Ex-Coveiro Conta: JONAS SILVA… O LINCHAMENTO DE 1978 QUE TRANSFORMOU O CEMITÉRIO EM UM TRIBUNAL 

Ex-Coveiro Conta: JONAS SILVA… O LINCHAMENTO DE 1978 QUE TRANSFORMOU O CEMITÉRIO EM UM TRIBUNAL

Sou Coveiro, no cemitério de Santa Isabel em Belém do Pará há mais de 40 anos. E já enterrei santo e pecador na mesma terra vermelha que ferve sob o sol do meio-dia. O meu nome é Sebastião Ramos, mas na cidade conhecem-me Por Tião e Tenho 68 anos e mais de metade deles eu passei dentro deste campo santo.

 O povo diz que a justiça de Deus tarda, mas não falha. No entanto, aprendi na quadra quatro que às vezes a alma penada não quer Deus, ela quer a lei dos homens. Jonas Silva ficou conhecido como o açgueiro e matou cinco jovens antes de ser linchado pela população enfurecida numa tarde de calor infernal. Ele desceu à sepultura sem julgamento, sem advogado e sem sentença.

 E foi isso que transformou o seu túmulo num problema que nem a reza brava resolveu sozinha. Começou com um cheiro a sangue quente que se erguia do chão nos dias de mormaço e evoluiu para o som agoniante de uma lâmina a ser afiada na pedra. Eu achei que ele queria vingança contra quem o matou, mas na tarde em que o sol quase derreteu o meu juízo, descobri que o monstro apenas queria ouvir o bater do martelo do juiz.

 Eu preciso que perceba uma coisa sobre a morte aqui no norte antes de eu continuar a minha história. Aqui a morte não é gelada e pálida como nos filmes que passam na televisão. Aqui a morte é quente. Ela cheira a terra barrenta cozinhar ao sol e tem a cor vermelha da poeira que se cola à pele e não sai nem com sabão de coco.

 O cemitério de Santa Isabel é antigo e grande, com mangueiras centenárias que tentam fazer sombra, mas falham redondamente quando o sol está a pino a castigar as lápides de cimento e mármore. Eu comecei a trabalhar aqui muito novo, quando ainda tinha força nas costas para abrir três covas num só dia e voltar para casa assobiando.

 Vi muita coisa triste e muita coisa feia, mas acabamos por criando uma casca grossa no coração para conseguir sobreviver ao ofício. Coveiro que chora junto com a família não dura um mês no serviço. Mas o caso do Jonas Silva foi diferente de tudo, porque ele trouxe para o interior do cemitério uma raiva que não pertencia aos mortos comuns.

 Tudo aconteceu num curto período de 5 anos. entre 1978 e 1983. Mas para quem viveu esses dias, pareceu que durou um século inteiro. O ano de 78 ficou marcado na memória de todos em Belém, não só pelos crimes, mas pelo calor que parecia querer incendiar a cidade. Era um daqueles verões em que o vento deixou de soprar e o ar ficou parado e pesado, como se fosse feito de chumbo derretido.

As pessoas andavam na rua com os olhos baixos e os suores a correr pelas costas, e o temperamento de todos os estava a flor da pele. Foi neste clima de panela de pressão que a história do açogueiro explodiu. Jonas Silva não era um homem grande e nem tinha cara de monstro. Diziam que era um sujeito calado e metódico, que trabalhava num frigorífico no bairro de Icoaraci e que vivia sozinho numa casa de madeira perto do porto.

 Tinha fama de ser hábil com as facas e de saber desoçar uma carcaça de bovino em questão de minutos, sem desperdiçar um grama de carne. O problema é que o Jonas não usava a sua habilidade apenas nos bois. Quando os corpos dos jovens começaram a aparecer nos matagais da periferia, a polícia demorou a ligar os pontos. Eram cortes precisos e limpos feitos por alguém que conhecia a anatomia e que não tinha pressa.

 A cidade entrou em pânico e os pais fechavam os filhos em casa assim que o sol se punha. O medo virou ódio e o ódio tornou-se uma necessidade urgente de encontrar um culpado. Quando a polícia chegou finalmente ao nome do Jonas, a notícia vazou antes da detenção. O povo não quis esperar pela viatura chegar.

