EX-COVEIRO RELATA SEU PIOR MOMENTO NO CEMITÉRIO! | História de Terror e Relato Real
EX-COVEIRO RELATA SEU PIOR MOMENTO NO CEMITÉRIO! | História de Terror e Relato Real 
Hoje, olhando para trás, compreendo que não fui apenas um coveiro. Passei a vida abrindo covas e fechando histórias, mas depois do funeral de Benedita Moura, o cemitério nunca mais foi o mesmo e eu também não. Aposentei-me, deixei a pá e o portão para trás, mas o que vivi nesse dia nunca me saiu da cabeça. Muita gente acredita que o que acontece dentro de um cemitério é aí sepultado dentro.
Mas aprendi da forma mais dura. Algumas histórias continuam vivas, mesmo debaixo da terra. E é essa história que vou contar. O meu nome é Roberto Alves, tenho 68 anos e vivi praticamente toda a vida em Chapuri, no Acre. Mais de 40 anos da minha existência, passei dentro de um cemitério cuidando de túmulos, enterrando conhecidos, desconhecidos, gente boa, gente má.
E garanto, quem trabalha tanto tempo num local destes acaba por ver coisa que não devia. Só que nada, absolutamente nada, me marcou tanto como o dia em que enterrei a Benedita Moura. Benedita, esse nome até hoje causa arrepio em muita gente por aqui. A cidade inteira conhecia as histórias dela. Mulher de poucas palavras, sempre reclusa, vivia sozinha numa casinha de madeira à beira do ribeiro.
Diziam que mexia com coisa errada, que fazia simpatia, pacto, sei lá. Muita gente jurava ter visto vela acesa na janela de madrugada, ouvido cantoria esquisita vindo de dentro da casa dela. Não sei até onde era verdade, porque numa cidade pequena o povo aumenta as coisas. Mas uma coisa é certa, ninguém tinha coragem para enfrentar a Benedita de frente.
Até criança atravessava a rua quando ela passava. Quando a notícia da sua morte correu pela cidade, parece que o ar ficou mais pesado. Lembro-me como se fosse hoje. Acordei cedo, como sempre, para abrir o portão do cemitério e preparar a sepultura. Só que naquele dia tinha algo de diferente. O céu amanheceu fechado, as nuvens baixas, pesadas, e não tinha um pássaro cantando.
Era como se até a natureza tivesse parado. No enterro, a movimentação foi estranha. Muita gente foi, mas não por respeito. Era curiosidade e medo. Ninguém queria chegar muito perto do caixão. O silêncio do cortejo foi de gelar a espinha. Só ouvia-se o barulho dos passos na terra molhada. Quando o caixão foi colocado dentro da cova, o vento soprou de repente tão frio que arrepiou até os pelos do braço.
Eu, que já tinha enterrado centenas de pessoas, senti na altura que havia algo de errado. Comecei a deitar a terra, uma pá de cada vez, e a cada batida o barulho parecia mais oco, mais fundo do que o normal. Não sei explicar. Eu olhava para os lados e via o povo afastando-se rapidamente, como se quisessem livrar-se daquela obrigação.
O céu ficou ainda mais escuro e eu juro que por um instante a luz pareceu desaparecer do cemitério inteiro. Eu suei frio, as minhas mãos tremiam, mas continuei o trabalho até cobrir o caixão por completo. Quando terminei, fiquei olhando a terra fresca, sentindo o coração bater forte. Era como se o cemitério tivesse mudado de peso, de cor, de alma.
Fechei o portão ao anoitecer e nesse momento, ouvi. Os primeiros sussurros baixos, quase um sopro, vindo exatamente do lado onde Benedita estava sepultada. Achei que era a minha cabeça a pregar partida, mas quanto mais eu prestava atenção, mais certeza eu tinha. Havia alguém a falar lá de dentro. Voltei para casa nessa noite com a sensação de estar a ser seguido.
