RECEBI UM PEDIDO NO CEMITÉRIO… E O QUE ACONTECEU DEPOIS AINDA NÃO ACREDITO | História de Terror Real
RECEBI UM PEDIDO NO CEMITÉRIO… E O QUE ACONTECEU DEPOIS AINDA NÃO ACREDITO | História de Terror Real 
Eu estava a preparar a cova de um rapaz de apenas 20 anos que morreu de forma súbita. Enquanto trabalhava, notei um estranho a observar-me de longe, caminhando sem rumo entre os túmulos. Naquele momento, não fazia ideia de que aquele olhar tranquilo escondia algo terrível. O que aconteceu depois daquele O enterro mudaria a minha vida para sempre.
Este é o relato do dia em que recebi um pedido no cemitério e até hoje ainda não acredito no que aconteceu. O meu nome é Francisco Alves, tenho 47 anos e trabalho como coveiro no cemitério municipal de Maringa há 13 anos. Mas nada me preparou para o que aconteceu naquela quarta-feira, 29 de Novembro de 2000. Cheguei cedo nesse dia. O cemitério estava silencioso.
E como sempre faço a esta hora, pego no lista de serviços do dia e organizo o que precisa de ser feito. Naquele dia tinha três túmulos para preparar. Um deles me chamou a atenção quando li a ficha. Alexandre Freitas, 20 anos. Parada cardíaca. 20 anos. Meu Deus, tão novo. A paragem cardíaca em alguém tão jovem é raro.
Normalmente vemos isso em pessoas mais velhas com problemas de saúde, mas um rapaz de 20 anos. Balancei a cabeça e guardei a ficha no bolso. Não era a primeira vez que via uma tragédia destas e sabia que não seria a última. O enterro estava marcado para as 5 da tarde. Isso dava-me o dia todo para preparar a cova e fazer os outros serviços.
Peguei nas minhas ferramentas e dirigi-me ao local indicado na ficha. Era uma zona mais nova do cemitério, perto de umas árvores grandes. Comecei a trabalhar por volta das 8h30 da manhã. Eu estava concentrado, a escavar quando senti aquela sensação estranha. Sabe quando sente que alguém está olhando para si? Foi exatamente isso. Levantei a cabeça e vi um rapaz parado ali a uns 10 m de distância.
Ele estava observando-me. Não era incomum ter visitantes no cemitério durante a semana, por isso não pensei muito nisso. Apenas acenei com a cabeça, cumprimentando. O que me chamou a atenção foi a expressão dele. Ele parecia tranquilo, mas ao mesmo tempo meio perdido, como se estivesse a conhecer o lugar pela primeira vez.
olhava ao redor, observando as árvores, os túmulos, o céu. Ficou ali parado durante uns dois ou três minutos, só a observar. Voltei a escavar. Quando olhei de novo, já não estava lá. Tinha desaparecido. Nem o vi ir embora. E isso era estranho, porque o cemitério não tem muitos lugares para se esconder assim de repente.
Mas pensei que ele devia ter ido visitar algum túmulo e não dei mais importância. Continuei a trabalhar nas outras covas que precisavam de ser preparadas. Deviam ser umas 10 horas da manhã quando parei para beber água. Foi quando voltei a ver o rapaz. Ele estava em outra parte do cemitério agora, caminhando lentamente entre os túmulos.
Do forma como andava, parecia que estava passeando. Os visitantes normalmente vão diretamente para o túmulo de quem querem visitar. Deixam as flores, fazem uma oração e vão-se embora. Mas este rapaz andava sem rumo, olhando para tudo. Os nossos olhos se atravessaram de longe. Ele acenou de novo, daquele mesmo modo, tranquilo.
Respondi o cumprimento e continuei o meu trabalho. Tinha muito serviço ainda. O dia foi a passar e vi o rapaz mais duas ou três vezes, sempre de longe, sempre andando pelo cemitério como se estivesse, não sei explicar bem, como se estivesse a explorar. Mas ele nunca se aproximou para conversar, nunca falou nada.
Há uma coisa que eu preciso falar. Depois de tantos anos a trabalhar aqui, desenvolvemos um tipo de sensibilidade para o meio envolvente. A gente sente quando algo está diferente, quando o tempo está pesado. Nesse dia, desde cedo, sentia que havia algo no ar. Não era mau, não era ameaçador, era apenas diferente. Mas não dei muita bola.
