EX-COVEIRO CONTA: O QUE VIVE SOB O CEMITÉRIO NÃO O DEIXOU PARTIR APÓS ENTERRAR UM JOVEM
EX-COVEIRO CONTA: O QUE VIVE SOB O CEMITÉRIO NÃO O DEIXOU PARTIR APÓS ENTERRAR UM JOVEM 
São Luís em junho tem um calor que não é só temperatura, é peso. É o tipo de calor húmido que cola na roupa antes de não fazer esforço nenhum e que naquele dia de 2002 foi diferente de alguma forma que não conseguia nomear, mas que o corpo registava com uma clareza que a cabeça ainda estava [música] tentando ignorar.
Tinha 26 anos de cemitério naquela época e aprendi faz tempo que pressentimento em cemitério não é frescura de homem medroso, é informação. É o lugar a dizer-te alguma coisa antes de ter olhos para ver. Nesse dia não ouvi, tinha serviço a fazer e fui fazer. Filipe Rocha Souza tinha 24 anos quando chegou para mim nessa tarde.
Não morreu de doença, não morreu de acidente, não morreu de nada que tivesse lógica ou explicação que aliviasse. Morreu num assalto, não reagiu, não enfrentou, não não deu motivo nenhum e foi morto a si próprio na frieza de quem não precisava de motivo. deixou noiva grávida e mãe viúva com aquela expressão no rosto que eu já vi muitas vezes em família de morte violenta e que é diferente de qualquer outro tipo de luto.
É a expressão de quem ainda está à espera de acordar. Eu cobri a cova de Felipe sozinho no fim dessa tarde, como sempre faço, com o cuidado [música] de sempre. E quando terminei e preparei-me para ir embora, ele estava ali [música] de pé, imóvel, encarando a própria sepultura com os olhos que não eram olhos de ninguém vivo.
Eram buracos abertos para um lugar que não tem nome. Eu corri e o que o seu O Benedito contou-me depois foi pior do que tudo o que tinha visto. Comenta aqui se acredita que a morte violenta prende a alma de uma forma diferente das outras. e deixa já o like, [música] porque o que vive debaixo daquele chão desde o século XIX, demorei 18 anos para compreender.
E quando percebi, já era tarde demais para fingir que conseguia continuar. O meu nome é Edilson Gomes da Rocha, tenho 51 anos, nasci no bairro João Paulo, aqui em São Luís do Maranhão, filho de pescador e de costureira, criado com a simplicidade de quem aprende [música] desde cedo que o o trabalho honesto é o que separa o homem daquilo que ele não quer ser.
Entrei no [música] cemitério municipal de São Luís com 25 anos por indicação de um vizinho que trabalhava na câmara municipal e que sabia que tinha vaga no setor de inumação. Não entrei a pensar em ficar. Ninguém entra a pensar em ficar, mas foi ficando da forma que acontece com quem encontra no trabalho uma dignidade que não esperava encontrar.
Coveiro não é profissão que a maioria das pessoas escolheria se tivesse todas as opções na frente. Mas é a profissão que ensina coisas que nenhuma outra ensina da mesma forma. ensina que a morte não tem preferência, que ela é a única coisa verdadeiramente igual para todos e que o homem que cuida do último pedaço de chão que alguém vai ocupar carrega uma responsabilidade que não está escrita em nenhum contrato, mas que está presente em cada palada de terra que ele fecha.
26 anos eu carregava aquilo com orgulho, com fé simples de homem criado no Maranhão, que sabe que o mundo tem mais camadas do que aquelas que vemos, mas que aprende a viver com ele sem transformar em obsessão. Eu já tinha visto coisa no sério ao longo de todos os esses anos. Coisas que não se explicam pela lógica do dia a dia, coisas que vê-se pelo canto do olho e que quando olha de frente já não estão lá.