A rua estava deserta, só a luz ténue dos postes iluminando os becos. O som daqueles sussurros ainda rodava na minha cabeça, como se alguém tivesse encostado a boca ao meu ouvido. Dormir foi impossível. Virei-me a madrugada inteira na cama, ouvindo estalidos da madeira, o vento a bater na janela e cada barulhinho fazia-me pensar que era ela chamando pelo meu nome.
No outro dia, tentei convencer-me a mim próprio que era coisa da a minha mente. Afinal, quem trabalha num cemitério durante tantos anos precisa aprender a separar a imaginação da realidade. Fui cedo abrir os portões, como sempre, mas a má sensação continuava. Não havia vento, não havia canto de pássaro e até o cão que costumava rondar as lápides desapareceu.
Caminhar entre aquelas covas deu-me uma agonia diferente, como se cada cruz me observasse. Passei pelo túmulo de Benedita só de relance, sem coragem para parar. A terra estava ainda húmida, recém assente, mas o que me arrepiou foi aperceber de marcas estranhas, como riscos feitos com unhas espalhadas à beira da sepultura.
Pensei em passar a enchada e apagar aquilo, mas as minhas mãos não obedeceram. Voltei para o barracão, fingindo que não tinha visto nada. Durante todo o dia, o cemitério parecia mais silencioso do que nunca. Eu tentava distrair a cabeça, mas a cada vez que passava perto do túmulo dela, sentia o ar pesar, um cheiro forte a terra molhada e ferrugem, como o ferro velho oxidado.
À noite, quando chegou a hora de fechar os portões, senti o mesmo arrepio do dia anterior. O silêncio era tão profundo que parecia engolir os meus passos. E de novo veio o som. Os sussurros mais claros desta vez. Não eram apenas murmúrios, era como se alguém repetisse palavras numa língua que não compreendia, arrastada, lenta, mas sempre dirigida a mim.
Fiquei parado no meio do cemitério sozinho, tentando convencer o meu corpo a mexer-se. As pernas travaram, a lanterna quase caiu-me da mão e juro por tudo o que é sagrado que ouvi o meu nome. Um sussurro rouco vindo do chão. Rob bertô. Naquele instante soube que não estava imaginando. Fechei o portão quase correndo, trancando duas vezes a corrente.
Fui-me embora apressado, olhando para trás a cada passo, com a sensação de que alguma coisa podia atravessar aquelas grades a qualquer momento. Cheguei a casa a tremer. Sentei-me na cama e chorei em silêncio, como um homem que perdeu o controlo da sua própria vida. Eu não tinha coragem de contar nada a ninguém.
Quem ia acreditar? Iam dizer que eu estava a ficar louco, mas no fundo eu sabia. Aquilo não era loucura, não era cansaço. Desde o funeral de Benedita Moura, o cemitério já não era o mesmo. E eu, nunca mais dormia em paz. Não foi a cidade que mudou depois da [música] morte de Benedita, foi o cemitério. Aquele lugar onde eu passava a maior parte dos meus dias nunca mais teve paz.
Antes, por mais que fosse um campo de mortos, tinha ainda um silêncio normal, quase respeitoso. Depois do enterro dela, o silêncio transformou-se em algo sufocante, pesado, como se o ar tivesse densidade. Até o vento parecia evitar passar entre as árvores e as lápides. Nos primeiros dias, tentava ignorar. Trabalhava depressa, evitava olhar para a direção da sepultura dela, só que o cemitério obrigava-me a encarar.
Uma semana depois do enterro, encontrei a terra do túmulo revolvida, como se alguém tivesse cavado durante a madrugada. Pensei que fosse algum animal, cão, talvez, mas não havia marca de pata, nem buraco aberto. Era como se a terra tivesse mexido sozinha, respirado durante a noite. Aquilo deixou-me inquieto.
Passei a rondar o local com mais frequência, como se vigiar me fosse dar algum tipo de controlo. Foi quando apareceram os símbolos, riscos no chão feitos com algo afiado, formando desenhos que não compreendia. Não era coisa de crianças a brincar, nem de vândalo. Eram símbolos repetidos, como se alguém soubesse exatamente o que estava a fazer.
