EX-COVEIRO CONTA: ENQUANTO EU CAVAVA A COVA… DE REPENTE, ALGO QUE NINGUÉM ESPERAVA VOOU PARA CIMA 

EX-COVEIRO CONTA: ENQUANTO EU CAVAVA A COVA… DE REPENTE, ALGO QUE NINGUÉM ESPERAVA VOOU PARA CIMA

Trabalhei 11 anos como coveiro no cemitério municipal de Belém do Pará, sem nunca ter medo do meu trabalho. Mas em junho de 2019, quando fui designado para cavar uma sepultura no sector F, encontrei algo que nunca deveria ter sido desenterrado. Círculos de pedras negras dispostas em padrões impossíveis, oferendas macabras enterrados há décadas, objetos que se moviam-se sozinhos e uma presença que observava cada movimento meu desde o fundo da terra.

 Quando o enterro começou, o caixão desceu normalmente, mais ao tocar no fundo, partiu tábuas que escondiam uma câmara subterrânea, revelando o altar antigo com correntes enferrujadas que prendiam algo invisível. E quando essas correntes se romperam com o peso, testemunhei o impossível. Os mortos de todo o sector tentando arrancar o caminho de regresso ao mundo dos vivos.

 O meu nome é Carlos Eduardo Monteiro, tenho 37 anos e esta é a história de como descobri que alguns lugares deveriam permanecer selados para sempre. Não importa quantos corpos precisamos de enterrar por cima. Nasci em Belém do Pará em 1982. [música] Filho da dona Maria do Socorro Monteiro, costureira e o seu Carlos Monteiro, mecânico de manutenção.

 Cresci no bairro do Jurunas, uma zona popular da cidade, onde as casas estão tão próximas umas das outras que consegue ouvir a conversa do vizinho mesmo com as portas fechadas. Éramos quatro irmãos, eu o mais novo, três irmãs mais velhas que cuidavam de mim como se fosse um filho delas. A infância foi simples, mas feliz. Jogava à bola descalço nas ruas de terra batida, tomava banho no riacho que passava perto de casa, subia para uma mangueira para roubar fruta.

 A minha mãe trabalhava em casa, sempre com aquela máquina de costura velha a fazer barulho, arranjar roupa, fazer vestido para a festa, ajudando a pagar as contas. Meu pai passava o dia na oficina mecânica de um conhecido. Regressava tarde, cansado, com as mãos sujas de gordura, mas sempre com um sorriso para os filhos. Estudei até terminar o ensino secundário em 2000 com 18 anos.

 Nunca fui aluno brilhante, mantinha-se sempre na média, passava raspando a matemática, mas era esforçado. Não repeti nenhum ano. Minha mãe dizia sempre: “O estudo é a única herança que podemos deixar para vocês”. Levei a sério. Depois de me formar, tentei a faculdade de administração numa particular, mas tive que trancar no segundo semestre.

 Não conseguia pagar as mensalidades e trabalhar ao mesmo tempo. Precisava de emprego fixo. Foi a minha irmã mais velha, Joana, quem me falou da vaga. Ela tinha uma amiga casada com um funcionário da autarquia que trabalhava no setor de cemitérios. Precisavam de coveiro no cemitério municipal de Santa Isabel, no bairro do Marco.

 Salário não era grande, mas era estável. com contrato assinado, 13º, vale transporte. Não hesitei, fui fazer a entrevista no dia seguinte. O administrador na altura era o senhor Osvaldo, homem de cerca de 60 anos, sério, mas justo, fez-me perguntas básicas. Se tinha problema em trabalhar com a morte, se era forte fisicamente, se tinha disponibilidade para trabalhar em fins de semana quando necessário.

 Respondi tudo o que sim. Ele olhou para os meus braços. viu que era magro, mas tinha músculos de quem sempre trabalhou arduamente desde criança e contratou-me na hora. Comecei na segunda-feira seguinte, 26 de março de 2008. Tinha 26 anos. O cemitério era enorme. Ocupava vários quarteirões com setores divididos por letras e números.

 Tinha área antiga com túmulos com 100 anos, mausoléus de famílias ricas, jazigos de mármore. Tinha uma área nova com sepultura simples, muitas sem lápide, apenas cruz de madeira. E tinha o setor F na parte mais afastada, encostado ao muro dos fundos, debaixo de mangueiras antigas que faziam sombra densa mesmo ao meio-dia.

 O meu treinamento durou duas semanas. Jeremias, coveiro veterano de 65 anos, ensinou-me tudo. Como medir e marcar o retângulo no chão, como cavar, respeitando as dimensões regulamentares. 2 m de profundidade, 80 cm de largura, 2,10 m de comprimento. Como usar a picareta quando encontrava raiz ou pedra? Como descer o caixão com cordas sem deixar cair? Como deitar terra compactação em camadas? como alisar o monte final e colocar a cruz ou lápide provisória.

