O QUE VI NO ENTERRO EM 1982… MARCOU O CEMITÉRIO PARA SEMPRE | Historia de Terror Real

O QUE VI NO ENTERRO EM 1982… MARCOU O CEMITÉRIO PARA SEMPRE | Historia de Terror Real

O meu nome é Benedito Rodrigues, tenho 82 anos e trabalhei como coveiro [música] durante 43 anos no cemitério municipal de Santa Cruz de Apucarana, aqui no Paraná, até aposentar-me em 2008. Mas há um dia que aconteceu em outubro de 1982, quando tinha 39 anos, que mudou para sempre a forma como via o meu trabalho.

Naquela tarde chuvosa, enterrámos um jovem de 26 anos, cuja família chegou embriagada e transformou a cerimónia em violenta luta por dinheiro e dívidas. E quando todos se foram embora, e eu fiquei sozinho, reparando os caminhos de pedra até escurecer completamente, vi entre os túmulos mais antigos uma mulher parada a observar-me, vestida com roupa de época, que quando me aproximei revelou rosto sem olhos, apenas cavidades vazias [música] e pele esbranquiçada como gesso molhado, exalando cheiro a flores podres

misturado com terra húmida. Foi o meu avô curandeiro quem me ensinou desde criança que os mortos esquecidos ficam presos à espera que alguém se lembre [música] deles. E nessa noite soube que ele estava certo quando acendi 23 velas nos túmulos abandonados enquanto [a música] rezava e sentia a presença finalmente acalmar.

Mas as manifestações no cemitério continuaram durante anos até eu entender que o meu trabalho não era apenas enterrar corpos, mas honrar cada alma e garantir que ninguém fosse esquecido. Nasci em Apucarana em 1943, [música] em plena Segunda Guerra Mundial. Meu pai, o senhor João Rodrigues, era carpinteiro.

 Trabalhava a fazer móveis, caixões, portas, janelas. Tudo o que envolvesse [música] madeira. A minha mãe, dona Maria, costurava para fora, [música] fazia roupa para as famílias da cidade. Éramos cinco irmãos, eu, o segundo mais velho. Crescemos numa casa pequena de madeira no bairro de Vila Nova, na periferia da cidade. A vida era difícil, mas não faltava [música] o básico.

 Comida sempre teve, roupa sempre tinha, mas o dinheiro era curto, muito curto. O meu pai acordava antes do sol nascer e regressava quando já estava escuro. As mãos dele [música] eram grossas, cheias de calos, sempre com cheiro a madeira e verniz. A minha mãe passava os dias na máquina de costura [canto] antiga que fazia barulho ritmado que embalava a casa.

 Estudei até à quarta classe, não porque não quisesse continuar, mas porque precisava trabalhar. Aos 11 anos já ajudava o meu pai na carpintaria. Aos 13 [música] já trabalhava de verdade, carregando madeira, lixar peças, aprender o ofício. Mas havia alguém na minha vida que me ensinava coisas que a escola nenhuma ensinava.

 O meu avô paterno, seu Sebastião Rodrigues. O meu avô era curandeiro. Conhecia ervas, conhecia rezas, conhecia segredos que passavam de geração em geração. As pessoas vinham de longe para serem curadas por ele. Dor de cabeça, dores nas costas, mau-olhado, quebranto. Ele curava tudo com ervas, com rezas, com bens e mentos.

 Eu passava horas com ele desde muito pequeno. Ele levava-me para o mato, mostrava-me as plantas, ensinava-me quais serviam para quê, ensinava-me as rezas antigas. Mas a lição mais importante que [a música] o meu avô me deu foi sobre os mortos. Ele dizia sempre: “Benedito, os vivos precisam dos mortos tanto como os mortos precisam dos vivos.

 Os mortos precisam de ser lembrados, precisam de flores, precisam de velas, precisam de orações. Se ninguém se lembra deles, [música] ficam presos, ficam deambulando, ficam a sofrer e aí começam a chamar a atenção da forma que conseguem. Eu ouvia aquilo quando era criança e acreditava. Não tinha motivo para duvidar.

