EX-COVEIRO RELATA TUDO O QUE VIVEU! | História de Terror e Relato Real

EX-COVEIRO RELATA TUDO O QUE VIVEU! | História de Terror e Relato Real

Nessa noite ouvi passos entre os túmulos. Vi um homem de fato, o rosto pálido, caminhando lentamente. Ele ergueu a cabeça e disse com uma voz fraca, quase um lamento. Estou à procura da minha esposa. O sangue gelou-me nas veias, porque eu próprio tinha ajudado a enterrar aquele homem no dia anterior.

 O meu nome é Aparecido Fonseca. Tenho hoje 71 anos e durante muito tempo carreguei a pá. e o peso do silêncio no cemitério Recanto da Paz aqui no Porto Velho. Já vi de tudo neste ofício. Pessoas a ir cedo demais, famílias chorando, promessas quebradas à beira de um túmulo. Mas tem um acontecimento que nunca me saiu da cabeça e que até hoje quando fecho os olhos, volta-me com uma clareza assustadora.

 A tragédia de 1984. Estávamos em novembro e o calor parecia não dar trégua. Quem viveu em Porto Velho nessa altura sabe que o ar ficava pesado, húmido, e parecia que o sol ardia até de madrugada. Eu já estava habituado a suar em cima das covas, a lidar com velórios carregados de dor, mas nada me preparou para o que aconteceu nesse dia 13.

 A notícia chegou rápido antes mesmo de eu colocar os pés no cemitério. Um acidente terrível tinha parado a cidade. Um carro com um casal recém-casado bateu de frente com uma carreta. Todo o mundo falava nisso. Foi ao fim da manhã e em questão de minutos, os boatos já corriam pelas ruas, cada um aumentando um pormenor.

Diziam que tinham saído para viajar, que estavam ainda vestidos de festa com as roupas do casamento. Outros falavam que tinham passado a noite celebrando e pegado a estrada cedo demais. O que se sabia verdadeiramente é que o carro tinha-se transformado num amontoado de ferro e que o casal foi levado às pressas para o hospital.

 Eu não conhecia eles de perto, mas numa cidade como a nossa, toda a gente acaba por ouvir falar de todo mundo. O rapaz vinha de uma família tradicional, respeitada, e a rapariga era vista como uma das meninas mais bonitas da região. Diziam que o casamento tinha sido daqueles de parar a cidade, cheio de convidados, flores e música.

 Talvez, por isso mesmo, a tragédia tenha mexido tanto. Era como se um conto de fadas tivesse sido rasgado a meio. Passei o dia a ouvir pedaços de conversa. As as pessoas chegavam ao cemitério com caras pesadas, perguntando se já tinham trazido os corpos. A gente tentava se manter-se firme, mas era impossível não ser afetado pelo clima.

 Eu lembro-me da sensação de espera, como se o ar estivesse preso, todos aguardando a notícia final. E ela veio horas depois. Nenhum dos dois resistiu. O corpo do rapaz foi libertado, o da noiva não. E é aí que começa a parte mais estranha dessa história. O hospital informou que simplesmente não sabia onde estava o corpo dela. Sumiu.

 Assim, sem explicação. Tinha dado entrada juntamente com o marido. Os dois foram atendidos, declarados mortos. Mas só ele foi encaminhado para a libertação. Ela não. Foi como se se tivesse evaporado. Já tinha visto casos de erro, confusão, corpo trocado, mas desaparece nunca. E não fui só eu que fiquei chocada. A cidade inteira ficou atónita.

 A família da rapariga pressionava, exigia respostas, mas ninguém sabia explicar. O tempo corria e o enterro precisava de ser marcado. No final, decidiram que haveria velório mesmo sem corpo. O caixão dela seria fechado, vazio, apenas simbólico. O velório foi marcado para o final da tarde.

