EX-COVEIRO RELATA A EXUMAÇÃO DE UM ASSASINO EM 1993 QUE REVELOU ALGO ASSUSTADOR | História de Real 

EX-COVEIRO RELATA A EXUMAÇÃO DE UM ASSASINO EM 1993 QUE REVELOU ALGO ASSUSTADOR | História de Real

Em 1993, prestaram-me um serviço no cemitério de Iguatu, que nunca esqueci. Era para abrir a cova de um homem que alguns aqui no interior do Ceará tinham pavor apenas de ouvir o nome, Francisco Pereira. Mas quando a minha enchada bateu na madeira e levantei a tampa, o que vi ali lá dentro não foi só osso.

 Tinha um segredo amarrado junto do morto, que nunca deveria estar ali. E ali tive que escolher. Ou deixava aquele homem pagar o que devia, ou mexia no que não entendia. E até hoje me pergunto se fiz bem. O meu nome é José Arlindo, Tenho 82 anos e passei 31 anos como coveiro no cemitério municipal de Iguatu, aqui no interior do Ceará.

 E esta é a minha história em minutos. Eu preciso explicar-te quem era Francisco Pereira para que perceba o peso que aquele nome tinha. Era um homem de 40 e poucos anos, antigo morador de Iguatu, daquele tipo que toda a gente conhece, mas ninguém quer por perto. Tinha uma coisa nele que deixava um ambiente diferente quando ele entrava.

Tinha um jeito de olhar as pessoas que incomodava. Eu já vi gente má na a minha vida e já me cruzei com pessoas que fizeram coisas horríveis, mas poucos tinham aquele olhar. Era o tipo de homem que se tolera, mas nunca se abraça. O tipo que a gente cumprimenta na rua e agradece quando ele passa.

 E foi em 1989 que o nome de Francisco Pereira ficou marcado para sempre em Iguatu. Naquele ano, o filho da dona Lúcia foi encontrado morto, um rapaz novo e trabalhador. A sua morte caiu pesada em toda a gente que conhecia aquela família. E o nome que as pessoas falavam baixinho, olhando para os lados antes de falar, era o de Francisco Pereira.

 Mas ninguém conseguiu provar. E aquilo ficou assim, sem resolução, sem julgamento, sem nada. A polícia foi chamada. As foram feitas perguntas, mas não foi paraa frente. Não havia prova de que colocasse Francisco Pereira como responsável de forma oficial. E ele continuou na cidade com a sua vida, como se a morte daquele rapaz não tivesse nada a ver com ele.

 Ele continuou a ir à feira, sentando-se no bar, tudo da mesma maneira. E a família da dona A Lúcia tinha de ver aquilo sem poder fazer nada. A dona Lúcia era rezadeira, não daquelas que o fazem por dinheiro ou por fama. Era uma mulher que as as pessoas da região respeitavam de verdade.

 E quando alguém adoecia e o médico não resolvia, ia ter com ela. Quando uma criança estava com quebranto, a mãe levava até ela e ela nunca negou atendimento a ninguém, rico ou pobre. Era uma mulher de poucas palavras e de olhar firme, daquelas que quando falam toda a gente para para ouvir. Mas perder o filho único da forma que ela perdeu foi algo que marcou aquela mulher para sempre.

 Eu via isso no rosto dela quando se cruzava com ela pelas ruas de Iguatu. Era um peso quieto que ela carregava nos olhos daquele tipo que não vai embora nunca mais. E eu nunca me esqueci-me daquele olhar. Assim, meses depois da morte do filho desta, Francisco Pereira foi encontrado morto dentro da própria casa, sozinho, sem marca de violência no corpo e sem explicação que o médico conseguisse fechar com segurança.

 Não havia qualquer causa clara. Uns disseram que foi castigo de Deus, outros diziam coincidência, mas cada um guardou aquilo dentro de si bem fundo, porque ninguém tinha coragem de colocar em palavra o que estava realmente a pensar. Soube da morte de Francisco Pereira, pela boca de um vizinho. Fiquei quieto quando ouvi. Não senti alegria e nem tristeza.

 Ele foi enterrado alguns dias depois. Eu mesmo fiz esse serviço. Fechei aquela cova com as minhas próprias mãos, como tinha fechado tantas outras. Mas foi depois desse dia, sem que eu me apercebesse logo de início, que aquela sepultura me começou a incomodar de uma forma que nenhuma outra nunca tinha incomodado em 31 anos de trabalho.

 Era como se cada vez que eu precisava de passar perto daquele troço do cemitério, o meu passo tornava-se mais curto e eu desviava sem querer, sem pensar. Não era nada visível. Não era nada que pudesse mostrar a alguém e dizer: “Olha, é isto aqui. Era uma sensação, uma coisa no ar daquele canto que não tinha nos outros cantos, um silêncio diferente, mais pesado, um frio que não batia com o calor do sertão.

 O meu corpo arrepiava quando me aproximava. Os outros trabalhadores faziam o mesmo desvio, mas ninguém dizia nada. E foi assim durante anos. Então, quando eu recebi aquela ordem de serviço em 1993 e vi o nome de Francisco Pereira escrito ali, o arrepio que senti não era de surpresa. Era o corpo a dizer-me o que a cabeça ainda não tinha processado.