Aprendi a arquivar estas coisas num lugar da cabeça, onde ficam sem me incomodar demasiado, porque incomodar demais não era compatível com fazer o trabalho direito. E fazer o trabalho direito era o que eu me propunha fazer. Mas havia um lugar naquele cemitério que eu tinha aprendido ao longo dos anos a tratar com um cuidado diferente dos outros setores, não com medo, não com evitamento, mas com uma atenção redobrada que não conseguia desligar quando estava ali, como se alguma parte de mim soubesse antes da a minha cabeça saber que aquele pedaço de
chão guardava algo que os outros pedaços não guardavam. São Luís é uma cidade velha. [música] Quem nasceu aqui sabe que a cidade tem memória longa. e que essa memória nem é sempre bonita. O Maranhão carregou uma das [música] histórias mais pesadas do país no que diz respeito à escravatura. Foi um dos últimos estados [música] a abolir.
Foi um dos estados onde o sistema foi mais brutal e mais sistemático. Onde as pessoas foram enterradas sem nome, sem cerimónia, sem ninguém que ficasse do lado enquanto a terra cobria. Porque não havia lei que obrigasse, não havia costume que garantisse e não havia ninguém com interesse [música] em garantir.
Esse peso está no chão de São Luís de formas que a cidade transporta sem sempre reconhecer. Está nas ruas, está nos bairros, está em alguns locais específicos onde a história se tornou mais próxima da superfície do que noutros. Aquele setor mais antigo do cemitério era um desses lugares. Em junho de 2002, o aviso do serviço chegou, como sempre chegavam, no início do turno, com nome, idade, causa de morte e local de sepultamento.
Filipe Rocha Sousa, 24 anos, homicídio, setor mais antigo. Eu li aquilo e senti alguma coisa a mexer no peito antes de qualquer pensamento consciente chegar. Não foi surpresa pela causa da morte. O assassinato não era novidade num cemitério de São Luís. Era uma das causas mais frequentes nos registos que passavam pelo meu setor. Foi outra coisa, foi aquela frequência que conhecia de anos de convivência [música] com aquele chão específico, ligando antes que eu mandasse.
Fui preparar o que precisava de ser preparado com a objetividade de sempre, mas com aquela atenção redobrada já ativa desde o início. A família de Felipe chegou ao início da tarde com o pequeno cortejo que as famílias humildes de São Luís costumam ter, sem carro alegórico, sem muita gente, [música] com a dor toda concentrada num pequeno grupo que, por isso, parecia ainda mais pesada.
A mãe, dona Raimunda, era mulher de cerca de 48 anos, que parecia ter atingido o limite do que o corpo humano consegue suportar de dor e que estava do outro lado desse limite, num lugar onde o choro já não tem mais som e os olhos ficam com aquela expressão vazia de quem processou demais.
estava a ser sustentada pelos dois lados, por uma irmã e por um vizinho, porque as pernas não estavam dando conta sozinhas. noiva, uma rapariga jovem de cabelo apanhado e barriga de uns 5 meses que calculei na hora. Estava sentada num banquinho que alguém tinha trazido, com as mãos cruzadas sobre o ventre e os olhos fixos no caixão, com uma intensidade que parecia estar tentando memorizar cada pormenor daquela madeira simples, como se fosse a última ligação física com Felipe antes que a Terra cobrisse de vez.
Havia uns poucos amigos, uns primos, um pastor que conduziu uma curta oração com a voz firme de quem sabe que não há palavra adequada para aquilo, mas que tenta a si mesmo, porque o silêncio total seria pior. E havia, num canto ligeiramente afastado do grupo, um homem com cerca de 30 anos que eu não reconheci como familiar e que ficou todo o tempo com os braços cruzados e a expressão fechada de alguém que está com raiva de uma forma que não tem para onde direcionar.
Soube depois pelo seu [música] O Benedito, que era um amigo próximo de Felipe, que tinha estado com -lhe na noite do assalto e que tinha escapou porque estava do outro lado da rua quando aconteceu e que transportava com aquilo uma culpa que não tinha lógica, mas que este tipo de sobrevivência sempre produz. O assalto tinha acontecido numa noite de segunda-feira, numa paragem de autocarro do bairro Coroadinho.
