EX – COVEIRO: O TÚMULO PROIBIDO DO CEMITÉRIO… EU ABRI E VI O QUE PENSEI NÃO EXISTIR
EX – COVEIRO: O TÚMULO PROIBIDO DO CEMITÉRIO… EU ABRI E VI O QUE PENSEI NÃO EXISTIR 
Trabalho como coveiro há mais de 30 anos no cemitério de Santo António, na região metropolitana de Belo Horizonte, Minas Gerais. Já vi de tudo nesta profissão, enterros que despedaçaram o coração das famílias, onde as mães gritavam [música] nomes de filhos que nunca mais responderiam, onde os pais caíam de joelhos na terra molhada, sem conseguir aceitar que aquela caixa de madeira levava embora a pessoa mais importante das suas vidas.
velórios, onde o choro era tão intenso que o eco parecia sair [música] das próprias covas em redor, se espalhando-se pelo cemitério inteiro, como uma onda de dor que contaminava até quem não conhecia o falecido. e também aqueles enterramentos vazios, onde apenas eu e mais um funcionário assistimos ao fim de uma vida sem testemunhas, sem abraços, sem lágrimas, apenas o som surdo terra a cair sobre o caixão e o silêncio pesado que se depois.
Mas nada, absolutamente nada do que presenciei nestes 30 anos preparou-me para o que aconteceu naquela noite chuvosa de verão, em meados dos anos 2000. Sector C, Alameda dos Pinheiros, névoa densa onde não deveria haver, uma figura encapuzada que nunca mostrava o rosto e um relógio que deixou de funcionar exatamente às 23h42.
O meu nome é Marcos Silva, tenho 55 anos, Sou casado, pai de duas filhas. E essa é a história [música] de como descobri que há coisas neste mundo que não deveriam existir e de como essas coisas marcaram-me para sempre. Nasci em Belo Horizonte mesmo, na região da Pampulha, em 1970. [música] O meu pai era mecânico de automóveis, dono de uma pequena oficina que ficava por baixo da nossa casa.
[música] A minha mãe era costureira, trabalhava mesmo em casa. Havia aquela velha máquina singer que fazia um barulho constante o dia inteiro. Éramos três irmãos, eu, o mais velho. Cresci a ver o meu pai com as mãos sempre sujas, de gordura, voltando a casa às 7 da noite, completamente exausto. [música] A minha mãe ficava até tarde da noite a costurar vestidos de festa para as mulheres do bairro, as mãos calejadas de tanto trabalhar.
A vida era simples, não tínhamos luxo, mas nunca faltou comida na mesa. Estudei em escola pública, [música] terminei o ensino secundário com dificuldade, porque nunca fui bom aluno. A minha cabeça sempre esteve mais virada para o trabalho manual, para coisas práticas. Aos 18 anos, em 1988, Comecei a trabalhar como ajudante de pedreiro.
Transportava saco de cimento, misturava massa, limpava entulho, batia laje. Era trabalho pesado, braçal, mas pagava relativamente bem para a época. Casei aos 24 anos, em 1994. A minha esposa Fernanda, era professora de escola pública, dava aulas a crianças do ensino básico, rapariga dedicada à trabalhadora de família católica praticante que ia à missa todos os domingo.
Tivemos a nossa primeira filha em 1996, Carolina. A segunda Beatriz nasceu em 1998 e foi precisamente para sustentar esta família em crescimento, com duas filhas pequenas e uma esposa [música] que necessitava de ajuda financeira, que em 1995, com 25 anos, aceitei a vaga de coveiro no cemitério de Santo António. Não era trabalho que qualquer pessoa quisesse fazer.
Lidar com a morte todos os dias, cavar covas na terra dura, carregar caixões pesados juntamente com outros funcionários, enterrar pessoas de todas as idades, fechar sepulturas, sabendo que ali lá dentro estava alguém que tinha tido uma vida inteira: sonhos, amores, medos, limpar ossários cheios de restos humanos que precisavam de ser [música] reorganizados, mas o salário era razoável.
tinha contrato assinado, vale refeição, subsídio de transporte, plano de saúde básico. E naquela situação, [música] com duas filhas pequenas e renda para pagar, eu não me podia dar ao luxo de escolher. Comecei no dia 15 de Março de 1995. Lembro-me como se fosse hoje. Cheguei às 7 da manhã, nervoso, ansioso, sem saber exatamente o que esperar.