 Eu ia ter de voltar para aquela cova e abrir aquela tampa. e alguma coisa em mim que não sei explicar até hoje. Tinha a certeza de que quando eu abrisse aquilo não ia encontrar apenas osso. Então saí do escritório, dobrei a ordem de serviço e enfiei-o no bolso e fui logo ao depósito procurar as ferramentas.

 E então comecei a caminhar na direção do setor onde a cova estava. E foi nesse caminho, naquele silêncio de manhã cedo, que a memória começou a regressar. Eu não a chamei. Ela veio sozinha e o que voltou foi o dia do enterro há anos, mas tão claro na a minha cabeça naquele momento, como se tivesse sido na semana passada.

 Eu me recordo cada detalhe daquele dia. O funeral de Francisco Pereira foi pequeno e com poucas pessoas. A reputação de um homem decide quem aparece no dia do adeus. O padre fez o que tinha a fazer, leu o que tinha para ler, rápido e sem grande cerimónia. E eu fiquei do lado, como sempre fico, aguardando a hora de trabalhar. O caixão estava fechado.

Eu tinha ajudado a preparar tudo o resto cedo nesse dia. Era um caixão simples, de madeira escura, sem qualquer ornamento. Eu fiquei a olhar para ele enquanto o padre terminava e senti aquela estranheza de sempre quando o morto era alguém de quem a cidade não ia sentir falta. Uma coisa difícil de nomear.

 Não era tristeza, era apenas um vazio quieto. Foi quando vi a dona Lúcia entrar pelo portão. Ela veio sozinha, devagar, sem olhar para ninguém. Caminhou entre as pessoas como se não estivessem ali, e foi direito ao caixão de Francisco Pereira e parou à sua frente a uns dois passos de distância. Eu deixei de respirar durante um segundo.

 Aquilo não era o tipo de coisas que esperamos ver. a mãe do rapaz que ele supostamente matou parada em frente do caixão do assassino do filho. Ninguém esperava aquilo. Eu vi as pessoas à volta trocando o olhar. Vi uns a afastarem-se um pouco sem perceber como quem recua perante algo que não compreende. Mas ninguém disse nada.

 Ninguém teve coragem de dizer nada. Ela ficou ali uns minutos, não rezou em voz alta, não chorou, não fez nenhum gesto que eu pudesse ver, apenas ficou parada de pé, olhando para aquela madeira fechada com um olhar que nunca mais esquecerei. Aquilo não era raiva, era uma coisa mais funda, uma coisa que não soube nomear naquele dia.

 E depois ela virou as costas e foi-se embora da mesma forma que tinha chegado, sozinha, devagar. sem olhar para ninguém, saiu pelo portão e sumiu. E aí sim o murmúrio começou entre as pessoas que ficaram, o que ela estava ali a fazer e o que aquilo significava. Cada um tinha uma resposta diferente. Alguns disseram que ela veio dar o perdão, outros abanaram a cabeça e não disseram nada.

 Eu fiquei só a olhar e não disse nada. Eu enterrei o Francisco Pereira nessa tarde, fechei a sepultura com as minhas próprias mãos, cobri tudo de terra, arranjei a lápide simples com o nome dele e fui-me embora sem pensar muito. Era o meu trabalho e eu tinha-o feito, mas alguma coisa desse dia ficou ali sem que eu percebesse.

 Alguma coisa que foi crescendo nas semanas e nos meses seguintes, devagar, sem pressas, até virar o incómodo que aprendi a conhecer. Aquela memória passou quando avistei o túmulo de longe. Então eu Parei no meio do corredor com a enchada no ombro. O sol da manhã já batia forte, como bate no sertão mesmo cedo. Mas naquele troço do cemitério, o ar parecia diferente, mais parado, como se o vento não chegasse ali da mesma maneira que chegava aos outros cantos.

 Eu conhecia cada pedaço daquele cemitério e aquele troço sempre foi diferente dos outros. Só que eu nunca tinha parado para pensar porquê. Então comecei a voltar a andar, só que mais devagar agora. E quanto mais me aproximava, mais o meu corpo ia sentindo que aumentar. Era uma pressão ligeira que foi aparecendo no peito.

 E o pescoço e os braços arrepiaram-se logo a seguir. Mas eu continuei a andar e quando cheguei e Parei em frente da lápide, o arrepio voltou, só que mais forte agora, como se alguma coisa debaixo daquela terra estivesse a responder à minha chegada de uma forma que não sabia explicar. Eu Olhei para o chão em redor da lápide e a erva crescia ali diferente, mais rala, mais amarelada do que em qualquer outro túmulo em redor.

 Era como se a terra daquele pedaço rejeitasse o que tentava viver em cima dela. Naquele momento, eu Fiquei a olhar e quanto mais olhava, mais tinha a certeza de que aquilo era diferente de tudo o que está à volta. Então, segurei a enchada com as duas mãos e Olhei para a cova uma última vez antes de começar.

 Mas naquele momento precisei parar porque a imagem da dona Lúcia parada em frente daquele caixão tinha virado na minha cabeça. E pela primeira vez em todos estes anos, olhei para aquela cova e fiz-me a pergunta que nunca me tinha feito antes. O que ela estava ali a fazer naquele dia? o que ela foi fazer em frente ao caixão do homem que provavelmente matou o filho dela.