 Eu cheguei cedo ao cemitério, como sempre fazia, mas naquela ocasião parecia que o local estava diferente. O ar estava mais pesado e até os colegas que trabalhavam comigo estavam calados, evitando brincar ou comentar coisas à toa. Quando os caixões chegaram, nunca vou esquecer a cena. Vieram lado a lado, o do rapaz pesado, com o corpo lá dentro e o dela fechado, mas leve, vazio.

 Só de tocar, notávamos a diferença, e que parecia gritar para todos os presentes. Era impossível não sentir que faltava alguma coisa. Os familiares se dividiam entre o choro e o silêncio carregado de desconfiança. Alguns aceitavam a versão do hospital, outros não. Lembro-me de uma tia da noiva desesperada, repetindo que não acreditava, que a sobrinha estava em algum lugar à espera para ser resgatada.

 As pessoas tentavam acalmá-la, mas a sua revolta refletia o que muitos ali pensavam. Enquanto os os caixões eram colocados na capela do cemitério, apercebia-se de algo que nunca mais saiu-me da cabeça. Normalmente em Velórios há uma espécie de movimento natural, pessoas a entrar, a sair, abraçando, murmurando palavras de conforto.

 Mas naquele parecia que o silêncio engolia tudo. Até o choro soava baixo, como se estivesse sufocado. O caixão vazio causava um incómodo que ninguém conseguia explicar em voz alta. Eu fiquei de canto a observar. Era o meu papel ajudar no que fosse necessário, mas dentro de mim já sentia um arrepio estranho.

 Eu não sabia explicar, mas parecia que o próprio cemitério não queria aquele caixão simbólico. Era como se a Terra tivesse consciência de que receberia algo incompleto. E acredite, trabalhando tantos anos entre covas, a as pessoas aprendem a sentir quando o lugar reage. O dia do funeral chegou. Os caixões chegaram juntos lado a lado.

 Um transportava o corpo do rapaz. O outro, como todos sabiam, estava vazio. Aquela cena marcou-me profundamente. Havia uma diferença gritante entre eles, como se o peso de um fosse vida encerrado e o outro fosse apenas mentira, madeira sem descanso. Eu via desconforto estampado nos rostos das pessoas. Não era só luto, era indignação.

 Muita gente não aceitava enterrar um caixão sem corpo. O murmúrio corria de um canto a outro, como corrente de vento no meio do calor abafado. Lembro-me de ter visto alguns parentes a discutir em voz baixa. Uma senhora, que parecia ser irmã da mãe da noiva, estava inconformada. Ela dizia que aquilo não podia ser feito, que estavam a enterrar apenas madeira.

Outros tentavam contê-la. Lembrando que era o último desejo da família dar um enterro simbólico. Mas a verdade é que ninguém estava em paz com aquela decisão. Era como se todos soubessem lá no fundo que aquele enterramento estava errado desde o início. A cada passo que dávamos em direção à quadra escolhida, sentia o ambiente mudar.

 Normalmente, um cortejo fúnebre traz uma energia pesada, mas também um certo alívio, porque é o momento em que a família se despede-se de verdade. Só que ali não havia despedida completa. O noivo tinha o corpo presente, mas a noiva não. A A ausência dela era tão forte que parecia gritar. Eu percebia olhares de desconfiança, como se muitos ainda acreditassem que ela poderia estar viva em algum lugar.

 Quando os caixões foram posicionados lado a lado, o silêncio tomou conta. Até o choro pareceu cessar por um instante. O caixão vazio foi o primeiro a ser descarregado. Eu ajudei nas cordas e posso jurar que nunca senti uma resistência tão estranha. Era leve, mas parecia que algo segurava, como se a própria terra rejeitasse aquele caixão.

Arrepios tomaram-me de cima a baixo e evitei olhar para os outros coveiros. porque sabia que não era só eu que tinha sentido. A terra caiu sobre a madeira com um som oco, diferente. As pessoas se entreolhavam inquietas e eu sabia que aquele silêncio carregava mais perguntas do que respostas.

