MEU IRMÃO PROFANOU UM TÚMULO EM 1999… E O PESADELO QUE SEGUIU ME PERSEGUE | HORROR STORY
MEU IRMÃO PROFANOU UM TÚMULO EM 1999… E O PESADELO QUE SEGUIU ME PERSEGUE | HORROR STORY 
Em 1988, vi o meu irmão desrespeitar o túmulo de uma mulher que nem conhecia no cemitério municipal de São Paulo. Ele pontapeou o vaso de flores que estava sobre a sepultura e começou a rir-se daquele túmulo abandonado. Eu pedi-lhe parar, mas ele não me ouviu. E nos dias que vieram vi o meu irmão mudar perante os os meus olhos, sem que ninguém compreendesse o motivo.
Até que só restava uma coisa a fazer. contar tudo paraa nossa mãe e o que ela nos ensinou nesse dia, eu carrego até hoje. [pigarreia] O meu nome é Francisco Souza de Oliveira, tenho 52 anos e esta é a minha história em minutos. Eu tinha 14 anos nesse ano e o meu irmão tinha 16. A nossa família ia todas as semanas ao cemitério municipal de São Paulo cuidar do jazigo do nosso avô.
Isto fazia parte da nossa rotina e do forma como os meus pais nos criaram desde pequenos. O meu pai levava o balde e o pano. A minha mãe levava as flores novas. Lavavam a lápide com cuidado, tiravam o pó, trocavam o que estava velho por flores frescas. Era um trabalho simples, feito sem pressas, do maneira que se faz uma coisa que nós aprendeu a respeitar.
A minha mãe sempre foi uma mulher de fé simples. Não gostava de explicar muito, mas fazia questão de nos mostrar, com o próprio exemplo, que cuidar dos mortos era uma obrigação de quem ficava. Crescia, ouvindo-a dizer que o respeito não se explica, se pratica. Mas, naquele dia, enquanto os meus pais terminavam a limpeza, eu e o meu irmão pedimos para dar uma volta pelo cemitério.
Era comum a gente fazer isso enquanto esperava que eles acabarem o serviço. O meu pai avisou para não irmos muito longe e [pigarreia] a minha mãe reforçou o aviso sem tirar os olhos da lápide que estava a limpar. Saímos a caminhar entre os túmulos sem destino certo. O meu irmão ia à frente, distraído, olhando para os lados, sem prestar muita atenção ao que os dois tinham pedido.
Eu, mais calado, ia atrás dele, só acompanhando o caminho que ele escolhia. Foi assim que nós chegou perto de um túmulo que parecia esquecido há muito tempo. O vaso de flores estava com as flores murchas, secas, de uma forma que mostrava que ninguém ia ali há meses, talvez anos. A lápide estava suja, coberta por uma camada de terra e bolor por cima das letras.
O meu irmão aproximou-se e ficou tentando ler o nome, que já estava [pigarreia] quase apagado pelo tempo. Passado um instante, ele conseguiu decifrar as letras. Maria do Carmo. Leu em voz alta, meio rindo, como se aquilo fosse motivo de graça. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele pontapeou o vaso de flores murchas que estava junto da lápide.
O vaso rolou um pouco no chão de terra batida e riu ainda mais, como se tivesse feito uma boa brincadeira. Ele fez um comentário sobre a mulher ali sepultada, dizendo que ninguém se devia importar com aquele túmulo, já que nem flor de verdade havia, só aquelas secas. Eu de novo, satisfeito com a sua própria piada, sem perceber que não estava a achar graça nenhuma.
Lembro-me de sentir um incómodo forte na hora. Mas naquele tempo não sabia explicar bem o que era. Só sabia que aquilo não estava certo, que a nossa mãe nunca ia gostar de ver-nos a fazer pouco o caso de um túmulo, fosse de quem fosse. Pedi para ele parar, lembrando que a nossa mãe sempre nos ensinou a respeitar quem já tinha partido.
disse que não tinha graça nenhuma naquilo, que era apenas um túmulo esquecido, sem ninguém para cuidar e que, por isso mesmo, merecia mais cuidado, e não menos. O meu irmão só riu-se da minha cara, chamando-me de parvo, por eu me importar com um túmulo de gente que nem conhecíamos. disse que era só uma pessoa qualquer, morta há muito tempo, que não fazia diferença nenhuma partir um vaso ou soltar uma piada ali no meio de tantos túmulos.