 A população cercou a sua casa numa tarde de terça-feira com o sol rachando o asfalto. Eles não queriam justiça, queriam sangue. Jonas foi arrastado para fora de casa e a multidão fez com ele o que ele fazia com as vítimas. Foi uma selvajaria que manchou as ruas de vermelho e que chocou até quem estava habituado à violência urbana.

 Quando a polícia chegou, só restava um corpo irreconhecível. no meio da rua poeirenta. O seu enterro foi a coisa mais tensa que já presenciei em toda a minha carreira. Não houve velório e não houve família a chorar. O corpo veio diretamente do Instituto Médico Legal num caixão de madeira barata que foi pregado com pregos extra para garantir que não abrisse no caminho.

 A ordem da autarquia foi para enterrar rápido e sem alarido, para evitar que a população invadisse o cemitério para depredar o cadáver. Eu e mais dois coveiros fomos escalados para o serviço na quadra quatro, que é uma zona mais afastada perto do muro das traseiras, onde a terra é mais dura e o mato cresce mais depressa.

Escavámos a cova sob o olhar atento de dois polícias militares que fumavam cigarros sem filtro e espantavam as moscas que pareciam saber que ali dentro daquela caixa tinha carne fresca. Não houve padre e não houve oração. Nós descemos o caixão com as cordas e eu senti um peso estranho na madeira. Não era peso físico, mas um mau peso que fez-me embrulhar o estômago.

 Mesmo eu estando habituado àquele tipo de serviço. Cobrimos a cova com a terra vermelha e socamos o chão com as enchadas para ficar tudo nivelado. Um dos polícias cuspiu em cima do monte de terra e disse que aquele ali já tinha ido tarde para o colo do capeta. Eu Fiquei calado porque aprendi que não se deve desrespeitar os mortos.

 Não importa quem tenham sido em vida, pois depois que a terra cobre, todos vira igual. Mas senti um arrepio na nuca quando virei costas para ir embora. O sol estava a pôr-se e o céu estava daquela cor laranja queimado típica da nossa região. Mas sobre a cova do Jonas parecia haver uma sombra que não se mexia.

 Eu fiz o sinal da cruz e Fui para o balneário lavar o suor e a pó do dia, tentando esquecer a violência que tinha colocado aquele homem ali. O primeiro ano depois do enterramento foi marcado por uma latência estranha. A gente esperava que o túmulo fosse vandalizado ou que aparecessem curiosos, mas nada disso aconteceu. A quadra quatro caiu num esquecimento profundo.

 O mato crescia à volta das outras sepulturas, mas sobre a cova do Jonas a terra ficava nua e seca. Nem erva daninha queria criar ali raiz. Era um retângulo de terra batida vermelha e gretada pelo sol. O que me chamava a atenção era o silêncio. O nosso cemitério está cheio de vida, com aves cantando nas mangueiras e calangos correndo pelas muretas.

 Mas naquela quadra específica, os bichos não entravam. Podia ver-se um bando de periquitos voando barulhentos. E quando chegavam perto da área do Jonas, eles desviavam a rota e ficavam mudos. Era um silêncio pesado e abafado, como se o ar ali fosse mais denso do que no resto do mundo. Eu passava por lá todos os dias para fazer a ronda e sentia que estava sendo observado.

 Não via vultos e não via nada a mexer, mas sentia aquele olhar nas costas que faz com que os pelos do braço arrepiarem. Era a sensação de entrar numa sala onde acabou de acontecer uma briga feia e o energia da raiva ainda está a pairar no ar. Eu comentava com o senhor Agenor, que era o administrador na altura e dizia que era a impressão minha e que o calor estava a cozinhar os meus miolos.

 Mas eu sabia que não era o calor. O calor de Belém conhecemos desde que nasce e sabe lidar com ele. Aquilo era outra coisa. Era uma pressão invisível que apertava o peito e dificultava a respiração. Foi no segundo ano, por volta de 1980, que a coisa começou a mudar de figura e o terror ganhou um cheiro. O verão desse ano foi particularmente cruel.

