EX- COVEIRO: A Cova Dela Era LACRADA… Mas Ontem Vi ELA SAINDO Da Terra Para ABRAÇAR O MARIDO”
EX- COVEIRO: A Cova Dela Era LACRADA… Mas Ontem Vi ELA SAINDO Da Terra Para ABRAÇAR O MARIDO” 
Dizem que a morte separa as pessoas e que o túmulo é a fronteira final, onde todo o amor acaba e toda a dívida se encerra. Mas no cemitério de São Miguel, onde trabalho há 30 anos, existe uma sepultura onde a morte não separou nada e apenas serviu de porta para algo que não devia ter voltado. Eu enterrei a mulher daquele rapaz em 2018 e recordo como se fosse hoje que o caixão dela pesava o dobro do normal.
como se tivesse chumbo ou outra pessoa escondida lá dentro juntamente com o corpo. A família pediu para não abrir a tampa no velório e pensei que fosse por causa de alguma doença ou desfiguração. Mas ontem, 5 anos depois, o viúvo apareceu a visitar ao final da tarde. Eu estava escondido atrás da estátua de um anjo limpando as minhas ferramentas.
E eu vi eu vi uma mulher de vestido vermelho rodado [música] brotar de cima da terra batida do túmulo antes mesmo de ele chegar. O problema é que não havia mulher nenhuma entrou no cemitério pelo portão e ela não tinha cara de fantasma. Ela tinha cara de carne e fome. O meu nome é Valdir, Tenho 58 anos e vi o momento exato em que a herança maldita mudou de dono.
Trabalhar num cemitério exige que a gente tenha os olhos atentos e a boca fechada, porque quem fala demais acaba por ver o que não quer. Eu sou o coveiro mais antigo do São Miguel e já aprendi a diferenciar quem vem chorar de saudade, de quem vem chorar. Aquele rapaz chamado O Gabriel era do segundo tipo.
Ele vinha todos os anos na mesma data que era o dia 15 de março visitar o túmulo da esposa falecida. Era um homem jovem de uns 40 anos bem vestido, mas que carregava nos ombros um peso que o fazia andar curvado como um velho. Eu sempre observava-o de longe porque tinha algo na sua postura que me deixava em alerta. Ele não rezava.
Ele conversava com a Terra como se estivesse a negociar uma dívida. A história daquele enterro foi estranha desde o início. A mulher chamava-se Lúcia e morreu jovem com 30 e poucos anos. O relatório dizia ataque cardíaco, mas a tagarelice entre os funcionários da agência funerária era de que ela tinha morrido durante um ritual ou alguma coisa parecida, porque o corpo foi encontrado rodeado de velas e com marcas estranhas.
O caixão chegou selado com parafusos extra e a ordem da família foi expressa para que ninguém abrisse nem para a última despedida. Quando eu e o meu parceiro descemos o caixão na cova, sentimos um calor a vir da madeira. Não era calor de sol, era calor de forno. E o peso era absurdo. Parecia que estávamos a enterrar uma estátua de pedra e não uma mulher magra.
Mas o que me chamou a atenção ontem não foi a recordação do enterro, e sim o que aconteceu antes do Gabriel chegar. Eram 6 horas da tarde e o sol já estava pondo-se, deixando o céu com aquela cor de sangue pisado que precede a noite. O cemitério estava vazio e silencioso. Eu estava a acabar de varrer as folhas secas perto do quarteirão sete, quando senti aquele cheiro.
Era um cheiro forte e doce de perfume barato, misturado com enxofre e terra molhada. O cheiro era tão intenso que tive de cobrir o nariz com a gola da camisa. Olhei na direção do túmulo da Lúcia e vi a terra se mexer. Não era um tremor de terra. A terra da cova estava a pulsar como se fosse a pele de um animal que respira. E depois, como uma neblina que ganha forma sólida, [música] vi a mulher formar-se em cima do túmulo.
Ela não saiu debaixo da terra suja de barro. [música] Ela se materializou no ar. Primeiro os pés descalços, depois as pernas e por fim o corpo todo coberto por um vestido vermelho e preto de tecido brilhante que parecia roupa de festa antiga. Eu me escondi-o atrás de um mausoléu grande da família Silveira, porque o meu instinto gritou que aquilo não era coisa para olhos humanos.
