REINALDO BRAGA, ENTERRADO EM 2003… PASSOU POR DENTRO DE MIM HORAS DEPOIS DE SER ENTERRADO | Terror
REINALDO BRAGA, ENTERRADO EM 2003… PASSOU POR DENTRO DE MIM HORAS DEPOIS DE SER ENTERRADO | Terror
O cemitério em Outubro de 2003 não estava diferente em nada que pudesse apontar com o dedo. O calor de Manaus tinha cedido um pouco no início da tarde. O tipo de alívio que a cidade dá de vez em quando, sem avisar. E eu tinha terminado o serviço do dia com o cansaço normal de quem já enterrou pessoas suficiente para não contar mais.
Reinaldo Costa Braga tinha 22 anos. Eu tinha coberto a última palada de terra sobre o seu caixão 3 horas antes, com a mãe dele ainda de joelhos na relva do lado, com os irmãos a segurá-la pelos braços, com aquele choro específico de mãe que perde um filho novo, que não tem som semelhante a nenhum outro choro do mundo.
Acidente de obra, jovem que saiu de casa de manhã e não voltou. Eu já tinha visto isto antes e já sabia que este tipo de enterro pesa diferente dos outros. Fica na garganta de uma forma que os enterros de velho não ficam. Quando o cemitério se esvaziou e a tarde foi fechando lentamente sobre Manaus, eu fui fazer a última ronda do dia e o frio chegou antes de eu virar a esquina do corredor.
Não o frio do ar condicionado, não o frio da sombra de uma árvore. Era um frio que não tinha origem, que não tinha direção, que ocupava o ar como se o ar tivesse mudado de natureza naquele corredor específico. Parei e quando levantei os olhos, Reinaldo estava ali de pé em frente da própria sepultura, olhando para mim com uma expressão que não era de assombração, era de alguém que não compreende o que está a acontecer e está à espera que alguém explique.
Comenta aqui em baixo se acredita que tem almas que ficam presas sem saber que morreram. E deixa o like antes de continuar, porque daqui a pouco vai perceber o que senti quando ele passou por dentro de mim. E por levei s dias para conseguir dizer o que precisava ouvir para ir embora de vez. O meu nome é João Batista Mendes. Tenho 52 anos.
Nasci no bairro da Compensa aqui em Manaus. Filho de pescador e de dona de casa. Crescia entre o rio e a rua com a simplicidade de quem não tinha muito, mas também não sentia falta do que não conhecia. Entrei no cemitério com 25 anos, por indicação de um vizinho que trabalhava lá e que disse que tinha vaga e que pagava certinho no dia.
E naquela época pagava certinho no dia, era o suficiente para mim decidir qualquer coisa. Não entrei com vocação, não entrei com chamado, não entrei com qualquer relação especial com a morte para além da que qualquer pessoa tem, que é a de preferir não pensar muito nela. Entrei porque precisava de trabalhar e porque a vaga estava aberta.
Nos primeiros anos, eu era exatamente o que a maioria dos funcionários novos é. Alguém que aprende rápido a separar o trabalho do sentimento porque não há outra forma de funcionar, que aprende a ver o caixão como objeto e a cova como tarefa, e a família a rezar na primeira fila como parte do cenário que se repete, com rostes, mas com a mesma dor de sempre.
Não era crueldade, era necessidade. Coveiro que chora em todo o enterro não termina o serviço. Aprende a ter uma parede suficientemente fina para não te deixar insensível completamente, mas grossa o suficiente para te deixar funcionar. Eu construí esta parede nos primeiros anos e confiei nela durante muito tempo.
O que eu não esperava era que o cemitério fosse construindo outra coisa em mim ao mesmo tempo, devagar, sem pedir licença, sem que eu me apercebesse que estava a acontecer. Não foi de um dia para o outro. Foi ao longo de anos uma camada fina de cada vez, como a humidade de Manaus, que vai entrando em tudo sem que a veja entrar.