 E porque logo a seguir àquele enterro, aquela sepultura nunca mais foi igual às outras. Coloquei a enchada na terra e comecei a escavar. O sol batia forte nas minhas costas e os suores corria pelo pescoço. Mas aquele arrepio continuava lá, mesmo com o calor. Aquele arrepio gelado, o silêncio daquele canto do cemitério era diferente dos outros, mais fechado, mais pesado.

 E a pressão no peito que tinha começado quando me aproximei do túmulo foi crescendo a cada vez que a inchada entrava no chão. Eu Tentei não pensar, mas naquele dia a cabeça não obedeceu. Assim, depois de um tempo, a enchada bateu na madeira. Eu conheço esse som. É um pouco abafado, que diz que chegou onde precisava chegar.

 E normalmente quando ouço esse som, é o momento em que o trabalho começa a fechar. Mas naquele dia, quando ouvi aquele bac, o arrepio que estava no o meu pescoço desceu pelo meu corpo de uma vez. Parei e respirei fundo. Então Tirei o resto da terra devagar e a madeira foi aparecendo. Estava escura e húmido, do jeito que fica depois de anos dentro da terra.

 Baixei-me na beira da cova, coloquei a alavanca na borda e comecei a forçar a tampa. Ela estava pesada, mas quando ela começou a ceder, senti o meu corpo inteiro travar por um segundo, uma coisa que nunca tinha acontecido em nenhuma outra exumação na vida. E quando olhei para dentro, o primeiro pensamento que tive não foi sobre o morto, foi sobre o que estava do lado do morto.

 Perto da cabeça do Francisco Pereira. Tinha um embrulho pequeno, escuro, um pano preto dobrado e amarrado com um cordão vermelho. Era firme, apertado, de uma forma que nunca fosse abrir-se sozinho. Eu fiquei olhando para aquilo sem conseguir perceber o que os meus olhos estavam vendo, porque aquilo não devia estar ali.

 Eu próprio tinha ajudado a preparar aquele caixão há anos. Eu sabia, com toda a certeza do mundo que aquilo não estava lá quando a tampa foi fechada. Será que alguém tinha entrado naquele cemitério depois do enterro, aberto aquela cova e colocado aquele embrulho do lado da cabeça de Francisco Pereira e fechou tudo de volta? Ou aquilo foi colocado antes do caixão ser fechado? Eu nunca descobri.

 Então fiquei parado à beira da cova, olhando para aquilo sem me mexer. O arrepio desceu pelo todo o braço, o peito apertou, a cabeça começou a rodar um pouco e o silêncio daquele canto mudou de vez. Não era mais o silêncio pesado de antes, era outro tipo. Um silêncio que sentimos quando percebe que não está sozinho, mas não vê ninguém.

 Eu nunca tinha sentido aquilo antes, nunca. Eu não queria apanhar aquilo. O meu corpo inteiro estava a me dizendo para não pegar, mas as minhas mãos desceram em direção ao embrulho antes da minha cabeça mandar. E no momento em que os meus dedos tocaram no pano preto, foi como se alguma coisa tivesse à espera desse toque. Uma dor de cabeça veio na mesma altura, juntamente com uma tontura que me fez a cabeça rodar, e o peito apertou de um modo que fez-me suster a respiração.

 E uma presença que não sei explicar até hoje tomou conta daquele lugar. Não era barulho, não era movimento. Era algo quieto e pesado que senti no corpo inteiro, desde a cabeça até aos pés. Mas eu Tirei o embrulho do caixão com as duas mãos. Era leve, muito mais leve do que eu esperava.

 O pano preto era velho, mas inteiro, e o cordão vermelho estava dado em nós que nunca tinha visto antes, feitos com cuidado por alguém que sabia bem o que estava a fazer. Por dentro, eu sentia a forma de algo, mas não sabia o quê. Não tive coragem de abrir, só Fiquei de pé com aquilo nas mãos, olhando para ele. Os braços continuavam arrepiados, a cabeça continuava pesada e aquela presença não tinha desaparecido.

 E eu continuava ali com aquele silêncio diferente à minha volta. Eu trabalho com a morte toda a vida. Eu sei o que é ficar perto de um local onde morreram pessoas, mas aquilo era diferente de tudo o que eu já tinha sentido antes. E foi nesse momento que a imagem da dona Lúcia no enterro voltou à minha cabeça, dela parada em frente do caixão fechado, quieta, sem chorar, sem rezar em voz alta e com aquele olhar.

 E depois, pela primeira vez, com aquele embrulho nas mãos e aquela cova aberta na minha frente, percebi o que era aquele olhar. Não era raiva, não era dor, era o olhar de alguém que talvez já tivesse feito algo e que tinha ido até àquele caixão, não para perdoar. E o que eu estava a segurar nas minhas mãos era a prova disso.

 Tudo aquilo que eu tinha sentido durante anos ao passar perto daquela cova, os arrepios, aquele silêncio pesado, o incómodo, estava ali enrolado num pano preto atado com cordão vermelho nas minhas mãos e eu não sabia o que fazer com aquilo e nem se eu devia tê-lo tirado de dentro do caixão. Eu Fiquei parado com aquele embrulho nas mãos durante um tempo.