Fiquei a espreitar pela fresta entre o anjo de mármore e a coluna. A mulher estava de costas para mim, olhando para o portão de entrada. Tinha cabelos longos e negros que balançavam sem vento. Ela começou a dançar. Não era uma dança triste, era uma dança provocante, rodopiando e balançando as ancas com uma energia que fazia vibrar o ar à sua volta.
Eu ouvia a sua gargalhada, uma gargalhada baixa e rouca que ecoava entre as lápides como som de vidro a partir. Foi então que o O Gabriel apareceu no portão. Ele caminhava lentamente, segurando um ramo de cravos brancos e uma vela apagada. Ele não viu a mulher de imediato porque estava de cabeça baixa, olhando para os próprios pés com aquele jeito derrotado de sempre. Mas a mulher viu-o.
Ela parou de dançar e ficou imóvel, esperando como uma aranha espera a mosca na teia. O sorriso que ela abriu quando viu o marido foi a coisa mais aterrador que já vi na minha vida. Não era um sorriso de amor, era um sorriso de posse. Eu queria gritar para ele correr, queria avisar que não estava sozinho, mas a minha voz travou na garganta.
Eu estava paralisado pelo medo e pela curiosidade mórbida de ver o que ia acontecer. O Gabriel levantou a cabeça quando chegou perto do setor e parou bruscamente. Ele viu a mulher. Eu vi o corpo dele emperrar. As flores caíram da mão dele e espalharam-se no chão. Ele ficou a olhar para ela com uma mistura de pavor e fascínio.
A mulher estendeu a mão para ele. Os dedos dela eram compridos e cheios de anéis dourados que brilhavam na penumbra. Ela não disse nada audível para mim, mas vi os lábios dela a moverem. Ela estava a chamá-lo e o Gabriel, em vez de fugir, começou a caminhar na direção dela. Ele andava como um sonâmbolo arrastado por uma corda invisível.
O seu rosto estava pálido e suado. Eu percebi que aquilo não era um encontro de fantasmas, aquilo era um ritual. A mulher ou a coisa que usava a forma da sua mulher estava ali para cobrar algo. Lembrei-me das histórias que os antigos contavam sobre entidades que se agarram à carne e que não aceitam o fim do prazer carnal.
Aquela mulher não tinha ido embora quando morreu. Ela tinha ficado presa no caixão, à espera a oportunidade de voltar. E o marido era a chave. Gabriel chegou à beira do túmulo e caiu de joelhos. Ele chorava. Via os ombros dele a abanar. A mulher de vermelho aproximou-se dele, flutuando por cima da relva. Ela colocou as mãos na cabeça dele, acariciando os cabelos com uma ternura que parecia falsa e perigosa.
O Gabriel abraçou a cintura dela, enterrando o rosto no vestido vermelho. Eu vi quando o tecido do vestido começou a escurecer e a virar fumo ao redor do corpo dele. A entidade estava a fundir-se com ele. O cheiro a perfume tornou-se insuportável onde eu estava. Os meus olhos ardiam. Eu vi o Gabriel levantar a cara [música] e olhar para a mulher.
Os olhos dele estavam a mudar. Eles já não eram os olhos castanhos e tristes do viúvo. Eles estavam a ficar pretos e brilhantes com [música] a mesma malícia que eu via no rosto dela. A mulher inclinou-se e beijou-lhe a boca. Não foi um beijo normal, foi como ver alguém a soprar fumo para dentro do pulmão de outro. A mulher começou a perder a forma física.
O corpo dela foi-se desfazendo e entrando pela boca e pelo nariz do Gabriel como uma névoa densa e escura. Ele engasgou-se e tentou afastar-se, mas as mãos dela seguravam-lhe a cabeça com força desumana. Ele estava a ser invadido, estava a ser vestido por dentro. Fechei os olhos por um segundo porque a cena era perturbadora demais.
Quando abri de novo, a mulher tinha desaparecido. Não havia mais ninguém de vestido vermelho. Só havia o Gabriel ajoelhado na terra. Mas ele estava diferente. A sua postura tinha mudado. Já não estava curvado e chorando. Ele estava ereto. Os ombros estavam relaxados. Ele levantou-se devagar. O movimento foi fluido e elegante, muito diferente do jeito pesado que tinha chegado.