E quando dá por si, já está no osso. Comecei a notar, talvez uns s ou 8 anos depois de entrar, que eu sentia coisas no cemitério que não tinham explicação física. Não era loucura, não era cansaço, não era o calor da Amazónia pregando partida na cabeça de um homem. que ficava horas ao sol era outra coisa. Era uma percepção que chegava por baixo dos sentidos normais, como uma frequência que o corpo capta antes do cérebro processar.
Eu sentia quando um setor do cemitério estava pesado antes de passar por ele. Sentia quando um túmulo específico tinha algo que os outros não tinham. Sentia, nos dias que se seguiram a alguns enterramentos específicos, uma presença que não era de ninguém vivo, mas que era real o suficiente para me fazer virar o pescoço sem saber exatamente o que estava procurando.
Eu nunca falei disso para ninguém durante anos, não porque tivesse medo de acreditar, mas porque tinha medo do que os colegas iam encontrar. Coveiro que diz que sente uma coisa no cemitério, vira-se piada rápido e eu não queria ser piada. Então fui carregando aquilo em silêncio, aquela sensibilidade que crescia aos poucos sem que eu tivesse pedido e fui aprendendo a viver com ela sem nomear, sem sistematizar, sem transformar em crença formal.
Era só aquilo, uma perceção que eu tinha e que a maioria dos meus colegas não tinha, ou que tinham, mas também não falavam por exatamente o mesmo motivo que eu não falava. Em Outubro de 2003, tinha 27 anos de profissão. Tinha enterrado mais gente do que qualquer pessoa deveria ser capaz de contar.
tinha visto de tudo, famílias que chegavam destruídas e famílias que chegavam aliviadas, enterramentos que duravam horas com uma multidão e enterros que se realizavam com duas pessoas e um padre de serviço, caixões simples de madeira fina e caixões de madeira nobre com ferragem dourada. tinha aprendido que a morte não tem preferência de turma, que ela apanha o rico e o pobre com a mesma indiferença e que o tamanho do caixão não diz nada sobre o tamanho da falta que a pessoa vai fazer.
E tinha aprendido ao longo de todos estes anos, com aquela sensibilidade que eu carregava, sem nomear, que alguns enterramentos chegavam com um peso diferente que sentia antes mesmo de saber quem estava no caixão. O O funeral de Reinaldo Costa Braga chegou com esse peso. Soube do serviço na manhã daquela quinta-feira. Nome, idade, causa de morte, setor destinado, horário do enterro.
22 anos, acidente de obra, setor nascente, 2as da tarde. Eu preenchi a ficha com a objetividade de sempre e fui preparar o que precisava de ser preparado. Mas alguma coisa nesse nome, ou naqueles 22 anos ou na causa escrita ali com a frieza burocrática de um acidente de obra, ficou comigo de uma forma que eu não consegui sacudir.
Fui até ao setor leste mais cedo do que o necessário. Olhei para o espaço destinado ao enterro de Reinaldo e senti aquela frequência que conhecia, mais forte do que de costume, como se o local já conhecesse o que estava para receber e estivesse avisando com antecedência. A família chegou às 2as da tarde a horas. A mãe de Reinaldo chamava-se Dona Celeste, uma mulher de talvez 45 anos que parecia ter envelhecido uma década em poucos dias, com o rosto inchado de choro e os olhos que não se focavam em nada de forma constante, como se a mente estivesse
indo e voltando de um lugar que o corpo não conseguia acompanhar. Havia dois irmãos mais novos, um com cerca de 18 e outro de uns 15. Os dois com aquela expressão específica de jovem perante a morte, que ainda não processou completamente, que ainda está numa fase entre o choque e o entendimento real.
Havia uma namorada, uma rapariga de cabelo apanhado e vestido escuro, que chorava sem fazer som. o tipo de choro que é mais fundo do que o que tem ruído. E havia uns poucos vizinhos e amigos que completavam o pequeno grupo em redor do caixão simples de madeira escura que continha Reinaldo Costa Braga, 22 anos, trabalhador de obra, morto numa queda de andaime numa construção no bairro do Aleixo numa manhã de segunda-feira desse mês de outubro.
