NA EXUMAÇÃO DE 2001… ENCONTREI ALGO QUE NÃO DEVIA ESTAR NO CAIXÃO! | História de Terror Real
NA EXUMAÇÃO DE 2001… ENCONTREI ALGO QUE NÃO DEVIA ESTAR NO CAIXÃO! | História de Terror Real 
Numa esumação no dia 14 de agosto de 2001, houve algo que uma pessoa colocou dentro de um caixão à espera que alguém um dia encontrasse. E esse alguém fui eu. E até hoje não sei se fiz a coisa certa com o que encontrei. O meu nome é Aldair Pereira, tenho 58 anos e trabalho há 30 anos no cemitério municipal de Guarapuava, no Paraná.
E essa é a minha história em minutos. Naquela altura eu ainda era novo no trabalho. Eu conhecia a rotina, mas ainda não tinha visto tudo que este cemitério tinha para mostrar. E pensava que sabia o que esperar de qualquer serviço que aparecesse nessa ficha, mas aprendi que estava errado. E foi no dia 14 de agosto de 2001. Guarapuava é fria nesta altura do ano e cheguei ao cemitério por volta das 6 da manhã.
Passei no balneário, deixei o casaco, peguei num café na administração e fui buscar a ordem de serviço do dia. O supervisor entregou-me a ficha sem levantar a cabeça do papel que estava lendo. E nesse tempo eu já tinha aprendeu que quando o fazia, o serviço do dia não ia ser fácil, mas eu olhei para a ficha e não vi nada de diferente.
Era uma esumação na ala C, uma libertação de espaço para novos enterros. Era um serviço de rotina. Eu já tinha feito aquilo outras vezes, mas não era o meu serviço favorito e nem de nenhum outro coveiro, mas faz parte do trabalho. E aprendemos a encarar. E depois li o nome na ficha. Nelson Raimundo Borges, de 61 anos, falecido em Outubro de 1996.
Aquele nome não me dizia nada na altura, mas não sabia que em poucos minutos Gostava de nunca ter lido aquelas letras. Depois apenas dobrei o papel, Enfiei-o no bolso das calças e fui buscar as ferramentas. Peguei na carriola, as paz e o necessário para o serviço e iniciei o caminho para alac.
E foi nesse caminho que a primeira coisa aconteceu. Era uma sensação estranha. O cemitério estava quieto, como sempre naquela hora da manhã. O céu baixo de agosto, o ar parado, aquela luz fria. Não havia nenhum colega por perto ou visitante, nenhum ruído para além do som das minhas próprias ferramentas na carriola. Mas mesmo assim, aquele pressentimento foi crescendo a cada passo que dava em direção à ala C, como se aumentasse aos poucos, quase imperceptível, mas presente em cada metro que avançava.
Eu tentava dar atenção. E quando eu cheguei à ala C, fui contando os túmulos pelo número assinalado na ficha, um por um. E foi quando parei em frente do túmulo de Nelson Raimundo Borges, que aquela sensação mudou de uma vez. De repente, era como se chegasse àquele ponto específico tivesse ativado algo que estava à espera quieto até ali, um peso no ar que não estava no corredor inteiro, só estava naquele espaço exato, naquele ponto entre aquelas lápides, como se o ar tivesse um peso diferente do resto. Então parei e olhei em
volta. O corredor estava vazio, as árvores do fundo paradas sem vento e o silêncio normal de uma zona antiga que pouca gente frequenta. Eu fiquei parado durante alguns segundos, olhando para aquele túmulo e foi aí que peguei na pá e comecei a trabalhar. O nosso serviço é assim.
A gente pode estar a sentir o que for, mas o trabalho precisa de ser feito. Assim, comecei pelo cuidado de sempre e com o respeito que este tipo de serviço exige. Mas aquela pressão não foi embora. Ela ficou ali enquanto eu trabalhava. Era como algo parado me observando sem fazer nada, apenas presente, como se estivesse à espera.
