EX- COVEIRO: O TÚMULO DA MENINA RICA… DESDE 1930, ALGO ALI NÃO DESCANSA | História de Terror Real
EX- COVEIRO: O TÚMULO DA MENINA RICA… DESDE 1930, ALGO ALI NÃO DESCANSA | História de Terror Real 
Dizem que o cemitério é um lugar de silêncio absoluto, mas quem trabalha no turno da noite no cemitério do Bom Fim, em Belo Horizonte sabe que as pedras falam quando a chuva cai. Eu trabalho lá há 18 anos e sempre soube que não devia chegar perto do mausoléu da família Medeiros depois de os portões de ferro se fecharem às 18 horas.
O problema é que a ganância de um visitante novato falou mais elevado do que o respeito pelos mortos naquela sexta-feira de tempestade em 2011. Viu a boneca de porcelana antiga trancada dentro da capelinha de vidro no túmulo de uma menina que morreu em 1930 e pensou que podia roubar aquela relíquia para vender em algum antiquário da cidade.
Eu tentei avisar quando o vi rondando, mas ele escondeu-se e esperou o escuro. O que ele não sabia é que quando ele partiu a tranca [música] enferrujada e colocou as mãos na boneca, não foi o alarme que tocou, foi o riso da menina. E a boneca ao colo dele abriu os olhos de vidro e segurou-lhe o pulso com a força de um adulto.
O meu nome é Sebastião Ferreira, tenho 60 anos e este é a história da noite em que aprendi que alguns brinquedos não têm dono, tem refréns. O cemitério do Bomfim é conhecido por ser uma cidade de mortos ricos. Quem anda por aquelas alamedas largas vê estátuas de bronze que valem mais do que toda a minha casa e mausoléus de mármore carrara que parecem palácios em miniatura.
Comecei a trabalhar lá como coveiro e jardineiro no início dos anos 90 e logo aprendi a respeitar a hierarquia daquele lugar. Há defuntos que descansam e têm defunto que vigia. A família Medeiros era uma das mais ricas da época do café e da mineração. E o túmulo deles ficava na quadra nobre, perto da entrada principal, onde as árvores são mais antigas e fazem uma sombra eterna, mesmo quando está sol.
Mas o destaque daquele jazigo não era o tamanho e nem a riqueza das estátuas de anjos a chorar. O destaque era a pequena capela lateral construída especialmente para a filha caçula. A menina chamava-se Ana Medeiros, mas todos os registos e a lenda local conheciam-na por Aninha. Ela faleceu em 1930 vítima de febre escarlatina, quando tinha apenas 7 anos de idade.
Dizem os antigos que ela sofreu muito antes de partir e que a febre era tão elevada que ela delirava e pedia pelos brinquedos a toda a hora. Mãe dela enlouqueceu de dor com a perda e mandou construir aquele anexo no túmulo que parecia uma casa de bonecas em tamanho real, feita de pedra e vidro. Dentro desta casinha, protegida por uma porta de vidro temperado e grades de ferro trabalhado, ficava a coleção de brinquedos da menina.
Tinha cavalinho de madeira, tinha jogo de chá de prata e tinha a sua preferida, que era uma boneca de porcelana francesa com cabelos encaracolados reais e um vestido de seda azul que combinava com o vestido que a Aninha usava no caixão. Durante o dia, o túmulo da Aninha até era bonito de se ver.
Muita gente deixava rebuçados e doces à porta da capelinha como oferenda pedindo proteção para as crianças doentes. Mas à noite a coisa mudava de figura. A iluminação pública da rua lá fora batia nos vidros da capela e criava estranhos reflexos. Parecia que os brinquedos mudavam de lugar quando pestanejava. Eu sempre evitava passar por ali nas minhas rondas noturnas.
Sentia um cheiro forte a talco antigo misturado com formol, sempre que o vento soprava daquela direção. E aquilo dava-me um nó no estômago que eu não sabia explicar. Os outros coveiros diziam que eu era medroso, mas preferia ser medroso e vivo do que corajoso e amaldiçoado. Nessa sexta-feira de novembro de 2011, o tempo fechou cedo.
As nuvens negras cobriram a serra do curral e o trovão começou a ressonar longe, anunciando que vinha chuva intensa. O cemitério estava quase vazio. Eu estava a fazer a varrimento final para fechar os portões quando vi um rapaz a rondar a quadra da família Medeiros. Não parecia um visitante comum que estava ali para rezar.
