EU VI O QUE NENHUM HOMEM DEVERIA VER NO CEMITÉRIO! | História de Terror e Relato Real
EU VI O QUE NENHUM HOMEM DEVERIA VER NO CEMITÉRIO! | História de Terror e Relato Real 
Era para ser apenas mais um dia de trabalho, um enterro difícil, a família desesperada e eu sozinho a fechar o cemitério à noite. Mas quando as luzes apagaram-se e o silêncio tomou conta, um homem apareceu entre as lápides. Ele dizia estar perdido, mas surgia sempre à minha frente, como se atravessasse o cemitério em segundos.
Foi aí que eu Compreendi que aquela noite não terminaria como as outras. O meu nome é Antônio Duarte, tenho 68 anos e até hoje Continuo a trabalhar como coveiro no cemitério municipal Nossa Senhora do Desterro em Jundiaí, São Paulo. É a a minha vida, o meu sustento e apesar de todo o peso que carrego com este ofício, nunca pensei em deixá-lo.
Já são tantas as décadas dentro deste campo santo que cada alameda, cada lápide, cada sombra daquelas árvores é como se fizesse parte de mim. As pessoas perguntam-me se eu não tenho medo, se não fico impressionado por estar diariamente tão perto da morte. A verdade é que com o tempo a gente habitua-se. O choro das famílias, o barulho das paz, o caixão descer com cordas, tudo se torna rotina.
Mas há uma coisa que eu digo sempre: “A morte em si não me assusta. O que me assusta são as coisas que às vezes vêm com ela.” E nessa noite de 3 de Agosto de 1997, aprendi isso da pior maneira. Era um domingo. O dia tinha sido quente, abafado, daqueles em que o ar parece pesar nos ombros. O cemitério estava movimentado, como costuma ser nos fins de semana, com as famílias a visitarem os seus mortos.
Eu já tinha feito dois serviços nesse dia, mas o último, esse ficou gravado na minha memória. Era o enterro de um rapaz jovem, ainda adolescente. E não há nada mais doloroso do que enterrar alguém que mal começou a viver. Cheguei cedo para preparar a cova. Já sabia que não seria um funeral fácil. Porque nestas situações a família nunca aceita. E não deu outra.
Quando trouxeram o caixão, o desespero foi imediato. A mãe atirava-se para o chão, os familiares gritavam e alguns tentavam até segurar as cordas para impedir que o caixão descesse. Eu, habituado com confusões, tentei manter a calma, mas confesso que aquela cena mexeu comigo. O peso do caixão parecia maior do que o normal.
Não pelo corpo em si, mas pelo fardo que vinha junto, a dor, a revolta, o choro. Em certos momentos, precisei afastar com jeito os parentes para conseguir continuar o trabalho. O caixão quase travou na descida de tanta resistência e no meio daquilo tudo, eu sentia uma pressão estranha no peito, como se estivesse a transportar não só o caixão, mas também o peso daquela tragédia.
Foram longos minutos até conseguir concluir. Quando finalmente cobri a última p de terra, o céu já estava a escurecer. As pessoas foram saindo aos poucos, uns em silêncio, outras ainda a soluçar alto, e quando Apercebi-me, estava sozinho no meio do campo santo. Olhei para o relógio, passava das 7:30 da noite.
Era tarde para os padrões do cemitério e ainda tinha que organizar as minhas coisas. antes de ir embora. O portão grande lá à frente já estava fechado a visitantes. Só restava eu, as minhas ferramentas e aquele silêncio. E aqui preciso de explicar uma coisa. O silêncio do cemitério não é como o silêncio da rua ou da madrugada. É um silêncio que parece respirar como se viesse da própria terra.
Nessa altura, até o vento entre as árvores soa diferente. Eu, que sempre me considerei um homem de coragem, admito que nunca gostei de atravessar o cemitério sozinho quando já estava escuro. E nessa noite, essa sensação parecia ainda mais pesada. Peguei nas minhas coisas e comecei a andar lentamente pelas alamedas.
O som dos meus próprios passos no cascalho me incomodava, como se cada estalido de pedra denunciasse a minha presença. Eu queria sair dali depressa, mas ao mesmo tempo não conseguia evitar olhar para os lados, encarando as lápides que se alinhavam em silêncio. Algumas iluminadas por reflexos longínquos da rua, outras mergulhadas na completa escuridão.
