O COVEIRO REVELA O QUE VIU NAQUELE TÚMULO… O QUE ACONTECEU COM A IMAGEM ASSOMBROU O CEMITÉRIO

O COVEIRO REVELA O QUE VIU NAQUELE TÚMULO… O QUE ACONTECEU COM A IMAGEM ASSOMBROU O CEMITÉRIO

No cemitério do Bom Fim em Belo Horizonte existe uma arquitetura que mistura a beleza da arte sacra com o peso do silêncio eterno. E quem caminha por aquelas alamedas de paralelepípedos sente que está a andar dentro de um livro de história feito de pedra e saudade. Eu trabalho lá como coveiro e jardineiro há 18 anos, a cuidar da manutenção dos jazigos das famílias tradicionais mineiras que construíram verdadeiros palácios para os seus mortos.

 O meu nome é Thiago Mendes, mas todos me tratam por Tiaguinho. Tenho 45 anos e sempre me orgulhei de não ter medo de assombração, porque o meu pai me ensinou que o respeito é a melhor proteção contra o desconhecido. Eu cumprimentava sempre as estátuas e pedia licença antes de pisar a relva dos túmulos. E esta rotina tranquila funcionou bem até à semana passada, quando o tempo fechou e uma tempestade de verão transformou o cemitério num cenário de pesadelo que me fez questionar tudo o que sabia sobre a fronteira entre a vida e a morte.

 O centro do meu tormento é um túmulo específico feito de mármore rosa importado, onde repousa o corpo de uma mulher de nome Helena, que morreu em 1930. A característica mais marcante deste jazigo não é a escultura de bronze e nem as letras douradas, mas sim a foto de porcelana oval que se encontra na cabeceira.

 A foto mostra Helena, jovem e bonita, com um sorriso sereno e acolhedor, que parecia iluminar aquele canto sombrio da quadra nove. Eu passava por ali todos os dias e sentia uma paz estranha ao olhar para aquele sorriso. Mas ontem, durante o auge da chuva, vi o impossível acontecer diante dos meus olhos.

 A foto já não estava a sorrir. A expressão de porcelana tinha-se contorcido num choro de profundo desespero e o rosto da mulher bonita tinha-se transformado numa máscara de agonia que implorava por socorro. A história da dona Helena é conhecida por quase todos os funcionários antigos do Bom Fim e é contada como uma tragédia romântica que arranca suspiros às visitantes mais sensíveis.

Dizem os registos e a boca do povo que era esposa de um barão do café ou de um industrial rico e que o casamento deles era perfeito até ao momento em que engravidou do primeiro filho. A gravidez foi difícil e o parto foi uma sentença de morte. Em 1930, a medicina não tinha os recursos de hoje e Helena faleceu na cama de parto, levando consigo o bebé, que nem chegou a chorar.

O marido enlouqueceu de dor e mandou construir aquele mausoléu de mármore rosa que era a sua cor preferida para abrigar os dois amores da sua vida. Ele encomendou a foto de porcelana na Europa utilizando um retrato pintado, onde ela parecia estar num momento de felicidade absoluta. Durante décadas, aquele túmulo foi um ponto de referência de beleza e tristeza, e as pessoas deixavam flores brancas para a mãe e pequenos brinquedos para [música] o bebé, que descansava nos braços dela debaixo da terra.

 Eu mesmo já lá deixei algumas rosas quando sobrava de algum outro enterro, porque sentia que ela merecia ser recordada. A a semana passada começou com um calor abafado que pesava nos ombros e fazia o ar tremer acima das lápides, anunciando que viria água grossa. O céu de Belo Horizonte ficou daquela cor de chumbo que assusta até quem está habituado.

 E os trovões começaram a ressonar longe atrás da serra do curral. Eu estava a fazer a ronda final para fechar os portões laterais e garantir que não tinha ficado nenhum visitante perdido ou vândalo escondido. O vento começou a soprar com força, levantando turbilhões de pó e folhas secas que dançavam entre as cruzes. Eu aprecei o passo porque não queria apanhar chuva e porque a eletricidade no ar estava a me deixando com os nervos à flor da pele.