 [música] O meu avô nunca me mentiu. Ele me ensinou rezas específicas. Rezas para os mortos, rezas para acalmar as almas inquietas. Ensinou-me como acender velas, como posicioná-las, como falar com os mortos de forma respeitosa. Tudo isso ficou guardado dentro de mim, aguardando o momento de ser utilizado. Aos 22 anos, casei com a Lourdes, uma rapariga do bairro que conhecia desde criança.

 Ela trabalhava como empregada doméstica em casas de família. Tivemos quatro filhos, três rapazes e uma rapariga. Eu precisava de trabalho melhor. A carpintaria do meu pai [música] não rendia o suficiente para duas famílias. Foi quando em 1965 apareceu a vaga de coveiro no cemitério municipal Santa Cruz.

 Não era trabalho que sonhava fazer. Ninguém sonha em ser coveiro, mas era trabalho honesto, salário fixo, contrato assinado. Fui fazer a entrevista. O administrador, o seu Valdomiro, um homem sério, com cerca de 50 anos, [música] perguntou-me apenas: “Tens problema em trabalhar com a morte?” “Não, senhor”, respondi: “Pode começar segunda-feira”. E foi assim.

 Comecei no no dia 3 de maio de 1965. O cemitério municipal de Santa Cruz foi inaugurado [música] em 1928. Já tinha quase 40 anos quando comecei a trabalhar lá. Era um cemitério grande, ocupava uma enorme área na zona norte da cidade. Tinha setores antigos com [música] túmulos dos anos 30, tinha mausoléus de mármore, de famílias tradicionais e tinha o setor D, a área dos indigentes, das pessoas sem família.

dos esquecidos. Fui treinado pelo seu Moacir, coveiro veterano de 60 anos, que trabalhava ali 35. Homem magro, curvado, com mãos enormes. Ensinou-me tudo. Como medir a sepultura, como cavar, [música] respeitando a profundidade, como utilizar as cordas, como compactar a terra, como fazer o trabalho com dignidade.

O senhor Moassir era um homem silencioso, falava pouco, mas quando falava eram palavras importantes. Dizia: “Benedito, este o trabalho não é só manual, é espiritual também. Está a cuidar dos mortos [música] e os mortos merecem o mesmo respeito que os vivos. Nunca se esqueça disso. Eu levei aquilo a sério. Durante 43 anos.

Trabalhei com respeito, com dignidade, com cuidado. Trabalhei ali durante décadas, vi muita coisa, muita tristeza, mães a chorar sobre caixões de filhos. Maridos viúvos que não conseguiam [música] ficar de pé, crianças órfãs, que não compreendiam, velórios vazios, velórios lotados. Cada enterro era uma história, uma vida que terminou, pessoas que ficaram a sofrer, mas em todos estes anos nunca tinha visto nada que não pudesse ser explicado.

 Cemitério era apenas cemitério, lugar silencioso, tranquilo, onde a gente enterrava os mortos e descansavam até outubro de 1982, [música] até àquela tarde chuvosa, até àquela noite. 17 de outubro de 1982, domingo. Lembro-me da data exata [música] porque foi um dia que nunca mais saiu da a minha cabeça. Amanheceu a chover.

 Chuva fina, mas constante. Aquela chuva miudinha que molha aos poucos, mas não pára. O céu estava cinzento, pesado. A temperatura estava amena, mas o ar húmido deixava tudo gelado. Cheguei ao cemitério às 7 da manhã, como sempre. Bati o ponto, Vesti a roupa de trabalho, peguei nas ferramentas, verifiquei a lista de enterros.

 tinha três marcados, um às 8:30, outro ao meio-dia e o último às 15h. Domingo era dia de movimento, muita gente a visitar, muita família a vir rezar. O primeiro enterro foi tranquilo, senhora de 72 anos, óbito natural, família numerosa, chorosa, mas serena, enterro demorado por causa da quantidade de pessoas.

 Terminamos lá pelas 10:30. [música] O segundo funeral foi às 12. Homem de 65, também morte natural, família respeitosa, tudo correu bem. Terminei cerca da 1:30 da tarde. Aproveitei para [música] almoçar, tinha trazido marmita de casa, arroz, feijão, um pedaço de carne. Comi na guarita, bebi água, [música] descansei um pouco. A chuva continuava fina, constante, molhando [música] tudo aos poucos.