Limpou a terra das calças com [música] gestos delicados, passando as mãos pelo corpo, como se estivesse apreciando a sensação de ter carne e osso novamente. Ele olhou para as mãos dele e sorriu. Aquele mesmo sorriso que a mulher tinha. Eu sabia o que tinha acontecido. A esposa já não estava no túmulo. O túmulo estava agora vazio por baixo da terra.
Ela tinha saído e tinha tomado o lugar do condutor no corpo do marido. O Gabriel que entrou no cemitério não era o mesmo que estava saindo. Pegou na vela que tinha caído no chão e acendeu com um isqueiro que tirou do bolso. A chama não tremeu. Ele colocou a vela em cima da lápide com um gesto de gozo e virou costas ao cova.
Começou a caminhar em direção à saída e a forma de andar era inconfundível. Ele rebolava. Era um gingado subtil, mas estava lá. O quadril balançava com uma feminilidade que não pertencia àquele corpo masculino. Ele passava a mão pelo cabelo, atirando-o para trás com vaidade. Quando ele passou perto do meu esconderijo, prendi a respiração. Ele parou.
Ele não olhou para mim, mas virou o rosto na minha direção e aspirou o ar. Ele sabia que eu estava ali. Ele sentiu o meu cheiro. O sorriso no rosto dele aumentou. Ele piscou um olho para o nada e sussurrou algo que o vento me trouxe. Ele disse que estava com saudades de sentir o cheiro de homem vivo. Eu esperei que ele sair pelo portão e desaparecer na rua antes de sair do meu esconderijo.
[música] As minhas pernas tremiam tanto que precisei sentar na base do anjo de mármore. O cheiro a perfume ainda pairava no ar. mas agora estava misturado com cheiro a terra revirada. Foi até ao túmulo da Lúcia para ver. A terra em cima da cova estava revolvida como se topeiras tivessem cavado de dentro para fora. A lápide de mármore estava rachada no meio.
Peguei nas minhas ferramentas e fui para a administração picar o meu ponto e ir embora. Eu não contei a ninguém o que vi, porque ninguém acreditaria que um homem entrou no cemitério e saiu mulher. Mas eu sei a verdade. Eu sei que existem amores que matam, há amores que não deixam morrer. E aquela mulher amava tanto a vida e os prazeres da carne que não aceitou o fim.
Fui para casa rezando para nunca mais me cruzar com o Gabriel na rua, mas o destino gosta de pregar partidas na gente. E o que aconteceu nos meses seguintes provou-me que aquela visita ao cemitério foi apenas o início de uma transformação que ia muito para além de uma simples possessão, porque a fome daquele entidade não se satisfazia apenas com um corpo.
Ela queria a vida que tinha sido tirada dela e ela ia cobrar com juros e correção monetária de quem quer que cruzasse o caminho daquele viúvo possuído. Os dias que se seguiram àquela tarde de março foram arrastados e pesados, como se o próprio tempo no cemitério tivesse ficado doente. Continuei o meu trabalho de abrir covas e varrer folhas secas, [música] mas os meus olhos estavam sempre a vigiar o portão, à espera de ver aquele viúvo voltar.
Mas não voltou tão cedo. Quem voltou foram as notícias. Cidade pequena e bairro antigo são locais onde a tagarelice corre mais depressa que o vento em dia de tempestade. E logo começaram a chegar aos meus ouvidos histórias estranhas sobre o Gabriel. O pessoal da padaria e do bar da esquina comentava que o rapaz tinha enlouquecido de vez ao fim de 5 anos de luto.
Diziam que ele tinha mudado da água para o vinho, ou melhor, da água benta para o vinho estragado. Contavam que tinha sido visto na noite a passear pelos bares do centro, com roupas extravagantes e com um comportamento que não se coadunava com o homem tímido que todos conheciam. Eu ouvia tudo calado enquanto tomava o meu café ao balcão, mas por dentro sabia que não era loucura, era a Lúcia ou a coisa que tinha sido a Lúcia.
