Ex-Coveiro Conta: “Eu Assisti O ENTERRO Mais AMALDIÇOADO… E A MALDIÇÃO Veio Atrás De MIM” 

Ex-Coveiro Conta: “Eu Assisti O ENTERRO Mais AMALDIÇOADO… E A MALDIÇÃO Veio Atrás De MIM”

O meu nome é Roberto Almeida dos Santos. Hoje tenho 62 anos, reformado há 5 anos. Vou contar uma coisa que aconteceu comigo há exatamente 28 anos e que nunca, nunca me saiu da cabeça. Trabalhei 40 anos como coveiro no cemitério municipal de São João, aqui em Maringá, Paraná. Durante este tempo todo, vi tudo o que um homem pode ver a trabalhar no meio dos mortos.

 Enterrei gente de todo o jeito, rico, pobre, velho, criança, morte natural, acidente, homicídio. Achava que já conhecia todas as faces da morte, todas as formas de dor que uma família pode carregar. Mas teve um enterro, apenas um, que mudou tudo. Foi em Março de 1997, numa sexta-feira de tarde quente e pesada.

 Aquele dia ensinou-me que tem coisas piores do que a morte. Ensinou-me que o ódio dos vivos pode acordar as coisas que deviam ficar a dormir para sempre. Acordei nessa sexta-feira lá pelas 5h30 da manhã, como sempre fazia. Minha esposa, a Carmen, ainda dormia profundamente. Vestia-me em silêncio, no escuro, tomei um café preto muito forte na cozinha vazia e saí de casa quando o sol mal começava a surgir no horizonte.

Maringá estava diferente naquele início de março. O verão tinha sido dos mais quentes que me lembrava. E mesmo com o outono a chegar, o calor não dava tréguas nenhuma. O ar já estava pesado desde cedo. Aquele tipo de calor húmido e sufocante que se cola à pele e não sai, não importa quanto suar. Cheguei ao cemitério de São João às 6:15 da manhã.

 O portão principal ainda estava fechado com um cadeado, mas tinha a chave do portão lateral, o dos funcionários. Entrei e acenei ao seu mo zelador. Estava sentado na guarita pequena, tomando chimarrão fumegante, como fazia todas as santas manhãs, desde que eu lembrava-me. O Sr. Moacir trabalhava ali fazia mais tempo do que eu, uns 50 anos no total.

 O homem era literalmente mais velho que as árvores daquele lugar. tinha 70 anos nessa altura, mas ainda era surpreendentemente forte, esperto, atento a absolutamente tudo o que acontecia no cemitério. Cumprimentei-o e comentei o calor insuportável do dia que mal tinha começado. Ele olhou para o céu com aqueles olhos experientes, estreitou as pálpebras e disse que ia ser pior do que ontem, que já tinha sido quase insuportável.

disse que aquele calor não era normal, que estava com cara de que ia dar tempestade, mas não chovia, que o ar estava demasiado parado, sem vento nenhum. Eu concordei abanando a cabeça. Tinha alguma coisa estranha naquele dia desde o momento em que acordei, mas não sabia dizer exatamente o quê.

 Era tipo um peso invisível no ar, uma sensação incómoda de que algo não estava bem, de que algo mal ia acontecer. Segui para o depósito velho, onde a gente guardava as ferramentas de trabalho. Peguei na minha pesada pá, a enchada, as grossas cordas de nylon, tudo o que precisava para o dia. Trabalhava com mais dois colegas naquela altura, o Sydney e o Paulinho.

 O Sydney era mais novo do que eu, tinha cerca de 35 anos, trabalhava no cemitério há 10 anos. era um bom companheiro de trabalho, sério, responsável, trabalhador. O Paulinho era um estreante do grupo, apenas seis meses de serviço, ainda estava a aprender o ofício de Coveiro. Naquele dia específico, só o Sydney ia trabalhar comigo.

 O Paulinho tinha faltado de última hora algum problema urgente de família que não tinha explicado direito pro encarregado. O encarregado senhor Valdemar, chegou lá pelas 7 horas da manhã com a lista de serviço do dia. Dois enterros programados. O primeiro era às 10 da manhã, uma senhora de 83 anos, morte natural, por causas relacionadas com a idade avançada e problemas cardíacos.

 Esse era sempre o tipo mais tranquilo e pacífico de enterro. A família já estava emocionalmente preparada para o inevitável. Já se tinha despedido aos poucos durante os meses de internamento dela no hospital. A pessoa tinha vivido bastante, tinha tido os seus filhos, netos, bisnetos, tinha aproveitado a vida. Era mais uma despedida serena do que uma tragédia devastadora.

O segundo enterro estava marcado paraas 3 da tarde. Um rapaz muito novo, 26 anos apenas. Filipe Augusto Mendes. Acidente de automóvel muito grave na rodovia. Partida frontal a alta velocidade com um camião carregado à altura do qum 52 da BR376. O Valdemar comentou com voz baixa e preocupada que este segundo ia ser bem complicado.

 Falou que a família estava completamente destruído, que o rapaz era filho único de um casal de comerciantes conhecidos e respeitados na cidade. Os pais tinham uma grande loja de material de construção na avenida principal, gente com bastante dinheiro, bem relacionada com toda a gente. E tinha mais. O Valdemar continuou. Parece que havia um problema grave entre a família do rapaz e a sua namorada oficial.

Tinha ouvido comentários preocupantes de que andavam a lutar feio desde o velório em casa da família. discussões acaloradas sobre quem podia ou não podia estar presente, sobre o caixão, sobre as flores, sobre tudo. Eu e o Sydney trocamos um olhar significativo. A gente já tinha presenciado enterro problemático antes.

 Família a lutar amargamente por herança, por culpa, por raiva acumulada durante anos. Às vezes as pessoas usavam o enterro como oportunidade para resolver contas antigas, para atirarem à cara um do outro, coisas que ficaram engasgadas por décadas, mas a maioria das vezes, na hora solene de enterrar, as pessoas se acalmavam naturalmente.

 O cemitério tem esta forma peculiar de fazer as pessoas ficarem quietas, de pôr as coisas pequenas em perspectiva perante a morte. Pelo menos era o que eu firmemente achava naquela altura, antes daquele dia mudar tudo. Fomos cavar a primeira cova de manhã, logo depois das 7:30. O setor era o B, uma área relativamente nova do cemitério, bem cuidada e organizada, com relva sempre cortada.

 e árvores pequenas que ainda estavam a crescer. O lugar tinha sido inaugurado há cerca de 10 anos. Depois, os túmulos eram mais modernos, de granito polido brilhante, com fotos coloridas e molduradas nas lápides. Cavamos rápido e eficientemente. A terra estava macia e fácil de trabalhar. Não tinha raiz a atrapalhar, não tinha pedra grande, era areia vermelha e solta, que a pá pegava super bem.