 Jeremias era um homem de poucas palavras, mas de muita sabedoria. Dizia sempre: “Respeita os mortos e eles te respeitam de volta. Nunca mexa num túmulo alheio sem motivo. Nunca leve nada que não é seu. Nunca faça piadas com os falecidos.” Seguia as suas instruções a risca. Durante todos os anos que trabalhei, nunca desrespeitei qualquer morto.

 Nos primeiros meses, confesso que tinha medo. Não medo dos mortos, mas medo do ambiente. O silêncio do cemitério era diferente do silêncio normal. Era um silêncio pesado que parecia ter textura. Quando estava sozinho a cavar uma cova, cada barulho assustava-me. Vento balançando folhas parecia passo. Galho a quebrar parecia alguém a aproximar-se.

 Mas com o tempo fui-me habituando. Aprendi a diferenciar sons naturais de sons que precisavam de atenção. Casei com a Luciana em 2010, dois anos depois de ter começado a trabalhar. Conheci-a numa festa de São João no bairro. Era professora de uma escola municipal. Dava aulas a crianças do segundo ano.

 Mulher bonita, inteligente, paciente. Quando lhe disse que era coveiro, ela não se importou. Disse que o trabalho honesto merece respeito, independentemente de qual seja. Casámos numa cerimônia simples, apenas família e amigos próximos. Tivemos dois filhos, o Pedro, nascido em 2011, e Ana Clara, nascida em 2014. A rotina de trabalho era sempre a mesma.

Chegava às 7 da manhã, apanhava as ferramentas no armazém, verificava a lista de enterramentos do dia, cavava as covas necessárias. Uns dias tinha dois enterros, outros dias cinco ou seis, dependia. Fim de semana geralmente havia mais, porque as As agências funerárias aproveitavam para agendar vários de uma só vez.

 Trabalhava de segunda a sábado, folga ao domingo, exceto quando tinha um enterro de emergência. Durante 11 anos de 2008 até junho de 2019, enterrei centenas de pessoas, bebés que viveram poucos dias, crianças levadas por doença, jovens mortos em acidentes ou violência, adultos de todas as idades, velhos que viviam muito tempo, ricos com caixões caros e cortejos grandes, pobres com caixões simples e poucas pessoas, todos iguais debaixo da terra.

 terra. Vi muita tristeza, mães que desmaiavam sobre caixões de filhos, maridos que precisavam de ser segurados para não se atirar para a cova juntamente com a esposa. Crianças órfãs, que não compreendiam porque o pai ou a mãe não acordava. Velório sem ninguém, apenas eu, o padre e o defunto. Cada enterro transportava uma história, um pedaço de vida que ali terminava.

 Mas em todos estes 11 anos nunca vi nada sobrenatural, nada de inexplicável. Os mortos eram apenas corpos sem vida. Não falavam, não se mexiam, não assombravam. Colegas de trabalho às vezes contavam histórias de luzes estranhas, de sombras a moverem-se, de sons que não faziam sentido. Eu ouvia, mas não levava a sério.

 Achava que era superstição, imaginação fértil. Até junho de 2019, até ao funeral de Socorro Tavares da Costa, até ao dia em que tudo mudou. Socorro Tavares da Costa era nome conhecido em Belém, sobretudo nos bairros mais antigos. Não era fama de celebridade ou de política, era a fama sussurrada, de boca pequena, daquelas que se transmitem em conversas baixas e olhares de soslaio.

 Ela era benzedeira, ou pelo menos era o que dizia oficialmente. Vivia sozinha numa casa antiga no bairro da cidade velha. Construção de alvenaria pintada de azul desbotado, com janelas de madeira sempre fechadas e quintal cheio de plantas que ninguém reconhecia. Tinha 63 anos quando morreu. Viúva há mais de 20 anos, sem filhos, sem família próxima.

 Vivia do que ganhava, fazendo benzeduras, limpezas espirituais, banhos de ervas. As pessoas procuravam-na para curar o quebranto em criança, para tirar o mau-olhado, para afastar a inveja. Ela recebia em casa sempre à tarde, nunca cobrava valor fixo, apenas aceitava o que a pessoa quisesse dar. Usava orações católicas misturadas com palavras que ninguém entendia.

 ervas colhidas na lua certa, água benzida, sal grosso. Diziam que ela tinha um dom, que vinha de família, que a a sua avó já fazia o mesmo. Mas havia outro lado, rumores mais negros que circulavam em voz ainda mais baixa. Diziam que o socorro tinha passado obscuro, que nos anos 80, quando era jovem, tinha-se envolvido com um grupo de pessoas que praticavam rituais proibidos.