Quando cheguei perto do court nove, eu senti aquele arrepio que me sobe pela nuca. e avisa que está alguém a olhar. Parei e Olhei em volta, mas não tinha ninguém vivo. Os meus olhos foram atraídos para o túmulo de mármore rosa da dona Helena. A primeira coisa que notei foi que as flores que alguém lá tinha deixado de manhã estavam murchas e negras, como se tivessem sido queimadas por um fogo invisível ou sugadas até à última gota de vida.

 Achei estranho porque as flores não morrem tão depressa, nem com sol forte. Aproximei-me para recolher os restos e deitar no lixo. Enquanto eu me baixava-se para apanhar os talos secos, eu Olhei para a foto de porcelana, como sempre o fiz, para dar o meu boa tarde silencioso. Mas a saudação travou-se na minha garganta. A foto estava diferente.

Não era uma diferença evidente. No início era algo subtil na expressão dos olhos dela. O brilho de felicidade que sempre esteve lá parecia ter desaparecido, dando lugar a um olhar fosco e preocupado. E o sorriso, os lábios que sempre estiveram curvados para cima num gesto leve, pareciam estar direitos, tensos.

 Eu Esfreguei os olhos, pensando que era o cansaço ou o jogo de luz e sombra das nuvens carregadas que corriam no céu. Quando voltei a olhar para a foto, parecia normal. Eu disse para mim mesmo que estava a ficar velho e impressionável e terminei o serviço rápido para sair dali.

 Mas a sensação de que algo estava errado não passou. Fui para casa com aquela imagem na cabeça e sonhei com o túmulo toda a noite. No meu sonho, eu ouvi alguém a arranhar a pedra pelo lado de dentro e uma voz de mulher a cantar uma canção de embalar que desafinava e transformava-se num gemido. Acordei suado e com o coração disparado.

 No dia seguinte, o tempo estava ainda pior. A chuva caía sem parar uma chuva miudinha e gelada que encharcava tudo e deixava o cemitério com um aspecto abandonado e triste. Eu fui trabalhar com uma capa de chuva amarela e botas de borracha, sentindo que o dia seria longo. Tivemos dois enterros de manhã e fiquei ocupado abrindo e fechando cova na lama, o que distraiu-me dos meus pensamentos sombrios.

 Mas à tarde o movimento parou e fiquei sozinho na guarita a ouvir o barulho da chuva no telhado. Por volta das 16 horas, a chuva engrossou e tornou-se um temporal com relâmpagos e trovões que faziam as janelas da administração tremerem. A luz do dia diminuiu tanto que parecia noite. Eu lembrei-me que tinha deixado uma ferramenta a pá de ponta quadrada perto da quadra no dia anterior porque saí a correr da chuva.

 Eu precisava de ir buscar a ferramenta porque o chefe é chato com o material e se desaparecesse teria que pagar. Respirei fundo, vesti o capuz da capa e saí na tempestade. A água caía com tanta força que doía nas costas e a visibilidade era péssima. Eu caminhava entre os túmulos, desviando-se das poças de lama e sentindo o cheiro a terra molhada e preste-se.

Quando cheguei ao court nove, o cenário era desolador. A água escorria pelas alamedas, transformando os caminhos em rios barrentos. Avistei o túmulo da dona Helena e vi o minha pá encostada à lateral do jazigo. Fui até lá e peguei na ferramenta. Eu ia dar meia volta e correr para o abrigo, mas um clarão de relâmpago iluminou o cemitério inteiro com uma luz branca e cegante, seguida imediatamente de um trovão que parecia uma explosão de dinamite.

 O clarão iluminou a foto de porcelana na cabeceira do túmulo e naquela fracção de segundo de luz intensa, eu vi, eu vi e o meu sangue congelou nas veias, fazendo-me esquecer da chuva e do frio. A foto tinha mudado, não era impressão e não era jogo de luz. A porcelana, que é um material duro e frio [música] e que deveria ser imutável, tinha-se alterado fisicamente.

O rosto da dona Helena na imagem não estava mais sorridente. A boca dela estava aberta num rictos de pavor e dor, os cantos dos lábios puxados para baixo numa expressão de choro convulsivo. Os olhos dela estavam arregalados e pareciam olhar para baixo, para a terra que lhe cobria o corpo, com um desespero que nenhuma pintura poderia imitar.