 O sol continuava batendo com força nas minhas costas. O cemitério continuava quieto em redor e eu continuava ali de pé à beira daquela cova aberta, olhando para aquele pano preto com cordão vermelho, sem conseguir decidir o que fazer. Eu pensei em voltar a colocar dentro do caixão, em fechar tudo e ir embora como se não não tivesse visto nada.

 Eu pensei nisso por um bom tempo, mas não consegui porque alguma coisa em mim sabia que se eu fizesse isso, ia carregar aquilo pelo resto da vida. ia continuar a desviar daquele troço do cemitério, ia continuar a sentir aquele arrepio toda vez que passasse perto. Só que agora, sabendo o que estava lá dentro, e que era pior, também pensei em chamar alguém e mostrar a algum colega o que eu tinha encontrado.

 Mas contar o que exatamente? que eu tinha achado um embrulho dentro de um caixão e que eu pensava que a dona Lúcia tinha colocado ali e que tinha sentido uma presença quando toquei. Ninguém ia perceber. Eu mesmo mal compreendia o que estava a acontecer comigo naquele momento. Então eu fiquei a olhar para aquilo e as sensações não tinham desaparecido.

 O arrepio, aquele peso no peito continuava lá. A cabeça continuava pesada, do mesmo forma como tinha ficado, desde que os os meus dedos tinham tocado no pano preto. E quanto mais tempo ficava parado segurando aquilo, mais sentia que precisava fazer alguma coisa, que aquilo não podia ficar nas minhas mãos e não podia voltar pró caixão.

 Então, foi aí que eu olhei para o canto do cemitério. fundos, afastado das covas, tinha um tambor de metal enferrujado que a gente utilizava para queimar lixo e resto de material de serviço. Gravetos secos, bocados de madeira velha, essas coisas. Olhei para aquele tambor e a decisão veio antes de eu acabar de pensar. Eu ia queimar aquilo ali mesmo.

 Eu terminei o serviço primeiro, fechei o caixão, cobri tudo de volta com a terra, arranjei como tinha de ficar. Fiz tudo o que tinha de ser feito com um embrulho parado ao meu lado no chão, sem encostar nele mais do que o necessário. E quando terminei, peguei naquilo de volta e fui caminhando até ao tambor nos fundos do cemitério.

 Eu coloquei aquilo dentro do tambor, juntei uns paus secos que estavam pelo chão ali perto, pus por cima e deitei fogo. O fogo pegou rápido nos paus. Mas quando a chama chegou ao pano preto, o cheiro que saiu dali não era cheiro a pano a arder, não era cheiro de nada que eu conhecesse. Era diferente de tudo, forte, fechado, que ficou no ar daquele canto do cemitério de uma forma estranha.

 Eu Fiquei parado a olhar para o tambor e o fogo foi comendo o pano lentamente. E quando o cordão vermelho pegou, a chama ficou diferente por um segundo, mais alta, com uma cor que eu olhei e não soube explicar direito. Durou pouco, logo voltou ao normal e eu fiquei ali de pé, olhando até que tudo se tornou cinzento dentro do tambor, sem abrir, nunca abri, nunca soube o que estava dentro daquele pano preto e não me arrependo de não ter aberto.

 Quando o fogo se apagou de vez, eu Percebi uma coisa. As sensações tinham ido embora. O arrepio que estava no meu braço, desde que tinha tocado no embrulho tinha desaparecido. O peso no peito já não estava lá. A cabeça tinha ficado quieta. Eu fiquei parado um instante, prestando atenção ao meu próprio corpo, tentando ter a certeza do que estava a sentir. E era isso.

 Tudo tinha ido embora de vez, juntamente com a fumo daquele tambor. Até hoje não sei explicar o que foi aquilo. Eu não sei se o que queimei tinha algum poder de verdade ou se era apenas pano e cordão e a minha cabeça que tinha criado tudo aquilo. Eu nunca vou saber. O que sei é que depois desse dia nunca mais sentia aquele arrepio quando passava perto daquela cova.

 O incómodo que tive durante anos, aquele desvio que o meu passo dava sem eu mandar, desapareceu. O troço do cemitério onde Francisco Pereira estava sepultado, voltou a ser igual aos outros troços, pelo menos para mim. E a dona Lúcia morreu alguns anos depois. Ela foi-se embora quieta, do mesmo modo que viveu depois que perdeu o filho.

 Nunca falei com ela sobre o que tinha encontrado. Nunca tive coragem de chegar perto e perguntar se realmente foi ela. Mas agora não tem mais como. Só que há uma coisa que não sai da minha cabeça até hoje. Eu penso no seu filho, que foi encontrado morto em 1989. no homem que nunca foi julgado, que viveu impune e morreu na cama, sem pagar por nada na justiça dos homens.

 E eu penso se o que a dona Lúcia fez foi uma castigo, se aquele embrulho dentro do caixão estava a prender a alma de Francisco Pereira ali, sem o deixar ir embora, sem o deixar ter descanso, como pagamento do que fez ao filho dela. E depois penso no que fiz. Eu queimei aquilo. Eu desfiz o que ela tinha feito.

