EX VIGIA DE CEMITÉRIO RELATA A MADRUGADA QUE O FEZ DESISTIR DO EMPREGO EM 2002 | História Real
EX VIGIA DE CEMITÉRIO RELATA A MADRUGADA QUE O FEZ DESISTIR DO EMPREGO EM 2002 | História Real 
Trabalhei 6 anos como vigia no cemitério municipal de Patos de Minas e nunca senti medo a sério. Até ao dia em que cheguei para o meu turno, e um dos coveiros contou-me que tinham acabado de enterrar um homem que tinha tirado a vida a três pessoas e depois matou-se. Naquele momento, algo dentro de mim avisou que aquela madrugada não ia ser como as outras.
E o que eu vi nessa noite, carrego até hoje. [pigarreia] O meu nome é Raimundo Alves da Costa, tenho 73 anos e esta é a minha história em minutos. Nesse dia, cheguei para o meu turno um pouco antes das 18 horas. O portão ainda estava aberto. Tinha gente a sair, coveiros e ajudantes carregando ferramentas e uns rapazes que eu conhecia de vista.
Um dos ajudantes passou por mim sem dizer nada. com a enchada no ombro e a cabeça baixa. Tinha algo na forma deles de sair que me chamou a atenção. Era como se quisessem sair daquele lugar o mais rapidamente possível. E aquilo não era normal. O expediente deles terminava bem antes do meu turno começar.
E em 6 anos podia contar nos dedos por vezes que o serviço tinha atrasado tanto assim. Fui para dentro sem compreender o que estava a acontecer, olhando para os lados, tentando encontrar alguma explicação para aquele movimento todo fora do horário. Foi quando encontrei um dos coveiros ainda na portaria, ajeitando as coisas no carro.
Eu já o conhecia há algum tempo, perguntei então o que tinha acontecido, porque o expediente se tinha atrasado tanto naquele dia. Olhou para mim e baixou a voz antes de responder. Disse-me que tinham enterrado um homem nessa tarde, um homem que tinha tirado a vida a três pessoas e depois matou-se. A família quase não apareceu no funeral, apenas duas ou três pessoas ao todo.
Ele disse isso rápido, com a voz baixa de quem não quer que mais ninguém ouça, e foi-se embora logo depois. Eu fiquei ali parado com aquelas palavras na cabeça. Eu não conhecia o homem, não sabia quem era, mas alguma coisa naquilo pesou dentro de mim de um forma que eu não esperava. E o cemitério foi esvaziando lentamente.
Os últimos coveiros foram-se embora. E eu fiquei ali com aquelas palavras ainda a rodar na cabeça. Eu considero-me uma pessoa sensível a certas coisas desde quando era novo. A minha mãe sempre disse que eu tinha esta forma diferente de perceber o que estava à volta. Tem lugares e situações em que o corpo capta alguma coisa antes da cabeça entender.
Nunca soube explicar isso direito para ninguém, mas aprendi com o tempo a não ignorar quando esse aviso chega. E naquele momento, ainda do lado de fora do guarita, senti este aviso de um jeito que não tinha sentido há muito tempo. Não foi um arrepio de frio, foi uma coisa de dentro, funda, difícil de pôr em palavras, como se todo o corpo tivesse reconhecido um perigo que a cabeça ainda não tinha processado.
Não disse nada para ninguém. Entrei, fui até à guarita, deixei as minhas coisas no lugar de sempre, levei a lanterna, bebi um pouco de água, tentei convencer-me de que era disparate o que estava a sentir, que qualquer pessoa ficaria assim depois de ouvir uma história daquelas e que ia passar assim que começasse a trabalhar.
O último coveiro passou e fechou o portão. Ouvi o barulho do cardeado encaixando. um som que eu já tinha ouvido centenas de vezes, mas nessa noite aquele barulho teve um peso diferente, como se alguma coisa tivesse ficado presa lá dentro junto comigo nessa noite. Depois saí para a primeira ronda no horário habitual. Fiz o caminho de sempre.
Passei pelos corredores, entre os túmulos, conferi os portões laterais. Olhei para os muros. O cemitério estava quieto, vazio, sem nada fora do lugar. Mas não estava tranquilo. O que eu tinha sentido desde que tinha chegado continuava junto comigo. Em algum ponto dessa ronda, comecei a ter a certeza de que algo me estava a olhar.
Mas não vi ninguém e não ouvi nada fora do comum. Só que a certeza estava ali firme do meu lado durante toda a caminhada. Eu continuei a fazer o meu trabalho. Seis anos de serviço não me iam fazer parar uma ronda no meio por causa de uma sensação. Mas eu andava diferente nessa noite, mais devagar do que o costume, prestando atenção a cada sombra, em cada troço que a lanterna não alcançava direito.
