O TÚMULO DA DONA ISADORA… O QUE ENCONTREI NO CEMITÉRIO MUDOU MINHA VIDA PARA SEMPRE | Espiritual
O TÚMULO DA DONA ISADORA… O QUE ENCONTREI NO CEMITÉRIO MUDOU MINHA VIDA PARA SEMPRE | Espiritual 
No cemitério da Consolação, em São Paulo, tem um túmulo que vive coberto de rosas vermelhas, mesmo que ninguém da família visite. E dizem que a mulher ali sepultada, chamada dona Isadora, morreu jovem [música] e muito rica, mas extremamente sozinha, depois de enterrar três [música] maridos em menos de 5 anos.
Sou jardineiro lá há 10 anos [música] e nunca acreditei nessas histórias de maldição ou de viúva negra até ao dia em que encontrei um anel de ouro maciço a brilhar em cima da lápide de granito negro dela. O velho Jonas, que é o coveiro mais antigo e supersticioso do lugar, gritou-me não tocar naquilo, dizendo que aquilo não era sorte, mas sim uma armadilha.
Mas a ganância de quem tem dívida no banco falou mais alto do que o juízo. Eu esperei que ele virasse as costas e coloquei o anel no bolso. Nessa mesma noite, sonhei com uma mulher linda, de pele pálida, que me chamava meu amor e dizia que estava a preparar a casa para a nossa chegada. O problema é que quando Acordei, o anel tinha entrado no meu dedo anelar e já não saía nem com sabão e nem com óleo.
E a minha mulher olhava-me com pavor, dizendo que durante a noite tinha-me sentado na cama e falado com uma voz fina de mulher, mandando-a sair do quarto, porque aquele marido tinha agora [música] outra dona. O meu nome é Pedro Silva e vou contar como a minha vida se tornou um inferno por causa de um pedaço de ouro [música] que eu pensava que era a solução dos meus problemas.
Trabalhar no cemitério da consolação é viver rodeado de arte e de silêncio, porque aquilo ali mais parece um museu a céu aberto do que um campo santo. Eu sempre gostei do meu serviço de cuidar das plantas e limpar os musgos das estátuas, porque as as plantas não se queixam e os mortos não dão ordem.
A quadra onde se encontra o jazigo da A dona Isadora [música] é uma das mais bonitas e sombrias, porque tem árvores imensas que cobrem o céu e deixam tudo numa meia luz eterna. O túmulo dela é imponente com uma estátua de uma mulher chorando, debruçada sobre uma urna. E o que sempre me chamou a atenção é que as rosezeiras que nascem ali à volta são mais vivas e vermelhas [música] do que em qualquer outro lugar.
Dizem os antigos que se alimentam de algo que não é adubo comum. Naquela tarde de terça-feira, o tempo estava fechado e o ar estava parado com cheiro a chuva que não caía. Eu estava a podar os galhos secos perto do jazigo da Isadora quando vi o brilho. Era um brilho amarelo e forte que se destacava no meio do granito [música] escuro.
Aproximei-me e vi o anel. Era uma peça antiga e pesada, trabalhada com desenhos de folhas e cobras entrelaçadas. E não havia [música] pedra nenhuma, apenas o ouro puro e grosso. Ele estava posicionado mesmo no centro da lápide, como se alguém tivesse acabado de deixar ali de presente ou como se tivesse brotado da pedra.
Olhei para os lados para ver se havia alguém por perto. O cemitério estava vazio naquele setor. Peguei no anel na mão e fiquei surpreendida com o peso e com a temperatura. O metal estava quente, não morno de sol, mas quente como se tivesse saído de um forno ou do dedo de alguém vivo. A sensação de segurar aquilo deu-me um arrepio na [música] nuca, mas logo a seguir veio uma sensação de poder e de alegria.
Eu pensei [música] no quanto aquilo valia. Pensei nas contas atrasadas da renda e na prestação do automóvel. Aquele anel podia resolver a minha vida durante uns meses. Foi nessa altura que o senhor Jonas apareceu vindo [música] por detrás de um mausoléu. O velho mancocheava de uma perna e transportava a pá ao ombro.
Ele viu o anel na minha mão e parou logo. A cor desapareceu do rosto dele. Ele disse-me com a voz rouca e séria para eu largar aquilo imediatamente. Ele disse que nada que está no túmulo da Isadora é esquecido. Contou-me que ela era uma mulher que não aceitava estar sozinha e que em vida ela comprava o amor dos homens com ouro e depois sugava-lhes a vida até sobrarem apenas as cascas.
Ele falou que aquele anel era uma aliança de compromisso e que se eu aceitasse, eu estaria a aceitar o contrato. Eu rido do velho Jonas. Disse que estava caducando e que aquilo era apenas um anel que algum visitante rico tinha perdido ou deixado cair. Ele abanou a cabeça e disse que visitante não deixa anel de ouro num túmulo de viúva negra.
Ele disse que aquilo era o isco. [música] Jonas virou costas e saiu resmungando que não ia ajudar a cavar a minha cova. Eu Fiquei a olhar para [música] o anel. A a ganância e a necessidade falaram mais alto. Coloquei o anel no bolso das calças e terminei o serviço, sentindo o metal queimar a minha perna através do tecido.