Eu tentei não pensar nisso e continuei o serviço. E depois começaram os arrepios. O primeiro subiu pelas costas, foi da cintura até ao topo da cabeça rápido. Achei que era aquele arrepio que normalmente passa logo. Só que este não passou. Ele ficou baixo, constante, como um aviso de que o corpo não queria desligar.
Então eu Parei por um momento e respirei fundo. Pensei que aquilo podia ser o frio da manhã ou o peso desse serviço. Essa é uma combinação que, por vezes, pesa mais num dia do que no outro. Eu tinha certeza que era isso e então continuei. O trabalho ia avançando, mas a cada pá de terra que retirava, sentia aquela pressão a mudar lentamente, como se à medida que avançava algo se ia ajustando-se naquele espaço, acomodando-se e ficando mais presente à medida que eu chegava mais fundo.
E o pressentimento de não estar ali sozinho era claro demais para ignorar. Eu estava no meio do serviço quando aquela dor de cabeça chegou, daquele jeito que aperta atrás dos olhos e que não te deixa pensar direito. Eu queria acreditar que era cansaço, que era o esforço do serviço num dia frio. Eu queria acreditar em qualquer coisa, menos no que o meu corpo estava a tentar dizer-me, até que aquela pá bateu no caixão.
E o som foi diferente do que eu esperava. Não foi o som normal de madeira a encontrar metal. Era um som mais abafado, como se aquele caixão, depois de 5 anos enterrado, estivesse diferente do que eu esperava encontrar. E depois veio o silêncio. Não era o silêncio normal do cemitério. Era como se aquele único golpe de pá tivesse sugado todo o ruído do mundo para dentro da terra.
Os pássaros, o vento, tudo parou. Até o meu próprio fôlego ficou preso no peito durante uns dois, tr segundos. E foi nesse momento que tudo mudou. A temperatura do corredor desceu num segundo. Os arrepios que estavam constantes tornaram-se mais fortes do que em qualquer momento dessa manhã. A dor de cabeça que estava presente aumentou.
Então parei completamente e fiquei olhando para aquele caixão que estava ali na cova que eu tinha acabado de abrir e para o nome na lápide, Nelson Raimundo Borges. Um nome que não me não dizia nada naquela manhã fria de agosto, mas que agora parado em cima daquele caixão, com toda aquela pressão em volta, aquilo pesava de uma maneira que eu não sabia explicar.
E em 5 anos de serviço, já tinha sentido o peso que este trabalho carrega em determinados dias e tinha aprendido a separar o que é do serviço e o que é da cabeça. Mas aquilo era diferente de tudo o que eu tinha sentido até ali. E aquele caixão ainda estava fechado. Eu não sabia, mas o que estava prestes a sair daquela madeira não era o que restava de Nelson Raimundo Borges.
Era algo que a terra tentava esconder durante 5 anos. E quando abri aquele caixão, o serviço deixou de ser rotina. Aquele silêncio que tinha chegado quando a ferramenta embateu no madeira ainda lá estava. Era como se o ar daquele corredor estivesse a segurar a respiração juntamente comigo. Então eu Comecei a abrir aquele caixão. O processo de esumação tem uma sequência.
A gente aprende e repete. É automático. O corpo faz enquanto a cabeça pode estar em qualquer lugar. E eu já tinha feito aquilo outras vezes e sabia cada passo, mas naquele momento a cabeça não estava em lugar nenhum além dali. Então fui trabalhando devagar, com cuidado e com aquela pressão à volta que não tinha diminuído desde o momento em que a pá tinha batido no caixão.
E foi quando eu abri o caixão e espreitei para dentro. Eu vi no canto direito do caixão tinha uma saco plástico branco. Eu fiquei olhando para aquilo sem compreender ainda o que estava a ver. Não fazia parte do morto, não era nada que pertencesse a um enterro. Era um saco plástico comum, daquelas que usamos no mercado, dobrada e colocada no canto do caixão.