Fiquei quieto depois disso, sem saber mais o que dizer para ele. Não adiantava insistir quando o meu irmão decidia troçar de alguma coisa. Ele sempre foi assim. Gostava de rir do que os outros levavam a sério. E naquele dia não foi diferente. Foi então que ouvimos o meu pai a chamar os dois de volta, dizendo que já estava na hora de ir embora.
Voltámos andando na direção do túmulo do nosso avô, onde os meus pais já estavam a recolher os baldes e os panos utilizados na limpeza. Foi nesse momento em que olhei para o rosto do meu irmão e notei nele alguma coisa de diferente. Não sei descrever bem o que era. Só sei que a sua maneira de olhar tinha mudado, como se estivesse a ver alguma coisa que não conseguia ver.
Na altura, não dei muita importância para isso. Pensei que fosse só impressão minha ou talvez cansaço depois de andar tanto entre os túmulos. Mas hoje, olhando para trás, sei que aquele foi o primeiro sinal de que alguma coisa tinha começado ali mesmo naquele instante. Então, chegamos perto dos meus pais e ajudamos a carregar o material de volta pro carro.
Meu pai perguntou se estava tudo bem, já que reparou que a gente estava mais calado do que o normal. Meu irmão respondeu que sim, sem entrar em detalhes sobre o que tinha acontecido. No caminho de volta para casa, percebi que meu irmão estava diferente. Ele sempre foi de conversar bastante, mas naquele dia ficou calado o tempo todo, olhando pela janela, sem dizer quase nada.
Reparei que ele andava mais devagar do que o normal quando descemos do carro e fomos até a porta de casa. Parecia que cada passo custava mais esforço do que devia e ele não tirava os olhos do chão enquanto caminhava. Perguntei se estava tudo bem com ele e ele respondeu que sim, num tom de voz baixo, sem me olhar direito nos olhos. Não insisti.
Eu tinha apenas 14 anos e naquele momento não fazia ideia do que estava por vir. Achei que aquele fosse só mais um dia comum, como tantos outros que a gente vivia indo cuidar do túmulo do nosso avô. Só muitos anos depois entendi que aquele desrespeito, por menor que parecesse, ia mudar tudo. Entramos em casa naquela noite, sem imaginar que as coisas nunca mais seriam do mesmo jeito, pelo menos não pro meu irmão.
Fomos jantar, tomamos banho, nos preparamos para dormir como fazíamos sempre, sem saber que aquela seria a última noite tranquila que teríamos naquela semana. Eu e meu irmão dividíamos o mesmo quarto e naquela mesma noite, depois do cemitério, percebi que ele quase não conseguia dormir. Ficava se virando na cama, puxando o lençol, olhando pro teto sem parar.
Eu fingia estar dormindo, mas prestava atenção em cada barulho que ele fazia, sem entender direito o motivo daquela inquietação toda. Ele levantou em algum momento da madrugada e foi até o banheiro. Antes de voltar paraa cama, deixou a porta entreaberta e a luz acesa para clarear um pouco o corredor e o nosso quarto.
Foi só depois disso que ele pareceu se acalmar, respirando mais devagar até finalmente pegar no sono. E no dia seguinte meu irmão me chamou de lado e disse, meio sem graça, que sentia como se alguma coisa estivesse observando ele mesmo dentro de casa. Falou baixo, olhando pro chão, como se tivesse com medo de eu rir da cara dele ou contar pros nossos pais.
Eu não sabia o que responder naquele momento. Fiquei calado, só balançando a cabeça, tentando entender aquilo. Meu irmão sempre foi de brincar, de debochar das coisas. Então, ver ele falando sério sobre um medo daquele jeito já me deixou preocupado, mesmo sem saber explicar porquê. Uma madrugada depois, acordei de repente com um barulho leve vindo da cama dele.
Abri os olhos e viu irmão sentado, olhando fixo pra parede do quarto, como se estivesse esperando alguma coisa acontecer ali. Chamei o nome dele algumas vezes, mas ele não respondia. Levantei e fui até a cama dele. Sacudi o braço dele de leve. Só depois de alguns segundos, ele pareceu voltar a si, olhando para mim, sem entender onde estava.