Fui para casa com o coração acelerado. Eu não contei à minha mulher, a Carla, sobre o achado. Eu queria vender o anel primeiro e aparecer com o dinheiro, dizendo que tinha ganhado um bônus ou feito um serviço extra. Escondi [música] o anel na gaveta de meias e fui tomar banho. Mas durante o banho, eu não conseguia tirar o objeto da cabeça.
Eu sentia uma vontade incontrolável de olhar para ele, de tocar nele. Era uma atração física quase magnética. Depois que a Carla dormiu, eu fui até a gaveta e peguei o anel. >> [música] >> Fui para a sala e fiquei admirando o ouro sob a luz do abajur. Ele parecia brilhar mais forte e agora eu tive a ideia estúpida de experimentar.
Eu queria ver como ficava no dedo. Eu tenho mãos grossas de trabalhador e achei que nem ia entrar. Mas quando encostei o anel no dedo anelar da mão esquerda, ele deslizou. Deslizou fácil e macio, como se tivesse sido feito sob medida para mim. ou como se estivesse lubrificado com óleo.
O anel se encaixou na base do meu dedo e eu senti um aperto. Não um aperto doloroso, mas um aperto firme, como um aperto de mão de quem fecha um negócio. Tentei tirar logo em seguida porque me deu um nervoso repentino. O anel não saiu. Eu puxei com força. Ele não moveu 1 milímetro. A pele do meu dedo parecia ter inchado instantaneamente [música] ao redor do ouro, travando a joia.
Fui até a cozinha e passei detergente. Nada. Passei [música] manteiga, nada. O anel estava fundido na minha carne. Comecei a ficar desesperado. Meu dedo começou a latejar. Decidi que ia no pronto socorro de manhã para cortar o anel se não saísse. Voltei para a cama e escondi a mão debaixo do travesseiro para a Carla não ver.
Demorei a dormir porque senti o pulso do meu coração [música] batendo forte na ponta do dedo preso. Mas quando o sono veio, ele veio pesado e profundo como um desmaio. E aí veio o sonho. Eu estava num salão de festas antigo com lustres de cristal e cortinas de veludo vermelho.
Havia música tocando uma valsa lenta e triste. Eu estava vestido com um terno preto elegante que eu nunca tive. E na minha frente estava ela, a mulher da estátua, a dona Isadora. Mas ela não era de pedra, ela era de carne e osso. E era linda de um jeito assustador. Ela tinha cabelos negros e pele muito branca e usava um vestido de seda preto.
Ela sorriu para mim e [limpando a garganta] estendeu a mão. Eu vi que no dedo dela havia um anel igual ao [música] meu. Ela me chamou de meu marido. A voz dela era doce e envolvente. Ela disse que estava feliz por eu ter aceitado o [música] presente e que agora nós poderíamos cuidar um do outro. Ela disse que os outros maridos eram fracos e tinham morrido cedo demais, mas que eu parecia forte.
Ela se aproximou e me beijou no rosto. O beijo dela era frio como gelo seco. Acordei num pulo com a [música] Carla me sacudindo e gritando o meu nome. O quarto estava escuro, eu estava suado e [música] tremendo de frio. A Carla acendeu a luz e me olhou com uma expressão de terror que eu nunca tinha visto nela.
Ela se afastou de mim, encostando na parede. Perguntei o que tinha acontecido. Ela me disse gaguejando que eu tinha sentado na cama de olhos fechados minutos antes. Ela disse que tentou falar comigo e que eu virei o rosto para ela, mas quando eu abri a boca para responder, não foi a minha voz que [música] saiu. Ela jurou por Deus que ouviu uma voz de mulher, uma voz arrogante e antiga.
disse que a voz falou para ela sair daquele quarto e daquela casa, porque o Pedro agora tinha compromisso e que gente viva atrapalhava o sono dele. Eu tentei acalmar a Carla, dizendo que era pesadelo, que eu tinha comido algo pesado, mas ela olhou para minha [música] mão esquerda. O anel de ouro estava lá brilhando na minha mão inchada. O dedo estava roxo.
Ela perguntou onde eu tinha arrumado aquilo. Eu não consegui mentir. A presença do anel parecia me impedir de esconder a origem dele. Eu disse que tinha achado no cemitério. A Carla começou a chorar e disse que eu tinha trazido desgraça para casa. Ela disse que sentia um cheiro de flor velha no quarto, [música] um cheiro de velório. Eu também sentia.
O quarto todo cheirava rosas passadas. Tentei tirar o anel de novo na frente dela, puxando com raiva. A pele do meu dedo rasgou e sangrou, mas o anel não saiu. [música] O sanguez correu pelo ouro e, em vez de pingar no chão, parecia ser absorvido pelo metal. O anel brilhou mais forte com [música] o contato do sangue.
Eu senti uma tontura forte e tive que sentar. Uma sensação estranha começou a subir pelo meu braço esquerdo. Era uma dormência fria que ia subindo pelas veias em direção [música] ao meu ombro e ao meu pescoço. E na minha mente eu comecei a ouvir sussurros. Não era o sonho mais. Eu estava acordado. A voz da Isadora estava dentro da minha cabeça.
Ela dizia que o sangue selava o pacto e que agora não tinha mais [música] volta. Decidi que precisava tirar aquilo de qualquer jeito. Fui até a garagem e peguei um alicate de corte daqueles grandes de cortar vergalhão. A Carla gritava para eu ter cuidado. Coloquei o alicate sobre o anel e fiz força. Eu sou um homem forte e habituado a trabalho pesado.