 Em 1 hora e meia de trabalho constante, já tínhamos terminado completamente. O primeiro enterro foi pontualmente às 10.º Correu tudo absolutamente normal e tranquilo. A família chorou bastante, como era completamente de esperar. Havia muita gente presente, devia ter umas 50, 60 pessoas facilmente. Filhos já idosos, netos adultos, bisnetos pequenos, sobrinhos.

 Amigos de décadas, vizinhos antigos, todos vestidos respeitosamente de preto, todos com cara de quem tinha perdido alguém muito querido, mas compreendia perfeitamente que aquilo fazia parte natural da vida. O padre rezou com calma e serenidade, fez todas as orações completas, sem pressas. Falou longamente sobre a vida longa e bem vivida da senhora, sobre as bênçãos que ela deixava.

 A gente desceu o caixão muito lentamente, com todo o cuidado e respeito, enquanto toda a família lançava flores brancas perfumadas. Cobrimos com terra aos poucos, respeitosamente, e todos foram embora em completa paz. Era exatamente o tipo de enterro digno que fazíamos praticamente todos os dias, sem surpresa desagradável, sem problema nenhum.

 Parámos para almoçar lá pelo meio-dia, sentámo-nos na sombra agradável de uma árvore de grande porte perto da guarita do seu Moacir. Comemos o lanche simples que tínhamos trazido de casa em marmitas. O Sidney comentou novamente sobre o calor absurdo, sobre como o dia estava pesado e abafado de uma forma anormal.

 disse que parecia que ia dar uma trovoada violenta a qualquer momento, mas o céu estava completamente limpo, sem uma única nuvem sequer, só aquele azul claro meio doentio, sem vida, sem profundidade. Depois do almoço, lá para a 1 da tarde, fomos escavar a segunda cova do dia. O setor designado era a ala dos antigos, a parte muito mais velha e esquecida do cemitério.

tinha túmulos antiquíssimos de 1935, 1940, de quando Maringá era ainda uma cidade pequenina, recém fundada pelos pioneiros. Era uma área consideravelmente isolada lá no fundo distante do cemitério, completamente rodeada por árvores gigantescas e antigas. Tinha-se prestes enormes que deviam ter uns 20, 25 m de altura fácil.

e eucaliptos velhos e grossos, com troncos que três homens não abraçariam, fazendo uma sombra densa e escura o dia inteiro, bloqueando quase completamente a luz solar. A maioria dos túmulos ali era de mármore cinzento desbotado. Muitos severamente gretados pelo tempo implacável. Outros completamente cobertos de musgo verde-escuro, crescendo grosso nas laterais e nas esquinas arredondadas.

Tinha cruzes altíssimas de ferro enferrujado e corroído, estátuas melancólicas de anjos com os rostos completamente desgastados e apagados pela chuva e pelo vento de décadas. Letras tão apagadas nas lápides antigas que mal conseguíamos ler os nomes dos mortos ali sepultados. Gente que já ninguém visitava, gente completamente esquecida pelo tempo.

 O calor era absolutamente insuportável àquela hora da tarde. O sol batia forte e impiedoso nas zonas abertas, sem sombra, queimando a pele exposta. Mas onde tinha a sombra densa das árvores gigantes, o ar ficava gelado de uma forma completamente estranho e pouco natural. Era pesado, húmido, completamente parado.

Não havia vento nenhum, nem um sopro, nem uma brisa leve. O silêncio era profundamente estranho também. Geralmente num cemitério, mesmo sendo um local de morte, tinha vida. Pássaro a cantar nas árvores, cigarra a fazer aquele barulho estridente característico, algum som de vida a acontecer ao redor.

 Mas naquele dia específico, nessa área específica, não tinha absolutamente nada. Só o som metálico e rítmico das nossas pazes pesadas batendo insistentemente na terra dura, ecoando de forma estranha entre os túmulos velhos e abandonados. O Sidney comentou preocupado que estava quieto demais ali enquanto parava para limpar o suor abundante da testa com as costas da mão suja de terra.

 Eu concordei prontamente. Eu disse que tava muito esquisito mesmo, anormal. A gente continuou a cavar em silêncio. Depois disso, cada um imerso nos próprios pensamentos, tinha uma sensação profundamente estranha e incómoda no ar pesado. Uma coisa perturbadora que eu não conseguia explicar nem identificar direito.

 Era como se alguém invisível tivesse a observar-nos atentamente de longe, escondido entre as sombras densas. Mas quando parava e olhava cuidadosamente em redor, masculos, não tinha absolutamente ninguém visível, só túmulos velhos esquecidos, sombras compridas e escuras das árvores antigas e aquele silêncio pesado e opressivo que parecia ter substância física própria.

Cabamos arduamente durante quase 2 horas completas. A terra na ala dos antigos era muito, muito mais dura e difícil que na nova e bem cuidada área, onde tínhamos trabalhado de manhã. Tinha muito mais pedra enterrada, muito mais raiz de árvore grossa e resistente atravessando. A gente suava absurdamente, pingando no chão, parava beber água gelada da garrafa térmica a toda a hora.

 voltava a cavar com esforço renovado. As costas doíam intensamente, os braços ardiam de tanto esforço repetitivo. Quando finalmente terminámos a cova funda, eram quase 3 horas da tarde. Saímos da cova profunda com dificuldade, limpamos cuidadosamente as ferramentas sujas com um pano velho e gasto, posicionamo-nos respeitosamente perto da cova aberta e esperamos pacientemente a família chegar com o caixão.

 O caixão ia ser transportado directamente da funerária para o cemitério porque não tinha havido velório público ali nas dependências do cemitério. Tinha sido velório privado em casa mesmo, na casa grande da família, como algumas famílias tradicionais e ricas ainda preferiam fazer, mantendo a tradição antiga. O carro funerário elegante chegou pontualmente às 3 horas em ponto.

 Eu conseguia vê-lo a vir devagar e solenemente pela alameda principal larga do cemitério. Muito devagar, como sempre vinha, respeitando a dignidade do momento. carro era preto reluzente, impecavelmente polido, brilhando intensamente sob o sol forte da tarde. Logo atrás dele vieram os carros da família em procissão.

 Uns sete, oito carros no total, todos pretos também, todos com vidros completamente fechados por causa do ar condicionado, ligado contra o calor brutal. Assim que os carros começaram a estacionar enfileirados perto da entrada da ala dos antigos e as portas começaram a abrir-se uma a. Deu para sentir imediatamente. O tempo tava completamente errado.

Profundamente errado. Normalmente quando a família chega a um funeral, as pessoas descem dos carros muito devagar, com cuidado e respeito, ajudando carinhosamente umas à outras, sobretudo os mais idosos e frágeis. Se abraçam apertado, se consolam-se mutuamente, choram juntas partilhando a dor.