Naquele momento, algo dentro de mim dizia que a noite ainda não tinha terminado. Enquanto caminhava em direção ao balneário, o céu já estava completamente escuro. Só algumas lâmpadas antigas iluminavam parte das alamedas, mas a maioria já não funcionava bem. A luz vinha fraca, amarelada, formando pequenos círculos no chão, enquanto o resto permanecia mergulhado em sombra.
Eu conhecia cada canto daquele lugar, mas à noite era como se o cemitério se transformasse num outro ambiente estranho, quase hostil. O cheiro da terra, ainda fresca do enterro, me acompanhava. É um odor húmido, pesado, que quem trabalha neste conhece bem. E junto dele parecia ainda ecoar o choro da família do rapaz, como se tivesse ficado retido no ar.
Eu tentava não pensar, mas cada passo me recordava a cena do caixão a descer, das mãos desesperadas, tentando segurar a corda da mãe, gritando até perder a voz. A minha mente estava cansada e talvez por isso comecei a sentir aquele desconforto maior do que o normal. Sabe quando tem a sensação de que está a ser observado? Pois bem, era exatamente o que sentia.
Eu andava rápido, mas evitava olhar para trás. Eu conhecia bem aquele silêncio, mas naquela noite o silêncio parecia diferente. Parecia mais pesado, como se alguém estivesse a passear comigo, respirando atrás de mim. De vez em quando eu dava pontapés numa pedrinha só para quebrar a monotonia do som dos passos. É um hábito meu.
Mas a cada remate, o barulho parecia ecoar demasiado alto, denunciando não só onde estava, mas também o facto de estar sozinho ali. Ao aproximar-me do balneário, olhei de relance para a capela que ficava alguns metros mais à frente. Aquele prédio branco, antigo, sempre me causou arrepios quando o via à noite. A porta estava fechada, mas parecia que havia uma sombra ali encostada.
Balancei a cabeça e tentei afastar esse pensamento, dizendo para mim mesmo que era só jogo de luz das lâmpadas fundidas. Peguei na chave do vestiário, guardei as ferramentas e lavei rapidamente as mãos. A minha intenção era sair o mais possível, mas antes mesmo de rodar a chave na fechadura, tive um arrepio forte.
Foi como se alguém tivesse sussurrado atrás de mim. Era como se uma voz tivesse passado rente ao meu ouvido, fraca, quase inaudível, mas suficiente para me travar por alguns segundos. Eu estava sozinho. Disso eu tinha a certeza, ou pelo menos pensava que estava. Saí do balneário com passos rápidos, ansioso para alcançar logo o portão lateral do cemitério.
A noite estava mais escura do que o normal. sem lua e o vento gelado passava por entre as árvores, balançando as folhas secas que caíam sobre o chão de cascalho. Tentava manter a calma, mas aquele arrepio na nuca ainda não tinha passado. Era como se a sombra que eu pensara ver perto da capela tivesse me seguido.
Enquanto caminhava, ouvi um barulho de cascalho a ser pisado. Parei à mesma hora. O som não era meu. Virei para trás. Mas não havia nada para além da escuridão entre os túmulos. Respirei fundo e continuei, dizendo a mim mesmo que era só impressão. Mas não demorou muito. Ouvi novamente o som. Passos firmes atrás de mim. O meu coração acelerou.
Acelerei o passo também até que de repente uma voz ecoou no silêncio. Ó amigo, como é que eu faço para sair daqui? Congelado, olhei para o frente e lá estava ele, um homem parado no meio da alameda, uns 10 m à frente, bloqueando o meu caminho. Não sei dizer de onde surgiu. Um segundo antes, não havia ninguém ali. Parecia ter uns 40 e poucos anos.
Usava uma roupa simples, mas estava demasiado limpo para alguém que tivesse passado o dia no cemitério. O rosto, o rosto era o que mais me incomodava. tinha um sorriso estranho, meio de canto, como quem se diverte com o incómodo do outro. “O portão é só seguir em frente e virar à direita”, respondi tentando manter a voz firme.