Perguntei o que tinha acontecido e ele disse que não sabia. Eu achei aquilo muito estranho, mas voltei para minha cama pensando que talvez fosse algum sonho ruim que ele teve. Eu tentei dormir de novo, mas não consegui. Em outra madrugada, acordei ouvindo meu irmão falando sozinho, bem baixinho, enquanto ainda dormia. eram frases que eu não conseguia entender direito, um murmúrio contínuo, quase como se ele estivesse conversando com alguém que só ele conseguia enxergar.
Nos dias que se seguiram, notei que meu irmão estava comendo cada vez menos durante as refeições. Ele empurrava a comida no prato, mexendo com o garfo, mesmo sendo o prato que ele sempre gostou desde pequeno. Minha mãe reparou nisso também, perguntando se ele estava passando bem, se doía alguma coisa. Ele respondia que estava tudo certo, que só não tinha muita fome naquele dia, mas ele passou a dormir com a luz do banheiro acesa toda a noite, coisa que nunca fazia antes daquele dia no cemitério.
Antes ele até reclamava quando eu deixava alguma luz acesa, dizendo que atrapalhava o sono dele, e agora era ele mesmo quem fazia questão de deixar a luz acesa. Quando perguntei o motivo daquela mudança, ele só dava de ombros, sem me dar nenhuma explicação de verdade. Falava rápido, mudando de assunto logo em seguida, como se não quisesse ficar muito tempo pensando naquilo ou conversando sobre o que estava sentindo.
Dias depois, meu irmão amanheceu com febre, reclamava de mal-estar, de dor no corpo inteiro. Minha mãe colocou a mão na testa dele, sentiu que estava quente e achou que fosse um resfriado comum daqueles que iam e vinham com a mudança de tempo. Deu remédio para baixar a febre e mandou ele descansar na cama, cobrindo bem para suar e melhorar mais rápido.
Meu irmão obedeceu sem reclamar muito, o que já era estranho, porque sempre detestou ficar de cama, mesmo doente. Eu percebia que o meu irmão estava mais calado a cada dia que passava, evitando olhar para os olhos de qualquer pessoa da família. Mesmo estando doente e necessitando de cuidado, era como se ele quisesse esconder alguma coisa, mesmo sem forças para disfarçar devidamente o que sentia.
Numa madrugada, ainda com febre, o meu irmão acordou a gritar. O grito tirou-me do sono na hora e quando abri os olhos, já estava sentado na cama, apontando para o canto do quarto, com o corpo tremendo e o rosto pálido, como se tivesse visto alguma coisa ali mesmo, mesmo à nossa frente.
Levantei-me a correr e Fui ter com ele, tentando perceber o que estava a acontecer. Ele jurou ter visto uma mulher parada naquele canto, olhando fixo para ele e depois desaparecer de repente. Ele contou-me tudo isso ofegante, ainda a tremer, sem conseguir acalmar-se corretamente depois do susto. Fiquei ao lado dele, sem saber muito bem que fazer, só tentando acalmar o meu irmão com a voz mais firme que eu conseguia naquele momento.
O meu pai e a minha mãe escutaram o grito e vieram correndo para o quarto, pensando que fosse apenas um delírio provocado pela febre alta. Falaram com ele, deram-lhe um copo de água, verificaram a testa de novo e depois voltaram para o quarto deles, pensando que estava tudo resolvido. Mas eu vi o meu irmão continuar a tremer mesmo depois de os nossos pais saírem do quarto e a casa ficou em silêncio outra vez.
Olhou-me naquele momento com os olhos ainda arregalados e confirmou baixinho que aquilo não tinha sido um sonho nenhum, que tinha visto mesmo alguma coisa ali parada a olhar para ele. Perto do fim dessa semana, a sua febre finalmente baixou e ele voltou a comer um pouco melhor. Mas o meu irmão continuava com olheiras profundas e quase sem falar, mesmo já estando melhor.
Eu ficava a observar aquilo tudo de perto, sem compreender bem o que estava acontecendo com ele. Naquele tempo, eu só sabia que o meu irmão já não era o mesmo desde esse dia no cemitério e que alguma coisa parecia estar realmente a acontecer com ele, mesmo sem eu conseguir dar um nome àquilo. Foi assim que, vendo-o cada vez mais consumido ao longo daqueles dias, decidi que precisava de fazer alguma coisa.
