EX-COVEIRO RELATA O QUE ACONTECEU NO ENTERRO EM 1979 | História de Terror Real 

EX-COVEIRO RELATA O QUE ACONTECEU NO ENTERRO EM 1979 | História de Terror Real

Tinha 27 anos na altura e trabalhava há três anos no cemitério municipal. E quando aquele caixão chegou no último hora do dia, senti que tinha algo que não devia estar ali. E só fui descobrir quando desci àquela cova e abri aquele caixão. E o que vi fez-me ajoelhar na terra vermelha do sertão e rezar com tudo o que tinha.

 O meu nome é Raimundo Bezerra, tenho 74 anos e esta é a minha história em minutos. Eu trabalhei durante 31 anos como coveiro no cemitério municipal de Juazeiro do Norte aqui no Ceará. E o que vos vou contar aconteceu no dia 5 de Março de 1979. Eu tinha 27 anos nessa altura e era o o meu terceiro ano de cemitério.

 Naquele dia estava a trabalhar com um companheiro meu chamado Dirseu. Ele era um homem quieto, sério e de poucas palavras. E a gente entendia-se bem, porque no cemitério quem fala demais só atrapalha. Aquele dia já tínhamos preparou uma cova na parte da manhã para um enterro que estava marcado para as 1730 desse dia.

 Esse era o último hora do dia e o que chegou a essa tarde não era coisa normal. Quem é do sertão sabe como é esta hora. O sol já está baixo, as sombras ficam compridas e a luz fica de um amarelo que não é dia e não é noite. Os mais velhos aqui da região sempre chamaram a esta hora a hora do mau encontro. Eu cresci a ouvi-lo.

Pois é. E perto desse horário marcado, ao fim da tarde, chegaram dois polícias com um caixão. Eles vieram em uma carrinha de caixa aberta e desceram rapidamente, sem muita conversa e cerimónia. Dava para ver que queriam resolver aquilo logo e ir embora. Assim, ajudaram a tirar o caixão do veículo e colocá-lo no chão.

 E, entretanto, um deles veio entregar-me um papel para assinar. Enquanto eu assinava, este polícia olhou para o caixão de canto e disse: “Este aqui matou três homens à facada e depois tirou a própria vida. Depois, pegou no papel, dobrou-o, meteu-o no bolso e foi-se embora. Então aquilo era o enterro de um assassino.

 Eu Fiquei parado com aquilo na cabeça. Três homens mortos à facada e depois ele mesmo. Eu olhei para aquele caixão simples ali na terra vermelha, sem uma alma por perto. Nenhum familiar tinha apareceu, nenhum padre, nada. Só eu, o Dirceu e aquele caixão. Eu não era homem de ter medo de um morto e nunca fui.

 Quando trabalha-se anos num cemitério, este negócio de arrepio com corpo vai-se e transforma-se em trabalho. Mas naquele momento parado em frente daquele caixão, eu senti uma coisa que não sabia o que era. Não era medo, mas não era nada de bom também. Era uma inquietação, como se alguma coisa dentro de mim tivesse avisando que aquele serviço não era um serviço comum.

 Eu tentei não pensar nisso. Era já fim de expediente e a sepultura estava aberta e quanto mais rápido terminasse, melhor. Então eu e o Dirceu fomos carregar o caixão até à cova. Era no sector mais afastado do cemitério, ali no fundo, onde ficavam os enterramentos sem família. Era o local que a maioria dos funcionários não gostava de ir.

 Assim, a gente baixou-se para apanhar o caixão e foi nessa altura que eu senti que aquele peso era diferente para um caixão daquele tamanho. Eu já tinha carregado homem, mulher e caixão de todas as maneiras em três anos de serviço. E eu já sabia mais ou menos o peso que ali ia ter. Mas aquilo era diferente.

 Era como se tivesse algo junto ali dentro que não devia estar. Era uma coisa que eu não conseguia explicar, mas que sentia. E depois os meus braços começaram a tremer e mal tínhamos começado a andar. E quando olhei para o Dirceu, ele estava com a testa franzida a andar e a olhar pro chão.

 Eu não disse nada e ele também não. Eu só fui tentando convencer a minha cabeça que era coisa de fim de dia, o calor ou o cansaço. Podia ser isso, mas aquela sensação não passou. Ela ficou ali do princípio até ao fim. E quando a gente chegou à cova, colocámos o caixão nas cordas e começamos a descer lentamente e com cuidado, da forma que a gente sempre o fazia.