 E o mais aterrador era que o rosto dela parecia molhado não pela chuva que caía fora, mas por lágrimas que escorriam de dentro da imagem, manchando a bochecha pálida da foto. Eu Fiquei ali parado à chuva, com a pá na mão, incapaz de se mexer. A minha mente racional tentava dizer que a porcelana tinha derretido ou que a tinta tinha escorrido, mas eu sabia que tinta de 70 anos não escorre.

 Aquilo era sobrenatural. Era a alma daquela mulher manifestando-se através da única imagem que dela restava no mundo. Eu me aproximei-me lentamente, tremendo mais de medo do que de frio. Eu precisava de ver de perto. Eu precisava de ter a certeza de que não estava louco. Cheguei a um palmo de distância da foto.

 A expressão de dor era tão real que quase conseguia sentir a angústia emanando da pedra. As rugas de preocupação na testa dela, que nunca existiram antes, agora estavam lá marcadas na cerâmica. Foi então que o segundo horror aconteceu. O vento parou por um instante e o barulho da chuva diminuiu como se a tempestade tivesse feito uma pausa para eu ouvir o que vinha a seguir.

 Do meio do silêncio repentino, ouvi um som. Não vinha da rua e não vinha das árvores. Vinha de baixo. Vinha de dentro do mármore rosa. Era um som abafado e fraco, mas inconfundível para quem tem ouvidos atentos. Era o choro de um bebé. Um choro agudo e engasgado como de uma criança recém-nascida, que está a perder o fôlego e a lutar para respirar.

 O som atravessava a pedra grossa e a terra pesada e chegava até mim como um lamento vindo do inferno. Eu larguei a pá no chão e recuei com as mãos na cabeça. O choro continuava. Era um som de fome, de frio, de medo. Eu olhei para a foto da dona Helena e compreendi o motivo da alteração de expressão.

 Ela não estava chorando por ela. Ela estava a chorar porque ouvia o filho. Ela estava a ouvir o bebé chorar lá em baixo e não podia fazer nada presa naquela moldura de vidro e pedra. O desespero nos olhos da foto era o desespero de uma mãe que ouve o filho sofrer na escuridão eterna. Aquilo atingiu-me com uma violência emocional que não esperava.

 Eu sou pai e sei que não há som pior no mundo do que o choro de um filho em perigo. Comecei a andar em volta do túmulo, procurando alguma explicação racional. Talvez um gato tivesse caído em algum buraco ou algum cano estivesse a verter e fazendo barulho. Mas o túmulo era selado. Não havia fendas. O mármore era maciço.

 Colei o ouvido na lateral fria da pedra, ignorando a água que me escorria pelo rosto. O choro ficou mais nítido. Vinha lá do fundo da gaveta, onde os caixões estavam depositados. E, juntamente com o choro, eu ouvi outro som. Um som de arranhar, unhas pequenas a arranhar madeira pelo lado de dentro. O pânico tomou conta de mim.

 Levantei-me e olhei para a foto de novo. Agora, para além da expressão de choro, parecia que a imagem dela estava tentando gritar. A boca parecia abrir-se mais, tentando romper a superfície do vidro para pedir ajuda. Eu senti uma tonturas fortes e tive que me apoiar na estátua de bronze para não cair na lama. A realidade estava a desfazer-se.

 O que estava ali a acontecer desafiava todas as as leis de Deus e dos homens. Bebês mortos há 90 anos não choram. Ossos não arranham madeira. Corri para a administração tropeçando nos meus próprios pés. Eu estava pálido e ofegante. Encontrei o vigia da noite, o o senhor Geraldo, que estava a chegar para o turno.

 Perguntou-me se eu tinha visto assombração. Agarrei o braço dele e disse que precisávamos de abrir o túmulo da dona Helena. Ele riu-se e disse que estava bêbado ou doido. Disse que não se abre um túmulo sem ordem judicial e sem a família. Eu tentei explicar o que vi e ouvi. Falei da foto a chorar e do bebé a gritar.

 Ele ficou sério e deu-me olhou com pena. Disse que o cemitério mexe com a cabeça da gente em dia de chuva e mandou-me ir para casa descansar e tomar um chá. Eu sabia que ele não ia acreditar. Ninguém ia acreditar, mas eu não podia ir para casa. Eu não podia deixar aquela criança ali a chorar embaixo. Mesmo que fosse um fantasma ou uma memória presa na pedra, o sofrimento era real.