Ele estava vestido com um blusão de couro largo demais para o calor que fazia antes da chuva e transportava uma mochila pesada nas costas. Olhava para os lados o tempo todo com aquele jeito nervoso de quem está calculando o momento do bote. Eu me aproximei-me dele, batendo com as chaves na grade para fazer barulho e avisei que o cemitério ia fechar em 10 minutos.
Assustou-se e virou-se para mim com um sorriso forçado, dizendo que estava só admirando a arte e que já estava de saída. Olhei nos olhos dele e vi a mentira. Suava frio e os olhos dele voltavam o tempo todo para a capelinha de vidro, onde a boneca de porcelana estava sentada numa cadeirinha de balanço.
Senti uma energia ruim vindo daquele rapaz. Avisei mais uma vez que precisava de sair e ele concordou com a cabeça e começou a caminhar em direção à saída. Eu fiquei a olhar até ele dobrar a esquina da administração e desaparecer de vista. Pensei que ele tinha ido embora. Foi o meu erro. A chuva começou forte meia hora depois.
Eu já tinha trancou o portão principal e estava na guarita dos fundos a preparar o meu café. Quando a luz piscou e se apagou, o cemitério ficou mergulhado na escuridão total, quebrado apenas pelos relâmpagos que rebentavam no céu e iluminavam as estátuas brancas como se fossem fantasmas gigantes. Eu fiquei inquieto.
Aquele rapaz não tinha-me convencido. O instinto de guarda falou mais alto e decidi pegar na minha lanterna e capa de chuva para dar uma última volta à quadra nobre, só para garantir que tudo estava em ordem. Caminhei debaixo do aguarceiro, sentindo a água gelada entrar pela gola da capa. O barulho da chuva nas folhas das árvores era ensurdecedor.
Quando cheguei perto do túmulo da [música] família Medeiros, eu vi a luz de uma pequena lanterna a baloiçar lá dentro da área do jazico. O rapaz tinha voltado. Ele devia ter [música] saltado o muro baixo dos fundos ou se escondido em algum mausoléu aberto. Ele estava agachado em frente da capelinha de vidro da Aninha.
mexendo na fechadura da grade com alguma ferramenta de metal. Eu ia gritar para ele parar e ia correr para lá para o expulsar na base da força, se precisasse. Mas antes que eu pudesse dar o primeiro passo, aconteceu algo que me fez travar no lugar. O vento parou de repente. A chuva continuava a cair direita e pesada, mas o vento que balançava as árvores cessou como se o mundo tivesse prendido a respiração.
E no meio do barulho da água, ouvi uma música. Era um som metálico e tintilante, como os caixinhas de música antigas de dar corda. A melodia era lenta e desafinada a uma canção de Ninar, que parecia estar sendo tocada por dedos que não tinham força. O rapaz também ouviu. Eu vi quando deixou de mexer na fechadura e olhou para os lados assustado, iluminando a chuva com a sua lanterna.
Ele devia ter pensado que era algum brinquedo eletrónico ou alarme. A a sua ganância era maior que o medo. Ele voltou a forçar a grade e ouvi o estalido seco do cadeado velho se rompendo. Abriu a grade de ferro que rangeu alto como um lamento. Agora só restava o vidro temperado entre ele e a boneca.
Eu apontei a minha lanterna na sua direção e gritei com toda a força do meu pulmão para ele se afastar. A luz da minha lanterna pegou -lhe de surpresa. Ele virou-se para mim com os olhos arregalados, mas em vez de correr, tomou uma decisão estúpida. Ele decidiu que já tinha ido longe demais para sair de mãos vazias. Ele tirou um pequeno martelo da mochila e bateu no vidro da capela.
O vidro rebentou com um barulho de explosão, espalhando cacos brilhantes pelo chão de pedra. O rapaz meteu a mão no buraco do vidro, ignorando os cortes que os cacos faziam no seu braço, e agarrou a boneca de porcelana pelo pescoço. Ele puxou o brinquedo para fora com violência. A boneca era grande e tinha quase 60 cm de altura.
O vestido azul de seda estava empoeirado e os caracóis do cabelo real balançaram com o movimento brusco. Foi nesse momento exato em que tirou a boneca de dentro da proteção do túmulo que o inferno começou. Um raio caiu muito perto, talvez num dos ciprestes da entrada. E o clarão iluminou todo o cemitério com uma luz branca e ofuscante.
