EX-COVEIRO CONTA: CLARICE VIANA… A TRAGÉDIA DE 1952 QUE MARCOU O CEMITÉRIO PARA SEMPRE 

EX-COVEIRO CONTA: CLARICE VIANA… A TRAGÉDIA DE 1952 QUE MARCOU O CEMITÉRIO PARA SEMPRE

Trabalho com a morte há 50 anos no cemitério da filosofia em Santos e aprendi que o silêncio dos mortos nem sempre é sinal de paz. Meu nome é Manuel Soares, mas todos me chamam de Neco e tenho 72 anos vividos entre covas e ciprestes, respirando a marcia que corrói o mármore e a alma da gente. Já vi muita coisa que a ciência não explica, mas nada se compara ao que vivemos com o mausoléu da família Viana na década de 80.

 Clarice Viana foi enterrada em novembro de 1952. e diziam que ela era uma pianista de mãos de fada. Mas o que ficou preso naquele granito preto não tinha nada de angelical. Começou com um cheiro doce de jasmim que apodrecia o ar em segundos e evoluiu para melodias tristes que vinham do fundo da terra. Eu duvidava até o dia em que o jardineiro caiu em uma cova aberta, jurando ter sido empurrado pelo vento e quebrou a perna em dois lugares.

Mas o pior aconteceu comigo numa tarde chuvosa, quando entrei naquele mausoléu para silenciar a música e acordei horas depois com os dedos em carne viva de tanto raspar a pedra fria, enquanto o anjo de mármore lá fora olhava para uma direção diferente da que estava quando entrei.

 sempre foi um homem de poucas palavras e de muita observação, porque a profissão de coveiro exige que a gente seja invisível na maior parte do tempo. Quando as famílias estão chorando, a perda de um ente querido, nós somos apenas as mãos que seguram a corda e a pá, e ninguém repara no nosso rosto ou no que a gente sente. Durante as primeiras três décadas de serviço no cemitério da filosofia, eu tratei aquele lugar apenas como um local de trabalho, onde eu batia o cartão de ponto e cumpria minhas obrigações com respeito e dignidade. A cidade de Santos tem um

clima pesado por causa da humidade que vem do mar e que deixa tudo com um aspecto meio triste nos dias nublados. E o cemitério parece absorver essa tristeza de um jeito que penetra nos ossos. Eu nunca fui de acreditar em histórias de assombração e sempre achei que os vultos que o povo dizia ver não passavam de neblina ou de jogo de luz nas lápides antigas.

 Eu dizia para os novatos que o medo está na cabeça de quem tem culpa no cartório e que os mortos não fazem mal a ninguém, pois o verdadeiro perigo vem de quem está vivo e anda com más intenções. A minha descrença durou muito tempo e me serviu de escudo contra as noites escuras e os dias de tempestade, quando a gente precisava fazer hora extra para terminar um serviço atrasado.

 Mas a realidade tem camadas que a gente prefere ignorar para conseguir dormir em paz. E o mausoléu da família Viana era uma dessas camadas que foi descascando aos poucos até mostrar o que tinha por baixo da superfície polida. Ele fica localizado na parte antiga do cemitério, no setor que a gente chama de nobre, onde as famílias ricas do café e do porto construíram verdadeiros palácios para seus mortos.

 na esperança de que o dinheiro garantisse conforto na eternidade. O mausoléu de número 502 sempre chamou a atenção, não pela beleza clássica dos anjos barrocos, mas pela cor e pela imponência fria. Ele é todo construído em granito preto absoluto trazido da Europa, e é tão polido que funciona como um espelho escuro, refletindo o céu e as árvores de um jeito distorcido.

A história daquele túmulo era conhecida pelos funcionários mais antigos, como o seu Geraldo, que foi quem me ensinou o ofício quando eu cheguei ainda moço, com 20 e poucos anos e muita disposição para o trabalho pesado. O seu Geraldo era um homem que sabia de tudo o que acontecia na cidade e gostava de contar os detalhes sórdidos das famílias tradicionais enquanto a gente almoçava sentado nas muretas de pedra sob a sombra das árvores.

 Ele me contou que ali jazia a Clarice Viana, uma moça de apenas 22 anos que morreu de um jeito muito triste e misterioso no começo da década de 50. Clarice era filha de um grande exportador de café e era conhecida na sociedade santista como uma pianista prodígio que encantava a todos nos saraus do clube 15. Diziam as más línguas da época que a tragédia dela começou quando o pai se casou pela segunda vez com uma mulher muito mais jovem e ambiciosa que via na indiada um obstáculo para a herança.

 A versão oficial que saiu nos jornais e que consta no atestado de óbito, dizia que Clarice morreu de uma doença gástrica fulminante, mas o seu Geraldo baixava a voz para me contar a verdade que corria nos bastidores. O povo comentava que ela foi envenenada aos poucos pela madrasta que misturava pequenas doses de veneno no chá que a menina tomava todas as tardes antes de tocar piano.

 A morte foi lenta e dolorosa. E dizem que nos últimos dias ela já não conseguia mais tocar, porque as mãos tremiam demais e a força tinha abandonado os dedos. O que eu sei de fato é que o enterro dela foi um dos mais luxuosos que a cidade já viu, com carruagens pretas e cavalos com plumas na cabeça.

 Mas o clima não era de saudade, e simante. Os coveiros da época contaram que o caixão estava tão pesado que parecia levar chumbo dentro e que a madrasta chorava sem derramar uma única lágrima verdadeira escondida atrás de um véu de renda negra. Nos primeiros anos depois do enterro, a família visitou o túmulo com certa frequência, trazendo flores caras e acendendo velas grossas de sete dias que deixavam marcas de cera derretida na pedra preta.

 Mas depois que o pai morreu de ataque cardíaco, dois anos depois da filha, a madrasta assumiu o controle de tudo e as visitas pararam de uma vez, como se ela quisesse apagar a memória da entiada da face da Terra. O mausoléu ficou abandonado, entregue aos cuidados da administração e de nós coveiros que fazíamos a limpeza externa por obrigação contratual.

 Durante muito tempo, aquele lugar foi apenas mais um ponto de trabalho, onde eu passava a vassoura e tirava as folhas secas que caíam das árvores centenárias. A estrutura imponente de granito preto parecia dormir um sono profundo e sem sonhos. E eu passava por ela todos os dias, sem sentir nada além do respeito protocolar que dedico a todos os túmulos.

 As coisas começaram a mudar de figura no final dos anos 70, quando a estrutura do cemitério começou a passar por umas reformas necessárias e a gente precisou mexer na encarnação que passava perto daquela quadra específica. Eu lembro como se fosse hoje do dia exato em que a parte daquele setor foi quebrada. Era uma tarde abafada de março, daquelas em que o ar fica parado e a umidade cola a roupa no corpo.

 Eu estava cavando uma valeta para passar um cano novo de drenagem a uns 10 m do mausol dos Viana e o suor escorria pelo meu rosto ardendo nos olhos. Eu estava concentrado no ritmo da enchada, batendo na terra compactada. Quando de repente senti um cheiro que me fez parar o serviço na hora. Não era cheiro de bicho morto e nem de esgoto estourado, que são cheiros comuns na nossa profissão e aos quais a gente acaba se acostumando com o tempo.

 Era um perfume doce e enjoativo de jasmim. Era tão forte e intenso que parecia que alguém tinha derramado um frasco inteiro de essência concentrada em cima da minha cabeça. Eu larguei a enchada e olhei para os lados, procurando a origem daquele cheiro, pensando que alguma senhora tinha passado por ali, exagerando no perfume ou que alguém tinha deixado uma coroa de flores frescas em algum túmulo próximo.

 Mas não tinha ninguém por perto e a vegetação ali era só grama e cpreste, sem nenhuma flor de jasm à vista, num raio de 200 m. O cheiro era tão denso que chegava a dar gosto na boca, como se eu estivesse mastigando as pétalas brancas. E aquilo me deu uma tontura estranha que fez o mundo girar devagar.

 Eu precisei me apoiar no cabo da enchada e respirar fundo pela boca para tentar limpar as vias aéreas, mas o perfume parecia grudar na garganta. O mais estranho e assustador aconteceu logo em seguida, porque do mesmo jeito que o perfume veio, ele mudou de repente numa fração de segundo. O cheiro doce de Jasmim virou um cheiro insuportável de carne podre, misturado com formol e terra azeda.

 Foi uma transição violenta que atingiu meu estômago como um soco e eu não consegui segurar. Corri para o canto do muro e vomitei tudo o que tinha comido no almoço, sentindo o corpo tremer com a repulsa. Quando voltei para a valeta, o cheiro tinha sumido completamente e o ar tinha voltado ao normal, cheirando apenas a terra revirada.

 Quando contei para os outros coveiros no final do expediente, eles riram e disseram que eu tinha achado algum rato morto na tubulação antiga e que o calor tinha me feito imaginar o perfume. Eu tentei acreditar neles porque era a explicação mais lógica, mas no fundo eu sabia que Rato morto não cheira a Jasmim antes de cheirar a podre.

 Aquele foi o primeiro aviso de que as fronteiras entre o lado de lá e o lado de cá estavam ficando finas naquela parte do cemitério, mas eu escolhi ignorar. Nos meses seguintes, o fenômeno se repetiu com outros funcionários e a piada do rato morto perdeu a graça. O Toninho, que era um rapaz novo e impressionável, veio me procurar um dia pálido e suando frio, dizendo que tinha sentido o mesmo cheiro.

 Enquanto varria as folhas na frente do mausoléu. 502. Ele descreveu exatamente a mesma sequência. Primeiro o perfume doce que encantava e depois o cheiro de morte que revirava as entranhas. A gente começou a evitar trabalhar sozinho naquela área e sempre que precisávamos ir lá íamos em dupla conversando alto para disfarçar o desconforto que pairava no ar.

 O granito preto do mausoléu parecia absorver a luz do sol de um jeito diferente. E mesmo nos dias mais quentes, a pedra estava sempre gelada ao toque, como se irradiasse um frio interno. A situação evoluiu do olfato para a audição, cerca de um ano depois, quando começámos a ouvir os sons. No início era algo muito subtil que a gente confundia com o barulho do vento a passar pelas frestas dos túmulos ou com o som longínquo do trânsito da Avenida praia.

 Mas com o tempo, o som foi ganhando forma e ritmo. Era um piano. Lembro-me da primeira vez que ouvi com nitidez numa tarde de chuvisco fina, quando o cemitério estava vazio e silencioso. Eu estava a recolher as ferramentas perto do portão do setor três, quando ouvi as notas melancólicas que flutuavam no ar.

 Era uma música triste e lenta, tocada com uma delicadeza que fazia o peito apertar. Eu parei e fiquei escutando, tentando perceber de onde vinha. Parecia vir de todos os lados, mas ao mesmo tempo de lado nenhum. Eu fui andando devagar, seguindo o som, e Percebi que ele ficava mais forte à medida que me aproximava da quadra dos Viana.

 Quando cheguei a uns 20 metros do Mausoléu, o som parou bruscamente, como se o pianista tivesse tirado as mãos das teclas ao aperceber-se da a minha presença. Fiquei ali parado na chuva miudinha, sentindo um arrepio subir pela espinha, e olhei para a porta de bronze e vidro do mausoléu. Estava trancada como sempre e o interior estava escuro.

 Perguntei na administração se alguma casa vizinha do muro do cemitério tinha piano, mas disseram-me que daquele lado só tinha um depósito de materiais de construção e um terreno baldio. A música não vinha de fora, a música vinha de dentro e não era só eu que ouvia. O vigia noturno demitiu-se depois de jurar que houviu passos de salto alto batendo na pedra de dentro do mausoléu durante a ronda da madrugada.

 O clima no cemitério foi ficando insustentável e aquela área específica tornou-se um ponto cego na nossa rotina. As ferramentas desapareciam e apareciam em locais diferentes. E às vezes a gente chegava de manhã e encontrava as folhas secas varridas e amontoadas à porta do mausoléu, como se alguém tivesse limpado a entrada durante a noite para receber visitas que nunca chegavam.

 A gente tentava levar na brincadeira e fazer piada para espantar o medo, mas via nos olhos dos meus colegas que ninguém estava a achar graça nenhuma. O medo é um bicho sorrateiro que vai crescendo no silêncio e minando a coragem das pessoas aos poucos. Mas nada nos preparou para o dia em que o terror deixou de ser apenas cheiros e sons e partiu para a agressão física.

 Foi em 1985 que a situação escalou de uma forma violento e mandou um dos nossos para o hospital. O seu ar llindo era o jardineiro mais antigo da equipa e um homem sério e compenetrado que não gostava de conversa fiada e trabalhava com a cabeça baixa, cuidando das plantas como se fossem filhas dele. Ele tinha quase a mesma idade que eu e a gente se respeitava muito.

 Numa terça-feira cinzenta, estava a podar os arbustos de buchinho que ficam no corredor ao lado do mausoléuel dos Viana. Tinha uma cova aberta mesmo atrás dele, a cerca de 2 m de distância, aguardando um enterro que ia acontecer na manhã seguinte. A terra estava húmida e firme, e o terreno era planos sem raízes expostas ou pedras soltas onde alguém pudesse tropeçar.

 Eu estava a cerca de 30 m de distância, carregando sacos de cimento para um reparação num muro e tinha uma visão clara de onde o Arlindo estava. Eu vi a cena toda com uma clareza que me atormenta nos pesadelos até hoje. O seu ar llindo estava parado com a tesoura de poda na mão, longe da borda da cova.

 De repente, o seu corpo foi atirado para trás com uma violência absurda. Não foi um tropeço e nem um deslize, porque ele foi lançado pelo ar como se tivesse levado um forte empurrão de duas mãos no peito. Os seus pés saíram do chão e ele voou para trás, caindo diretamente dentro do buraco com 2 m de profundidade.

 O barulho do corpo a bater no fundo da cova foi um baque surdo e seco, seguido imediatamente pelo som horrível de osso quebrando e por um grito de dor que cortou o silêncio da tarde como uma navalha. Larguei os sacos de cimento no chão e corri desesperado, gritando pelos outros. Quando chegámos à beira da cova e olhamos para baixo, o ar lindo estava ali encolhido, gemendo e segurando a perna que estava virada num ângulo antinatural.

 O rosto dele estava branco de dor e os olhos estavam arregalados de pavor, olhando para cima, para a orla da cova, para onde tinha sido empurrado. Nós descemos com cordas e tiramo-lo de lá com muito custo e cuidado. Enquanto esperávamos que a ambulância chegasse, ele segurou-me o braço com uma força surpreendente para um homem ferido e me puxou para perto.

 Ele sussurrou com a voz trémula que não tinha tropeçado. Ele disse: “Neco, senti as mãos. Eram mãos geladas e pequenas, mas tinham a força do diabo. Elas empurraram-me Neco. Elas me queriam lá dentro.” O arlindo foi levado para o hospital e teve que colocar pinos na perna e nunca mais voltou a trabalhar. Se aposentou por invalidez, jurando que aquele lugar era amaldiçoado e que nunca mais pisaria lá, nem para visitar parentes.

 Depois do acidente do seu ar lindo, a administração tentou abafar o caso, dizendo que foi tontura ou pressão baixa, mas nós que estávamos ali no dia a dia sabíamos a verdade. O medo virou nosso companheiro constante. Eu comecei a prestar uma atenção obsessiva no Mausoléu e nos detalhes que antes passavam despercebidos na correria do dia a dia.

 O mausoléu tinha uma estátua de anjo em tamanho real, feita de mármore branco de carrara, que ficava no topo da construção, logo acima da porta de bronze e vidro. O anjo era uma figura feminina com asas grandes recolhidas nas costas e tinha uma expressão de tristeza profunda com a cabeça baixa e as mãos cruzadas no peito, como se estivesse rezando pela alma que estava lá dentro.

Eu podia jurar que conhecia cada detalhe daquela estátua de tanto passar por ela durante 30 anos. Mas comecei a notar que algo estava errado. A primeira vez que notei foi numa manhã de sol forte. quando a luz batia direto na pedra branca, criando sombras nítidas. Eu parei para olhar e tive a impressão de que a cabeça do anjo estava levemente virada para a direita, na direção da aleia principal, onde os carros funerários passavam.

 Eu balancei a cabeça e esfreguei os olhos, pensando que era o cansaço ou a minha imaginação fértil pregando peças. Eu tinha certeza absoluta de que o anjo sempre olhou reto para baixo, para a porta do mausoléu. Tentei me convencer de que era a ilusão de ótica causada pelo ângulo do sol, mas a semente da dúvida tinha sido plantada e começou a germinar.

 Durante asan seguintes, eu comecei a fazer um teste silencioso. Todo dia de manhã, quando eu chegava, eu olhava para a estátua e memorizava a posição. E todo dia, na hora de ir embora, eu olhava de novo. Na maioria dos dias, nada mudava, mas em algumas manhãs específicas, geralmente depois de noites de tempestade ou de lua cheia, eu encontrava o anjo diferente.

Às vezes, as mãos que deveriam estar cruzadas no peito pareciam estar um pouco mais baixas. Outras vezes, a asa esquerda parecia mais aberta do que a direita. Eram mudanças sutis, coisas de centímetros que ninguém notaria se não estivesse procurando por elas. Mas eu estava procurando e o que eu via fazia meu sangue gelar nas veias.

 A confirmação do horror veio numa segunda-feira cinzenta, quando cheguei bem cedo, antes de qualquer outro funcionário. O cemitério estava mergulhado numa neblina baixa que cobria o chão até a altura dos joelhos. Eu caminhei até o setor dos Viana com o coração batendo forte, sentindo aquele pressentimento ruim que antecede a desgraça.

 Parei na frente do mausoléu e olhei para cima. O anjo não estava olhando para baixo. O anjo estava com a cabeça virada completamente para a esquerda, olhando diretamente para o local onde eu costumava guardar meu carrinho de ferramentas. E o pior não era a posição da cabeça, o pior era a expressão do rosto de mármore. A tristeza profunda e serena que sempre marcou aquela estátua tinha desaparecido.

No lugar dela havia um meio sorriso desenhado nos lábios de pedra, um sorriso frio, cruel e debochado, que parecia zombar do meu medo. Fiquei paralisado, encarando aquela imagem grotesca e senti como se o anjo estivesse me vendo. Não era uma estátua de pedra, era uma sentinela, era um aviso.

 Eu chamei o Toninho quando ele chegou e mostrei para ele. O rapaz ficou tão branco que eu achei que ele ia desmaiar ali mesmo. Ele confirmou que no sábado a estátua estava normal. Ninguém tinha escada alta o suficiente para subir lá em cima sem ser notado. E as marcas de limo na base da estátua estavam intactas, provando que a pedra não tinha sido movida por mãos humanas.

Naquele momento eu entendi que o que estava dentro do mausoléu não estava apenas preso, estava ficando forte, estava ganhando poder sobre a matéria. E o acidente do Arlindo não tinha sido um acaso, mas sim o primeiro ataque de uma guerra silenciosa que estava sendo travada naquele pedaço de chão consagrado. O anjo sorrindo para mim.

Era a prova de que agora a atenção daquela coisa estava voltada para nós. E eu, na minha inocência e arrogância de veterano, não sabia que o alvo principal seria eu. Eu tentei me afastar, tentei mudar de setor, tentei ignorar, mas o destino tem um jeito cruel de nos colocar no lugar certo, na hora errada. E o meu encontro definitivo com a dona daquele sorriso de pedra estava marcado para novembro daquele mesmo ano, numa tarde de chuva que mudaria a minha vida para sempre.

 O mês de novembro de 1988 chegou trazendo chuvas torrenciais que transformaram as alamedas do cemitério em rios de lama e folhas mortas. O clima na cidade de Santos era pesado e o céu parecia um manto de chumbo que se recusava-se a deixar o sol passar. Eu sentia uma inquietação constante no peito, como se o ar estivesse carregado de eletricidade estática antes de um raio cair.

 A imagem daquele anjo sorrindo para mim não saía da minha cabeça e passei a evitar olhar para o alto do mausoléu 502 com medo de ver algo ainda pior. Eu tentava me concentrar no trabalho manual, limpando as caleiras entupidas e retirando os ramos caídos. Mas a sensação de estar ser observado pelas costas era uma agulha fria, espetada na minha nuca o tempo todo.

 O dia 14 desse mês amanheceu com uma chuva miudinha e gelada, daquelas que penetram na roupa e gelam a alma. O cemitério estava deserto, pois ninguém gosta de visitar os mortos em dia de chuva. E o silêncio era quebrado apenas pelo som da água a bater nas lápides e escorrendo pelos gárgulas dos pedra.

 Fui designado para fazer uma limpeza geral no sistema de drenagem que passava precisamente atrás da quadra da família Viana. Eu tentei argumentar com o encarregado para mudar de setor, mas disse que era urgente, porque a água estava a empossar e ameaçando infiltrar nas sepulturas vizinhas. Eu vesti a minha impermeável amarelo, calcei as botas de borracha e fui para o local, arrastando os pés e rezando baixinho.

 Eu estava sozinho, a raspar o lodo das valetas com uma pequena pá quando o som começou. Não foi gradual desta vez. Fui súbito. O som do piano cortou o ruído da chuva com uma limpidez cristalina. Era a mesma melodia triste e lenta de sempre, mas naquele dia ela tinha algo diferente. Ela soava mais próxima, mais intimista e mais convidativa.

Não parecia uma música tocada para lamentar a morte, mas antes uma música tocada para chamar alguém. Eu parei o serviço e fiquei imóvel com a água da chuva a escorrer pelo meu rosto, tentando identificar a origem exata. O som vibrava no chão e subia pelas minhas botas, fazendo tremer os meus ossos em resonância.

Eu sabia que devia ter virado as costas e corrido para a administração. Eu sabia que devia ter tapado os ouvidos e gritado para abafar aquele som. Mas existe uma curiosidade mórbida no ser humano que é mais forte que o instinto de sobrevivência. É aquela mesma força que nos faz abrandar para ver um acidente na estrada.

 Eu fui atraído por aquela música como uma traça. É atraído pela luz da lâmpada, mesmo sabendo que se vai queimar. Eu larguei a pá na lama e comecei a caminhar em direção ao Mausoléu 502. Os meus passos eram lentos e pesados, mas constantes. Quando cheguei à frente da porta de bronze e vidro, o som do piano era ensurdecedor. Parecia que havia uma orquestra inteira tocando lá dentro, naquele espaço confinado de 3 m4.

Encostei o rosto ao vidro escuro, tentando ver o interior, mas estava tudo negro como o peixe. A música preenchia cada centímetro do meu ser. E senti uma tristeza avaçaladora invadir o meu peito. Não era a minha tristeza, era a tristeza dela. Era uma solidão tão profunda e antiga que me deu vontade de chorar e de gritar ao mesmo tempo. Senti que precisava entrar lá.

Eu precisava de ver quem estava a tocar. Eu precisava de consolar aquela dor. A minha mão direita foi para o bolso das calças por conta própria e tirou o molho de chaves mestras que usávamos para a manutenção dos jazigos. Eu selecionei a chave antiga de Latão, que abria aquele tipo de fechadura colonial.

 A minha mão tremia tanto que errei o buraco da fechadura três vezes, riscando o Getur, o metal da porta. Quando finalmente a chave entrou, rodei lentamente, sentindo o mecanismo enferrujado ceder com um estalido seco. O som do piano não parou. Pelo contrário, aumentou de volume, atingindo um clímax dramático. Empurrei a pesada porta, que gemeu nas dobradiças, e dei um passo para dentro da escuridão.

 O ar lá dentro era gelado, muito mais frio do que o dia chuvoso lá fora. Era um frio que não existia na natureza, um frio de frigorífico de necrotério. E, juntamente com o frio veio o cheiro. Aquele perfume doce de jasmim que tanto temia invadiu as minhas narinas com uma potência sufocante. Dei o segundo passo para dentro, tatiando a parede em busca do interruptor de luz antigo que eu sabia que ali existia.