O Filipe voltava do trabalho, era auxiliar de armazém numa distribuidora e estava à espera do autocarro quando dois homens chegaram exigindo o telemóvel e a carteira. Quem me contou depois foi o senhor Benedito, que tinha lido no jornal, que o Filipe entregou tudo sem hesitações, sem fazer gesto nenhum de reação, porque não era idiota e sabia que a vida vale mais do objeto e foi morto a si próprio.
Um tiro que não tinha justificação dentro de nenhuma lógica humana que eu conhecesse, nem da lógica do crime, porque o crime já estava consumado. era o tipo de morte que não deixava espaço paraa elaboração, que não tinha ângulo de onde se olhasse e encontrasse sentido. E esse tipo de morte cria um tipo específico de peso que reconheci de outros casos e que agora estava depositado naquele caixão simples de madeira escura no setor mais antigo do cemitério municipal de São Luís.
Quando a família partiu devagar, com aquele passo arrastado de quem está a sair, mas não quer estar saindo, fiquei como sempre fico. Terminei o serviço com o cuidado de sempre, cobri a cova do Felipe com a atenção que eu daria a qualquer sepultura. [música] Compactei a terra, posicionei a identificação provisória e fiquei um momento em silêncio em frente daquela cova acabada de fechar, com o calor pesado de São Luís em junho em cima da cabeça, e com aquela frequência que tinha sentido desde o início do dia, ainda ativa, ainda presente, mais forte agora
do que tinha sido em qualquer momento anterior. Foi quando me preparei para ir embora, que vi o Filipe. Estava nuns 20 m de mim, de frente para a própria sepultura, de costas para mim. Camisola branca e calças pretas, idênticas às do caixão que tinha fechado horas antes. Imóvel com uma imobilidade que não era de pessoa parada, era de coisa que não respira, que não tem o movimento mínimo e involuntário que qualquer ser vivo tem, mesmo quando não se está a mexer de propósito. Eu parei.
A respiração travou antes que eu mandasse travar. Fiquei olhando para aquela figura durante um tempo que não consegui dimensionar posteriormente, tentando produzir uma explicação que não vinha, tentando encontrar o ângulo onde aquilo tornava-se familiar de um jeito que me coubesse na cabeça. Então, movi-me na direção dele.
Não por coragem que fique claro, foi o movimento automático de quem ainda não processou completamente o que está a ver e cujo corpo age pelo hábito antes da mente ter tempo de objetar. Aproximei-me e quando estava a cerca de 5 metros disse em voz baixa que o cemitério [música] estava a fechar, que precisava que ele saísse. A figura não se moveu.
Eu dei mais um passo e repeti, com a voz um pouco mais firme: “O tipo de firmeza que que usa quando precisa de ser respeitado sem ser agressivo?” E foi então que virou a cara. Era Filipe. Não era semelhança. Não era A minha cabeça construindo reconhecimento por cima de um rosto qualquer. Era O Filipe com os mesmos traços que eu tinha visto no velório quando a família passou à minha frente entrando.
O mesmo rosto jovem, a mesma altura, a mesma estrutura. Mas os olhos não eram os olhos de nenhum ser vivo que eu já tivesse visto em 51 anos de existência. Não havia expressão neles, não havia intenção, não havia assentelha mínima que qualquer olho vivo transporta, mesmo quando a pessoa está cansada ou entorpecida.
Eram buracos, buracos abertos para um local que não tinha luz, nem fundo, nem nome que eu soubesse pronunciar. Eu corri sem calcular, sem decidir. O meu corpo simplesmente foi e eu fui com ele através [música] do corredor do setor pela alameda principal, até chegar à guarita onde estava o senhor Benedito. terminando o seu turno com uma chávena de café na mão e aquela expressão calma de quem tem 42 anos de cemitério e que já viu coisa suficiente para não se surpreender com a aparência de um colega que chega a correr branco de susto numa
tarde comum. O Sr. Benedito não perguntou o que tinha acontecido, olhou-me por um tempo, colocou o café e disse-me para sentar. Sentei-me, contei tudo em ordem atropelada, a figura imóvel, a camisa branca, o rosto virado, os olhos. Ele ouviu sem interromper, com aquela paciência específica de quem já ouviu versões desse mesmo relato outras vezes e que sabe que a pessoa precisa de terminar antes de receber qualquer resposta.