Não sabia bem o que fazer, mas sentia que não podia mais ficar só a observar o meu irmão daquele jeito. Naquela noite, deitado na minha cama, fiquei a olhar para o teto durante um bom tempo, pensando em tudo o que vínhamos vivendo naquela semana. Do outro lado do quarto, o meu irmão também estava acordado, sem conseguir adormecer, do jeito que já tinha-se tornado costume desde aquele dia no cemitério.
Resolvi dizer o que vinha pensando há dias, mas que ainda não tinha coragem. disse-lhe, sem grande certeza na voz, que talvez tudo aquilo tivesse alguma relação com o que tinha acontecido no cemitério, com aquele túmulo que tinha desrespeitado. Meu irmão ficou quieto por um instante, olhando para o teto do quarto. O silêncio dele demorou tanto tempo que cheguei a pensar que não fosse responder nada.
Mas passado um tempo, ele finalmente falou com a voz mais baixa do que o normal e disse que também já tinha pensado nisso. Disse que talvez fizesse sentido, uma vez que não conseguia explicar de outra forma o que vinha sentindo desde esse dia. Ele pediu-me para não contar nada aos os nossos pais com medo da reação que eles poderiam ter.
Eu disse-lhe que a gente precisava de contar tudo paraa nossa mãe. O meu irmão resistiu no início, com medo da bronca que podia levar e com vergonha de admitir o que tinha feito. Até que passado um tempo, ele finalmente concordou que era a única saída que restava. falou baixinho, que estava cansado, que já não aguentava mais aquele medo sozinho e que talvez fosse hora mesmo de contar tudo a alguém que pudesse ajudar de verdade.
Combinámos chamar a nossa mãe para conversar a sós ainda nessa mesma noite, quando o pai se ia deitar, saímos do nosso quarto devagar, com cuidado para não fazer barulho, e acordá-lo. Fomos até à cozinha, onde ela estava tomando um copo de água antes de ir deitar. Ela estranhou a gente aparecer daquela maneira tão tarde, com aquela cara de preocupação estampada.
Perguntou se estava tudo bem, tentando perceber o que tinha-nos tirado da cama àela hora. Meu irmão, com a voz meio embargada, pediu para ela se sentar e conversar connosco por um instante, que precisava de contar uma coisa. Começou por contar o que tinha feito no túmulo daquela mulher, o pontapé no vaso de flores, o riso, o desrespeito que tinha cometido sem pensar bem nas consequências.
Falava devagar, com dificuldade, como se cada palavra custasse esforço. Disse para ela que achávamos que podia ter alguma ligação entre as duas coisas, mas que não tinha certeza nenhuma. falou isso meio hesitante, como quem tem medo de parecer disparatado por acreditar em algo que nem conseguia explicar bem.
Minha mãe escutou tudo em silêncio, sem interromper em momento algum, com o rosto sério, prestando atenção a cada palavra que o meu irmão dizia. Ela deixou ele acabar de contar tudo, sem pressa nenhuma, mesmo já sendo tarde da noite. Depois de ele terminar de falar, a minha mãe ficou calada por um instante, olhando-o com atenção.
Não disse nada de imediato, como eu esperava que fosse fazer. Só então perguntou com calma na voz se tínhamos a certeza que aquilo tinha começado depois daquele dia. O meu irmão respondeu que sim, que tinha a certeza, que antes daquele dia nunca tinha sentido nada parecido com o que estava a sentir agora. disse que nunca tinha visto nada de estranho, nunca tinha tido febre daquela maneira, nunca tinha acordado a gritar no meio da noite.
A minha mãe ficou pensativa por um bom tempo depois de ouvir a resposta dele. E só então ela disse com firmeza na voz que aquilo tudo só podia ter começado depois do que o meu irmão tinha feito no túmulo daquela mulher. Minha mãe explicou-nos que não precisava saber quem tinha sido aquela mulher em vida para ter respeito por ela. Falou que o desrespeito se resolve com respeito, não com explicação, e que isso valia para qualquer pessoa, conhecida ou não, viva ou morta.
