PEGUEI UMA BONECA POR ACASO NO CEMITÉRIO… DESDE ENTÃO, A GAROTINHA NÃO PARA DE APARECER NO ESPELHO
PEGUEI UMA BONECA POR ACASO NO CEMITÉRIO… DESDE ENTÃO, A GAROTINHA NÃO PARA DE APARECER NO ESPELHO
Eu não sou homem de cemitério. Isso precisa de ficar claro desde o início, porque muda tudo o que vem depois. Sou técnico de refrigeração formado com 8 anos de experiência em instalação e manutenção de sistemas de [música] ar condicionado, câmara frigorífica, o que aparecer. Não sou homem que tem medo [música] de trabalho pesado.
Não sou homem que acredita em qualquer coisa que não consiga tocar. E definitivamente não sou homem de cemitério. O que me levou para aquela vaga foi de 8 meses de desemprego e uma renda com dois meses atrasados. [música] E só aceitar que foi a decisão mais pragmática que eu podia tomar naquele momento. E se eu pudesse voltar atrás, [música] eu voltaria, mas não para recusar o emprego.
Voltaria para ouvir o seu Dirceu antes de pegar na pá nesse dia. O senhor Dirceu tinha 68 anos. e era chamado por todos no cemitério de O homem que Demora, sem maldade, mas sem mentira também, porque era exatamente o que ele era. Nunca terminava nada no tempo que a administração queria, sempre parava no meio, estava sempre a olhar pro ar seguinte, com aquela expressão de quem está a consultar algo que mais ninguém no ambiente conseguia ver.
Na primeira semana, achei-o simplesmente insuportável. Na segunda semana, eu precisava que ele estivesse lá no dia em que ele escolheu não aparecer. E na terceira cova que abri sozinho naquele dia, no fundo da terra, juntamente com os ossos, estava uma boneca de trapos com o rosto cosido e um nome escrito no pescoço com tinta que não era tinta.
Eu devia ter parado quando vi a boneca. Qualquer pessoa que soubesse o que aquilo significava teria parado. Eu não sabia. Continuei e a partir desse momento, ela começou a aparecer nos espelhos. Não atrás de mim, dentro do reflexo, parada, olhando, esperando alguma coisa que eu ainda não compreendia. Deixa já o like e comenta se tu continuaria ou pararia, porque quando o o seu Dirceu finalmente apareceu e deu-me explicou o que eu tinha partido, eu entendi que o problema não era o que eu tinha visto, era o que eu ia ter de
fazer. Eu cheguei ao Sobral em Fevereiro, depois de 8 meses a tentar encontrar trabalho em Fortaleza, numa área que estava com a contratação travada, por causa de uma combinação de fatores que não vou aqui detalhar, porque não é o ponto. A questão é que 8 meses é tempo demais para quem tem renda, conta de luz.
E o orgulho específico de homem que trabalhou desde os 18 anos sem pedir nada para ninguém. Vim para o Sobral porque havia um primo que dizia que a cidade estava a crescer e que tinha serviço. Tinha serviço, mas não na minha área, pelo menos não no imediato. E enquanto aguardava a indicação do primo se concretizar, o aluguer foi acumulando e o dinheiro foi acabando com a velocidade que o dinheiro tem quando não está a repor.
A vaga de coveiro temporário apareceu por edital da câmara municipal. Contrato de 90 dias, renovável por mais 90 mediante avaliação. Salário que não era bom, mas que resolvia o imediato. Eu li o edital três vezes antes de me inscrever, não por hesitação sobre o trabalho em si, mas porque queria perceber exatamente o que estava a ser pedido e por quanto tempo. Entendi. Inscrevi-me.
Fui chamado na semana seguinte. O cemitério municipal do Sobral fica numa área que a cidade foi crescendo em redor ao longo das décadas, pelo que o que foi periferia passou a ser meio e o que era um lugar isolado tornou-se um lugar rodeado de bairro residencial, de padaria, de escola, de tudo o que faz uma cidade funcionar no quotidiano.
Eu achei que estranho no início, aquela normalidade toda em redor do portão principal, mas fui-me habituando porque acaba por ser a coisa mais natural do mundo. Quando você passa a maior parte do dia dentro do lugar e começa a ver o muro como o limite que é, que separa o ritmo de fora do ritmo a partir de dentro, sem que um interfira no outro.