“Ah, ele abanou a cabeça devagar, como se estivesse a saborear a minha resposta. Obrigado. É que eu não gosto de me perder por aqui, sabe? Já aconteceu uma vez. Deu dois passos para a frente e recuei instintivamente. Era como se cada movimento dele puxasse o ar envolvente, deixando o ambiente mais pesado.
“Já é tarde, o senhor devia ir logo”, disse eu, querendo terminar a conversa, mas ele não parecia pressa. Ficava ali a sorrir, a olhar para mim, como quem já sabe de alguma coisa que eu não sei. “O senhor trabalha aqui faz tempo, não é?”, perguntou a voz calma demais. Então o senhor já deve ter visto muita coisa.
Ele sorriu mais largamente, mostrando os dentes. Muita coisa não fica enterrada, sabe? Aquela frase me arrepiou até aos ossos. Quem era aquele homem? visitante não podia ser, porque já passava das 8 da noite e o portão estava fechado. E, no entanto, ele estava ali no meio do cemitério, como se tinha todo o direito do mundo. Tentei retomar o caminho, mas quando passei por ele, tive a impressão de que o ar ficou gelado, os pelos do meu braço se arrepiaram-se e eu evitei encarar diretamente.
Queria apenas sair dali, mas passados poucos metros houvi passos novamente atrás de mim. Virei o rosto rápido, não havia nada. Quando voltei os olhos em frente, lá estava ele outra vez. Agora, parado mais à frente, bloqueando a alameda como se tivesse atravessado o cemitério em segundos, o meu coração disparou. Aquilo não era normal.
Abriu os braços e disse quase a rir: “Ué, não era por aqui a saída? Naquele instante senti as pernas travarem. Eu sabia que não tinha como ele ter passado por mim. Não havia atalhos, não havia como atravessar tão depressa. Ainda assim, o homem estava ali de novo, parado, como se se tivesse materializado do nada.
Eu já te disse o caminho”, respondi com a voz meio falhada. Ele inclinou a cabeça para o lado, como quem diverte-se com a confusão do outro. O sorriso não lhe saía do rosto, mas agora havia algo no olhar dele que me incomodava ainda mais. Não era curiosidade, não era dúvida, era como se ele estivesse a estudar-me. “O senhor não percebeu”, disse arrastando as palavras.
“Eu não estou a perguntar a saída para ir embora. Estou a perguntar porque eu ainda estou aqui. Engoli em seco. Aquilo não fazia qualquer sentido. A pele dos meus braços arrepiou-se inteira e o vento que passava parecia ter ficado mais gelado. Tentei manter a calma. Respirei fundo e, sem responder, desviei o olhar e continuei a andar.
Eu sabia que se parasse para dar corda àquela conversa, não conseguiria sair dali nunca mais. Mas, passados alguns passos, ouvi de novo aquela voz atrás de mim, baixa, quase num sussurro. Já pensou se um dia for você no caixão e não este miúdo? Parei logo. Senti um peso enorme nas costas, como se o ar tivesse ficado denso.
Virei-me devagar e lá estava ele outra vez, a poucos metros, me encarando-o de frente, como se nunca tivesse saído dali. O meu instinto de sobrevivência fez-me reagir com grosseria. Eu não estou aqui para brincadeira. Estás a ouvir-me? Falei mais alto, tentando disfarçar o medo. O cemitério já fechou. O senhor não devia estar aqui. Mas ele riu-se.
E a gargalhada dele não era como a de uma pessoa normal. Era uma gargalhada baixa, seca, que parecia não ter princípio nem fim. Aquilo arrepiou-me mais do que tudo o que já tinha vivido. Deu dois passos à frente e disse: “Sabe, eu gosto de pessoas como você. Gente que pensa que manda aqui dentro, mas no fim é só mais um.
Eu não aguentei encarar por mais tempo. Virei as costas e acelerei o passo, decidido a não responder mais nada. Mas a cada esquina que dobrava, a cada cruz que passava, tinha a impressão de que ele estaria lá. à espera e de facto estava. Quando alcancei a curva que levava em direção ao portão, vi a sua silhueta mais uma vez imóvel, bloqueando-me de novo.