Eu fiz o meu serviço com o respeito de sempre. Quando a família estava ali, eu dava-me mantinha à distância adequada, disponível, mas não intrusivo, presente, mas não visível, que é o equilíbrio que aprende-se com os anos nessa profissão. Observei a cerimónia breve do padre. Observei a dona Celeste colocar a mão sobre o caixão antes do enterro.
Com um gesto que era ao mesmo tempo despedida e recusa de despedida. Observei o irmão mais novo virar a cara quando a terra começou a cair. Quando a família foi embora devagar, com aquele passo pesado de quem está a sair de um lugar, mas deixando a parte mais importante do mesmo para trás, terminei o serviço.
Cobri a última palada de terra, nivelei o túmulo, posicionei a identificação provisória e saí do setor com aquela frequência ainda ativa, ainda presente, mais forte do que tinha sido antes do enterro, como se enterrar o corpo de Reinaldo tivesse intensificado em vez de encerrar. Achei que era o tipo de dia pesado que abana e deixa para trás. Estava errado.
O frio chegou quando virei à esquina do corredor do setor nascente às 5:30 da tarde. Manaus em outubro não tem frio. Manaus em outubro tem calor húmido. Tem o tipo de temperatura que se cola à roupa e não sai, que faz com que o suor escorra antes de você ter feito esforço nenhum. O frio que chegou àquele corredor não era explicável por nenhuma variação climática que eu pudesse nomear.
era localizado, com fronteira definida que apercebi-me quando recuei um passo e avancei de novo dentro do frio, fora do frio, dentro do frio outra vez. E tinha uma qualidade naquele frio que eu não consigo descrever de outra forma, senão dizendo que ele tinha intenção, que ele não estava ali por acidente, que havia algo dentro daquele frio que era consciente da minha presença, da mesma forma que eu estava consciente da dele.
Levantei os olhos. Reinaldo estava a a cerca de 15 m de mim, de pé no corredor, de frente para a própria sepultura. Tinha o uniforme de trabalho ainda, as calças de brincadrez de manga curta, que era provavelmente o que tinha vestido quando o acidente aconteceu. As botas de segurança com a biqueira de aço.
Estava sólido o suficiente para que não tivesse dúvida sobre o que estava a ver. Não era vulto, não era sombra, não era a luz da tarde a pregar-me partida, era o Reinaldo. com a mesma altura, a mesma estrutura física do jovem que eu tinha visto no caixão horas antes, mas de pé e me olhando com uma expressão que levei alguns segundos para conseguir ler, porque não era nenhuma das expressões que eu associava ao sobrenatural, era confusão.
a expressão de alguém que está num lugar que reconhece, mas que não compreende o que está ali a fazer, que está a olhar ao redor, procurando uma referência que explique a situação e que não encontra nenhuma. Era a expressão de quem está perdido num sentido que vai para além do físico, perdido numa situação que não faz sentido e que a mente ainda não aceitou como a nova realidade.
Eu não consegui mexer-me. Não era paralisia de medo, era outra coisa. Era o tipo de imobilidade que acontece quando o cérebro recebe uma informação que não cabe em nenhuma categoria existente e bloqueia enquanto tenta criar uma nova. Fiquei parado a olhar para o Reinaldo e O Reinaldo ficou parado a olhar para mim durante um tempo que não sei quantificar.
Pode ter sido 30 segundos, pode ter sido 2 minutos. O relógio interno pára de funcionar corretamente nestas situações. E depois começou a andar na minha direção. Não era um andar ameaçador. Era o andar de alguém que viu um rosto conhecido num lugar estranho e vai em direção a ele. Porque rosto conhecido é âncora, quando tudo à volta não faz sentido.
Ele veio andando com aquela mesma confusão no rosto, olhando para mim como se eu fosse a única coisa naquele cemitério que pertencia ao mundo, que ainda reconhecia. E eu Continuei parado porque as minhas pernas não receberam qualquer instrução que funcionasse naquele momento. Quando ele chegou perto, o frio intensificou-se de uma forma que foi física, que fez com que a minha respiração sair visível no ar quente de Manaus, como se estivesse num frigorífico.