O cemitério estava igual, eu é que não estava. Passei pelo corredor da direita, depois pelo da esquerda. Lá no fundo ficavam os túmulos mais antigos, as lápides sem flores, os nomes apagados pelo tempo. Eu conhecia tudo aquilo de cor, mas naquela noite cada ponto que eu iluminava com a lanterna parecia diferente. Não diferente naquilo que via, diferente no que eu sentia.
O cemitério tem uma área mais antiga, bem no fundo, onde os túmulos são de pedra escura e os nomes já estão todos apagados pelo tempo. E tem a zona mais nova do lado direito, onde a terra ainda é vermelha e as cruzes ainda são bastante claras. Foi nessa área mais nova que tinham enterrado o homem nessa tarde. E quando a minha ronda chegou perto daquela zona mais nova, o que eu carregava desde o início da noite ficou mais forte de repente.
Muito mais forte do que antes. Não era mais aquela coisa sossegada de antes. Era uma pressão agora quase física, como se o ar naquele troço do cemitério pesasse mais do que no resto. Aproximei-me devagar. com a lanterna apontada para o frente. O corredor estava vazio. Não não havia nada de diferente que eu pudesse ver, mas o meu passo foi ficando mais pesado à medida que eu chegava.
Eu dizia-me que não era medo, que era apenas precaução, mas hoje, olhando para trás, sei que aquilo já era medo. Quando cheguei até ao Cova Nova, fiz o que sempre fiz quando chegava a um ponto da ronda. Olhei, verifiquei, passei a lanterna por tudo à volta. O túmulo estava normal. As flores que tinham deixado ainda estavam ali.
Não havia nada fora do lugar. Eu tentei ficar ali parado por mais tempo e terminar a verificação, como sempre fazia em qualquer outro ponto da ronda, mas não consegui. Os pésamindo sozinhos, levando-me de volta para o corredor principal, afastando-me daquele trecho. Terminei a ronda e Voltei para a guarita. Sentei-me na cadeira, apoiei os braços na mesa e deixei a lanterna de lado.
Olhei para o relógio. Tinha passado pouco das 19 horas. A noite toda ainda estava pela frente e eu já sabia, sem conseguir explicar como que aquela madrugada não ia terminar igual às outras. Eu tentei fazer as coisas devagar, com calma, como se fosse uma noite normal, mas por dentro eu estava diferente. Eu nunca tinha chegado numa segunda ronda carregando o que estava a carregar naquela noite.
Depois saí para a segunda ronda pouco depois da meia-noite. O cemitério estava quieto e escuro, como ficava sempre naquele horário. A lanterna iluminava o caminho em frente. Os túmulos dos lados iam aparecendo e desaparecendo à medida que eu avançava. Fiz os primeiros metros da mesma forma de sempre, mas o que sentia por dentro não era o mesmo de sempre.
Foi então que ouvi um som baixo, arrastado, vindo de dentro do cemitério. Parecia alguma coisa a ser movida devagar. Eu parei no meio do corredor, sustive a respiração e Fiquei a escutar com atenção. O som parou, continuou da mesma maneira, constante, sem parar. Era um som que não combinava com nada do que eu conhecia naquele lugar.
Em seis anos, tive aprendido os barulhos do cemitério de madrugada, o vento entre os túmulos, o gato que por vezes aparecia, o barulho da rua chegando de longe. Aquele som nenhum desses. Não havia lugar para ele na lista das coisas que eu sabia que podiam acontecer. Eu pensei logo em vândalo. Não seria a primeira vez que alguém saltava o muro de madrugada para roubar ou fazer asneiras de noite.
Pensei também em sem-abrigo, algum que tivesse escondido antes do portão fechar, mas o som continuava igual, no mesmo ritmo, sem parar. Quem entra num cemitério de madrugada sem querer ser visto não fica a fazer barulho por tanto tempo. Então, as mãos fecharam-se sozinhas à volta da lanterna e a respiração ficou diferente, mais curta.
Os meus pés não queriam dar o passo seguinte. Não era falta de coragem. Eu não era homem de fugir do trabalho. Era o corpo a reagir antes de eu mandar, como se tivesse recebido um aviso que a minha cabeça ainda estava a tentar entender. Só que mesmo assim fui. Não ia parar uma ronda no meio por causa de um barulho que ainda não sabia o que era.