 Quando o corpo do rapaz foi enterrado logo a seguir, o ritual foi mais natural, mas ainda assim não havia paz. Era como se o caixão vazio tivesse contaminado tudo. Quando a Terra cobriu finalmente os dois caixões, o ambiente parecia ter ficado ainda mais pesado. O choro misturava-se a um silêncio estranho, como se cada pessoa ali tivesse algo entalado na garganta e não conseguisse colocar para fora.

 Eu já tinha participado em muitos enterros até naquele dia, mas nunca tinha visto nada parecido. Era como se o próprio cemitério tivesse parado para observar aquele enterramento incompleto. Alguns Os parentes permaneceram de pé diante das covas durante longos minutos, sem se mexer, apenas a encarar o chão.

 Outros se afastavam depressa, como se não aguentassem ali permanecer. Lembro-me de uma criança, talvez sobrinho da noiva, que perguntou em voz alta: “Mas por caixão dela está vazio?” O pai tentou puxá-lo para longe, mas já era tarde. A pergunta ecoou e fez muita gente baixar a cabeça. Não havia resposta que aliviasse aquele vazio.

 Quando todos os foram embora, o silêncio tomou conta do lugar. Eu fiquei para finalizar os pormenores, ajeitar a terra, limpar ao redor. E enquanto o fazia, percebia que até os pássaros tinham deixado de cantar. Normalmente, naquela altura da tarde, as árvores do cemitério ficavam cheias de som, mas naquele dia não havia nada mais do que um silêncio sufocante.

 Eu dei por mim a olhar para os lados várias vezes, com a sensação de estar a ser observado. Nessa mesma noite, antes de fechar os portões, voltei a caminhar pelas quadras para verificar se estava tudo em ordem. Era meu costume, mas desta vez cada passo parecia mais pesado. Quando passei perto das covas acabadas de fechar, senti um vento frio bater-me no rosto.

 Estranhei porque o calor do dia ainda não se tinha ido embora. O ar do Porto Velho não arrefece de repente daquela maneira. Parei por alguns segundos a tentar perceber. E foi nesse instante que ouvi o que me gelou até aos ossos. Passos. Passos lentos, arrastados, como se alguém caminhasse entre as fileiras de túmulos.

 Eu parei, segurei firmemente a lanterna e chamei. Tem alguém aí? O som parou. Olhei em redor, iluminei os cantos, mas não vi nada. Meu coração batia acelerado. Recomecei a andar e logo a seguir os passos voltaram, agora um pouco mais próximos. Era impossível não sentir o arrepio percorrer todo o meu corpo. Eu sabia que estava sozinho, ou pelo menos deveria estar.

 A coragem faltou-me por um instante, mas continuei até ao fim. Não encontrei ninguém, só que aquela sensação não me deixou em paz. Naquela noite, deitado na cama, mal consegui adormecer. Cada vez que fechava os olhos, via caixão ligeiro descendo para a terra e sentia de novo aquele vento frio que não fazia sentido.

 Na noite seguinte ao enterro, cheguei ao cemitério já com o coração apertado. O dia tinha sido cansativo, mas não era só o corpo que pesava. Era como se o silêncio do recanto da paz me tivesse acompanhado até em casa, sufocando-me. Eu tentei descansar, mas dormi mal. Quando o relógio marcou a hora de ir trabalhar, senti aquele friozinho na barriga que nunca tinha sentido antes, nem nos enterros mais pesados.

 Cheguei cedo, como de costume, para conferir os portões, varrer a entrada e garantir que todos os estava em ordem. O sol tinha-se posto fazia pouco tempo e o céu ainda guardava um restinho de vermelho misturado com o azul escuro da noite. As árvores faziam sombras compridas e o vento soprava fraco, mas constante, como um sussurro.

Quando a noite caiu de vez, comecei a caminhar pelas quadras. O barulho dos grilos era o único som que quebrava o silêncio, mas de repente até eles pareceram desaparecer. Passei pela área nova, depois pelas covas mais antigas e tentei não olhar para o canto onde estavam os recém-casados, mas era inevitável.