O meu supervisor direto era um homem de nome Genivaldo, de 45 anos, funcionário de carreira que tinha entrado jovem e que conduzia o trabalho com a eficiência seca de quem não tem paciência para o drama, mas que também não tem crueldade desnecessária. explicou-me o básico no primeiro dia com a objetividade de quem já explicou muitas vezes e que sabe que a melhor forma de ensinar o trabalho físico é deixar a pessoa fazer e corrigir no processo apresentou a equipa, que eram mais quatro homens em regime semelhante com o meu, temporários ou de contrato
curto e no final da apresentação disse o nome que já tinha ouvido de passagem no corredor antes mesmo de começar oficialmente. O Sr. Dirceu Genivaldo disse o nome com aquela entoação específica de quem está apresentando uma situação que não tem resolução, mas que precisa de ser mencionada como parte do contexto.
disse que o seu diru era funcionário de carreira, que estava há 23 anos no cemitério, que ninguém se ia meter com ele e que a melhor abordagem era simplesmente trabalhar ao lado dele sem tentar sincronizar o ritmo, porque os ritmos não eram sincronizáveis. E tentar forçar isso só produzia frustração de um lado, sem qualquer resultado do outro.
Eu Conheci o senhor Dirceu na manhã seguinte. Ele estava no setor nascente quando me apresentaram a trabalhar numa limpeza de canteiro com uma lentidão que inicialmente confundi com problema físico, de mobilidade, de dor. Mas não era isso. O seu corpo movia-se bem, sem rigidez, sem compensação, sem que nenhum dos sinais que eu reconhecia de homem que está a trabalhar com dor.
Era outra [música] coisa. Era como se entre cada movimento houvesse uma pausa de consulta, uma verificação interna ou externa que fazia antes de passar para o passo seguinte e que levava o tempo que levava independentemente de qualquer pressão externa. 68 anos. Magro do tipo que o interior do Ceará produz no homem que trabalhou toda a vida ao ar livre.
Pele muito curtida pelo sol de décadas, olhos pequenos e de uma calma que era quase incómoda de olhar diretamente, porque parecia demasiado densa para olho de pessoa [música] comum. Cumprimentou a minha chegada com um aceno de cabeça e voltou ao trabalho sem cerimónia. Eu fiquei alguns minutos observando aquele ritmo e depois fui fazer o que o Genivaldo me tinha pedido no setor oposto, com a impressão clara de que aquele homem e eu não íamos ter nenhum problema de convivência, simplesmente porque não parecia ter interesse em convivência nenhuma. Errei
na avaliação. O senhor Ju não era homem de pouca convivência. Era homem de convivência precisa, que acontecia quando havia motivo e que não acontecia quando não havia, sem que a ausência significasse hostilidade ou a presença significasse sociabilidade vazia. Nos dias seguintes, foi aparecendo ao meu lado em momentos que não tinha como prever.
sempre com aquela calma, sempre sem anúncio, ficando por vezes em silêncio por um tempo antes [música] de dizer alguma coisa, e às vezes dizendo alguma coisa diretamente que parecia não ter contexto imediato, mas que ficava na cabeça durante horas depois. Na quinta-feira da primeira semana, parou ao meu lado enquanto estava a limpar um corredor do setor central e ficou olhando para o corredor com aquela expressão de consulta que já tinha aprendido a reconhecer.
Ficou assim por talvez dois minutos completos sem dizer nada. Então disse que aquele corredor estava com uma agitação que não era normal e que ia passar, mas que devia fazer com que aquele setor por último nos próximos dias, deixar o que estava em movimento se resolver [música] antes de intervir.
Disse isto com o mesmo tom com que um técnico experiente fala de condição climática que afeta o trabalho, sem drama, como informação útil. Depois foi-se embora. Eu acabei aquele corredor nessa manhã e não aconteceu nada. Anotei mentalmente como sendo o tipo de orientação vaga que o homem de muitos anos num lugar desenvolve como linguagem própria e que não significa necessariamente nada objetivo.
Fui dormir sem pensar mais no assunto. Na sexta-feira, fui fazer aquele corredor de novo e encontrei dois vasos de flores caídos que estavam de pé na véspera sem que houvesse vento suficiente para derrubá-los. Não fiz qualquer ligação explícita com o que o senhor Dirceu tinha dito.