Então Fui devagar, com a lanterna apontada para a frente e um passo de cada vez. O som continuava e eu também. O cemitério durante o dia com o sol é um local como qualquer outro. De madrugada, com a lanterna sendo a única luz, os corredores ficam mais compridos e as as sombras tornam-se mais fundas. Eu já estava habituado a isso, mas naquela noite o lugar parecia diferente até para mim, que o conhecia de cor.
E conforme me aproximava, aquele barulho arrastado foi mudando, foi ficando mais fino, mais perto. Tentei identificar de onde vinha, mas parecia que o som se ia ajustando à medida que ia andando, ficando mais forte na medida em que eu tomava a direção certa, até que o ruído arrastado parou e virou um sussurro baixo, sem palavras claras, mas inconfundível.
Parei no corredor com a lanterna na mão e fiquei a ouvir. Naquele cemitério vazio de madrugada, alguém estava a sussurrar, mas eu não conseguia ver ninguém. Fui virando a lanterna para cada canto que eu conseguia alcançar, mas só via os túmulos de sempre, o corredor de terra batida que eu tinha pisado centenas de vezes. Tudo estava no lugar.
Não havia sinal de presença em lado nenhum, mas o sussurro estava lá. Assim, um frio passou pelo estômago, rápido, direto, diferente de tudo o que tinha sentido nessa noite até ali. Não era mais aquela coisa de antes que me acompanhava desde que o coveiro tinha falado. Era outra coisa, mais aguda, mais difícil de segurar.
Mas continuei a andar e o som foi ficando mais presente e mais forte ainda. E foi então que compreendi de onde vinha. estava a vir do lado direito do cemitério, da área mais nova, era onde tinham enterrado o homem naquela tarde. Eu percebi isso e o passo pesou diferente do que tinha pesado em qualquer outro momento dessa noite. Eu fui chegando devagar e o sussurro foi ficando mais presente, mais difícil de ignorar.
Não se conseguia entender o que dizia. Eram sons que se assemelhavam a fala, mas que não chegavam a ser palavras. A lanterna iluminou a área à frente, onde a terra ainda era vermelha, e parei quando a luz bateu naquele trecho. Eu fiquei parado durante uns segundos, com a lanterna apontada para aquela direção, tentando perceber o que estava a acontecer.
Aproximei-me da área nova devagar. O sussurro foi ficando mais forte a cada passo, não mais alto, não mais claro, mais forte, como se fosse crescendo dentro da cabeça. Era uma sensação que não consigo explicar direito, como se o som já não fosse só de fora, como se tivesse entrado na a minha cabeça. Quando faltavam uns poucos metros para chegar ao túmulo, o sussurro parou de repente.
O silêncio tomou o lugar e foi nesse momento, com o silêncio a pesar de um jeito que eu nunca tinha sentido antes, que eu Apercebi-me que estava prestes a ver alguma coisa. O que eu ainda não sabia era se eu estava pronto para isso. Foi quando eu vi. Havia uma figura parada ao lado do túmulo novo, de pé, completamente imóvel.
Não era um vulto, não era sombra que a lanterna fazia. Era uma figura com forma de pessoa de costas para mim, paragem naquele troço do cemitério. Eu Fiquei parado no corredor com a lanterna apontada para aquela figura e tentei compreender o que estava a ver. A primeira coisa que me passou pela cabeça foi que era alguém que tinha entrado sem eu perceber.
Então chamei, mas a minha voz saiu diferente do que eu esperava. Saiu baixa, quase sem força, como se a garganta tivesse esquecido como funcionava. Perguntei quem estava ali. Disse que eu era o vigia, que o cemitério estava fechado. As palavras saíram certas, mas o som que elas fizeram não tinha a firmeza que eu queria que tivesse.
Assim, a figura começou a mover-se. Não foi rápido nem brusco, foi devagar. O corpo começou a rodar na minha direção de um jeito lento. Eu sei como o corpo humano se move. Sei o que é natural e o que não é. E aquele movimento não era natural, era outra coisa. Quando ficou de frente para mim, parou completamente imóvel, do mesma forma que estava antes, mas agora estava a olhar para mim ou estava com o rosto apontado na minha direção.
Não Consegui distinguir direito nos primeiros segundos. A lanterna tremia na minha mão mais do que eu queria. Levantei a lanterna, coloquei a luz no rosto daquela figura e o que vi ou o que não consegui ver bem, é a coisa que carrego até hoje. Não era um rosto, eram traços apagados, indefinidos, como um desenho que alguém começou e não terminou.
Não era ferimento ou máscara, era outra coisa que não sei nomear porque nunca vi nada parecido antes, nem depois daquilo. Os olhos que ali deviam estar não estavam formados. O nariz, a boca, tudo era vago, desfocado, como se aquela face ainda não tivesse decidido o que ia ser. Eu devia ter gritado ou corrido naquele instante.