 E quando o caixão lá bateu no fundo da cova, foi nessa altura que o som veio, abafado e distante. Era como se algo vivo tivesse a abanar ali dentro. Não era barulho de madeira, caixão a ranger ou de corda a bater na lateral. Aquilo não era nada disso, era outra coisa. Era um som que eu nunca tinha ouvido antes vindo de um lugar assim e que depois nunca mais esqueci-me. Congelei e olhei para o Diceu.

A cor do seu rosto tinha mudado de uma hora para a outra. Ele ficou branco ali na à minha frente, debaixo daquele sol do sertão. A gente esteve parado por alguns segundos, sem falar e sem se mexer. O som lá em baixo tinha parado, mas aquilo ficou no ar de uma forma que não dava para fingir que não tinha acontecido.

Foi quando o Dirceu se mexeu. Devagar, colocou a pá no chão, levantou-se e começou a andar. Ele não disse uma palavra, só saiu a andar com a cabeça baixa e sem olhar para trás uma única vez. Eu fiquei a olhar sem conseguir dizer nada, enquanto se afastava entre as árvores do cemitério até desaparecer.

 E aí eu Vi-me sozinho, de pá na mão e com uma cova aberta à minha frente e aquele caixão lá ao fundo e nenhuma alma por perto, só eu. Eu fiquei a olhar para aquela cova durante um tempo, não sei dizer quanto foi. Pode ter sido 2 minutos, pode ter sido 10. Parecia que o tempo tinha parado naquele sector do cemitério, naquele pedaço de terra.

 E foi aí que eu Percebi uma coisa. O silêncio que veio depois daquele som era pior do que o próprio som. Muito pior. Porque o som eu podia tentar explicar. Podia ser qualquer coisa. e madeira, o calor, o caixão acomodando-se no fundo. Eu podia arranjar uma explicação, se quisesse, mas aquele silêncio que ficou depois não tinha explicação nenhuma.

 Era um silêncio pesado, diferente, como se o cemitério inteiro tivesse prendido a respiração juntamente comigo. E aquela cova aberta ali à minha frente parecia estar esperando, não pelo caixão, esperando por mim. Eu tentei chamar o Dirceu. Gritei o nome dele uma vez, duas vezes e nada.

 Ele tinha ido embora de verdade, talvez por medo. Fiquei ali parado, olhando para o buraco na terra, pensando no que aquele polícia tinha dito. Três homens mortos e depois ele próprio. Esse homem não tinha pedido perdão a ninguém, não tinha tido despedida, não tinha tido oração e agora estava lá em baixo, naquele caixão simples, num sector que ninguém visitava, sozinho como viveu.

 Eu não sabia o que ele tinha feito na vida toda. Não era da minha conta. Mas naquele momento senti o peso daquilo tudo, o peso de enterrar alguém que foi embora assim, sem nada. E foi aí que o som voltou, baixo no início, quase imperceptível, como se viesse de muito longe, mas eu sabia que vinha da cova. Era aquele mesmo som de antes, aquele abanar que eu ainda não conseguia identificar.

 Só que desta vez não parou, manteve-se ali constante, como se alguma coisa lá dentro estivesse a mover-se devagar, com calma e sem pressas. Aí imagina, o meu coração começou a bater mais rápido e forte. Batendo forte no meu peito, tentei convencer-me de que era a madeira. Porque o calor do sertão faz isto com a madeira, racha, range e faz barulho.

 Eu já vi isso antes, mas aquele som não era de madeira. E eu sabia disso. E o meu corpo também sabia, porque o suor que vinha não era de calor. Era um suor frio no meio daquele fim de tarde quente do Ceará, escorrendo pela espinha, e o som continuava. Aí eu pensei, não posso deixar assim. Não posso fechar esta cova sem saber o que é aquilo.

 Então abaixei-me na beira da cova e desci. Fui devagar, segurando nas laterais de terra e no interior da cova coloquei a pá por baixo da tampa para desbloquear. Depois o som parou, mas mesmo assim respirei fundo e forcei a tampa. O que eu esperava encontrar era um corpo frio. O que o destino me reservou foi o próprio teste da minha alma.