Quando terminei, ele ficou em silêncio durante um tempo considerável, olhando para o fundo do corredor, como se estivesse a consultar alguma coisa que ficava nessa direção, e depois começou a dizer-me o que eu precisava de saber sobre aquele chão. disse que aquele setor mais antigo do cemitério não era o início daquele cemitério, que antes de o cemitério municipal existir, antes [música] de qualquer estrutura oficial, aquele pedaço de terra em São Luís tinha sido utilizado no século XIX para enterrar escravos, não com cerimónia, não com
registo, não com lápide, nem com nome, com o mínimo necessário para que o organismo não estivesse exposto, que era o único interesse de quem mandava fazer aquilo. enterrada à pressa, sem [música] oração, sem família que ficasse ao lado, muitas vezes de noite, para que não atrapalhasse o funcionamento da propriedade durante o dia.
Décadas de enterramentos assim, camada sobre camada de gente esquecida num solo que foi sendo compactado pelo tempo, até que a cidade cresceu em redor e o cemitério municipal foi construído por cima. E o que estava debaixo ficou debaixo, sem que ninguém que planeou a construção soubesse ou se importasse com o que estava a planear cobrir. O Sr.
Benedito disse que em 42 anos tinha aprendido a diferença entre os setores do cemitério, da mesma forma que se aprende a diferença entre divisões de uma casa velha. Você sente antes de ver, sabe antes de entender. E aquele setor específico, ele tinha [música] aprendido a tratar com um respeito que ia para além do profissional, porque havia ali uma presença que não era de um morto específico, nem de uma família específica.
Era de uma [música] camada inteira de gente que nunca teve o que merecia e que o tempo não tinha apaziguado. Disse que o que estava debaixo daquele chão não era raiva, pelo menos não só raiva, [a música] era solidão. Era a solidão de quem foi esquecido de uma forma tão completa que nem o próprio nome ficou e que quando um jovem arrancado da vida com violência e sem despedida era sepultado ali em cima, aquela solidão antiga reconhecia-a e não largava.
Não por crueldade, mas porque a eternidade de esquecimento é mais suportável com companhia. E a alma que chega ali, demasiado jovem e violentada demais, não tem ainda força suficiente resistir ao que está à espera embaixo. Eu ouvi aquilo sentado na guarita com o café do senhor Benedito arrefecendo à minha frente e com o sol de São Luís descendo do lado de fora, como se o mundo não me tivesse acabado de contar que o chão onde trabalhava há 26 anos era mais fundo e mais carregado do que tinha imaginado. Perguntei ao
seu Benedito o que eu devia fazer. Ele olhou para mim com aquela expressão de quem vai dar uma resposta que não é a que a pessoa quer ouvir e disse que não havia muito a fazer para além de fazer o trabalho com o respeito [música] de sempre e de não ficar naquele setor mais tempo do que o necessário depois de o serviço estivesse terminado, que era o que ele fazia há décadas e que era o que recomendava, que havia coisas que não tinham solução humana disponível [música] e que a sabedoria estava em reconhecer isto sem entrar em conflito com o que
não se pode resolver. Eu voltei [música] para casa naquela noite diferente de como tinha saído de manhã, não com medo paralisante, não com a intenção de pedir transferir [música] ou largar o emprego, com o peso específico de quem recebeu uma informação que altera a forma de ver um lugar familiar. Como quando se descobre uma história antiga sobre a casa onde cresceu e passa a olhar para as paredes com olhos que não conseguem mais ser completamente os mesmos de antes.
Os meses que se seguiram foram de adaptação. Aprendi a trabalhar naquele setor da forma que o o senhor Benedito tinha descrito, com o respeito redobrado, com o cuidado de não demorar mais tempo do que o necessário, com a atenção às variações do lugar que já tinha antes, mas que agora tinha um contexto que as tornava mais legíveis.
