Tem Noite de SEXTA-FEIRA 13 Que Não Termina do Mesmo Jeito Que Começou | Pessoa Espiritual
Tem Noite de SEXTA-FEIRA 13 Que Não Termina do Mesmo Jeito Que Começou | Pessoa Espiritual
Senta-te aí, minha gente. Puxa o banco mais perto que esta noite o vtião do sertão tem um causo que vem de longe, de légua em légua, de catinga seca, de caminho de barro e noite sem lua. Não é causo de fantasma que aparece em casa, não é causo de coisa que corre pela estrada, de coisa que não tem cabeça, mas tem barulho, de coisa que quem viu uma vez nunca mais saiu debaixo da coberta fácil.
Já deixa o like, subscreve o canal e conta-me aí nos comentários de qual a cidade que me estás a ouvir agora, porque este causo começa com uma promessa quebrada. E promessa quebrada no sertão, minha gente. Cobra juros de uma forma que banco nenhum cobra. Abre o ouvido. Isto aconteceu nas margens do rio São Francisco, perto de Januária, no norte de Minas Gerais, nos idosos de 1948.
Terra de vaqueiro, de rezadeira, de rio largo que a gente olha e não vê o outro lado. Terra onde a fé não é enfeite de parede é coisa de sobrevivência. Gente que reza com o mesmo grave com que planta, porque sabe que sem os dois juntos não há colheita. O homem que vos vou contar chamava-se seu Geraldo, vaqueiro de tropa, homem de couro e distância.
Passava mais tempo na estrada do que em casa, conduzindo o gado de uma quinta para outra, conhecendo cada atalho, cada aguada, cada troço de boa sombra nas margens do velho Chico. Homem que tinha o sol no couro e a estrada nos pés, daqueles que não precisam de bússola porque o corpo inteiro já se tornou instrumento de orientação.
Geraldo era também um homem de fé. Tinha um terço de madeira escura que a mãe tinha benzido antes de ele sair de casa pela primeira vez, há anos. Rezava toda a noite antes de dormir, mesmo quando dormia no chão de terra batida batida, mesmo quando a almofada era a própria cela. e tinha uma devoção particular, São Bento.
Todos os anos, sem falta, Geraldo ia a pé até à festa de S. Benedito, no arraial de Tamarandiba. Não importava quantas léguas fossem, não importava chuva, nem sol bravo. Ia de pé, com a roupa de domingo guardada num embrulho de pano e chegava lá cansado, com bolha no calcanhar e o coração cheio. Era a promessa que tinha feito quando o filho mais novo ficou doente, anos antes.
O menino tinha um sarampão com febre que não baixava. E Geraldo prometeu a São Benedito: “Se o menino sarar, caminhava toda a vida até ao festa do santo.” O menino sarou e Geraldo cumpria. Todo o ano, pontual como a festa, até ao ano de 1948. Nesse ano, a tropa que Geraldo conduzia era maior do que o costume. 200 e tantas cabeças de gado, dois ajudantes novatos e um prazo apertado que o lavrador tinha colocado em cima do negócio.
Geraldo saiu de Januária numa segunda-feira de junho, calculando chegar ao destino em Montes Claros antes do fim da semana. A meio do caminho, chegou a notícia pelo vaqueiro que vinha em sentido contrário. A festa de S. O Benedito era nesse fim de semana. Geraldo parou a tropa, ficou a olhar para o horizonte da Caatinga com a conta na cabeça.
Montes Claros ficava para a frente e Tamarandiba ficava para trás e para o lado. Não tinha como fazer os dois. ou entregava o gado a tempo e perdia a festa, ou ia à festa e chegava atrasado, perdendo o bónus que o agricultor tinha prometido. Dinheiro de um lado, promessa do outro. Geraldo ficou parado mais tempo do que devia, depois tocou a tropa para a frente.
Chegou a Montes Claros, no prazo, recebeu o bónus, dormiu numa boa pensão, comeu feijão com carne e voltou para casa com o bolso mais gordo do que o habitual. Durante uns três dias, conseguiu não pensar muito no assunto. Ao quarto dia, a coisa começou. Foi na regressa a Januária, numa noite de quarta-feira. Geraldo e os dois ajudantes acamparam perto de um riacho seco, daqueles que só têm água em tempo de chuva e no resto do ano ficam como cicatriz no chão.
[pigarreia] Fizeram uma fogueira, comeram a paçoca que trouxeram e os dois ajudantes dormiram rápido. Que jovem homem de estrada dorme feito pedra. Geraldo ficou sentado perto do fogo, olhando as brasas. não conseguia dormir. Não era a culpa que admitia em voz alta. Era aquela coisa que fica por baixo do pensamento, no lugar onde não gostamos de olhar.
O desconforto sem nome, o peso sem endereço. Foi quando o cavalo de Geraldo, um zaino velho chamado Faisca, companheiro de muitos anos de estrada, levantou a cabeça de repente e ficou com as orelhas em pé. Geraldo conhecia a faísca, sabia cada comportamento do bicho e sabia que orelha em pé com esta postura específica, pescoço esticado, narina aberta, olho largo, era aviso de coisa que não era gente e não era um bicho comum.
Ficou quieto, à escuta. A noite estava em silêncio, grilos, vento manso, o estalar da fogueira. Depois de longe, de longe mesmo, de detrás do monte que estava a cerca de 300 m, veio um som. