EX-COVEIRO CONTA: ELA FOI ENTERRADA HÁ UM SÉCULO, MAS ONTEM OUVI GRITOS VINDOS DO TÚMULO
EX-COVEIRO CONTA: ELA FOI ENTERRADA HÁ UM SÉCULO, MAS ONTEM OUVI GRITOS VINDOS DO TÚMULO 
Sou coveiro há 35 anos no cemitério do Paquetá em Santos. E já vi muita coisa que a ciência não explica, mas nada se compara à noite de tempestade em novembro de 2018. Fiquei preso no cemitério por causa de um alaramento repentino e precisei de me abrigar na capela antiga que se encontra no setor dos barões do café, porque a água subiu demasiado rápido nas ruas em redor e transformou o portão de saída num rio de lama barrenta.
O problema é que eu não estava sozinho naquele lugar sagrado e o som que começou a ecoar na escuridão não vinha da chuva que batia no telhado e nem do vento ivando lá fora como um animal ferido. Primeiro parecia algo roendo a madeira dos bancos velhos, mas depois o barulho mudou para uma batida seca e ritmada que vinha debaixo do soalho de mármore branco, onde as famílias ricas enterravam os seus mortos no séc.
passado. Alguém tinha acordado ali em baixo naquelas catacumbas frias e húmidas, e aquele alguém estava desesperado por sair, custasse o que custasse. O meu nome é Valdir Soares, Tenho 62 anos e vou contar como descobri o terrível segredo da menina da catacumba 33 e como aquela noite me ensinava que o silêncio do túmulo nem significa sempre paz.
A cidade de Santos tem uma relação antiga e complicada com a água. E quem aqui vive sabe que quando o céu escurece de uma forma específica no verão ou na primavera, temos que correr para o alto. O cemitério do Paquetá é um dos mais antigos do país e é um verdadeiro labirinto de obras de arte e mausoléus que contam a história da riqueza do café, mas também escondem segredos que o dinheiro tentou apagar.
Eu não sou um coveiro comum que apenas abre a terra para receber os caixões. Eu especializei-me ao longo das décadas em restauro de túmulos históricos e arte tumular. As famílias tradicionais me contratam para limpar o zinabre das estátuas de bronze, polir o mármore carrara, manchado pelo tempo, e garantir que a memória dos seus antepassados não seja devorada pelo limo verde e pela marezia salgada que vem do porto ali perto.
Era exatamente esse trabalho delicado e solitário que eu estava fazendo naquela tarde abafada de 14 de novembro de 2018. Eu estava a trabalhar na capela dos Barões, que é um mausoléuelu imponente e isolado no sector mais nobre do cemitério. É uma construção gótica com vitrais coloridos que filtram a luz solar e deixam tudo lá dentro com um tom de roxo e vermelho e grossas paredes de pedra que abafam o som da cidade lá fora.
A família Prado, que é proprietária daquele espaço há mais de 150 anos, pagou-me para restaurar as inscrições das gavetas mortuárias que ficam nas paredes internas. O dia tinha amanhecido com aquele calor húmido e pegajoso que faz com que o roupa colar-se ao corpo e o ar ficar difícil de respirar.
O administrador do cemitério passou por mim por volta das 2as da tarde com a camisa suada e comentou que a previsão meteorológica estava feia e que era melhor eu adiantar o serviço e ir embora antes que o mundo desabasse em água. Eu concordei com a cabeça, mas sou um homem teimoso e perfeccionista por natureza. Eu estava terminando de realçar as letras douradas da catacumba de um coronel antigo e queria deixar tudo pronto antes de sair, porque não gosto de deixar serviço pela metade. Foi esse o meu erro fatal.
A teimosia de querer terminar o trabalho custou-me a segurança daquela noite. Por volta das 16h30, o céu ficou preto de repente, como se alguém tivesse puxou uma cortina de veludo escuro sobre o sol. As nuvens desceram baixas e pesadas, rodopeiando com violência, e o vento começou a arrancar as folhas das árvores centenárias do cemitério, lançando ramos secos contra as lápides.
A temperatura desceu a pique em questão de minutos e o calor sufocante deu lugar a um vento gelado que cortava a pele e trazia o cheiro forte a ozono e terra molhada. Quando a chuva começou, não foi pingando devagar, como costuma ser. foi caindo como uma cascata sólida e violenta. Em questão de minutos, as alamedas empedradas do cemitério transformaram-se em rios de água suja que arrastavam flores e velas.
Eu recolhi as minhas ferramentas à pressa, coloquei os pincéis e as latas de tinta dentro do a minha mala de couro e corri para a porta da capela dos Barões para avaliar a situação. Pensei em esperar pela chuva diminuir um pouco para correr até ao vestiário dos funcionários. que ficava perto da entrada principal e ir embora, mas a água não parava de subir.
O sistema de drenagem daquela região do centro histórico é muito antigo e não deu conta do volume absurdo de água que caía do céu. Quando olhei para fora através da chuva densa, vi que a água já estava à altura da minha canela, na escadaria da capela, e ali no portão principal devia estar à cintura ou mais. Eu estava ilhado.
Tentei usar o telemóvel para ligar para a portaria ou para a minha esposa, mas o aparelho estava sem sinal nenhum por causa da tempestade magnética. Para piorar a situação, a energia elétrica dos postes do cemitério piscou duas vezes com um zumbido elétrico alto e acabou por ser cortada, deixando todo o cemitério mergulhado na penumbra cinzenta e assustadora.
Decidi que era mais seguro e prudente ficar ali no interior da capela. A construção era sólida e feita com pedras grossas e encontrava-se num ponto um pouco mais alto do terreno, o que me protegia da cheia imediata. Fechei as portas pesadas de madeira de lei, que tinham mais de 3 m de altura, e tranquei o ferrolho de ferro maciço no interior para garantir que o vento não abrisse nada e deixasse a chuva entrar.
Acendi duas velas grossas de sete dias que tinha na A minha caixa de ferramentas para emergências e sentei-me num dos bancos de madeira de pau-santo para esperar a tempestade passar. O local era frio e húmido e cheirava a cera velha de vela derretida e flores secas que se desfaziam nos vasos. Nas paredes ao meu redor havia as gavetas de mármore, as catacumbas onde os membros daquela família poderosa estavam a descansar há mais [música] de 100 anos.
Eu conhecia cada nome e cada data ali, porque tinha passado a semana inteira a polir as letras e limpando o pó da história. O tempo passava arrastado e doloroso. O som da chuva era ensurdecedor e parecia pedrada no telhado de Ardóia. A cada trovão que rebentava lá fora, as paredes de pedra vibravam e o pó caía do teto.
Eu estava a começar a cochilar encostado à parede fria, vencido pelo cansaço e pelo barulho monótono da água, quando ouvi o primeiro som diferente. Não era trovão e não era água e não era vento. Era um som pequeno e irritante que vinha de dentro do ambiente. Parecia unha a raspar em pedra, um som seco e áspero.
Vinha do fundo da capela, perto do altar-mor, onde se encontrava a catacumba número 33. Levantei a vela instintivamente e Olhei nessa direção com os olhos apertados. A chama tremia com a corrente de ar que entrava pelas fras das janelas altas e criava sombras que dançavam nas paredes como fantasmas. Pensei que fosse algum rato grande a tentar fugir da enchente e entrando pelos buracos da construção antiga para se salvar.
Rato de cemitério é um bicho grande e esperto e faz barulho mesmo quando está encurralado. Tentei ignorar e voltar a fechar os olhos, dizendo para mim mesmo que era apenas um bicho, mas o som continuou e mudou de ritmo. Agora já não era só raspagem, era batida. Tum, tum, tu tum. Eram batidas fracas e abafadas, mas constantes e rítmicas.
O que me deixou com os cabelos da nuca em pé e fez-me estômago gelar foi perceber que o som vinha de dentro da parede, vinha de no interior da pedra maciça. Eu levantei lentamente, segurando a vela, com a mão firme, para não deixar apagar e evitar ficar no escuro total. Caminhei até ao fundo da capela, sentindo o soalho de mármore vibrar ligeiramente a cada passo.
Parei em frente à catacumba 33. A lápide era de um mármore rosado muito bonito e raro importado da Europa. E a inscrição que tinha limpado no dia anterior dizia Cecília Prado, nascida em 1894, faleceu em 1912. Eu lembrava-me vagamente da história dela, porque o antigo administrador me tinha contado enquanto eu trabalhava.
Diziam as más línguas que ela era a rapariga mais bonita da cidade na época do café, filha de um barão rico e severo, e que tinha faleceu subitamente no dia do noivado dela durante um banquete. Chamavam-lhe de abela adormecida do Paquetá. A lenda urbana dizia que ela tinha morrido de desgosto profundo, porque não queria casar com o homem cruel que o pai tinha escolhido para unir as fortunas.
Encostei o ouvido à pedra fria da lápide, sentindo o gelo do mármore queimar a minha orelha. O coração batia forte e descompassado no meu peito, parecendo um tambor. O som parou por um instante exato, como se quem ou o que estivesse lá dentro soubesse que eu estava a ouvir e estivesse a prender a respiração. E depois recomeçou.
Arranhões longos e agoniantes, como se alguém estivesse a passar as unhas com força desumana na parte interior da pedra, tentando escavar uma saída na rocha bruta. O som era tão nítido e próximo que eu conseguia imaginar as unhas a partirem-se contra o mármore e a pele a rasgar-se. Dei um passo para trás assustado, e quase deixei cair a vela.
Aquilo não era possível e desafiava toda a lógica. Aquela rapariga estava morta há mais de 100 anos. O que restava lá dentro daquela gaveta devia ser apenas pó e ossos secos e talvez alguns pedaços de tecido podre. Ossos não riscam pedra e pó não bate na parede. Foi nesse momento exato de terror que a tempestade lá fora se agravou drasticamente.
Um raio caiu muito perto da capela, talvez em alguma árvore grande do cemitério ou no pára-raaios da cúpula. E o estrondo foi tão forte que a capela inteira tremeu como se fosse desabar. Um pedaço do reboco do tecto caiu no chão, rebentando perto do meu pé, e a minha vela apagou-se com um deslocamento violento do ar. Fiquei na escuridão total e absoluta, rodeado pelo cheiro a ozono e pó de pedra.
Tentei tactear o meu bolso do fato-macaco, procurando o isqueiro com a mão a tremer incontrolavelmente. Enquanto tentava fazer fogo riscando a pedra do isqueiro que falhava por causa da humidade, o som no interior da catacumba mudou [música] outra vez. Não eram mais arranhões e nem pancadas, eram gritos.
Não eram gritos altos e histéricos como de alguém a gritar por socorro na rua. Eram gritos abafados, roucos, distantes e gulturais, como se viessem de muito fundo ou de outra dimensão, filtrados por camadas de pedra e tempo. Mas eu ouvia claramente cada nota de pavor. Era uma voz de mulher jovem. Ela não gritava palavras que eu pudesse compreender no início.
Ela gritava puro pavor e agonia. Era um som de falta de ar, de desespero absoluto, de quem acorda no escuro total. bate com a mão e encontra madeira e pedra por todos os lados e percebe que não tem saída. Eu consegui finalmente acender a vela novamente depois de várias tentativas falhas. E a pequena chama iluminou a lápide da Cecília Prado com uma luz amarelada e trémula.
E juro pela alma da minha mãe que já descansa em Deus, que vi a pedra mexer. Não foi a pedra inteira da lápide que se moveu, foi a argamaça velha em redor da placa de mármore. A poeira de cimento cinzento que selava a catacumba há um século caiu no chão a esfarelar-se como areia seca, como se algo estivesse a empurrar a tampa de dentro para fora com uma força descomunal.
Fiquei paralisado e incapaz de respirar. A minha mente racional tentava encontrar uma explicação lógica para não enlouquecer. A vibração dos trovões podia ter soltado o cimento, a infiltração da água da chuva fazendo ceder a estrutura e empurrar a pedra. Mas nada explicava os gritos, nada explicava a sensação de angústia opressora que tomou conta do o meu peito.
Uma falta de ar súbita e dolorosa, como se eu próprio estivesse fechado numa pequena caixa, sem oxigénio lutando pela vida. Eu senti uma vontade incontrolável e primitiva de correr, de abrir a porta da capela e de me deitar na enchente lá fora, enfrentar a água suja, cheia de doenças e os ratos. Qualquer coisa era melhor do que ficar ali fechado com aquela morta que não estava quieta e que parecia querer companhia.