Às vezes o cemitério fica assim mesmo. Eram quase 3 da tarde quando acabei de preparar a sepultura de Alexandre Freitas. Ficou bem feita, da maneira que tinha que ser. Faço sempre o meu trabalho com respeito. Estava a recolher as ferramentas quando vi o rapaz mais uma vez. Estava parado perto de uma árvore, olhando na minha direção, ou melhor, olhando para a sepultura que tinha acabado de preparar.
Aquilo deu-me um arrepio na espinha. Não sei porquê, foi apenas uma sensação estranha. Ele ficou ali por um tempo só a olhar, depois virou-se e foi-se embora, andando devagar entre os túmulos. Fui ao depósito, guardar as ferramentas e pegar nas coisas para o enterro da tarde. Corda, tábuas, tudo que usamos durante a cerimónia.
Quando regressei à área onde ia a ser o enterro, vi que já estavam a começar a chegam algumas pessoas, familiares, provavelmente chegavam cedo, como sempre acontece quando a perda é muito dolorosa. Foi quando voltei a ver o rapaz. Ele estava ali, não muito longe, observando as pessoas que iam chegando. Aquilo deu-me uma sensação estranha de novo.
Será que conhecia o falecido? Será que era amigo da família? Mas tinha algo de diferente nele. Agora a expressão tranquila da manhã tinha alterado um pouco. Ele parecia mais atento, como se estivesse a prestar atenção em cada pessoa que chegava, em cada movimento que faziam. Olhei para o relógio. Faltavam 15 minutos para as 5. O carro funerário devia estar a chegar a qualquer momento.
Respirei fundo e dei-me preparei para mais um funeral. Mais uma família a chorar, mais uma despedida. Mas eu não fazia ideia do que estava prestes a acontecer. Não tinha a mínima noção de que aquele ia ser o dia em que mudaria a minha vida para sempre. E tudo ia começar quando aquele caixão descesse para a terra.
O carro funerário chegou às 5 horas em ponto. Atrás dele vinham vários carros com a família e amigos. Quando a porta do carro funerário se abriu e começaram a tirar o caixão, ouvi os primeiros choros. Eram aqueles choros que a gente nunca esquece. Choro de mãe, choro de quem perdeu um filho. Fiquei ali ao lado à espera para ajudar no que fosse preciso.
A gente precisa de estar presente, mas sem se intrometer no momento da família. A mãe de Alexandre estava a ser amparada por duas mulheres, uma de cada lado. Ela mal conseguia andar. As pernas pareciam não aguentar o peso do corpo dela. O pai vinha logo atrás, com o rosto duro, tentando conter as lágrimas, mas dava para ver que estava destruído por dentro.
Havia muita gente jovem também. Devia ser da faculdade do rapaz. Todos estavam chorando, alguns abraçados. Outros sozinhos, enxugando as lágrimas com as mãos. Era um enterro pesado daqueles que deixam todo o cemitério em silêncio. Enquanto colocavam o caixão no lugar para iniciar a cerimónia, ouvi alguns fragmentos de conversas.
A gente não quer ouvir, mas às vezes não tem como evitar. Uma rapariga estava a falar com outra, a chorar. Ele estava bem. A gente estava a rir junto. De repente, ele levou a mão ao peito e caiu. Foi tão rápido. Um rapaz ao lado delas completou com a voz embargada. Os médicos tentaram de tudo, mas não houve jeito.
O coração dele parou e não mais voltou. Senti um aperto no peito a ouvir aquilo. Imagina a cena. Um jovem de 20 anos a conversar com os amigos, rindo, vivendo a vida e de repente, sem aviso, sem hipótese de se despedir de ninguém, o coração pára. Pronto, acabou. Foi nesse momento que Olhei para o lado e vi o rapaz que tinha visto o dia inteiro.
Ele estava mais perto agora, a uns 5 m de distância, parado debaixo de uma árvore, olhando para tudo, olhando para cada pessoa, olhando para o caixão. A expressão dele era diferente, já não era aquela tranquilidade da manhã. Agora ele parecia confuso, como se estivesse tentando perceber o que estava a acontecer, como se não conseguisse processar aquilo tudo.