E depois passou por dentro de mim. Eu não tenho palavras que cheguem perto do que foi aquilo. Não é o tipo de experiência que a linguagem foi feita para descrever, porque a linguagem foi feita para descrever coisas que acontecem no exterior do corpo. E o que aconteceu naqueles segundos aconteceu por dentro, num local que não é físico, mas que é mais real do que qualquer coisa física que já senti.
senti o frio absoluto, o tipo de frio que não é temperatura, mas é ausência. Ausência de calor, de peso, de presença, como se o espaço que Reinaldo ocupava fosse um buraco no tecido do que é real. Senti o peso de uma angústia que não era minha, uma angústia específica e reconhecível como a de alguém que está procurando alguma coisa com urgência e não sabe o que é, que está a tentar chegar a algum lado e não sabe onde é.
E senti por baixo de tudo isto algo que demorei dias a nomear, mas que quando nomeei entendi tudo. Senti a desorientação absoluta de alguém que ainda não sabe que morreu. Ele passou por mim e continuou a andar pelo corredor como se eu já não estivesse ali, como se tivesse seguido em frente depois de não encontrar o que procurava.
e desapareceu na curva do corredor com aquele mesmo andar de quem está perdido e não sabe que está perdido. Eu fiquei parado no corredor vazio, com o frio a tornar-se dissipando-se aos poucos e com uma certeza que não precisava de mais nenhuma evidência. Reinaldo Costa Braga não sabia que tinha morrido e não ia sair daquele cemitério enquanto ninguém lhe dissesse isso.
Na sexta-feira, cheguei ao trabalho com aquela certeza ainda intacta e sem saber o que fazer com ela. Não havia manual para aquilo, não havia procedimento, havia apenas eu, com 27 anos de cemitério e com aquela sensibilidade que nunca tinha nomeado, mas que naquele momento estava mais ativa do que alguma vez tinha estado, tentando perceber como é que um homem de 52 anos conta a um morto que é um morto.
Fui ao setor nascente no início da manhã, antes do primeiro serviço do dia. O frio estava lá, menos intenso do que na véspera mais presente, e houve uma qualidade no ar em redor do túmulo de Reinaldo, que era diferente dos túmulos em redor, mais densa, mais carregada, como se aquele metro quadrado de terra estivesse a respirar num ritmo diferente do resto do cemitério.
Eu fiquei parado em frente do túmulo durante algum tempo, com o boné na mão e os olhos no chão, e tentei falar. Saiu pouca coisa, pouca coisa. certa. Eu não sabia como começar uma conversa daquelas. E o constrangimento de estar de pé num cemitério a falar em voz baixa para um monte de terra me travou antes de eu conseguir chegar a qualquer lugar útil.
Reinaldo não apareceu. O frio permaneceu. Eu voltei ao serviço com a sensação de que tinha tentado e de que tentar daquela maneira não era o suficiente. No sábado, apareceu de novo. Era de manhã cedo, antes dos primeiros visitantes a chegar. E eu estava a fazer a ronda do setor sul, quando sentiu o frio no pescoço e virei-me.
Reinaldo estava a cerca de 10 m de costas, desta vez olhando para a saída do cemitério com aquela postura de quem está avaliando se vai ou não vai, como se estivesse a decidir entre continuar naquele local ou tentar ir embora por aquela direção. Chamei-o pelo nome em voz baixa. virou-se devagar, olhou-me com aquela confusão ainda intacta e desta vez ficou mais tempo antes de se dissolver, como se a segunda vez que nos encontrávamos tivesse criado algum tipo de reconhecimento entre nós que a primeira não tinha tido. Mas antes que eu
conseguisse dizer alguma coisa que prestasse, ele foi-se embora de novo. E eu Fiquei ali com o nome dele na garganta e sem saber como transformar aquele nome em qualquer coisa útil. Eu passei o domingo em casa a pensar, a minha esposa Raimunda, percebeu que eu estava diferente, mas conhecia o suficiente dos os meus silêncios depois de tantos anos para saber quando perguntar e quando deixar. Ela deixou.