 Não era uma banda nem candomblé, religiões que tinham respeito na comunidade. Era outra coisa, coisa mais pesada, coisa de invocar o que não deveria ser invocado. Nunca tive contacto pessoal com ela, mas a minha mãe conhecia. Uma vez, quando a minha filha, Ana Clara, ficou doente com febre alta que não passava, a minha mãe insistiu para levarmos à dona Socorro.

 Luciana, que era mais cética, concordou apenas porque já tínhamos tentado três pediatras diferentes e nada resolvia. Fomos numa tarde de setembro. A casa cheirava forte a ervas queimadas e incenso. Socorro nos recebeu na pequena sala, cheia de imagens de santos velas acesas, terços pendurados na parede.

 Era mulher baixa, magra, cabelo grisalho apanhado num carrapito, olhos pequenos e atentos que pareciam ler mais do que deveriam. pegou na Ana Clara ao colo, passou a mão pela testa dela, murmurou coisas que não compreendi, soprou fumo de charuto sobre a cabeça da menina, fez o sinal da cruz três vezes.

 Quando terminou, olhou para mim com aqueles olhos penetrantes e disse algo que nunca esqueci. Você trabalha com os mortos. Tenha cuidado com onde pisa. Nem toda a terra é igual. Senti um arrepio, mas não dei muita atenção. A Luciana pagou 20€. Agradecemos e fomos embora. A Ana Clara melhorou no dia seguinte. Coincidência ou não, nunca soube. A morte dela foi estranha.

Aconteceu numa terça-feira de junho de 2019. Socorro tinha consulta marcada no posto de saúde para rotina, pressão e diabetes que ela controlava com medicação. Não apareceu. A agente de saúde foi até a casa verificar. Bateu, chamou, ninguém respondeu. Chamou a polícia. Arrombaram a porta.

 Encontraram socorro morto na cama. estava deitada de costas, as mãos cruzadas sobre o peito, olhos fechados, como se se tivesse preparado para morrer. Em redor da cama, velas apagadas formando círculo perfeito. No chão, sal grosso desenhando símbolos. Na parede, escrito com carvão, palavras em latim que depois descobriram significar.

 O selo está quebrado. A guardiã parte que Deus proteja os vivos. A autópsia determinou a morte natural, paragem cardíaco, mas todos os que viram a cena sabiam que havia algo mais. Socorro tinha-se preparado, sabia que ia morrer e deixou aviso. O funeral foi marcado para quinta-feira, dois dias depois. Eu esteve de folga na terça e quarta-feira.

Assim, quando cheguei ao trabalho, quinta-feira de manhã às 7 horas, peguei no lista de tarefas e vi Cavar Sepultura setor F, lote 23, socorro Tavares da Costa, funeral às 15 horas. Setor F. Senti o estômago apertar. Todo o coveiro que trabalhava no cemitério conhecia a reputação do setor F.

 Era a área mais antiga, aberta nos anos 60, quando o cemitério expandiu-se. Ficava nos fundos encostada ao muro, debaixo de mangueiras centenárias que faziam sombra tão densa que erva nem crescia direito. O chão era sempre húmido, mesmo em época de seca. O ar era ali mais pesado e havia histórias. Dona Raimunda, zeladora antiga que trabalhava no cemitério havia 30 anos, contava que no final dos anos 80 aconteceu algo terrível no setor F.

Um grupo de nove pessoas, homens e mulheres praticantes de magia negra, fizeram ritual proibido numa noite de lua nova. tentaram invocar entidade demoníaca para obter poder. O ritual deu errado. Todos os nove morreram na mesma noite de formas horríveis. Alguns encontrados com os olhos arrancados, outros com a língua cortada, outros simplesmente mortos de terror, rostos congelados em expressão de pavor absoluto.

 A polícia investigou, mas não encontrou nenhum assassino. Arquivaram como suicídio coletivo ritualístico. Mas a verdade, segundo dona Raimunda, era que o que eles tentaram invocar veio, mas não para servi-los, veio para os levar. E depois disso, aquele lugar ficou marcado. Os corpos dos nove foram enterrados numa vala comum, longe dali, mas a energia do ritual manteve-se e cemitério foi construído em cima, propositadamente para selar.

 Nunca acreditei muito nestas histórias, mas quando vi que precisava cavar no setor F, especialmente para enterrar alguém com reputação de socorro, senti medo pela primeira vez em 11 anos de profissão. Peguei nas minhas ferramentas no depósito, pá, enchada, picareta, balde, cordas, coloquei tudo no carrinho de mão e dirigi-me para o setor F.