Endireitei os vasos e continuei o trabalho. A ordem chegou na terceira semana. Genivaldo reuniu a equipa numa manhã de segunda-feira com um mapa do cemitério aberto sobre a mesa e explicou a situação com a objetividade de sempre. A autarquia tinha aprovado a construção de um novo cruzamento de acesso interno que precisava de atravessar uma ala do setor norte, ala que se encontrava sem visitas registados há mais de 15 anos e que a documentação da administração classificava como de covas sem herdeiros localizáveis.
O prazo para limpeza e remoção era de cinco dias úteis. O trabalho envolvia abertura, identificação do que estava em cada cova, catalogação, [música] embalagem dos restos mortais, conforme protocolo da vigilância sanitária municipal e encerramento com identificação provisória até ao translado pro ossário coletivo.
eram 11 covas no total distribuídas numa faixa estreita do setor norte que a vegetação tinha tomado ao longo dos anos de abandono, com lápides em estado variado de deterioração, algumas completamente ilegíveis, algumas sem lápide nenhuma, marcadas apenas por estacas de madeira que o tempo tinha deixado quase ao nível do chão.
Eu e mais dois temporários ficamos designados para o trabalho. O seu Dirseu não estava na reunião. Na manhã seguinte, quando chegámos ao setor norte com o equipamento, o senhor Dirceu não estava no cemitério. [música] Genivaldo disse que tinha ligado para o telemóvel dele sem resposta e que ia tentar novamente, mas que o prazo era o prazo e que o trabalho precisava de começar.
Dividimos as 11 covas em três frentes e começamos. A primeira cova foi normal dentro do que era esperado. Ossos em estado de decomposição avançada, sem qualquer objeto para além de fragmentos do que tinha sido o caixão original. Cataloguei, embalei conforme protocolo, fechei. A segunda cova foi igual.
Eu estava no ritmo de trabalho que [a música] conheço, o ritmo de técnico que tem uma tarefa definida e que executa com a atenção naquilo que precisa de ser feito e sem atenção no que não é relevante. Não estava nervoso, não estava tenso, estava a trabalhar. Na terceira cova, a pá encontrou resistência diferente a cerca de 50 cm de profundidade. Não era osso.
tem uma qualidade específica de resistência que aprende-se rápido quando se está a fazer esse trabalho. Uma densidade que cede de um jeito reconhecível. Isto era mais leve e mais firme ao mesmo tempo, como objeto preservado que não devia estar preservado depois de tanto [música] tempo.
Baixei a ferramenta e usei as mãos com o cuidado de protocolo, escovando a terra por cima lentamente, até que o contorno apareceu. Era uma boneca de pano, com aproximadamente 30 cm de comprimento, feita de tecido escuro que o tempo tinha desbotado, mas que não tinha apodrecido com a mesma velocidade que tudo em redor, o que, por si só, já era uma anomalia que eu registava sem entender.
O rosto era cosido, não bordado, cosido, com linha grossa que fechava onde deveriam estar os olhos, o nariz, a boca, formando uma superfície plana e sem feições que deveria ser perturbadora, mas que naquele momento eu processei como artefacto, como objeto, como coisa que devia ser catalogada dentro do protocolo. No pescoço havia uma tira de tecido presa com um nó e na tira havia escrita com uma irregularidade de letra de adulto que estava com pressa ou com dores, um nome de criança.
E por baixo do nome uma data que não vou repetir aqui porque é o único pormenor que decidi guardar para mim. E abaixo da data duas palavras que li e que me ficaram na cabeça durante todo o tempo que faltava nesse dia. Não sozinha. Eu fiquei a olhar para aquelas duas palavras por um tempo que não sei medir porque o tempo fez com que aquela coisa que faz às vezes, que é perder a qualidade [música] de sequência e virar algo mais parecido com presença.
Depois Coloquei a boneca no saco de catalogação, juntamente com os ossos que encontrei logo abaixo dela. Fechei de acordo com o protocolo, identifiquei e fui para a quarta cova. Não disse nada para ninguém. Naquele dia à noite, eu estava na casa de banho do quarto de aluguer, que era pequeno, [música] com um espelho de farmácia pregado na parede por cima do lavatório.