[música] O alicate mordeu o ouro. Fiz toda a força que eu tinha. O metal do alicate estalou e partiu-se na minha mão. A lâmina de aço [música] partiu-se ao meio. O anel de ouro não tinha qualquer arranhão. O ouro [música] era mais duro que o aço. Aquilo não era normal. O medo tomou conta de mim de vez.
Eu olhei para a a minha mão e vi que as veias do meu braço esquerdo estavam a ficar pretas. Adormência tinha chegado [música] ao meu peito. Eu sentia o meu coração bater num ritmo diferente, mais lento [música] e pesado. A Carla disse que ia chamar um padre ou um médico, mas eu disse que não adiantava.
Eu sabia onde tinha de ir. Tinha que voltar [música] para o cemitério. Eu tinha que falar com o velho Jonas. Ele sabia. Ele tinha-me avisado. Talvez ele soubesse como desfazer o contrato. Saí de casa a meio da madrugada, deixando a Carla a chorar na sala. Peguei no carro e conduzi feito louco [música] pelas ruas vazias de São Paulo.
A minha mão esquerda parecia pesar uma tonelada ao volante. A voz [música] na minha cabeça ficava a trautear uma música antiga e dizendo que a nossa lua de mel seria eterna. Eu sentia que estava a perder o controle do meu próprio corpo. Às vezes, a minha mão esquerda [música] movia-se sozinha no volante, querendo virar o carro em direção a muros ou postes.
Ela queria [música] matar-me. Ela queria levar o noivo para a casa dela o mais possível. [música] Cheguei ao portão do cemitério e saltei o muro porque estava trancado. Caí na relva do lado de dentro e o cheiro a rosas me envolveu. Era muito mais forte ali. Corri em direção à casinha [música] onde o Jonas guardava as ferramentas e às vezes dormia.
Bate à porta desesperado. O velho abriu a porta com uma lanterna na cara [música] e uma espingarda na mão. Quando me viu e viu o meu estado, não ficou surpreendido. Ele olhou para a minha mão roxa com o anel dourado e cuspiu para o chão. Ele disse que eu era um tolo ganancioso e que agora eu tinha colocado uma aliança com a morte.
Implorei ajuda, mostrei o braço preto, disse que ela me levava. O Jonas mandou-me entrar e trancou a porta. Ele disse que só tinha uma maneira [música] de tentar partir aquilo, mas que ia doer e que ia custar caro. Não dinheiro, ia custar um pedaço de mim. Ele disse que a Isadora [música] não aceita a devolução.
Se ela pegou no dedo, ela quer o dedo. Ele pegou num facão de cortar mato que estava afiado e colocou-o em cima da mesa de madeira. Ele olhou-me nos olhos e disse que eu tinha que escolher. [música] Ou perdia o dedo agora com o anel e tudo, ou perdia a alma antes do amanhecer. A voz na minha cabeça gritou: “Não tão alto que [música] caí de joelhos”.
A minha mão esquerda tentou agarrar o pescoço do Jonas sozinha. Eu tive de segurar o meu próprio braço com a mão direita. Eu [música] sabia que ele estava certo. Coloquei a mão esquerda na mesa, a tremer e a suar frio. A Isadora gritava na minha mente, prometendo [música] dor e vingança. O Jonas levantou o facão. Fechei os olhos e rezei para não morrer de hemorragia.
>> [música] >> Mas eu sabia que mesmo que eu sobrevivesse aquela noite, ainda não tinha acabado, [música] porque o anel podia sair do meu corpo, mas a marca da viúva negra já estava na a minha alma e ela ia caçar-me onde quer que eu escondesse o resto de mim. Eu fechei os olhos com força e virei o rosto para a velha parede de madeira da casinha do coveiro, à espera do golpe que mudaria a minha vida para sempre.
O O Jonas não hesitou e nem me deu tempo para mudar de ideias, [música] porque sabia que a coragem é igual a gelo ao sol e derrete rapidamente. Senti o impacto do machete bater na minha mão esquerda com uma violência seca e brutal, seguida imediatamente por uma [música] dor que não consigo descrever com palavras humanas, porque foi uma dor que subiu da carne para o osso e do osso para a alma.
Eu gritei e o grito misturou-se [música] com um uivo agudo que ecoou dentro da a minha cabeça. Não era eu a gritar sozinho. A voz da Isadora, a viúva negra gritou junto comigo, um misto de ódio e frustração quando a ligação foi cortada na base da força bruta. abri os olhos tonto e enjoado e vi o sangue jorrar escuro sobre a mesa de madeira, manchando as ferramentas do [música] velho.
O meu dedo anelar já não estava na minha mão. Tinha sobrado apenas um cepo vermelho e pulsante. O Jonas agiu rápido, como quem já tinha visto muita desgraça na vida. Ele pegou-lhe num pano limpo e apertou contra a ferida, estancando [música] o sangue com força, enquanto recitava uma oração antiga que não conhecia. Olhei para [música] o lado e vi o pedaço de mim que tinha ficado para trás.