 O sol nascia a arder e se punha a ferver, e não caía uma gota de chuva para aliviar o pó. A terra do cemitério estava tão quente que dava para fritar um ovo nas pedras das lápides. Eu estava a trabalhar na limpeza de uma cova vizinha a cerca de 20 m de onde o Jonas estava sepultado quando senti o cheiro pela primeira vez.

 Não veio com o vento porque não havia vento nenhum. O cheiro brotou do chão, como se a terra estivesse a transpirar. Era um cheiro inconfundível para qualquer pessoa que já tenha passado perto de um matadouro ou que já se tenha cortado fundo. Era cheiro a ferro, cheiro a cobre, cheiro de sangue fresco e quente.

 Não era aquele cheiro adocicado e podre a cadáver antigo que a gente sente às vezes quando faz esumação. Era cheiro de sangue vivo, oxigenado e pulsante. Era tão forte que senti o sabor metálico na boca e a minha saliva ficou espessa. Eu Parei o que estava a fazer e olhei em volta, procurando algum animal ferido ou algum gato que tivesse caçado um passarinho. Mas não tinha nada.

 O cheiro vinha da direção da sepultura do Jonas. Eu me aproximei-me lentamente com o lenço tapando o nariz. E quanto mais perto me aproximava, mais forte ficava o odor. Parecia que alguém tinha entornado um balde de sangue fresco em cima da terra seca, minutos antes. Mas a terra estava esturricada e poeirenta, sem qualquer mancha húmida.

 O cheiro era tão intenso que me deu náuseas e tive que me afastar para não vomitar. Naquele dia, Fui embora mais cedo, com uma dor de cabeça que parecia que ia rachar o meu crânio no meio. Comentei com os outros coveiros no dia seguinte e eles confirmaram. O Raimundo, que era um rapaz novo e forte, disse que tinha sentiu cheiro a carne crua exposta ao sol quando por lá passou de manhã, aquele cheiro a açougra o estômago.

 Durante meses, aquele cheiro ia e vinha. Ele aparecia sempre nos dias mais quentes, quando o pino solva. Era como se o calor fizesse com que a essência daquele homem vazar pelos poros da terra. Começámos a evitar a quadra quatro à hora do almoço, porque era impossível engolir comida com aquele cheiro a matadouro a impregnar o ar. As famílias que visitavam os túmulos vizinhos começaram a queixar-se na administração, dizendo que nós não estava a limpar o local direito ou que havia bicho morto escondido no mato.

 O O seu agenor mandouetizar tudo e remexer no lixo, mas é claro que não encontraram nada. O cheiro não era físico. O cheiro era a alma do Jonas, se manifestando-se do único jeito que ele conhecia, através do sangue. A escalada do terror continuou e no terceiro ano o cheiro ganhou companhia.

 Agora, para além de cheirar mal, o túmulo do Jonas começou a fazer barulho. Lembro-me da primeira vez que ouvi. Era um final de tarde e o sol estava a pôr-se, deixando o céu vermelho sangue. O cemitério já estava fechado para visitas e só restavam nós, funcionários, terminando de guardar as ferramentas. O silêncio da tarde foi cortado por um som rítmico e irritante.

 Era um som metálico e áspero, o som do aço a ser passado numa pedra de afiar. Eu conhecia muito bem aquele som, porque o meu avô tinha uma pedra de afiar machete no sítio e passava horas a afiar as ferramentas. Era um som que arrepiava os dentes. Eu e o Raimundo olhámos um para o outro e perguntámos quem estava a afiar ferramenta aquela hora.

 O som vinha dos fundos da quadra quatro. Nós fomos andando devagar, acompanhando o barulho que era constante e hipnótico. Não tinha pressa no som. Era um ritmo lento e preciso de alguém que esteja concentrado no trabalho e quer deixar o fio da lâmina perfeito. Quando duplicamos a esquina da última fila de túmulos e tivemos visão da cova do Jonas, o som estava alto e claro.

 Parecia que tinha alguém sentado em cima da lápide de cimento passando uma faca grande numa pedra, mas não havia ninguém. A cova estava sob a luz alaranjada do crepúsculo. O som vinha do nada, ou melhor, vinha de baixo. Nós paramos a uns 10 m de distância e ficámos a ouvir aquele barulho que parecia raspar dentro do nosso cérebro.