 Eu voltei para a guarita e fiquei ali à espera que o seu Geraldo saísse para a ronda do lado oposto. Eu tinha um plano, um plano perigoso e ilegal que podia custar-me o emprego e a liberdade, mas não tive escolha. A expressão na foto da dona Helena não me deixava escolha. Esperei que a noite caísse de vez. A chuva continuava forte, o que era bom, porque abafava qualquer ruído que eu fizesse.

 Peguei na pá, na picareta e numa lanterna potente. Fui para a quadra nove, sentindo-me um criminoso profanador de túmulos. Quando cheguei aí, a lanterna iluminou o rosto da [música] dona Helena. Ela ainda estava a chorar na foto e o choro do bebé ainda estava ali agora mais fraco e rouco, como se as forças dele estivessem a acabar. Pedi perdão a Deus e a ela e comecei a quebrar o cimento que selava a tampa de mármore do jazigo.

 O trabalho foi duro. O cimento era antigo e resistente. Eu batia com a picareta e as faíscas voavam. Doíam-me os braços e as mãos sangravam, mas eu não parava. A cada batida, ouvia o choro lá de baixo responder. Parecia que o bebé sabia que eu estava a chegar. Parecia que ele estava à espera por isso há quase um século.

 Consegui quebrar o selo e Espetei a alavanca de ferro sob a pedra pesada. Fiz força utilizando todo o peso do o meu corpo. A pedra moveu-se, rangeu e deslizou para o lado, revelando a escada escura que descia para a câmara subterrânea. O cheiro que subiu de lá não era o cheiro da podridão [música] que eu esperava.

 Era um cheiro a ar viciado e seco misturado com um ligeiro perfume [música] de alfazema antiga. Apontei a lanterna para o buraco. Os degraus estavam cheios de pó e teias de aranha. Desci lentamente, sentindo o coração a bater na garganta. A câmara era pequena, com espaço para dois caixões nas prateleiras laterais. De um lado estava o caixão do marido, que morreu anos depois.

 Do outro estava o caixão da dona Helena. Era um caixão de madeira nobre, talhada com anjos e flores, mas a madeira estava escura pelo tempo. O choro vinha de dentro daquele caixão. Agora que estava ali ao lado, o som era nítido e aterrador. Não era eco, era físico. O caixão vibrava ligeiramente com o esforço do choro. Aproximei-me e vi.

 A tampa do caixão não estava pregada com força. Os pregos estavam frouxos, levantados, como se tivessem sido empurrados de dentro para fora ao longo dos anos. Coloquei a mão na madeira fria. O choro parou no mesmo instante. Um silêncio absoluto tomou conta do lugar. Eu sabia que tinha chegado ao ponto de não retorno. Se eu abrisse aquele caixão, veria algo que mudaria a minha vida para sempre.

 Se eu não abrisse, eu carregaria a culpa de ter virado as costas para um pedido de socorro. Respirei fundo, segurei a tampa com as duas mãos e levantei. A madeira rangeu protestando contra a violação. A tampa era pesada, mas a adrenalina me deu força. Levantei e empurrei para o lado, deixando a luz da lanterna iluminar o interior.

 O que eu vi me fez cair sentado no chão de terra batida da câmara, recuando até bater as costas na parede oposta. O esqueleto da dona Helena estava lá vestido com restos de um vestido de seda que tinha apodrecido. Os ossos estavam brancos e secos, mas a posição do esqueleto não era de descanso. Ela não estava com as mãos cruzadas sobre o peito, como é o costume.

 O esqueleto estava virado de lado, encolhido numa posição fetal desesperada, e os braços de ossos estavam abraçados a algo. No meio dos braços dela, junto às costelas, havia um outro esqueleto, um esqueleto minúsculo de um bebê. Mas o crânio do bebê não estava virado para cima. O crânio estava virado para o lado da mãe, como se estivesse mamando.

 E o mais horrível, o detalhe que me fez querer vomitar de terror, não foram os ossos, foi o fato de que o esqueleto do bebê estava segurando algo na mãozinha de osso. Ele segurava um chocalho de prata. Um chocalho de prata que estava brilhando e limpo como se tivesse sido polido ontem. E então o chocalho se mexeu.