 E se aquilo era uma castigo, acabei com ela. Dei descanso a um homem que matou um rapaz novo e nunca pagou por isso nesta vida. Fiz isto sem saber, sem querer, mas fiz. Em 1993, prestaram-me um serviço no cemitério de Iguatu, que nunca esqueci. Era para abrir a cova de um homem que alguns aqui no interior do Ceará tinham pavor.

 só de ouvir o nome Francisco Pereira. Mas quando a minha enchada bateu na madeira e levantei a tampa, o que vi ali lá dentro não foi só osso. Tinha um segredo amarrado junto do morto que nunca deveria estar ali. E ali tive que escolher. Ou deixava aquele homem pagar o que devia, ou mexia no que não entendia.

 E até hoje me pergunto se fiz bem. O meu nome é José Arlindo, Tenho 82 anos e passei 31 anos como coveiro no cemitério municipal de Iguatu, aqui no interior do Ceará. E esta é a minha história em minutos. Eu preciso explicar-te quem era Francisco Pereira para que perceba o peso que aquele nome tinha. Era um homem de 40 e poucos anos, antigo morador de Iguatu, daquele tipo que toda a gente conhece, mas ninguém quer por perto.

Tinha uma coisa nele que deixava um ambiente diferente quando ele entrava. Tinha um jeito de olhar as pessoas que incomodava. Eu já vi gente má na a minha vida e já me cruzei com pessoas que fizeram coisas horríveis, mas poucos tinham aquele olhar. Era o tipo de homem que se tolera, mas nunca se abraça. O tipo que a gente cumprimenta na rua e agradece quando ele passa.

 E foi em 1989 que o nome de Francisco Pereira ficou marcado para sempre em Iguatu. Naquele ano, o filho da dona Lúcia foi encontrado morto, um rapaz novo e trabalhador. A sua morte caiu pesada em toda a gente que conhecia aquela família. E o nome que as pessoas falavam baixinho, olhando para os lados antes de falar, era o de Francisco Pereira.

 Mas ninguém conseguiu provar. E aquilo ficou assim, sem resolução, sem julgamento, sem nada. A polícia foi chamada. As foram feitas perguntas, mas não foi paraa frente. Não havia prova de que colocasse Francisco Pereira como responsável de forma oficial. E ele continuou na cidade com a sua vida, como se a morte daquele rapaz não tivesse nada a ver com ele.

 Ele continuou a ir à feira, sentando-se no bar, tudo da mesma maneira. E a família da dona A Lúcia tinha de ver aquilo sem poder fazer nada. A dona Lúcia era rezadeira, não daquelas que o fazem por dinheiro ou por fama. Era uma mulher que as as pessoas da região respeitavam de verdade.

 E quando alguém adoecia e o médico não resolvia, ia ter com ela. Quando uma criança estava com quebranto, a mãe levava até ela. E ela nunca negou atendimento a ninguém, rico ou pobre. Era uma mulher de poucas palavras e de olhar firme, daquelas que quando falam toda a gente para para ouvir. Mas perder o filho único da forma que ela perdeu foi algo que marcou aquela mulher para sempre.

 Eu via isso no rosto dela quando se cruzava com ela pelas ruas de Iguatu. Era um peso quieto que ela carregava nos olhos daquele tipo que não vai embora nunca mais. E eu nunca me esqueci-me daquele olhar. Assim, meses depois da morte do filho desta, Francisco Pereira foi encontrado morto dentro da própria casa, sozinho, sem marca de violência no corpo e sem explicação que o médico conseguisse fechar com segurança.

 Não havia qualquer causa clara. Uns disseram que foi castigo de Deus, outros diziam coincidência, mas cada um guardou aquilo dentro de si, bem fundo, porque ninguém tinha coragem de colocar em palavra o que estava realmente a pensar. Soube da morte de Francisco Pereira, pela boca de um vizinho. Fiquei quieto quando ouvi. Não senti alegria e nem tristeza.

 Ele foi enterrado alguns dias depois. Eu mesmo fiz esse serviço. Fechei aquela cova com as minhas próprias mãos, como tinha fechado tantas outras. Mas foi depois desse dia, sem que eu me apercebesse logo de início, que aquela sepultura me começou a incomodar de uma forma que nenhuma outra nunca tinha incomodado em 31 anos de trabalho.

 Era como se cada vez que eu precisava de passar perto daquele troço do cemitério, o meu passo tornava-se mais curto e eu desviava sem querer, sem pensar. Não era nada visível. Não era nada que pudesse mostrar a alguém e dizer: “Olha, é isto aqui. Era uma sensação, uma coisa no ar daquele canto que não tinha nos outros cantos, um silêncio diferente, mais pesado, um frio que não batia com o calor do sertão.

 O meu corpo arrepiava quando me aproximava. Os outros trabalhadores faziam o mesmo desvio, mas ninguém dizia nada. E foi assim durante anos. Então, quando eu recebi aquela ordem de serviço em 1993 e vi o nome de Francisco Pereira escrito ali, o arrepio que senti não era de surpresa. Era o corpo a dizer-me o que a cabeça ainda não tinha processado.