 Tem aquele momento bonito de reconforto mútuo, de apoio emocional, de união genuína na dor partilhada, mas aquele pessoal ali estava completamente diferente. Desceram dos carros demasiado rápido, com movimentos bruscos e tensos, quase agressivos. Havia gente olhando intensamente pro lado com raiva estampada no rosto vermelho.

 Gente a sussurrar coisas venenosas com expressões claras de desprezo e nojo. Gente apontando discretamente, mas acusatoriamente para outros membros da própria família. Dava para sentir fisicamente a tensão absurda no ar quente. Era quase palpável, como uma onda de calor, mas gelada. Parecia viidamente que qualquer coisa mínima podia explodir violentamente a qualquer momento, que bastava uma única pequena faísca para tudo se transformar em caos total.

 A mãe do rapaz morto, a Dona Terezinha, desceu de um dos carros grandes, estando firmemente segurada pelos braços por dois homens fortes, provavelmente irmãos dela, pelos traços faciais muito semelhantes. Ela estava visivelmente mal, chorava copiosamente, soluçava alto e desesperado, mas o choro dela tinha algo perturbadoramente diferente, para além da tristeza esperada.

 Tinha raiva profunda, misturada intensamente com a dor natural. Tinha um desespero amargo, misturado com revolta contida. O rosto dela estava extremamente vermelho e severamente inchado de tanto chorar sem parar. Os olhos quase completamente fechados de tão inchados e roxos. Ela gritava palavras entrecortadas que eu não conseguia entender bem de longe, porque saíam todas misturadas confusamente com os violentos soluços e incontroláveis.

 O pai do rapaz, o seu Augusto, saiu do carro completamente sozinho, recusando qualquer ajuda. Ele era um homem imponente, grande, forte, ombros largos de quem trabalhou a vida inteira. Devia ter uns 55 anos. Usava um fato preto, obviamente caro e bem cortado. Gravata preta de seda bem apertada no pescoço grosso, sapatos de couro caros perfeitamente engrachados.

Mas a sua cara não exprimia tristeza nenhuma, não expressava dor de pai, era pura fúria mal contida. Os olhos dele estavam fixos intensamente no caixão que já tinha sido cuidadosamente tirado do carro funerário e colocado no carrinho com rodas. a mandíbula bloqueada com tanta força absurda que conseguia ver claramente o músculo grande a pulsar ritmicamente na lateral do rosto tenso, os punhos cerrados rigidamente do lado do corpo com tanta força que os nós dos dedos estavam completamente brancos de falta de circulação.

Não chorava absolutamente nada. Não tinha uma única lágrima sequer nos olhos vermelhos. Só olhava fixamente para o caixão fechado, com uma expressão perturbador, que eu nunca, em 40 anos inteiros, de profissão enterrando gente, tinha visto em pai nenhum a olhar para o caixão do filho morto.

 era tipo decepção profunda, misturada intensamente com raiva concentrada, como se tivesse com nojo visceral do que estava dentro daquele caixão selado, como se ele tivesse com uma vergonha esmagadora, como se preferisse que aquilo simplesmente não existisse. A namorada oficial do rapaz estava lá também.

 Uma rapariga bonita de uns 25 anos, vestido preto, simples, mas visivelmente elegante e bem feito, cabelo castanho comprido, apanhado num coque bem arranjado e apertado. Ela chorava baixinho, discretamente, tentando controlar-se, rodeada protetoramente por mais duas mulheres jovens da mesma idade dela. Amigas, provavelmente.

 Ela também olhava nervosamente para os lados o tempo todo, inquieta, como se esperasse ansiosamente alguma coisa de muito mau acontecer a qualquer momento. As mãos dela tremiam visivelmente enquanto segurava com força um lenço branco já completamente encharcado de lágrimas. O corpo dela inteiro estava tenso, rígido, preparado para reagir defensivamente a qualquer coisa.

 tinha tios, tias, primos, uns 20, 30 familiares ali presentes no total, mas absolutamente ninguém se abraçava direito, ninguém se consolava mutuamente. Era só olhar de lado carregado de significado, coxich baixo, mas intenso, cara fechada, expressões claras de raiva e desprezo, mal disfarçados. Eu via distintamente grupos pequenos a conversar baixinho e tensamente entre si, olhando brevemente pro caixão e depois longamente pros outros grupos.

 E dava para sentir claramente que estavam a falar mal de alguma coisa específica, de alguém específico. O clima estava tão absurdamente pesado, tão carregado de tensão elétrica, que até o padre, quando finalmente chegou alguns minutos atrasado, percebeu imediatamente na hora. O padre era um senhor visivelmente cansado. Devia ter uns 65 anos.

 Cabelo grisalho ralo e fino, óculos graduados bem grosso. Tinha uma cara de extremamente cansado e visivelmente nervoso quando desceu apressadamente do carro velho dele. Ele cumprimentou a família rapidamente e sem grande contacto, fazendo o sinal da cruz automaticamente e murmurando palavras mecânicas de conforto que pareciam completamente decoradas e vazias.

 se posicionou respeitosamente perto do caixão, que ainda estava no carrinho com rodas do carro funerário. O caixão estava hermeticamente fechado, a tampa bem selada com parafusos. O acidente tinha sido grotescamente demasiado feio para permitir o velório de caixão aberto. Segundo o Valdemar tinha comentado discretamente mais cedo.

 Batida frontal a altíssima velocidade, o rapaz tinha morrido instantaneamente na altura do impacto. O padre começou a recitar as orações tradicionais de sempre, aquelas palavras rituais e formais sobre despedida terrena e misericórdia divina e vida eterna no paraíso e descanso merecido na paz infinita de Deus todo- poderoso.

 A voz dele era surpreendentemente monótona, cansada, sem emoção, como se tivesse feito aquele mesmo ritual mil vezes seguidas e não tivesse mais emoção nenhuma investida nas palavras sagradas. Mas dava para perceber claramente que absolutamente ninguém ali presente estava a prestar atenção mínima nas orações dele.

 O povo olhava fixamente para o chão de terra batida, para os lados tensos, para o relógio caro nos pulsos, para o céu vazio, para qualquer lugar, menos para o caixão do morto. Ninguém olhava para o caixão. Era profundamente estranho e perturbador. Num funeral normal, as pessoas geralmente ficam a olhar fixamente para o caixão praticamente todo o tempo, como se não quisessem perder os últimos momentos preciosos com a pessoa amada, como se quisessem gravar dolorosamente aquela imagem final na memória permanente. Mas ali ninguém olhava,

absolutamente ninguém. Era como se tivessem vergonha profunda ou raiva intensa ou as duas coisas terríveis juntas. A mãe chorava altíssimo. Aquele choro de desespero absoluto que corta dolorosamente o coração de qualquer que escuta. Era o tipo de choro que vinha das profundezas mais escuras da alma destroçada, gultural, dorido, animal.

