EX-COVEIRO RELATA MALDIÇÃO QUE ASSOMBROU O CEMITÉRIO POR 5 ANOS! | História de Terror e Relato Real
EX-COVEIRO RELATA MALDIÇÃO QUE ASSOMBROU O CEMITÉRIO POR 5 ANOS! | História de Terror e Relato Real 
Durante cinco anos inteiros, um único túmulo quebrou o silêncio de todo o cemitério. Gritos pedindo perdão ecoavam sempre a mesma hora da madrugada. Funcionários pediam transferência, vizinhos reclamavam, os padres tentaram rezar sem resultado. E tudo isto começou no dia em que uma filha diante do caixão selado dos pais disse em voz firme: “Nunca vou perdoar-vos.
Vão apodrecer sozinhos nesta terra fria”. E esta é a história que nunca consegui esquecer. O meu nome é Osvaldo Ribeiro, tenho 82 anos e desde que me aposentei passo boa parte dos dias a tentar esquecer certas recordações que a vida de coveiro me deixou. Trabalhei 42 anos no cemitério municipal de Curitiba, de 1948 até 1990. Vi de tudo durante este período.
Enterros cheios, com coroas caras e discursos emocionados e enterros solitários, com apenas um caixão a ser baixado diante do olhar de um único parente afastado. A rotina ensinou-me a lidar com o silêncio e com a dor alheia, mas nunca me preparou para o que vivia em setembro de 1985. Notícia chegou cedo.
Um acidente na BR267. Dois corpos viriam do Instituto Médico Legal, vítimas de um camião desgovernado que esmagara um carro de passeio. Não recebi nomes nem detalhes, apenas a guia de transporte. Para mim eram mais dois caixões a serem preparados para o velório. Só que, ao contrário da maioria, aqueles vieram selados.
Sobre a madeira existiam faixas metálicas e um selo a vermelho. Não abrir, condição irreconhecível. Não era a primeira vez que recebíamos caixões assim, mas causava sempre impacto. Quando o corpo não pode ser visto, a despedida torna-se fria, distante. Eu sabia que o velório seria pesado. Na tarde de sábado, a capela já estava pronta.
O dia chuvoso deixava os vidros embaciados e o cheiro das coroas de flores encharcadas tomava conta do ar. No interior, as velas acesas iluminavam o ambiente com aquela luz trémula que nunca parece suficiente. Entrei várias vezes para arrumar os bancos, verificar os suportes dos caixões e garantir que tudo estivesse em ordem.
Mas a sensação era de que nada ficava realmente certo. As primeiras pessoas começaram a chegar em silêncio, transportando guarda-chuvas, a pingar água e rostos abatidos. Um murmúrio de vozes baixas encheu a capela, mas era um som estranho. Não era o choro habitual, era um silêncio sufocado, como se todos transportassem um peso superior à perda.
Foi então que entrou, uma jovem, talvez com pouco mais de 20 anos, rosto pálido, cabelo preso de qualquer maneira, olhar duro. Não cumprimentou ninguém, não se sentou, apenas caminhou até à frente, parou diante dos caixões fechados e ficou imóvel. Observei-a de longe, como fazia sempre com os familiares, não por curiosidade, mas porque fazia parte do meu ofício estar atento.
O padre chegou e iniciou o terço. As pessoas começaram a responder em couro: Avé Maria, cheia de graça! O som ecoava abafado, misturado ao barulho da chuva a bater no telhado. A rapariga não rezava, não se ajoelhava, apenas permanecia de pé, respirando pesadamente, com o olhar fixo na madeira fechada.
O terço prosseguia com a cadência habitual, mas eu notava que a jovem permanecia imóvel, como se não estivesse ali para se despedir, mas para vigiar. De repente, quando o padre puxava a terceira dezena, ela ergueu a cabeça e falou: A voz não era alta, mas firme, clara, cortando o murmúrio das rezas. Nunca vos vou perdoar. Vão apodrecer sozinhos nesta terra fria.