E todos eles surgiam ao redor do túmulo da Benedita. Na terceira semana, apareceu um novo pormenor. Uma boneca de trapos pequena, com olhos de botão, deixada mesmo em cima da sepultura, aquele tipo de boneca antiga que já não se via por aí. Quando a peguei, senti o pano húmido, frio, como se tivesse sido molhado de propósito.
O cheiro era de terra e fumo, como roupa guardada depois de uma fogueira. Atirei para longe, mas no dia seguinte ela estava lá de novo, sentada na mesma posição. Os sussurros, que antes eram esporádicos, começaram a ser mais frequentes. Eu já não tinha de esperar pela noite. Às vezes, a meio da tarde, sozinho, a limpar folhas secas, ouvia a voz.
No início era um burburinho, um arrastar de palavras sem sentido, mas com o tempo tornou-se mais claro, tornou-se mais íntimo, até que uma tarde ouvi de forma direta. Roberto, o som atravessou o meu corpo inteiro. Larguei a enchada e fiquei parado, tentando perceber. Não havia ninguém no cemitério.
As casas em redor eram demasiado distantes. Era ela? Não havia dúvida. Nessa noite não consegui comer, não consegui dormir. Fiquei sentado na beira da cama, a mão tremendo, pensando em contar a alguém. Mas eu calava-me sempre no último instante. Tinha medo de ser chamado de louco. E quanto mais eu guardava silêncio, mais forte era aquele parecia ficar.
Os dias começaram a arrastar. Eu já não era o mesmo homem que tinha enterrado centenas de pessoas sem nunca perder o sono. Depois de Benedita, cada passo dentro do cemitério parecia um desafio. As mãos tremiam, a boca ficava seca e o coração acelerava só de pensar em passar perto do sepultura dela. Comecei a perder o apetite.
O café arrefecia na mesa, o feijão ficava entocado no prato. Minha filha, que me vinha visitar de vez em quando, dizia que eu estava a emagrecer demasiado rápido. Eu inventava desculpas, dizia que era só cansaço do trabalho, mas no fundo sabia a verdade. O cemitério estava a sugar as minhas forças. As noites eram ainda piores.
Eu fechava o portão, trancava com uma corrente, mas a sensação era de que nada segurava aquilo lá dentro. O sussurro atravessava as grades, atravessava o ar, atravessava até às paredes da minha casa. Eu deitava-se, fechava os olhos e sentia a respiração gelada encostar no meu ouvido. A voz não chamava apenas o meu nome agora.
Dizia frases partidas, como se tentasse conversar comigo no meio de um chiado constante. Uma madrugada, acordei com a sensação de alguém sentado à beira da minha cama. Abri os olhos devagar e vi apenas a sombra, mas soube de imediato. Era ela. O peso afundava o colchão, como se um corpo invisível estivesse ali. Fechei os olhos com força, cobri a cabeça com o lençol e rezei até perder a noção do tempo.
Quando ganhei coragem para olhar de novo, não havia nada, mas o colchão ainda guardava o afundado. No dia seguinte, Regressei ao cemitério decidido a enfrentar. Pensei em abrir o túmulo, ver com os meus próprios olhos se o corpo dela estava lá dentro. Mas no instante em que cheguei perto, um vento forte varreu o lugar, derrubando folhas secas, e o cheiro a terra molhada ficou insuportável.
Senti uma pressão no peito, como se mãos invisíveis me empurrassem para trás. Não aguentei. Corri como um cobarde, sentindo o suor frio escorrer pelas costas. Passei a evitar o trabalho, inventando desculpas para não ficar sozinho lá dentro. Só que não adiantava. Quanto mais fugia, mais clara era a mensagem ficava. Eu não tinha escolha.
Nessa altura, eu já sabia que estava perdendo a batalha. Não era apenas um cemitério amaldiçoado, era pessoal. Ela tinha escolhido a mim. E no fundo eu sabia que não tardaria até acontecer algo que me obrigasse a enfrentar o que escondia-se naquele túmulo. Aquela noite começou como tantas outras, mas algo em mim já sabia que não ia acabar do mesmo jeito.