O cemitério Santo António é grande, 52.000 m² de área total. Foi fundado em 1932, quase 70 anos de história enterrada naquele sítio quando [música] comecei. Tem túmulos de todo o tipo, sepultura simples de gente pobre, apenas uma cruz de madeira a marcar o local. [música] Elaborados jazigos de famílias antigas com dinheiro, mausoléus de mármore com anjos esculpidos, [música] portões de ferro trabalhado, tudo misturado, rico e [música] pobre, partilhando o mesmo chão.
O supervisor na altura, o senhor António, [música] homem de 60 anos, que trabalhava ali há 35 anos, recebeu-me na guarita. levou-me para conhecer o cemitério inteiro. Passamos por todos os setores. Setor A, onde se encontram os túmulos mais recentes. [música] Setor B, de classe média, bem cuidado.
Setor C, mais antigo, com lápides de pedra desgastadas pela chuva e pelo vento, com datas de 1930, 1940, 1950. Setor D, área de expansão que se encontrava sendo preparada. O seu Antônio ensinou-me tudo. Como cavar uma cova nas medidas corretas, 2 m de profundidade, 1 m de largura, 2, 10 cm de comprimento. Como utilizar as cordas para descer o caixão sem deixar cair bruscamente? Como bater a terra em camadas, molhando entre uma e outra para compactar bem? Como fazer manutenção nos jazigos antigos? Como lidar com famílias em [música] luto, com
respeito, com silêncio, sem invadir a dor alheia. Mas mais importante do que qualquer técnica, o senhor António ensinou-me algo fundamental [música] que transporto até hoje. Respeito. Respeito pelos mortos. Respeito pelas famílias. Respeito pelo lugar em si. Ele disse-me com aquela voz rouca de quem fumou a vida inteira: “Este não é apenas um terreno com buracos e pedras.
Este é um lugar sagrado. Cada pessoa aqui tem uma história. Teve uma vida, amou, sofreu, sonhou e agora descansa aqui. O nosso trabalho é cuidar deles, proteger as suas memórias, manter o lugar digno. Nunca nunca trate um morto ou uma sepultura com desrespeito. Levei estas palavras a sério.
Durante todos estes 30 anos, desde 1995 até hoje, nunca, nem uma única vez desrespeitei um morto. Sempre [música] Trabalhei com cuidado, com atenção, com dignidade. Vi colegas que faziam piada com os mortos, que pontapeavam caveiras nos ossários, que roubavam objetos de valor, que eram enterrados juntamente com os falecidos. Nunca fiz isso.
Sempre mantive o respeito. E foi precisamente por causa deste respeito profundo que o que aconteceu [música] nesse dia marcou-me tanto. Era uma quinta-feira, lembro-me perfeitamente, 5 de Setembro de 2003, [música] um daqueles dias típicos de final de verão em Belo Horizonte, onde o céu amanhece cinzento, carregado de nuvens baixas que prometem chuva.
O ar estava húmido, pesado, com aquele cheiro a terra molhada, misturado com poluição urbana, que é característico da cidade. Acordei às 5h30 da manhã, como sempre. A Fernanda ainda dormia ao meu lado, as meninas também dormiam nos seus quartos. A Carol tinha 7 anos na altura. Beatriz tinha cinco.
Tomei banho rápido, me vesti com a minha roupa de trabalho, calças calças de ganga velhas e camisa de manga comprida. Tomei café sozinho na cozinha, ouvindo o noticiário na rádio, e saí de casa às 6:15. O percurso até ao cemitério demorava 50 minutos de autocarro. Desci no ponto às 7:05, caminhei os 300 m até ao portão principal.