O dedo cortado estava caído na mesa [música] e o anel de ouro continuava ali a brilhar impecável, sem nenhuma mancha de sangue, como se tivesse bebido toda a [música] que tocou nele. O Jonas pegou no dedo decepado com um anel, utilizando uma pinça de metal [música] longa, e colocou-a dentro de uma pequena caixa de ferro que tinha trazido.
Ele disse-me para eu manter a mão levantada [música] e apertar o pano e disse que ia levar aquilo de volta para onde nunca deveria [a música] ter saído. Disse que o pagamento tinha sido feito. O velho saiu à chuva e deu-me deixou-o ali sozinho, gemendo de dor e sentindo o frio do choque térmico tomar conta do meu corpo. A voz na minha cabeça tinha desaparecido.
O silêncio mental era um alívio [música] tão grande que quase compensava a dor física. Eu não sentia mais a presença dela e nem o desejo de morrer. Eu era eu outra vez, mesmo que incompleto. [música] O Jonas voltou 20 minutos depois, molhado e com a caixa de ferro vazia na mão. Disse-me que tinha enterrado o dedo com o anel aos pés da estátua Isadora e que tinha pedido licença e perdão.
Disse que a terra aceitou a oferta porque deixou de tremer. Assim que o ouro tocou o chão, levou-me no carro dele até ao pronto socorro mais seguinte [música] e combinamos a história que eu ia contar. Eu disse aos médicos e depois [música] para a minha mulher que tinha sofreu um acidente com a tesoura de poda elétrica no trabalho noturno de emergência.
Ninguém desconfiou [música] porque os acidentes acontecem e a minha cara de pavor era demasiado genuína para [música] ser mentira. Fiquei internado por dois dias, tomando antibiótico e medicação para dor. A Carla, minha esposa, ficou do meu lado o tempo todo, mas via nos olhos dela que algo tinha mudado.
[música] Ela olhava-me com desconfiança e medo, como se esperasse que a qualquer momento eu fosse falar com aquela voz de mulher de novo. Quando regressei a casa, a vida tentou voltar ao [música] normal, mas o normal tinha ido embora juntamente com o meu dedo. A Carla aguentou três [música] meses.
Ela disse que já não conseguia dormir ao meu lado porque eu gemia durante o sono e porque a casa ficava fria sempre que entrava. Ela foi embora para casa da mãe dela e pediu o divórcio. E eu não a culpei. Quem quer viver com um homem que transporta o cheiro de cemitério [música] na pele? Eu Continuei a trabalhar no cemitério da Consolação.
[música] Muita gente me perguntou porque é que eu não pedi demissão depois de tudo e a resposta é simples e [música] terrível. Não consigo sair. Tentei arranjar emprego em outros lugares, mas sempre que me afastava do cemitério, a cicatriz na minha mão começava a arder e a sangrar sem [música] motivo. O médico disse que era dor fantasma, mas sei que não é.
É a coleira. O anel não [música] está mais no meu dedo, mas a marca dele ficou na a minha energia. Eu sou um cão que fugiu do quintal, mas que ainda houve o [música] assobio do dono. Hoje sou o jardineiro maneta que toda a gente [música] conhece e evita. Continuo a cuidar das rosas e das gramas, mas nunca [música] mais cheguei perto do campo onde a Isadora está enterrada.
O Jonas reformou-se e morreu logo a seguir, levando os segredos dele para o túmulo. E agora sou o mais antigo ali. Eu vejo os novatos a chegar cheios de curiosidade e ganância e tento avisar, mas nunca ouvem. Eles acham que o ouro é ouro em qualquer lugar, mas o pior de tudo acontece nas noites de lua cheia.
Nestas noites a minha mão coça onde o dedo costumava estar. Eu sinto o peso do anel invisível [música] e se ele eu olhar para a direção do túmulo dela, eu vejo. Vejo a mulher de vestido [música] preto parada ao longe me observando. Ela já não me chama e nem tenta possuir-me [música]. Ela apenas sorri. É um sorriso paciente [música] de quem sabe que o tempo não significa nada para quem é eterno. Ela está à espera.
Ela tem um pedaço de mim enterrado com ela. O meu dedo com a aliança [música] está ali a selar o nosso noivado macabro. Eu sei que quando morrer, não vou para o céu e nem para o inferno. Eu vou para a cova dela. A minha alma vai seguir o pedaço que já lá está. Nós vamos casar na Terra Fria e eu vou ser o quarto marido da sua coleção.
Às vezes penso que o Jonas errou [música] em salvar-me. Talvez tivesse sido melhor deixá-la levar-me de uma vez naquela [música] noite do que viver esta meia vida à espera do inevitável. Na semana passada, um cveiro novo veio mostrar-me todo animado, [música] um colar de pérolas que achou perdido num túmulo antigo de outra família.
Olhei para ele e vi a sombra atrás dele. Vi a ganância nos olhos do rapaz. Eu não disse [música] nada, não gritei e nem avisei. Apenas levantei a a minha mão esquerda e mostrei o cepo do dedo anelar [música] para ele. O rapaz olhou, ficou pálido, e atirou o colar para o chão, saindo [música] correndo. Pelo menos um consegui salvar.
O anel de ouro continua lá no túmulo [música] da Isadora. Às vezes, depois da chuva, a terra lava e ele aparece a brilhar na superfície, desafiando o próximo insensato. Se você passar pelo cemitério da Consolação e vir um brilho dourado na erva perto de uma estátua de mulher a chorar, não pare, não toque, não respire, apenas ande rápido e agradeça por ter todos os dedos nas [música] mãos, porque aquele o ouro não tem preço, aquele ouro tem dono e a dona é muito ciumenta.