Ela estava usando o corpo dele para viver tudo o que a morte tinha interrompido. Ela estava a beber, a fumar, a dançar e gastando a sua vida como se fosse dinheiro encontrado na rua. E o pior é que eu sabia que aquele corpo masculino não ia aguentar durante muito tempo. A energia daquela entidade era demasiado forte para uma carcaça que não foi feita para ela.
Era como tentar ligar um motor de camião num carro de passeio. Uma hora o chassis ia partir. Três meses depois tive a prova visual do que estava acontecendo. Eu estava a sair do cemitério num final de tarde de sábado, quando vi o Gabriel do outro lado da rua. Ele estava parado em frente de uma montra, olhando o próprio reflexo.
Se não conhecesse bem a figura dele, eu não teria reconhecido. Ele tinha emagrecido uns 20 kg. A roupa dele estava larga e pendurada no corpo esquelético. A sua pele estava cinzenta e manchada, como a pele de quem está com uma doença terminal. Mas a postura era a mesma daquela noite. Ele estava com a mão na cintura, a anca projetada para o lado e a cabeça erguida com uma arrogância feminina.
Ele olhava para o reflexo no vidro e passava a mão no rosto magro, ajeitando o cabelo com gestos delicados. Eu vi quando ele sorriu para si mesmo e mandou um beijo para o espelho. Mas o que me fez gelar foi ver que o nariz dele estava sangrando. Um filete de sangue escuro escorria sobre o lábio e ele nem parecia notar ou importar-se.
Ele lambeu o sangue com a ponta da língua como se fosse doce. Naquele momento, os nossos olhares cruzaram-se pelo reflexo do vidro. Ele viu-me. Os olhos dele, que antes eram castanhos, agora estavam fundos e rodeados de olheiras roxas, tão profundas que pareciam maquilhagem borrada. Ele acenou-me com os dedos um adeus debochado e saiu andando com aquele rebolado grotesco desaparecendo na esquina.
Aquele encontro me tirou o sono. Eu sabia que o fim estava próximo. O corpo do Gabriel estava apodrecendo em pé. A entidade estava consumindo a vitalidade dele, como um o fogo consome a cera da vela. E eu me perguntava o que aconteceria quando a vela acabasse, para onde iria? Será que ela voltaria para o túmulo ou procuraria outra vítima? Eu comecei a andar com um terço no bolso e reforcei as minhas orações antes de entrar no cemitério, porque sentia que o São Miguel tornara-se a casa de algo que não respeitava nem Deus nem o diabo. Foi numa sexta-feira de lua
minguante em agosto que o ciclo se fechou. Eu estava a fazer hora extra para terminar de limpar a área de um funeral que se realizaria no dia seguinte. Já passava das 7 da noite e o cemitério estava trancado. Eu era a única alma viver lá dentro, ou pelo menos era o que eu achava. O vento mudou de direção e trouxe de volta aquele cheiro enjoativo de perfume barato e terra revolvida.
O cheiro era tão forte que parecia que alguém tinha partido um frasco de colónia do meu lado. Eu larguei a vassoura e olhei para a direção do túmulo da Lúcia. Lá estava ele. Gabriel tinha saltado o muro ou entrado por algum buraco na vedação. Ele estava de pé em cima da cova da esposa, mas não estava mais a dançar.
Ele estava tremendo. O corpo dele parecia uma marioneta com os fios cortados. Ele se contorcia e dobrava em ângulos estranhos. Eu escondi-me atrás de uma árvore grossa e fiquei a observar com o coração na boca. Gabriel caiu de joelhos na terra. Começou a cavar o chão com as próprias mãos. Ele cavava com desespero, atirando a terra para trás igual a um cão.
As unhas dele estavam a partir e os dedos sangravam, mas ele não parava. Eu ouvia-o falar com duas vozes diferentes. Uma voz era a dele, fraca e chorosa, pedindo para parar, pedindo misericórdia, dizendo que doía muito. A outra voz era a dela, a voz da mulher, gritando que não era o suficiente, que ela queria mais, que aquele corpo era um lixo fraco que não servia mais para ela.
Era uma luta interna. O dono da casa estava a tentar expulsar o invasor, mas o invasor estava demolindo a casa antes de sair. Eu vi o Gabriel rasgar a própria camisa e arranhar o peito, deixando marcas fundas na pele. Ele gritava que não aguentava mais sentir frio. Ele dizia que ela era fria como o gelo por dentro.