 Os meus dedos tocaram a pedra fria e húmida do granito interior. E foi nesse momento que a armadilha se fechou. A porta de bronze atrás de mim bateu com uma violência absurda. O estrondo foi tão alto que senti a vibração no chão. A escuridão tornou-se total e absoluta. O som do piano cessou instantaneamente no momento em que o porta bateu, deixando um silêncio zumbindo nos meus ouvidos.

 Eu virei-me em pânico e agarrei a maçaneta interior, puxando com toda a minha força. Ela não se moveu, parecia soldada, parecia fazer parte da parede. Eu comecei a bater no vidro, gritando por socorro, mas o vidro era grosso e blindado, e o barulho da chuva lá fora devia abafar qualquer som que eu fizesse.

 Eu estava preso, trancado num cubículo de pedra com uma morta. O cheiro de jasmim começou a mudar rapidamente. O doce enjoativo deu lugar ao cheiro acre e podre de carne em decomposição, misturado com terra velha e sangue seco. Eu comecei a torcir e a engasgar com o fedor, cobrindo o nariz com a gola da camisa, mas o cheiro entrava pelos poros.

 E então eu ouvi no canto oposto do mausoléu, onde ficavam as gavetas mortuárias, eu ouvi um som úmido e arrastado. Era uma respiração, mas não era uma respiração humana e saudável. Era o som de alguém tentando puxar ar através de pulmões cheios de líquido. Um som gorgolejante e doloroso. O som vinha do chão, perto da base do túmulo.

 Eu recuei até minhas costas baterem na porta trancada. Meus olhos tentavam furar a escuridão, mas não viam nada. Mas meus outros sentidos estavam agusados pelo terror. Eu sentia a presença dela. Ela não estava na gaveta, ela estava fora. Ela estava no chão comigo. Uma voz sussurrou no meu ouvido esquerdo tão perto que eu senti o hálito frio na minha pele.

 Não eram palavras, eram notas musicais desafinadas cantaroladas por uma garganta morta. Lá, si, tó. A sanidade começou a escorregar por entre os meus dedos. Eu senti uma necessidade incontrolável de fazer aquilo parar. A voz sussurrava que a música estava embaixo da pedra, que eu precisava tirar a música de lá, que eu precisava cavar.

 A minha memória se fragmenta nesse ponto. Eu lembro de cair de joelhos no chão de granito polido. Eu lembro da sensação da pedra dura e fria sobre as minhas mãos. E eu lembro de começar a arranhar. Não havia terra ali. Havia apenas pedra sólida. Mas na minha mente enlouquecida pelo medo e pela influência daquela presença, eu acreditava que se eu cavasse fundo suficiente, eu encontraria a saída ou a música ou a paz.

 Eu usei minhas unhas como garras. Eu raspei o granito com uma fúria animal. Eu senti minhas unhas quebrarem. Eu senti a pele das pontas dos dedos rasgar. Eu senti o sangue quente escorrer e se misturar com a frieza da pedra, mas eu não parei. A dor era algo distante que pertencia à outra pessoa. Eu só precisava cavar. Eu precisava chegar até ela.

 Eu não sei quanto tempo fiquei ali naquela tortura autoimposta. Podem ter sido minutos que pareceram séculos ou horas que passaram num borrão. O tempo dentro daquele mausoléu não obedecia as regras do relógio lá de fora. Eu estava preso num looping eterno de escuridão, cheiro de podre e o som das minhas próprias unhas raspando a pedra.

 Em algum momento, a exaustão venceu o terror e a minha mente desligou completamente, como um fusível queimado para proteger o que restava da minha razão. Eu acordei com uma luz forte queimando meus olhos e vozes gritando meu nome. Eram as lanternas dos vigias da noite e do administrador do cemitério. Eles tinham vindo me procurar porque eu não tinha aparecido para bater o ponto de saída e minha esposa tinha ligado preocupada.

 Eles encontraram a porta do mausoléu trancada. tiveram que usar um pé de cabra para arrombar a fechadura, porque a chave tinha quebrado dentro do miolo pelo lado de fora, o que era fisicamente impossível, já que eu tinha entrado com a chave na mão. A cena que eles encontraram e que depois me descreveram com olhares de pena e horror foi a de um homem destruído.

 Eu estava encolhido em posição fetal no chão do mausoléu, tremendo incontrolavelmente. Minhas mãos estavam irreconhecíveis. As pontas dos dedos estavam em carne viva, sem pele e sem unhas cobertas de sangue coagulado e pó de pedra. No chão de granito polido, havia marcas de arranhões profundos, um círculo de tentativas desesperadas de escavar o inescavável.

 O administrador disse que quando colocaram a luz em mim, eu comecei a murmurar, sem parar uma frase desconexa com os olhos virados. Ela quer a música. Ela quer a música. A madrasta roubou a música. Fui levado às pressas para o pronto socorro da Santa Casa. O médico que me atendeu disse que nunca tinha visto ferimentos daquele tipo causados pelas próprias mãos do paciente.