 Mas de vez em quando, entre os soluços, ela parava abruptamente e olhava intensamente para os lados, para os outros membros tensos da família, como se esperasse ansiosamente alguma coisa específica acontecer ou alguém particular chegar. tinha algo perturbador na expressão dela, que não era só dor natural de mãe enlutada, era expectativa nervosa e tensa, era ansiedade palpável, era raiva concentrada, esperando pacientemente uma desculpa qualquer para finalmente explodir.

 O pai continuava imóvel como estátua, com aquela cara rigidamente fechada, com aquela expressão assustadora de fúria absoluta, mal contida, por puro esforço de vontade. Os olhos dele estavam agora cravados fixamente no caixão, mas sem lágrima nenhuma, sem emoção nenhuma, que remotamente parecesse tristeza normal ou saudade natural.

 A mandíbula dele estava tão absurdamente travada que dava para ver nitidamente o músculo lateral pulsando-lhe no rosto a cada dois 3 segundos como um relógio. As veias grossas do pescoço dele estavam saltadas e visíveis, pulsando também intensamente. Ele estava a segurar uma raiva absolutamente enorme dentro dele e dava sentir que a qualquer momento aquilo podia explodir violentamente.

 E foi exatamente no meio de uma oração monótona sobre o perdão divino e o descanso eterno, enquanto o padre falava mecanicamente sobre a infinita misericórdia de Deus e o paraíso celestial, que aguardava pacientemente os justos e os puros, que ela finalmente apareceu. E ela vindo sozinha pela alameda principal do cemitério, andando muito devagar.

 Passos completamente inseguros eitantes. Era uma mulher visivelmente jovem. Devia ter uns 23, 24 anos no máximo. Vestido preto, extremamente simples e barato, comparado visivelmente com as roupas rapazes da família rica que ali estava. Cabelo castanho solto e meio despenteado, caindo despenteado nos ombros caídos.

 transportava um buquê pequeno e simples de flores brancas, margaridas humildes compradas provavelmente numa banca barata de rua. O rosto dela estava completamente absolutamente destruído de tanto chorar sem parar. os olhos vermelhos e tão severamente inchados que mal conseguiam abrir direito. As bochechas marcadas visivelmente de lágrimas secas e novas que continuavam a cair incessantemente, o nariz vermelho e a pingar.

 Dava para ver claramente de longe que ela tinha chorado muito, muito mesmo. Provavelmente a noite inteira sem dormir e o dia inteiro sem parar. Ela vinha andando devagar, mas com determinação visível, como se soubesse perfeitamente e com certeza absoluta, que não era nem um pouco bem-vinda, mas tinha que estar ali de qualquer maneira, como se não não tivesse escolha nenhuma, como se aquilo fosse uma necessidade mais forte que qualquer medo ou vergonha.

 A primeira pessoa da família que a viu se aproximando-se foi uma das tias, uma mulher magra de uns 40 e poucos anos com cabelo curto, pintado artificialmente de loiro platinado. Ela picou a mulher do lado com força no cotovelo urgentemente e sussurrou qualquer coisa rápida e intensa ao ouvido dela com urgência e raiva concentrada.

Em segundos, em menos de 10 segundos, metade da família inteira estava a olhar fixamente para a rapariga que se aproximava lentamente. Os coxichos ficaram imediatamente mais altos, mais intensos, mais carregados de veneno. Este lado dava para ouvir distintamente palavras soltas, sendo literalmente cuspidas entre dentes cerrados, insultos baixos, mas perfeitamente audíveis no silêncio tenso.

 A rapariga humilde chegou finalmente perto do grupo hostil. parou respeitosamente a uns 4 5 m do caixão fechado, mantendo uma distância respeitosa, mas visivelmente determinada. Ela ficou ali completamente sozinha, isolada, segurando as flores simples com as duas mãos a tremer na frente do corpo curvado, chorando baixinho, tremendo visivelmente dos pés à cabeça.

 O corpo dela inteiro tremia violentamente, não sei se de medo paralisante ou de dor esmagadora ou das duas coisas terríveis juntas. Era óbvio e dolorosamente claro que ela queria desesperadamente despedir-se, que ela tinha vindo ali só para isso e absolutamente nada mais. O jeito dela, a A postura dela, tudo indicava claramente que ela sabia com certeza que ia sofrer, mas precisava de fazer aquilo de qualquer forma.

 Precisava de estar ali naquele momento final, não importava as consequências. E depois tudo explodiu violentamente de uma só vez. A noiva oficial, a de vestido preto, elegante e cope perfeito no cabelo, virou-se bruscamente à rapariga que acabava de chegar e gritou: “Foi um grito que eu nunca, nunca esquecerei para o resto inteiro da vida.

 Estridente, agudo, cheio de ódio, absolutamente concentrado. Um grito que parecia rasgar o próprio ar”. Ela gritou perguntando como aquela rapariga tinha a coragem de aparecer ali, como ela tinha coragem de mostrar a cara depois de absolutamente tudo o que tinha acontecido. A voz dela ecoou violentamente pelo cemitério inteiro, reverberou assustadoramente entre os túmulos antigos de mármore, assustou pássaros que estavam escondidos nas árvores densas e saíram a voar desesperadamente.

quebrou brutalmente o pesado silêncio que pairava no ar, como um trovão ensurdecedor, quebrando a calmaria opressiva antes da violenta tempestade. O padre parou de rezar imediatamente, abruptamente no meio exato de uma frase. Se virou completamente assustado, confuso, tentando perceber desesperadamente o que diabo estava acontecendo.

 O velho livro de orações, ainda aberto nas mãos, a tremer. Todo mundo virou-se simultaneamente para o lado da rapariga intrusa. Todo o mundo parou instantaneamente o que estava a fazer. O ar ficou eletrizado, carregado, perigoso. A noiva continuou a gritar sem parar, sem respirar corretamente entre as palavras raivosas.

 Chamou a rapariga de demónio encarnado, de destruidora de família, de aproveitadora miserável, de tudo o que é nome horrível. Ela berrou que o Felipe era dela e só dela, que ele era noivo dela oficialmente há três anos inteiros, que ela não tinha direito nenhum de estar ali, que ela devia ter vergonha na cara.

 A noiva tentou avançar agressivamente para cima da rapariga, com as mãos estendidas como garras prontas a arranhar. Mas dois homens grandes, provavelmente irmãos ou primos dela, seguraram-na firmemente pelos braços. Rapidamente, ela esperneava com força impressionante, tentava soltar-se desesperadamente, o rosto ficando cada vez mais vermelho de raiva e esforço físico, gritando sem parar.

 Os dois os homens fortes mal conseguiam segurá-la direito. Ela debatia-se com uma força absolutamente impressionante, alimentada puramente pela raiva concentrada. A moça de vestido preto simples, a que tinha acabado de chegar humildemente com as flores, deu um passo assustado para trás com a reação violenta, mas respondeu.