O cemitério ainda estava fechado a visitantes que só podiam entrar a partir das 8 da [música] manhã. Bati no portão de ferro. O senhor José, o porteiro, abriu com aquele sorriso cansado de quem acabava de chegar também. Entramos juntos. Fui direto para o vestiário dos funcionários, guardei a minha mochila no armário, peguei nas minhas ferramentas do depósito, pá, [música] enchada, picareta, cordas, balde, luvas de borracha, [música] tudo guardado, organizado.
Fui até ao escritório verificar o horário do dia. A secretária, a dona Maria, já lá estava organizar papéis, preparar café. “Bom dia, Marcos”, disse ela, sem levantar os olhos. tem dois enterramentos hoje. Primeiro às 10 horas, setor B. Segundo às 16 horas, o setor C. Dois enterramentos era movimento normal. Anotei mentalmente os horários e os locais.
[música] Peguei numa chávena de café que dona Maria preparava sempre. Tomei lentamente, sentindo o líquido quente [música] descer, e saí para começar o trabalho. A minha primeira tarefa era fazer sempre uma ronda pelo cemitério, verificar se não havia qualquer problema durante a noite, lixo acumulado, [música] flores tombadas pelo vento, vândalos que por vezes saltavam o muro e partiam lápides ou pichavam túmulos, animais que cavavam buracos.
Comecei pelo setor A. Tudo normal. Passei pelo setor B, também normal. Fui para o setor C. O setor C sempre foi diferente dos outros. Não sei explicar exatamente porquê. Talvez pela idade dos túmulos, a maioria de há 50, 60, 70 anos. Talvez pelas enormes e antigas árvores, pinheiros centenários com troncos grossos e raízes que quebravam as calçadas.
Talvez pela falta de visitantes, uma vez que a maioria das pessoas ali enterradas não tinha mais família viva. Ou talvez fosse apenas impressão minha. [música] Mas sempre que entrava no setor C, a sensação era diferente. O ar mais pesado, o silêncio mais profundo, a luz mais fraca, mesmo em dia de sol forte.
Naquela [música] manhã, à medida que caminhava pela alameda principal do setor C, algo estava diferente. Não conseguia identificar o que exatamente, talvez fosse o cheiro. Além do aroma normal a terra húmida e folhas decompostas, havia algo mais, um cheiro doce e enjoativo, como flores murchas deixadas por muito tempo num vaso.
Olhei em redor, procurando buquês velhos, esquecidos, mas não vi nenhum. Continuei a andar devagar, prestando atenção em cada detalhe. As lápides estavam no lugar, as cruzes intactas, [música] nenhum sinal de vandalismo ou problemas, mas aquele cheiro continuava a ficar mais forte à medida que me aproximava da parte mais antiga do setor, onde se encontrava a alameda dos pinheiros.
Era uma fileira longa de sepulturas muito antigas, algumas de 1930, [música] 1940, com lápides de mármore já rachadas e cobertas de musgo, nomes quase ilegíveis. Parei no meio da alameda e olhei para o redor. Tudo parecia normal, mas algo dentro de mim dizia que não estava. Era uma sensação estranha no estômago, um desconforto que não conseguia explicar.
[música] Os pelos do meu braço tornaram-se arrepiaram-se ligeiramente, mesmo não fazendo frio. Abanei a cabeça, tentando afastar aquele pensamento idiota e Continuei a ronda. Terminei de verificar todo o cemitério [música][canto] e Voltei para preparar a primeira cova do dia no setor B. trabalho mecânico, automático, media o terreno, marcava [música] com estacas, começava a cavar.
O ritmo da pá contra a [música] terra sempre me acalmou. É quase meditativo. Mas, naquela manhã, a minha mente não conseguia desligar-se daquela sensação estranha no setor C. O primeiro enterramento aconteceu às 10 horas. Um senhor de 82 anos, morte natural, família pequena. Depois de todos irem embora, terminei de cobrir a cova, alisei a terra, Plantei a cruz provisória.