 A mãozinha de osso tremeu e balançou o brinquedo. O som metálico e argentino ecuou na câmara funerária. O crânio do bebê girou lentamente na minha direção. As órbitas vazias me encararam e eu ouvi a voz. Não era choro mais. Era uma voz de criança pequena, uma voz que nunca deveria ter aprendido a falar. A voz disse: “Mamãe acordou, agora a gente pode sair?” Eu gritei um grito que rasgou a minha garganta e tentei subir as escadas rastejando e tropeçando.

 Eu queria sair daquele buraco, eu queria sair daquele cemitério, [música] eu queria sair daquela realidade. Mas enquanto eu subia, eu vi a luz da lanterna iluminar o rosto da dona Helena. Não o rosto do esqueleto, mas o rosto da foto lá em cima que eu conseguia ver pelo ângulo da abertura. A foto estava me olhando e ela não estava mais chorando.

 Ela estava sorrindo, mas não era o sorriso sereno de antes. Era um sorriso largo, exagerado e insano de gratidão. Saí para a chuva e tentei empurrar a pedra de volta, mas minhas forças tinham acabado. Eu corri para a guarita, tranquei a porta e fiquei encolhido num canto, rezando até o dia amanhecer. Eu sabia que tinha feito algo terrível.

 Eu tinha atendido ao chamado, eu tinha aberto a porta e agora eles não queriam apenas sair do caixão, eles queriam sair do cemitério. [música] E eu, o coveiro curioso, tinha acabado de dar a permissão que eles esperavam há 90 anos. Passei o resto daquela madrugada encolhido no canto da guarita com a luz acesa e os olhos fixos na porta trancada, esperando que a qualquer momento a maçaneta girasse e algo pequeno e terrível entrasse para terminar a conversa que tinha começado na cova aberta.

 Eu não dormi nem por um segundo, porque o som daquela voz infantil ecoava na minha cabeça com mais força do que os trovões da tempestade que castigava Belo Horizonte lá fora. Quando o céu começou a clarear num tom de cinza pálido e a chuva diminuiu para uma garoa fina, eu sabia que tinha uma obrigação urgente a cumprir antes que os outros funcionários chegassem.

 Eu tinha deixado o túmulo da dona Helena aberto com a tampa de mármore deslocada e a intimidade da morte exposta ao tempo. Se alguém visse aquilo, eu seria preso por profanação e perderia o único sustento da minha família. Juntei os cacos da minha coragem e saí da guarita caminhando na lama fria em direção à quadra nove.

 O cemitério ao amanhecer tem uma neblina baixa que cobre os pés da gente e faz parecer que estamos andando sobre as nuvens. Mas naquela manhã, a neblina parecia esconder armadilhas. Cheguei ao jazigo com o coração na boca, esperando encontrar os esqueletos fora do caixão ou a foto gritando novamente. Mas o que encontrei foi um silêncio pesado e imóvel.

 A tampa de pedra continuava afastada e o buraco negro da entrada continuava lá como uma ferida na terra. Aproximei-me da abertura [música] e apontei a lanterna para baixo com a mão trêmula. Os caixões estavam lá na penumbra. A tampa do caixão da dona Helena, que eu tinha deixado aberta continuava do mesmo jeito. Eu precisei descer.

 Eu tinha que descer para fechar o caixão e selar aquela história. Desci os degraus de pedra, prendendo a respiração para não sentir o cheiro de flores velhas. Quando cheguei ao lado do caixão, eu vi que os esqueletos estavam na mesma posição, abraçados no desespero eterno de mãe e filho. [música] Mas havia uma diferença.

A mãozinha de osso do bebê estava. O chocalho de prata tinha sumido. Procurei pelo chão de terra batida, achando que tinha caído quando o esqueleto se mexeu na minha visão ou alucinação da noite anterior. Não estava lá. Vasculhei os cantos da câmara funerária, iluminando cada teia de aranha. Nada.

 O objeto tinha desaparecido. Um frio intenso subiu pelas minhas pernas. Eu não tinha pegado aquilo e não tinha entrado ninguém ali além de mim e da tempestade. Tentei me convencer de que o chocalho nunca existiu e que foi fruto da minha mente cansada e apavorada. Fechei a tampa do caixão de madeira com cuidado, pedindo licença e perdão mais uma vez.

