EX-COVEIRO CONTA O QUE VIVEU NO CEMITÉRIO EM 1997 | História de Terror Real
EX-COVEIRO CONTA O QUE VIVEU NO CEMITÉRIO EM 1997 | História de Terror Real 
no cemitério da Consolação em setembro de 1997. Um rapaz passou por mim de manhã. Ele parecia uma pessoa qualquer, só que o que senti naquele segundo não foi normal, mas ele voltou e desta vez falou comigo. E quando descobri quem ele era, percebi o que ele precisava. Meu nome é Arlindo Ramos, tenho 81 anos e esta é a minha história em minutos.
Eu tinha 52 anos e quase 30 anos de cemitério nas costas. Já achava que não não havia mais nada naquele lugar que fosse apanhar-me de surpresa. Mas estava errado. Era ainda cedo, umas 7:30 da manhã. O céu estava fechado desde que eu tinha chegado. E o cemitério a essa hora tem uma quietude diferente.
Eu gostava desse horário. Não há conversa, não há família ao lado, não há ninguém a pedir informação, é apenas a terra e o que precisa ser feito. A cova que precisava de abrir encontrava-se no meio do setor, entre duas sepulturas mais antigas. Era um trabalho de cerca de 3 horas. Eu comecei cedo para ter tempo para acabar antes do almoço.
O corpo fazia o serviço enquanto a cabeça ficava à toa. Nada de diferente naquela manhã. Eu já tinha trabalhado em muitos sábados assim, mas havia uma coisa estranha naquela manhã que só fui perceber depois. Estava mais sossegado do que devia. Não havia pássaro, não havia vento, apenas o barulho da minha pá a entrar na terra.
E quando levantei os olhos, eu vi, era um rapaz, com cerca de 30 e poucos anos, roupa simples, passo tranquilo, igual a qualquer pessoa que entre num cemitério para visitar alguém. Não tinha nada de diferente nele. Eu olhei e voltei a trabalhar. Era cedo, mas não era raro ter visita mesmo assim. Só que no segundo que ele passou ao meu lado, aconteceu alguma coisa que eu não saiba explicar até hoje.
Não foi um arrepio, não foi frio, foi outra coisa. Parecia que uma parte de mim se tivesse apercebido algo que os meus olhos não tinham visto. Eu Virei-me para olhar e o rapaz continuava pelo caminho, sem pressas, sem olhar para trás. Eu fiquei a olhar por uns três segundos, pensando que ia perceber de onde tinha vindo aquilo, mas não.
Então, abanei a cabeça e voltei ao serviço. Mas aquela sensação não desapareceu. Dava a impressão de que alguma coisa tinha ficado parada naquele ponto do caminho e continuava a sentir dali, mesmo de longe. Tentei não dar bola. Em quase 30 anos, já tinha aprendido que o cemitério entra na cabeça de quem deixa. Eu nunca fui desse tipo.
Tinha colega que trabalhava se meses ali e pedia para sair porque não aguentava o peso do lugar. Eu nunca percebi isso. Então tentei esquecer aquilo e continuar o serviço, mas não adiantou. Parte de mim estava a prestar atenção a algo que eu não sabia o que era. Não era medo. Mas eu ficava com um olho naquele caminho de pedra, sem saber o que esperava ver.
Perto das 11 horas da manhã, fui guardar as utensílios para comer alguma coisa antes do enterro da tarde. O trajeto de volta passava pelo mesmo ponto onde o rapaz se tinha cruzado comigo mais cedo. E quando comecei a caminhar nessa direção, Fui lembrando daquela sensação e os os meus pés pararam sozinhos no meio do caminho sem o ter mandado parar.
foi automático. Só que desta vez eu estava olhando para o ponto exato onde tinha passado horas antes e alguma coisa voltou. Não igual ao que tinha sentido da primeira vez. Era mais pesado agora e não estava lá ninguém. Era um corredor vazio entre duas filas de lápides. O vento não estava a passar e fiquei parado no meio daquilo, sem conseguir dar o próximo passo por uns segundos.