Já era meio-dia, tinha 4 horas antes do segundo funeral, às 16 horas no sector C. Almocei na guarita, a minha marmita de sempre que A Fernanda preparava. [música] Arroz, feijão, frango desfiado, salada. [música] Comi devagar, tentando relaxar. Às 14 horas comecei a preparar a segunda cova do dia [música] no setor C, na Alameda dos Pinheiros, exatamente onde tinha sentido aquela sensação estranha de manhã.
Peguei nas minhas ferramentas e fui até ao local marcado. A família tinha escolhido um lote próximo de um dos pinheiros mais antigos, as suas raízes grossas partindo o chão de paralelepípedo em redor. Comecei a cavar. A terra estava mais dura que o normal, comprimida. Cada pai exigia mais esforço. O suor começou a escorrer pelo meu rosto, pelas minhas costas.
O sol estava forte, mas de alguma forma aquele área permanecia na sombra, [música] os ramos densos dos pinheiros bloqueando a luz. E aquele cheiro, aquele cheiro doce e enjoativo de flores murchas estava mais forte ali, insuportável. Estava com cerca de 1 m de profundidade quando ouvi.
Um [música] som grave, quase imperceptível, como um cantarolar. Uma melodia antiga, arrastada. Parei de escavar e fiquei imóvel, tentando identificar de onde vinha. Virei a cabeça para a esquerda, depois para a direita, nada, apenas o silêncio pesado do setor C. Pensei que fosse impressão, que a minha mente estava a pregar partidas. Voltei a escavar.
O cantarolar [música] continuou mais próximo. Agora conseguia distinguir que era uma canção de embalar, daquelas que a voz cantam para os netos dormirem. Mas a voz não era humana, era rouca, arrastada, distorcida. Meu coração acelerou. Olhei em redor novamente, mais atento desta vez. E foi quando vi entre dois túmulos a cerca de 30 m [música] de distância, uma figura parada, imóvel, vestindo algo escuro que parecia um manto ou uma capa comprida.
O rosto oculto por um capuz. O meu estômago se revirou. Subi da cova rapidamente e Fiquei de pé, segurando a pá com força. Pensei que fosse algum visitante, embora fosse estranho alguém estar ali parado daquele jeito. Levantei a mão e chamei, perguntando se a pessoa precisava de ajuda.
A minha voz ecoou pelo setor, mas não obtive resposta. [música] A figura não se mexeu, apenas permaneceu ali estática. Comecei a caminhar na direção dela devagar, mas à medida que me aproximava, algo estava errado. A cada passo que dava, a distância parecia a mesma. Era como se estivesse a andar sem sair do lugar, como num daqueles sonhos frustrantes em que [música] te corre, mas não avança. Parei confuso.
Olhei para trás e vi que tinha andado uma boa distância da cova. Mas quando Olhei novamente para a frente, a figura continuava à mesma distância [música] de mim. O medo começou a subir pela minha espinha. Não era um medo racional, era algo primitivo, instintivo. Cada célula do meu corpo a dizer-me para sair dali.
Virei-me [música] e comecei a andar de volta para a cova. Mais rápido agora. O meu coração [música] batia forte no peito. Quando cheguei à cova e olhei para trás novamente, a figura tinha desaparecido, simplesmente sumido. Respirei fundo, tentando acalmar-me. Está cansado, Marcos? É só cansaço, stress. Trabalho a mais, não é nada. Desci de novo para a cova e continuei cavando, mas as minhas mãos tremiam levemente.
O cantarolar tinha parado, mas aquele cheiro enjoativo continuava mais forte agora, fazendo com que o meu estômago revirar. Acabei de cavar a cova às 15:30, 2 m de profundidade, de acordo com a norma. Subi, [música] limpei a terra das minhas mãos e roupa e fui ao vestiário lavar o rosto. Quando olhei para o espelho rachado, Vi que estava pálido, os olhos cansados.
Deitei água fria no rosto várias vezes, tentando espantar aquela sensação má. O funeral começou às 16 horas pontualmente. Era uma mulher jovem, tinha apenas [música] 32 anos. Acidente de viação. A família estava destruída. A mãe gritava sem parar. O marido estava em choque. As duas filhas pequenas choravam sem perceber bem o que estava acontecendo.