Chovia intensamente em Chapuri e a neblina cobria as ruas como um véu. Eu estava sozinho no cemitério, fechando os portões. As correntes rangiam molhadas e cada estalido ecoava pelo campo santo vazio. O vento assobiava por entre as árvores, mas não era um vento comum. Tinha um som pesado, arrastado, como se soprasse de dentro da terra.
O cheiro de barro encharcado subia do chão e colava-se na garganta. [música] As minhas mãos tremiam tanto que mal consegui rodar a chave na fechadura. Eu só queria sair dali e ir para casa. fingir que nada estava a acontecer. Mas foi então que vi no meio da névoa, perto da sepultura de Benedita, havia uma figura de pé.
Primeiro pensei que fosse um visitante perdido, alguém que ficou depois do horário, mas quando a lanterna iluminou, o meu coração parou. Era ela. O vestido estava encharcado, colado ao corpo magro e os cabelos despenteados caíam sobre o rosto. A pele parecia demasiado pálida, quase cinzento.
Fiquei paralisado, incapaz de dar um passo. A luz da lanterna tremia juntamente com a minha mão e, por um instante, pensei que os meus olhos estavam enganando-me, mas não. Ela estava ali. Quando levantou o rosto, vi os olhos. Dois buracos negros. Fundos, sem brilho nenhum. Não eram olhos de gente, eram como grutas vazias.
Puxando o olhar para dentro, senti o meu estômago embrulhar e o ar faltar nos pulmões. Foi nesse instante que o grito ecoou. Um som agudo, impossível de ser humano. Não era voz de mulher, nem de homem, nem de criança. Era algo que atravessava os ossos, que fazia o coração querer parar. Levei as mãos aos ouvidos, mas parecia que o som vinha de dentro da minha cabeça.
Dois funcionários que ainda estavam comigo caíram no chão na mesma hora. Um deles contorcia-se vomitando sem parar. O outro tentava respirar, mas parecia que tinha algo a sufocar a sua garganta. Eu gritava o nome deles, mas a minha voz não saía bem. O cemitério inteiro vibrou. As cruzes lintavam-te como se uma onda invisível tivesse passado por elas.
A neblina ficou tão densa que mal via um palmo à frente. Eu tentava correr, mas as minhas pernas não obedeciam. Era como se o chão tivesse colado aos meus pés. Tudo em mim dizia para não voltar a olhar, mas não resisti. Voltei os olhos para a sepultura e lá estava ela parada, me a olhar fixamente, o vestido colado, o cabelo a pingar e aqueles olhos que não eram olhos.
O grito cessou subitamente e o silêncio que veio depois foi ainda pior. Nesse silêncio ouvi o meu nome, um chamado rouco, lento, como se viesse debaixo de água. Roberto, quando o meu nome naquela voz que não era humana, um gelo percorreu-me a espinha. O suor frio escorria-me pelo rosto, mas ao mesmo tempo sentia a pele arrepiar-se como se estivesse num congelador.
Eu queria correr, mas os meus pés estavam cravados no solo. Era como se raízes invisíveis me segurassem. Os dois funcionários que estavam comigo ainda se contorciam no chão. Um deles gemia, batendo com as mãos contra o peito, como se tentasse arrancar o ar de volta. O outro, de olhos esbugalhados, olhava-me como quem pedia ajuda, mas não tinha forças nem para me aproximar.
Era como se todo o peso do cemitério tivesse caído sobre os meus ombros. A figura de Benedita deu um passo em frente. O som foi baixo, mas nítido. O estalido da terra molhada, sendo esmagada sob pés que não deveriam existir. Ela não pestanejava, não respirava, apenas avançava lentamente, como se tivesse todo o tempo do mundo.
Cada passo dela parecia empurrar-me mais para o fundo do desespero. Sentia o cheiro a terra podre, misturado com um odor forte a fumo, como se algo estivesse a arder há dias. O ar ficou tão denso que engolir era impossível. Foi então que percebi, não era apenas uma visão. O chão tremia, as lápides vibravam e algumas chegaram a rachar, soltando lascas.