Olhei para cada lado, não não tinha ninguém. Olhei paraa frente e para trás. Era só eu naquele pedaço de pedra e terra. Era como se o chão ali guardasse algo que ainda não tinha chegado a compreender. Eu forcei o passo e saí dali. Comi, voltei ao serviço e passei à tarde no funeral das 14 horas. Uma família pequena, enterro rápido, sem complicação nenhuma, mas aquela coisa da manhã continuava ali, quieta, à espera.
Eu podia sentir, mas ainda não sabia que a espera ia terminar nesse mesmo dia. Eram quase 17 horas, quando a família do enterro foi-se embora e o consolação foi esvaziando. O sol já estava a descer atrás dos prédios que rodeiam o cemitério e eu ainda estava no setor central. terminando o último serviço do dia, quando a coisa voltou de uma forma que eu não reconhecia.
Não era mais um rasto no ar, já não era aquilo, era uma presença pesada, próxima. E então levantei a cabeça e estava lá outra vez, parado a uns 10 m de mim, roupa escura, a mesma postura quieta, olhando na minha direção. E desta vez não tentei racionalizar de imediato. Fiquei a olhar de volta, com a pá ainda na mão, sem saber o que fazer com o que estava a ver.
Mas eu não me movi e o rapaz também não. E foi aí que percebi que aquilo que tinha voltado não era a mesma coisa de quando ele passou ao meu lado de manhã. Tinha mudado, era outra coisa. Começou nos ombros, um peso que não estava lá um segundo antes e apareceu sem avisar. Depois foi descendo lentamente para o peito, como uma pressão que não doía, mas que também não deixava esquecer que estava ali.
Respirei fundo uma vez, depois mais uma, mas não adiantou nada. continuou da mesma maneira, como se aquele todo o peso tivesse vindo de um só ponto. E esse ponto era exatamente onde o rapaz estava parado, imóvel e com os olhos na minha direção. Então eu disse para mim mesmo que era alguém que tinha ficado depois do enterro, um familiar que precisava de um tempo extra.
Isso acontecia bastante. Então desviei o olhar, fingi que ia continuar o serviço e fiquei a observar pelo canto do olho, esperando que ele saísse. Mas ele não se moveu. Ficou exatamente onde estava, na mesma posição com os olhos postos em mim. Que pessoa fica assim, parada num cemitério, olhando para um coveiro há tanto tempo, sem desviar o olhar, sem dar um passo, sem fazer qualquer gesto.
Aquilo não era comportamento normal e o peso no meu peito foi aumentando. Do mesmo modo que a tarde tinha chegado sem eu me aperceber, lenta e constante. Aquela pressão foi crescendo como se estivesse a preencher um espaço que antes estava vazio. E eu Percebi que não ia desaparecer sozinha e que ia ter de fazer alguma coisa.
Então decidi ir até lá. Foi aquela coisa de encarar o que tememos de frente. Era simples. Eu trabalhava ali. Aquele era o meu setor. Se tinha alguém parado ali que precisava de alguma coisa, era comigo. Depois firmei o passo e Comecei a caminhar na direção dele. O que senti enquanto andava, não esperava.
Cada passo que dava na direção dele, aquela pressão crescia um pouco mais. Era o tipo que dá vontade de correr para longe, mas continuei porque parar a meio do caminho sem motivo nenhum parecia pior do que chegar até lá e ver o que era. Eu tinha dado uns cinco passos quando o cemitério mudou. Não foi o rapaz que me avisou, foi o lugar. O silêncio tornou-se diferente.
Um tipo de silêncio que nunca tinha sentido em quase 30 anos. Esse silêncio era outro. Era como se todo o lugar tivesse a suster a respiração. Eu parei a meio do caminho e olhei para o rapaz. Ele continuava ali a olhar para mim. Só que agora conseguia ver melhor. O rosto dele era comum, não [pigarreia] não tinha nada de errado. Mas os olhos não estavam bem.
Não era a cor ou o tamanho, era o que não tinha neles. Era um olhar vazio, diferente de tudo o que eu já vi. Eu fiquei parado a olhar para ele durante um tempo. O peso no peito tinha chegado a um nível que eu sentia em cada respiração, um aperto constante que não doía, mas que não me largava. E foi neste silêncio todo, nesta quietude toda, que a boca dele se abriu.