Destes espelhos retangulares com moldura de plástico branco que estão em metade dos sanitários de aluguer do Brasil. Estava a lavar os dentes. [música] Olhei para o espelho com o tipo de atenção automática que tem quando está fazendo mais alguma coisa. e vi o meu próprio reflexo como sempre via, com a diferença de que havia algo de diferente na profundidade do espelho, e não atrás de mim, na casa de banho real, mas dentro do espelho, a uma distância que o espelho não devia ter porque era pequeno e estava a menos de 30 cm da parede. A
criança estava parada dentro do reflexo, aproximadamente 7 anos de aparência, [música] cabelo escuro e liso na altura do queixo, roupa simples de algodão claro, descalça. Estava de frente para mim com os braços ao longo do corpo e a expressão neutra de quem está à espera, não de quem está ameaçando, não de quem está a pedir, esperando, com a paciência específica de quem não tem pressa porque já não tem noção do tempo da forma que eu tinha.
Eu cuspi a pasta de dentes na pia e olhei de novo. Ela estava lá. Fechei os olhos. Contei até três com a firmeza de homem que não acredita no que está a ver e que vai usar a racionalidade para resolver isso. Abri de novo. Ela estava lá. Saí do banheiro. Fui sentar-me na cama. Fiquei ali talvez uma hora sem fazer nada, com aquela qualidade de silêncio que acontece quando o cérebro está a tentar classificar algo que não tem gaveta disponível.
Depois voltei ao quarto de banho porque precisava de dormir e para dormir precisava de escovar os dentes que não tinha terminado de escovar. E no espelho havia apenas o meu reflexo com a expressão de homem [música] que teve um dia longo e que necessita de sono. Dormi dizendo para mim próprio que era cansaço. Na manhã seguinte, o seu dirceu apareceu no cemitério como se nunca tivesse faltado, sem explicação, sem desculpa, com aquele naturalidade de quem opera num calendário próprio que não necessita de justificação para mais ninguém.
Genivaldo disse qualquer coisa em tom baixo que não ouvi completamente e o o senhor Dirceu respondeu com um aceno de cabeça e foi para o trabalho. Eu não disse nada sobre a boneca, não disse nada sobre o que tinha visto ao espelho. Continuei o trabalho das covas com os outros dois temporários e terminámos o setor norte em quatro dias dentro do prazo, sem intercorrência registada no protocolo.
O espelho da casa de banho mostrou apenas o meu reflexo durante três dias. No quarto dia, a criança voltou. Dessa vez não estava só no espelho da casa de banho, estava em qualquer superfície que produzisse reflexo com profundidade suficiente. E fui descobrindo isso ao longo do dia de uma forma que não era de susto progressivo, mas de confirmação progressiva, que é pior porque o susto passa e a confirmação fica.
O vidro da janela do quarto, escurecido pelo ângulo da tarde, mostrava o reflexo do quarto com ela parada no canto onde não havia ninguém no quarto real. O espelho pequeno do armário, o ecrã do notebook quando estava desligada, sempre a mesma postura. De frente, os braços ao longo do corpo, a expressão de quem está aguardando, nunca mais se aproximando, nunca mais indo embora enquanto eu estava olhando, desaparecendo quando fechava os olhos e voltando quando eu abria, com aquela permanência calma, que era a coisa mais perturbadora de tudo. Porque
perturbação que grita, aprende-se a lidar. Perturbação que espera em o silêncio não tem forma de combater com nenhuma ferramenta que eu conhecesse. Na sexta-feira, ela apareceu no retrovisor do autocarro. Eu estava [música] a ir para o trabalho. Autocarro cheio da manhã de Sobral, parado no banco do meio com o mochila ao colo, e olhei para o retrovisor do condutor por nenhum motivo específico, da forma como se olha para qualquer coisa quando o pensamento está noutro lugar.
Ela estava no reflexo do retrovisor entre os outros passageiros que o espelho mostrava, com a diferença de que os outros passageiros eram pessoas reais que existiam no banco atrás de mim, enquanto que ela estava dentro do reflexo, a uma distância que o retrovisor não tinha forma de produzir, com aquela calma de sempre, olhando-me com aquela expressão de sempre.