 Eu ia ter de voltar para aquela cova e abrir aquela tampa. e alguma coisa em mim que não sei explicar até hoje. Tinha a certeza de que quando eu abrisse aquilo não ia encontrar apenas osso. Então saí do escritório, dobrei a ordem de serviço e enfiei-o no bolso e fui logo ao depósito procurar as ferramentas.

 E então comecei a caminhar na direção do setor onde a cova estava. E foi nesse caminho, naquele silêncio de manhã cedo, que a memória começou a regressar. Eu não a chamei. Ela veio sozinha e o que voltou foi o dia do enterro há anos, mas tão claro na a minha cabeça naquele momento como se tivesse sido na semana passada.

 Eu me recordo cada detalhe daquele dia. O funeral de Francisco Pereira foi pequeno e com poucas pessoas. A reputação de um homem decide quem aparece no dia do adeus. O padre fez o que tinha a fazer, leu o que tinha para ler, rápido e sem grande cerimónia. E eu fiquei do lado, como sempre fico, aguardando a hora de trabalhar. O caixão estava fechado.

Eu tinha ajudado a preparar tudo o resto cedo nesse dia. Era um caixão simples, de madeira escura, sem qualquer ornamento. Eu fiquei a olhar para ele enquanto o padre terminava e senti aquela estranheza de sempre quando o morto era alguém de quem a cidade não ia sentir falta. Uma coisa difícil de nomear.

 Não era tristeza, era apenas um vazio quieto. Foi quando vi a dona Lúcia entrar pelo portão. Ela veio sozinha, devagar, sem olhar para ninguém. Caminhou entre as pessoas como se não estivessem ali, e foi direito ao caixão de Francisco Pereira e parou à sua frente a uns dois passos de distância. Eu deixei de respirar durante um segundo.

 Aquilo não era o tipo de coisas que esperamos ver. a mãe do rapaz que ele supostamente matou parada em frente do caixão do assassino do filho. Ninguém esperava aquilo. Eu vi as pessoas à volta trocando o olhar. Vi uns a afastarem-se um pouco sem perceber como quem recua perante algo que não compreende. Mas ninguém disse nada.

 Ninguém teve coragem de dizer nada. Ela ficou ali uns minutos. Não rezou em voz alta, não chorou, não fez nenhum gesto que eu pudesse ver, apenas ficou parada de pé, olhando para aquela madeira fechada com um olhar que nunca mais esquecerei. Aquilo não era raiva, era uma coisa mais funda, uma coisa que não soube nomear naquele dia.

 E depois ela virou as costas e foi-se embora da mesma forma que tinha chegado, sozinha, devagar, sem olhar para ninguém. saiu pelo portão e sumiu. E aí sim o murmúrio começou entre as pessoas que ficaram, o que ela estava ali a fazer e o que aquilo significava. Cada um tinha uma resposta diferente. Alguns disseram que ela veio dar o perdão, outros abanaram a cabeça e não disseram nada.

 Eu fiquei só a olhar e não disse nada. Eu enterrei o Francisco Pereira nessa tarde. Fechei a cova com as minhas próprias mãos. Cobri tudo de terra, arranjei a lápide simples com o nome dele e fui-me embora sem pensar muito. Era o meu trabalho e eu tinha-o feito, mas alguma coisa desse dia ficou ali sem que eu percebesse.

 Alguma coisa que foi crescendo nas semanas e nos meses seguintes, devagar, sem pressas, até virar o incómodo que aprendi a conhecer. Aquela memória passou quando avistei o túmulo de longe. Então eu Parei no meio do corredor com a inchada no ombro. O sol da manhã já batia forte, como bate no sertão mesmo cedo. Mas naquele troço do cemitério, o ar parecia diferente, mais parado, como se o vento não chegasse ali da mesma maneira que chegava aos outros cantos.

 Eu conhecia cada pedaço daquele cemitério e aquele troço sempre foi diferente dos outros. Só que eu nunca tinha parado para pensar porquê. Então comecei a voltar a andar, só que mais devagar agora. E quanto mais me aproximava, mais o meu corpo ia sentindo que aumentar. Era uma pressão ligeira que foi aparecendo no peito.

 E o pescoço e os braços arrepiaram-se logo a seguir. Mas eu continuei a andar e quando cheguei e Parei em frente da lápide, o arrepio voltou, só que mais forte agora, como se alguma coisa debaixo daquela terra estivesse a responder à minha chegada de uma forma que não sabia explicar. Eu Olhei para o chão em redor da lápide e a erva crescia ali diferente, mais rala, mais amarelada do que em qualquer outro túmulo em redor.

 Era como se a terra daquele pedaço rejeitasse o que tentava viver em cima dela. Naquele momento, eu Fiquei a olhar e quanto mais olhava, mais tinha a certeza de que aquilo era diferente de tudo o que está à volta. Então, segurei a enchada com as duas mãos e olhei paraa cova uma última vez antes de começar.

 Mas naquele momento precisei parar porque a imagem da dona Lúcia parada em frente daquele caixão tinha virado na minha cabeça. E pela primeira vez em todos estes anos, olhei para aquela cova e fiz-me a pergunta que nunca me tinha feito antes. O que ela estava ali a fazer naquele dia? o que ela foi fazer em frente ao caixão do homem que provavelmente matou o filho dela, e porque logo a seguir àquele enterro, aquela sepultura nunca mais foi igual às outras.

