caminho. Esta é a minha história, o meu testemunho, a minha verdade. Acredite [música] ou não, não interessa. Eu sei o que vivi, sei o que vi, sei o que senti. E sei que um cemitério não é um lugar comum. Nunca foi, nunca será. Porque ali entre túmulos e árvores, entre o silêncio e a vento, [música] existe limiar, fronteira entre mundos.

 E quem lá trabalha, quem lá passa tempo, acaba por ficar entre dois lados, vendo o que outros não vêm, sentindo o que outros não sentem. E Marcos Ferreira da Silva, o jovem que vi naquele dia de setembro. Não sei se ele ainda lá está, não voltei a verificar, mas espero que tenha partido, que tenha encontrado paz, que não esteja mais preso, porque ninguém merece ficar eternamente no limar, nem vivos, nem mortos.

 

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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