Foi um dos enterros mais difíceis que já presenciei. Aquela dor crua, aquele desespero absoluto. Quando finalmente todos foram embora, fossem quase 19 horas. O céu estava a escurecer rapidamente. Nuvensadas cobriam tudo, [música] prometendo chuva. Terminei de cobrir a cova, alisando a terra cuidadosamente. Foi quando começou a chuva, forte, torrencial.
Em poucos minutos estava encharcado. [música] Peguei nas minhas ferramentas e comecei a caminhar de volta para o depósito. E foi então que percebi [música] a neblina não era normal. Não para aquela época do ano, não para aquela hora do dia, a neblina começou a formar-se rapidamente, saindo do chão como se o própria terra estivesse a respirar, espessa, branca, densa.
Em poucos minutos cobria tudo à minha volta. As lápides começaram a desaparecer na bruma. A visibilidade desceu para menos de 5 m. E o frio, um frio [música] que não fazia sentido em pleno verão. Um frio cortante, [música] penetrante, que entrava pelos ossos. Os meus dentes começaram a bater. Respirava e via o vapor a sair da minha boca em nuvens brancas.
Impossível, mas estava acontecendo. Acelerei o passo, querendo sair daquele setor o mais rapidamente possível, mas à medida que ia andando, percebi que algo estava errado. Reconhecia cada centímetro daquele cemitério. Trabalhava ali havia 8 anos. Conhecia cada alameda, cada atalho, mas agora tudo parecia diferente.
As lápides não estavam nas posições certas. As árvores pareciam ter mudado de lugar. Era como se o próprio cemitério estivesse a reorganizar-se ao meu redor. Passei pela mesma estátua de anjo três vezes. Reconhecia a asa partido, o rosto desgastado, mas que era impossível. [música] Eu estava andar em linha reta, ou pelo menos pensava que estava.
O pânico começou a tomar conta. A minha respiração [música] tornou-se curta, rápida, o coração disparado. Foi quando ouvi novamente um cantarolar vindo de todos os lados ao mesmo tempo. E então vi a figura encapuzada. Não era só uma, eram várias. Todas paradas entre os túmulos, formando um círculo à minha volta.
Todas as imóveis, todas a observarem-me em silêncio. Larguei as ferramentas e corri. [música] Corri sem rumo, apenas querendo afastar-me daquelas figuras. Os meus pés escorregavam na lama, a chuva batia forte no meu rosto. [música] Passei por túmulos, por cruzes, por lápides que não reconhecia. Tudo estava confuso, [música] distorcido.
A névoa era tão densa que mal conseguia ver a 1 m de distância. Tropecei numa raiz exposta e caí de joelhos na terra molhada. As minhas mãos afundaram-se no barro frio. Olhei para cima e vi uma das figuras [música] encapuzadas parada bem à minha frente, a menos de 2 m. Conseguia ver os olhos agora ou o que pareciam ser olhos.
Brilhavam com uma luz amarelada, como brasas moribundas. E então ouvi a voz. Não era falada. As palavras simplesmente apareciam dentro da minha cabeça. Acordou, o que deveria continuar a dormir. Agora precisa de pagar o preço. Levantei-me cambaleando e corri para o lado, [música] a passar entre dois túmulos.
O meu coração batia tão forte que pensei que ia explodir. A respiração saía em baforadas curtas e desesperadas. Precisava de sair dali. Precisava de encontrar o portão, mas já não sabia onde estava. [música] Tudo parecia igual. Névoa, chuva, lápides surgindo e desaparecendo na bruma. [música] Corri por tempo impossível de medir.
Podiam ter sido minutos ou horas, não fazia mais sentido. E então viu uma luz fraca através da névoa. O depósito de ferramentas. Corri em direção a ela como se fosse a salvação. Cheguei à porta de madeira velha e empurrei com força. Entrei aos tropeções e fechei a porta atrás de mim, encostando todo o meu peso contra ela.