Eu fiquei na varanda até tarde, com uma cerveja a aquecer na mão e com a imagem de Reinaldo olhando para a saída do cemitério na cabeça, tentando perceber o que aquilo significava. E acho que foi nessa noite de domingo que comecei a compreender de verdade o que estava a acontecer. Reinaldo não estava a assombrar o cemitério por maldade.
Não estava preso por nenhuma força externa. Não havia ritual, não havia maldição, não havia nada de sinistro na origem daquilo. Havia apenas um jovem de 22 anos que tinha saído de casa numa segunda-feira de manhã para trabalhar e que em algum momento entre o andaime e o chão tinha perdido o fio que ligava-o à vida e que agora estava caminhando num cemitério sem compreender o que estava a fazer num cemitério, procurando uma saída que ele não encontrava, porque a saída que estava procurando não era a porta metálica da entrada, era outra coisa completamente.
Eu precisava de lhe contar o que tinha acontecido. Precisava de encontrar uma forma de fazer chegar aquela informação num lugar que ele pudesse receber. Na segunda-feira cheguei mais cedo. Fui direto para o setor leste, sentei-me na borda de um túmulo próximo do de Reinaldo e fiquei.
Não fiz ronda, não atendi chamado de colega. Fiquei ali à espera com a paciência de quem aprendeu que apressar as coisas num cemitério é o forma mais rápida de não resolver nada. O frio chegou às 8h30 da manhã e Reinaldo apareceu poucos minutos depois, mais próximo do que nas outras vezes, a uns 5 m, ainda com aquele uniforme de obra e aquela confusão no rosto que não tinha diminuído em nada nos dias anteriores.
Comecei a falar antes que ele pudesse ir embora, não com ordem, não com lógica preparada, com o que saiu, que era a história de Reinaldo contada por mim para o Reinaldo, o seu nome, o nome da mãe, o bairro onde vivia, o nome da namorada, o nome da obra onde trabalhava. Eu disse cada coisa que sabia com o intuito de criar pontes, de usar os nomes que reconheceria como âncoras que o mantivessem presente e ouvindo.
E pela primeira vez em todos os nesses dias, senti que ele estava ouvindo de facto que havia algo na qualidade da sua presença, que era diferente das outras vezes, menos desorientada, mais atenta, como se o som do próprio nome e dos nomes das pessoas que amava estivesse a alcançar um lugar em que as outras coisas não tinham chegado. Falei sobre o acidente com o cuidado de quem sabe que a informação que está prestes a dar é a mais pesada de todas.
Eu disse que tinha acontecido uma coisa na segunda-feira de manhã na obra do bairro Aleixo. Eu disse que o Andi me tinha cedido, disse que ele tinha caído. E depois, com a voz mais firme que consegui segurar, disse que ele não tinha sobreviveu à queda, que o corpo tinha sido levado para o hospital, mas que não tinha dado tempo, que a mãe tinha chegado e que os irmãos tinham chegado e que a namorada tinha chegado e que todos tinham chorado muito, e que na quinta-feira à tarde tinha coberto a terra sobre o caixão dele, naquele sector
leste, enquanto a dona celeste ficava de joelho. do lado. O frio tornou-se absolutamente imóvel por um tempo que pareceu longo. O Reinaldo ficou parado me olhando com uma expressão que estava mudando enquanto eu observava a confusão cedendo espaço a outra coisa que eu Reconheci como o início do entendimento, aquele momento específico em que uma informação que a mente estava a recusar começa a ser aceite não porque ficou mais fácil de aceitar, mas porque continuar a recusar tornou-se impossível.
Eu vi aquilo acontecer na cara dele e foi uma das coisas mais pesadas que já presenciei em 27 anos de cemitério, porque havia uma dor naquele momento de entendimento que era diferente do qualquer dor que eu já tinha visto. Era a dor de quem está a descobrir que o mundo continuou sem ele e que não há volta. Mas havia algo mais que precisava de ser dito e eu sabia disso.