Nesse momento, uma certeza tomou conta de mim. Eu não estava a lidar com um homem comum. Eu estava perante algo que não pertencia a esse mundo. Depois de ver aquele homem bloquear-me pela terceira vez, todo o meu corpo entrou em alerta. O suor escorria pelas minhas costas, apesar do frio da noite. Eu não era de me assustar facilmente.
Quem trabalha em cemitério aprende a endurecer. Mas havia ali qualquer coisa que não se explicava. O forma como ele surgia de repente, como se atravessasse as alamedas sem fazer barulho, sem pressas, e ainda assim sempre à minha frente. Aquilo não era coisa de gente normal. Eu tentei manter a cabeça erguida, mas dentro de mim tudo gritava para sair a correr.
Em vez disso, firmei os passos e encarei a figura mais de perto. Ele continuava com aquele sorriso trocista, mas agora havia algo de diferente nos olhos. Estavam fixos em mim, como se me atravessassem. Não devias brincar com quem já tá habituado à morte. Falei tentando parecer firme, mas a minha voz soou mais fraca do que eu queria.
Ele deu uma riso curto, seco. Quem diz que eu estou brincando? Senti a garganta secar. Engoli em seco e virei-me para o lado, tentando alterar o trajeto. Decidi seguir para o balneário novamente, imaginando que lá dentro eu teria pelo menos uma porta para fechar entre nós. Caminhei rápido, quase a correr, mas sem olhar para trás.
Quando cheguei, encostei-me à parede por um momento para respirar. O coração batia tão forte que parecia que ia rasgar-me o peito. Entrei, fechei a porta e liguei a luz fraca que mal iluminava o espaço. Deitei água no rosto, tentando acalmar-me. Foi então que reparei em algo estranho. Olhei para o relógio pendurado na parede do vestiário.
8:15 da noite. Arregalei os olhos. Eu tinha certeza de que eram no máximo 8 horas. Toda aquela conversa, desde a hora que saí da cova até encontrar o homem três vezes, não podia ter levado mais do que uns 15 minutos. E, no entanto, mais de Tinham passado 40 minutos. Um gelo percorreu a minha espinha.
Eu sabia o que tinha vivido. Sabia que o tempo não batia e aquela sensação era pior do que qualquer gargalhada ou sombra no escuro. Era como se algo tivesse roubado parte do meu tempo, como se aquele encontro me tivesse sugado à vida sem que eu percebesse. Sentei-me no banco de madeira do balneário e passei as mãos pela cara.
Respirei fundo várias vezes, tentando racionalizar, mas nada fazia sentido. Como se poderia estar em tantos lugares ao mesmo tempo? Como aquele relógio podia estar tão adiantado? Eu conhecia bem os meus horários e aquela discrepância só aumentava o meu medo. De repente, ouvi uma batida suave na porta. Três toques secos, espaçados.
O coração quase saiu pela boca. Eu não tinha visto ninguém do lado de fora. Segurei a respiração. Mais três batidas. Vai-me deixar entrar? A voz veio baixa, arrastada, inconfundível. Era ele. Meu sangue gelou. Ele estava ali ao lado de fora a falar comigo como se soubesse exatamente o que estava a sentir. Eu não respondi.
Fiquei parado, olhando para a porta que parecia tremer a cada batida, até que de repente, silêncio. Acho que foi pior assim. Fiquei parado diante daquela porta, segurando a respiração, esperando qualquer movimento. O silêncio que se seguiu às batidas era tão profundo que chegava a doer nos ouvidos. Sabe quando parece que até o ar fica retido? Pois foi exatamente essa a sensação.
Eu só ouvia o meu coração disparado e o som ténue da lâmpada do balneário que piscava de vez em quando. Decidi que não podia ficar ali preso. Se fosse para enfrentar, eu encararia. Peguei numa chave de ferro que utilizava para fechar as ferramentas e segurei-o como se fosse uma arma. Com a mão a tremer, rodei a maçaneta devagar e Abri a porta de uma vez, preparado para encontrar aquele homem, mas não havia ninguém.