As manifestações não pararam, mas eu aprendi a conviver com elas de uma forma que não era indiferença e não era rendição. Era o equilíbrio precário de quem descobriu os limites do que pode controlar. e aprendeu a respeitar estes limites. As vozes comecei a ouvir talvez uns seis meses depois do enterro de Filipe.
Nem sempre, nem sempre que passava pelo setor, mas em dias específicos, dias de calor mais pesado ou de humidade mais elevada, quando o ar de São Luís ficava com aquela qualidade densa que parece pressionar de todos os lados. vinham debaixo, não de um ponto específico, mas de uma área ampla, como se o chão inteiro estivesse a produzir aquilo. Era o meu nome.
Não havia dúvida sobre o que estava a ser dito. Era Edilson, pronunciado com uma clareza que não admitia ambiguidade, mas com um timbre que não era humano no sentido completo. Era como o meu nome pronunciado por algo que tinha aprendido como meu nome soava, mas que não tinha a boca feita para produzir sons humanos.
Eu aprendi a ouvir e continuar a andar. Aprendi que parar e responder não era o que a situação exigia. As pegadas molhadas eu Encontrei pela primeira vez numa manhã de Março de 2004, dois dias depois de um funeral de uma jovem mulher de 27 anos que tinha sido morta numa rixa de família. Estava uma manhã seca. São Luís encontrava-se num período sem chuva que já durava semanas e as pegadas [música] circulavam três sepulturas diferentes do setor, num padrão que não tinha explicação física [música] disponível, molhadas com umaidade que era de dentro
da terra, e não do exterior, como se o chão tivesse transpirado em pontos específicos durante a noite. Eu fiz o que aprendi a fazer, continuei o serviço, não chamei ninguém, não fotografei, não transformei em assunto. informação, era o local a dizer-me alguma coisa e a coisa que estava dizendo eu já sabia. As figuras de costas ao entardecer eu comecei a ver talvez uns dois anos depois, em 2004 para 2005, quando a luz de São Luís, ao fim da tarde ficava com aquele dourado [música] denso que é específico do Maranhão e que altera a
qualidade de tudo o que ilumina. eram figuras paradas entre as lápides de costas, sempre de [música] costas, sempre em silêncio, com aquela imobilidade que eu reconhecia desde a primeira vez que tinha visto o Filipe parado em frente da própria sepultura. [música] Nunca mais de três ou quatro de uma vez, nunca se mexendo enquanto eu não olhava diretamente, desaparecendo sempre quando eu focava os olhos nelas, mas permanecendo no canto do olho enquanto olhava para outro lado.
Aprendi a não olhar diretamente. Aprendi que olhar diretamente era o que pareciam estar à espera e que não olhar era o que permitia que o equilíbrio se mantivesse. Este equilíbrio foi o que me manteve trabalhando naquele local há 18 anos depois do funeral de Felipe. Não era conforto, não era ausência de medo, era o tipo de convivência que se constrói quando a alternativa é largar um trabalho que sustenta a família e que, fora aquele setor específico, era trabalho que fazia com orgulho e com o [música] sentido que poucos trabalhos
dão. Tinha aprendido os limites, tinha aprendido as regras não escritas daquele chão. E dentro destas regras, eu funcionava. Até 2020, a pandemia chegou em São Luís com uma força que o cemitério não estava estruturado para [música] receber. Os números subiram rápido, mais rápido do que qualquer planeamento tinha previsto.
E o setor mais antigo foi um dos que recebeu mais enterramentos nesse período, porque era um dos que tinham mais espaço disponível. Eu tentei argumentar com a administração que havia outros setores, [música] que havia formas de distribuir de forma diferente, mas não havia como argumentar com números e com urgência, e os enterros foram chegando àquele chão, a uma velocidade que o chão não estava preparado para receber.