 Era manhã de céu azul, sol forte, típico de Junho em Belém. Devia estar a fazer uns 33º, mas conforme me aproximava do setor F, sentia a temperatura descer, não muito, mas o suficiente para notar. E a luz parecia diferente, mais fraca, filtrada pela sombra densa das mangueiras. O lote 23 estava mesmo no fundo, a cerca de 15 m do muro.

Do lado esquerdo tinha jazigo antigo abandonado. Ao lado direito tinha três sepulturas simples de pessoas enterradas nos anos 90. Marquei o retângulo no chão com estacas e cordel, como sempre fazia. Respirei fundo, peguei na enchada e comecei a remover a relva. Foi no terceiro golpe que senti. A ferramenta bateu em algo duro com um som metálico.

Franzi a testa. Pedra no meio da relva. Baixei. Retirei a relva com as mãos e vi. Não era pedra, era metal. Um anel de ferro enferrujado com cerca de 20 cm de diâmetro, enterrado pouco profundo a poucos centímetros da superfície. Cavei ao redor com cuidado. Descobri mais anéis, seis no total, dispostos em círculo perfeito, cada um enterrado na mesma profundidade.

 O círculo tinha quase 2 m de diâmetro, exatamente o tamanho do sepultura que eu deveria abrir. Meu coração acelerou. Aquilo não era normal. Alguém tinha colocado propositadamente. Mas quando e porquê? Olhei em redor. O cemitério estava vazio. Apenas eu. Decidi continuar. Precisava de terminar o trabalho.

 Comecei a a cavar de verdade, removendo as camadas de terra. A cada pá cheio, aquela sensação de desconforto aumentava. Era como se alguém estivesse observando-me. Virava a cabeça rapidamente. Nada. apenas as árvores, os túmulos, os silêncio. Quando atingi uns 40 cm de profundidade, encontrei a primeira oferenda.

 A minha pá bateu em algo e quando investiguei, encontrei garrafa de vidro escuro, selada com cera preta. No interior, líquido espesso e escuro. Não toquei. Sabia o que era uma garrafa de trabalho utilizado em rituais de magia negra. Deixei-o ali e continuei a cavar ao lado, mas logo encontrei mais coisas. Vela preta derretida colada num prato de barro.

 Ossos pequenos de galinha pelo tamanho, atados com fio vermelho. Boneca de pano com boca cosida e alfinetes espetados no peito. Pedaços de tecido vermelho podre e algo que me fez engasgar. Espelho pequeno, redondo, de vidro negro que refletia, mas distorcia tudo. Peguei no espelho com mão trémula, Olhei para ele.

 O meu reflexo estava ali, mas errado, distorcido, os olhos muito fundos, a boca muito larga, como se fosse eu, mas não fosse. Joguei longe com nojo. Foi quando o cheiro chegou, forte, nauseiante, enxofre misturado com algo que parecia carne queimada. Cobri o nariz com a camisa, mas não adiantava. O fedor era tão intenso que os meus olhos lacrimejaram.

E então ouvi sussurro vindo debaixo da terra. Não eram palavras claras, era som arrastado, gutural, como se alguém tentasse falar com a garganta cheia de terra. Um murmúrio constante que fez cada pelo do meu corpo arrepiar-se. Larguei a pá, dei um passo atrás. Aquilo não era vento, não era imaginação, era real.

Quis sair a correr, mas os meus pés não obedeciam. Fiquei ali congelado, a olhar para o interior da cova parcialmente cavada, ouvindo aquele sussurro impossível. A terra começou a mover-se ligeiramente, ondulando, como se algo por baixo estivesse a respirar, subindo e descendo no ritmo lento e constante.

 Vi com os meus próprios olhos a terra respirando. Meu sangue gelou, consegui mexer-me. Saí da cova de um salto, caí de joelhos na erva, coração disparado, mãos a tremer, suor frio a escorrer pelas costas, apesar do calor. precisava de ajuda. Não podia continuar sozinho. Levantei-me e corri até ao depósito onde sabia que encontraria alguém.

 A Dona Raimunda estava lá varrendo. Quando me viu, largou a vassoura. O que aconteceu, menino? Você está branco. Setor F. Consegui dizer. Há algo errado. Muito errado. Ela ficou séria. Estás a cavar onde? Lote 23. Para o enterro da dona Socorro. O rosto dela empalideceu. Jesus Cristo murmurou ela, fazendo o sinal da cruz.