 Tive que levar pontos em todos os dedos, tomar vacina antitetânica e doses cavalares de calmante para parar de tremer. Fiquei internado por três dias em observação psiquiátrica porque achavam que eu tinha tido um surto psicótico e de certa forma eu tive. Mas não foi um surto nascido da minha mente, foi um surto imposto por algo externo. Durante as duas semanas que fiquei afastado do trabalho, me recuperando em casa, com as mãos enfaixadas, feito duas múmias, a história correu pela administração do cemitério.

 O administrador atual era um homem prático e burocrático, mas respeitava as tradições e sabia que quando um funcionário antigo como eu surtava daquela maneira, era porque a coisa era séria. Não tentou abafar o caso como fizeram com o acidente do Arlindo. Ele decidiu resolver. Ele pegou nos ficheiros antigos e entrou em contacto com os descendentes da família Viana, que ainda viviam na capital.

 Ele explicou que o mausoléu estava a precisar de reparos urgentes na estrutura e que fenómenos inexplicáveis estavam a colocar em risco a segurança dos colaboradores. Para a nossa surpresa, a resposta foi rápida. Uma sobrinha neta da Clarice de nome Sofia veio a Santos na semana seguinte. Eu Fui convocado para acompanhar a visita, mesmo estando de baixa médica.

 O administrador disse que a minha presença era fundamental, pois eu era a testemunha principal e a vítima do ataque. Eu fui com medo. Confesso que as minhas pernas tremiam quando atravessei o portão do cemitério. Mas eu precisava de um fecho. Eu precisava de entender o que me tinha acontecido. A tal Sofia era uma mulher jovem e elegante, mas trazia consigo uma figura que chamava muito mais atenção.

 Era uma senhora muito velha e pequena, de pele negra, enrugada como uva passa e cabelos brancos feito algodão. Ela chamava-se Dona Jandira. Era uma benzedeira antiga, conhecida nos bairros velhos de Santos, uma mulher que lidava com rezas e ervas e que diziam ter o dom de ver o que os os olhos comuns não vêm.

 A família tinha levou-a por recomendação de uma tia avó que sabia das histórias do passado. Nós caminhámos até ao Mausoléu 502 numa manhã de sol pálido. Eu mantive uma distância segura, segurando as minhas mãos enfaixadas contra o peito. O mausoléu estava silencioso. A porta arrombada tinha sido apenas encostada e amarrada com arame provisório.

 A Dona Jandira não trazia velas, não trazia água benta e não fazia estardalhaço. Ela caminhou com os seus passinhos curtos até à frente da construção e colocou a mão espalmada na pedra negra. Ela fechou os olhos e ficou ali parada durante muito tempo. O silêncio era absoluto. Nem os pássaros cantavam àquela hora. De repente, a velha suspirou fundo um suspiro cansado e triste e abriu os olhos.

 Ela virou para a sobrinha neta e disse com uma voz firme e rouca que não deixava margem para dúvidas. Ela disse que a menina que estava lá dentro não era um demónio e não era má. Ela disse que a alma da Clarice estava presa num ciclo de dor e revolta, porque tinha morrido sentindo falta de algo que lhe foi roubado na hora da morte.

 A benzedeira olhou para o Mausoléu e disse: “Ela não consegue dormir porque está à procura da música. Tiraram-lhe a música antes de lhe tirarem a vida. A sobrinha neta Sofia começou a chorar. Ela confessou ali na nossa frente que nas histórias que a avó contava, diziam que a madrasta cruel tinha proibido a Clarice de tocar piano quando esta adoeceu e que tinha queimado as partituras na lareira.

 E pior do que isso, a madrasta tinha escondido o objeto mais precioso da Clarice, uma caixinha de música que ela tinha ganho da mãe falecida quando era criança. A madrasta dizia que o barulho irritava e desapareceu com a caixa. A Sofia abriu então a bolsa de couro que trazia e tirou de lá um objeto embrulhado em veludo vermelho.

Era uma caixa de música antiga feita de madeira de ébba no escuro com detalhes delicados em madre pérola e prata. Era uma peça lindíssima e triste. A Sofia disse que tinha encontrado aquilo no fundo de um baú no sótam da casa da família em São Paulo, encaixotado junto com coisas velhas que iam para o lixo. Ela disse que quando o administrador ligou, sentiu um aperto no coração e lembrou-se da caixa.

 Ela sentiu que devia trazer. A Dona Jandira pegou na caixa com as duas mãos trémulas de idade, mas firmes de propósito. Ela olhou para mim, precisamente para mim. Ela sorriu um sorriso desdentado e doce e chamou-me com um gesto de cabeça. Anda cá, meu filho. Ela disse: “Tu que ouviste o chamamento, tu que tem de abrir a porta”. Hesitei.