 Às 2:30 comecei a preparar a terceira sepultura. Era no setor B, área intermediária. Cavei durante meia hora. Estava quase pronto quando ouvi os carros a chegar. Olhei para o relógio. Eram 3 horas. O enterro estava a chegar, mas quando vi a cena soube que ia ser diferente. Carro da agência funerária chegou primeiro.

 [música] Atrás vieram mais três carros, mas via-se, dava para sentir. Tinha algo de errado. As as pessoas desciam dos carros cambaleando, falando alto, rindo, alguns claramente embriagados. O caixão foi retirado do carro funerário. No interior estava um jovem de 26 anos. Não sei o nome completo. Lembro-me apenas que lhe chamavam Juninho.

 Tinha morrido em [música] acidente de moto. Bateu num camião. Morte instantânea. A família era pequena. Mãe, pai, dois irmãos, alguns tios e uns amigos, uns 10, 12 pessoas no total. Mas metade estava embriagada, metade estava cambaleando, falando alto, desrespeitando completamente o momento. O padre chegou. Padre António, homem sério, idoso.

 Olhou para a cena e franziu o sobrolho. Começou a cerimónia tentando manter [a música] a dignidade, mas era impossível. As pessoas conversavam, riam, discutiam. E então começou [música] a briga. Um dos irmãos acusou um tio dever dinheiro ao morto. O tio gritou que era mentira. Os dois começaram a empurrar-se. Outras pessoas tentaram separar, mas depois outros começaram a discutir também sobre dívidas, sobre responsabilidades, [música] sobre a culpa.

 Quem tinha culpa do acidente, quem devia ter cuidado melhor do Juninho? A mãe chorava, gritava para pararem, mas ninguém ouvia. O pai estava [música] demasiado embriagado para fazer qualquer coisa. Apenas ficava parado, olhando para o vazio. O padre tentou continuar, mas não conseguia. A gritaria era demais, os empurrões, os insultos.

 Foi a cerimónia mais desrespeitosa que já tinha presenciado em 17 anos de trabalho. Eu tentava fazer o meu trabalho, segurar as cordas, posicionar o caixão, mas sentia algo estranho, uma pressão no peito, um peso, como se o ar estivesse a ficar mais pesado, mais denso. Olhei em redor, a chuva continuava, mas havia algo diferente, algo no ar, algo que eu [música] não conseguia explicar.

Descemos o caixão, as pessoas continuavam a lutar. O padre benzeu rápido e foi-se embora. Claramente incomodado, claramente a querer sair dali, comecei a tapar a sepultura. A família continuava [música] a lutar ao redor, gritando, praguejando. Alguns já tinham ido embora, outros continuavam [música] ali.

 Demorei quase uma hora para terminar, porque as pessoas não saíam da frente, não me deixavam trabalhar direito. Quando finalmente terminei, eram quase 5 horas da tarde. A família toda tinha ido embora, ainda a lutar, ainda a praguejar, deixando aquele rasto de desrespeito. Fiquei ali parado, a olhar para a sepultura recém-coberta e senti, senti claramente algo tinha ficado, algo tinha sido deixado para trás.

 Não era só o corpo do Juninho, era algo mais, algo que aquele desrespeito todo [música] tinha aberto, algo que não deveria ter sido acordado. Abanei a cabeça, tentei afastar aqueles pensamentos, peguei nas ferramentas, guardei tudo e fui verificar os caminhos de pedra. Os caminhos de pedra do cemitério estavam com problemas há semanas.

Algumas pedras tinham soltado, outras tinham afundado. Era perigoso. Os visitantes podiam tropeçar, cair, se magoar. Eu tinha avisado a administração, mas ninguém tinha vindo consertar. Então, decidi fazer eu. Não era minha obrigação, mas não gostava de deixar as coisas assim. Peguei nas ferramentas necessárias, pá, enchada, algumas pedras extra.

 Comecei a trabalhar. A chuva tinha parado finalmente, mas estava tudo molhado. O chão, as pedras, as árvores, o ar continuava húmido, gelado. Comecei pelos caminhos principais, recolocando as pedras, nivelando, compactando a terra ao redor. Estava tão concentrado [música] no trabalho que não percebi o tempo passar.