 O Raimundo, que era mais valente do que eu, pegou numa pedra do chão e atirou-o na direção da cova, gritando para quem lá estivesse aparecer. A pedra bateu no cimento da lápide vizinha e fez um barulho seco. No mesmo instante, o som da amolação parou. O silêncio instalou-se como uma bigorna. Nós ficámos parados à espera de alguma reação, mas nada aconteceu.

 O ar ficou parado e o calor parecia ter aumentado 10º em 1 segundo. Demos meia volta e saímos dali andando depressa, quase a correr, sem olhar para trás. Naquele dia tive certeza de que o Jonas não estava descansando. Ele estava a preparar-se. Ele estava a afiar as ferramentas dele mesmo depois de morto. O quarto ano foi quando a violência deixou de ser uma ameaça invisível e tornou-se real.

 O Raimundo, o mesmo rapaz que tinha ouvido o som comigo, foi a vítima. Ele era um bom rapaz, trabalhador e honesto que estava a juntar dinheiro para casar. Numa manhã de quarta-feira, o encarregado mandou o Raimundo ir sachar o mato que tinha começado a crescer nos corredores do bloco 4. O Raimundo foi meio a contragosto, mas ordem é ordem.

Levou a enchada e o ansinho e foi fazer o serviço. Eu estava a trabalhar longe, perto da entrada principal quando ouvi o grito. Não foi um grito de susto, foi um grito de dor e pavor. Eu larguei tudo e corri na direção do som. Quando cheguei à quadra quatro, encontrei o Raimundo caído no chão, sentado no terra, segurando a perna direita com as duas mãos.

 O sangue escorria por entre os dedos dele em grande quantidade, encharcando as calças do uniforme e tingindo a terra vermelha de um tom ainda mais escuro. Eu ajoelhei do lado dele e perguntei o que tinha acontecido, pensando que tinha atingido a própria perna com a inchada. que é um acidente comum. Mas a enchada estava caída longe dele, limpa e sem sangue.

 O Raimundo estava pálido e tremia muito. Ele gaguejava, dizendo que não sabia o que tinha sido. Ele disse que estava a limpar o mato perto da cova do Jonas e de repente sentiu uma ardor forte na canela, como se tivesse passado num arame farpado. Rasguei-lhe as calças para ver o ferimento e o que vi fez-me engolir seco.

 Não era um hematoma de inchada que deixa a carne esmagada e irregular. E não era um corte de vidro ou de arame que rasga a pele. Era um corte direito, profundo e cirúrgico. Parecia ter sido feito com uma navalha ou com um bisturi muito afiado. O corte tinha cerca de 10 cm de comprimento e ia fundo no músculo, apanhando uma veia importante.

 O sangue pulsava ao ritmo do seu coração. Nós improvisámos um torniquete com a camisa dele e levámo-lo para o hospital na A caixa da caminhonete da administração. O médico que atendeu disse que aquilo era corte de lâmina afiada e perguntou se tinha sido assaltado ou se tinha se envolvido em luta de facas. Quando dissemos que foi no cemitério a limpar mato, o médico olhou desconfiado e disse que mato não faz aquele tipo de estragos.

O Raimundo levou 12 pontos na perna e ficou coxo durante umas duas semanas. Depois desse dia, instalou-se o medo de vez entre nós. Ninguém queria chegar perto da cova do Jonas. A gente fazia rodízio e sorteio para ver quem ia limpar aquela quadra e quem perdia ia a rezar e com o coração na mão. O Raimundo pediu as contas um mês depois, dizendo que não valia a pena morrer por um salário mínimo.

 Ele contou-me antes de ir embora, que cada vez que fechava os olhos para dormir, ouvia o som da faca a ser amolada. Eu fiquei, tinha família para criar e não me podia dar ao luxo de deixar o emprego. E talvez por ser mais velho ou por ter mais tempo de casa, senti uma responsabilidade estranha sobre aquele lugar. Eu via o Jonas não apenas como um monstro, mas como um problema que precisava de ser resolvido.