 Algo puxava-me para lá e foi nesse caminho que vi a figura. À primeira vista, achei que fosse alguém atrasado, que tinha ficado depois do horário. Um homem caminhava devagar, como se estivesse perdido. Ele não parecia aperceber-se da minha presença. Andava de cabeça baixa, passos arrastados, como quem não sabe bem para onde ir.

 Aproximei-me com cuidado e disse: “Senhor, já é tempo de fechar os portões. Preciso de pedir que saia.” Foi quando levantou a cabeça e respondeu num tom baixo, quase um lamento. Procuro a minha esposa, não consigo encontrá-la. Naquele instante, o sangue gelou dentro das as minhas veias. A sua voz não era normal, era fraca, distante, como se viesse de um lugar fundo, cheio de dor.

 Eu fiquei sem reação durante alguns segundos. Era o noivo, o mesmo rapaz que eu tinha ajudado a enterrar no dia anterior. Reconheci o rosto, mesmo pálido e sem brilho. O olhar vazio, perdido, não encarava diretamente o meu, mas parecia procurar algo para além de mim. Ele não tinha ódio, não tinha ameaça, tinha apenas tristeza, uma tristeza tão profunda que cortava o ar em redor.

 Eu quis dar um passo atrás, mas o meu corpo não obedeceu. Fiquei parado, a tremer dos pés à cabeça, sem conseguir soltar uma palavra. Repetiu com a mesma voz fraca: “Minha mulher, onde está a minha esposa? O mundo pareceu calar-se naquele instante. Sem vento, sem som. Eu não conseguia acreditar no que via. O rapaz estava ali a poucos passos de mim, com o mesmo rosto que tinha visto no velório, o mesmo corpo que ajudara a baixar para a terra.

 Mas ele não estava morto diante dos meus olhos. Ele andava, falava, procurava. As olheiras eram profundas e a pele parecia sem cor, quase translúcida. O cabelo desalinhado caía sobre a testa, como se tivesse se levantado da cova naquele exato momento. Eu vi o senhor ontem. Foi tudo o que consegui balbucear, sem sequer saber por disse aquilo.

 Ele não me respondeu, apenas olhou em redor, como quem procura alguém desesperadamente, e repetiu: “Minha mulher, onde está a minha esposa?” A dor na voz dele atravessou-me como uma faca. Não era um grito, não era fúria, era um pedido, um lamento que parecia vir de dentro da própria terra. Eu queria correr, mas os meus pés estavam colados ao chão.

 O coração batia tão forte que parecia querer sair pela boca, mas não me conseguia mexer. O rapaz deu então um passo à frente. Não era um passo ameaçador, mas lento, arrastado, como quem está demasiado cansado. A cada movimento, ouvia um rangido estranho, como se os ossos se queixassem por estarem se mexendo quando não deviam.

 Ele ergueu o rosto na minha direção e, por um segundo, os nossos olhares cruzaram-se. O vazio que vi nos olhos dele me acompanharia para o resto da vida. Era como olhar para alguém que não sabia onde estava, nem porque continuava ali. Antes que tivesse coragem de dizer qualquer coisa, aconteceu o que mais me assustou.

 O rapaz simplesmente desapareceu diante de mim. Não foi correndo, não se foi afastando. Ele se dissolveu-se no ar como se nunca tivesse estado ali. O silêncio que ficou depois foi tão brutal que me fez perder o equilíbrio e quase cair. Fiquei parado, suando frio. Não havia mais passos, não havia mais vento.

 Só eu sozinho a tentar acreditar no que tinha acabado de presenciar. Voltei para a guarita sem olhar para trás. Fechei a porta com força e sentei-me na cadeira, respirando rápido. A mente gritava que era impossível, que estava cansado, que talvez tivesse visto coisa da minha cabeça, mas o corpo não mentia. Eu estava gelado, a tremer, e cada fio de cabelo do meu corpo estava em pé.