Nesse clarão vi a boneca. Ela estava suspensa no ar, segurada pela mão do ladrão. [grito] Mas a cabeça dela não estava caída para o lado como a de um boneco normal. A cabeça de porcelana estava virada para o rapaz e os olhos de vidro que deveriam ser fixos e pintados piscaram. A escuridão voltou, mas o grito do rapaz rasgou à noite.
Não foi um grito de susto, foi um grito de dor física intensa. Corri na direção dele, escorregando na lama e nas rochas molhadas. A sua lanterna tinha caído no chão e iluminava a cena de baixo para cima, criando sombras monstruosas. O rapaz estava a tentar soltar a boneca. Abanava o braço com força, tentando atiram o brinquedo para longe, mas a boneca não caía.
Eu cheguei a 5 m de distância e parei, iluminando os dois. O que eu vi fez-me duvidar da minha sanidade mental. A boneca de porcelana estava agarrada ao braço do rapaz. As mãozinhas pequenas e delicadas, feitas de cerâmica branca, estavam fechadas à volta do pulso dele, apertando a carne com tanta força que o sangue escorria por cima da luva de porcelana.
A pele do braço do rapaz estava roxa e afundada, onde os dedos da boneca apertavam. O rapaz gritava pedindo ajuda e chorava [música] como uma criança. Batia com a outra mão na cabeça da boneca. tentando quebrar a porcelana, mas o material parecia ter virado ferro. E então ouvi a gargalhada. Não vinha da boneca, vinha de dentro da capelinha de vidro partida.
Era uma riso fino e infantil, mas carregado de uma maldade que nenhuma criança viva deveria ter. A voz sussurrava no meio da chuva, misturada com o riso, dizendo que que era dela e que ele não tinha pedido. O rapaz olhou para mim com os olhos cheios de pavor e implorou-me tirar-lhe aquilo. Eu sou um homem religioso e ando sempre com um terço no bolso.
Mas naquele momento eu não sabia se a fé seria suficiente contra aquela raiva concentrada. Eu sabia que aquela boneca não era apenas um objeto. Ela era o receptáculo de uma obsessão de 80 anos. A Aninha não tinha morrido em paz. Ela tinha morrido apegada àquelas coisas materiais e a A mãe dela tinha alimentado essa prisão construindo aquele mausoléu.
Eu gritei para o rapaz ficar parado, mas ele estava em pânico. Ele começou a girar tentando bater com a boneca contra a quina de mármore do túmulo. Quando a boneca bateu na pedra, ouvi um som que não foi de porcelana a partir. Foi um som de osso. Instalando, o rapaz rou-o de dor e caiu de joelhos. O braço dele humano estava partido num ângulo estranho.
A boneca continuava inteira, sem qualquer arranhão, segurando o pulso dele e a torcer. E depois a coisa piorou. Da escuridão de dentro da capelinha de vidro, começou a sair uma névoa. Não era nevoeiro da chuva, era um fumo amarelada que cheirava a doença e remédio velho. O fumo começou a tomar forma ao lado do rapaz ajoelhado, a forma de uma menina pequena com um vestido de época cheio de folhos.
Apontei a lanterna para a figura. O rosto da menina não era normal. A pele estava vermelha e a descascar como se ela estivesse a arder de febre. Os olhos eram fundos e negros sem a parte branca. Ela olhava para o ladrão com uma curiosidade cruel, inclinando a cabeça para o lado. Ela estendeu a mãozinha feita de fumo e tocou no ombro do rapaz.
Onde ela tocou no blusão de couro dele, começou a fumegar como se tivesse encostado a ácido. O rapaz estava preso entre a boneca física, que esmagava o braço dele, e o espírito furioso que queimava-lhe o ombro. Ele olhou para mim uma última vez antes de desmaiar de dor. Eu precisava de fazer alguma coisa. Eu não podia deixá-lo morrer ali na minha frente, por mais errado que ele estivesse.
A sua punição já estava sendo dada, mas a morte seria demais. Eu respirei fundo, segurei o meu terço com força na mão esquerda e avancei. Eu não ia atacar a menina e a boneca também não. Eu tinha aprendido com os mais velhos que com estas coisas a gente não briga, a gente negoceia. Aproximei-me lentamente, falando alto e firme no meio da tempestade.