 O linchamento tinha matado o homem, mas não tinha matado a fúria dele. Pelo contrário, tinha alimentado essa fúria. Jonas era um homem que vivia de cortar carne com precisão e método. A A sua morte tinha sido uma confusão suja e desordenada. E agora tentava impor a ordem dele no único lugar que lhe restava. O calor continuava inclemente.

O sol de Belém parecia querer derreter as lápides e eu sabia que a coisa não ia parar no corte do Raimundo. O açogueiro estava a ficar mais forte, o cheiro de sangue era mais constante e o som da amolação podia ser ouvido mesmo durante o dia. A atmosfera na quadra quatro era insuportável. Parecia que o ar ali vibrava como vibra o ar em cima do asfalto quente criando miragens.

 Olhava-se para o fundo do cemitério e via as coisas distorcidas e trêmulas. Chegamos então ao 5º ano 1983, o ano do desfecho. Eu já estava no meu limite físico e mental. Eu tinha pesadelos com carne crua e acordava sentir o cheiro a sangue no meu quarto. A minha esposa dizia que eu estava a ficar louco e que devia procurar um padre ou um médico.

 Mas eu sabia que o problema não estava na minha cabeça. O problema estava enterrado a sete palmos numa cova sem nome. Foi numa tarde de Novembro, a mais quente que eu já tinha vivido em toda a minha vida, que tudo aconteceu. O cemitério estava deserto. O calor era tanto que os pássaros não cantavam e as as cigarras faziam um barulho ensurdecedor que parecia furar os ouvidos.

 O ar estava parado. Nenhuma folha se mexia nas mangueiras. Estava a acabar de fechar uma cova do outro lado do cemitério e decidi cortar caminho pela quadra quatro para chegar mais rapidamente ao portão de saída. Eu sabia que não devia passar por lá. Mas o cansaço e o calor deixaram-me imprudente.

 Quando entrei no corredor da quadra quatro, o silêncio instalou-se de repente. As cigarras pararam de cantar. O barulho da cidade desapareceu. Era como se tivesse entrado numa bolha de vácuo. O único somia era o das minhas botas batendo na terra seca. Depois senti o cheiro mais forte do que nunca, o cheiro a sangue quente e espesso que parecia colar-se à garganta.

Tentei apressar o passo, mas as minhas pernas ficaram pesadas. O ar na minha frente começou a tremer com o calor, formando aquelas ondas visuais que distorcem a paisagem. E no meio daquela distorção eu vi. Não vi o Jonas, vi a multidão. Vi vultos desfocados e frenéticos correndo de um lado para o outro.

 Ouvi gritos abafados e distantes de raiva e de ódio. Eram os ecos do linchamento. A energia desse dia maldito de 78 estava a ser reenada ali à minha frente como um filme projetado no ar quente. Eu parei paralisado pelo terror e depois a alucinação da multidão desapareceu e sobrou apenas ele. Uma figura parada em cima da cova de terra batida.

Ele não era transparente e nem flutuava. Parecia sólido, feito de carne e osso, mas uma carne e osso que tinham sido moídos. O seu rosto era uma massa irreconhecível de hematomas e cortes, exatamente como ficou depois da multidão acabou com ele. Mas a postura dele era ereta e rígida. Ele vestia um avental de açogueiro branco imaculado que contrastava com o corpo destruído, e, na mão direita segurava uma faca de desça longa e brilhante.

 Ele não olhou para mim. Ele olhava para o vazio, para o horizonte, com uma expressão que consegui sentir mesmo sem ver o rosto dele. Não era tristeza, era indignação, era uma ofensa profunda. Ele levantou a faca e apontou para o chão com um gesto brusco e autoritário. E então ele falou: “Não com a boca, mas com a mente”.

 A voz dele explodiu dentro da minha cabeça seca e rouca. Onde está o meu direito? Onde está a minha sentença? Eles não podiam ter feito isso. Eles quebraram a regra. Eu exijo a regra. Eu caí de joelhos no chão, sentindo o peso daquela exigência esmagar-me. O calor ficou insuportável, como se eu estivesse dentro de um forno ligado no máximo.