Disse que no dia seguinte, na visita de sempre ao cemitério, o meu irmão ia até ao túmulo daquela mulher pedir desculpa. falou aquilo, olhando-o fixamente, sem gritar, mas com um tom que deixava claro que não era pedido, era uma decisão já tomada por ela. Ainda nessa noite, antes de irmos dormir, a minha mãe chamou meu irmão para rezar ali mesmo com ela na sala, os dois ajoelhados no chão frio.
Ela colocou a mão no ombro dele e pediu-lhe que fechasse os olhos e que acompanhasse a sua oração em silêncio. Ela rezou pedindo que aquela alma tivesse paciência com o meu irmão, que deixasse-o descansar por mais uma noite, uma vez que no dia seguinte iria até ao cemitério pedir desculpa de verdade. Falou com a voz calma, mas firme, como quem tem a certeza do que está pedindo.
O meu irmão rezou junto com ela, repetindo baixinho as palavras que o meu mãe ia dizendo com a voz embargada. Eu Fiquei ali perto, sentado no sofá. Observando os dois. Senti um alívio grande por ter conseguido convencer o meu irmão a contar a verdade à nossa mãe, mesmo sendo tarde da noite. Naquele momento, ainda menino, não sabia bem o que esperar do dia seguinte, mas sentia que tínhamos feito a coisa certa.
No sábado seguinte, a família toda se preparou para voltar ao cemitério da forma que fazíamos toda semana. O meu pai, a minha mãe, o meu irmão e eu saímos de casa cedo, sem grande conversa no caminho, cada um pensando à a sua maneira no que ia acontecer naquele visita. O silêncio dentro do carro era diferente do silêncio de outras vezes.
Não era aquele silêncio comum de quem já conhece o caminho de cor e não precisa mais conversar sobre ele. Era um silêncio mais pesado, cheio de expectativa, como se todos ali soubessem que aquela visita não seria igual às outras que fazíamos todas as semanas. Olhei para o meu irmão, algumas vezes durante o trajeto, tentando perceber o que se passava-lhe na cabeça.
Ele ficava olhando pela janela, sério, sem o jeito brincalhão de sempre. Eu também estava calado, sem saber bem o que dizer, só à espera para ver como tudo aquilo ia terminar. Antes de sair de casa, a minha mãe tinha separado flores novas, para além das que já levávamos sempre pro túmulo do nosso avô.
também preparou um pano limpo e um pouco de água numa garrafa para poder cuidar devidamente do túmulo daquela mulher que o meu irmão tinha desrespeitado dias antes. O meu pai, mesmo sem compreender bem tudo o que tinha acontecido durante a semana, ajudou a carregar o material sem fazer muitas perguntas. A minha mãe deve ter conversado com ele em algum momento da noite anterior, porque parecia saber que íamos fazer.
Reparei que o meu pai, apesar de não comentar nada, olhava de vez em quando para o meu irmão com uma expressão que misturava preocupação e compreensão. Ele nunca foi de falar muito sobre sentimentos, mas dava para perceber que estava do nosso lado naquilo tudo, mesmo em silêncio. Chegámos ao cemitério e, diferente de outras vezes, fomos logo para o túmulo daquela mulher esquecida.
Antes mesmo de passar pelo túmulo do nosso avô, o meu mãe conduzia o momento com calma, orientando-nos sobre como se aproximar, sobre o respeito que precisávamos de ter ali dentro. O caminho até o túmulo pareceu mais comprido do que da outra vez, mesmo sendo a mesma distância de sempre. O meu irmão andava lentamente ao lado da minha mãe, sem trocar palavra com ninguém.
Eu ia atrás dos dois junto do meu pai, sentindo que aquele momento pedia silêncio, não conversa. Chegando perto do túmulo, reconheci logo o local. O vaso partido ainda estava atirado ao lado, do maneira que tinha ficado depois do pontapé do meu irmão. A lápide continuava suja, à espera de alguém que finalmente viesse cuidar dela.
Começamos por limpar o túmulo juntos, tirando a terra e o bolor que cobriam a lápide há tanto tempo, talvez anos. Lavamos a pedra com cuidado, esfregando lentamente até que as letras do nome voltarem a ser visíveis, legíveis, como deviam ter sido um dia, há muito tempo. Trocamos as flores murchas por outras novas, arrumando tudo com atenção, como se aquele túmulo fosse de alguém da nossa própria família.