A cerimónia começou. O padre fez uma bonita oração falando sobre a vida jovem interrompida, sobre o mistério dos planos de Deus, sobre a saudade que fica. A mãe chorava tanto que parecia que ia desmaiar a qualquer momento. Em alguns momentos, ela gritava o nome do filho: “Alexandre, meu filho, meu menino.
” Era de partir o coração. Algumas pessoas aproximaram-se do caixão para se despedir. Colocavam a mão sobre a madeira, fechavam os olhos, choravam. O tempo todo, aquele rapaz estava ali a observar, e quanto mais o tempo passava, mais perto ele ficava. Não de forma brusca ou estranha, era uma aproximação lenta, quase imperceptível, como se ele precisasse de ver melhor, como se precisasse de perceber o que estava acontecendo.
Em determinado momento, os nossos olhos se encontraram. Ele me olhou de uma forma diferente. Não era mais apenas um cumprimento. Era como se ele estivesse a pedir algo. Mas o quê? Eu não sabia. Chegou a hora de descer o caixão. É sempre o momento mais difícil para as famílias. É quando se torna real que aquela pessoa não vai voltar mais, que vai ficar ali debaixo da terra e que a vida segue sem ela.
Quando começamos a descer o caixão, a mãe de Alexandre quase se atirou para dentro da cova junto. Os irmãos e o pai tiveram de a segurar com força. Ela gritava, chamava pelo filho, pedia para não o deixarem ali. O rapaz estava agora a menos de 3 m de mim. parado, olhando o caixão a descer. E pela primeira vez, desde que o vihã percebi algo que deveria ter percebido antes.
Ele estava com as mãos nos bolsos, olhando para baixo. A expressão dele era de alguém que está a assistir a algo muito triste, mas que não compreende direito o que é. Como quando vê um acidente na rua e fica paralisado tentando processar o que aconteceu. A cerimónia terminou. Algumas pessoas lançaram flores sobre o caixão. É uma forma de se despedir, de dar o último a Deus.
A família ficou ali ainda por uns 20 minutos sem querer ir embora, sem querer deixar o filho, o irmão, o amigo ali sozinho. Mas a vida não pára. As pessoas começaram a ir embora, uma a uma. Aos poucos, o cemitério foi ficando vazio. Quando olhei em redor, vi que só tinha ficado eu, o vigia ali à entrada e aquele rapaz. Ele continuava ali parado, olhando para o túmulo, para o cova recém-fechada, onde agora descansava Alexandre Freitas.
Respirei fundo. Já tinha visto gente ficar para trás depois dos enterramentos. Amigos ou familiares que precisam de mais tempo para despedir-se. Não é incomum. Então, me aproximei-me devagar, com respeito. É sempre muito difícil, disse eu, mantendo uma distância respeitosa. Mas agora ele está a descansar. Está num lugar melhor, em paz.
O rapaz não respondeu imediatamente, continuou olhando para o túmulo. Depois, devagar, virou o rosto na minha direção e, dessa vez senti algo que não consigo explicar direito. Foi como se uma corrente elétrica passasse pelo meu corpo inteiro. O seu olhar era fundo, profundo e triste, de uma forma que eu nunca tinha visto antes.
Foi nesse momento em que olhei para a foto que a funerária tinha colocado no túmulo. Tinha uma pequena foto do Alexandre Freitas ali. Olhei para o rapaz que estava na minha frente. O meu coração parou por um segundo. Era a mesma pessoa. O rapaz que estava à minha frente a olhar para mim com aquela expressão profunda e confusa, era Alexandre Freitas, o mesmo que estava dentro daquele caixão e tinha acabado de ser enterrado.
Senti as minhas pernas bambas. Um frio subiu pela minha espinha. A minha boca ficou seca. Tentei dizer alguma coisa, mas não saiu som nenhum. E foi aí que percebi que ele também estava a começar a entender alguma coisa. A confusão no rosto dele estava a ficar maior, as sobrancelhas franzidas, os olhos arregalados. Era como se naquele preciso momento nós os dois estivéssemos a perceber a mesma coisa impossível. Ele não era um visitante.
Não era um amigo da família que tinha ficado para trás. Ele era Alexandre. o espírito de Alexandre. E ele estava ali de pé à minha frente, sem compreender o que tinha acontecido com ele. Não sei quanto tempo ali ficamos parados a encarar-nos. O tempo parou para mim naquele momento. O meu coração estava a bater tão forte que eu conseguia ouvir dentro dos meus ouvidos.