 O chão à minha volta parecia vibrar com a fúria dele. Eu entendi naquele momento que não adiantava rezar. Ele não queria perdão. Ele não se arrependia do que tinha feito. Era um psicopata que via o mundo através de regras e métodos. E a sua morte tinha sido sem regra, tinha sido anarquia. Ele estava preso aqui não pelos crimes que cometeu, mas pela injustiça técnica da sua morte.

Ele queria um julgamento. Ele queria que a lei fosse cumprida. A visão durou apenas alguns segundos, mas foi o suficiente para eu compreender o que precisava de ser feito. O Jonas desapareceu no ar trémulo e fiquei ali sozinho, ajoelhado na terra quente, suando frio e tremendo. Levantei-me com dificuldade e corri para a administração.

 Eu sabia que precisava de falar com o seu agenor. sabia que precisávamos de um juiz, não para julgar um vivo, mas para condenar um morto e dar-lhe a ordem que ele tanto desejava. Eu entrei na sala da administração do cemitério, parecendo um bicho que fugiu do mato pegando fogo. A minha camisa estava encharcada de suor frio e as minhas botas estavam sujas da poeira vermelha da quadra quatro.

 O seu agenor estava sentado atrás da mesa de madeira maciça, conferindo os livros de registo, e levou um susto quando me viu naquele estado. Largou a caneta e perguntou se eu estava a sentir-me mal por causa do sol. precisei de beber dois copos de água gelada do filtro de barro antes de conseguir dizer uma frase inteira que fizesse sentido.

 Eu contei tudo para ele. Contei sobre o cheiro a sangue que não passava sobre o som da faca na pedra e principalmente sobre a visão que eu tive do Jonas Silva a exigir o direito dele. O Sr. Agenor era um homem prático e de pouca fé nestas coisas de assombração, mas ele era, acima de tudo, um administrador competente que sabia quando um problema fugia ao controlo.

Ouviu o meu relato em silêncio, batendo com a ponta dos dedos na mesa. Ele sabia do acidente com o Raimundo e sabia das queixas das famílias sobre o mau cheiro naquela zona. Quando eu disse que o morto não queria rezar, mas sim um juiz, o seu agenor deixou de batucar e ficou a olhar para o ventilador de teto que girava lentamente, empurrando o ar quente.

 Ele disse que aquilo era a coisa mais louca que ele já tinha ouvido em 30 anos de profissão, mas que fazia um sentido terrível. Jonas era um homem de regras. O linchamento tinha tirado a regra dele. Precisávamos de um juiz. Mas não chega ao fórum da cidade e pede a um magistrado para ir até ao cemitério julgar um fantasma. Iam mandar internar-nos no hospício do Juliano Moreira à mesma hora.

 O seu agenor lembrou-se então do Dr. Hélio. O Dr. Hélio era um juiz criminal jubilado, muito respeitado em Belém, conhecido por ser linha dura e extremamente formal. Já tinha quase 80 anos e vivia recluso num palacete no bairro da Nazaré. O pormenor que fez a diferença foi que o O Dr.

 Hélio era o juiz de turno na altura dos crimes do açgueiro. Teria sido ele a julgar o caso se a população não tivesse matado o arguido antes. O seu agenor foi pessoalmente falar com o juiz nessa mesma noite. Eu não sei o que disse e nem como convenceu o homem velho. Talvez a autoridade chame a autoridade. Talvez o Dr. sentisse que aquele era um processo que tinha ficado em aberto na sua carreira, uma ponta solta que precisava de ser amarrada.

 O facto é que no dia seguinte o seu agenor me chamou e disse para preparar a quadra quatro. O julgamento ia acontecer. E para garantir que o lado espiritual também fosse atendido, chamou o padre Anselmo, que era o capelão do cemitério, um homem que já tinha visto muita coisa estranha e não se assustava fácil.

 Marcámos tudo para a sexta-feira seguinte, às 2 horas da tarde. O horário foi escolhido de propósito, porque era o horário em que o sol estava mais forte e o cheiro a sangue costumava ficar insuportável. Era o horário em que o Jonas estava mais presente. Eu e o seu Agenor passámos a manhã a preparar o local. Levamos uma mesa de madeira pesada e uma cadeira de espaldar alto para a beira da cova.