 Foi quando a madeira cedeu e foi aí que o cheiro saiu. Eu já trabalhava no cemitério há 3 anos. Eu conhecia o cheiro a morte e conheço-o até hoje. É um cheiro forte, pesado, mas é um cheiro que aprendemos a reconhecer. Mas aquilo não era aquele cheiro, era outra coisa, algo que nunca tinha sentido na vida e que nunca mais senti depois.

 Forte, um cheiro a couro queimado, misturado com terra molhada, que nunca viu o sol. Um cheiro que subia pelo nariz e pesava dentro da cabeça. Eu fechei os olhos e virei o rosto para tentar respirar ar limpo. E quando eu voltei a olhar para o caixão, levei um susto que me fez recuar um passo dentro daquela sepultura.

 Tinha uma cobra dentro daquele caixão. Eu fiquei parado a olhar para aquilo, sem conseguir acreditar no que eu estava a ver. Era uma cobra dentro de um caixão selado. Fiquei ali tentando compreender. Olhei para a madeira toda. Não tinha fissura, buraco ou fresta. A tampa tinha vindo pregada. Eu próprio vi quando chegou.

 Os polícias colocaram no chão e em momento algum aquele caixão foi aberto. Não havia como, mas estava ali. Era uma cascavel grande. Eu fiquei olhando para ela durante algum tempo, tentando perceber porque cobra entra em lugar fechado às vezes e isso acontece. Mas num caixão selado que veio de outra cidade, não tinha explicação, nenhuma que fizesse sentido.

 Aí o chocalho começou seco, como sementes a bater dentro de uma cabaça velha, mas com um ritmo que parecia um aviso. Quem é do interior conhece este som desde criança. O chocalho foi crescendo dentro daquele caixão e ficou mais alto. chegou num ponto que doeu a cabeça, uma dor que veio de repente, forte, mesmo no meio da testa, como se o som tivesse entrado pelo ouvido e apertado por dentro.

Aquela cobra estava no peito daquele homem, enrolada bem no meio, como se aquele fosse o seu lugar, como se ela tivesse ido até ali de propósito. O chocalho estava demasiado alto, a dor de cabeça latejava forte. Foi aí que eu Olhei para o rosto do homem. Aquele homem que deveria estar com os olhos fechados encarava-me de uma forma assustadora.

E por uma fração de segundos, juro por tudo o que é mais sagrado, que aqueles olhos moveram-se na minha direção. Eu recuei, bati com as costas na parede de terra da cova e fiquei parado, colado à terra, a olhar para o caixão. Tentei me convencer que não vi aquilo, que foi imaginação, que talvez aquele cheiro forte tinha-me deixado tonto, mas o meu corpo não acreditou em nenhuma destas explicações.

 O coração batia forte, as mãos tremiam e o suor frio não parava. Agora o que é que eu preciso que vocês entendam é o seguinte. Eu nasci e cresci no meio do mato desde pequeno que eu lido com cobra. Cobra para mim nunca foi motivo de medo. É bicho. E bicho a gente respeita, não teme. Então, quando eu me recompus ali dentro daquela sepultura, o que pensei foi: “Vou tirar este bicho daqui primeiro.

 Não importa como ela entrou, isso penso depois. Agora eu tiro-a e fecho este caixão.” Então, subi cova e pensei em usar o cabo da pá para a tirar de lá de dentro. Então eu Fiquei na beira, baixei-me e desci a pá lentamente na direção dela. No momento em que a pá chegou perto, a minha dor de cabeça duplicou de uma hora para a outra.

 A dor que já estava forte tornou-se insuportável. E aquele cheiro diferente que tinha saído quando abri ficou mais forte também, como se viesse daquele animal, como se saísse dela. E a sensação de que não estava sozinho tornou-se tão forte que me fez parar a meio do movimento. Não era uma cobra normal, era outra coisa.

 Então aquela cascavel virou a cabeça na minha direção e ficou a olhar para mim de um jeito que nunca vi uma cobra olhar para ninguém. Parei e pela primeira vez na a minha vida recuei de uma cobra e Fiquei ali à beira da cova sem conseguir mexer-me. As mãos apertavam a pá com uma força que magoava e mesmo assim não conseguia largar.

 Aquela cobra continuava a olhar-me imóvel enrolada no peito daquele homem. Com aquele olhar que não era de bicho, os olhos dela tinham algo de diferente. Pareciam duas janelas para um lugar escuro onde não existe perdão. Veja bem, em pouco tempo ia escurecer de vez e eu ia ficar às escuras sozinho, à beira daquela cova, com aquilo lá dentro.