Fiquei ali parado, tentando recuperar o fôlego. O meu corpo inteiro tremia. Estava [música] encharcado, coberto de lama, o coração disparado. Olhei em redor. O depósito estava como sempre. paz, inchadas, sacos de cimento, tudo normal. Respirei fundo, tentando [música] convencer-me de que estava seguro. Foi quando vi as marcas na parede de madeira, junto à janela pequena, riscos profundos, como se unhas humanas tivessem raspado a superfície com uma força desesperada.
[música] As marcas eram recentes. A madeira estava clara onde tinha sido arranhada. O meu sangue gelou. Aquelas marcas não estavam ali de manhã quando peguei nas ferramentas. O cantarolar começou novamente, vindo do exterior. Logo do outro lado da porta, a maçaneta começou a rodar lentamente. Vi o metal a mexer. Ouvi o ranger.
Recuei tropeçando nas ferramentas no chão. Peguei numa pá, segurando com as duas mãos, preparado para me defender. [música] A porta abriu-se lentamente. A névoa entrou primeiro, espalhando-se pelo chão como uma criatura viva. E depois a figura apareceu alta, imponente, o capuz ocultando completamente o rosto, exceto por aqueles olhos brilhantes que fixavam-me. Não pode fugir.
Este lugar é nosso. Sempre foi. Você é apenas um visitante temporário. A voz ecoava na a minha cabeça, cada palavra cravando-se como um prego. A minha mão tremeu. Não conseguia mexer-me. Era como se os meus pés estivessem presos no chão. A figura deu um passo em frente. O perfume das flores murchas estava tão forte que mal conseguia respirar.
A minha visão começou a escurecer nas bordas. E [música] depois ouvi um grito vindo do exterior, um grito humano, [música] real. Era o senhor Paulo, o guarda-nocturno, que fazia a ronda externa. [música] Ele tinha chegado. Aquilo quebrou o transe. Corri para o lado, passando pela figura. Senti algo gelado roçar no meu braço, mas consegui escapar.
Saí a correr, gritando pelo guarda. Ele apareceu a correr com a lanterna. O seu Marco, o que aconteceu? Agarrei o braço dele, quase o derrubando. Precisamos sair já daqui. Ele olhou-me confuso, mas viu o terror no meu rosto. Não fez perguntas. Começámos a correr juntos em direção ao portão principal. A névoa parecia perseguir-nos.
[música] As figuras encapuzadas apareciam e desapareciam entre os túmulos. O Seu Paulo também viu. Parou por um segundo petrificado, [música] mas eu puxei-o, obrigando-o a continuar. Não podíamos parar. Finalmente vimos o portão, a luz da rua do outro lado. Corremos e passamos caindo na calçada. O seu Paulo se virou-se para fechar o cadeado, mas eu segurei-lhe a mão.
Deixe aberto, não volte lá nunca mais. Ele olhou-me tremendo. Mas o que eram aquelas coisas? Não respondi, apenas me afastei andando pelas ruas desertas. Quando cheguei a casa, eram quase 3 da manhã. [música] A Fernanda acordou assustada ao me encharcado, sujo de terra, a tremer. O que aconteceu? Fui à casa de banho e olhei no espelho.
Estava pálido, os olhos vermelhos. E então vi. Na lateral do meu braço, onde a figura me tinha tocado, havia uma marca escura, como uma sombra impressa na pele. Tentei lavar, esfregar, não saía, [música] estava lá permanente. Nos dias seguintes, tentei voltar à rotina. Tentei convencer-me de que tinha sido alucinação, efeito do cansaço, mas a marca no meu braço dizia o contrário.
[música] E os pesadelos começaram. Toda a noite via aquelas figuras, toda a noite ouvia o cantar. Acordava gritando, suando frio, a Fernanda a segurar-me, a tentar me acalmar. Voltei ao cemitério uma semana depois. [música] Não queria, mas precisava. O guarda senhor Paulo tinha pedido a demissão no dia seguinte.
Disseram que saiu da cidade, foi viver com familiares no interior. [música] Ninguém sabia exatamente o que tinha acontecido, mas os rumores circulavam. [música] Fui diretamente ao setor C. Procurei pelas marcas, pelos sinais, mas tudo estava normal. A névoa tinha desaparecido, os túmulos nos seus lugares.