Ouvi barulhos de passos entre as covas, como se outros presenças tivessem despertado junto dela. Mas não havia ninguém visível. Só sombras deslizando entre a névoa. Aproximei a lanterna do rosto dela, mesmo sem querer. A luz iluminou a pele enrugada, cinzenta, e aqueles olhos negros que refletiam nada. E foi nesse instante que o meu corpo reagiu.
Minhas pernas destravaram e eu corri. Corri sem olhar para trás, ouvindo o som do vestido encharcado arrastando no chão atrás de mim. O grito voltou ainda mais alto, fazendo-me tropeçar em cruzes e pedras. Caí duas vezes, ralei os joelhos, mas a adrenalina levantou-me. Corri até alcançar o portão. Atrás de mim, os gemidos dos funcionários misturados ao grito perseguiam-me.
Quando empurrei a corrente, as minhas mãos escorregavam de tanto suor. Quase não Consegui rodar a chave. E no momento em que o cadeado se abriu, senti uma onda de ar quente a passar pelas minhas costas, como se alguém tivesse soprado para o meu pescoço. Não tive coragem de olhar. Empurrei o portão com toda a força, saí a correr pela rua escura e só parei quando as minhas pernas já não respondiam.
Sentei-me na calçada ofegante, o corpo inteiro trémulo, chorando como uma criança. Atrás de mim, no cemitério, o o silêncio voltou, mas não era paz. Era a certeza de que algo se tinha manifestado e de que aquilo não iria parar ali. Depois daquela noite, já ninguém quis trabalhar comigo no cemitério. Os funcionários pediram a demissão e até quem morava perto jurava ter ouvido o grito atravessar a madrugada. Eu sabia.
Não tinha como fugir para sempre. A aparição da Benedita não foi um aviso, foi uma convocação. Depois da aparição, soube que não podia continuar sozinho. Me faltava coragem até para abrir o portão do cemitério. Cada vez que passava pela rua próxima, sentia o corpo emperrar, como se algo me puxasse para trás, exigindo que eu o encarasse.
Foi nesse desespero que decidi procurar ajuda. Em Chapuri, toda a gente conhecia dona Almerinda, uma rezadeira antiga, mulher de uma fé forte e de um respeito ainda maior. Diziam que já tinha ajudado famílias inteiras com benzeduras e rituais de proteção. Eu bati à porta dela numa manhã de sol, mas parecia que carregava uma tempestade dentro de mim.
Contei tudo desde o enterro de Benedita até à noite do grito. Falei das marcas na terra, da boneca de trapos, dos símbolos e do que vi naquela neblina. Esperei que ela rse, que me chamasse louco, mas não. Os olhos dela permaneceram sérios o tempo todo. Quando terminei, fez silêncio durante alguns segundos, respirou fundo e disse apenas: “Este tipo de alma não descansa sozinha.
Se continuar a ignorar, vai ser pior. Arrepiei-me na hora. Ela aceitou ir comigo ao cemitério, mas fez questão de avisar seria perigoso. Pediu-me que levasse sal grosso, velas brancas e uma lanterna. Ela, por sua vez, preparou um molho de ervas e um vidro com óleo que cheirava forte, como a ruda concentrada. Voltamos ao cemitério ao fim da tarde.
O céu estava encoberto e um vento frio soprava por entre as árvores, como se já soubesse o que ia acontecer. Quando empurrei o portão, as minhas mãos tremeram tanto que a corrente quase caiu. Fomos diretos ao túmulo de Benedita. A terra parecia diferente, mas escura, como se nunca tivesse secado. A boneca estava ali de novo, sentada mesmo em cima da sepultura.
A Dona Almerinda pegou nela sem hesitar, passou o óleo nas mãos e colocou-a no chão, fora do círculo que começava a traçar com sal. Fizemos um círculo em volta da sepultura e ela começou a rezar em voz alta. A cada palavra, a atmosfera parecia mais pesada. O vento aumentava, as velas apagavam-se sozinhas e um som de passos começou a ecoar entre as lápides, embora ninguém estivesse ali para além de nós dois.