As palavras ecoaram pela capela como se tivessem sido sopradas contra as paredes. Um silêncio imediato tomou conta do ambiente. O rosário parou nas mãos do padre e algumas pessoas baixaram os olhos como se se quisessem esconder. Não houve reação de choro ou grito, apenas aquele silêncio pesado que parecia estender-se.
A jovem então se virou-se e saiu pela porta lateral. Seus passos firmes ecoaram até que a porta se fechasse com estrondo discreto. Ninguém tentou detê-la. Ninguém disse uma palavra. O padre Tocciu ajeitou os óculos e retomou a oração com voz trémula. Mas já não havia a mesma devoção. O que se ouvia dali em diante era apenas uma repetição mecânica, como se cada pessoa estivesse a rezar por obrigação e não por fé.
Quando o velório terminou, quase não houve vigília. Alguns familiares dispersaram rapidamente e apenas dois ou três permaneceram mais tempo. Eu habituado a encerrar a capela, senti que aquela noite havia algo de errado. Fechei as portas, tranquei o cadeado e segui para casa. Mas a frase da jovem continuava ressoando nos meus ouvidos.
No dia seguinte, o enterro foi marcado para o fim da manhã. O céu ainda estava carregado e uma neblina rasteira cobria as alamedas do cemitério. O cortejo foi pequeno, muito menor do que seria de esperar. Talvez o choque do acidente, talvez o peso daquelas palavras na véspera. Não sei. O facto é que quase ninguém apareceu. A filha não voltou.
Isso foi notado, mas ninguém comentou. O silêncio dos presentes falava por si. Na quadra 12, o jazigo simples já aguardava. Nós, funcionários, ajeitamos os caixões e o sacerdote fez uma breve oração. Foi rápida, sem o costumeiro consolo, quase como se quisesse terminar logo. O som da terra cair sobre a madeira foi o único ruído contínuo.
Nenhum dos presentes ousou fazer discurso, nenhum último a Deus. apenas o trabalho mecânico de fechar a cova. Enquanto lançava a pá de terra, senti um peso súbito no ombro. Foi leve, mas inconfundível, como se alguém tivesse encostado a mão a mim. Virei de imediato, pronto a reclamar com algum ajudante, mas não havia ninguém ao meu lado.
Mesmo assim, não me consegui livrar da sensação de estar a ser observado. A neblina parecia mais espessa, precisamente sobre aquele túmulo, como se escondesse algo. As outras sepulturas em redor estavam claras, mas havia ali um véu que não se desfazia. Quando a cova foi finalmente fechada, me afastei com as mãos trémulas. Guardei as ferramentas e olhei mais uma vez para o quadra 12.
Naquele instante, uma certeza atravessou-me. Aquele não seria um túmulo como os outros. Na manhã seguinte ao enterro, regressei cedo ao cemitério, como fazia todos os dias. A garoa fina ainda persistia e o ar parecia mais frio do que o habitual. A quadra 12, onde o casal tinha sido enterrado, chamou-me a atenção.
A terra parecia mais escura, como se tivesse sugado a humidade do todo o meio envolvente. Passei a mão, estava encharcado, pesado. Respirei fundo e Segui o meu caminho, tentando dar importância. Durante o dia, tudo correu dentro da normalidade. Sepultamentos, visitas de famílias, sendo as flores trocadas. Quando o portão foi fechado e o silêncio instalou-se, o cemitério pareceu diferente.
Havia um peso no ar difícil de explicar. Eram quase 7 da noite quando fui à capela conferir as luzes. O espaço estava vazio, cadeiras empilhadas, coroas velhas encostadas ao canto. Mas ao me aproximar, ouvi um murmúrio. Suava como vozes rezando baixo, misturadas em cadência, mas a porta estava trancada e ninguém estava lá dentro.
Encostei o ouvido e as palavras desapareceram. Abri a porta. Nada além do cheiro doce das flores mortas. Na manhã seguinte, o zelador, um homem simples, que trabalhava comigo há anos, veio ter comigo. Senhor Osvaldo, ouviu ontem? Olhei para ele, sem saber o que responder. Ele parecia abatido, os olhos encovados, vozes na capela.