 Coloquei a enchada na terra e comecei a escavar. O sol batia forte nas minhas costas e os suores corria pelo pescoço. Mas aquele arrepio continuava lá, mesmo com o calor. Aquele arrepio gelado, o silêncio daquele canto do cemitério era diferente dos outros, mais fechado, mais pesado. E a pressão no peito que tinha começado quando me aproximei do túmulo foi crescendo a cada vez que a inchada entrava no chão.

 Eu Tentei não pensar, mas naquele dia a cabeça não obedeceu. Assim, depois de um tempo, a enchada bateu na madeira. Eu conheço esse som. É um pouco abafado, que diz que chegou onde precisava chegar. E normalmente quando ouço esse som, é o momento em que o trabalho começa a fechar. Mas naquele dia, quando ouvi aquele bac, o arrepio que estava no o meu pescoço desceu pelo meu corpo de uma vez. Parei e respirei fundo.

 Então Tirei o resto da terra devagar e a madeira foi aparecendo. Estava escura e húmido, do jeito que fica depois de anos dentro da terra. Baixei-me na beira da cova, coloquei a alavanca na borda e comecei a forçar a tampa. Ela estava pesada, mas quando ela começou a ceder, senti o meu corpo inteiro travar por um segundo, uma coisa que nunca tinha acontecido em nenhuma outra exumação na vida.

 E quando olhei para dentro, o primeiro pensamento que tive não foi sobre o morto, foi sobre o que estava do lado do morto. Perto da cabeça do Francisco Pereira. Tinha um embrulho pequeno, escuro, um pano preto dobrado e amarrado com um cordão vermelho. Era firme, apertado, de uma forma que nunca fosse abrir-se sozinho. Eu fiquei olhando para aquilo sem conseguir perceber o que os meus olhos estavam vendo, porque aquilo não devia estar ali.

 Eu próprio tinha ajudado a preparar aquele caixão há anos. Eu sabia, com toda a certeza do mundo que aquilo não estava lá quando a tampa foi fechada. Será que alguém tinha entrado naquele cemitério depois do enterro, aberto aquela cova e colocado aquele embrulho do lado da cabeça de Francisco Pereira e fechou tudo de volta? Ou aquilo foi colocado antes do caixão ser fechado? Eu nunca descobri.

 Então fiquei parado à beira da cova, olhando para aquilo sem me mexer. O arrepio desceu pelo todo o braço, o peito apertou, a cabeça começou a rodar um pouco e o silêncio daquele canto mudou de vez. Não era mais o silêncio pesado de antes, era outro tipo. Um silêncio que sentimos quando percebe que não está sozinho, mas não vê ninguém.

 Eu nunca tinha sentido aquilo antes, nunca. Eu não queria apanhar aquilo. O meu corpo inteiro estava a me dizendo para não pegar, mas as minhas mãos desceram em direção ao embrulho antes da minha cabeça mandar. E no momento em que os meus dedos tocaram no pano preto, foi como se alguma coisa tivesse à espera desse toque. Uma dor de cabeça veio na mesma altura, juntamente com uma tontura que me fez a cabeça rodar, e o peito apertou de um modo que fez-me suster a respiração.

 E uma presença que não sei explicar até hoje tomou conta daquele lugar. Não era barulho, não era movimento. Era algo quieto e pesado que senti no corpo inteiro, desde a cabeça até aos pés. Mas eu Tirei o embrulho do caixão com as duas mãos. Era leve, muito mais leve do que eu esperava.

 O pano preto era velho, mas inteiro, e o cordão vermelho estava dado em nós que nunca tinha visto antes, feitos com cuidado por alguém que sabia bem o que estava a fazer. Por dentro, eu sentia a forma de algo, mas não sabia o quê. Não tive coragem de abrir, só Fiquei de pé com aquilo nas mãos, olhando para ele. Os braços continuavam arrepiados, a cabeça continuava pesada e aquela presença não tinha desaparecido.

 E eu continuava ali com aquele silêncio diferente à minha volta. Eu trabalho com a morte toda a vida. Eu sei o que é ficar perto de um local onde morreram pessoas, mas aquilo era diferente de tudo o que eu já tinha sentido antes. E foi nesse momento que a imagem da dona Lúcia no enterro voltou à minha cabeça, dela parada em frente do caixão fechado, quieta, sem chorar, sem rezar em voz alta e com aquele olhar.

 E depois, pela primeira vez, com aquele embrulho nas mãos e aquela cova aberta na minha frente, percebi o que era aquele olhar. Não era raiva, não era dor, era o olhar de alguém que talvez já tivesse feito algo e que tinha ido até àquele caixão, não para perdoar. E o que eu estava a segurar nas minhas mãos era a prova disso.

 Tudo aquilo que eu tinha sentido durante anos ao passar perto daquela cova, os arrepios, aquele silêncio pesado, o incómodo, estava ali enrolado num pano preto atado com cordão vermelho nas minhas mãos, e eu não sabia o que fazer com aquilo e nem se devia ter tirado de dentro do caixão. Eu fiquei parado com aquele embrulho nas mãos durante algum tempo.