Nessa noite em casa, não preguei os olhos. Fiquei a pensar se realmente tinha visto um morto a caminhar ou se era eu que estava a enlouquecer. Mas no fundo, lá no fundo, eu sabia a verdade. O noivo estava perdido, deambulando pelo cemitério, porque o corpo da esposa nunca chegou até ali. Depois daquela noite, nada mais parecia igual no Recanto da Paz.

 Continuava a cumprir o meu trabalho, mas agora cada passo entre as quadras era acompanhado de um medo constante. O rosto do noivo não saía da a minha cabeça, aquele olhar perdido, vazio, que parecia pedir ajuda. Eu me perguntava o tempo todo se tinha enlouquecido, se estava a inventar aquilo, mas no fundo sabia que não. Os colegas de trabalho começaram a notar a minha mudança.

 deles, o Joaquim me perguntou: “Está a acontecer alguma coisa contigo, Cido? Está pálido. Parece que viu alma. Não tive coragem de contar. Só abanei a cabeça. Inventei que era cansaço, mas dentro de mim a verdade queimava. Eu tinha visto o morto e ele procurava a esposa. Passei dias remoendo aquilo até que decidi conversar com gente mais antiga da cidade.

 Fui a um tasco próximo do mercado, onde reuniam-se sempre velhos conhecidos, e meti conversa. A tragédia do casal ainda era assunto fresco. Todo mundo tinha uma teoria. Um senhor chamado Pedro, que já tinha trabalhado no hospital anos antes, disse que acreditava em falha médica. Aposto que esconderam alguma coisa.

 Vai ver a rapariga faleceu por erro de atendimento e para não sujar o nome do hospital, deram um forma de desaparecer com o corpo. Aquilo me deixava inquieto, mas não era a única versão. Outros diziam que a família da noiva escondia um segredo. Uma vizinha, dona Azira, jurava que ouvia comentários estranhos.

 Dizem que ela tinha uma doença que nunca contou a ninguém e que a família não queria que este viesse à tona. Talvez tenham posto fim ao corpo para evitar escândalo, mas havia também quem acreditasse em algo muito mais sombrio. Um rapaz que morava perto do cemitério disse com todas as letras: “Esta menina não morreu, não.

 Foi levada para outro lugar, escondida. E há gente que acredita que foi contra a vontade dela. Cada história parecia mais absurda que a outra, mas todas tinham algo em comum. Ninguém aceitava o sumisso simples do corpo. Era impossível. Em pequeno lugar, como Porto Velho, nos anos 80, nada passava despercebido. E ainda assim, até hoje ninguém soube dar uma explicação concreta.

 Enquanto os os boatos se espalhavam, sentia-me cada vez mais envolvido. Não conseguia parar de pensar naquilo. O vazio do caixão, o lamento do noivo, a sensação de que o cemitério inteiro guardava uma ferida aberta. Eu sabia que não havia descanso porque o casamento tinha ficado incompleto.

 O corpo dele estava ali, mas o dela não. Nesses dias, comecei a reparar em detalhes estranhos. Algumas pessoas que visitavam o cemitério queixavam-se de ouvir vozes baixas, como alguém a chamar por outra pessoa. Outros juravam que sentiam arrepios ao passar perto da quadra do casal. Eu sabia que não era a imaginação deles. Eu já tinha visto com os meus próprios olhos que o noivo continuava a vaguear.

 Passei a evitar aquela parte do cemitério, mas não adiantava. Sempre que me afastava, algo me puxava para trás. Era como se o noivo me chamasse invisível, esperando que lhe desse uma resposta que nem eu possuía. Certo dia, criei coragem e Voltei a conversar com os colegas. Um dos mais antigos, o velho Batista, olhou para mim com seriedade quando mencionei o nome da noiva.

 Baixou a voz e disse: “Cido, há ali uma coisa que não é para ser mexida. Já ouvi histórias demais nesta cidade. O sumo desse corpo não foi por acaso. Mas o que é que o Sr. acha que aconteceu? Perguntei. Ele respirou fundo, olhou para os lados e respondeu: “Ou esconderam o corpo, ou esconderam a verdade. Os rumores cresciam.