O Alexandre continuava a olhar para mim e quanto mais me olhava, mais a expressão dele mudava. A confusão estava a dar lugar a algo pior. Ele estava a começar a perceber, estava a começar a compreender. Tentei dar um passo atrás, mas as minhas pernas não obedeceram. Sentia um peso no peito, como se alguém estivesse apertando o meu coração com as mãos.
O sol tinha-se posto completamente. O cemitério estava a ficar escuro. Só a luz fraca dos postes no caminho principal iluminava um pouco o local. E ali, naquela penumbra, vi o Alexandre parado à minha frente, cada vez mais real e ao mesmo tempo, impossível. Foi quando finalmente falou: “O quê? O que está a acontecer?” A voz dele saiu baixa, rouca, como se não tivesse sido usado há muito tempo, ou como se ele mesmo não acreditasse que estava falando.
Tentei responder, mas a minha garganta estava fechada. Nenhum som saiu. Deu um passo na minha direção. Instintivamente dei um passo atrás. “Por favor”, disse. E a voz dele tinha um tom de desespero que me fez parar. “Por favor, explica-me o que está a acontecer? Eu não, não entendo.” Engoli em seco. Forcei a minha voz a sair, mesmo que fraca e trémula.
“Você, você é Alexandre?” Ele assentiu com a cabeça devagar. Sou. E você? Quem? Quem é você, Francisco, eu trabalho aqui no cemitério. Silêncio. Ele olhou em redor como se estivesse realmente a ver o cemitério pela primeira vez. Então, olhou de volta para mim. Eu não, eu não compreendo porque estou aqui, disse. A voz dele começava a ficar mais agitada.
Eu estava na faculdade, estava falando com os meus amigos, a gente estava a rir-me de alguma coisa, nem me lembro mais do que. E depois parou, levou a mão ao peito como se estivesse a sentir algo ali. Depois senti uma dor. Ele continuou, a voz trémula, uma dor forte aqui no peito. Quis dizer alguma coisa, mas não saiu nada.
E depois, depois só escuridão. E quando eu quando eu acordei, estava aqui a passear por este cemitério. Meu Deus, ele não sabia. Ele realmente não sabia o que tinha acontecido com ele. Alexandre, comecei, mas a minha voz falhou. Como é que eu ia dizer aquilo? Como é que eu ia dizer a um rapaz de 20 anos que tinha morrido? Eu vi aquelas pessoas todas aqui.
Ele continuava a falar mais rápido agora. Vi minha mãe, vi o meu pai, os meus irmãos, os meus amigos, toda a gente a chorar, toda a gente olhando para aquela caixa, aquele caixão. E eu tentei, tentei me aproximar, tentei falar com eles, mas ninguém, ninguém me via, ninguém me ouvia.
A voz dele estava a ficar cada vez mais desesperada. Por quê? Porque ninguém me via, porque a minha mãe não me olhava quando eu chamava por ela? E aquela foto, aquela foto na lápide sou eu. Mas porquê? Porquê por minha foto está ali? Deu mais um passo na minha direção. Estava quase demasiado perto agora. Por favor, implorou. Me fala o que está a acontecer.
Fala-me por estou aqui. Porque ninguém me vê, só você. Naquele momento, algo de estranho aconteceu. Juntamente com o medo que me paralisava, surgiu outro sentimento, porque eu olhava para aquele rapaz e via o seu desespero, via confusão, via alguém completamente perdido, sem perceber nada, pedindo ajuda. E por algum motivo que não consigo explicar até hoje, ele tinha-me escolhido.
de todas as pessoas que passaram por aquele cemitério hoje, de todas as pessoas que estavam no seu funeral, fui eu que ele escolheu para pedir ajuda. Mas porquê? Porque eu quem sou eu? Sou apenas um coveiro, um homem simples que trabalha com a terra e com os mortos. Não sou padre, não sou nada de especial porque ele escolheu-me, Alexandre. Consegui dizer.