 Não me apercebi do sol começar a descer. Não notei o céu ficar mais escuro. Trabalhei em automático, fazendo caminho a caminho, corrigindo pedra por pedra. Foi só quando levantei a cabeça e olhei em redor que me apercebi. Estava escuro, não completamente, mas quase. O céu tinha aquela cor azul escura do crepúsculo. As árvores eram apenas silhuetas.

 O cemitério estava vazio, silencioso, assustadoramente silencioso. Olhei para o relógio, 7h15 da noite. Eu devia ter ido embora às 5, 2 horas atrás. Fiquei ali parado por um momento, apenas olhando em redor. O cemitério de dia era tranquilo, familiar, mas de noite era diferente. As sombras eram mais profundas, [música] os sons eram amplificados.

O silêncio era mais pesado. Decidi terminar logo. Faltavam apenas alguns metros de caminho. Não ia levar mais do que 15 minutos. Voltei a trabalhar, mas agora era [música] diferente. Eu sentia, sentia claramente que sensação de ser observado, aquela sensação de não estar sozinho. Parava de de vez em quando, olhava em redor, nada, apenas as fileiras de túmulos, as cruzes, os anjos de pedra, as sombras, mas a sensação não passava.

 Continuei a trabalhar mais rápido agora, querendo terminar, querendo sair dali. Foi quando ouvi [música] um som baixinho, distante, vindo de algures entre os túmulos. Parei, Fiquei imóvel, escutando. O som veio de novo. Não era vento, não eram folhas, era outra coisa. Pareciam passos, passos lentos, arrastados, vindo na minha direção. Olhei para onde vinha o som.

Era o setor D, a área dos indigentes, dos esquecidos, a área que ficava ao fundo do cemitério, a área que ninguém visitava. E então vi entre os túmulos antigos, entre as cruzes tombadas, entre as lápides partidas, havia alguém, uma figura parada, imóvel, apenas observando, apenas olhando para a minha direção.

 Mesmo com a pouca luz, dava para ver. Era uma mulher que vestia algo comprido, algo branco ou bege. Difícil ter certeza na penumbra. Mulher, chamei. O cemitério está encerrado. A senhora precisa de sair. A minha voz soou estranha no silêncio. Eou entre os túmulos. A figura não respondeu, não se mexeu, apenas continuou ali parada, a observar.

Peguei na lanterna [música] que tinha deixado perto das ferramentas, acendi. Direcionei para onde a figura estava. A luz iluminou os túmulos, as cruzes, as pedras, mas a figura tinha sumido. Olhei em [música] redor com a lanterna, procurando nada, ninguém, apenas o cemitério vazio. Balancei a cabeça, devia ter sido impressão, sombra, cansaço.

 Voltei para o trabalho, mas as mãos tremiam, o coração batia [música] mais rápido. Terminei o último troço do caminho em menos de 5 minutos. Juntei as ferramentas. Estava prestes a ir embora quando senti um frio a chegar detrás de mim. Um frio que não era do ar, era diferente, mais profundo, mais penetrante.

 Virei-me devagar, a lanterna na mão e quase a deixei cair. A mulher estava ali a menos de 3 m de mim, parada, imóvel. E agora, com a luz da lanterna batendo diretamente nela, eu podia ver. E o que vi gelou-me até aos ossos. Ela vestia [música] a roupa de época, vestido comprido, branco, mais sujo, manchado com terra, com bolor, com algo escuro que parecia sangue velho.

 O tecido estava rasgado em alguns locais, esfarrapado, como se tivesse sido usado durante muito tempo, como se tivesse saído de dentro da terra. Mas não era a roupa que me aterrorizava, era o rosto ou o que devia ser o rosto. Ela [música] não tinha olhos. Não eram olhos fechados, não eram olhos vendados, simplesmente não tinha.

Onde deveriam estar os olhos, havia apenas cavidades, orifícios vazios, fundos, escuros, como se alguém tivesse arrancado os olhos e deixado apenas os buracos. E a pele, a pele dela era esbranquiçada, não branca normal, era branco doentio, branco de gesso molhado, branco de coisa morta há muito tempo.