Mas o corpo não fez nem uma coisa, nem outra. Só fiquei parado, com a lanterna levantada, olhando para aquilo que estava à minha frente, sem conseguir desviar-se. Não era a coragem que segurava-me ali, era o contrário disso. Era o corpo que tinha deixado de responder como se tivesse desligado sem pedir autorização.
E foi nesse momento que eu ouvi. Era uma voz clara e fria, colocada diretamente dentro da cabeça, como se alguém tivesse aberto uma porta que nem sabia que existia. Três palavras, só três. Ele é meu. Não sei até hoje quem disse aquilo. Não sei se era o homem daquela sepultura. Não sei se eram as vítimas dele.
Não sei se era alguma coisa que não tem nome em lado nenhum, mas as palavras foram claras. Não havia como confundir. Não havia como dizer que tinha imaginado. Eu ouvi bem claro. Ele é meu. Tentei dar um passo para trás e não consegui. Tentei gritar e não saiu nada. A boca abriu, o ar entrou, mas o grito não veio.
Era como se tudo dentro de mim tivesse travado ao mesmo tempo, sem aviso, sem explicação. A figura continuava parada de frente para mim. Não vinha na minha direção. Estava parada da mesma maneira, como se estivesse à espera. Não sei quanto tempo passei assim. Pode ter sido alguns segundos, pode ter sido mais. Quando a as pessoas estão nesta situação, o tempo não funciona da forma normal, mas aos poucos, sem saber como, o corpo foi voltando.
Primeiro os pés, um passou para trás, depois o outro, devagar, sem pressa, sem barulho, um passo, depois outro. Fui saindo sem tirar os olhos daquela figura. E foi então que o grito começou alto, de dor, como se viesse de dentro da terra. Era um só grito e foi o grito que partiu tudo. O corpo voltou a obedecer numa fracção de segundo, como se alguma coisa que tinha prendido tudo tivesse partido de uma vez.
Eu me virei-me e saí a correr em direção à guarita, sem olhar para trás, sem olhar para a figura, sem olhar para nada que não fosse o caminho que se avizinhava. Corri mais do que tinha corrido em muitos anos. Apenas corri pelo corredor em direção à guarita. Aquele grito continuava atrás de mim e, à medida que ia correndo, foram chegando outros.
Já não era possível dizer de onde vinham. Mas quando cheguei à guarita, entrei e fechei a porta com o chave que estava sempre no meu bolso. E lá fora os gritos continuavam. E eu, pela primeira vez em 6 anos, não sabia o que fazer. Fiquei com as costas encostadas à porta por um tempo que não sei quanto foi.
A respiração foi aos poucos a voltar ao normal, mas o resto não voltou junto. As mãos tremiam, as pernas tremiam. A lanterna ainda acesa na minha mão iluminava o tecto e as paredes da guarita. E eu fui olhando para cada canto como se precisasse confirmar que estava sozinho ali dentro. Então ajoelhei e comecei a rezar. Não Lembro-me das palavras exatas, mas me lembro-me bem do que pedia.
Pedia proteção, pedia que nada entrasse por aquela porta. Pedia que a noite passasse logo. Os gritos lá fora continuavam altos, de dor, vindos de um lugar que eu já não conseguia identificar. Com certeza. Eu ficava de joelhos e continuava a rezar, a pedir em voz baixa, com os olhos fechados e a cabeça baixa. Não queria abrir os olhos, não queria ver nada para além daquele chão de cimento debaixo de mim.
Em algum momento, os gritos pararam. Não foi aos poucos, não foi diminuindo até desaparecer. Foi de uma vez. Um segundo estavam lá, no segundo seguinte já não estavam. Aquela paragem tão repentina foi brusca o suficiente para me fazer levantar a cabeça e ficar a ouvir, esperando que voltassem. Mas não voltaram. O silêncio tomou tudo e aquele silêncio era pior do que os gritos.
Enquanto os gritos estavam lá, eu sabia que alguma coisa estava a acontecer do lado de fora. E o silêncio não me dizia nada. Não me dizia se tinha acabado, não me dizia se estava só começando. Era um silêncio que não dava nenhuma informação e isso era pior do que qualquer ruído. Desliguei a lanterna e acendi a luz da guarita e Fiquei de joelhos no chão durante horas.
O tempo foi passando de uma forma que eu não conseguia medir. Não tinha como saber se tinha passado uma hora ou três. Só sabia que ainda era noite. Não abri a porta. Não me aproximei da janela. Tinha uma pequena janela na guarita, mas eu não me aproximei dela em nenhum momento naquela madrugada.