A minha voz ainda trémula, mas um pouco mais firme. Você Você Você teve uma paragem cardíaca na faculdade. O seu coração deixou de bater. Ele olhou-me sem entender. O seu corpo parou. Continuei sentindo as palavras pesarem na minha língua. Mas você, o seu espírito, você ainda está aqui. Você não conseguiu partir. Vi quando a ficha caiu.
Vi o exato momento em que compreendeu o que eu estava a dizer. A expressão de confusão no seu rosto transformou-se em algo muito pior. Horror, pânico, desespero absoluto. Não, ele disse abanando a cabeça. Não, não, não. Isso não pode, não pode ser verdade. Eu não posso estar morto. Eu estava bem. [música] Estava vivo.
Eu não posso estar. E foi quando começou a entrar em pânico de verdade. Não, não pode ser. Eu quero, eu quero voltar. Eu quero voltar paraa minha mãe, para o meu pai. Eu tenho, tenho que falar com eles que eu não estava preparado. Alexandre virou para mim de novo. E desta vez, por favor, ajudem-me. Não sei o que fazer. Não sei para onde ir. Estou com medo.
Estou com muito medo. E vi no olhar dele uma coisa que nunca mais me vou esquecer. Vi alguém completamente perdido. Alguém que tinha sido arrancado da vida sem aviso. Mesmo sem perceber porquê, mesmo sem saber como. Eu sabia que tinha sido escolhido por algum motivo e que eu precisava de ajudar aquela alma perdida.
Respirei fundo e dei um passo na direção dele. “Alexandre”, disse eu, tentando manter a voz firme. “Eu não sei porque você escolheu-me. Não sei porque é que eu consigo ver-te e os outros não, mas eu vou tentar ajudá-lo”. Olhou-me com uma esperança tão grande nos olhos que doeu-me no peito. “Como?”, ele perguntou.
“Como? Como é que me pode ajudar?” Eu não sabia bem. Nunca tinha passado por nada parecido com aquilo na vida. 13 anos a trabalhar no cemitério e nunca, nenhuma vez, vi um espírito. Nunca acreditei muito nestas coisas, para ser sincero. Quem era eu para fazer aquilo? Eu era apenas o Francisco, um coveiro, um homem simples que ganhava vida a cavar covas e a ajudar famílias nos enterros.
Não tinha estudo especial, não era padre, não tinha dom nenhum. Por que aquele rapaz tinha vindo ter comigo? Por mim Mas olhando-o ali, tão perdido, tão desesperado, senti que não podia simplesmente deixá-lo sozinho. Não podia virar costas e ir embora. Vem”, disse eu, fazendo-lhe sinal para se aproximar do túmulo. “Vem cá.” Ele obedeceu, caminhando lentamente até ficar ao meu lado.
Ficámos os dois ali parados em frente daquela cova recém fechada, onde o corpo dele repousava. “Ajoelha aqui comigo, pedi.” O Alexandre olhou para mim confuso, mas ajoelhou-se. Eu ajoelhei-me também. Doíam-me as pernas. O meu corpo estava cansado do dia inteiro de trabalho, mas isso não importava naquele momento.
Juntei as mãos e fechei os olhos e comecei a rezar. Não foi uma oração bonita ou bem falada. Não usei palavras difíceis ou excertos da Bíblia que não decorava bem. Falei do coração, falei da maneira que sabia, Senhor. Comecei e a minha voz estava tremendo, oscilando entre o sussurro e as palavras partidas. Eu não sei o que estou a fazer aqui. Não sei porquê.
O Senhor escolheu-me para isso. Minha garganta apertava a cada palavra. Senti as lágrimas já a começar a formar-se nos cantos dos olhos. Mas há aqui um rapaz do meu lado que precisa de ajuda. Ele está perdido, está com medo. Ele não compreende o que lhe aconteceu. Senti O Alexandre mexer-se ao meu lado.
Abri um olho e vi que também tinha juntado as mãos e fechado os olhos. As mãos dele tremiam. Era só um menino, senhor. Continuei, a voz a falhar, as palavras a sair entrecortadas. 20 anos, tinha a vida toda no pela frente e de repente o coração dele parou sem aviso, sem hipótese de se despedir da família, dos amigos, de ninguém.
E agora está aqui preso, sem saber para onde ir. A minha voz começou a falhar completamente. As lágrimas desciam pelo o meu rosto. Senti as lágrimas a virem, mas não segurei. Deixei cair. O meu corpo inteiro tremia. Por favor, Senhor, ajuda ele a encontrar o caminho. Ajuda-o a aceitar o que aconteceu.