 Uns diziam que a família dela tinha levado o corpo para fora da cidade, que havia luta de herança envolvida. Outros juravam que ela ainda estava viva quando foi retirada do hospital e que alguém a escondeu. Nunca houve prova, nunca houve registo, apenas boatos, histórias que se multiplicavam no ar abafado das ruas. E eu, cada vez mais atormentado, comecei a perceber que estava a ser consumido pelo caso.

 Por vezes, em casa, acordava no meio da noite, ouvindo ou achando que ouvia aquela mesma voz fraca. Procuro a minha esposa. Eu pulava da cama suado com o coração acelerado, mas não estava lá ninguém. Eu carregava o peso daquele caixão vazio, como se fosse da minha responsabilidade. Talvez porque eu estivesse lá no momento em que a Terra recebeu o nada.

 Talvez porque eu tivesse visto com os meus próprios olhos que não descansava. Uma certeza cresceu dentro de mim. Um enterro incompleto abre uma ferida que nunca fecha. O cemitério não guarda apenas corpos, ele guarda também ausências, histórias interrompidas, mentiras enterradas juntamente com a dor. Mesmo passado tanto tempo, ainda havia noites em que sonhava com aquele olhar vazio.

 Com o tempo, outros túmulos foram sendo abertos, outras histórias chegaram, outros prantos tomaram conta dos corredores do Recanto da Paz. Mas aquele canto, a quadra onde o casal foi enterrado, nunca mais foi o mesmo. Era como se a terra tivesse absorvido a angústia daquele enterramento incompleto. Colegas meus diziam que também sentiam coisas estranhas.

 O rapaz, que assumiu o meu posto quando me aposentei-me, uma vez contou-me que ouviu passos quando estava sozinho. disse que ao olhar para trás viu uma sombra parada entre as duas covas e que essa sombra parecia olhá-lo imóvel como quem espera uma resposta. Outros visitantes falavam de vozes, sons baixos, quase sussurros, que chamavam como quem procura alguém.

 Alguns diziam ouvir o nome da noiva, outros o do noivo. Ninguém sabia ao certo de onde vinha, e poucos tinham a coragem de permanecer tempo demais. Por ali, o Recanto da Paz, que sempre foi um lugar silencioso, passou a carregar um tipo de silêncio diferente. Um silêncio cheio de saudade, de espera, de ausência.

 Eu próprio tentei voltar algumas vezes depois de me aposentei-me. Cada vez que passava pelo portão, o corpo reagia, o ar parecia mudar e o peso voltava ao peito. É difícil de explicar, mas quem viveu tanto tempo entre os mortos aprende a reconhecer quando algo ainda está preso entre os vivos. Eu sabia que aquele noivo não descansava.

 sabia que o lamento dele ainda rondava o cemitério, procurando o que faltava. Muitas vezes me apanhei-o a pensar se devia ter feito mais, se devia ter procurado o corpo, questionou mais o hospital, ajudou a família a compreender o que aconteceu. Mas o que poderia fazer um coveiro? A gente apenas cumpre ordens, abre a cova e fecha o buraco. O resto tentamos esquecer.

Hoje, reformado, com as mãos já cansadas e os ossos a doer, ainda transporto a lembrança daquele olhar. O olhar de um homem que não sabia onde estava, nem por ainda ali estava. Um olhar que não procurava vingança, mas sim descanso. Já ouvi dizer que de tempos em tempos os visitantes deixam flores sobre o túmulo dela, mesmo sem saber ao certo se ela está ali.

 gente que escuta a história e se comove. Outros acendem velas perto da cruz do noivo, como se tentassem iluminar o caminho dele até à esposa perdida. Mas nenhuma luz parece durar muito tempo. As as velas apagam-se sempre antes da hora, como se o vento transportasse a dor juntamente com a chama.

 Hoje, olhando para trás, compreendo que aquele enterro não terminou. Foi um ritual a meio, um corpo sepultado e outro desaparecido, um amor interrompido no auge.

 

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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