Olhei para os lados, para o corredor escuro, para as alamedas ao longe. Nada, apenas o vento a arrastar folhas secas no chão. Você tá ficando doido, António! murmurei para mim mesmo, tentando acreditar nisso. Voltei a caminhar em direção ao portão, mas desta vez prestando atenção ao relógio de pulso. Eram 8:20. Eu tinha de sair dali logo, porque o guarda-nocturno já deveria estar a rondar.
E eu não queria explicar aquela situação esquisita. Só que a cada 10 passos que dava, tinha a impressão de estar a andar em círculos. As alamedas que eu conhecia tão bem pareciam mais longas, repetitivas, como se o caminho nunca mais acabasse. Olhava o relógio e os ponteiros avançavam demasiado rápido. 5 minutos, depois 10, depois 15.
Mas para mim tudo aquilo não passava de alguns instantes. Aquela distorção no tempo começou a dar-me desesperar. Senti que algo estava errado, não só com o cemitério, mas comigo próprio. Era como se aquele homem me tivesse puxado para um lugar onde o tempo corria diferente. Foi então que o vi outra vez. Estava parado em frente da capela, exatamente no mesmo ponto em que eu tinha jurado ter visto uma sombra antes.
Só que agora não havia dúvidas. Era ele imóvel à minha espera. “Está com pressa, seu António?”, perguntou sem mexer os lábios. Ouvi a voz, mas não vi a sua boca se mexer. Os meus joelhos fraquejaram. Como é que ele sabia o meu nome? Eu nunca tinha me apresentado. Ele deu um passo à frente e completou.
O tempo aqui não é o mesmo lá fora. O senhor já perdeu mais do que imagina. Aquilo foi a gota d’água. Virei costas e corri pelo corredor, sem olhar para trás. O som da gargalhada dele ecoou no ar, misturado ao vento, espalhando-se pelo cemitério inteiro. Não era uma gargalhada normal, era funda, arrastada, quase como um rugido que parecia vir debaixo da terra.
Quando finalmente cheguei ao portão, as minhas mãos tremiam tanto que mal conseguia enfiar a chave. O relógio marcava quase 9 horas da noite e tinha a certeza absoluta de que não tinha ficado ali mais de meia hora desde que o enterro acabara. Foi nesse momento que compreendi. Eu não estava apenas a ser perseguido por um homem.
Eu estava a ser caçado por algo que mexia com o tempo, com a minha mente e talvez até com a minha própria vida. E por mais que tentasse convencer-me de que era cansaço, no fundo já sabia. Aquela noite ainda estava longe de terminar. As mãos ainda tremiam quando consegui rodar a chave no portão lateral.
O barulho do ferro se mover soou como um alívio, mas também como um alerta. Eu estava pronto para sair a correr quando ouvi novamente aquele som que me vinha perseguindo. A riso era diferente de todas as outras vezes. Antes parecia uma provocação baixa, trocista, era agora alta, profunda, ecuando pelo cemitério inteiro, como se viesse de todos os lados ao mesmo tempo.
Eu não sabia se estava a rir-se atrás de mim, na minha frente ou debaixo da terra. Só sabia que não era coisa de humanos. Soltei a chave assustado e virei-me de costas para olhar. Foi quando o voltei a ver. Não sei explicar como, mas a pouca luz do poste que ali ficava iluminava só parte do corpo dele e o rosto permanecia na sombra.
Mesmo assim, conseguia ver perfeitamente o sorriso largo, branco, congelado. Vai embora, senhor António? A voz dele cortou o silêncio como uma lâmina. O meu corpo gelou. Eu precisava de ajuda. Foi então que avistei uma figura aproximando-se pela lateral. Era o guarda noturno com a sua lanterna balançando.
Ó, senhor António ele chamou sem se aperceber ainda o que estava acontecendo. Está a ficar tarde, vamos fechar isso logo. Saí a correr em direção a ele. Quando cheguei perto, agarrei-lhe o braço com força. Você viu ele? – perguntei quase sem fôlego. Ver quem? O guarda respondeu confuso. Apontei para a direção da capela. O homem ainda lá estava parado, móvel sorrindo.
O guarda levantou a lanterna e iluminou o local. O feixe de luz cortou a escuridão, mas não afastou aquela sensação de peso no ar. Quando o clarão bateu na cara do homem, esperei que ele recuasse, que pestanejasse, que se mexesse, mas não. Ele ficou lá. sorrindo, como se nada lhe pudesse tocar. “Estás a ver agora?”, insisti, quase sacudindo o guarda. “Ele está ali e olha.