Mas as minhas pernas não obedeciam ao comando do cérebro. Era como se o medo me tivesse pregado no chão com pregos de gelo. E então ouvi a voz dela transformar-se em palavras. Desta vez não foi um grito sem sentido, foi um sussurro sibilante que parecia vir de trás do meu ombro, mesmo no meu ouvido esquerdo, mesmo eu estando de frente para a parede e de costas para o vazio.
A voz sussurrou que estava muito escuro ali dentro e que o ar estava a acabar e perguntou por tinham apagado as luzes da festa. Rodei o corpo num movimento brusco com a vela na mão, iluminando o vazio da capela atrás de mim. Não tinha ninguém, só os bancos vazios enfileirados e as sombras alongadas dançando nas paredes húmidas.
Quando Voltei a olhar para a catacumba, 33, vi que uma fenda física tinha aparecido na base da lápide de mármore rosado, um fenda fina e nova que não estava ali quando restaurei a peça. E dessa fissura começou a escorrer um líquido escuro e viscoso. Baixei-me para ver melhor e toquei com o dedo. Não era sangue como temi, era água misturada com terra e verniz de madeira podre, uma lama negra e fétida que cheirava na lugar fechado e a morte antiga.
Eu precisava de fazer alguma coisa urgente. Eu não podia simplesmente ficar ali parado, assistindo a aquilo acontecer. O instinto de coveiro, de quem cuida dos mortos e respeita o descanso eterno, falou mais elevado do que o medo animal. se aquilo era uma alma penada a pedir ajuda para fazer a passagem ou se era alguma infiltração hidráulica grave que estava a destruir o túmulo por dentro.
Eu tinha a obrigação profissional e moral de agir. Peguei a minha espátula de aço temperado, que eu usava para raspar o limo das pedras e me aproximei-me da catacumba com passos vacilantes. Eu ia tentar abrir a fresta onde o cimento caiu, ver o que estava a acontecer lá dentro, talvez aliviar a pressão de gases ou água que parecia estar prestes a rebentar com a parede da capela.
Espetei a ponta afiada da espátula na fenda onde a argamassa tinha caído. Assim que o metal da ferramenta tocou na pedra interna e raspou no que parecia ser madeira podre, senti um choque térmico violento. Não foi um choque elétrico de energia, mas um choque de frio absoluto. Uma onda de gelo polar que me subiu pelo braço, congelou-me o ombro e foi direto para o o meu coração, fazendo-o falhar uma batida.
A minha visão escureceu por um segundo e as paredes da capela desapareceram. Já não vi a capela em 2018. Eu fui transportado. Eu vi no ecrã da minha mente a escuridão absoluta. Eu senti o cheiro forte do cetim novo, de flores de laranjeira e de velas apagadas. Senti o sabor amargo de Billy e Pânico na boca. Eu estava a sentir o que ela sentiu no momento em que acordou.
Vi como se fosse um filme de terror, passando-lhe rapidamente as mãos. Mãos jovens, bonitas, com anéis de ouro e pedras preciosas batendo desesperadamente na madeira polida da tampa do caixão. Vi as unhas bem feitas quebrando-se, o sangue quente escorrendo pelos dedos finos, misturando com as lascas da madeira de pau-santo. Eu senti a falta de ar, o pulmão a arder por oxigénio, a garganta seca e arranhada de tanto gritar por um pai que nunca viria.
Senti o momento exato e terrível em que a esperança acabou e o terror absoluto tomou conta da sua alma. Ela tinha acordado. Eles tinham enterrado ela cedo demais. O coração dela tinha parado durante algum tempo por causa da doença, mas tinha voltado a bater debaixo da terra. A visão passou tão depressa como me veio deixando-o tonto e enjoado, e caí de joelhos no chão da capela ofegante e suando frio como se tivesse corrido uma maratona.
A espátula caiu-me da mão e fazia um barulho metálico alto no chão de pedra que ecoava na capela vazia. Eu Olhei para a minha mão e ela estava tremendo sem parar num espasmo nervoso. Eu sabia a verdade agora com certeza absoluta. Não era a lenda urbana. Não era história de fantasmas para assustar criança em acampamento.