De repente, parou. O corpo dele ficou rígido. Levantou a cabeça e olhou para a lua. A boca dele abriu-se num tamanho que não parecia possível. E um som saiu de lá. Não foi um grito humano, foi um som de rasgo. Uma fumaça negra e densa começou a sair-lhe pela boca. A fumaça subiu e tomou a forma da mulher de vestido vermelho.
Ela pairava no ar acima dele, sólida e terrível, com aquele sorriso de triunfo. O corpo do Gabriel caiu para a frente sem vida, com o rosto enterrado na cova, que ele próprio tinha cavado. A entidade olhou para o corpo dele com desprezo e cuspiu na direção do cadáver. Depois ela virou-se para mim. Eu estava a 30 m de distância, escondido no escuro, mas ela sabia exatamente onde eu estava. Ela flutuou na minha direção.
Apertei o terço na mão e comecei a rezar o credo, mas as palavras fugiram da minha mente. Ela parou a 2 m de mim. Conseguia ver o rosto dela com detalhes. [música] Agora era um rosto bonito, mas cruel. com olhos que brilhavam com uma luz vermelha. Ela não falou com a voz, ela falou diretamente na minha cabeça.
Ela disse para eu não ter medo, porque ela não queria um corpo velho e cansado como o meu. Ela disse que eu servia melhor como testemunha. Ela disse-me que ia dormir agora porque estava cheia e satisfeita, mas que um dia acordaria de novo quando alguém viesse chorar com o alma aberta naquele túmulo. Ela disse que a saudade é a porta e a culpa é a chave.
Depois disso, a forma dela [música] desfez-se em fumo e entrou de regressa na terra do túmulo como água, sendo sugada por um ralo. A terra tremeu ligeiramente e acomodou-se. O silêncio regressou ao cemitério. O cheiro do perfume desapareceu e ficou apenas o cheiro da morte recente. Esperei alguns minutos até ter a certeza de que ela tinha ido.
Fui até ao corpo do Gabriel. Ele estava morto. Os olhos estavam abertos e brancos, e a expressão no seu rosto era de puro terror. Ele tinha morrido de exaustão, de paragem cardíaca, de medo, de tudo junto. Chamei a polícia e disse que o tinha encontrado ali quando fui fazer a ronda. Disse que parecia que ele tinha invadido para visitar a esposa e passado mal. Ninguém questionou.
O histórico dele nos últimos meses justificava qualquer loucura. Enterraram o Gabriel no dia seguinte. A família queria colocá-lo no mesmo jazigo da esposa. Afinal era o túmulo da família. Eu tentei avisar. Disse à irmã dele que talvez fosse melhor colocá-lo em outra gaveta, longe dali. Inventei que havia infiltração nesse lado, mas eles não me ouviram.
Disseram que era romântico eles ficarem juntos na eternidade. Tive que cavar a cova, tive de abrir a terra onde a Lúcia estava e colocar o Gabriel em cima dela. Quando lancei a primeira pá de terra sobre o caixão dele, senti uma vibração no chão, um tremor curto e rápido. E ouvi abafada pela madeira e pela terra aquela gargalhada, a gargalhada dela.
Ela estava feliz. Ela tinha ganho o brinquedo dela de volta para a eternidade. Hoje evito passar pela quadra sete. O mato lá cresce mais rápido do que em qualquer outro lugar. E as flores que nascem em cima daquele túmulo são sempre vermelhas, de um vermelho vivo e sangrento, mesmo que ninguém tenha plantado [música] nada.
Às vezes à noite os vigias novos dizem que vem um casal a dançar entre as lápides. Dizem que o homem parece cansado e triste e que a mulher se ri o tempo todo. Eu digo-lhes para não olharem muito e nunca jamais chegarem perto. Eu continuo aqui porque é o único trabalho que sei fazer.
Mas aprendi que o cemitério não é lugar de descanso para todos. Para uns é apenas a continuação dos vícios e das paixões que não cabiam numa só vida. E o Gabriel, coitado, descobriu da pior maneira que amar até à morte é bonito nos livros. Mas, na vida real, a morte pode ser uma amante muito ciumenta e que nunca, nunca dorme sozinha.