 O cabelo era comprido, preto, mas baço, sem brilho. Caía-lhe sobre os ombros de forma estranha, como se estivesse molhado ou oleoso. E depois veio o cheiro, um cheiro que me invadiu as narinas e quase me fez vomitar. Era cheiro a flores podres, flores que murcharam, que apodreceram, misturado com cheiro a terra húmida, de [música] humidade, de bolor, de morte.

 Dei um passo atrás, depois outro. A lanterna tremia na minha mão. O meu coração batia tão forte que doía. A mulher não se mexeu, apenas ficou ali parada. as cavidades vazias onde deveriam estar os olhos apontadas na minha direção, como se me estivesse a vendo, mesmo sem olhos, como se estivesse a encarar-me, a avaliar-me. O que o que quer consegui falar? A voz saiu fraca, trémula.

 A mulher não respondeu, mas algo mudou. Ela abriu a boca lentamente e continuou a abrir mais do que deveria ser possível, a mandíbula descendo cada vez mais, como se estivesse desarticulada, como se os ossos não seguissem as regras normais. E então ela fez um movimento como se estivesse a gritar, mas não saía som nenhum.

 Era grito silencioso, grito mudo, mas mesmo sem som, conseguia sentir. Podia sentir o desespero, a dor, o sofrimento. E então ela começou a flutuar. Não era andar, não eram passos. Os pés dela não tocavam no chão. Ela simplesmente deslizava, vindo na minha direção. Devagar, inexoravelmente, Dei mais passos para trás. Tropecei em algo. Quase caí.

 A lanterna caiu-me da mão. Rolou no chão, a luz apontando para o lado, criando sombras distorcidas. [música] Levantei-me rápido, peguei na lanterna, apontei de novo para onde a mulher estava. Ela tinha parado, estava mais perto agora, a 2 m, [música] as cavidades vazias, fixas em mim, a boca ainda aberta naquele grito silencioso.

 E então lembrei-me, lembrei-me das palavras do meu avô, lembrei-me dos ensinamentos, recordei as histórias sobre almas esquecidas. Você está presa? Perguntei. A voz ainda tremia, mas tinha agora algo mais. compreensão. Ninguém se lembra de si? A mulher fechou a boca lentamente. A cabeça dela inclinou-se para o lado, como se estivesse a ouvir, como se estivesse processando.

 E depois o cheiro ficou mais forte, muito mais forte. As flores podres, a terra húmida, tudo invadindo os meus sentidos. Senti as lágrimas a virem, não de medo, ou não apenas de medo. Era outra coisa. Era tristeza. tristeza profunda, como se o sofrimento dela estivesse a passar para mim, como se eu estivesse a sentir o que ela sentia, a a solidão, o esquecimento, a dor de não ter ninguém, de não ser lembrada, de estar presa entre mundos sem poder descansar. “Eu vou ajudá-lo”, falei.

As palavras saíram antes que eu pudesse pensar. Vou acender velas, vou rezar, vou fazer com que seja lembrada. A mulher ficou imóvel, as cavidades vazias ainda fixas em mim, mas algo mudou. O ar ficou menos pesado, o frio tornou-se menos intenso, como se ela tivesse ouvido, como se tivesse compreendido, como se estivesse a aceitar.

 Virei-me e comecei a andar depressa, quase a correr em direção à guarita. Sabia o que precisava de fazer. Sabia o que o meu avô me tinha ensinado. Velas, rezas, lembrança, era o que as almas esquecidas necessitavam. Cheguei à guarita, abri o armário, tinha velas ali. Velas que eu usava às vezes para certas ocasiões. Apanhei todas, 23 velas.

Também peguei na caixa de fósforos, saí correndo de volta. corria em direção ao setor D, a área dos indigentes, dos sem família, dos esquecidos. Era a área mais antiga do cemitério. Os túmulos datavam dos anos 50 e 60. eram sepultura simples, cruzes de madeira apodrecida, lápides partidas, nomes apagados [música] pelo tempo.