 O sol continuava a bater forte nas minhas costas. O cemitério continuava quieto ao redor e eu continuava ali de pé à beira daquela cova aberta, olhando para aquele pano preto com cordão vermelho, sem conseguir decidir o que fazer. Eu pensei em colocá-lo de volta dentro do caixão, em fechar tudo e ir embora como se não não tivesse visto nada.

 Eu pensei nisso por um bom tempo, mas não consegui porque alguma coisa em mim sabia que se eu fizesse isso ia carregar aquilo pelo resto da vida. ia continuar a desviar daquele troço do cemitério, ia continuar a sentir aquele arrepio toda vez que passasse perto. Só que agora, sabendo o que estava lá dentro, e que era pior, também pensei em chamar alguém e mostrar a algum colega o que eu tinha encontrado.

 Mas contar o que exatamente? Que eu tinha encontrado um embrulho dentro de um caixão e que eu pensava que a dona Lúcia tinha colocado ali e que tinha sentido uma presença quando toquei. Ninguém ia perceber. Eu mesmo mal compreendia o que estava a acontecer comigo naquele momento. Então eu fiquei a olhar para aquilo e as sensações não tinham desaparecido.

 O arrepio, aquele peso no peito continuava lá. A cabeça continuava pesada. do mesmo forma que tinha ficado desde que os meus dedos tinham tocado no pano preto. E quanto mais tempo ficava parado segurando aquilo, mais sentia que precisava fazer alguma coisa, que aquilo não podia ficar nas minhas mãos e não podia voltar pró caixão.

 Então, foi aí que eu olhei para o canto do cemitério. fundos, afastado das covas, tinha um tambor de metal enferrujado que a gente usava para queimar lixo e resto de material de serviço, paus secos, pedaços de madeira velha, essas coisas. Eu olhei para aquele tambor e a decisão veio antes de eu acabar de pensar. Eu ia queimar aquilo ali mesmo.

 Eu terminei o serviço primeiro, fechei o caixão, cobri tudo de volta com a terra, arranjei como tinha de ficar. Fiz tudo o que tinha que ser feito com um embrulho parado do meu lado no chão, sem lhe tocar mais do que o necessário. E quando terminei, peguei naquilo de volta e fui andando até o tambor nas traseiras do cemitério.

 Eu coloquei aquilo dentro do tambor, juntei uns paus secos que estavam pelo chão ali perto, pus por cima e coloquei fogo. O fogo pegou rapidamente nos paus. Mas quando a chama chegou ao pano preto, o cheiro que dali saía não era cheiro de pano a arder, não era cheiro de nada que eu conhecia.

 Era diferente de tudo, forte, fechado, que ficou no ar daquele canto do cemitério de uma forma estranha. Eu fiquei parado a olhar para o tambor e o fogo foi comendo o pano lentamente. E quando o cordão vermelho pegou, a chama ficou diferente por um segundo, mais alta, com uma cor que eu olhei e não soube explicar direito.

 Durou pouco, logo voltou ao normal e eu fiquei ali de pé, olhando até que tudo se tornou cinzento dentro do tambor, sem abrir, nunca abri, nunca soube o que estava dentro daquele pano preto e não me arrependo de não ter aberto. Quando o fogo se apagou de vez, eu Percebi uma coisa. As sensações tinham ido embora.

 O arrepio que estava no meu braço, desde que tinha tocado no embrulho tinha desaparecido. O peso no peito já não estava lá. A cabeça tinha ficado quieta. Eu fiquei parado um instante, prestando atenção ao meu próprio corpo, tentando ter a certeza do que estava a sentir. E era isso. Tudo tinha ido embora de vez, juntamente com a fumo daquele tambor.

 Até hoje não sei explicar o que foi aquilo. Eu não sei se o que queimei tinha algum poder de verdade ou se era apenas pano e cordão e a minha cabeça que tinha criado tudo aquilo. Eu nunca vou saber. O que sei é que depois desse dia nunca mais sentia aquele arrepio quando passava perto daquela cova. O incómodo que tive durante anos, aquele desvio que o meu passo dava sem eu mandar, desapareceu.

 O troço do cemitério onde Francisco Pereira estava sepultado, voltou a ser igual aos outros troços, pelo menos para mim. E a dona Lúcia morreu alguns anos depois. Ela foi-se embora quieta, do mesmo modo que viveu depois que perdeu o filho. Nunca falei com ela sobre o que tinha encontrado. Nunca tive coragem de chegar perto e perguntar se realmente foi ela.

 Mas agora não tem mais como. Só que há uma coisa que não sai da minha cabeça até hoje. Eu penso no filho dela que foi encontrado morto em 1989. no homem que nunca foi julgado, que viveu impune e morreu na cama, sem pagar por nada na justiça dos homens. E eu penso se o que a dona Lúcia fez foi uma castigo, se aquele embrulho dentro do caixão estava a prender a alma de Francisco Pereira ali, sem o deixar ir embora, sem o deixar ter descanso, como pagamento do que fez ao filho dela. E depois penso no que fiz.

 Eu queimei aquilo, desfiz o que ela tinha feito. E se aquilo era uma castigo, acabei com ela. Dei descanso a um homem que matou um rapaz novo e nunca pagou por isso nesta vida. Fiz isto sem saber, sem querer, mas fiz. E é essa.

 

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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