E depois de 5 anos enterrada, ainda estava intacta. E naquele momento eu sentia a temperatura do corredor baixar, e os arrepios que eram constantes ficaram ainda mais fortes. E uma tontura chegou junto, leve, mas presente. Era como se no momento em que vi aquele saco, eu tivesse acordado algo que estava à espera quieto dentro daquele caixão durante 5 anos, como se algo tivesse muito perto de mim naquele segundo e estivesse parado a cerca de dois palmos do meu ombro sem eu conseguir ver. Então, estendi a mão devagar e
peguei naquela sacola. Era leve, mas tinha algo lá dentro. Senti com os dedos por fora antes de abrir. Era um volume pequeno, alguma coisa protegida ali dentro. Depois abri devagar e dentro daquele saco havia um envelope. Eu Fiquei a olhar para aquilo sem entender. Era um envelope fechado e conservado dentro daquele saco de um jeito que mostrava que quem lá pôs não queria que o tempo destruísse.
Aquela sacola tinha protegido o invólucro da humidade, do peso da terra e de 5 anos dentro de um caixão. Quem fez aquilo sabia o que estava a fazer. Pensou em cada detalhe e planeou para que aquilo sobrevivesse. E não foi por acaso. Alguém colocou aquele envelope dentro daquele caixão antes do enterro, acreditando que um dia alguém fosse encontrar. E encontrei.
E foi nessa altura que aqueles sussurros começaram. Eles pareciam próximos como se viessem de dentro da minha própria cabeça, mas sem palavras claras. e veio juntamente com uma angústia que senti no peito. Então fiz o que qualquer pessoa sensata faria naquela situação. Eu voltei a colocar o envelope dentro do saco e fechei aquilo e deixei-a no chão do corredor junto ao túmulo.
Aquilo não era responsabilidade minha. Eu estava ali para fazer um serviço. Esumação, transferência para ossário, só libertar o espaço. Era isso que a ficha mandava. O que estava dentro daquele caixão, para além do que devia estar, não era problema meu. Eu só ia terminar o serviço, avisar o supervisor do que tinha encontrado e deixar nas mãos de quem tinha de decidir o que fazer.
Era o que fazia sentido naquela altura. Então virei-me e tentei retomar o serviço, mas as mãos não colaboraram. Percebi que estavam a tremer quando eu peguei na ferramenta e que não conseguia controlar. O meu corpo devia estar em choque com tudo o que estava sentindo naquele momento. O meu coração estava acelerado a um ritmo que eu nunca tinha sentido. Eu tentei acalmar-me.
Respirei fundo três vezes, como nós aprende a fazer quando o serviço pesa demais. Mas não adiantou, porque eu não conseguia tirar aquele envelope da minha cabeça. Eu tentava, mas era como se algo me chamasse e ele estava ali ao lado do túmulo, num corredor onde eu era o único ser humano naquele momento, pensando no que será que tinha dentro daquele envelope e qual seria a razão para ele estar ali.
Fiquei olhando para o nome na lápide e tentei lembrar-me de qualquer coisa sobre aquele homem, qualquer pormenor que tivesse passado pelos meus 5 anos de serviço naquele cemitério, um rosto, um história, alguma conversa de corredor entre os funcionários mais antigos e nada. E para mim, Nelson Raimundo Borges era apenas um nome numa ficha de esumação.
Um homem que morreu em 1996 e que nunca tinha cruzado nem em vida nem em morte. Mas alguém sabia quem era esse homem. O suficiente para colocar um envelope dentro do caixão dele antes de ser enterrado e com o cuidado suficiente para garantir que sobrevivia ao tempo. Mas com que intenção? Aquela pressão em volta e os sussurros não paravam.
E eu sabia que não ia conseguir terminar aquele serviço sem saber o que estava escrito nesse envelope. Então, peguei o saco do chão e abri, mas agora tirando o envelope com cuidado. E depois foi que pude ver melhor do que na primeira vez. O envelope era antigo, de um papel bege que os anos tinham escurecido um pouco, mas que o saco tinha preservado.