No cemitério da Consolação, em São Paulo, tem um túmulo que vive coberto de rosas vermelhas, [música] mesmo que ninguém da família visite. E dizem que a mulher ali enterrada, chamada dona Isadora, morreu jovem [música] e muito rica, mas extremamente sozinha, depois de enterrar três maridos em menos de 5 anos.
Sou jardineiro lá há 10 anos e nunca acreditei [música] nestas histórias de maldição ou de viúva negra até ao dia em que encontrei um anel de ouro maciço a brilhar em cima da lápide de granito negro dela. O velho Jonas, que é o coveiro mais antigo e supersticioso do lugar, gritou-me não tocar naquilo, dizendo que aquilo não era sorte, mas sim uma armadilha.
Mas a ganância de quem tem dívida no banco falou mais alto do que o juízo. Eu esperei que ele virasse as costas e coloquei o anel no bolso. Nessa mesma noite, sonhei com uma mulher linda, de pele pálida, que me chamava meu amor e dizia que estava a preparar a casa para a nossa chegada. O problema é que quando Acordei, o anel tinha entrado no meu dedo anelar e já não saía nem com sabão e nem com óleo.
E a minha mulher olhava-me com pavor, dizendo que durante a noite tinha-me sentado na cama e falado com uma voz fina de mulher, mandando-a sair do quarto, porque aquele marido tinha agora outra dona. O meu nome é Pedro Silva e vou contar-vos como a minha vida tornou-se um inferno por causa de um pedaço de ouro que achei que fosse a solução para os meus problemas.
Trabalhar no cemitério da Consolação é viver rodeado de arte e de silêncio, porque aquilo ali mais parece um museu a céu aberto do que um campo santo. Eu sempre gostei do meu serviço de cuidar das plantas e limpar os musgos das estátuas, porque as plantas não se queixam e os mortos não dão ordem.
A quadra onde fica o jazigo da dona Isadora [música] é uma das mais belas e sombrias, porque tem árvores imensas que cobrem o céu e deixam tudo numa meia luz eterna. O túmulo dela é imponente com uma estátua de uma mulher a chorar, debruçada sobre uma urna. E o que sempre me chamou a atenção é que as rosezeiras que nascem ali à volta são mais vivas e vermelhas do que em qualquer outro lugar.
Dizem os antigos que elas se [música] alimentam de algo que não é adubo comum. Naquela tarde de terça-feira, o tempo estava fechado e o ar estava parado com cheiro de chuva que não caía. Eu estava a podar os ramos secos perto do jazigo da Isadora quando vi o brilho. Era um brilho amarelo e forte que se destacava no meio do granito escuro.
Aproximei-me e vi o anel. Era uma peça antiga e [música] pesada, trabalhada com desenhos de folhas e cobras entrelaçadas. E não tinha pedra nenhuma, apenas o ouro puro e espesso. Ele estava posicionado mesmo no centro da lápide, como se alguém tivesse acabado de deixar ali de presente [música] ou como se tivesse brotado da pedra.
Eu Olhei para os lados para ver se tinha alguém [música] por perto. O cemitério estava vazio naquele setor. Peguei no anel na mão e fiquei surpreendida com o peso e com a temperatura. O metal [música] estava quente, não morno de sol, mas quente como se tivesse saído de um forno ou do dedo de alguém vivo.
A sensação de segurar aquilo deu-me um arrepio [música] na nuca, mas logo a seguir veio uma sensação de poder e de alegria. Eu pensei no quanto aquilo valia. Pensei nas contas atrasadas do aluguer e na prestação do automóvel. Aquele anel podia resolver a minha vida durante uns meses. Foi nessa altura que o senhor Jonas apareceu vindo por detrás de um mausoléu.
O velho mancocheava de uma perna e transportava a pá no ombro. Ele viu o anel [música] na minha mão e parou logo. A cor desapareceu do rosto dele. Ele disse-me com a voz rouca e séria para eu largar aquilo imediatamente. Ele disse que nada que está no túmulo da Isadora é esquecido. Contou-me que ela era uma mulher que não aceitava estar sozinha e que em vida ela comprava o amor dos homens com ouro e depois sugava-lhes a vida até sobrarem apenas as cascas.
Ele falou que aquele anel era uma aliança de compromisso e que se eu aceitasse, eu estaria a aceitar o contrato. Eu rido do velho Jonas. Disse que estava caducando e que aquilo era apenas um anel que algum [música] visitante rico tinha perdido ou deixado cair. Ele abanou a cabeça e disse que [música] visitante não deixa anel de ouro num túmulo de viúva negra.
Ele disse que aquilo era a isca. Jonas virou costas e saiu resmungando que não ia ajudar a cavar a a minha cova. Eu fiquei a olhar para [música] o anel. A ganância e a necessidade falaram mais alto. Coloquei o anel no bolso das calças e terminei o serviço, sentindo o metal queimar a minha perna através do tecido. Fui para casa com o coração acelerado.