Na terça-feira eu voltei. O frio era diferente, menos denso, com uma qualidade que eu descreveria como mais tranquila, se tranquila fosse uma palavra que se adequasse num frio sobrenatural. E o Reinaldo apareceu mais depressa do que nos outros dias, como se estivesse esperando. Havia algo na sua postura que tinha mudado.
Ainda era o mesmo uniforme, ainda eram as mesmas botas de biqueira de aço, mas o andar de quem não sabe onde está tinha desaparecido. E no lugar havia uma quietude que era nova e que me pareceu, ao ver, como o início de uma aceitação que ainda não estava completa, mas que se estava a formar. Eu falei sobre a dona Celeste.
Eu disse que ela estava a ser cuidada pelos irmãos. Falei que a namorada tinha ido ao cemitério no dia seguinte ao enterro e tinha ficado um tempo no túmulo em silêncio. Eu disse que as pessoas que ele amava estavam com dores, mas estavam a ser sustentadas pela família e pelos vizinhos, que o bairro se tinha mobilizado, que a vida deles ia continuar mesmo com a falta dele no meio.
Não porque não fizesse falta, mas porque a vida tem esta crueldade específica de continuar independentemente do tamanho do buraco que alguém deixa. Eu disse tudo isto não para diminuir a dor do Reinaldo, mas porque acreditava com aquela sensibilidade que tinha crescido em mim ao longo de décadas, que uma alma presa entre os dois mundos precisava de ouvir que quem ficava ia conseguir continuar antes de conseguir ela própria ir embora.
E então eu falei sobre a luz, não com certeza teológica, não com o vocabulário de padre ou de pastor, com o vocabulário simples de um homem de 52 anos, que passou quase três décadas a viver com a morte de perto e que foi construindo ao longo deste tempo uma crença que não cabia em nenhum dogma específico, mas que era sólida da forma que só as coisas construídas pela experiência são.
Eu disse ao Reinaldo que o que estava do outro lado não era o nada, que não sabia descrever com precisão porque nenhum vivo sabe, mas que em 27 anos de cemitério tinha visto coisa suficiente para acreditar com convicção que havia algo à espera, algo que não era castigo, não era escuridão, não era o fim no sentido absoluto, que havia uma passagem e que a passagem estava aberta para ele, que ficar naquele corredor de terra batida e de calor húmido de Manaus não era o destino dele, era o meio do caminho.
E que o meio do caminho não foi feito para ser morada. Eu disse que a dona Celeste ia querer que ele fosse, que os irmãos iam querer, que a namorada ia querer, que nenhuma pessoa que amasse Reinaldo Costa Braga ia querê-lo parado num cemitério de Manaus, enquanto houve um lugar melhor esperando do outro lado daquilo tudo.
e que soltar não era abandono, que ir embora não era deixar as pessoas que ficaram, que o amor não quando a alma passa para outro plano. Ele só muda de forma, fica disponível de outra forma, continua a ser real, mesmo quando não é mais físico. O frio começou a dissipar enquanto eu falava. Não de uma vez, aos poucos, como o frio normal se dissipa quando o sol sobe, mas havia uma intenção nesta dissipação, que era diferente das outras vezes.
Não era interrupção, era o encerramento. Reinaldo estava a olhar para mim com uma expressão que nunca esquecerei e que não tenho palavra exata para descrever em português ou em qualquer outra língua. Era uma expressão que tinha ao mesmo tempo, a dor do entendimento completo e o início de uma paz que aquela dor não contradizia, como se as duas coisas pudessem existir no mesmo rosto ao mesmo tempo.
A perda e a aceitação, o peso e o alívio. Eu vi aquilo e mantive o olhar nele, porque parecia importante não desviar. Parecia que era necessário que houvesse alguém do lado de cá sustentando aquele momento com atenção. E depois ele foi embora. Não da forma brusca das outras vezes, não desaparecendo de repente como se tivesse interrompido. Foi-se embora devagar, com aquela expressão ainda no rosto.