Era como se nada tivesse acontecido. Mas depois vi no túmulo mais antigo da Alameda dos Pinheiros, uma placa de bronze oxidado, meio enterrada na vegetação. [música] Tirei o mato e li: “Não incomodar”. 1897. Senti um calafrio. Aquela placa não estava ali antes ou estava e nunca tinha reparado. Comecei a escavar à volta, procurando mais informações.
Encontrei outras placas enterradas, todas com avisos, todas [música] com datas antigas e todas com o mesmo símbolo, um círculo [música] com três linhas. Passei semanas a pesquisar, fui às bibliotecas, [música] conversei com historiadores, procurei nos arquivos da câmara municipal e descobri.
Aquela parte do cemitério tinha sido construído sobre um terreno que, no século XIX, tinha sido utilizado para rituais. [música] Ninguém sabia exatamente de que tipo, mas havia registos de desaparecimentos. As autoridades da época decidiram consagrar o local, transformando-o num cemitério, acreditando que purificaria a terra, mas não funcionou.
Seja lá o que estava ali, continuava. E eu tinha acordado, tinha visto e agora carregava a marca. Comecei a perceber que não estava sozinho. Outros funcionários também tinham experiências estranhas. O zelador via figuras à noite, a secretária ouvia vozes. Todos tinham a mesma descrição. Figuras encapuzadas, cantarolar, cheiro a flores murchas.
Tentei avisar a administração, mas ninguém me levou a sério. Achavam que eu estava a ficar velho, imaginando coisas. A marca no meu braço começou a crescer. Era subtil, mas estava a ficar maior, se espalhando-se como raízes. Os pesadelos pioraram, já não eram apenas sonhos. Eu [música] acordava e via vultos no quarto.
Ouvia o cantarolar vindo do closet. Sentia o cheiro no meio da noite. A Fernanda estava preocupada. Disse que eu estava diferente, assombrado, e ela tinha razão. Decidi parar. Não podia mais trabalhar lá. Pedi demissão após 8 anos de serviço. Meus colegas ficaram surpreendidos, tentaram-me convencer a ficar, mas sabia que precisava de me afastar.
Cada dia no cemitério, a marca tornava-se maior, a presença tornava-se mais forte, estava a ser consumido. Já passaram 22 anos desde aquela noite. Mudei de profissão. [música] Trabalho agora numa loja de materiais de construção, nada relacionado com cemitérios. Nada relacionado com a morte, mas a marca continua no meu braço.
Parou de crescer quando saí, mas nunca desapareceu. É um lembrete constante. Os os pesadelos ainda vêm, não todas as noites, mas regularmente. Vejo aquelas figuras, ouço o cantarolar, sinto o perfume [música] e sei que nunca me vou livrar completamente. Faz parte de mim agora. Às vezes passo em frente ao cemitério Santo António, nunca entro, apenas olho de longe e vejo sempre a neblina.
Mesmo em dias ensolarados, há sempre névoa sobre o setor C. Há sempre algo lá à espera. Outros funcionários saíram depois de mim. A rotatividade é elevada, ninguém fica muito tempo. Todos relatam as mesmas coisas. Figuras, [música] cantarolar, medo inexplicável. Mas a administração continua a negar. Mas eu sei a verdade. E agora também já sabe.
Há locais que não deveriam ser perturbados. Há coisas que não devem ser acordadas. E uma vez que as vê, uma vez que elas te marcam, nunca te mais é o mesmo. Então, se passar pelo cemitério de Santo António em Belo Horizonte e ver névoa densa sobre o setor C, não entre, não investigue, basta continuar andando, porque algumas coisas é melhor deixar em paz.
E se você ignorar este aviso, por isso prepare-se, porque elas também te vão ver. [música] E uma vez que te vem, nunca mais consegue esquecer. A marca no meu braço queima enquanto escrevo isto. Sei que sabem, sei que não gostam, mas alguém precisa de saber, [música] alguém precisa de ser avisado. Porque eu não fui e paguei o preço e vou continuar a pagar até ao último dia da a minha vida.