Eu não Contei à minha mulher, a Carla, sobre o achado. Eu queria vender o anel primeiro e aparecer com o dinheiro, dizendo que tinha ganho um bónus ou feito um serviço extra. Escondi o anel na gaveta das meias e fui tomar banho. Mas durante o banho, não consegui tirar o objeto da [música] cabeça. Eu sentia uma vontade incontrolável de olhar para ele, de lhe tocar.
Era uma atração física quase magnética. Depois que a Carla dormiu, fui à gaveta e peguei no anel. Fui para a sala e Fiquei a admirar o ouro sob a luz do abajur. Parecia brilhar mais forte e agora tive a ideia estúpida de experimentar. Eu queria ver como ficava no dedo. Tenho mãos grossas de trabalhador e [música] pensei que nem ia entrar.
Mas quando encostei o anel ao dedo anelar da mão esquerda, [música] deslizou. Deslizou fácil e suave, como se tivesse sido feito à medida [música] para mim. ou como se estivesse lubrificado com óleo. O anel encaixou na base do meu dedo e senti um aperto. Não um aperto doloroso, mas um aperto firme, como um aperto de mão de quem fecha um negócio.
Tentei tirar logo a seguir porque me deu um nervoso repentino. [música] O anel não saiu. Eu puxei com força. Ele não mexeu 1 mil. A pele do meu dedo parecia ter inchado instantaneamente [música] em redor do ouro, travando a jóia. Fui até à cozinha e passei detergente. Nada. Passei [música] manteiga, nada. O anel estava fundido na minha carne.
Comecei a ficar desesperado. O meu dedo começou a latejar. Decidi que ia às urgências de manhã para cortar o anel, se não saísse. Voltei para a cama e escondi a mão debaixo da almofada para a Carla não ver. Demorei a adormecer porque senti o pulso do meu coração a bater forte na ponta do dedo [música] presa.
Mas quando o sono veio, ele veio pesado e profundo como um desmaio. E depois veio o sonho. Eu estava num salão de festas antigo com candelabros de cristal e cortinas de veludo vermelho. Havia música a tocar uma valsa lenta e triste. Eu estava vestido com um fato preto [música] elegante que eu nunca tive.
E à minha frente estava ela, a mulher da estátua, a dona Isadora. Mas ela não era de pedra, ela era de carne e osso. E era linda de um jeito assustador. Ela tinha cabelos negros e pele muito branca e usava um vestido de seda preto. Ela sorriu para mim e estendeu a mão. Eu vi que no dedo dela havia um anel igual ao meu. Ela me chamou de meu marido.
A voz dela era doce e envolvente. Ela disse que estava feliz por eu ter aceitado o presente e que agora nós poderíamos cuidar um do [música] outro. Ela disse que os outros maridos eram fracos e tinham morrido demasiado cedo, mas que eu parecia forte. Ela aproximou-se e beijou-me no rosto. O beijo dela era frio como o gelo seco.
Acordei num pulo com a Carla a abanar-me e a gritar o o meu nome. O quarto estava escuro. Eu estava suado e a tremer de frio. A Carla acendeu a luz e olhou para mim com uma expressão de terror que nunca tinha visto nela. Ela afastou-se de mim, encostando-se à parede. Perguntei o que tinha acontecido. Ela disse-me gaguejando que me tinha sentado na cama de olhos fechados minutos antes.
Ela disse que tentou falar comigo e que eu Virei a cara [música] para ela, mas quando abri a boca para responder, não foi a minha voz que [música] saiu. Ela jurou por Deus que ouviu uma voz de mulher, uma voz arrogante e antiga. disse que a voz falou para ela sair daquele quarto e daquela casa, porque o Pedro tinha agora um compromisso e que gente viva perturbava o seu sono.
Eu Tentei acalmar a Carla, dizendo que era pesadelo, que tinha comido [música] algo pesado, mas ela olhou para o meu mão esquerda. O anel de ouro estava lá brilhando na minha mão inchada. O dedo estava roxo. Ela perguntou onde é que eu tinha arrumado aquilo. Eu não consegui mentir. A presença do anel parecia impedir-me de esconder a origem do mesmo.
Eu disse que tinha encontrado no cemitério. A Carla começou a chorar e disse que eu tinha trazido a desgraça para casa. Ela disse que sentia um cheiro a flor velha no [música] quarto, um cheiro a velório. Eu também sentia. O quarto todo cheirava rosas passadas. Tentei tirar o anel de novo à frente dela, puxando com raiva.
A pele do meu dedo rasgou e sangrou, mas o anel não saiu. [música] O sanguez correu pelo ouro e, em vez de pingar no chão, parecia ser absorvido pelo metal. O anel brilhou mais com [música] o contacto do sangue. Senti uma tontura forte e tive de me sentar. Uma sensação estranha começou a subir pelo meu braço esquerdo.
Era uma dormência fria que ia subindo pelas veias em direção ao meu ombro e ao meu pescoço. E na minha mente comecei a ouvir sussurros. Não era o sonho mais. Eu estava acordado. A voz da A Isadora estava dentro da minha cabeça. [música] Ela dizia que o sangue selava o pacto e que agora já não tinha volta a dar. Decidi que precisava de tirar aquilo de qualquer jeito.
Fui até à garagem e peguei num alicate de corte daqueles grandes de cortar vergalhão. A Carla gritava para eu ter cuidado. Coloquei o alicate sobre o anel e fiz força. Eu sou um homem forte e habituado a trabalho pesado. [música] O alicate mordeu o ouro. Fiz toda a força que eu tinha. O metal do alicate estalou e partiu [música] na minha mão.