 Aquele é o lugar, o lugar exato. Que lugar? Onde aconteceu o ritual? Onde morreram os nove? 23 de Junho de 1987, há exatamente 32 anos. E agora vão enterrá-la ali. Por que razão exatamente ali? Porque ela era a décima. Dona Raimunda sentou-se num banco a voz baixa. Eram 10 no grupo original. Nove morreram naquela noite. A Socorro era a mais nova.

Tinha 20 anos na altura. Foi a única que sobreviveu. E sabe porquê? Porque ela selou o portal. Usou o próprio sangue para desenhar símbolos. Usou fé que tinha ainda para fechar o que os outros abriram. Mas o selo só funcionaria enquanto ela vivesse. Com a morte dela, o selo quebraria. Por isso, ela pediu para ser aí enterrada.

 Para tentar manter fechado mesmo morta, senti o mundo girar. Aquilo não podia ser verdade, mas no fundo sabia. [música] Tudo fazia sentido. As oferendas enterradas, os anéis de ferro, o sussurro vindo da terra, a respiração impossível. Não posso terminar esta cova disse eu. Não vou. Se não terminar, outro vai.

 A Dona Raimunda levantou, colocou a mão no meu ombro. O enterro vai acontecer. Está marcado. A família já foi avisada. A agência funerária já está com o corpo. Pode fugir, mas alguém vai cavar. E quando a enterrarem ali, o que tiver por baixo vai acordar. Voltei para o setor F porque não tinha escolha. Cada passo era uma tortura, cada respiração era esforço.

 Mas voltei para trás, peguei na pá com mãos trémulas e continuei a escavar. O sussurro nunca parou. A sensação de ser observado aumentou. Várias vezes senti toque gelado no ombro, na nuca, na perna. Virava-se rápido, nada, apenas presença invisível a atormentar-me. Quando tinha 1,5 m de profundidade, a pá bateu em algo que não era terra, era madeira, tábuas.

 Removi terra ao redor e descobri. Havia tábuas a cobrir algo por baixo, como se alguém tivesse construído falso fundo. Não queria abrir, mas precisava de chegar aos 2 m regulamentares. Com cuidado, retirei uma tábua, depois outra, e depois vi. Em baixo havia espaço vazio, uma câmara não muito grande, talvez 1,5 m de profundidade.

 E dentro dela, visível a luz que entrava pela abertura. Altar. Era altar de pedra negra. Sobre ele velas consumidas. Ao redor, círculos desenhados no chão com algo que parecia sangue seco. E pior, correntes, quatro correntes de ferro grosso, uma em cada canto do altar, todas convergindo para o centro onde estavam amarradas a algo que eu não conseguia ver, como se houvesse algo invisível ali acorrentado.

 Uma das correntes estava demasiado enferrujada, quase se partindo. As outras três ainda pareciam sólidas. mas velhas, corroídas pelo tempo. Subida a cova rapidamente. Não ia mexer naquilo, não ia descer aquelas tábuas, ia deixar assim. Quando o caixão fosse colocado, ficaria sobre as tábuas. Não precisava de remover.

 Passei as horas seguintes a fingir trabalhar, limpando em redor, ajustando terra, qualquer coisa para passar o tempo até ao enterro. O tempo arrastava-se. Cada minuto parecia tempo e aquele sussurro nunca parava. Estava sempre ali no fundo da a minha consciência como zumbido perturbador. Chegaram as 15 horas. O cortejo apareceu.

 O cortejo era pequeno. Carro funerário, um carro com três mulheres idosas que deviam ser amigas de socorro e padre jovem que parecia nervoso. Apenas cinco pessoas no total, incluindo o padre. Para a mulher que viveu 63 anos e atendia tanta gente, era o enterro tristemente vazio. O caixão era simples, madeira clara, envernizada, sem adornos.

Quatro homens da agência funerária tiraram do carro e carregaram-no até à beira da cova. Eu estava ali há poucos metros observando. O meu coração batia descompassado. O padre iniciou a cerimónia. Padre Marcos, devia ter uns 35 anos, recém-chegado à paróquia, lia as orações do livro, voz monótona sem emoção.

 Parecia apenas cumprir obrigação. As três mulheres choravam baixinho, segurando terços, rezando em murmúrio. Foi quando aconteceu o primeiro sinal. Uma das mulheres parou de chorar abruptamente. Olhou em redor com expressão confusa. “Estão a sentir?”, perguntou. Sentir o quê? Outra respondeu: “O frio está gelado aqui e estava.

 A temperatura tinha despencado. O meu hálito saía visível, formando nuvens de vapor. Em pleno meio-dia de junho, em Belém, com sol forte, o ar estava gelado. Impossível!” O padre também reparou. parou de ler, olhou em redor nervoso. Talvez devêsemos, ele começou, mas uma das mulheres o interrompeu.