Fechado, selado com um pedaço de fita que tinha amarelado, mas que ainda estava firme. E na frente do envelope tinha uma escrita à mão, uma letra cuidada de alguém que escreveu devagar, com intenção. Então passei o dedo pela fita que selava o envelope, abri e dobrei a parte de cima lentamente e com cuidado.
Coloquei a mão dentro do envelope e tirei um papel que estava dobrado em quatro partes. Eu desdobrei e depois vi que era uma folha escrita dos dois lados com essa mesma letra cuidadosa que eu tinha visto na frente do envelope. Foi quando comecei a ler devagar. Quem tinha escrito aquilo parecia ter calculado e escolhido cada palavra.
Senti aquela presença que estava à minha volta a aumentar. No momento exato em que os meus olhos passaram pela primeira linha daquela folha, senti a temperatura do corredor cair ainda mais. Os arrepios que eram constantes desde o meio da manhã ficaram tão fortes que senti em todo o meu corpo. E aqueles sussurros pareciam estar mais próximos.
Era como se alguém estivesse a tentar dizer algo que não conseguia entender. Mas eu continuei a ler. O texto começava por uma data, Novembro de 1995. Era um ano antes da morte. Quem tinha escrito que escreveu enquanto ele ainda estava vivo. E depois um nome, Nelson Raimundo Borges, com uma clareza de quem queria que não houvesse dúvidas sobre quem ele ou ela estava a falar.
E depois vinha a acusação. Eu vou resumir sobre o que me lembro que estava escrito naquela folha. Nelson Raimundo Borges tirou a vida a António Carlos Ferreira, meu pai, na noite do dia 3 de Março de 1994. Mas toda a gente aceitou que foi um acidente. E eu sei que não foi. Eu vi os dois juntos nessa noite.
Eu ouvi a discussão e no dia seguinte o meu pai não apareceu em casa e quando encontraram o corpo, eu soube. Nelson Raimundo Borges olhou-me nos olhos no enterro do meu pai. de uma forma que nunca esqueci. Não tenho como provar. Eu escrevo isto sabendo que talvez ninguém leia, mas não posso deixar que a terra cubra a verdade juntamente com ele.
Apenas espero que acredite em mim e que a sua alma sofra pela eternidade. Então deixei de ler. Aquelas palavras tinham muito peso. Quem tinha escrito aquilo sabia que não tinha prova. Sabia que era a palavra dele contra nada. Um filho que ouviu uma discussão não era suficiente para provar que um homem tirou a vida a outro e sabia que aquelas linhas dentro de um caixão não iam mudar nada no mundo lá fora.
E mesmo assim colocou ali: “Apenas espero que acredite em mim”, ele disse. Ele não estava a pedir justiça. Sabia que não ia adiantar, que não traria o seu pai de volta. Ele só precisava de alguma forma que alguém acreditasse nele e que aquilo não fosse embora juntamente com o corpo do Nelson como se nunca tivesse existido. E então a presença explodiu.
Os arrepios ficaram tão fortes que a folha tremia na minha mão. E não era o vento, era o meu próprio corpo reagindo ao que tinha lido e à aquela presença à minha volta ao mesmo tempo. A dor de cabeça latejava em todo o rosto. Um zumbido tinha chegado juntamente com os sussurros e a tontura estava de volta mais forte do que antes.
Era como se o meu corpo inteiro estivesse a tentar tirar-me dali, ao mesmo tempo que alguma coisa me segurava no lugar. Então dobrei a folha devagar e na mesma altura veio uma pergunta que não consegui responder. Será que era verdade? Será que Nelson Raimundo Borges tinha realmente tirado a vida daquele homem naquela noite de Março de 1994? E tinha vivido realmente os últimos anos carregando aquilo em segredo? Ou aquele filho tinha uma dor tão grande que transformou um acidente na morte do pai numa coisa que precisava de ter um culpado,
que tinha olhado para o Nelson no enterro e visto culpa num olhar que podia ser outra coisa qualquer, que tinha construído uma certeza na sua cabeça mais sem base real. A carta a acusava, mas acusar não é provar. Quem tinha escrito acreditava, dava para sentir isso em cada linha. Era texto de alguém que carregou uma certeza, a dor de perder um pai e que nunca encontrou paz com a explicação que recebeu.