 Alguns já nem tinham identificação, apenas montes de terra, apenas ervas daninhas a crescer. Ninguém visitava aquela zona, ninguém colocava flores, ninguém rezava. Eram os esquecidos, os que morreram sem ninguém. ou os que tinham família, mas a família também [música] tinha morrido ou tinha ido embora ou simplesmente tinha esquecido.

 Cheguei à primeira sepultura. Era túmulo sem identificação, apenas terra, apenas um pequeno monte indicando [música] que alguém estava ali enterrado. Ajoelhei, coloquei a primeira [música] vela no chão, acendi. A pequena chama iluminou a escuridão ao redor. Criei sombras dançantes. Mudei para a sepultura seguinte. Coloquei a segunda vela, acendi, fui fazendo isso sistematicamente, sepultura a sepultura, [música] vela a vela.

 Em cada uma parava por um momento, olhava para o túmulo e dizia em voz baixa: “Não está esquecido. Eu lembro-me de ti. A cada vela que acendia, [a música] sentia algo mudar. O ar tornava-se pesado, o frio diminuía. Era como se cada chama trouxesse um pouco de calor, um pouco de luz, um pouco de lembrança para aqueles túmulos abandonados. Continuei.

 Terceira vela, quarta, quinta, sexta. A cada uma repetia as palavras: “Não estás esquecido. Eu lembro-me de ti. Quando cheguei à décima vela, [música] olhei ao redor. As chamas criavam círculo de luz no meio da escuridão. Os túmulos antigos em redor ficavam parcialmente iluminados. E pude ver. A mulher estava ali parada entre dois túmulos, observando as cavidades vazias onde deveriam estar os olhos fixas em mim.

Mas ela [música] não se aproximava, apenas observava. Continuei 11ª vela, 12ª, 13ª e comecei então a rezar a reza que o meu avô me tinha ensinado, a reza antiga, a reza pelos mortos esquecidos. As palavras vinham da memória profunda, de um local que não acedia há anos, mas estavam ali guardadas à espera. Rezei em voz alta, a voz ecoando entre os túmulos, entre as sombras, entre as chamas das velas. 14ª vela, 15ª 16ª.

A reza continuava a fluir, preenchendo o ar, preenchendo o silêncio. Olhei de novo para onde a mulher estava. Ela continuava ali, mas algo tinha mudado. A figura estava menos sólida, menos definida, como se estivesse a começar a dissolver-se, como se estivesse começando a libertar-se. 17ª vela, 18ª, 19ª.

 A reza tornou-se mais intensa, mais forte. Eu colocava toda a minha emoção, toda a minha intenção, toda a minha vontade de ajudar, de trazer a paz, de trazer lembrança. 20ª vela, [música] 21ª, 22ª, quase a terminar. Coloquei a 23ª vela, a última, no túmulo mais antigo que conseguia encontrar. Um túmulo sem sem identificação, apenas pedra quebrada, apenas terra. Acendi.

 A chama juntou-se às outras. 23 [música] pequenas luzes no meio da escuridão. 23 recordações para os esquecidos. Fiquei ajoelhado [música] ali, terminei a reza e fiz uma última oração, uma oração de despedida. Que vocês [música] encontrem paz, que descansem, que vocês saibam que não estão esquecidos. Não mais.

 Fiquei ali por um longo momento, apenas observando as velas queimarem. O silêncio era diferente agora. Não era mais pesado, não era mais sufocante. Era silêncio de paz, de aceitação. Olhei para onde a mulher estava. Ela tinha desaparecido, simplesmente já não estava ali. Mas eu sabia. Sabia que ela tinha ouvido, sabia que tinha funcionado.

 Levantei-me, as pernas tremiam, todo o corpo [música] tremia. Não de frio, não de medo, de exaustão emocional, de alívio. Olhei para as 23 velas, ardendo lentamente, iluminando os túmulos esquecidos. Saí dali devagar, andando entre as sepulturas em direção à saída. Tranquei o cemitério, fui para casa e não contei para ninguém o que tinha acontecido.

Nessa noite não consegui dormir. Fiquei deitado na cama, a olhar para o teto, repassando tudo o que tinha acontecido. A mulher [música] sem olhos, o cheiro, as velas, a reza, tudo parecia sonho, pesadelo. Mas eu sabia que tinha sido real. Tinha sido demasiado real para ser imaginação.