A minha mãe mostrava-nos como colocar as flores direitinhas, do jeito que ela fazia sempre no túmulo do nosso avô. Semana após semana, o meu irmão trabalhava em silêncio, sem se queixar de nada, diferente da forma como costumava agir em qualquer tarefa que exigisse esforço ou paciência.
Percebi que ele estava levando aquilo a sério, com um cuidado que nunca tinha visto nele antes daquela semana inteira que tínhamos vivido. Enquanto limpávamos, reparei que o meu irmão parava de vez em quando, olhando para lápide, como se estivesse pensar em alguma coisa. Não disse nada, apenas continuei a trabalhar ao lado dele, deixando-o ter aquele momento da forma que precisasse ter.
Quando acabámos de limpar o túmulo por completo, o meu irmão ajoelhou-se em frente à lápide, ficando em silêncio durante um instante antes de falar qualquer coisa. Depois pediu desculpas em voz elevada, admitindo o erro que tinha cometido nesse dia. Disse que não sabia o que lhe tinha passado pela cabeça dele para fazer aquilo, que se arrependia de cada palavra que tinha dito rindo daquele túmulo.
Prometeu respeito a partir de então, não só com aquele túmulo, mas com qualquer lugar de descanso que encontrasse pela frente, em qualquer cemitério que visitasse. falou aquilo, olhando directamente paraa lápide, como se estivesse a falar de verdade com a mulher que ali estava sepultada. A minha mãe ajoelhou-se ao lado dele e começou a rezar em voz baixa, pedindo descanso e paz para a Maria do Carmo.
Meu pai ficou de pé, um pouco atrás dos dois, com a cabeça baixa, acompanhando aquele momento em silêncio, sem dizer nada, só observando com respeito e recolhimento. Fiquei a observar o meu irmão de perto durante a oração, notando um alívio estampado no rosto dele que já não via há dias. Parecia que um peso enorme estava a sair de cima dos ombros dele ali mesmo, naquele instante perante toda a família reunida.
Segundo o que me contou depois, já mais tranquilo, aquela sensação de peso que vinha carregando durante toda a semana pareceu se desfazer-se aos poucos enquanto a minha mãe rezava. Disse que sentiu um alívio diferente de tudo o que já tinha sentido antes desse dia no cemitério. Depois de terminarmos ali, recolhemos os panos e o balde e seguimos para o túmulo do nosso avô para fazer a limpeza habitual.
Trabalhámos os quatro juntos, cada um fazendo a sua parte, da forma que sempre fizemos, desde que me entendo por gente. Terminamos a manutenção do túmulo do nosso avô no mesmo silêncio tranquilo de sempre, sem mais aquele peso que tinha marcado a nossa visita anterior. Foi bom voltar àquela rotina comum, cuidar da sua lápide, como fazíamos todos os sábados, sem nada de estranho pairando sobre nós.
Voltamos para casa naquele dia mais leves, sem aquele peso que vinha pairando sobre a nossa família havia dias. No caminho, a minha mãe explicou-nos com a calma de sempre que o respeito pelos mortos não é medo, é gratidão. É lembrar que um dia todos nós vamos precisar do mesmo cuidado. Nos dias seguintes, o meu irmão voltou a dormir bem, sem mais aquela inquietação de antes.
Os episódios estranhos que vínhamos vivendo pararam completamente e voltou aos poucos a ser o irmão brincalhão que conhecia desde sempre. antes desse dia no cemitério ter acontecido. Hoje, aos 52 anos, nunca esqueci o que vi acontecer ao meu irmão e cedo aprendi o peso de desrespeitar quem já não está cá. Nunca desrespeitar um túmulo, mesmo que pareça esquecido.
Quem já partiu merece o mesmo respeito que esperamos receber um dia. E se por acaso passar por um cemitério e ver algum túmulo sem cuidado, sem flor, sem visita, pare um instante e reze por essa pessoa. Custa pouco, mas pode significar muito. Se acredita que há coisas que a gente não consegue explicar, deixa aqui em baixo: “Eu acredito.
” E se já viveu alguma experiência semelhante, conta para mim nos comentários. Que Deus abençoe as vossas famílias sempre.