 A voz dela estava completamente trémula, falhando, mas ela conseguiu falar que também o amava profundamente, que ela tinha direito a despedir-se, que ele também significava alguma coisa importante para ela, que o seu amor era real. As lágrimas escorriam copiosamente pelo rosto destroçado dela enquanto falava.

 A voz quase a desaparecer completamente no meio dos soluços entrecortados. A noiva oficial gritou de volta com ainda muito mais raiva que direito ela não tinha absolutamente nenhum. Nenhum direito lhe chamou miserável amante, de vagabunda que destruiu tudo, de piranha que se aproveitou-se cobardemente de um homem comprometido.

 A voz dela estava tão absurdamente cheia de veneno deste lado, tão carregada de ódio absolutamente puro, que se podia sentir cada palavra como se fosse uma cuspidela física, como se fosse algo sólido a ser jogado com força na cara da rapariga. Foi exatamente aí que a mãe do Felipe se soltou violentamente de quem estava a tentar segurá-la.

 Ela deu um empurrão brutal nos dois homens que a amparavam e avançou também determinadamente na direção da rapariga, cambaleando um pouco, mas absolutamente determinada. Ela apontou o dedo trémulo à rapariga e gritou, chamando-a de desgraçada, de assassina, dizendo com convicção absoluta que a culpa era toda, toda dela.

 A mãe berrou com a voz rouca de tanto chorar que foi por causa daquela moça maldita. que o filho dela estava morto, que ele estava naquela estrada maldita a correr como um louco, porque ela tinha ligado a meio da madrugada chorando e implorando pateticamente para ele ir buscá-la. A mãe gritou que a rapariga tinha matado o Felipe, que ela assassinou o seu filho, que o sangue dele estava nas mãos sujas dela.

 A moça começou a chorar ainda muito mais alto, dizendo entre soluços violentamente entrecortados que ela não queria aquilo, que ela não sabia que ele ia correr daquela maneira, que ela não imaginava que ia acontecer aquilo, que ela só queria conversar com ele. Mas absolutamente ninguém ali queria ouvir explicação nenhuma.

 Ninguém queria saber de desculpa. Ninguém estava interessado em compreender minimamente o lado dela. O pai do Felipe aproximou-se então com passos lentos, mas firmes, pesados, ameaçadores. A voz dele era baixa, controlada, mas cheia de veneno, absolutamente concentrado. Ele mandou ela sair dali imediatamente, ir-se embora antes que ele finalmente perdesse toda a paciência.

 disse que ela não ia sujar o enterro do filho, que ela não tinha direito de ali estar, que a presença dela era uma profanação. O jeito que ele falou era muito pior do que qualquer grito. Era gelado, calculado, controlado, cheio de ódio contido, que era muito mais assustador que qualquer grito. Mas a rapariga não saiu, não se mexeu 1 cm.

 Ela ficou ali parada, a tremer, a chorar, mas não recuou nenhum único passo sequer. Ela disse que o amava, que a família não percebia nada, que não sabiam de absolutamente nada. disse que o Felipe também a amava, que ia deixar a noiva, que tinha prometido. Apuntou para a noiva oficial enquanto falava isso, com o dedo trémulo, mas firme.

 Disse que ele ia ficar com ela, que iam ter uma vida juntos. Aquilo foi o rastilho que fez absolutamente tudo explodir de fez. Um dos irmãos do Felipe, um rapaz alto e forte com cerca de 28 anos, avançou rapidamente e agarrou o rapariga intrusa pelo braço com força brutal, puxando-a para trás com violência.

 A rapariga gritou de dor, tentou soltar-se, mas ele era muito, muito mais forte. Ele rosnou, mandando-a sair dali imediatamente, ir-se embora antes que arrastassem-na para fora do cemitério. Outros membros da família avançaram também, cercando-a ameaçadoramente, empurrando-a, obrigando-a a recuar. O padre tentou intervir saindo finalmente do choque inicial.

 Ele levantou as mãos pedindo calma, dizendo com voz nervosa que aquele era um momento de paz e respeito, que todos se deviam acalmar, que a a violência não resolvia em absoluto nada, mas a voz dele perdeu-se completamente no meio do caos absoluto. Ninguém ouvia mais nada, ninguém prestava atenção a mais nada. Era só grito, insulto, gente a empurrar, pessoas a tentar segurar quem estava avançando. Um caos total.

 A moça conseguiu soltar-se do irmão do Felipe por um segundo com um puxão brusco que apanhou-o de surpresa. Ela virou-se, olhou directamente para o caixão fechado e gritou. Mas não foi um grito de desespero ou de tristeza ou de dor. Foi um grito de ódio absolutamente puro, destilado, concentrado. Um grito que mudou tudo.

 Ela gritou que o Filipe podia apodrecer, que ela esperava sinceramente que ele apodrecesse no inferno para o resto da eternidade. A voz dela rasgou brutalmente o ar do cemitério. E então ela continuou sem parar, gritando que estava no inferno por culpa do próprio. A mãe gritou de volta instantaneamente que estava no inferno.

 Era por culpa dela, da vagabunda que tentou roubar o filho dela. A rapariga berrou que ele usou ela, que o Felipe mentiu descaradamente para ela, que mentiu à noiva também, que era um mentiroso profissional. Ela apontava acusatoriamente para o caixão enquanto gritava isto. Disse que era um mentiroso, um cobarde, um cão que usava as mulheres e deitava fora quando se cansava.

 Alguém da família, não sei exatamente quem, porque havia pessoas demais gritando ao mesmo tempo, mandou ela calar a boca maldita. Mas ela não calou. Ela gritou que esperava que o Filipe nunca descansasse em paz. nunca que merecia sofrer para o resto da eternidade pelo que lhe fez. E então ela fez algo que deixou toda a gente ali em choque absoluto.

 Ela cuspiu, cuspiu com força na direção do caixão. A cusparada não chegou ao caixão porque ela estava demasiado longe, mas a intenção estava ali, clara como o sol. Dois homens grandes da família agarraram-na pelos dois braços e começaram a arrastá-la para longe com força bruta. Ela gritava, chorava, debatia-se, esperneava, mas eram muito fortes.

 Arrastaram-na pelo caminho de regresso, empurrando-a violentamente. Ela saiu a gritar, chorando, praguejando. esperava que o Felipe apodrecesse, que ele nunca tivesse paz, nunca, que ele sofresse eternamente. O silêncio que ficou depois foi muito pior que todos os gritos. A mãe do Felipe caiu de joelhos ali mesmo no chão de terra batida.

 Mas não era mais aquele choro de perda, era um choro de raiva misturado com desespero. Ela berrava entre soluços que tinha criado um desgraçado, um miúdo desgraçado que destruiu a família dela. Batia no próprio peito com força, puxava os próprios cabelos, dizia que tinha criado um mentiroso, um malandro, um cão que magoou toda a gente.