Não saiu nenhum som pelo ar. Eu vi a boca a mover. Vi que ele estava a dizer alguma coisa, mas o cemitério continuava quieto, sem que nada me chegasse. E depois aquilo veio, não pelos ouvidos, veio de dentro da minha cabeça, claro e direto, como se alguém tivesse falado de dentro de mim, sem pedir licença nenhuma. Foram poucas palavras.
Uma frase curta que chegou com uma clareza que nunca tinha sentido antes e disse: “A minha dor acabou agora”. Preciso que me deixe descansar. Não era a minha voz. Não era o tipo de pensamento que a gente tem quando fala consigo mesmo no silêncio. Era uma voz diferente da minha, de um homem mais novo, falando palavras que não coloquei na minha cabeça.
E naquele momento eu próprio não sabia o que fazer com aquilo. Não fazia sentido. Era uma coisa solta, sem contexto, que chegou e ficou presa na a minha cabeça. Mais do que qualquer coisa que tinha carregado naquele dia. Eu precisava de compreender e ainda não conseguia. O corpo foi mais rápido que o cabeça, porque antes de eu conseguir pensar em qualquer coisa, ouvi um barulho atrás de mim, um portão a bater do outro lado do cemitério, um barulho comum do dia a dia que naquele silêncio todo cortou o ar de uma forma que me fez virar a cabeça por instinto, sem querer.
E quando olhei de volta, ele não estava mais lá. Não tinha ido embora pelo caminho, não tinha saído a andar, estava lá e depois não estava. Sim. assim, do forma mais impossível que já vi em toda a minha vida. E dentro da minha cabeça ficou a frase, frase essa que não era minha e que naquela altura eu ainda não sabia o que tinha de fazer.
Eu devia ter ido embora, mas os meus pés não obedeceram. Eu fiquei parado no meio do setor central com aquela frase dentro da cabeça e não consegui dar um passo em direção ao portão. Não era medo de ir embora, era diferente. Era como se uma parte de mim soubesse que sair naquele momento seria um erro que ia lamentar.
E eu não sabia explicar de onde vinha aquilo. O sol tinha descido atrás dos edifícios. As sombras entre as lápides ficaram mais compridas. Os caminhos de pedra ficavam mais escuros e alguma coisa no fundo da cabeça ficava ligada a um nível que não controlava, atenta, à espera de alguma coisa que eu não sabia nomear.
E a frase continuava lá: “A minha dor acabou. Agora preciso que me deixe descansar”. Era como se aquelas palavras tivessem peso próprio, como se ocupassem um espaço dentro da cabeça que não era meu e que não iam sair até que eu fizesse alguma coisa com elas. Só que eu ainda não sabia o quê. Então comecei a caminhar lentamente pelo setor central, sem destino certo.
Eu andava entre as lápides e tentava organizar o que tinha acontecido naquele dia de uma forma que fizesse sentido, mas não conseguia. Foi aí que percebi que a sensação tinha mudado de novo. Já não era o peso no peito que veio ao fim da tarde, não era mais aquela pressão que subia e descia com a respiração, era outra coisa.
Era como se a minha própria cabeça não fosse completamente minha naquele momento. E sabia distinguir o que era meu do que aparecia. Eram diferentes no jeito, no peso, no ritmo. O que era meu tinha a a minha voz. O que aparecia tinha outra consistência. Chegava pronto, sem construção, sem se aperceber, e ficava.
Eu Parei a meio de um caminho entre duas fileiras de lápides e fiquei quieto durante um tempo. Tentei esvaziar a cabeça, Fechei os olhos por uns segundos e quando abri, foi aí que vi uma lápide a cerca de 8 m de mim. Mas tinha uma coisa que eu percebi antes de qualquer pensamento, como quem está perto de algo que deveria estar, não à toa, com uma intenção que senti antes de compreender o que estava a ver.
E a minha cabeça estranhamente ficou quieta, não acelerou, não disparou, ficou muito quieta e eu dei um passo na direção do túmulo, depois mais um. E cada passo que eu dava chegava mais facilmente do que o anterior, como se o caminho até ele fosse menor do que parecia. E quando eu estava a cerca de 3 m dele, parei perto o suficiente para ver a lápide e a foto com clareza.