 O calor era de rachar mamona. O ar tremia acima das lápides e a poeira vermelha cobria as nossas botas. Não havia vento nenhum. O silêncio na quadra quatro era absoluto. Os pássaros continuavam a evitar a área. Quando o carro preto do Dr. Hélio estacionou na aleia principal, senti um frio na barriga. O juiz desceu do carro, apoiado numa bengala de ébano, vestindo um fato preto completo de lã inglesa. Apesar do calor de 35º.

Ele não suava. O seu rosto era sério e impenetrável, como uma máscara de pedra. O padre Anselmo veio logo atrás, envergando a batina e trazendo a estola roxo de exorcismo e um frasco de metal com água benta. Nós caminhamos em cortejo até à cova do Jonas. O juiz sentou-se na cadeira com uma dignidade que transformou aquele pedaço de chão batido num tribunal solene.

 Ele colocou sobre a mesa o código penal antigo e um martelo de madeira que tinha trazido no bolso. Eu fiquei de pé ao lado do padre Anselmo, servindo de testemunha e de oficial de justiça improvisado. O cheiro a sangue começou a subir da terra assim que o juiz abriu o livro. era forte, denso e enjoativo. O padre Anselmo fez o sinal da cruz e segurou firmemente o crucifixo. O Dr.

 Hélio não se abalou. Ele ajustou os óculos de aro dourado e olhou fixamente para o lápide de cimento em bruto. Ele não via o fantasma, mas sentia a presença do arguido. A atmosfera tornou-se pesada, como se a gravidade tivesse aumentado naquele ponto. O ar tornou-se difícil de respirar. O juiz pigarreou e começou a falar com um voz rouca, mas poderosa, que ecoou pelo cemitério vazio.

 Ele disse que estávamos ali para abrir a sessão extraordinária de julgamento do arguido Jonas Silva Vulgo, o açueiro. Leu os nomes das cinco vítimas em voz alta pausadamente. A cada nome que pronunciava, o cheiro de sangue tornava-se mais forte e comecei a ouvir o som. Aquele maldito som de faca sendo amolada.

 O som vinha debaixo da mesa, vinha de trás de nós, vinha de todo o lugar. O padre Anselmo empalideceu, mas continuou a rezar baixo. O juiz ignorou o barulho e continuou a leitura dos autos. Descreveu os crimes com detalhes técnicos. Ele falou da crueldade da frieza e da premeditação. Ele estava a dar ao Jonas o que o Jonas queria.

 a descrição formal dos seus atos. O açogueiro não queria ser esquecido e não queria ser perdoado. Ele queria que o mundo reconhecesse a obra dele e que a lei o punisse de acordo com a regra. O som da amolação ficou frenético, rápido e agudo, como se a faca estivesse a ser passada na pedra com fúria. A terra da cova começou a tremer ligeiramente, levantando uma poeira fina vermelha que ficava suspensa no ar parado. O Dr.

 Hélio fechou então o livro com um baque seco. Ele olhou para a cova e disse que perante as evidências e a ausência de defesa, passaria a sentença. O som da faca parou de imediato. O o silêncio voltou. O Jonas estava a ouvir. O juiz estufou o peito e proferiu o condenação. Condenou Jonas Silva à pena máxima prevista na lei dos homens e acrescentou que como a pena não podia ser cumprida em vida, seria cumprida na morte.

 Condenou o réu ao esquecimento e a prisão perpétua dentro daquela sepultura, sem direito a recurso e sem direito a saída. Quando ele terminou de falar, levantou o martelo de madeira. O braço dele tremeu um pouco, não de fraqueza, mas pela tensão que vibrava no ar. Ele desceu o martelo com força, batendo na madeira da mesa.

 O som foi seco e definitivo. No exato momento em que o martelo bateu, senti uma pressão nos ouvidos, como se uma bolha tivesse rebentado. O calor sufocante pareceu ceder por um segundo. Foi a deixa para o padre Anselmo. Assim que o veredicto legal foi dado, o padre avançou com a autoridade divina. Ele jogou a água benta em forma de cruz sobre a terra seca da cova e iniciou a oração de exorcismo em latim.