À Cecília Prado, a bela adormecida, tinha sido sepultada viva em 1912, vítima de catalepsia ou de um erro médico grosseiro. E a tempestade daquela noite, de alguma forma mística ou magnética, tinha despertado a memória residual daquela agonia subterrânea que ficou presa nas rochas. Mas a noite estava longe de terminar e o pior ainda estava para vir.
Enquanto tentava me recuperar no solo e controlar a minha respiração, percebi que a fissura na parede junto à catacumba tinha aumentado. Um pedaço quadrado da pedra lateral do altar, que ficava exatamente ao lado da gaveta dela, tinha-se soltado com a vibração constante dos trovões ou talvez empurrado pela força dessa energia má acumulada.
Atrás dessa pedra solta havia um buraco escuro e quadrado, um compartimento secreto que não constava na planta da capela e que não devia estar ali. Aproximei a vela movido por uma curiosidade mórbida que superava o medo. Dentro do buraco, protegido da humidade por uma caixa de metal enferrujada, havia um objeto embrulhado em [música] pano podre.
Era um livro pequeno, encadernado em pele preta, manchado de bolor pelo tempo, mas ainda inteiro. Um diário pessoal. Peguei no livro com o maior cuidado do mundo, sentindo o couro desfazer-se nos meus dedos calejados. Abri a primeira página com medo de rasgar o papel frágil e amarelecido. A letra era elegante e cursiva, desenhada com tinteiro antigo, mas estava tremida e esbatida em várias partes, como se quem escreveu estivesse a chorar copiosamente ou com as mãos trémulas de nervosismo e culpa.
Li o nome na primeira página e o meu sangue gelou. Não era o diário da Cecília, era o diário da irmã mais nova dela, Amélia Prado. E a primeira frase escrita datada de uma semana após a enterro de 1912, dizia que ela precisava de confessar o pecado mortal da família antes que a culpa a consumisse viva. Comecei a ler ali mesmo, sentado no chão, frio e sujo de lama, sob a luz fraca e oscilante da vela, enquanto os trovões rebentavam ali fora, fazendo tremer o mundo, e os arranhões na parede da catacumba continuavam num ritmo frenético de quem
quer rasgar a própria prisão. O que eu li naquelas páginas amarelas deu-me mais medo do que qualquer fantasma ou demónio, porque os fantasmas apenas assustam, mas a maldade, a ignorância e a o orgulho dos vivos são as coisas que causam realmente ruor e deixam marcas eternas. E eu estava prestes a descobrir que a parede que separava a Cecília da a liberdade não era feita apenas de tijolos e cimento, mas de silêncio e crueldade.
Amélia contava nas páginas manchadas de lágrimas antigas que a irmã Cecília sofria de uma doença estranha e rara desde que era apenas uma criança pequena. Ela tinha desmaios profundos e ataques súbitos de sono que duravam horas e, por vezes, dias inteiros, onde parecia uma boneca de cera sem vida. Os médicos daquela época, que mais pareciam curandeiros, diziam que era histeria feminina ou fraqueza dos nervos e alguns mais religiosos chegavam a sussurrar sobre a possessão espiritual.
Eles davam remédios fortes à base de ópio, faziam sangrias com sangue sugas e trancavam a rapariga no quarto escuro, mas nada adiantava. A família morria de vergonha daquela situação. O pai delas, que era um barão orgulhoso e severo, proibia terminantemente que o assunto saísse de dentro das paredes da mansão.
Ele tinha um medo doentio, que ninguém quisesse casar com a filha mais velha e unir as fortunas se soubessem que ela era defeituosa ou doente da cabeça. O noivado com um rapaz rico vindo da capital São Paulo, foi arranjado às pressas pelo Barão para garantir o futuro financeiro e social da família antes que a doença da filha se agravasse ou se tornasse pública.
O diário descrevia com pormenores dolorosos como Cecília não queria aquele casamento de maneira nenhuma. Chorava pelos cantos da casa e dizia à irmã que o rapaz era cruel e que tinha um olhar de peixe morto e que ela preferia morrer a ter de se deitar com ele. No dia da festa de noivado, o pressão psicológica foi tal que Cecília teve um dos seus ataques fulminantes mesmo no meio do salão de baile.
Ela caiu dura no chão de madeira nobre, fria como o gelo e sem respiração aparente perante todos os convidados importantes. O médico de família foi chamado à pressa, mas ele já estava embriagado de vinho e vindo da festa. Ele examinou a rapariga demasiado depressa, não sentiu o pulso que devia estar muito fraco e imperceptível e declarou o óbito ali mesmo por mal súbito do coração.