Chamei a menina pelo nome de Ana e disse que o rapaz não sabia o que estava fazendo e que era tolo. Pedi para ela soltá-lo e prometi que eu devolveria tudo e trataria do local e que ninguém levaria o que era dela. A figura de fumo deixou de queimar o ombro do rapaz e virou o rosto para mim. Aqueles olhos negros fitaram-me e eu senti o meu coração falhar uma batida.
O frio que dela vinha atravessou a minha capa de chuva como se estivesse nu. Ela parecia avaliar se eu era uma ameaça ou não. A boneca no braço do rapaz rodou a cabeça 180º num movimento mecânico impossível e olhou para mim também. A boca pintada de vermelho da boneca abriu-se apenas uma fresta e de lá de dentro saiu um som de chiado como ar que escapa de um pneu perguntando se eu realmente cuidaria.
Eu respondi mantendo a voz firme, embora as minhas pernas tremessem, e garanti que cuidaria e que ninguém levaria o que era dela. A pressão no ar diminuiu um pouco. A figura de fumo começou a desfazer-se voltando para dentro da capelinha quebrada. A boneca de porcelana afrouxou os dedos de cerâmica no pulso do rapaz.
O ladrão caiu de cara na lama inconsciente, mas vivo. A boneca rolou para o lado e ficou deitada na relva molhada com o rosto virado para o céu chuvoso. Os olhos dela fecharam-se lentamente, como se ela estivesse a ir dormir. Fiquei ali parado debaixo daquela chuva torrencial, olhando para a boneca deitada na relva como se fosse um cadáver pequeno, e para o rapaz desmaiado na lama, com o braço dobrado num ângulo que me causava náuseas só de olhar.
O silêncio que se seguiu depois daquela tempestade sobrenatural era pesado e cheio de eletricidade estática. Eu sabia que o perigo imediato tinha passado, porque o fumo amarelado tinha voltado para dentro do túmulo. Mas também sabia que o acordo que eu tinha feito com a menina Aninha era sagrado e urgente. Tinha prometido cuidar e devolver e morto não gosta de quem demora a cumprir promessa.
O problema era que para cumprir a minha palavra eu precisava de tocar naquela boneca maldita e colocá-la de volta no trono dela dentro da capelinha partida. Baixei-me devagar, sentindo os joelhos estalarem e o coração bater na garganta. Aproximei a mão da boneca de porcelana. O vestido azul estava ensopado de água da chuva e sujo de barro.
Mas o rosto dela, aquele rosto branco e perfeito pintado à mão, estava limpo. As gotas de chuva escorriam pela bochecha de cerâmica como se fossem lágrimas. Quando os meus dedos tocaram no tecido do vestido, esperei sentir o frio da porcelana ou a rigidez de um objeto inanimado. Mas o que senti fez-me quase largar tudo e correr. A boneca estava morna.
Ela tinha a temperatura de uma criança febril e por baixo do tecido e do enchimento de pano, podia jurar que senti algo a pulsar muito lentamente, como um coraçãozinho fraco e doente. Respirei fundo e rezei um Pai Nosso mentalmente pedindo proteção e licença. Levantei a boneca do chão. Ela era pesada, muito mais pesada do que deveria ser para o tamanho dela.
Parecia que eu estava a carregar uma criança de verdade e não um brinquedo. A cabeça dela bendeu para o meu ombro e o cabelo humano roçou no meu pescoço, provocando-me um arrepio que me percorreu toda a espinha. Eu senti o cheiro dela de perto. Era aquele cheiro a talco antigo e flores mortas, mas por baixo tinha um cheiro a remédio amargo e suor de doença.
Caminhei até ao capelinha de vidro partida. O interior estava seco, apesar da chuva, porque o teto de pedra protegia bem. A cadeirinha de baloiço onde ela ficava sentada estava vazia, balançando ligeiramente com o vento. Eu coloquei a boneca ali sentada com todo o cuidado do mundo, como se estivesse a colocar um bebé no berço.
Arrumei o vestido, limpei o barro das mãozinhas dela com a ponta da minha camisa e ajeitei os caracóis do cabelo. Quando acabei de arrumar, tive a sensação nítida de que tinha alguém parado mesmo atrás de mim, respirando no o meu cangote. Eu não virei depressa, virei-me devagar, não tinha ninguém.
Mas quando olhei de volta para a boneca que eu tinha acabado de se sentar, ela estava diferente. A A cabeça dela estava ligeiramente inclinada para a esquerda e os olhos de vidro que estavam fechados estavam agora abertos. Abertos e fixos em mim. Não era um olhar de raiva como o que ela deu ao ladrão. Era um olhar de cobrança.