 E foi aí que eu percebi. Aquilo que estava à minha frente não era só uma cobra. Eu não conseguia desviar o olhar e eu não sei explicar bem o que aconteceu ali até hoje, mas foi aí que o som mudou. Sabe quando um som entra dentro da sua cabeça e fica ali a martelar? Foi isso. Aquele chocalho entrou e deixou de ser barulho e passou a ser pressão.

 Uma pressão que crescia lentamente atrás dos meus olhos, na base da nuca e a meio da testa. Quanto mais eu olhava para ela, mais aquilo crescia dentro de mim. Eu tentava desviar o olhar, mas não conseguia. E quando consegui, o arrepio veio, começou na nuca e desceu pela espinha rápido. Mesmo eu estando debaixo do céu aberto do sertão, sentia aquele arrepio.

 A minha boca secou e as minhas mãos estavam a tremer. Era medo, medo puro, do tipo que o corpo sente antes da cabeça perceber o motivo. Tentei dar um passo para trás, mas as pernas não obedeceram. Era como se os meus pés estivessem colados naquela terra vermelha. Eu fiquei ali à beira da cova, sem me conseguir mexer, olhando para aquela cobra, e aquele chocalho continuava dentro da minha cabeça.

 Até que a cobra se mexeu. Ela começou a descer do peito do homem lentamente, deslizou pela lateral do caixão e subiu pela parede de terra da cova. Eu queria gritar, queria chamar alguém, queria correr, mas não consegui fazer nada disso. Então aquela coisa começou a rastejar na minha direção, como se soubesse exatamente o que estava a fazer e para onde ia.

 Ela vinha na a minha direção e foi aí que as minhas pernas cederam. Dobrei os joelhos e fui para o chão ali mesmo à beira da cova. Eu estava de joelhos na terra seca, com a pá caída de lado. Eu nem percebi quando soltei. Depois fiquei de joelhos, olhando para aquela cobra que vinha na minha direção, sem me conseguir levantar, sem conseguir fugir, sem conseguir fazer nada.

 E aquela dor de cabeça insuportável latejando. A pressão atrás dos olhos estava tão forte que a minha visão chegou a embalar durante um segundo. O chocalho dentro da cabeça não parava. E foi aí, naquele momento de joelhos na terra, que entendi que não tinha mais nada. Não tinha para onde fugir, ninguém para chamar.

 Não havia ferramenta que fosse resolver aquilo ou explicação que me ajudasse. Não tinha nada. Eu só tinha uma coisa. Depois fechei os olhos e Comecei a rezar. Mesmo com a voz a sair falhada e quase sem ar, eu disse que eu não sabia o que era aquilo, que eu estava com medo e que precisava de proteção contra aquilo que eu não sabia nem nomear.

 Pedi com tudo o que tinha, com toda a fé que eu carregava desde criança, desde que a minha avó me ensinou. E fiquei assim, de joelhos e de olhos fechados, rezando. E então aquele chocalho dentro da minha cabeça ficou mais fraco. Não desapareceu de uma vez, mas foi diminuindo lentamente, como um som que vai-se afastando.

 E eu continuei rezando. Não abri os olhos, apenas continuei pedindo e falando com Deus. Com a voz que eu tinha, que era pouca, que saía falhada e tremida, mas que era sincera. Era o mais sincero que tinha sido na vida inteira. Não sei quanto tempo Fiquei ali de joelhos. Eu não tinha como saber.

 O tempo tinha deixado de funcionar da forma normal naquele lugar. Podia ter sido 5 minutos ou 20. Só sabia que eu estava a rezar com os olhos fechados e com toda a fé que tinha. E foi aí que eu senti algo passou ao meu lado, frio, rastejando lentamente pelo chão, e foi embora. E, juntamente com aquilo, foi tudo. A pressão dentro da cabeça foi-se.

Aquele som do chocalho desapareceu. Aquela sensação de que tinha algo mais ali me acompanhando desde que o caixão bateu no fundo da cova, foi-se embora de uma hora para a outra, como se alguém tivesse apagado tudo de vez. Eu fiquei de joelhos por mais algum tempo, sem abrir os olhos, com medo de abrir e ver qualquer coisa que eu não fosse capaz de aguentar.