” O guarda engoliu em seco. Os seus olhos se arregalaram-se e eu entendi pelo silêncio dele que também estava a ver. Foi nesse momento que a gargalhada voltou. Só que agora não era apenas um som, era como se vibrasse dentro do peito da gente, como se viesse debaixo dos pés, subisse pela terra e ecoasse pelos ossos.
O guarda deixou a lanterna tremer na mão e deu dois passos para trás. “Isso, isso não é coisa de gente”, murmurou mais pálido do que eu. Eu queria correr, mas as minhas pernas pareciam presas. O homem não avançava, não se movia. apenas ria. O riso era tão alto que parecia empurrar o ar, fazendo rodopear as folhas secas pelo chão.
O guarda olhou para mim e naquele instante ambos entendemos a mesma coisa. Não estávamos a lidar com um visitante atrasado. Aquilo era outra coisa, algo que não devia estar ali. O guarda e eu ficámos parados, sem saber o que fazer. A gargalhada continuava. Vamos embora, senhor António”, disse o guarda baixinho, quase a implorar.
“Vamos sair daqui agora?” Eu queria concordar, mas não conseguia descolar os olhos daquela figura. O homem parecia cada vez mais alto, mais imponente, mesmo sem dar um passo. A escuridão à sua volta parecia ganhar forma, como se as sombras se curvassem para o acompanhar. “Não adianta correr.” A voz dele atravessou a noite, sem que os lábios se movessem.
“Aqui dentro tudo é meu. Foi o suficiente para o guarda perder a coragem.” Largou a lanterna no chão e saiu a correr pelo corredor lateral. O som dos seus passos desapareceu rápido na distância, mas a sensação de estar sozinho atingiu-me com toda a força. Fiquei parado, a tremer, com a chave do portão ainda na mão.
Pensei em correr atrás, mas alguma coisa me prendia ali. Era como se o riso me segurasse, como se zombasse da minha incapacidade de reagir. “O senhor ainda não percebeu, senhor António”, disse, dando finalmente um passo em frente. O sorriso alargou-se ainda mais e vi um brilho estranho nos olhos dele, um reflexo vermelho como brasa.
Quem vive de enterrar, um dia também vai ser enterrado. Estas palavras me atravessaram como uma faca. Eu queria gritar, mas a voz não saía. O ar parecia ter desaparecido do cemitério inteiro. De repente, inclinou a cabeça para trás e soltou a maior gargalhada da noite. Era ensurdecedora, como se todas as paredes, lápides e até o chão tremessem.
As lâmpadas que restavam acesas piscaram e, por um instante tudo ficou escuro. Aproveitei este momento para correr. Os meus pés batiam no cascalho e eu tropeçava nas pedras, mas não parei. Cada vez que respirava, sentia o eco da riso atrás de mim, como se estivesse colada ao meu ouvido. Cheguei ao portão com as mãos suadas, a tremer.
Forcei a chave, mas parecia que ela não entrava. Olhei para trás. A capela estava vazia. Mas a gargalhada continuava agora mais distante, como se viesse de todos os cantos ao mesmo tempo. Finalmente a chave rodou, o cadeado abriu e eu empurrei o portão com toda a força. Corri para fora sem olhar para trás, com a sensação de que a qualquer segundo um mão fria ia apoiar-se no meu ombro.
Quando alcancei a rua, tudo ficou em silêncio. A cidade seguia a sua vida normal, como se nada tivesse acontecido. Mas dentro de mim, eu sabia. Não era apenas um encontro estranho. Eu tinha acabado de encarar algo que não era deste mundo. Do lado de fora, a cidade estava calma. Algumas luzes acesas nos postes, o som longínquo dos carros passando, um cão a ladrar em alguma casa próxima.
A vida corria normalmente, como se nada tivesse acontecido dentro do cemitério. Mas eu sabia que não era o mesmo homem que lá tinha entrado ao início do dia. Os meus pulmões ardiam, o coração ainda disparado e as mãos não largavam a chave do portão, que eu segurava como se fosse a única coisa capaz de me manter seguro. Olhei para trás.