O meu coração disparou e o suor frio brotou na testa. Eu olhei para as minhas mãos feridas, mas havia tanta paz nos olhos daquela velha que o meu medo diminuiu um pouco. Aproximei-me e o administrador cortou o arame que segurava a porta. Empurrei a porta de bronze. O ranger das dobradiças fez-me estremecer, esperando ouvir o piano ou sentir o cheiro a podre.

 Mas o ar que saiu de lá de dentro cheirava apenas a bolor e pedra velha. A Dona Jandira entrou no Mausoléu rezando baixinho uma oração num dialecto que eu não conhecia misturado com palavras em português antigo. Ela dirigiu-se até um pequeno altar de pedra que existia lá dentro vazio há décadas.

 Ela colocou a caixa de música em cima do altar com todo o cuidado, como se estivesse a colocar um bebé no berço. Ela olhou para a caixa e depois para o gaveteiro, onde estava o corpo da Clarice. Pronto, menina, disse ela. A a tua música voltou, podes descansar agora. A velha benzedeira deu corda à caixa. O som mecânico da corda a ser girada eou no silêncio e depois ela largou a tranca.

Uma melodia suave e cristalina começou a tocar. Era a mesma música, a mesmíssima música que tinha ouvido à chuva e que me tinha atormentado. Mas agora ela não estava triste e nem assustadora. Era pura, era inocente, era uma canção de embalar. Nós ficamos ali parados, ouvindo a música tocar até ao última nota, até o mecanismo parar devagar.

 Quando o silêncio voltou, não era mais um silêncio pesado e opressivo, era um silêncio de paz, um silêncio leve. A Dona Jandira fez o sinal da cruz e disse: “Está feito, agora ela dorme.” Nós saímos do Mausoléu e fechámos a porta. Eu olhei para cima, instintivamente para o topo da construção. A estátua do anjo em mármore estava lá.

 A cabeça estava direita, olhando para baixo, com as mãos cruzadas no peito, em oração e a expressão de tristeza profunda. O sorriso cruel tinha desaparecido. O anjo tinha voltado a ser apenas pedra. Desde esse dia, o Mausoléu 502 nunca mais deu problema. O cheiro do Jasmim desapareceu para sempre e o som do piano nunca mais foi ouvido, nem pelos vigias mais assustados da madrugada.

 O administrador mandou reparar a fechadura e fazer uma limpeza completa na pedra, retirando o limo e devolvendo o brilho ao granito. A família Viana voltou a pagar a taxa de manutenção e a Sofia mandou rezar uma missa na capela do cemitério em memória da tia avó. Eu Continuei a trabalhar no cemitério da filosofia durante muitos anos depois daquilo.

 As cicatrizes nos meus dedos sararam por fora, deixando linhas brancas, onde a pele se rasgou, mas a sensibilidade nas pontas nunca mais voltou ao normal. Até hoje, quando o tempo arrefece ou quando vai chover, sinto um formigueiro nas mãos, uma lembrança física daquele dia em que tentei escavar granito com as unhas. Eu aprendi a conviver com isso.

 Eu tornei-me o encarregado geral da equipa e usei a minha experiência para ensinar aos mais novos o respeito que se deve ter naquele lugar. Hoje, aos 72 anos, já estou perto de me retirar de vez e pendurar as luvas. O corpo já não aguenta mais o peso da enchada e as juntas queixam-se da humidade de santos.

 Mas antes de ir embora de vez, faça questão de passar pelo Mausoléu 502 todas as sextas-feiras antes de ir para casa. Não entro lá dentro. Deus me livre e guarde. Eu aprendi a a minha lição, mas paro do lado de fora, perto da sebe, e faço uma oração rápida. Eu peço a Deus que a Clarice continue a dormir e que a música dela continue a tocar apenas nos sonhos dela e não nos meus ouvidos.

 Eu conto esta história não para assustar quem está a ouvir, mas para deixar um aviso sério de quem viveu o impossível na pele. O cemitério não é lugar de passeio e não é lugar para brincadeiras. É um lugar de descanso, mas é também um local de memórias fortes e de sentimentos que não acabam com a morte.

 A fronteira entre o nosso mundo e o deles é fina como uma folha de papel de seda e basta muito pouco para rasgar essa folha. Uma injustiça, um objeto roubado, uma dor não resolvida. Tudo isto pode prender alguém aqui. E se um dia estiver passeando por um cemitério antigo numa tarde de chuva e sentir um cheiro doce de flor onde não existe flor? ou ouvir uma música a tocar onde deveria haver silêncio. Não seja curioso como eu fui.

Não tente descobrir de onde vem. Não tente ajudar. Dê meia volta, peça licença com respeito e vai-se embora o mais rápido que puder. Porque os mortos têm todo o tempo do mundo e podem ser muito persuasivos quando querem companhia. E acredite, não quer ser o público de um concerto que acontece debaixo da terra.

 O meu nome é Manuel Soares Neco e esta foi a história de como sobrevivi ao segredo do túmulo 502. Que Deus nos proteja a todos e que os mortos descansem em paz, porque os vivos precisam de seguir em frente.

 

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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