Ela estava a lembrar-me que agora eu era o responsável. Afastei-me da capela, andando de costas, sem tirar os olhos dela. Eu precisava de cuidar do rapaz. Ele continuava desmaiado na lama. Eu arrastei-o para fora da zona do jazigo da família Meteiros, puxando pelas pernas, porque não queria tocar no braço quebrado.
Levei-o até à calçada da Alameda principal, onde a luz dos relâmpagos ajudava a ver melhor. Ele gemia baixinho, ainda inconsciente. Pensei em chamar a polícia ou socorro médico, mas o que é que eu ia dizer? Que uma boneca partiu-lhe o braço? que uma menina morta em 1930 queimou-lhe o blusão. Eles iam-me internar num hospício e iam mexer no túmulo para investigar.
E mexer no túmulo era a última coisa que podia acontecer. Decidi que o ia tirar dali e deixar ele no passeio da rua do lado de fora. O cemitério tem um portão de serviço lateral que dá para uma rua menos movimentada. Carreguei o rapaz até lá com muito esforço. Quando cheguei à rua, deixei ele sentado, encostado ao muro, longe do portão. Ele começou a acordar.
Ele abriu os olhos e começou a gritar e a chorar, dizendo que a menina estava a arder ele. Eu segurei-lhe o rosto e falei firme que tinha acabado. Disse que ele tinha sorte em estar vivo e que se ele contasse a alguém o que aconteceu, ninguém ia acreditar. Avisei-o que nunca mais devia pisar naquele cemitério porque ela ia saber.
O rapaz olhou para mim com um terror absoluto e concordou com a cabeça chorando. Segurava o braço quebrado junto ao corpo. Eu vi-o levantar cambaleando e sair a correr pela rua deserta à chuva, olhando para trás como se o diabo estivesse nos calcanhares dele. Tranquei o portão de serviço e Voltei para dentro.
Eu ainda tinha trabalho a fazer. Voltei para o túmulo da Aninha. Eu não podia deixar a capela aberta com o vidro partido. A chuva e os bichos iam estragar os brinquedos e sentia que se algo acontecesse com aquelas coisas, a menina ia ficar furiosa outra vez. Fui até ao barracão de ferramentas e peguei num pedaço de lona plástica grossa e fita adesiva industrial.
Voltei lá e tapei o buraco do vidro e a grade arrombada com a lona, vedando tudo muito bem para não entrar água. Enquanto trabalhava fechando o túmulo, ouvi a música de novo. A caixinha de música tocou lá dentro, mas desta vez a melodia não era triste, parecia mais calma. Eu entendi aquilo como um agradecimento ou talvez como um aviso de que ela estava a vigiar o meu serviço para ver se estava a fazer direito.
[música] Quando terminei, fiz o sinal da cruz e pedi-lhe para descansar. Naquela noite não dormi. Fiquei na guarita a ouvir a chuva e pensar na vida. No dia seguinte, relatei à administração que tinha encontrado o vidro partido por vandalismo, mas que não parecia ter desapareceu nada. Eles mandaram reparar a grade e colocar um vidro novo mais forte.
Eu acompanhei o serviço do vidraceiro de perto. Eu fiquei ali do lado o tempo [canto] todo, garantindo que não tocasse na boneca e nem nos outros brinquedos. O vidraceiro comentou que sentia um frio estranho naquele local e que estava com [música] dor de cabeça. Eu disse para ele fazer o serviço rápido e não olhar muito para dentro. Os anos passaram.
O rapaz que tentou roubar nunca mais apareceu e eu nunca soube o que aconteceu com ele. Mas imagino que a marca no braço e na alma nunca tenha sarado. Eu continuei a trabalhar no bom fim e assumi para mim próprio a função de guardião daquele túmulo. Eu limpava a capela por fora, tirava as folhas secas, polia o bronze da porta, mas nunca, nunca mais entrei lá dentro nem toquei na boneca.
Mas coisas estranhas continuaram a acontecer. Às vezes, quando estava a limpar túmulos próximos, sentia o cheiro de talco e formol passar por mim. Outras vezes encontrava doces que as pessoas deixavam à porta da capela, do lado de dentro do vidro trancado. Como os doces atravessavam o vidro e a grade, não me sei e prefiro não saber.