Era uma lápide simples, sem enfeite. A foto era do mesmo rapaz que tinha visto antes, a mesma expressão, com um nome e duas datas gravadas na pedra. E baixei os olhos para ler. Rafael Pereira, nascido em 1960, faleceu em 1995. Li uma vez, li de novo, porque precisei de dois segundos para que aquilo se encaixar na minha cabeça.
A foto na pedra era o mesmo rapaz que eu tinha visto horas antes. Eu estava em choque demais com o resto, mas estava lá. E só nesse momento, parado em frente daquela lápide, é que eu percebi o que significava. O espaço ocupado dentro da a minha cabeça, aquele lugar que não era meu, tinha esvaziado de uma vez, sem aviso, sem transição, simplesmente sumiu.
A frase ainda lá estava, mas o peso que ela carregava era diferente. Agora, antes ela era uma coisa solta, sem dono, sem destino. Agora sabia de onde tinha vindo. Eu fiquei parado na frente daquela lápide, Rafael Pereira. faleceu em 1995, 35 anos. Um rapaz que nunca tinha visto em vida e que passou o dia inteiro ao meu lado a tentar dizer-me uma coisa que demorei horas a entender.
A cabeça estava quieta de uma forma que eu não esperava. Não era alívio, era clareza do tipo que aparece quando o gente finalmente vê o que estava na frente o tempo todo. Foi então que eu ouvi os passos. vindo pelo caminho de pedra atrás de mim, devagar, pesados, de alguém que carregava anos nas pernas. Eu Virei-me devagar.
Era um senhor, devia ter os seus 70 anos, cabelo branco, roupa de quem tinha vindo a um funeral. Não me olhou de imediato. Estava de cabeça baixa, ao ritmo de quem sabe onde quer chegar. Parou em frente da lápide do Rafael a cerca de 2 m de mim. ficou quieto por um tempo, olhando paraa pedra, sem perceber que eu estava ali.
Então, levantou os olhos e viu-me. Não se assustou. Só fez um ligeiro aceno com a cabeça da maneira que as pessoas fazem num cemitério quando se cruzam com alguém que não conhecem. Eu ia dar um passo para trás e deixá-lo à vontade. Mas antes que eu me mexesse, ele olhou para a lápide de novo e falou baixo, quase para si mesmo.
Disse que é difícil enterrar um filho e que este era o dele. Eu Parei e alguma coisa dentro de mim que estava quieta desde que o Rafael tinha sumido começou a mexer-se de novo. Não era o peso de antes, não era a pressão no peito, não era nada daquilo, era outra coisa. Era o encaixe, a sensação de quando uma peça que estava solta de de repente encontra o lugar onde sempre deveria ter ficado.
Eu olhei para lápide, olhei para o senhor, um homem de 70 anos de pé em frente do túmulo do filho que tinha vindo a um funeral de um amigo nesse mesmo dia e parado aqui antes de ir embora. Tudo o que aconteceu desde a manhã passou-me pela cabeça num segundo e eu percebi. Não planeei o que fiz a seguir.
Não pensei se era certo ou errado, se o homem me ia compreender ou achar-me louco. A frase estava dentro de mim desde o final da tarde e ela precisava sair. Simples assim. Abri a boca e falei com as mesmas palavras que tinham chegado dentro da minha cabeça horas antes. A minha dor acabou. Agora preciso que me deixe descansar. O Senhor virou o rosto para mim lentamente.
Eu não soube ler a expressão dele de imediato. Não era susto, não era raiva, não era a cara de quem acha que o outro perdeu o juízo. Era outra coisa que eu só fui perceber depois. Era o rosto de alguém que acabou de ouvir algo que estava à espera sem saber que estava esperando. Ficámos os dois em silêncio durante um tempo que não sei medir.
Ele olhava para mim, eu olhava para ele e a lápide do Rafael estava entre nós os dois, sem que nenhum precisasse de apontar para ela. Não expliquei nada, não sabia como explicar e ele não pediu explicação nenhuma. só ficou a olhar com aquele rosto que nunca mais esqueci. Depois voltou-se de novo para o túmulo, colocou a mão na pedra por um instante, um gesto curto e quieto, e ficou assim durante uns segundos.