Desviei o olhar. Olhei [música] para o chão. Quando voltei a olhar para o retrovisor, havia só os passageiros reais. Desci dois pontos antes do cemitério e caminhei o resto do caminho a pé com a cabeça baixa e as mãos no bolso, tendo o cuidado de não olhar para o vidro de nenhuma loja que eu passava.
Nesse dia encontrei o seu Dirceu sozinho no sector oeste, num horário em que normalmente estaria no setor nascente, o que era diferente o suficiente do padrão para que eu registasse. Ele estava parado à frente de uma lápide antiga, olhando para ela com aquela expressão de consulta. E quando me aproximei, ele não se virou de imediato.
Ficou mais uns segundos olhando antes de se voltar para mim com a calma de sempre. Olhou-me por um momento sem dizer nada. Então disse que tinha aberto a terceira cova. Não foi pergunta. Eu disse que sim, que tinha aberto [música] todas as 11 covas do setor norte, de acordo com a ordem de serviço, que era o trabalho que tinha sido pedido.
[música] Disse-o com mais defensividade do que pretendia, porque a sua afirmação tinha chegado com um peso que não esperava e que o meu lado racional ainda estava tentando classificar como coincidência de informação, como alguém que tinha visto o relatório de serviço ou conversado com Genivaldo. O senhor Dirceu ficou a olhar para mim por mais um momento e depois disse que eu tinha encontrado alguma coisa naquela cova que não era osso.
Desta vez não disse nada. Ele sentiu-a como se o meu silêncio fosse a confirmação que necessitava e depois baixou-se devagar, com o cuidado de homem que tem um joelho de décadas de trabalho e ficou de cócoras a olhar para o chão com as mãos espalmadas na terra do maneira de quem está a ouvir algo que vem de baixo.
Ficou assim durante um tempo que foi suficientemente longo para que eu parasse de contar mentalmente os segundos e apenas esperasse, porque alguma coisa naquela postura dizia que interromper seria o erro mais dispendioso que poderia cometer naquele momento. Quando se levantou, diz que a boneca era um selo. explicou com a voz calma de quem está a descrever mecânica de trabalho, sem misticismo excessivo, sem dramaturgia, com a objetividade de técnico que conhece o sistema pelo qual é responsável.
Disse que havia mães e que ainda havia, que sabiam desde cedo que certos filhos não tinham a capacidade de partir sozinhos quando chegasse a hora. Não por maldade da criança, nem por falha da criança, mas por uma configuração específica de alma que necessitava de condução, que necessitava de alguém que conhecesse o caminho e que aceitasse o papel de guia.
disse que quando estas mães enterravam estes filhos, colocavam um selo junto com o corpo, um objeto carregado com a intenção de manter a criança ancorada naquele lugar específico até que aparecesse alguém com condição de conduzir. A boneca com o rosto cosido era o selo. O rosto costurado significava que a criança estava fechada, contida, à espera.
Quando eu abri aquela cova e retirava a boneca juntamente com os ossos, parti o selo. E quem quebra o selo?”, disse o seu Dirceu com a mesma voz de sempre. Assume a responsabilidade de conduzir a criança até onde ela precisa de chegar. Eu perguntei onde ela precisava de chegar. Ele ficou em silêncio por um momento e depois disse que não sabia, que o destino [música] de cada condução era específico e que não tinha acesso àquela informação, que ela era de quem tinha quebrado o selo e que ia chegar de um jeito que não era de palavra, mas de
entendimento. Quando chegasse a hora e desde que eu deixasse de resistir ao que estava a aparecer nos espelhos, perguntei-lhe como sabia dos espelhos. disse que não sabia dos espelhos especificamente. Sabia que quando o selo é quebrado, a criança encontra quem avariou e usa o que tem disponível naquele entorno imediato para se comunicar.
e que espelho era a superfície mais comum, porque espelho é o único objeto que o mundo dos vivos construiu especificamente para mostrar o que está do outro lado, mesmo que a intenção original fosse apenas reflexo, Fiquei com aquilo durante um tempo, sem saber o que fazer com ele. Então, perguntei o que acontecia se eu continuasse a ignorar.