Jurei que havia gente rezando, mas quando entrei vazio, disse que devia ser o vento a atravessar as frestas. Mas por dentro sentiu o arrepio subir pela espinha. Eu também tinha ouvido. Na terça-feira, aconteceu outra coisa. As ferramentas utilizadas para escavação, paz, enchadas, carrinho de mão, estavam fora do lugar.
Costumávamos deixá-las trancadas na oficina. Mas de manhã encontrámos algumas largadas perto da quarteirão 12, cobertas de terra húmida. Não havia sinais de arrombamento cadeado intacto. “Algum miúdo deve ter saltado o muro”, disseram. Mas o cemitério era rodeado por grades altas e nada indicava invasão.
Nessa mesma noite, ao rondar o portão, reparei que o relógio da capela tinha parado. Os ponteiros estavam imóveis, duas em ponto, e ainda eram 7 da noite. Pensei que fosse apenas defeito. Troquei as pilhas, ajeitei os ponteiros. Na manhã seguinte estava a funcionar, mas quando voltei à noite tinha parado outra vez. Exatamente as duas.
Nos dias seguintes, o padrão tornou-se repetiu. Não importava o que eu fizesse, o relógio congelava às 2as da manhã, sempre à mesma hora, como se marcasse a hora de algo que nós não entendíamos. A neblina também parecia se concentrar de forma estranha. Curitiba sempre foi húmida, mas nessa semana a A quadra 12 vivia coberta por um manto mais denso, como se respirasse por conta própria.
Caminhar até lá à noite era como entrar num quarto fechado, abafado. Na sexta-feira, o zelador voltou a procurar-me, desta vez mais pálido do que nunca. Disse que havia avistaram-se de longe duas figuras caminhando entre as sepulturas. Um homem e uma mulher, afirmou. caminhavam devagar, lado a lado, mas quando me aproximei desapareceram.
Eu não quis acreditar, mas a firmeza nos olhos dele deixou-me sem resposta. Era apenas a primeira semana e já parecia que o cemitério já não era o mesmo. No sábado, o clima dentro do cemitério já era diferente. O que antes era rotina, abrir os portões, varrer as alamedas, regar algumas plantas, transformara-se numa tarefa feita sob um silêncio pesado.
Os os funcionários falavam pouco, olhavam sempre para trás, até o riso que às vezes surgia para quebrar a monotonia. tinha desaparecido. Um deles, rapaz novo, que nem sequer tinha 5 meses de serviço, pediu transferência. Disse que já não conseguia passar pela quadra 12. “Há ali qualquer coisa errada, senhor Osvaldo”, murmurou, evitando olhar nos meus olhos.
Eu sabia que ele não inventava. Aquele tipo de medo não se finge. À noite, o silêncio parecia mais carregado do que nunca. Caminhei pela Alameda central e percebi que o som dos os meus passos não ecoava como de costume. Era como se o chão estivesse coberto por algo invisível, abafando o ruído. Quando Cheguei perto da capela, ouvi novamente murmúrios, mas desta vez não eram rezas, eram sussurros desconexos, palavras arrastadas, quase um choro.
Ao abrir a porta, como sempre, encontrei apenas escuridão e cheiro a vela. apagada. No domingo, um morador vizinho do cemitério bateu no portão de ferro ainda cedo. Estava irritado. Dizia que não tinha conseguido dormir durante a madrugada. Gente a gritar, repetia. parecia pedido de ajuda. Perguntou se algum velório tinha continuado até tarde.
Respondi que não. Ele abanou a cabeça como quem não queria acreditar no que estava a dizer e foi-se embora sem se despedir. No mesmo dia, fui verificar a quadra 12 sozinho. O túmulo estava como o deixámos após o enterro, mas a terra parecia mexida, irregular, como se alguém tivesse pisado sobre ela durante a noite.