Aí ouvi o meu nome. Do outro lado do cemitério, uma voz que eu conhecia era a Dirceu. Então abri os olhos devagar. A cobra já não estava ali. Olhei pro chão em redor, para a beira da cova. Olhei em todo o canto. Não havia mais cobra nenhuma. Não tinha rasto, nada, como se ela nunca ali tivesse estado.

 O Dirceu chamou de novo o meu nome e veio vindo na minha direção. Eu levantei-me com muito custo. As pernas estavam fracas, os joelhos doíam de ter ficado na terra dura. Levantei-me, segurando na pá, respirando fundo e tentando juntar o que restava de mim. O Dirceu parou quando chegou perto.

 Ele olhou paraa minha cara para a cova aberta. Olhou para o caixão lá por baixo com aquela tampa aberta e perguntou o que tinha acontecido. Então contei tudo ali mesmo, da maneira que consegui, com a voz ainda tremida. Contei-lhe daquele cheiro que apareceu. Contei da cobra que estava no peito do homem, que tinha sido enterrado com os olhos abertos.

 Contei que caí de joelhos e rezei, pedindo proteção a Deus, até que tudo desapareceu. O Disseu-me ouviu sem interromper, sem questionar, sem fazer cara de dúvida, apenas ouviu. E quando terminei, ele ficou em silêncio durante uns segundos. Depois pegou a pá que eu tinha deixado cair no chão e desceu para a cova.

 Fechou a tampa do caixão sem dizer uma palavra e subiu. E depois terminou aquele enterro. sem conversar. Eu só queria sair daquele setor, daquele cemitério. Queria chegar a casa, fechar a porta e nunca mais pensar naquilo. E foi o que eu fiz. Mas nessa noite eu não dormi. Fiquei deitado na cama, olhando para o tecto, repassando tudo na cabeça, tentando compreender, tentando encontrar alguma explicação que fizesse sentido, mas não encontrei nenhuma.

 Não existe explicação que caiba naquilo que vivi naquele fim de tarde. Aqueles olhos fundos da cobra que não eram olhos de bicho e aquela sensação de algo que tinha passado ao meu lado no escuro, frio, a rastejar. Aquilo não saía. Os dias foram passando, a lembrança ficou. O terror, aquele medo que aperta o peito, foi diminuindo com o tempo, mas nunca desapareceu verdadeiramente.

 Virou uma coisa que ficou lá dentro quieta, que aparecia de vez em quando, sem avisar, no meio de um silêncio pesado, num fim de tarde e ao som de qualquer coisa que abanasse. O Dirceu nunca mais tocou no assunto e eu também não. A gente continuaram a trabalhar juntos por mais um tempo, mas aquele dia ficou apenas entre a gente.

 Passei a nunca mais ir sozinho naquele setor do fundo. Eu sempre arranjava maneira de ir com alguém. Mas dois anos depois desse dia, teve uma seca forte e a terra baixou em vários jazigos do cemitério. E eu fui fazer o serviço. E quando cheguei ao túmulo daquele homem, parei e fiquei ali na frente por um momento, olhando para aquela lápide simples, sem nome gravado, apenas um número de registo, porque era o enterro de um indigente.

 Então, respirei fundo, peguei na enchada e fui trabalhar. Foi quando vi do lado da lápide, na terra seca, encostada à pedra. Era uma pele de cascavel, inteira e perfeitamente preservada. Todo o formato da cobra em cada detalhe, desde a cabeça até ao chocalho no final da calda, seca e inteiro, como se a cobra tivesse saído de dentro dela ali mesmo, do lado daquela lápide, e foi-se embora.

 Eu fiquei olhando para aquilo durante um tempo, depois Apanhei um pouco de terra, cobri aquela pele e fui-me embora sem olhar para trás. E nunca mais contei isto a ninguém. Até hoje. Eu já tenho 74 anos e já enterrei muita gente nesta vida. Gente boa, gente má, criança, velho, rico, pobre. Eu trabalhei 31 anos num cemitério e vi de tudo.

 Nunca tive medo da morte. Mas nunca mais vi nada como aquilo. Não sei o que era aquela cobra. Não sei como ela entrou num caixão selado. Não tenho resposta para nada disso até hoje. Só sei de uma coisa. Deus protegeu-me naquele dia. Me protegeu quando eu estava de joelhos na terra, sem mais nada, pedindo com tudo que eu tinha.

 Ele ouviu e aquilo foi embora. Isso eu sei, isso eu tenho certeza e protege-me até hoje.

 

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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