 Por favor, termine logo, padre. Precisamos de a enterrar e ir embora. Ele hesitou, mas continuou. Terminou as orações, fez sinal da cruz, benzeu o caixão com água benta. Então, os homens da agência funerária começaram a passar as cordas por baixo do caixão para descer. Foi quando percebi as tábuas. Tinha-me esquecido de avisar. As tábuas que cobriam a câmara eram velhas, apodrecidas, não iam aguentar o peso do caixão.

“Espere!”, gritei. “Tem tábuas no fundo, podem não aguentar.” Mas já era tarde, já estavam a descer. O caixão foi baixando lentamente, as cordas rangendo. Todos observavam em silêncio. Quando o caixão tocou no fundo, ouvimos craque, o som de madeira a partir. O caixão afundou, as tábuas cederam. O caixão caiu cerca de 50 cm para dentro da câmara escondida em baixo, levantando nuvem de poeira.

 E depois ouvimos o som metálico, como metal a bater em metal. Uma das correntes se rompeu. O silêncio que seguiu foi absoluto. Até os pássaros deixaram de cantar. Até o vento deixou de soprar. Era como se o mundo inteiro tivesse sustido a respiração. E então veio o grito. Não era humano, era agudo, estridente, que perfurava os ouvidos. vinha de dentro da cova, de dentro da câmara, como se algo preso há décadas tivesse acabado de acordar.

 As três mulheres gritaram e começaram a correr. Os homens da agência funerária largaram as cordas e correram também. O padre caiu de joelhos, segurando o crucifixo, rezando em desespero. Eu fiquei paralisado, olhando para dentro da cova e vi fumo. O fumo negro começou a subir de dentro da câmara, espiralando como serpente viva.

 E, juntamente com a fumo, o cheiro, enxofre tão forte que fez-me vomitar ali mesmo. A fumaça não subia direto. Ela movia-se com propósito, como se de uma entidade consciente. Saiu da cova e começou a espalhar pelo chão, rastejando entre os túmulos. E então aconteceu. Os túmulos em redor começaram a tremer. Não era sismo, era localizado apenas no setor F, apenas os túmulos mais antigos.

A terra sobre eles começou a rachar, a se mover. Mãos começaram a surgir, mãos. decompostas, esqueléticas, com carne podre ainda agarrada aos ossos, saindo da terra, arranhando, tentando sair. Corri. Não pensei, apenas corri. Ouvi o padre correndo atrás de mim, a respiração pesada.

 Atrás de nós, todo o setor F parecia ter despertado. Sons de terra sendo escavada, rangidos, sussurros se multiplicando. Quando olhei para trás, vi algo que nunca mais esquecerei. A fumaça negra tinha formado uma coluna alta, espessa, e dentro dela se moviam formas. Não eram claramente visíveis, apenas vislumbres, rostos distorcidos, bocas abertas em gritos silenciosos, mãos esqueléticas estendendo-se.

 No centro da coluna, algo maior, algo que distorcia o ar em redor como calor tremendo. Não conseguia ver claramente, mas sentia a presença. Antiga, maléfica, aprisionada durante 32 anos e agora finalmente livre. Chegámos ao portão principal. Eu, o padre, as três mulheres, os quatro homens da agência funerária, todos ofegantes, apavorados, a tremer.

 O que era aquilo? Uma das mulheres perguntou entre soluços. O padre, ainda segurando o crucifixo, respondeu com voz entrecortada: “O que a dona Socorro manteve preso durante toda a vida adulta? O que ela selou com o próprio sangue quando tinha 20 anos? e que agora que está morta e foi enterrada exatamente onde tudo começou, libertou-se.

 E agora? Perguntei: “O que fazemos?” O padre olhou para trás, para o setor F. “Não sei, isso está para além de mim. Preciso avisar o bispo. Preciso de exorcista, de ajuda especializada.” E, enquanto isso, enquanto isso, rezamos para que fique contido no setor F, para que não se propague para o resto do cemitério, para o resto da cidade.

Nessa tarde, o cemitério foi evacuado. Todos os funcionários foram mandados para casa. Polícias isolaram o local. Ninguém entrava, ninguém saía. À noite, o bispo veio com três padres especializados em casos de possessão e manifestação demoníaca. Fizeram um ritual de exorcismo que durou até ao amanhecer. Não participei.

 Fiquei em casa abraçado com Luciana, as crianças dormindo no quarto ao lado, tremendo de medo. Na manhã seguinte, o bispo deu entrevista dizendo que conseguiram conter a manifestação, que fizeram benzimento, deitaram água benta, selaram o setor F com orações poderosas. Mas quando regressei ao trabalho na segunda-feira seguinte, vi a verdade.