A parte mais terrível e que me fez perder a fé na humanidade estava escrita nas últimas páginas do diário com uma letra que rasgava o papel de tanta força. Amélia escreveu que o pai ordenou o enterro imediato para essa mesma noite chuvosa. Disse que era para evitar o sofrimento da mãe e para não prolongar a dor.
Mas Amélia sabia que ele queria abafar o caso e evitar boatos e perguntas indiscretas sobre a saúde dos filha morta. Ele queria enterrar o problema juntamente com a menina. Enterraram a Cecília, vestida com o vestido de festa e com as jóias do noivado. Trancaram-na na catacumba 33 da capela da família e selaram a parede com pedra e cimento fresco mesmo antes do sol nascer.
Mas o verdadeiro horror começou na noite seguinte. Amélia escreveu que fugiu de casa a meio da madrugada e foi até à capela do cemitério para rezar pela alma da irmã e despedir-se, pois não a tinham deixado ir ao funeral. E quando ela estava ali sozinha, no escuro e no silêncio, ela ouviu. Ela ouviu batidas fracas vindas de dentro da parede.
Ouviu a irmã chamar o nome dela com uma voz abafada e aterrorizada. Amélia correu de volta para casa, chorando e gritando para contar ao pai. Ela disse que a Cecília estava viva e que tinha acordado e que estava a pedir socorro. O barão deu uma bofetada na cara da filha mais nova que a atirou para o chão. Ele gritou que aquilo era uma loucura e uma histeria e que era o diabo a tentar enganar a família para profanar o túmulo e criar um escândalo na cidade.
Ele proibiu Amélia de regressar à capela sob ameaça de enviá-la para um convento ou hospício. Trancou a chave da capela no cofre e mandou o padre ir lá benzer a porta e deitar água benta. Ele deixou a própria filha morrer de fome e de sede e asfixia ali dentro, porque o orgulho e a reputação dele eram maiores que o amor de pai.
Amélia escreveu que passou as três noites seguintes acordada no quarto, abraçada às almofadas e imaginando a irmã gritando no escuro até a voz acabar. Ela escreveu que nunca se perdoou por não ter tido coragem para roubar uma marreta ao jardineiro e partir aquela parede sozinha, mesmo que o pai a matasse depois.
Ela escondeu o diário ali naquele buraco na parede da capela. Anos mais tarde, quando o Pai morreu, como um pedido de desculpas eterno e uma confissão, esperando que um dia alguém encontrasse e soubesse a verdade sobre o crime silencioso que a família Prado cometeu. Ela terminou o texto dizendo que esperava que o inferno estivesse quente o suficiente para o pai dela.
Fechei o diário com as mãos trémulas e com lágrimas de raiva nos olhos. A fúria que sentia daquele homem morto há um século era maior do que o medo que sentia dos fenómenos sobrenaturais. Olhei para a catacumba 33 com outros olhos agora. Já não era o túmulo de uma assombração, era a cela de uma vítima. O som de arranhar tinha parado completamente enquanto lia.
O o silêncio na capela era agora pesado e triste, como se a própria construção estivesse envergonhada do que presenciou. Eu coloquei a mão espalmada na pedra fria da lápide e pedi perdão por ela. Pedi perdão pela Amélia, que não teve força, e pedi perdão por mim, que demorei 100 anos a chegar. Mas depois um som novo começou e tirou-me do o meu transe de tristeza.
Não era um arranhão e não era batida. Era o som da pedra pesada sendo empurrada e lixada contra a pedra. A fenda que se tinha aberto na base da lápide alargou-se rapidamente, estalando como o vidro quebrando. A argamassa velha cedeu de vez e caiu no chão em pedaços grandes. A placa de mármore rosado, que pesava pelo menos 50 kg, começou a deslocar-se para a frente, milímetro a milímetro, empurrada por uma força que não devia existir naquele mundo físico.
A vela na a minha mão apagou-se de vez com um sopro de vento gelado e podre que vinha de dentro do túmulo aberto. Eu estava no escuro total e absoluto. E na escuridão ouvi a pedra da lápide cair no chão da capela com um estrondo ensurdecedor que ecoou pelas paredes e fez com que os meus dentes vibrarem.