Não queria ver o que podia estar do outro lado do vidro. Se havia alguma coisa lá fora à espera, eu preferia não saber. Preferia só esperar o dia clarear. E as três palavras continuavam na cabeça durante aquelas horas todas. Ele é meu. Elas iam e vinham claras como tinham sido no momento em que as ouvi lá fora. Eu tentava pensar noutras coisas, tentava focar na oração, tentava contar os minutos para fazer passar o tempo, mas as palavras voltavam, voltavam sempre.
A primeira luz apareceu lentamente. Como aparece sempre, o céu foi clareando pelo lado da janela, aquela mudança de preto para cinzento que a gente só percebe quando está a prestar atenção. E quando clareou, foi o maior alívio que senti em muitos anos. Mesmo com o dia clareando, não saí logo. Fiquei esperando até ter luz suficiente para ver tudo, até não restar qualquer sombra que pudesse esconder alguma coisa.
Só depois levantei-me do chão e fui até ao porta. Abri devagar e saí devagar. O cemitério estava vazio. Os corredores e os túmulos estavam no lugar habitual. Não havia nada fora do lugar que eu pudesse ver. Não havia sinal de que alguma coisa tivesse acontecido naquela madrugada. O sol da manhã batia no mesmo cemitério de sempre, quieto, como se a noite tivesse sido igual a todas as outras.
Fui andando pelos corredores lentamente, olhando para cada lado. A manhã estava silenciosa, da forma que as As manhãs de cemitério costumam ser, com os pássaros a começar a fazer barulho lá fora do muro e a luz do sol a bater nas lápides. Era um cemitério normal naquela manhã. Era difícil acreditar que tinha sido o mesmo local de poucas horas atrás. Fui até à área nova.
A cova do homem estava ali. Não havia sinal de pisada diferente, não havia nada fora do lugar. Tudo estava exatamente como devia estar. Era como se toda a noite tivesse sido um sonho mau, mas não tinha sido sonho. Os joelhos doíam do tempo que eu tinha passado ajoelhado no chão da guarita.
As mãos ainda tremiam um pouco e as três palavras continuavam na cabeça, claras como tinham sido de madrugada. Não era um sonho, tinha acontecido e eu precisava de decidir o que fazer com aquilo. Esperei na guarita até o primeiro funcionário chegar pela manhã. Quando o coveiro entrou pela portaria, já estava com as minhas coisas arrumadas.
Ele cumprimentou-me como fazia todos os dias, sem notar nada diferente na minha cara. Eu respondi com um aceno de cabeça e fui-me embora sem explicar nada. Fui diretamente para a administração. Nesse mesmo dia, eu pedi a demissão. Não dei explicação para ninguém. Disse que estava na altura de parar, que era tempo de descansar.
O responsável pela administração aceitou sem questionar muito. Assinou o que precisava de assinar, desejou-me sorte e eu saí daquele lugar. Nunca contei a ninguém o que vi nessa noite, nem para a minha mulher. nem para os meus filhos. Deixei que todos pensassem que eu tinha pediu a demissão porque estava cansado, porque a idade estava a pesar.
Era mais fácil do que tentar explicar alguma coisa que eu próprio não conseguia entender direito. Até hoje não sei quem disse aquelas palavras. Eu pensei muito nisso nos meses depois daquela noite. Se era alguém que ele tinha levado ou se era alguma coisa que vinha cobrar aquela alma. Não sei, nunca vou saber.
Nunca mais voltei ao cemitério municipal de Patos de Minas. Passei na frente algumas vezes de carro, anos depois, e olhei para o portão de longe. Mas entrar, isso nunca mais entrei. Há sítios que a gente aprende que não deve mais voltar. Aquele cemitério foi um desses lugares para mim. Eu hoje olho para trás e vejo uma vida inteira de trabalho, de família, de coisas boas e coisas difíceis.
Mas aquela madrugada de Abril de 2002, carrego diferente. Carrego como uma certeza. A certeza de que há coisas neste mundo que estão para além do que conseguimos entender. E algumas coisas não precisamos compreender para saber que não pode ver de novo. Vi o que vi naquela madrugada. Eu ouvi o que ouvi. Passei a noite de joelhos a pedir para sair dali com vida.
Alguma vez sentiu alguma coisa parecida ou conhece alguém que passou por algo assim? Deixa nos comentários. Eu vou adorar ler o seu relato. E se você acredita que o que vivi naquela madrugada foi real, escreve-nos comentários: “Eu acredito.” Um ótimo fim de semana. Que Deus o abençoe e a sua família. Até ao próximo relato.