O seu Dirceu me olhou com aquela calma densa e disse que ela já tinha aparecido fora do cemitério. Não foi uma pergunta. Naquela noite não fui à casa de banho. Fiquei acordado no escuro do quarto com o tecto como único ponto de focagem, sem qualquer superfície reflectora no campo de visão, tentando organizar o que o senhor Dirceu tinha-me dito dentro de alguma estrutura que o meu cérebro de técnico de refrigeração conseguisse processar sem entrar em colapso.
Eu não acreditava no selo, não acreditava na condução, não acreditava numa alma que não parte sozinha. Mas havia uma criança que aparece em superfícies reflexivas há dias, de uma forma que eu não tinha conseguido explicar com nenhuma hipótese racional que eu tivesse testado. E havia um homem de 68 anos que sabia da boneca sem ter estado presente quando a encontrei e que sabia das aparições fora do cemitério sem que eu tivesse dito nada a ninguém.
Estes dois factos juntos não me convertiam em crente de nada, mas eram suficientes para que eu deixasse de agir como se a explicação racional fosse chegar se esperasse mais um pouco. De madrugada, com o quarto escuro e sem nenhuma superfície refletora em alcance, ouvi um som que não era de dentro [música] do apartamento, nem de fora dele.
Era de uma zona intermédia que não deveria existir fisicamente. O som que eu descreveria como respiração de criança a dormir, se tivesse que utilizar palavras leve, irregular e absolutamente presente no silêncio do quarto. Não me levantei, não liguei a luz, fiquei deitado com os olhos abertos no escuro e disse em voz baixa, mas em voz que estava a ouvir e que ia descobrir o que era necessário fazer e que ela podia esperar mais um pouco, porque precisava de tempo.
O som parou. Nos dias seguintes, fui atrás do que havia de registo sobre aquela cova. A documentação do cemitério para o setor norte era precária por causa dos anos de abandono, mas havia um livro de registo de enterramentos que a administração guardava num armário de metal, desde a fundação do cemitério manuscrito, com caligrafia que mudava ao longo das décadas, à medida que os funcionários que registavam mudavam.
E nesse livro havia o registo da cova que tinha aberto com data, com identificação parcial e com uma anotação à margem que o responsável pelo registo desse ano tinha feito com letra mais pequena que o resto, como quem acrescenta informação que não cabe no campo formal. A anotação dizia: “Eterrada com a boneca da mãe por pedido da família que pediu que não fosse removida”.
Havia um nome no registo. O nome da criança era o mesmo nome que tinha lido na tira de tecido no pescoço da boneca. 7 anos na data do enterramento, a causa registada era a febre, aquela causa genérica que em certos anos e em certas regiões do Nordeste cobria uma quantidade de mortes infantis que o sistema de saúde da época não tinha condição de nomear com mais precisão.
A data era de há décadas, tempo suficiente para que qualquer membro da família original tivesse provavelmente morrido também. Eu fechei o livro e fiquei sentado na sala da administração com aquela informação por um tempo. Uma criança de 7 anos enterrada com uma boneca que a mãe tinha pedido que ficasse. Uma mãe que sabia, segundo o seu dirceu, que a filha necessitava de condução.
Uma anotação feita à margem por alguém que achou importante registar o pedido da família, mesmo que não houvesse campo formal para tal. Há quanto tempo aquela criança estava à espera dentro daquela cova com o rosto cosido para cima, ancorada por um selo que uma mãe colocou com a intenção mais honesta que existe, que é não deixar o filho sozinho.
Fui encontrar o seu diror leste. Ele estava ali no ritmo de sempre, parando entre cada gesto com aquele consulta interna que já não encontrava mais insuportável, que já conseguia ver como o que era provavelmente o ritmo de homem [música] que aprendeu a trabalhar em dois registos simultaneamente e que não via utilidade em fingir que o segundo registo não existia, só porque a maioria das pessoas em redor não tinha acesso a ele.
Sentei-me numa lápide próxima, o que normalmente não faria por protocolo, mas o momento era o que era. Disse o que tinha encontra no livro de registo. Disse que a criança tinha 7 anos, que morreu de febre, que a mãe pediu que a boneca ficasse. Disse que eu queria perceber o que conduzir significava de forma prática, não de forma conceptual, porque conceito sem aplicação não me servia.