Eu dei um passo atrás para deixar o espaço dele. Já não era minha tempo de estar ali. Eu tinha feito o que precisava de ser feito. O resto era entre aquele pai e o seu filho. Saí pelo caminho de pedra sem olhar para trás. Os os meus passos no chão pareciam mais leves do que de manhã, mas não parei para pensar nisso na hora.
Só andei até ao portão, saí da consolação e peguei no caminho de regresso a casa. A noite já tinha fechado do lado de fora do cemitério. A rua estava barulhenta, do jeito normal de São Paulo, e eu estava no meio de tudo aquilo, sem conseguir encaixar o que tinha vivido naquele dia em nenhuma gaveta que eu conhecesse. Nessa noite dormi fundo.
Não foi uma coisa que eu planeei. Não foi cansaço de serviço. Foi diferente. Eu deitei-me e o sono veio de uma vez, sem o meio tempo de estar a pensar que sempre acontece quando a cabeça está ocupada. E foi só de manhã quando acordei e Percebi o quanto estava descansado, que percebi o que tinha assumido. O peso que estava comigo desde que o Rafael passou ao meu lado de manhã tinha ido embora juntamente com a frase e só me apercebi o quanto era pesado pela leveza que ficou no lugar.
Trabalhei mais dois anos na Consolação antes de me aposentar em 99. Durante esse tempo passei pela lápide do Rafael muitas vezes. Nunca mais vi nada. Nunca mais ouvi nada. Nunca mais senti aquela coisa que não tinha nome a parecer do nada. O setor ficou sendo só o setor de novo, com pedras e terra e o silêncio normal de um cemitério que eu conhecia há décadas.
Uns oito meses antes de me reformar, encontrei o Senhor de novo no cemitério. Ele tinha voltado para a consolação visitar o filho, como fazia de tempos a tempos. A gente se reconheceu de longe. Ele acenou, eu fui ter com ele. Desta vez a gente conversou de verdade. Ele me contou sobre o Rafael. Disse que o filho tinha tido uma vida difícil desde jovem.
muita doença, muito remédio, muita dor que não ia embora nunca e disse que carregava uma culpa que não saía, a sensação de que podia ter feito mais, estado mais próximo, encontrado alguma coisa que aliviasse o sofrimento do filho antes de ele ir. Aquela culpa ficou nele depois da morte do Rafael como uma coisa que não tinha para onde ir.
E assim se manteve durante anos até aquela noite no cemitério. Eu ouvi tudo sem falar muito. Não havia nada a dizer. Eu era apenas um coiro de 50 e poucos anos que tinha passado um dia a carregar uma mensagem que não era minha para entregar a um homem que não conhecia. Não tinha explicação para isso que eu pudesse dar. Mas, enquanto ele falava, eu compreendia cada vez mais o peso que o Rafael tinha carregado em vida e entendia porque é que aquelas palavras precisavam de chegar. A minha dor acabou.
Agora preciso que me deixe descansar. Não era apenas um pedido para ir embora. Era o filho a dizer ao pai que estava bem, que o sofrimento tinha ficado para trás, que podia largar a culpa que estava carregando, porque não tinha mais o que carregar. Era a única coisa que aquele pai precisava de ouvir e foi um coveiro do consolação que teve de entregar.
Hoje Tenho 81 anos. Não acredito em muita coisa que não se consegue ver e tocar. Nunca fui de acreditar. Mas o que vivi naquele sábado de Setembro de 97, vi com estes olhos e senti com este corpo. E há uma coisa que eu sei até hoje, sem dúvida nenhuma. Há gente que vai embora e não consegue descansar enquanto deixa alguém para trás, carregando um peso que não precisava de carregar.
E, por vezes, de uma forma que eu não sei explicar, eles encontram um caminho. Se tem alguém que partiu e que sente que foi embora com alguma coisa inacabada entre vós, deixa uma vela ou um acredito que essa pessoa será lembrada e rezada por ela e por si. Que Deus abençoe vós e às vossas famílias. Até ao próximo relato.