Olhei em volta, não havia marcas de pegadas, apenas o chão húmido e aquele véu de neblina mais espessa que em qualquer outra parte do cemitério. O ar ali lá dentro parecia diferente, mais pesado, difícil de respirar. De repente, senti um frio subir pela nuca e descer até aos ombros. Não era o vento. O ar estava parado.
Deixei de respirar por um instante e tive a clara impressão de que estava mais alguém ao meu lado. Não vi nada, mas senti. Aquela sensação de presença, de olhar fixo. Saí dali mais rápido do que gostaria de admitir. Na segunda-feira seguinte, a conversa entre os funcionários já não era sobre o trabalho, era sobre o que todos estavam ouvindo e vendo.
Uns falavam de vultos, outros de sons metálicos à noite, como ferramentas a bater sozinhas. Eu tentava para manter a ordem, dizia que era imaginação, mas dentro de mim sabia que havia algo de errado. Era como se naquela quadra a própria terra se tivesse tornado viva, respirando, esperando. Semanas seguintes só confirmaram que que todos nós já temíamos.
O silêncio habitual, que antes trazia uma estranha paz, se transformara em peso. Não era apenas o barulho de passos na madrugada, nem o relógio que parava às 2as da manhã. Era algo maior que começava a espalhar-se. Os primeiros a reclamar foram os moradores vizinhos. Casas antigas ficavam encostadas aos muros do cemitério e quem lá vivia estava habituado a conviver com o som dos sinos, com o cortejo de enterramentos, até com o barulho dos cães vadios que às vezes invadiam o terreno.
Mas naquela época as queixas eram diferentes. Uma senhora idosa que vivia na esquina bateu no portão de ferro numa manhã de terça-feira. Os seus olhos estavam fundos, como quem não dormia há dias. Disse que durante três noites seguidas tinha ouviu gritos vindos da direção do quadra 12. Não eram gritos de gente viva, repetia.
Eram como lamentos, pedidos de perdão. O porteiro tentou acalmá-la, mas ela jurou que até o seu neta pequena acordara a chorar ao ouvir as vozes na madrugada. Não demorou a que outros vizinhos começassem a queixar. Um rapaz que trabalhava de vigia noturno contou que via sombra se deslocando-se por trás das grades. Outro disse que ouviu passos a correr no pavimento, mas não havia ninguém.
O boato se espalhou. Algo estava errado dentro do cemitério. A administração pressionada chamou o padre da paróquia local para benzer a quadra 12. Lembro-me bem daquele dia. O sol brilhava, mas o ar estava frio e poucos funcionários quiseram acompanhar. O padre, de batina preta e olhar cansado, caminhou até ao túmulo e começou a oração.
Borrifou água benta, traçou o sinal da cruz, recitou trechos do Evangelho. Nós observávamos em silêncio, esperançosos de que aquilo trouxesse alívio, mas nada mudou. Na mesma noite, os gritos voltaram. ainda mais fortes. O zelador disse que parecia que a voz vinha debaixo da terra, como se os caixões estivessem a chamar por ajuda.
O padre regressou mais duas vezes, insistia em rezar, mas o resultado era sempre o mesmo: silêncio durante o dia, tormento durante a noite. Os Os funcionários começaram a pedir transferência. O rapaz mais novo foi o primeiro. Depois vieram dois coveiros experientes, alegando que não conseguiam mais trabalhar perto do bloco 12. Não dá para suportar aquela sensação.
Eu, já com décadas de experiência, tentava manter a rotina, mas sentia todos os dias que estava mais sozinho perante algo que não compreendia. com poucos funcionários devido aos acontecimentos, a administração pediu-me para ficar até mais tarde e fazer a ronda até ao outro vigia chegar. Foi numa dessas noites que aconteceu.
Eu fazia a ronda da lanterna na mão quando passei perto do jazigo. A nevoeiro era espesso e o frio cortava. De repente, senti um toque gélido no pescoço. Não era vento, não era ilusão. Era como a palma de uma mão a encostar na minha pele, gelada como pedra. Virei rápido com a lanterna, mas não havia ninguém.