O o senhor Dirceu parou o trabalho e ficou a me olhando. Disse que conduzir não era ritual, não era cerimónia, não era uma ação específica que necessitasse de ser executado num lugar específico com ingredientes específicos. Era uma disposição. Era a diferença entre olhar para o espelho e desviar e olhar para o espelho e reconhecer o que lá estava e dizer que estava a ver, que a criança estava presa não por falta de destino, mas por falta de alguém que confirmasse a existência dela, que dissesse em algum nível que eu sei que está aqui e
que isso importa. e que a condução começava nesse reconhecimento e terminava quando ela entendesse que podia ir, que tinha sido vista o suficiente para não precisar mais de confirmação. Perguntei quanto tempo demorava. Disse que dependia do tempo que eu tinha resistido. Eu tinha resistido dias.
Nessa noite, fui ao banheiro sem se desviar do espelho. Ela estava lá, como sempre estava na mesma postura, com a mesma expressão de quem aguarda. Eu Parei em frente ao espelho e olhei-a de frente pela primeira vez, sem fechar os olhos, sem contar até três, sem procurar explicação racional que eu sabia que não ia chegar.
A olhei como se olha para alguém que está presente e que merece ser tratado como um presente, com a atenção que eu daria a qualquer pessoa real que estivesse à minha frente, com aquela expressão de quem está à espera de ser reconhecido. disse em voz baixa, porque o apartamento era arrendado e a parede era fina, que eu tinha encontrado a boneca, que eu não sabia o que estava fazendo quando abri aquela cova, que não tinha sido displicência nem desrespeito, mas simples ignorância, e que eu pedia [música] desculpa pelo tempo que tinha levado para deixar de resistir ao que
estava a ser mostrado. disse que eu havia disse o nome que tinha lido na tira de tecido, o nome que guardei para mim e que não vou aqui repetir porque é dela e não meu. Disse que eu não sabia o caminho, mas que estava disposto a aprender se ela tivesse paciência para um técnico de refrigeração do Sobral, que nunca tinha feito nada remotamente parecido com isto na vida.
No espelho, a expressão da criança mudou pela primeira vez desde a primeira vez que a tinha visto. Não foi sorriso? Foi o relaxamento específico de quem estava com os ombros levantados há muito tempo e que finalmente os baixou porque a tensão que os mantinha erguidos acabou. Era o relaxamento de quem estava encontrado depois de esperar muito tempo [música] e que pode deixar de fazer o esforço de se mostrar, porque a missão daquele esforço foi cumprida.
Ela ficou mais alguns segundos e depois não estava mais lá. O espelho mostrava apenas o meu reflexo com aquela expressão de homem que não sabe exatamente o que acabou de acontecer, mas que sabe com precisão que alguma coisa mudou. Nos três dias seguintes, ela não apareceu nos espelhos da casa de banho, na janela, na tela do portátil, no retrovisor de nenhum autocarro.
Fui para o trabalho, fiz o trabalho, regressei a casa com aquela ausência como a coisa mais presente do apartamento, que é o paradoxo específico de quando se habitua a algo que nunca devia lá ter estado e que quando some deixa um vazio que o espaço que ela ocupava tinha-se moldado ao redor. No quarto dia fui falar com o seu dirceu antes de iniciar o turno.
Disse que ela não tinha aparecido mais. Perguntei se era isso, se tinha acabado, se o que eu tinha feito em frente ao espelho tinha sido suficiente. Ficou em silêncio por um momento com aquela calma de sempre. Então disse que não sabia se tinha acabado. Disse que o reconhecimento era o início da condução, não o fim, e que o fim dependia de ela chegar onde precisava de chegar, o que ele não tinha como confirmar de fora.
Disse que o silêncio dos espelhos podia significar que ela tinha encontrado o caminho a partir do reconhecimento, que às vezes é suficiente. podia significar que ela estava em trânsito e que a comunicação através dos espelhos não era mais necessária porque o vínculo já estava estabelecido de outra forma. Perguntei o que era outra forma.
Disse que eu ia saber se fosse o caso. Fui trabalhar com aquilo no peito, sem saber se era alívio ou o início de uma nova fase de espera. O contrato de 90 dias terminou. não foi renovado, não por avaliação negativa, mas porque a obra do cruzamento de acesso tinha sido concluída e a procura de mão de obra temporária tinha diminuído.