 A Lurdes perguntou se eu estava bem. disse que sim, que estava apenas cansado, mas ela sabia. Conhecia-me bem demais. Algo tinha acontecido, algo que me tinha mudado. Na segunda-feira, voltei ao trabalho. O primeiro que fiz foi ir ao setor D. As 23 velas tinham-se consumido completamente. Apenas a cera derretida marcava os locais onde tinham estado.

Mas algo mais tinha mudado. O ar estava diferente, mais leve, mais tranquilo, como se um peso tivesse sido retirado dali. Continuei com o trabalho normal, enterramentos, manutenção, rotina. Mas eu estava diferente. Via o cemitério com outros olhos. Agora, nas semanas seguintes, comecei a prestar atenção ao setor D.

 Comecei a visitar, a cuidar, a limpar as sepulturas abandonadas, a arrancar as ervas daninhas, a endireitar as cruzes que tinham caído. E toda a sexta-feira, ao final da tarde, regressava com velas. Já não 23, mas sempre algumas, e acendia nos túmulos e rezava. Fazia aquilo sozinho, não contava para ninguém. era entre mim e os esquecidos.

Mas depois [música] começaram a acontecer coisas estranhas, não comigo, com outros. Um mês depois [música] do meu encontro com a mulher sem olhos, um dos guardas noturnos vieram procurar-me. O seu [música] O Benedito, disse, tem uma coisa estranha a acontecer. Alguns túmulos no setor [música] D estão aparecendo com flores, flores frescas, mas ninguém está a colocar.

 Eu verifico, [a música] de noite não tem flores, de manhã tem. Não entendo. Fingi surpreendida, mas por dentro sabia. Os esquecidos estavam a ser lembrados de alguma forma por alguém ou por algo. Duas semanas depois, uma das auxiliares administrativas veio falar comigo. Dona Regina, mulher séria, prática, que não acreditava em nada sobrenatural.

O senhor Benedito, disse ela, ontem estava fechando uns documentos tarde. Eram umas 6 da tarde, houvi um choro, choro de criança vinda do cemitério, do lado de trás, do setor [música] D, mas quando Fui ver, não estava ninguém. Os relatos começaram a acumular-se. O novo coveiro, que tinha entrado alguns meses depois de mim, contou que sentia presença quando trabalhava perto do setor D.

Não presença ameaçadora, mas presença, como se alguém estivesse observando com gratidão. Uma visitante, senhora idosa, [música] que vinha toda semana, contou que tinha sentido mão gelada tocar-lhe no ombro quando passou perto de um [música] túmulo antigo, mas quando virou não estava ninguém. E as flores, as flores que apareciam do nada em túmulos que ninguém visitava.

Flores frescas como se tivessem sido colocadas há poucas horas, mas ninguém via ninguém a colocar. Os guardas começaram a fazer rondas mais frequentes, tentando apanhar quem estava a fazer aquilo, mas nunca pegavam ninguém. As flores simplesmente apareciam como que por magia, como presentes dos próprios mortos.

 Isso continuou por anos, de 1982 até 1997. 15 anos de manifestações, 15 anos de sinais. Não eram manifestações assustadoras, não eram ameaçadoras, eram apenas sinais. Sinais de que os esquecidos ainda lá estavam, mas agora estavam a ser lembrados e queriam mostrar gratidão. Durante todo este tempo, mantive o meu ritual. Toda sexta-feira, final da tarde, velas, rezas, cuidado com os túmulos abandonados.

 Não falei para ninguém no trabalho, era o meu segredo, a minha promessa. Mas em 1997, [a música] as manifestações começaram a diminuir, tornaram-se menos frequentes. As flores deixavam de aparecer, [música] os sons paravam, as presenças dissipavam-se e eu entendi. [pigarreia] Os esquecidos tinham finalmente encontrado paz, podiam finalmente descansar.

Continuei a trabalhar no cemitério municipal Santa Cruz até 2008, 43 anos no total. Quando me reformei tinha [música] 65 anos. As costas doíam, as as mãos doíam, o corpo cansado, mas a alma estava em paz. Paz que vinha de saber que tinha feito o que estava certo, que tinha honrado os mortos, que se tinha lembrado dos esquecidos.