Mas acreditar não é provar. E talvez as suas palavras estivessem a prender aquela alma aqui por injustiça, por algo que Nelson Raimundo Borges não cometeu. Mas não sabia e não tinha como saber. E foi nesse momento que senti aquela presença chegar mais perto, como se algo tivesse-se movido de onde estava e parado a uns dois palmos de distância, sem forma, sem rosto, sem nada que eu pudesse descrever, apenas o cheiro de terra húmida que mudou e ficou subitamente metálico, como sangue antigo. E o ar naquele ponto parecia
distorcido, como o calor que sai do asfalto, mas em pleno frio de agosto, mas presente de uma forma que paralisou o todo o meu corpo num segundo. Não Consegui mexer-me, não consegui falar, não consegui fazer mais nada além de ficar parado naquele corredor com aquela folha na mão e aquela coisa parada perto de mim que eu não conseguia ver, mas que eu sentia com uma clareza que não deixava nenhuma dúvida.
Os sussurros estavam mais altos. E naqueles segundos eu percebi o recado. Devolve e isso acaba. E depois senti aquela pressão a recuar um pouco. Ela não se foi embora, apenas recuou. Como quem deu um aviso e está à espera para ver se era suficiente, olhei para a folha dobrada na minha mão e para aquele envelope bege com a fita amarelada e para aquele saco branco no chão.
E pensei no filho que tinha escrito aquelas linhas, que podia ainda estar vivo em algum lugar e que tinha perdido o Pai, que nunca tinha tido resposta e que a única coisa que tinha conseguido fazer com aquela dor tinha sido colocar dentro de um caixão esperando que alguém o encontrasse um dia. E pensei na família do Nelson, em filhos ou netos que tinham construído a vida em cima do nome daquele homem, que iam ter esse nome destruído se essa folha chegasse a algum lugar oficial, sem nenhuma certeza de que o que estava escrito era verdade. Sem qualquer certeza
de nada. Eu coloquei a folha de volta dentro do envelope lentamente, fechei e Olhei para ele por um momento com a dúvida e com uma decisão que eu precisava de tomar sozinho naquele corredor da ALAC, sem que ninguém no mundo me pudesse ajudar. Era uma decisão minha, mas não tinha a certeza de nada. Se eu entregasse aquele envelope ao alguém e a acusação fosse falsa, eu ia destruir uma família com o nome de um morto que não se podia defender.
Os filhos e os netos, as pessoas que não não tinham feito nada de mal e que iam carregar aquilo para o resto da vida. E se eu não entregasse e a acusação fosse verdade, ia enterrar de volta a única coisa que existia sobre o que aconteceu com o António Carlos Ferreira naquela noite de Março de 1994. ia fazer o mesmo trabalho que o Nelson tinha feito em vida, guardar e esconder aquilo.
Então, fiquei parado a olhar para o envelope. Depois olhei para o nome na lápide do Nelson Raimundo Borges, um homem que eu não tinha conhecido em vida, que para mim era apenas um nome numa ficha de serviço quando o dia tinha tinha começado e que agora tinha uma história que não tinha pedido para carregar, mas que estava comigo na mesma, culpado ou inocente.
E então tomei a decisão e não foi o medo que decidiu. Eu tinha medo, não vou mentir sobre isso. Mas aquela manhã inteira tinha sido a experiência mais pesada que tinha vivido em 5 anos de cemitério. Mas não foi o medo que me fez fazer o que eu fiz, foi a dúvida. Sem a certeza não tinha como entregar, não tinha como destruir o nome de um morto e a vida de quem tinha ficado.