Corri para a oficina, fechei a porta e fiquei ali sentado, a suar frio. Nunca esquecerei aquela sensação, como se alguém me tivesse tentado puxar para baixo. Nessa noite percebi que não eram apenas boatos, algo vivia realmente ou permanecia na quadra 12. O que acontecia no court 12 parecia cada vez mais forte e ninguém conseguia escapar.
O primeiro que viu claramente as aparições foi o zelador. Ele contou que ao amanhecer de uma segunda-feira caminhava pelo corredor central quando avistou duas figuras paradas diante do túmulo. Eram um homem e uma mulher, mas os seus corpos estavam desfigurados, como se fossem feitos de névoa e carne ao mesmo tempo.
O rosto parecia derretido, difícil de olhar e mesmo assim transmitia dor. O zelador ficou paralisado, mas jurou que ouviu os dois murmurando uma palavra repetida em lamento. Perdão, perdão, perdão. Ele caiu de joelhos, rezou com os olhos fechados e quando abriu já não havia nada, apenas o túmulo coberto de orvalho.
Dias depois, eu próprio presenciei. Foi de madrugada quando necessitei de verificar se o portão lateral estava bem trancado. A neblina estava tão densa que quase não via os meus pés. Então, diante do jazigo, vi duas sombras eretas. O homem curvava os ombros. A mulher parecia apoiar-se nele. Ouvia-se um choro arrastado, misturado com um grito de dor. Não sei como não desmaiei.
O instinto fez-me recuar, mas os meus olhos não piscavam. A palavra voltou a ecoar, agora mais alta, como se viesse das profundezas. Perdão. Dei dois passos para trás e a lanterna escorregou-me da mão. Quando Baixei-me para o apanhar, as figuras haviam desaparecido, mas o som manteve-se nos os meus ouvidos durante dias.
Com o passar dos meses, o cemitério começou a mudar. Árvores antes verdes secavam subitamente, como se uma praga as tivesse atingido. As plantas plantadas pelos visitantes definhavam em poucos dias. Mesmo com chuva, o mato crescia em volta do jazigo, como se tivesse vontade própria, sufocando as pedras e ocultando as inscrições da lápide.
O contraste era assustador. Enquanto as outras quadras mantinham a sua aparência normal, a 12 parecia um pedaço de terra amaldiçoada. Os funcionários que ainda restavam evitavam passar por ali. Faziam trajetos mais compridos, só para não se aproximar. Uns diziam que sentiam dor de cabeça perto do túmulo.
Outros relatavam arrepios mesmo em dias quentes. Os anos arrastaram-se assim. De 1985 a 1990, o tormento permaneceu. Não houve oração que silenciasse os gritos, nem a limpeza que alterasse o aspecto do túmulo. As desaparições tornaram-se rotina, vultos caminhando ao longe, vozes que acordavam vizinhos, súplicas pedindo um perdão que ninguém parecia disposto a dar.
A quadra 12 tornou-se um território de medo, um lugar onde a morte não descansava, mas clamava todas as madrugadas. E eu, que ali trabalhava, aprendi que há mortos que não se calam enquanto o coração dos vivos recusa-se a perdoar. 5 anos de gritos, aparições, plantas a secar e noites em branco. Eu já estava velho, cansado e contava os dias para reforma.
Foi em janeiro de 1990 que aconteceu o que mudaria tudo. Lembro como se fosse ontem, um dia comum, céu claro, calor abafado, típico do verão curitibano. Entrei no cemitério cedo, pronto para mais uma viagem arrastada, quando me apercebi de algo estranho ao caminhar pelas alamedas. A quadra 12 parecia diferente. De longe já notei.
O túmulo estava limpo. Aquele jazigo que durante anos ficou coberto de mato e sujidade agora mostrava as pedras visíveis, sem vestígios de abandono. As ervas daninhas tinham sido arrancadas e até o chão em volta parecia varrido. Aproximei-me devagar. Não havia sinal de quem tinha feito aquilo.