 E então aconteceu a coisa mais chocante. O tio gordo de bigode aproximou-se do caixão, olhou para tampa com desprezo e ali à frente de todos ele cuspiu. A cuspidela bateu na tampa com um som nojento e escorreu pela madeira. Ele falou alto que o O Felipe não prestava, que era um cão mentiroso, que magoou toda a gente, que era uma vergonha para a família.

 Em 40 anos, nunca tinha visto alguém cuspir no caixão do próprio familiar, mas ninguém defendeu o morto. Algumas pessoas até concordaram com a cabeça. A mãe gritou, mandando-nos enterrar logo aquela desgraça. O padre fez o sinal da cruz rápido, deu a bênção apressada. A gente começou a descer o caixão. A família começou a ir embora, um a um.

 Enquanto o caixão ainda descia, entravam nos carros e iam-se embora. Só ficou a mãe, o pai e dois irmãos. Quando o caixão chegou ao fundo, atiraram um punhado de terra cada um, mas com raiva, com força, e foram-se embora também. Em 20 minutos não tinha mais ninguém. O cemitério ficou vazio. Eram quase 4 da tarde.

 O Sydney disse que precisava de ir, que a filha tinha consulta no médico. Perguntou se me importava de terminar sozinho. Eu disse que não tinha problema. Ele foi-se embora. Fiquei completamente sozinho na ala dos antigos, com aquela cova aberta e o caixão profanado lá ao fundo. Peguei na pá e comecei a deitar terra. O barulho ecoava no silêncio absoluto.

 Foi na sexta pá que ouvi pela primeira vez. Craque, som de osso a partir, vindo de trás de mim. Parei, virei-me, não tinha nada. Voltei a deitar terra. Na déciª pá, ouvi de novo. Craque, craque craque. Três sons seguidos, mas altos, muito mais perto. E respirações ofegantes, várias ao mesmo tempo, sobrepostas. Larguei a pá. O meu corpo ficou tenso.

Suava, mas sentia frio. Um frio que não fazia sentido. Gritei perguntando se tinha alguém. Silêncio. E então, sussurros. Vários sussurros vindos de todos os lados. Não conseguia entender as palavras, mas sentia o tom. Era ódio puro. Virei-me e vi. Entre dois túmulos a 10 m tinha algo parado. Tentei transformar aquilo em algo normal, mas não consegui.

 Era uma figura vagamente humana, mas tudo errado. Do torço saíam mãos, não eram braços, eram apenas mãos brotando do corpo. Seis, sete mãos se movendo, abrindo e fechando. A cabeça oscilava e mudava. Eu vi um rosto, depois outro. rostos aparecendo e desaparecendo. Reconheci o tio gordo, a mãe, o pai, a rapariga, a noiva, todos os rostos de quem ali tinha estado.

 O corpo era translúcido como fumo, mas tinha manchas pretas dispersas. As manchas se moviam, pulsavam, a coisa começou a mover, não andava, deslizava acima do chão. Vinha na minha direção, dei um passo atrás. Ela parou há 7 met. Todas as mãos se estenderam para mim e veio o cheiro. Flores podres misturadas com enxofre e sangue velho, tão forte que quase vomitei.

 O som dos ossos quebrando voltou. Craque, cra cra crac crac. E as respirações ficaram ensurdecedoras. E então ela disse várias vozes ao mesmo tempo. Eles chamaram-me. O ódio me trouxe tanta raiva, tanto ódio concentrado, delicioso para mim. Alimenta, fortalece, dá-me forma. As vozes ecoaram entre os túmulos em redor, voltaram para mim multiplicadas.

Todo o meu corpo tremeu violentamente, as pernas quase cederam e então eu compreendi finalmente. As manchas escuras no corpo translúcido dela não eram manchas aleatórias. eram marcas de alimentação. Cada vez que alguém tinha cuspido no caixão, cada empurrão violento na rapariga, cada palavra carregada de ódio gritado, cada maldição venenosa proferida, cada gesto de raiva física, tudo a tinha chamado, tinha atraído ela, tinha-a alimentado.

 E as manchas pulsavam, cresciam, espalhavam-se como parasitas vivos. As mãos abriram-se e voltaram a fechar, todas simultaneamente. E ouvi os sussurros formando palavras distintas, formando nomes. Terezinha, Augusto, Felipe, a rapariga, a noiva, o tio, todos eles, todos alimentaram, todos deram forma.

 Agora sou forte, agora sou real, agora existo fisicamente. As vozes sussurraram de novo, com satisfação perversa. As palavras magoam a alma, causam dor invisível, mas os gestos, os gestos violentos, empurrões, cusp, murros, estes alimentam muito mais. Estes dão forma física. Esses tornam-me real e tangível. Virei-lhe completamente as costas e Comecei a andar depressa em direção à saída. Não corri.

 Algum instinto me dizia que se eu corresse seria muito pior, mas andava o mais depressa que conseguia, quase tropeçando nos meus próprios pés, ela veio atrás. Eu ouvia perfeitamente o som de algo a deslizar na terra, o som constante dos ossos torna-se partindo dentro dela, as respirações ofegantes múltiplas e os sussurros continuavam sem parar, ficando mais altos, mais insistentes.

 Já viu tudo? testemunhou, sentiu a raiva no ar, respirou o ódio. Ele marcou-o profundamente, colou-se à sua pele, entrou nos seus poros, penetrou a sua carne. Agora carrega parte dele, vai sempre sentir presenças, vai sempre ver coisas, saberá sempre quando tem ódio por perto. Acelerei ainda mais. A ala dos antigos parecia esticar enquanto eu andava.

 O corredor entre os túmulos tornava-se mais longo a cada passo. Eu andava e andava, mas a saída simplesmente não chegava. Era como se o caminho tivesse ficado três, quatro, cinco vezes mais longo, completamente impossível, mas estava a acontecer. Olhei rapidamente para trás, ela continuava ali, sempre à mesma distância, deslizando entre os túmulos.

Os rostos continuavam a mudar na cabeça dela, agora mais rápido, mais frenético. E agora conseguia ver ainda mais detalhes horríveis. As mãos eram todas diferentes, algumas grandes e masculinas com pelos nos dorsos, outras pequenas e femininas com dedos delicados, algumas com anéis ainda nos dedos, algumas sangrando ativamente, como se tivessem esmurrado e batido até se destruírem.

Tentei gritar, mas a voz não me saía. Deixa-me em paz. Vai-te embora, por favor. As vozes responderam com riso múltipla. Viu tudo com os seus próprios olhos. Sentiu toda a raiva, respirou todo o ódio, testemunhou a profanação. Ele marcou-o profundamente, colou-se à sua alma. Agora vai sempre sentir, vai sempre ver sombras, saberá sempre.