O cemitério do desterro estava em silêncio, os portões fechados. Nenhum sinal do homem, nenhum som, nenhuma risada. Mas sentia mais do que via ou ouvia, que ele ainda estava lá dentro rindo de mim, observando-me através da escuridão. Não consegui simplesmente ir embora. Esperei alguns minutos na calçada, respirando fundo, tentando acreditar que tinha acabado, mas a mente não parava de me torturar.
E se ele tivesse saído por outro portão? E se estivesse a seguir-me agora, invisível, o guarda nocturno que tinha fugido antes não estava em lado nenhum. Eu estava sozinho e isso dava-me a sensação de que a qualquer momento uma mão fria poderia tocar-me no ombro. Tomei coragem e comecei a caminhar rapidamente até à paragem de ônibus mais próximo.
Eu morava em Jundiaí mesmo, mas um pouco afastado dali e sempre dependi transportes públicos para regressar a casa. A cada passo, a sensação de perseguição aumentava. O som dos meus sapatos no asfalto parecia ecoar demasiado alto, como se fosse acompanhado por outros passos que não eram meus. Quando finalmente cheguei ao ponto, sentei-me no banco de betão e tentei acalmar-me. Olhei para o relógio.
Passava das 9:30 da noite. Eu não podia acreditar que tinha ficado tanto tempo preso naquele cemitério. Para mim, tinham sido minutos, talvez meia hora no máximo desde o fim do enterramento. Mas o relógio dizia outra coisa e essa distorção corroía-me por dentro. O autocarro chegou devagar, com aquele barulho velho de travões que reclamam, e entrei rápido.
Sentei-me perto da janela, tentando controlar a respiração. Enquanto o veículo se afastava, olhei mais uma vez para trás em direção ao cemitério. Foi rápido, coisa de um segundo, mas juro que vi uma silhueta escura parada bem no cimo do portão, olhando na minha direção. Fechei os olhos e virei o rosto. Não queria mais ver nada.
A viagem até minha casa foi longa, mais longa do que o habitual. Talvez porque não conseguia parar de reviver cada detalhe da noite. A risada ecoava nos meus ouvidos, o olhar fixo dele ardia na minha memória e a frase que tinha dito: “O tempo aqui não é o mesmo lá fora. Deixava-me inquieto. O que ele quis dizer com aquilo? O que tinha realmente acontecido lá dentro? Quando finalmente cheguei, a minha mulher percebeu logo que algo estava errado.
Entrei pálido, suado, as mãos tremendo. Não tive coragem de contar tudo. Apenas disse que tinha sido um dia, um enterro pesado, que o clima me tinha abalado, mas por dentro sabia que era muito mais do que isso. Naquela noite deitei-me na cama sem conseguir dormir. A cada vez que fechava os olhos, via o sorriso dele, e cada vez que o silêncio da madrugada tomava conta da casa, parecia que ouvia a gargalhada distante vindo de dentro da minha cabeça.
Os dias seguintes foram uma tortura silenciosa. Ia trabalhar normalmente, mas já não era o mesmo. Cada vez que entrava no cemitério do desterro, sentia um peso diferente, como se estivesse a voltar para o local onde deixei um pedaço de mim nessa noite. O guarda-nocturno que fugiu comigo nunca mais tocou no assunto.
Nós encontrámo-nos algumas vezes depois, mas ele evitava comentar. Bastava um olhar trocado entre nós para sabermos. Tínhamos visto a mesma coisa. Tínhamos sentido a mesma presença. Só que preferiu calar-se. Talvez fosse a forma dele lidar. Eu não tive essa sorte porque aquilo não ficou preso no passado. Muitas vezes, mesmo anos depois, acordava de madrugada com a sensação de que alguém estava dentro do quarto.
Eu levantava-me, acendia a luz e não via nada. Mas o coração batia forte e lá no fundo ouvia um eco longínquo, como se fosse a gargalhada dele. Já me perguntei mil vezes quem ou o que era aquele homem. Uma alma perdida, uma sombra do próprio inferno ou o diabo em pessoa? A resposta nunca a tive. Só sei que não era humano.