 Exorcizamos-te, homens imundos espíritos. A água benta chiou quando tocou na terra quente, como se tivesse caído numa chapa de ferro fervendo. Subiu um vapor branco com cheiro a enxofre que se misturava com cheiro a sangue, mas o cheiro a sangue estava a mudar, estava a ficar fraco, estava a ficar velho. O padre continuou rezando alto e forte, impondo a ordem espiritual sobre a ordem jurídica.

 O juiz continuou sentado imóvel. Mantendo a autoridade da lei. Eu vi o pó vermelha assentar lentamente. A sensação de estar a ser observado desapareceu. Aquele peso no peito que eu carregava há 5 anos desapareceu. O ar voltou a circular e uma brisa leve balançava as folhas das mangueiras ao longe.

 Pela primeira vez em anos, um bent vi pousou na árvore que ficava em cima da cova e cantava. O padre Anselmo terminou a oração com um amém que soívio. O Dr. Hélio recolheu o martelo e o livro e levantou-se com dificuldade apoiado na bengala. Olhou para a cova e disse com voz baixa que a justiça estava feita e o processo estava arquivado.

 Ele virou as costas e caminhou para o carro sem olhar para trás. O padre Anselmo abençoou a quadra mais uma vez e nós desmontamos a mesa e a cadeira. Naquela tarde, o cheiro a sangue desapareceu completamente. O som da faca nunca mais foi ouvido. O Jonas Silva aceitou a sentença. Era um monstro, sim, mas era um monstro que obedecia a regras.

A população tinha quebrado a regra ao linchá-lo e tínhamos arranjado o erro, dando-lhe o juízo que ele exigia. Foi condenado e, como um prisioneiro modelo, aceitou a prisão. A sua cova continuou a ser de terra batida, mas o mato voltou a crescer à volta e os bichos voltaram a circular.

 Os anos passaram e a história tornou-se lenda entre os funcionários mais novos. O Raimundo nunca mais voltou a trabalhar no cemitério, mas encontrei com ele anos mais tarde no mercado ver o peso. Ainda coxeava da perna direita e a cicatriz ainda doía quando o tempo aquecia demais. Eu contei-lhe o que tínhamos feito e ele chorou de alívio ali mesmo no meio das barracas de peixe. O Dr.

 Hélio faleceu dois anos depois do julgamento de causas naturais e foi sepultado no mesmo cemitério, mas bem longe do court quatro, na ala dos jazigos de família. Hoje, aos 68 anos, continuo aqui a cuidar dos mortos e respeitando os vivos. O túmulo do Jonas ainda está lá na quadra quatro, marcado apenas por uma cruz de madeira velha que eu próprio coloquei para não deixar o local sem sinal.

 Ninguém visita e ninguém coloca flor. É uma sepultura esquecida, como foi determinado na sentença. Mas aprendi a lição e passo-a a todo o coveiro novato que aqui entra. A morte não zera a conta. A personalidade que a pessoa tinha em vida continua na morte. Se o sujeito era bom, vai ser uma alma boa. Se era mau, vai ser uma alma má. E se ele era obsecado pela ordem e pela lei, ele não vai descansar enquanto a papelada não estiver em dia.

 Às vezes, nos dias de verão muito forte, quando o sol de Belém faz derreter o asfalto e o mormaço sobe da terra, passo perto da quarteirão quatro e paro por um instante. O silêncio lá é normal agora. cheira apenas a terra e mato seco, mas eu Faço sempre um sinal de reverência para a cova do açogueiro, não por respeito ao homem que foi, mas por respeito à lei que o prendeu ali.

 Porque eu sei que se aquela sentença for revogada, ou se alguém mexer onde não deve o som da faca na pedra, pode voltar. E desta vez talvez não tenhamos um juiz corajoso para bater o martelo. O meu nome é Sebastião Ramos Ztião. Sou coveiro, sou testemunha e sou oficial de justiça dos mortos. E deixo aqui o meu aviso. Se ouve um barulho de metal a raspar em pedra num dia de calor sem vento, não pague para ver.

 Pode ser apenas alguém amolando um machete na vizinhança, mas pode ser também alguém que está a se preparando para o trabalho e que não gosta de ser interrompido sem um mandado judicial.

 

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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