Construíram um muro, um muro alto, de betão, em redor de todo o setor F. Isolaram completamente. Não permitiam mais enterros ali, não permitiam mais visitas. Instalaram capela pequena mesmo à entrada com padre a fazer missa de área de proteção. O que aconteceu não foi contido, foi apenas cercado. A coisa continua ali, presa de novo, mas não por sangue de socorro, apenas por orações diárias e fé dos sacerdotes.

 E todo o mundo que trabalha no cemitério sabe, se um dia as missas pararem, se um dia o muro for derrubado, aquilo vai acordar de novo. Depois desse dia, não fui mais o mesmo. Fisicamente sobrevivi sem ferimentos, mas psicologicamente algo se partiu dentro de mim. Desenvolvi insónia severa. Não conseguia dormir mais de duas horas seguidas.

 Toda vez que fechava os olhos, via aquele fumo negra, ouvia aqueles sussurros, sentia aquele frio antinatural. Tentei continuar a trabalhar. Voltei ao cemitério na segunda-feira, apanhei as minhas ferramentas, tentei cavar sepultura normal em setor diferente, mas não conseguia. Cada vez que a pá entrava na terra, sentia pânico.

 E se encontrasse algo de novo? E se houvesse outros locais como o setor F, como saber qual a terra que era segura? Aguentei mais duas semanas, duas semanas de tortura. Até que um dia, cavando sepultura no setor A, longe do F, senti de novo aquela sensação de ser observado, aquele peso no ar. Larguei tudo e saí a correr.

 Fui direto na administração e pedi a demissão. O seu O Osvaldo tentou convencer-me a ficar. Ofereceu baixa médica, férias antecipadas, transferência para outra função que não exigisse cavar. Mas recusei tudo. Não podia estar mais ali. Não depois de saber o que sabia, não depois de ver o que vi. Fiquei desempregado há três meses.

 Vivia de poupanças e do salário de Luciana. Afundei-me em depressão. Não saía de casa, não conversava, apenas ficava sentado olhando para o vazio, repassando tudo na mente. Foi a dona Raimunda quem me procurou. Apareceu em minha casa numa tarde, trazendo quem tinha de comida. Sentou-se na sala e conversámos. Ela me contou mais pormenores sobre o socorro, sobre o grupo dos nove, sobre outros lugares em Belém que tinham histórias similares e depois disse-me algo que mudou tudo.

 Foste marcado, Carlos, quando cavaste aquela cova, quando esteve tão próximo daquele lugar, quando respiraste aquela fumaça, algo mudou em si. Agora sente. Sente quando os lugares têm má energia. Sente quando há resíduo de coisa que não deveria estar ali. Pensei que ela estava louca, mas depois comecei a perceber. Quando passava por certos locais da cidade, sentia aquele frio, aquele peso, aquela sensação de ser observado.

 Era subtil, não tão intenso como no setor F, mas estava lá. Aprendi a confiar nessa sensação. Comecei a ser procurado. Não sei como, mas de boca em boca a notícia se espalhou. Há um rapaz que consegue sentir se lugar é carregado. As pessoas procuravam-me antes de comprar terreno, antes de alugar casa, antes de construir negócio.

 Queriam que eu visitasse o local e dissesse se sentia algo. No início, relutei. Não queria usar aquilo. Não queria transformar trauma na profissão, mas precisava comer. Precisava de sustentar família. E Descobri que podia ajudar pessoas, evitar que construíssem em locais maus, evitar que sofressem o que eu sofri. Tornei-me consultor não oficial.

 Não cobrava caro, apenas o suficiente para viver. Visitava lugares, caminhava pelo terreno, sentia. Se era limpo, dizia que sim. Se sentia algo, aconselhava a evitar ou fazer limpeza espiritual antes de usar. Com o tempo, aprendi a lidar com o dom ou maldição. Ainda não sei qual é. Aprendi técnicas de proteção, aprendi orações, aprendi a usar sal grosso, água benta, [música] defumação.

 Não virei padre nem benzedor. Apenas aprendi a me proteger e a proteger outros. Hoje, se anos depois, tenho uma vida diferente. Ainda trabalho identificando lugares carregados, mas também ajudo os cemitérios. Várias administrações me procuram para verificar as áreas antes de abrir para enterramentos, para ter a certeza que não há resíduo de ritual, que não há coisa enterrada que não deveria estar.

 É trabalho estranho, não aparece em contrato assinado, não tem plano de carreira, mas é honesto e ajuda-nos. Evita que o que me aconteceu acontecer com outros. Hoje é novembro de 2025, Tenho 37 anos. Luciana ainda está comigo, paciente como sempre. O Pedro tem 14, a Ana Clara tem 11. São crianças boas, estudiosas, não sabem pormenores do que aconteceu com o pai.