Genivaldo me entregou o encerramento de contrato com a objetividade de sempre e um aperto de mão que era genuíno dentro da secura dele. Os outros temporários já tinham saído semanas antes. Último dia, antes de ir embora, fui encontrar o seu Dirceu. Ele estava no setor nascente, no ritmo de sempre, parando entre cada gesto.
Quando cheguei, ele já me estava olhando como se soubesse que eu ia aparecer antes de eu aparecer, o que provavelmente era o caso. Disse que ia, que o contrato tinha terminado, que ia continuar [música] tentando trabalho na minha área em Sobral ou voltar paraa Fortaleza se surgisse a oportunidade. Ele assentiu. Perguntei porque precisava perguntar antes de ir se achava que eu tinha feito o suficiente, se ela tinha chegado onde precisava de chegar.
O o senhor Dirceu ficou a olhar para mim por um momento com aqueles pequenos olhos de calma densa. Então disse uma coisa que Carreguei comigo desde esse dia e que carrego até hoje, que é o motivo pelo qual estou a contar essa história para si, em vez de guardar para mim como guardei por todo este tempo.
disse que não era ele que eu precisava de perguntar, que quando chega a hora sabe”, disse: “Não porque alguém confirma de fora, mas porque alguma coisa dentro de si que estava carregando um peso que nem sabia que estava a carregar deixa de carregar.” E que este silêncio interno é a confirmação mais precisa que existe, porque não tem como ser fabricado nem confundido com outra coisa.
Saí do cemitério nesse dia com a mochila no ombro e fui andando pelo bairro em redor com aquela qualidade de luz do fim de tarde do Sobral, que bate diferente quando passou o dia num lugar sem muito sol direto. Passei por uma padaria, entrei, pedi um café, sentei-me numa cadeira de plástico no passeio e Fiquei a olhar para a rua por um tempo sem motivo específico.
Na montra da padaria havia um espelho decorativo daqueles que ficam na parede de negócio pequeno porque o dono achou bonito. retangular com moldura em madeira pintada. O reflexo que o espelho mostrava era o reflexo da rua atrás de mim, pessoas passando, motos, o fim de tarde de Sobral a funcionar como o fim de tarde do Sobral sempre funcionou.
Só o meu reflexo, só a rua, nenhuma criança. Acabei o café e fui embora. Eu conto isto para si com 32 anos e com a memória precisa de cada detalhe, porque este tipo de coisas não arrefece. Fica na temperatura a que aconteceu, que é a temperatura de coisa que alterou alguma coisa em si de uma maneira que não tem como ser revertido.
Não me tornei noutra pessoa. Continuo técnico de refrigeração. Continuo homem prático. Continuo com pouca paciência para coisa que não consigo tocar. Mas aprendi que não conseguir tocar não é a mesma coisa que não existir. E que às vezes a coisa mais pragmática que um homem pode fazer é deixar de exigir que o mundo inteiro se enquadre nas categorias que aprendeu a usar e a olhar com atenção para o que está a ser mostrado antes de decidir que não está a ser mostrado nada. O senhor Dirceu ainda lá está. Soube
por alguém que passou pelo cemitério meses depois de ele continuar no mesmo ritmo de sempre. Parando entre cada gesto, consultando o ar, terminando o trabalho no tempo que o trabalho necessita e não no tempo que a administração deseja. 68 anos e 23 de cemitério. Homem que aprendeu a trabalhar em dois registos e que não pede desculpa por isso.
Eu aprendi [música] naqueles três meses no Sobral que há trabalhos que parecem temporários e que deixam marca permanente e que há crianças que esperam décadas por alguém que deixe de desviar o olhar durante o tempo suficiente para que o olho encontrar o olho e o olho que está dentro do espelho entenda que foi visto.
Não sei se ela chegou onde precisava chegar, mas sei que ela já não está esperando em nenhuma superfície que eu passe. E sei que o peso que o senhor Dirceu descreveu, aquele peso que nem sabia que estava a carregar até que para, esse peso parou nesse fim de tarde na cadeira de plástico da padaria, em frente ao espelho decorativo de moldura de madeira pintada com a rua de Sobral a passar atrás de mim e só o meu reflexo na superfície foi suficiente para mim.
Espero que tenha sido suficiente para ela também.