Sem certeza não tinha como olhar uma família nos olhos e dizer que o pai, o avô, o marido era acusado de tirar a vida a alguém com base numa carta que um filho desesperado tinha colocado dentro de um caixão. Eu precisava de certeza para fazer aquilo e não tinha. Então, peguei naquela saco branco do chão e coloquei o envelope no interior com cuidado, do mesmo maneira que tinha encontrado, e fechei da mesma forma que estava antes, como se as minhas mãos nunca tivessem tocado naquilo. Então, virei-me para o túmulo.
Aquela presença era diferente, agora, mais quieta do que em qualquer outro momento desse dia, como se soubesse o que eu tinha decidido, como se estivesse à espera que eu terminasse. Assim, coloquei a saco de volta no túmulo, no mesmo lugar onde estava e da mesma forma que tinha encontrado, e fiquei parado, olhando para aquele saco branco ali dentro e pensei em algo que não tinha pensado antes.
Eu estava a devolver aquilo para o túmulo, mas o túmulo ia ser libertado. Era para isso que a esumação tinha sido pedida. O Nelson ia ser transferido para o ossário como mandava a ordem de serviço. E a sacola ia ficar algum dia, aquele túmulo ia ser aberto novamente por outro serviço de rotina que algum coveiro ia apanhar sem reconhecer o nome na ficha.
Outro homem ou outra mulher que ia abrir aquilo sem saber o que estava guardado lá dentro. Eu estava a passar a decisão para a frente, não estava a resolver, estava adiando, colocando nas mãos de alguém que ainda não existia naquele corredor da ALAC naquela manhã de Agosto de 2001. Fiquei a pensar nisso por alguns segundos.
As minhas mãos estavam firmes agora e a cabeça estava quieta de um jeito diferente do que tinha estado a manhã inteira. Não era paz, era o silêncio de quem tomou uma decisão e sabe que já não tem como voltar atrás. Fiz o procedimento correto de transferência para o ossário, como enviava a ordem de serviço, cada passo ao ritmo de sempre e com o cuidado e respeito que este tipo de serviço exige.
E à medida que ia terminando, sentia os sinais a ir embora. Mas não de uma vez, devagar. A pressão que estava presente desde que tinha entrado naquela ala foi levantando aos poucos. A temperatura foi voltando ao normal. Os arrepios foram parando um a um. O zumbido foi diminuindo até desaparecer.
Os sussurros foram ficando mais baixos. Até que eu não conseguia mais ter a certeza se estava ouvir alguma coisa ou se era só o silêncio do cemitério. Quando eu terminei o serviço e fiz o registo na ficha, o corredor estava quieto, sossegado da forma que eu conhecia. Então peguei as ferramentas, coloquei-as na carriola e Olhei para aquele túmulo uma última vez e fui-me embora sem olhar para trás.
O resto daquele dia passou de uma forma estranho. O cemitério continuou. Outros serviços foram aparecendo como aparecem todos os dias. Fui fazendo o corpo no automático enquanto a cabeça estava em outro lugar. Cheguei a casa no fim da tarde e a minha esposa perguntou como tinha sido o dia. Eu disse que tinha sido normal.
Ela olhou para mim de um jeito que me fez perceber que o meu rosto não estava a dizer a mesma coisa que a minha boca. Mas ela não perguntou mais nada. Jantei, tomei um banho e deitei-me, mas estava sem sono. Fiquei na cama, a olhar para o teto com duas questões que não saíam. Tudo aquilo era verdade. E se for verdade? Eu fiz a coisa certa.
Até hoje não sei responder a nenhuma das duas. Tem dias que eu acho que sim, que sem prova não tinha nada que fazer, que entregar aquelas folhas iam destruir uma família por causa da certeza de um filho que não tinha como ser confirmada, que fiz o que qualquer pessoa sensata teria. Yeah.