Perdoa qualquer coisa que ele tenha feito de errado. Em vida. Ele era novo. Ainda estava aprendendo. Todos nós somos falhos ou todos nós erramos. Mas ele merece paz, merece descansar. Foi quando senti algo mudar no ar, uma presença. Não sei explicar bem, mas era como se algo tivesse chegado ali. Algo grande, algo poderoso.
Não era ameaçador, mas era intenso. Tão intenso que fez o meu corpo inteiro tremer ainda mais forte. O quê? O que é? Ele perguntou a voz também tremendo. Não sei, respondi, mas acho que eu acho que é a tua hora de ir ir para onde? Para onde precisa de ir? Para o local que foi preparado para você. Olhou-me com medo nos olhos, mas não sei o que lá está.
Eu não sei o que me vai acontecer. E se for algo mau? E se eu, Alexandre? Eu disse, e pela primeira vez a minha voz saiu firme, mesmo ainda a tremer. Você precisa de confiar. É preciso ter fé. O que quer que tenha acontecido na sua vida, seja o que for que tenha feito, está tudo bem agora. Está perdoado. Você pode ir em paz.
A presença estava ficando mais forte, como se estivesse chamando, convocando. Alexandre sentiu também. Precisa de ir. Eu disse: “Mas não está sozinho, nunca esteve”. Olhou para mim e naquele olhar vi tanta coisa: gratidão, medo, esperança, aceitação. “Obrigado”, disse a voz um fio: “Vai em paz, Alexandre. O teu família vai sempre amar-te, sempre vai se lembrar de si.
Você não vai ser esquecido”, respondi, as lágrimas ainda escorrendo pelo meu rosto. E foi quando vi algo que nunca esquecerei pelo resto da minha vida. Alexandre começou a mudar. A expressão de medo e confusão no rosto dele começou a transformar-se. Devagar foi dando lugar a outra coisa: paz. Uma paz profunda, tranquila.
Ele olhou para mim uma última vez e sorriu. Eu percebi agora. Ele disse: “Eu aceito.” E depois, à minha frente ele começou a desaparecer. Quando ele desapareceu completamente, senti algo sair de mim. Um peso enorme que eu nem sabia que estava a carregar. Saiu do meu peito, do meu corpo todo. Era como se eu tivesse estado a carregar uma pedra gigante às costas e alguém finalmente a tivesse tirado de lá.
Fiquei ajoelhado ali sozinho no escuro, chorando, chorando de alívio, chorando de exaustão, a chorar porque tinha acabado. Não sei quanto tempo fiquei ali. Pode ter sido 5 minutos, pode ter sido meia hora. Estava tão cansado que não me conseguia mexer. Não tinha força nas pernas, não tinha força em nada. Francisco, Francisco, estás bem? Era a voz de um dos vigias.
Ele tinha vindo ver porque é que eu ainda não tinha saído do cemitério. Ele encontrou-me ali ajoelhado, a chorar, com as mãos ainda juntas. Tentei dizer alguma coisa, mas não saiu nada. A minha garganta estava fechada. O que aconteceu? Ele perguntou preocupado. Está machucado? Abanei a cabeça que não. Ele ajudou-me a levantar.
As minhas pernas estavam bambas. mal me conseguiam sustentar. Ele apoiou-me e ajudou-me a caminhar até ao saída. Quer que eu chame alguém? Quer que o leve ao hospital? Não, só só me leva a casa. Ele levou-me até ao carro dele e deu-me boleia. No caminho. Não disse nada. Não conseguia. Também não perguntou mais nada. Nessa noite não consegui dormir.
Ficava a pensar em tudo o que tinha acontecido e ficava a perguntar-me por eu? Porque fui eu o escolhido para ajudá-lo? Nunca vou saber a resposta. É um mistério que vou carregar para o resto da vida. Mas uma coisa aprendi naquele dia. Aprendi que nunca nos sabe do que é capaz até ser testado de verdade.
Mas só quando fui posto à prova, só quando precisei de usar essa fé para ajudar alguém, é que compreendi o quanto ela era importante. Se tem uma coisa que eu quero que tu que estás vendo isto entenda, é o seguinte. A gente nunca está.