E tinha as noites de chuva. Sempre que chovia forte, ouvia a caixa de música tocar. Os outros vigias também ouviam e morriam de medo, mas eu já me tinha habituado. Eu sabia que era ela a brincar. O que me assusta verdadeiramente não é a música, é a boneca. Porque ao longo destes 18 anos, reparei numa coisa que a lógica não explica. A boneca envelheceu.
Não a roupa, não a porcelana, mas a expressão o rosto da boneca alterou-se. No início, ela tinha cara de bebé. Hoje ela tem uma expressão mais séria, mais adulta, e as as posições mudam. Um dia ela está com a mão no colo. No outro dia a mão está levantada como se estivesse a dizer adeus. A administração diz que é a vibração dos camiões na avenida que faz os objetos se mexerem.
Eu deixo-os acreditar nisso. Mas houve uma noite, uns três anos atrás, que aconteceu algo que me fez ter certeza de que o meu vínculo com aquela menina vai durar até ao dia da minha morte. Eu estava doente, com uma gripe muito forte e febre alta, mas fui trabalhar mesmo assim porque precisava do dinheiro.
Eu estava a fazer a ronda perto da quadra nobre e comecei a me sentir-se muito mal. Tive uma tontura forte e precisei de me sentar no meio fio da alameda. A minha visão escureceu e eu pensei que ia desmaiar ali sozinho no escuro. Foi quando senti uma mãozinha pequena [música] e fria tocar na minha testa.
A mão estava gelada, mas o toque era amável. Abri os olhos com dificuldade e vi a menina, a Aninha. Ela estava parada à minha frente com vestido azul. impecável. A pele dela já não estava a descascar e vermelha como naquela noite do assalto. Estava pálida e bonita como uma boneca de luxo. Ela olhou para mim com aqueles olhos negros profundos e sorriu.
Não foi um sorriso de maldade, foi um sorriso de criança. Ela retirou a mão da minha testa e apontou para a saída do cemitério. Eu senti a febre baixar na hora. A tontura passou como se alguém tivesse tirado com a mão. Eu consegui levantar-me e caminhar até à guarita. Quando olhei para trás, ela já não estava lá.
Mas em frente à capelinha dela, do lado de fora, estava a boneca de porcelana, sentada no chão, a olhar para mim. Eu tive de ir lá, pegar na boneca e colocar de volta à capela que estava trancada. A chave da grelha desapareceu há anos, então tive que arranjar um jeito de abrir sem quebrar.
E quando apanhei [canto] a boneca naquele dia, não estava pesada e nem morna. Ela era apenas uma boneca. Mas no bolso do seu vestido, um minúsculo bolso de seda, tinha um comprimido. Um comprimido [música] de medicamento para febre antigo, daqueles que não fabricam mais há décadas. Eu guardei aquele comprimido, nunca tomei, claro, mas guardo-o numa caixinha em casa como prova de que temos um acordo.
Eu cuido dela e ela cuida de mim. Mas é um cuidado perigoso, um cuidado ciumento. Hoje tenho 60 anos e estou perto de aposentar. E a minha maior preocupação não é o dinheiro da reforma. A minha preocupação é quem vai ficar no meu lugar, quem vai vigiar o sono da Aninha quando eu me for embora. Porque eu vejo os coveiros novos.
Eles não têm respeito. Usam fone de ouvido, dizem palavrões, não pedem licença. Se um deles resolver mexer naquela capela, se um deles decidiu tirar aquela boneca para limpar ou para fazer graça, não me vou lá estar para negociar. E a Aninha não gosta de estranhos. Ela só tolera quem compreende a sua dor. A boneca de porcelana continua lá.
sentada na cadeirinha de baloiço, olhando para o portão principal com aqueles olhos de vidro que vem tudo. Ela está à espera, à espera do próximo tolo que vai achar que ela é apenas um brinquedo valioso. Se for visitar o cemitério do Bom Fim, pode ir ver o túmulo da família Medeiros. É uma obra de arte lindíssima. Pode tirar uma foto de longe, pode até deixar uma bala se quiser.
Mas eu dou-te um conselho de amigo, um conselho de quem viu o que acontece quando nós cruza a linha. Nunca, nunca encoste no vidro. E se ouvir uma caixinha de música tocar quando não tiver ninguém por perto, não procure de onde vem o som. Basta virar as costas. Peça desculpas por incomodar. e saia andando sem correr, porque se correr, ela vai pensar que é uma brincadeira de apanhada.
E nesta brincadeira, quem é apanhado vira boneca também.