A catacumba estava aberta, a boca da morte estava escancarada na minha frente. Eu fiquei imóvel no escuro, sustendo a respiração e rezando mentalmente todas as orações que eu conhecia. O cheiro que saiu de lá de dentro e encheu a capela era insuportável e nauseiante. Não era cheiro de corpo em decomposição recente. Era cheiro de tempo parado, de pó antigo, de tecido desfeito e de desespero concentrado.
Era o cheiro do ar que foi respirado e respirado de novo até acabar o oxigénio. Eu tacteei o bolso do fato-macaco com dedos dormentes e achei o isqueiro novamente. Risquei a pedra três vezes até conseguir uma chama. A luz pequena e amarela iluminou a cena macabra à minha frente. O buraco negro e retangular da gaveta estava aberto, revelando o interior que ninguém via há 106 anos.
Aproximei-me devagar, com o isqueiro a tremer na mão, criando sombras que pareciam mãos a tentarem-me agarrar. O caixão de madeira nobre tinha se desfeito quase todo com a humidade e o tempo restando apenas ripas podres e pedaços de metal das pegas. Mas o esqueleto estava lá e a posição dos ossos contava na história do horror melhor do que qualquer diário.
O esqueleto não estava deitado em paz com as mãos cruzadas no peito, como nós arruma os mortos. O esqueleto estava virado de barriga para baixo, contorcido numa posição fetal de dor. A coluna estava arqueada, os braços estavam esticados para cima na direção da tampa que não existia mais, e as mãos, os ossos dos dedos estavam presos nas fendas da pedra da parede interior da gaveta, enfiados nas junções, como se ela tivesse tentado escalar a parede lisa ou escavar a saída até ao último segundo de vida. O crânio estava virado para o lado
com a mandíbula aberta num grito eterno que nunca foi ouvido. Mas o que brilhou à luz do isqueiro não foram os ossos brancos. Foi um pequeno objeto que estava caído no chão de pedra da catacumba, fora do que restava do caixão, perto de onde estaria a mão direita dela. Era um sino, um sino pequeno de prata maciça, escurecido pelo tempo, mas ainda inteiro, daqueles que as senhoras antigas usavam para chamar os criados ou que as crianças ricas usavam em brinquedos.
A Amélia não tinha escrito sobre isso no diário. Será que a Cecília tinha aquele sino no bolso do vestido de festa quando caiu desmaiada? Ou será que ela tinha ganho de presente do noivo naquela noite fatal e guardou-o na mão? [música] A imagem daquela rapariga a acordar no breu absoluto, apercebendo-se onde estava, gritando até ao voz falhar e tocando aquele pequeno sino de prata na esperança inútil de que alguém do lado de fora ouvisse utilidade de pedra e terra era o mais triste que já tinha imaginado na vida.
O sino era a prova física da esperança dela e também a prova do abandono. Eu estiquei a mão trémula para pegar no sino. Sentia uma necessidade física de tirar aquilo de lá de dentro, de resgatar pelo menos aquela pequena parte da história dela. Assim que os meus dedos calejados tocaram o metal frio do sino, toda a capela se encheu de um som que não vinha deste mundo.
Não era o som do sino na minha mão, era o som de centenas de sinos a tocar ao mesmo tempo, vindos de todos os lados, de cima e de baixo, um carrilhão ensurdecedor e caótico. Eram os sinos de todos os enterrados vivos da história, de todas as vozes caladas pelo medo e pela pressa, tocando juntos numa sinfonia de dor e libertação.
Eu larguei o isqueiro no chão e tapei os ouvidos com as mãos, gritando de pavor. Enquanto o som invadia a minha cabeça e fazia com que os meus olhos lacrimejarem, a escuridão voltou quando a chama se apagou na queda. Senti uma mão segurar o meu tornozelo com força. Não era vento e não era imaginação. Era uma mão física, forte e que me apertou a bota.
Eu dei um pontapé no ar desesperado e arrastei-me para trás, batendo com as costas num banco de madeira. O som dos parou de repente, como se alguém tivesse cortado o fio. O silêncio voltou absoluto e pesado. Apenas o som da chuva torrencial lá fora continuava inalterado, lembrando que o mundo dos vivos ainda existia.