A lâmina de aço partiu-se ao meio. O anel de ouro não tinha qualquer arranhão. O ouro era mais duro que o aço. Aquilo não era normal. O medo tomou conta de mim de vez. Eu olhei para a a minha mão e vi que as veias do meu braço esquerdo [música] estavam a ficar pretas. A dormência tinha chegado ao meu peito. Eu sentia o meu coração bater num ritmo diferente, mais lento [música] e pesado.
A Carla disse que ia chamar um padre ou um médico, mas eu disse que não adiantava. Eu sabia onde tinha de ir. Eu tinha que voltar para o cemitério. Eu tinha que falar com o velho Jonas. Ele sabia. Ele tinha-me avisado. Talvez ele soubesse [música] como desfazer o contrato. Saí de casa a meio da madrugada, deixando a Carla a chorar na sala.
Peguei no carro e conduzi feito louco pelas ruas vazias de São Paulo. A minha mão esquerda parecia pesar uma tonelada no volante. A voz na minha cabeça ficava a trautear uma música antiga e dizendo que a nossa lua-de-mel seria eterna. [música] Sentia que estava perdendo o controle do meu próprio corpo. Às vezes, a minha [música] mão esquerda movia-se sozinha ao volante, querendo virar o carro em direção a muros ou postes.
Ela queria-me matar. Ela queria levar o noivo para a casa dela o mais rapidamente possível. [música] Cheguei ao portão do cemitério e saltei o muro porque estava trancado. Caí na relva do lado de dentro e o cheiro a rosas me envolveu. Era muito mais forte ali. Corri em [música] direção à casinha onde o Jonas guardava as ferramentas e às vezes dormia.
Bate à porta desesperado. O velho abriu a porta com uma lanterna na cara e uma espingarda na mão. Quando ele viu-me e viu o meu estado, ele não ficou surpreendido. Ele olhou para a minha mão roxa com o anel dourado e cuspiu no chão. Ele disse que eu era um tolo ganancioso e que agora tinha colocado uma aliança com a morte.
Eu implorei ajuda, mostrei o braço preto, disse que ela estava a levar-me. O Jonas mandou-me entrar e trancou a porta. Ele disse que só havia uma maneira de tentar [música] partir aquilo, mas que ia doer e que ia custar caro. Não dinheiro, ia custar um pedaço de mim. Ele disse que a [música] Isadora não aceita a devolução.
Se ela pegou no dedo, ela quer o dedo. Ele pegou um facão de cortar mato que estava afiado e colocou-o em cima da mesa de madeira. Ele olhou-me nos olhos e disse que tinha de escolher. Ou perdia o dedo agora com o anel e [música] tudo, ou perdia a alma antes do amanhecer. A voz na minha cabeça gritou: “Não tão alto que [música] caí de joelhos! A a minha mão esquerda tentou agarrar o pescoço do Jonas sozinha.
Eu tive que segurar [música] o meu próprio braço com a mão direita. Eu sabia que ele estava certo. Coloquei a mão esquerda sobre a mesa, a tremer e a suar frio. A Isadora gritava na minha mente, prometendo dor e vingança. [música] O Jonas levantou o machete. Eu fechei os olhos e rezei para não morrer de hemorragia. Mas eu sabia que mesmo que eu sobrevivesse aquela noite, ainda não tinha acabado, porque o anel podia sair do meu corpo, mas a marca da viúva negra já estava na minha alma e ela ia-me caçar onde quer que escondesse o
resto de mim. Eu fechei os olhos com força e virei o rosto para a parede de madeira velha da casinha do coveiro, à espera do golpe que mudaria a minha vida para sempre. O Jonas não hesitou e nem me deu tempo para mudar de ideias, porque sabia que a coragem é igual a gelo ao sol e derrete rapidamente.
Senti o impacto do machete bater na minha mão esquerda com uma violência seca e brutal, seguida imediatamente por uma dor que eu [música] não consigo descrever com palavras humanas, porque foi uma dor que subiu da carne para o osso e do osso para a alma. Eu gritei e o grito misturou-se com um uivo agudo [música] que ecoou dentro da minha cabeça. Não era eu a gritar sozinho.
A voz da Isadora, a viúva negra gritou juntamente comigo, [música] uma mistura de ódio e frustração quando a ligação foi cortada na base da força bruta. abri os olhos tonto e enjoado, e vi o sangue jorrar escuro sobre a mesa de madeira, [música] manchando as ferramentas do velho.
O meu dedo anelar já não estava na minha mão. Tinha sobrado apenas um cepo vermelho e pulsante. O Jonas agiu rápido, como quem já tinha visto muita desgraça na vida. Ele pegou-lhe num pano limpo e apertou contra a ferida, estancando o sangue com força, enquanto recitava [música] uma oração antiga que não conhecia. Olhei para o lado e vi o pedaço de mim que tinha ficado para trás.
O dedo cortado estava caído sobre a mesa e o anel de ouro continuava ali a brilhar impecável, sem qualquer mancha de sangue, como se tivesse bebido tudo o que lhe tocou. O Jonas pegou no dedo decepado com um anel, utilizando uma pinça de metal longa, e colocou-o dentro de uma caixa de ferro pequena que ele tinha trazido.