 Subi as escadas e usei a alavanca de ferro para empurrar a tampa de mármore de volta para o lugar. O esforço fez meus músculos doerem e reabriu os cortes nas minhas mãos, mas consegui fechar. Usei um resto de cimento que guardávamos no depósito para refazer o lacre de forma grosseira e joguei terra e folhas por cima para disfarçar a obra recente.

 Quando terminei, eu estava exausto e sujo, mas o túmulo parecia fechado. Foi quando eu me virei para pegar a pá que eu vi. O chocalho de prata estava em cima da grama molhada, bem ao lado da estátua do anjo de bronze. Ele brilhava limpo e polido, refletindo a luz fraca da manhã. Ele não estava sujo de terra e nem oxidado pelo tempo.

 Parecia que tinha acabado de ser colocado ali por mãos cuidadosas. Eu fiquei olhando [música] para o objeto, sentindo que ele era uma prova física, de que a minha loucura era real. Eles tinham tirado o brinquedo de dentro do caixão, ou pior, eles tinham me dado o brinquedo. Eu não tive coragem de tocar naquilo.

 Deixei o chocalho lá brilhando na grama e fui embora para o vestiário me lavar. Durante o dia, eu trabalhei como um robô, evitando olhar para a quadra nove e tentando agir normalmente com os colegas. Mas a minha mente estava trabalhando freneticamente, tentando entender a verdade por trás daquela tragédia.

 Eu precisava saber se o bebê tinha sido enterrado vivo ou se aquilo era apenas uma manifestação de culpa do [música] marido. Na hora do almoço, aproveitei que a secretária da administração tinha saído e entrei no Arquivo Morto do Cemitério. Eu sabia onde ficavam os livros antigos de registro de sepultamento de 1930. Eram livros grandes de capa de couro preta com folhas amareladas e escritas à mão com caneta tinteiro.

 Procurei pela data e pelo nome da família. Encontrei o registro do enterro da Helena e do filho recém-nascido. A caligrafia era elegante e cheia de floreios, mas o que estava escrito nas observações me deu a resposta que eu temia. Havia uma nota de rodapé escrita com uma tinta diferente, talvez adicionada dias depois pelo administrador da época.

 A nota dizia que o médico da família tinha expressado dúvidas sobre o óbito da criança momentos antes do fechamento da urna, mas que o pai, transtornado pela dor da perda da esposa, ordenou que o sepultamento prosseguisse imediatamente para que mãe e filho não fossem separados. Li aquilo e senti um enjoo profundo.

 Não foi um erro médico comum, foi um erro causado pela loucura do luto. O pai, na ânsia de manter a família unida na morte, acabou condenando o filho a acordar na escuridão ao lado do corpo da mãe. E a mãe, talvez num estado de catalepsia ou coma, também tenha acordado. Eles morreram juntos, sufocados e desesperados, arranhando a madeira e rezando por um socorro que nunca veio.

Fechei o livro com as mãos suando. Agora eu entendia a mudança na foto. A tempestade, a pressão atmosférica, a data específica, tudo isso deve ter criado uma brecha que permitiu que a agonia deles vazasse para o nosso mundo. A foto chorando não era um aviso, era um reflexo do que estava acontecendo lá embaixo naquele momento, em um ciclo de tempo que se repetia.

 E eu tinha ouvido, eu tinha atendido e agora eles sabiam que eu sabia. Voltei para o trabalho com a sensação de estar sendo observado o tempo todo. Quando o fim da tarde chegou, eu sabia que tinha que voltar lá. Eu não podia deixar o chocalho na grama para qualquer um pegar. Aquele objeto pertencia ao túmulo e era perigoso.

 Caminhei até a quadra nove, com o sol se pondo. O chocalho ainda estava lá. Ninguém tinha mexido. Mas agora havia algo mais. Ao lado do chocalho havia uma flor, uma única rosa branca fresca e viva sem espinhos. Eu não tinha colocado aquela rosa e não havia rosezeiras por perto. A flor tinha aparecido do nada. Eu me aproximei e olhei para a foto de porcelana na lápide. O coração bateu forte no peito.

A dona Helena estava sorrindo de novo. A expressão de dor e choro tinha desaparecido completamente. O rosto dela estava sereno, iluminado e feliz, como sempre foi. Mas havia uma diferença sutil no olhar. Os olhos dela na foto já não pareciam olhar para o horizonte ou para o nada. Eles pareciam olhar diretamente para mim.