Fiquei encolhido no canto da capela, longe da catacumba aberta, abraçado aos meus joelhos, até ao amanhecer, segurando o diário contra o peito e com o sino de prateado no bolso do fato-macaco, onde eu tinha guardado num reflexo. Eu não preguei o olho, nem por um segundo, vigiando aquela escuridão.
Quando a luz cinzenta e lavada da manhã entrou pelas frestas das janelas, levantei-me com o corpo todo a doer. A água da cheia tinha baixado lá fora, deixando apenas poças de lama. O chão da capela estava coberto de reboco caído. A placa de mármore da A catacumba 33 estava caída no chão, partido em dois pedaços grandes, exatamente no meio do nome Cecília.
Eu não contei a ninguém o que vi e vivi naquela noite. Ninguém acreditaria na história de um velho coveiro. Driam que a tempestade fez ceder a estrutura e a pedra caiu sozinha. Driam que eu alucinei com o isolamento e com o medo. Driam que o diário era falso. Mas eu sabia. Eu sabia o que tinha acontecido e as marcas no meu tornozelo, que ficaram roxos durante semanas, eram a prova de que não estava sozinho.
Passei o dia seguinte inteiro a trabalhar naquela catacumba sozinho e em silêncio. Eu não apenas fechei o buraco, restaurei o túmulo com o maior cuidado e respeito que pude ter. Entrei lá dentro, limpei os ossos com delicadeza, tirei o pó de 100 anos e coloquei-os na posição correta de descanso, com as mãos cruzadas e tranquilas.
Fiz uma oração longa e sentida, pedindo luz e paz para a Cecília e pedindo-lhe que perdoasse a irmã e esquecesse o pai. Coloquei o diário da Amélia dentro de uma caixa nova de metal selada com silicone e o voltei a colocar no compartimento secreto, selando a parede lateral para sempre. Aquela história pertencia à aquele lugar e aquelas duas irmãs, mas o sino de prata não o enterrei de volta.
Tive uma ideia que me pareceu a única coisa justa a fazer. Antigamente, nos cemitérios velhos da Europa, no tempo das pestes, colocavam sinos nos túmulos com uma cordinha que ia para dentro do caixão para o caso de alguém ser enterrado vivo, poder tocar e pedir socorro. Chamavam-lhe sino da salvação ou sino da vida.
Eu instalei aquele pequeno sino de prata discretamente na lateral da lápide restaurada, escondido atrás de um vaso de flores de pedra fixo, onde ninguém mexeria. Daquele dia em diante, a rotina no cemitério voltou ao normal para os outros, mas não para mim. Sempre que tem tempestade forte em Santos no verão, sempre que o céu fica negro e o vento uiva entre as árvores do Paquetá, os outros funcionários do cemitério e os vigias noturnos dizem que ouvem um sino tocar na direção da capela dos barões.
Pensam que é o vento a bater em alguma peça de metal solta ou alguma brincadeira de crianças, mas sei a verdade. E sorriu com tristeza. Quando ouço o som, o sino toca não para pedir socorro, porque agora é tarde demais para a Cecília ser salva da morte física. O sino toca para avisar que ela está acordada e a vigiar.
Toca para lembrar-nos que o silêncio do cemitério engana e que nem todos que está deitado está a dormir. E toca para que o espírito do pai dela, onde quer que a sua alma negra esteja a arder, nunca tenha um minuto de paz pela eternidade. Eu continuo a trabalhar aqui todos os dias. Cuido do túmulo da Cecília com um carinho especial que os outros não entendem.
Mantenho as flores sempre bonitas e frescas, o mármore sempre polido e brilhante como um espelho. É o mínimo que posso fazer para compensar o século de trevas que ela viveu. Porque naquela noite de tempestade, quando estava preso no escuro, ouvindo os gritos dela e lendo as palavras da irmã, compreendi uma coisa que mudou a minha vida e o meu jeito de encarar a morte.
O pior destino não é morrer. O pior destino é ser esquecido enquanto ainda está a gritar por ajuda. E enquanto eu for vivo e puder andar por essas alamedas. E enquanto aquele sino tocar nas noites de chuva, a miúda da catacumba 33 nunca mais vai gritar sozinha.