Eu segurava a lanterna, mas tremia tanto que o feixe de luz balançava sem parar. A respiração saía curta e a minha garganta parecia seca, como se não conseguisse mais engolir. Olhei para o rosto da dona Almerinda, que continuava firme, os olhos fechados, as mãos levantadas, recitando orações que eu nunca tinha ouvido antes. De repente, um estrondo ecoou como se uma pedra tivesse caído com força sobre o chão.
A terra do túmulo tremeu, rachou em pequenas linhas e um cheiro insuportável a carne queimada tomou o ar. Eu gelei, a lanterna caiu-me da mão e, por um instante pensei em sair a correr, abandonar tudo. Mas, no fundo, eu sabia que se eu fugisse agora, nunca mais teria paz. Baixei-me para pegar a lanterna caída, mas as minhas mãos tremiam tanto que só consegui segurá-la depois da terceira tentativa.
O feixe de luz balançava, cortando a escuridão, e revelou algo que me fez gelar o sangue. Marcas novas a surgir sozinhas ao redor da sepultura, como se uma unha invisível estivesse a riscar a terra em tempo real. “Não pares, não pares!”, gritou a dona Almerinda, sem abrir os olhos, mantendo o tom firme nas orações.
O vento ficou tão forte que parecia um vendaval preso dentro do cemitério. As velas apagavam-se uma a uma e as árvores curvavam-se como se fossem feitas de papel. Eu sentia o ar vibrar pesado. Cada inspiração era como engolir fumo. A terra mexeu-se de novo. Primeiro como um tremor, depois como se algo empurrasse de baixo para cima.
O meu instinto gritava para correr, mas as minhas pernas estavam cravadas no chão. A sensação era de que se eu rompesse o círculo de sal, algo me puxaria junto. Foi quando ouvi outra vez a voz, aquela mesma voz rouca, arrastada, como se viesse debaixo d’água. Ber tu. O som atingiu-me por inteiro, como se me tivesse atravessado o peito. Caí de joelhos, tapei os ouvidos.
Mas não adiantava. A voz vinha de dentro, ecoava na minha mente. A minha visão escureceu e pensei que ia desmaiar. De repente, o canto da dona Almerinda aumentou. Ela repetia palavras que eu não compreendia, mas que pareciam cortar o ar como lâminas invisíveis. O cheiro de arruda a arder tomou conta do círculo e a boneca de trapos deixada ao lado começou a desfazer-se sozinha, como se estivesse a ser consumida por fogo invisível.
O chão estremeceu mais uma vez. As fendas ao redor do túmulo se fecharam de repente, como se nunca tivessem existido. O vento cessou tão rápido como tinha começado. O silêncio voltou, mas não era o mesmo silêncio sufocante de antes. Era um silêncio leve, como se o cemitério finalmente tivesse respirado. Eu desabei no chão sem forças.
O suor enxarcava-me a camisa. As minhas mãos estavam sujas de terra e a minha respiração era curta. desesperada. A Dona Almerinda manteve-se de pé, embora claramente exausta. Ela abriu os olhos, olhou para mim e disse com uma firmeza que nunca esquecerei. Está feito. Mas não pense que acabou. Isso não desaparece, apenas se aquiieta.
Regressámos a casa em silêncio. Cada passo parecia mais pesado que o anterior. Quando fechei a porta do meu quarto nessa noite, chorei como uma criança, não de alívio, mas de medo do que poderia voltar a acontecer. Hoje, tantos anos depois, já velho, ainda passo pelo cemitério de vez em quando. Já não trabalho lá, mas o meu caminho cruza com aqueles portões.
E toda vez que passo diante da sepultura de Benedita Moura, sinto o mesmo frio daquela noite. Não importa se o sol está quente, se a rua está cheia, o arrepio vem e com ele a recordação do grito que atravessou-me os ossos. Eu não sei se acreditas em mim. Talvez ache que tudo isto seja apenas história de um velho cansado, mas juro pela minha vida, algumas covas nunca se fecham de verdade.