 E o sorriso parecia um sorriso de cumlicidade, um sorriso de quem partilha um segredo. Eu percebi o recado. Ao abrir o túmulo e testemunhar a sua dor, eu tinha de alguma forma validado o sofrimento. Eu tinha partido o isolamento. Eles já não estavam sozinhos na escuridão, porque agora existia um vivo que sabia a verdade.

 E o chocalho do lado de fora era um convite ou uma oferenda de paz. Peguei no chocalho com um pano para não tocar diretamente no metal. Ele era pesado e frio. Coloquei o objeto em cima da base de mármore perto da foto e depois tomei uma decisão que mudaria a minha rotina para sempre. Eu fui até ao depósito de materiais recicláveis do cemitério, onde as famílias deitam fora as coisas velhas dos túmulos, e procurei brinquedos.

Encontrei um carrinho de plástico antigo e uma boneca pequena. Voltei ao túmulo e coloquei os brinquedos ao lado do chocalho. Eu falei em voz alta, mesmo sabendo que podia parecer loucura. Eu disse ao bebé que podia brincar. Disse à dona Helena que eu cuidaria deles. Disse que enquanto eu estivesse ali a trabalhar, não seriam esquecidos.

 No momento em que terminei de falar, senti uma brisa morna passar pelo meu rosto transportando o cheiro de talco de bebé e perfume de lavanda. A sensação de angústia desapareceu. O peso no peito desapareceu. O cemitério parecia mais leve. Desde esse dia, a minha relação com a quadra nove mudou. Eu tornei-me o guardião não oficial do túmulo da dona Helena e do seu filho.

 Todos os dias passo lá para limpar e conversar. E coisas estranhas acontecem, mas já não são coisas más. Às vezes chego de manhã e os brinquedos estão em posições diferentes, como se alguém tivesse brincado com eles durante a noite. O chocalho de prata por vezes aparece na outra ponta da lápide. Outros coveiros têm medo de passar por ali porque dizem que ouvem risos de criança e barulho de metal a bater em pedra.

 [música] Dizem que a foto da mulher pisca para eles. Eu digo que é impressão e mando-os seguir o trabalho. Eu protejo o segredo, mas o vínculo tem um preço. Percebi que não consigo mais manter-se longe do cemitério por muito tempo. Nas minhas férias, senti uma tristeza profunda, uma falta de ar que só passou quando vim visitar o túmulo. Eu estou ligado a eles.

 A dona A Helena adotou-me como o protetor do sono do filho dela. E é uma mãe ciumenta. Uma vez um vândalo tentou roubar o chocalho de prata [música] para vender. Saltou o muro à noite. No dia seguinte, encontrámo-lo desmaiado e em estado de choque, agarrado às grades do portão. Ele contava uma história desconexa de que uma mulher saiu da foto e segurou-lhe o braço com força de ferro enquanto um bebé mordia os dedos dele.

 O braço dele estava cheio de hematomas roxos e marcas de dentes minúsculos. O chocalho estava no lugar dele intacto. Eu sei que um dia vou morrer e vou deixar de ser o coveiro. E essa é a minha maior preocupação. Quem vai cuidar deles quando eu me for embora? Quem entenderá que a foto [música] muda de expressão quando estão tristes? Eu estou a tentar treinar um rapaz novo, o Lucas, que parece ter um bom coração e respeito pelos mortos, mas não sei se ele vai ter a coragem de aceitar o pacto.

 Por enquanto, eu Continuo aqui. Thiago Mendes, o Tiaguinho, o homem que viu a morte chorar e que a fez sorrir de novo com um carrinho de plástico. Se vier ao cemitério do Bomfim e passar pela quadra nove, pode olhar o túmulo de mármore rosa. É bonito. E se ouvir um barulho de chocalho, não se assuste. É só o menino a brincar.

 E se a mulher da foto olhar para si, não corra. Apenas faça uma vénia e peça licença, porque ali já uma família que demorou 90 anos para encontrar alguém que ouvisse o choro deles. E não gostam de gente mal educada. E nunca, jamais tente tocar nos brinquedos, porque o que é dado aos mortos pertence aos mortos. E a dona A Helena tem mãos muito fortes para uma [música] mulher de porcelana.

 

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

Recommended for You

View Archive arrow_forward