O que tornava aquilo diferente de tudo o que eu tinha vivido antes, não era só a quantidade, era a natureza dos enterramentos. Protocolos de isolamento significavam cerimónias mínimas. Famílias que não podiam ficar ao lado, orações encurtadas ou suprimidas. O rito que separa a despedida de abandono sendo reduzido a menos do que o mínimo.
Alma após alma, chegando naquele chão sem o que eu tinha aprendeu que aquele chão exigia, [música] sem o cuidado, sem a cerimónia, sem alguém que ficasse ao lado até ao final. E o que estava em baixo, que eu tinha aprendido a conhecer ao longo de 18 anos, respondeu a tudo aquilo de uma forma que não tinha precedente em nada, que tinha experimentado antes.
As vozes tornaram-se constantes, não só nos dias de calor e humidade mais elevada, todos os dias, a qualquer hora, qualquer condição climática. O meu nome chamado vezes durante o serviço, às vezes sobreposto, como se mais do que uma coisa estivesse a chamar ao mesmo tempo, cada uma ao seu ritmo, criando uma sobreposição que era mais perturbadora do que qualquer grito poderia ser.
As figuras ao entardecer multiplicaram-se, passaram de três ou quatro para 10, 12, em alguns dias mais do que conseguia contar antes de desviar o olhar. E começou algo novo que nos 18 anos anteriores nunca tinha acontecido. Comecei a sentir contacto físico, não agressivo, não violento, mas inequívoco. Um toque nas costas, uma pressão no ombro, a sensação de dedo que passa pelo braço com uma temperatura que não era de vento e não era de inseto.
Acontecia quando estava de costas para alguma sepultura. Sempre de costas, sempre num momento de concentração no serviço, quando a minha atenção estava noutra direção. Aguentei até agosto de 2020. Numa manhã de Agosto, cheguei ao portão do cemitério, parei antes de entrar e olhei para o setor mais antigo lá no fundo com aqueles olhos de 26 anos de trabalho que conheciam cada detalhe daquele lugar melhor do que qualquer outro lugar no mundo.
[música] soube, com a certeza que não precisa de argumento e não aceita negociação, soube que tinha chegado ao limite do que era possível pedir a um homem que faz este trabalho com respeito e com fé, mas que é também de carne e osso, e que tem um ponto em que a carne e o osso não sustentam mais o que está a ser pedido.
Entrei, dirigi-me à administração e pedi transferência para o cemitério do outro lado da cidade, onde a câmara municipal estava precisando de gente experiente. Consegui em duas semanas. Nunca voltei ao setor mais antigo daquele [música] cemitério depois desse agosto. Trabalho até hoje, 51 anos e dois cemitérios diferentes nas costas.
E faço o meu trabalho com o mesmo cuidado e o mesmo respeito de sempre. Mas há uma coisa que faço diferente desde 2002 que não fazia antes. Em cada funeral de pessoa jovem, em cada caixão que chega cedo demais por qualquer razão que seja, eu fico mais um tempo depois que a família vai embora. Não muito. Não o suficiente para criar abertura pro que não deve ser aberto.
Só o suficiente dizer em voz baixa, com o respeito de quem aprendeu o peso das palavras num lugar como este, que a pessoa que chegou ali pode ir, que do lado de cá vai ficar tudo bem, que os que ficaram vão continuar e que seguir em frente não é abandono de ninguém, é o que é necessário ser feito.
Não sei se resolve alguma coisa, mas sei que é o que posso oferecer. E em 26 anos aprendi que, por vezes, o que a gente pode oferecer, mesmo que seja pequeno, é suficiente. Respeite os mortos como gostaria de ser respeitado quando chegar a sua hora, porque essa hora chega para todos sem exceção e sem aviso. E quando o peso do que está para além do visível parecer demasiado grande para carregar, apeguem-se a Deus.
Porque foi a fé que me manteve de pé naquele setor durante 18 anos, quando tudo o que eu tinha aprendido a chamar de normal não dava mais conta do que eu estava a ver. E foi ela que me deu clareza para reconhecer quando era altura de ir embora, sem que isso fosse fraqueza. M.