Nenhum funcionário tinha sido designado para limpeza e ninguém tinha coragem de se aproximar daquele lugar há meses. Quando cheguei mais perto, vi algo ainda mais estranho. Uma vela branca espetada no chão diante da lápide, ardia firme, apesar do vento fraco que soprava. A chama era intensa, quase imóvel, como se estivesse protegida por algo invisível.
Fiquei parou alguns minutos, hipnotizado pela cena. O silêncio em redor era absoluto. Nenhum pássaro, nenhum ramo a ranger, nada, apenas o crepitar suave da vela. Senti a pele arrepiar, não de medo, mas de expectativa. Era como se o próprio ar estivesse a aguardar algo. E então eu vi.
Duas silhuetas luminosas começaram a formar-se ao lado do túmulo. Depois, lentamente, contornos, um homem e uma mulher de pé, lado a lado. Diferentes das aparições anteriores, não havia desfiguração, não havia choro. Seus rostos eram serenos. Eu não me conseguia mover. As minhas pernas estavam firmes no chão, como se pesassem toneladas. Observei em silêncio enquanto aquelas figuras olhavam para a vela acesa, depois uma para a outra.
Não falaram nada, mas o ar parecia carregado de uma palavra que não precisei de ouvir para entender. Perdão. No mesmo instante, uma rajada de vento atravessou o cemitério. As árvores baloiçavam forte, folhas secas rodopearam pelo chão. O som, que parecia sempre abafado naquela quadra, explodiu em vida por alguns segundos e depois cessou. O vento parou.
O silêncio voltou, mas era diferente daquele silêncio sufocante de antes. Era um silêncio leve, como se finalmente houvesse descanso naquele pedaço de terra. Fiquei ali parado, a respirar fundo, sentindo que presenciava o fim de algo que me acompanhara durante anos. Fiquei imóvel durante longos minutos diante daquela cena.
Quando a chama se apagou, se dissolveu-se como poeira ao vento. Não houve grito, não houve gemido, não houve despedida, apenas desapareceram e o cemitério permaneceu mergulhado naquele novo silêncio. Nessa noite, pela primeira vez em 5 anos, não houve gritos. Nenhuma voz ecoou pelas alamedas, nenhum vizinho se queixou de lamentos na madrugada.
O relógio da capela, que parava sempre às 2as da manhã, continuou a funcionar sem interrupção. Os funcionários que ainda restavam perceberam de imediato. A O bloco 12 já não parecia respirar sozinha. Era apenas mais um pedaço de terra. Os dias seguintes confirmaram o que vi. Nunca mais houve aparições. O ar deixou de pesar quando se passava diante do jazigo.
As plantas, antes sempre murchas, começaram a vingar novamente. Até os pássaros que evitavam aquela região voltaram a pousar. Era como se a natureza, antes expulsa por algo invisível, tivesse sido convidada a retornar. Nunca descobri quem havia limpo o túmulo e acendido a vela. Não era trabalho de nenhum funcionário, disso tenho a certeza.
Alguns dizem que foi alguém da família que, depois de anos decidiu enfrentar o peso do abandono. Outros acreditam que foi apenas um devoto qualquer que ali passou e compadeceu-se. Para mim, pouco importa. O que vi com os meus próprios olhos foi suficiente para compreender que, de alguma forma aquela súplica de perdão finalmente encontrou resposta.
Nos meses seguintes, a vida no cemitério voltou ao normal. A quadra 12 deixou de ser evitada e voltou a ser apenas mais uma entre tantas. Mas para mim, que carreguei aquele tormento durante anos, nada seria igual. Hoje, tantos anos depois, já reformado e com os ossos cansados, Ainda penso naquele dia de janeiro de 1990.
Penso na vela acesa, nas silhuetas no vento que levou consigo o peso da morte. Não sei se aquilo foi libertação ou apenas alívio temporário. Não sei se as almas encontraram descanso ou se apenas se calaram. O que sei é que o cemitério ensinou-me uma lição que nenhuma pá de terra poderia enterrar.
O ódio dos vivos pode aprisionar os mortos durante c anos.