 Continuei andando desesperadamente. Os túmulos pareciam inclinar-se na minha direção. As estátuas de anjos me observavam com os olhos vazios. As sombras moviam-se sem vento e percebia outra coisa. Os sons vinham de direções erradas. Ouvia o deslizar dela vindo da esquerda, mas quando olhava ela estava atrás.

 Ouvia o craque dos ossos vindo da direita, mas ela não estava lá. O espaço tinha ficado completamente distorcido. Finalmente, depois do que pareceram horas, cheguei ao fim da ala dos antigos. Saí aos tropeções para a área aberta, onde havia sol. Olhei para trás apavorado. Ela tinha parado. Estava parada exatamente na fronteira entre a sombra e a luz, na sombra do enorme eucalipto, como se não podia passar dali, não podia entrar na luz solar.

 Todas as mãos se viraram-se e apontaram para mim. Os sussurros uniram-se numa frase clara que ecoou por todo o cemitério. Quando você vier, quando o seu corpo morto descer paraa terra fria, quando for finalmente a sua vez de ser aqui enterrado, espero aqui nesta sombra, sempre à espera. És meu agora, marcado, carimbado, meu para sempre.

 E então ela começou a desaparecer. foi-se desfazendo como fumo preto levado por vento que eu não sentia. As bordas do corpo dela se dissolveram primeiro. A escuridão ficou mais fina, mais transparente. As mãos foram as últimas coisas a assumir, ainda apontando para mim até ao último segundo. Em 2 minutos não tinha mais nada.

 Só a sombra normal da árvore, apenas o cemitério silencioso. Fiquei parado, a tremer incontrolavelmente. Olhei para o relógio. 5:40 da tarde. Tinha passado pouco mais de uma hora desde que o Sidney tinha ido embora. Uma hora que pareceu durar dias. Olhei para a ala dos antigos. A cova ainda estava aberta, a terra só pela metade, mas não tinha como voltar lá nenhuma.

Caminhei cambaleando até à guarita. As pernas tremiam tanto que quase caí várias vezes. O senhor Moassir viu-me e ficou branco de susto. Perguntou horrorizado o que tinha acontecido. Disse que eu estava pálido, a suar frio, tremendo. Eu disse que não estava bem, que precisava de ir.

 Saí aos tropeções, peguei no autocarro, cheguei a casa lá pelas 6:30. A A Carmen assustou-se quando me viu, perguntou o que tinha acontecido. Tentei dizer que foi só um dia ela não acreditou. Não consegui comer, não consegui dormir descansado. Cada vez que fechava os olhos, via aquelas mãos, ouvia aquela voz múltipla. No domingo, a A Carmen insistiu que fôssemos à dona Benedita, a benzedeira mais conhecida de Maringá.

 Quando chegamos à casa simples dela, ela abriu a porta, olhou para mim e falou: “O meu nome completo, sem eu ter dito nada. Roberto Almeida dos Santos disse que estava à minha espera, que sentia quando alguém via algo que não devia. Sentámo-nos na varanda dos fundos. A A Carmen ficou ao meu lado segurando a minha mão.

 A Dona Benedita pediu-me para contar tudo e eu contei. O enterro maldito, as as brigas violentas, as maldições, a rapariga sendo expulsa brutalmente, o tio cuspindo no caixão, a mãe a praguejar contra o próprio filho morto. Contei de ter ficado sozinho para terminar. Contei da coisa que apareceu, das mãos múltiplas, dos rostos a mudar, do cheiro insuportável, dos sons impossíveis.

 Ela ouviu em completo silêncio. Quando terminei, ela suspirou fundo e começou a explicar com voz calma e segura. falou que aquela coisa não era o espírito do rapaz morto, não era ele, era uma entidade que se alimenta de energia negativa. Explicou que há coisas neste mundo que a maioria das pessoas não vê, não se apercebe, mas estas coisas existem e alimentam-se de ódio concentrado, raiva destilada, maldição carregada, violência física.

 Quando há muito disso acumulado num lugar, num momento específico, estes as coisas são atraídas, vêm, alimentam-se, crescem, ganham forma temporária. Perguntei desesperado porque ela tinha me seguido. A Dona Benedita olhou-me com pena genuína e explicou que era porque consigo ver essas coisas. A maioria das pessoas não consegue ver, mas eu vi claramente.

 Tenho sensibilidade natural. E quando alguém com sensibilidade vê uma dessas entidades, ela sabe e imediatamente percebe e cola-se à pessoa. Perguntei como é que eu fazia para ela ir embora definitivamente. Ela abanou a cabeça tristemente. Disse que me podia benzer, proteger, enfraquecer a ligação entre mim e a entidade.

 Mas eu ia sempre ter uma sensibilidade agora. ia sentir coisas que as outras pessoas não sentem. Ia ver coisas ao canto do olho, mas não ia ser como foi naquele dia, não com aquela intensidade toda. Perguntei se a criatura ia voltar daquela maneira. A Dona Benedita respondeu que não. Não com aquela força, aquela materialização completa.

 Explicou que ela se alimentou do ódio daquele momento específico. Agora que já passou, ela fica mais fraca. Volta para o lugar de onde veio, mas nunca desaparece completamente. Fica à espera de outro momento de ódio forte para voltar. Me lembrei-me das palavras finais que a criatura tinha dito: “Quando vieres, quando for a sua vez.” A Dona Benedita ficou em silêncio durante um longo tempo.

 Depois falou baixinho que pode ser que sim, que quando chegar a minha hora, quando for enterrado naquele cemitério, ela esteja lá esperando. Mas isso é daqui a muito tempo ainda, se Deus quiser. Ela benzeu-me nesse dia, passou a ruda no meu corpo todo, ale nas mãos e na testa. Resou terços longos, fez orações que eu nunca tinha ouvido, deu-me uma guia de proteção para usar ao pescoço, sempre dentro da camisa escondida e deu-me conselhos sérios que eu devia seguir a risca.

 Disse que eu nunca devia responder se ouvisse algo a chamar-me no cemitério quando não tinha ninguém por perto. Nunca olhar diretamente paraas sombras mais escuras, principalmente na ala dos antigos. E nunca, nunca trabalhar sozinho naquele setor depois das 5 da tarde, nunca mesmo. Prometi que ia seguir absolutamente tudo o que ela estava a dizer-me.

 Voltei ao trabalho uma semana depois. Foi extremamente difícil. Só de passar pelo portão do cemitério, o meu coração disparava. Quando via a ala dos antigos de longe, as pernas ficavam bambas, suava frio. O O Sidney contou-me que ele tinha terminado de enterrar o Felipe no dia seguinte. disse que não tinha acontecido nada de estranho, que tinha sido tranquilo, mas não tinha ficado ali sozinho.