Ele me disse para eu manter a mão levantada e apertar o pano e disse que ia levar aquilo de volta para onde nunca deveria ter saído. Disse que o pagamento tinha sido feito. O velho saiu à chuva e deixou-me sozinho ali, [música] gemendo de dor e sentindo o frio do choque térmico tomar conta do meu corpo. A voz na minha cabeça [música] tinha desaparecido.
O silêncio mental era um alívio tão grande que quase compensava a dor física. Eu já não sentia a presença dela e nem o desejo de morrer. Eu era eu outra vez, mesmo que incompleto. O Jonas voltou 20 minutos depois, molhado e com a caixa de ferro vazia na mão. Disse-me que tinha enterrado o dedo [música] com o anel aos pés da estátua Isadora e que tinha pedido licença e perdão.
Ele disse que a terra aceitou [música] a oferta porque parou de tremer. Assim que o ouro tocou no chão, levou-me no carro dele até ao pronto socorro mais próximo e combinamos a história que [música] eu ia contar. Eu disse aos médicos e depois à minha esposa que tinha tido um acidente com a tesoura de poda elétrica no trabalho noturno [música] de emergência.
Ninguém desconfiou porque os acidentes acontecem e a minha cara de pavor era demasiado genuína para [a música] ser mentira. Estive internado por dois dias, tomando antibiótico e medicação para as dores. A Carla, a minha mulher, ficou do meu lado todo o tempo, mas via nos olhos dela que algo tinha mudado.
Ela olhava-me com desconfiança e medo, como se esperasse que a qualquer momento fosse falar com aquela voz de mulher outra vez. Quando voltei para casa, a vida tentou voltar ao normal, mas o normal tinha desaparecido juntamente com o meu dedo. A Carla aguentou três [música] meses. Ela disse que não conseguia mais dormir ao meu lado porque gemia durante o sono e porque a casa ficava fria sempre que entrava.
Ela foi-se embora para a casa da mãe e pediu o divórcio. E eu não a culpei. Quem quer viver com um homem que carrega o cheiro a cemitério na pele? Eu Continuei a trabalhar no cemitério da Consolação. Muita gente me perguntou porque é que eu não pedi a demissão depois de tudo. E a resposta é simples e terrível.
Eu não consigo sair. Eu tentei arranjar emprego noutros lugares, mas sempre que me afastava do cemitério, a cicatriz na a minha mão começava a arder e a sangrar sem [música] motivo. O médico disse que era dor fantasma, mas eu sei [música] que não é. É a coleira. O anel não está mais no meu dedo, mas a marca dele ficou na minha energia.
Eu sou um cão que fugiu do quintal, mas que ainda houve o [música] assobio do dono. Hoje sou o jardineiro maneta que toda a gente conhece [música] e evita. Continuo a cuidar das rosas e das gramas, mas nunca mais cheguei [música] perto do campo onde a Isadora está enterrada. O Jonas reformou-se e morreu logo a seguir, levando os segredos dele [música] para o túmulo.
E agora sou o mais antigo ali. Eu vejo os novatos chegando cheios de curiosidade e ganância e tento avisar, mas nunca ouvem. Acham [a música] que o ouro é ouro em qualquer lugar, mas o pior dos tudo acontece nas noites de lua cheia. Nestas noites a minha mão coça onde o dedo costumava estar. Sinto o peso do anel invisível.
E se ele eu olhar para a direção do túmulo dela, vejo. Eu vejo a mulher de [música] vestido preto parada ao longe a observar-me. Ela não chama-me mais e nem me tentes [música] possuir. Ela apenas sorri. É um sorriso doente de quem sabe [música] que o tempo não significa nada para quem está eterno. Ela está à espera. Ela tem um pedaço de mim enterrado com [música] ela.
O meu dedo com a aliança está lá selando o nosso macabro noivado. Eu sei que quando eu morrer, não vou para o céu e nem para o inferno. Eu vou para a cova dela. A minha alma vai seguir o pedaço que já lá está. Nós vamos nos casar na Terra Fria e eu vou ser o quarto marido na sua coleção. Às vezes Penso que o Jonas errou em salvar-me. [música] Talvez tivesse sido melhor deixá-la me levar de uma vez nessa noite do que viver essa meia vida à espera do inevitável.
Na semana passada, um cveiro novo veio mostrar-me todo animado, um colar de pérolas que ele encontrou perdidos [música] num túmulo antigo de outra família. Eu olhei para ele e vi a sombra atrás dele. Vi a ganância nos olhos do rapaz. Eu não disse [música] nada, não gritei e nem avisei.
Apenas levantei a mão esquerda e mostrei o cepo do dedo anelar para ele. O rapaz olhou, ficou pálido e atirou o colar para o chão, [música] saindo correndo. Pelo menos um consegui salvar. O anel de ouro continua lá no túmulo [música] da Isadora. Às vezes, depois da chuva, a terra lava e ele aparece a brilhar na superfície, desafiando o próximo [música] tolo.
Se você passar pelo cemitério da Consolação e vir um brilho dourado na erva perto de uma estátua de mulher a chorar, não pare, não toque, não respire, apenas ande rápido e agradeça [música] por ter todos os dedos nas mãos, porque aquele ouro não tem preço, aquele ouro tem dono e a dona é muito ciumenta. Tá.