E à medida que se foi dissolvendo-se, o frio foi com ele e o ar do setor nascente voltou a ser o ar normal de Manaus em outubro, quente e húmido e sem qualquer fronteira inexplicável. Eu Fiquei sentado na borda do túmulo vizinho durante um tempo considerável depois que foi, sem pressa de se levantar, com as mãos espalmadas sobre os joelhos e os olhos no túmulo de Reinaldo Costa Braga, 22 anos, e com uma sensação no peito que era a coisa mais próxima da paz que eu tinha sentido em toda aquela semana.
Nunca mais sentia a presença de Reinaldo naquele setor. O frio localizado não voltou, a densidade do ar em redor do túmulo normalizou e nos dias e semanas que se seguiram, o setor leste voltou a ser o que qualquer setor de cemitério é, um lugar tranquilo, com fileiras de túmulos e o sol de Manaus a bater em tudo sem pedir licença.
A dona Celeste voltou algumas semanas depois com os filhos, colocou flores no túmulo, ficou um tempo em silêncio. Vi-a de longe e não me aproximei-me porque não havia nada que eu pudesse dizer, que não fosse invasão de um momento que era dela e do filho, e porque havia uma parte do que tinha acontecido nessa semana, que era a minha e que precisava de guardar como minha, não por egoísmo, mas porque algumas experiências perdem alguma coisa essencial quando são transformadas em conversa antes de assentar completamente.
Tenho 52 anos e trabalho nesse cemitério há 27. Já vi muita coisa que não tem explicação nos corredores desta profissão. Já desenvolvi ao longo de décadas uma relação com o que está para além do visível que a maioria das pessoas prefere não ter e que aprendi a ter com respeito, sem deixar que se virasse medo.
Mas o que aconteceu nessa semana de Outubro de 2003 com Reinaldo Costa Braga é diferente de tudo o que veio antes e de tudo o que veio depois. Não pelo espetáculo, porque não havia espetáculo naquilo. Havia apenas um jovem perdido e um coveiro de meia idade sentado na borda de um túmulo tentando encontrar as palavras certas.
É diferente porque foi a única vez em 27 anos que senti com uma clareza que não deixou margem para dúvida, que o meu trabalho tinha ido além de cobrir terra sobre caixão, que tinha feito alguma coisa por alguém que não havia mais ninguém do lado de cá para fazer por ele. Se há uma coisa que esta profissão ensina, é que a morte não é o fim que a gente teme quando é jovem e acredita que vai durar para sempre.
Ela é uma passagem e como toda a passagem algumas vezes emperra. Emperra por dor, por susto, por apego, por amor que não teve tempo de se despedir. E quando emperra, às vezes tudo o que é necessário para desbloquear é alguém que fique de pé ao lado e diga a verdade com respeito, sem medo e sem pressa.
Eu aprendi que com o Reinaldo e carrego essa aprendizagem em cada enterro que faço desde então, especialmente nos enterramentos de jovem, especialmente quando a família sai e eu fico sozinho com a terra recém-coberta e com o silêncio que nem sempre é só silêncio. Nesses momentos faço o serviço com atenção redobrada, com o respeito que sempre tive e com a disposição para ficar um pouco mais do que o necessário, caso haja alguém que ainda não compreendeu que já pode ir.
Apeguem-se a Deus. Não importa o nome que lhe dá para essa fé. Não importa o templo ou a tradição ou a forma que ela toma na sua vida. O que importa é que quando a escuridão se apresenta, quando o inexplicável surge na curva do corredor com cara de jovem de 22 anos que não sabe que morreu, é a fé que segura o chão sobo que aprendeu a chamar de real deixa de ser suficiente para explicar o que está à sua frente.
Eu estive de pé naquele corredor porque havia algo maior do que eu a sustentar-me. E acredito nisso com a convicção de quem não aprendeu nos livros, mas aprendeu no chão de um cemitério de Manaus numa tarde de outubro que o calor não justificava e o frio não tinha origem.