 Depois das 5, tinha chamado o Paulinho para ajudar e terminado ainda com sol alto no céu. Eu evitava a ala dos antigos obsessivamente. Sempre arranjava desculpa para não trabalhar lá. quando tinha de ir, porque não havia jeito, levava sempre alguém comigo e saía antes das 5, sempre, sem exceção. Mas a dona Benedita tinha razão sobre a sensibilidade.

Comecei a aperceber-me de coisas que antes não percebia. via sombras no canto do olho que desapareciam quando olhava direito. Ouvia sussurros baixos quando estava sozinho em partes antigas do cemitério. Sentia presenças invisíveis. Nada tão forte como aquele dia terrível, nada nem de perto.

 Mas sentia claramente e tinha outra coisa nova. Comecei a sentir quando tinha ódio no funeral. Não precisava de ver briga, não precisava de ouvir xingamento. Eu sentia no ar. Era tipo um arrepio diferente a subir a espinha, uma náuseas ligeiras no estômago, um peso opressivo no ar. Quando sentia isso, eu afastava-me imediatamente, terminava o trabalho o mais depressa possível e saía dali.

 Descobri, mexendo nos registos antigos empoeirados do cemitério, que outros rouveiros também tinham tido experiências perturbadoras naquela área específica ao longo das décadas. O seu Moassir contou-me histórias quando eu finalmente tive coragem para perguntar. Disse que sempre evitou aquele setor depois do pôr do sol, desde que era jovem.

 Disse que havia ali coisas que não eram naturais. principalmente depois de enterramentos violentos ou problemáticos. Ele sabia, sempre soube. Os meus cabelos começaram a branquear rapidamente. Em seis meses, ficaram completamente brancos. Tinha 43 anos quando aquilo aconteceu. Em se meses, parecia que tinha envelhecido 20 anos de uma só vez.

 A Carmen apercebeu-se assustada, perguntou preocupada se estava bem. Eu mentia dizendo que sim, mas ela sabia que não era verdade. Continuei a trabalhar no cemitério de São João por mais 21 anos depois desse dia. 21 anos carregando aquilo comigo. A memória vívida, a sensibilidade constante, o conhecimento de que havia ali coisas que não deviam existir.

 Nunca mais tive um encontro como aquele. Nunca mais vi a criatura daquela forma materializada. Mas sentia-a às vezes, principalmente na ala dos antigos, principalmente quando tinha um enterro problemático com família a lutar. Era tipo uma presença densa na sombra das árvores antigas, observando, esperando pacientemente, alimentando-se dos resquícios de ódio que ficavam a flutuar no ar.

 Aprendi a conviver com ele ao longo dos anos. Aprendi as regras não escritas, nunca sozinho na ala dos antigos depois das cinco. Nunca responder quando ouvia o meu nome a ser chamado e não tinha ninguém visível perto, nunca olhar diretamente fixamente para sombras mais escuras e densas.

 Segui as regras religiosamente e Fiquei relativamente seguro. Mas teve outros maus enterros ao longo dos anos. Não tão maus como do Felipe, mas ruins. Família a lutar amargamente, pessoas a maldizer o próprio morto, pessoas cuspindo raiva. E cada vez que tinha um desses, sentia-a ficando temporariamente mais forte. Via as sombras se movem mais intensamente.

Ouia os sussurros ficarem mais altos e distintos durante alguns dias. Aposentei-me finalmente em 2018. 40 anos completos de profissão. 40 anos ver as pessoas nascerem, viverem e morrerem. 40 anos a enterrar sonhos, esperanças, arrependimentos, vidas inteiras. No meu último dia oficial de trabalho, passei pela ala dos antigos uma última vez.

 Era manhã cedo, sol alto e brilhante no céu, local cheio de gente a trabalhar e visitando túmulos. Mas, mesmo assim, mesmo com toda aquela luz e movimento, senti senti-a lá na sombra mais densa por baixo do eucalipto velho, sempre esperando. Hoje tenho 62 anos, reformado há cinco. Vivo uma vida tranquila e boa com a carne.

 A gente tem dois filhos adultos e bem-sucedidos, três lindos netos. A vida é boa, pacífica, normal. Mas nunca esqueci. Como poderia esquecer-me de algo assim? Ainda Sinto às vezes aquela sensação característica quando passo de carro perto do cemitério indo visitar alguém. Quando ouço alguém comentando o enterro problemático na cidade, quando vejo o ódio a ser despejado violentamente, seja onde for.

Sinto um arrepio gelado a subir à espinha, uma ligeira náusea no estômago, uma recordação vívida e dolorosa do que vi naquele dia de Março de 1997. E sei com toda a certeza. Sei que quando chegar a minha hora, quando eu finalmente morrer e for enterrado no cemitério de São João como planeado, ela vai estar ali à espera pacientemente na sombra densa da ala dos antigos, como prometeu nesse dia, como sempre esteve desde então.

 Mas aprendi algo extremamente importante naquele dia terrível. Aprendi que há coisas muito piores do que a própria morte. Aprendi que o ódio tem um poder real, tangível, perigoso, que as palavras carregadas de raiva chamam coisas que não deviam ser chamadas, que os gestos violentos, mesmo que não magoem fisicamente, deixam marcas invisíveis, mas reais, no mundo.

Marcas que atraem o que não deve ser atraído de todo. Por isso eu estou contando esta história agora para avisar, para alertar quem tiver a ouvir ou lendo. Cuidado com o ódio que carrega no peito. Cuidado com as palavras que dizes perto dos mortos. Cuidado com os gestos de raiva, com as maldições venenosas, com a violência emocional.

 Porque há coisas ouvindo atentamente, há coisas à espera ansiosamente, exatamente por isso, tem coisas que se alimentam de ódio, como a gente se alimenta de alimento. E uma vez que estas coisas te marcam, uma vez que colam-se a si, elas nunca mais soltam completamente. Nunca. Eu sei porque aconteceu comigo. Vi com os meus próprios olhos, senti-o na própria pele.

Carrego isso até hoje, quase 30 anos depois. E quando eu morrer, quando for finalmente a minha vez de descer paraa Terra Fria, sei exatamente o que vai estar lá à minha espera. À sombra, com todas aquelas mãos impossíveis estendidos, com todos aqueles rostos mudando freneticamente, esperando pacientemente para me receber depois de décadas.

 Mas até lá, até que esse dia inevitável chegue, eu vivo. Eu amo a minha família. Eu respeito os mortos e nunca, nunca deixo que o ódio me dominar, porque sei o preço real. Eu vi com os meus próprios olhos as consequências. Espero sinceramente que você, quem quer que esteja a ouvir ou a ler essa história, leve-a muito a sério. Respeite os mortos sempre.

 Controle o seu ódio. Não deixe que a raiva o consuma, porque nunca se sabe o que pode estar observando nas sombras. Nunca se sabe aquilo que o seu ódio pode chamar para perto de você. Eu sei. E agora também já sabe.

 

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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