 Mas [música] mesmo reformado, não parei. Não consegui. Todas as sextas-feiras até hoje volto ao cemitério. Não trabalho mais, não cavo mais, apenas visito. Desloco-me até ao setor D, Levo velas, acendo nos túmulos, rezo, Converso com os mortos como se fossem velhos amigos, porque de certa são. São são companheiros de décadas.

São aqueles que me ensinaram a lição mais importante da minha vida. A lição que cada pessoa enterrada transporta história que merece [a música] ser honrada. Que coveiro que se esquece disto torna-se apenas transportador [música] de carne, não guardião de memórias. E eu aprendi, aprendi da pior forma possível, vendo aquela mulher sem olhos, sentindo aquele desespero, aquela dor de ser esquecida, [música] de não ter ninguém, de estar presa porque ninguém se lembrava.

 Hoje tenho 82 anos, os meus filhos são adultos, [música] Tenho netos, bisnetos até. A vida seguiu, mas aquela noite de Outubro de 1982 nunca mais saiu de dentro de mim. Está gravado cada detalhe, o rosto sem olhos, a pele como gesso, o cheiro a flores podres, as 23 velas, a reza, tudo. E aprendi algo mais. Aprendi que o O desrespeito pelos mortos tem consequências.

 Aquele enterro, aquela família embriagada a lutar, aquele desrespeito todo, abriu uma [música] porta, acordou algo que estava quieto, permitiu que os esquecidos se manifestassem, como se o desrespeito tivesse criado uma fenda. E por aquela fenda as almas inquietas puderam passar. Por isso, sempre que vejo enterro [música] desrespeitoso, fico preocupado, fico atento, porque sei.

 Sei que pode abrir uma porta, pode acordar as coisas, pode trazer consequências. Os mortos merecem respeito sempre. Não importa quem foram em vida, não importa [a música] o que fizeram. Na morte, todos merecem dignidade, todos merecem ser recordados, todos merecem descansar em paz. Estou sentado aqui em casa a escrever isto aos 82 anos. As mãos tremem um pouco.

 A vista [música] já não é a mesma, mas a memória é clara, cristalina, como se aquela noite tivesse acontecido [música] ontem. E a promessa que fiz nessa noite continua. Continua toda a sexta-feira quando regresso ao cemitério. Continua sempre que acendo uma vela. Continua cada vez que rezo pelos esquecidos. Porque aprendi, [música] aprendi que os mortos não estão realmente mortos enquanto alguém se lembra deles, enquanto [música] alguém diz o nome deles, enquanto alguém visita o túmulo, enquanto alguém acende uma vela, eles

continuam vivos [música] de alguma forma, nas memórias, nas recordações, nas histórias que contamos e os esquecidos, os que não têm ninguém, os que morreram sozinhos. Os que foram abandonados, esses precisam de alguém ainda mais. Precisam de alguém que lembre, que cuide, que garanta que não desapareçam completamente.

 E eu me tornei esse alguém, não por opção, mas por necessidade, por ter visto, por ter sentido, por ter aprendido da forma [música] o mais aterradora possível. Se está a ler isto, se você trabalha em cemitério, se visitar cemitério, preste atenção. Preste atenção aos túmulos abandonados, aos esquecidos.

 Eles estão ali esperando. E, por vezes, quando o desrespeito é demasiado grande, quando a porta se abre, manifestam-se para lembrar, para chamar a atenção, para pedir [música] aquilo que todo o morto merece. Lembrança. O meu nome é Benedito Rodriguez, tenho 82 anos, fui coveiro durante 43 anos e em outubro de 1982 vi algo que mudou a minha vida para sempre.

 Vi o rosto dos esquecidos e prometi nunca esquecer. E até hoje, toda a sexta-feira, mantenho essa promessa porque os mortos merecem, porque é o certo, porque alguém precisa de se lembrar. E você, lembra-se dos seus mortos? Você visita, cuida? Ou também está esquecendo? Pense nisso antes que seja tarde, antes de a porta se abrir, antes que os esquecidos venham chamar a atenção da forma que conseguem.

 

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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