 Apenas que trabalhei num cemitério e que algo me marcou. Às vezes passo em frente ao cemitério municipal Santa Isabel. O muro em redor do setor F continua lá, mais alto agora, reforçado. A capela também continua. O Padre Novo faz missas todos os dias. A Dona Raimunda reformou-se, mas me mantém informado.

 Diz que às vezes à noite quem passa perto ouve sussurros vindos de dentro. Mas não saiu nada. A contenção está a funcionar. Por quanto tempo? Não sei. As orações humanas são fortes, mas são humanas. Temporárias, dependem da fé, da constância. Se um dia o bispo decidir que já não precisa das missas diárias, se um dia relaxarem a vigilância, aquilo pode voltar a acordar.

E socorro! O seu corpo continua lá, no caixão partido dentro da câmara, sobre o altar que ela tentou selar quando tinha 20 anos. Morreu como viveu, guardião, mantendo fechado o que outros abriram por ambição e ignorância. Aprendi muitas coisas com esta experiência. Aprendi que o mundo é mais complexo do que parece, que há lugares onde o véu entre o nosso mundo e os outros é fino, que ações têm consequências que duram décadas, que algumas pessoas dedicam uma vida inteira a corrigir erros de minutos. Aprendi um respeito mais profundo

pelos mortos. Não apenas o respeito superficial de não mexer num túmulo alheio, mas respeito pelo que eles carregaram em vida, pelos fardos que continuam a carregar mesmo depois de mortos. Socorro viveu 43 anos a manter o portal fechado, 43 anos a carregar peso que não era dela, peso de ritual que outros fizeram e ela teve de arranjar.

 Também aprendi sobre os preços. Há sempre preços. O Socorro pagou com a vida inteira. Eu Paguei com insónia permanente, com trauma que nunca passa completamente, com mudança forçada de carreira. Mas outros pagaram mais. Os nove que tentaram o ritual pagaram com a morte horrível. E quantos mais pagariam se o portal ficasse aberto? Se está lendo isto, se trabalha em cemitério ou se mexe com coisas que não compreende completamente, preste atenção. Nem toda a terra é igual.

Alguns locais guardam mais do que mortos, guardam memória, guardam energia, guardam portais que foram fechados, mas não destruídos. Se você começar a sentir frio antinatural, se encontrar oferendas enterradas, se ouvir sussurros vindos da terra, pare. Não continue a cavar. Não liberte o que deve permanecer preso. Procure ajuda.

 Procure quem entende, porque sozinho não vai conseguir conter. E se for comprar terreno, construir casa, abrir negócio, sobretudo numa área que já foi cemitério ou que tem histórias estranhas, procure alguém que possa sentir, alguém como eu, que consiga identificar se o lugar é seguro, porque há locais onde não se deve pisar, há terra que não deve ser violada.

 Quanto a mim, Continuo a viver dia após dia, acordando de madrugada, sentindo coisas que outros não sentem, ajudando quem precisa, evitando os maus lugares, protegendo a minha família e sempre, sempre respeitando os mortos, porque aprendi da pior maneira possível. Alguns portais nunca foram feitos para abrir, alguns selos nunca foram feitos para quebrar.

 E alguns Os guardiões merecem mais respeito do que nunca receberão em vida. Socorro Tavares da Costa morreu aos 63 anos. Viveu como guardiã, morreu como guardiã e mesmo morta, continua a ser o seu corpo sobre aquele altar, dentro daquela câmara, mantendo parcialmente fechado o que outros tentaram abrir. Até quando? Não sei.

 Mas enquanto durar, Belém está mais segura. E continuo a sentir, sentindo os lugares carregados, sentindo os resíduos, sentindo o fino véu entre mundos. É dom, é maldição, não sei, mas aprendi a usar para o bem, para proteger, para avisar, para evitar que outros passem pelo que passei. Meu nome é Carlos Eduardo Monteiro, tenho 37 anos, fui coiro por 11 anos.

 Em junho de 2019, cavei a cova que nunca deveria ter sido cavada. Vi o que nunca deveria ter sido visto e sobrevivi para contar. Esta é minha história, meu testemunho, meu aviso. Se algum dia você for a Belém do Pará e passar na frente do cemitério municipal Santa Isabel, vai ver muro alto ao redor de uma área isolada. Vai ver capela pequena na entrada e se prestar atenção, talvez ouça sussurros baixos. Não se aproxime.

 Não tente entrar. Não seja curioso. Porque há coisas que devem permanecer enterradas. Há portais que devem permanecer selados. Há guardiões que merecem ser respeitados. E dona Socorro Tavares da Costa é uma delas.

 

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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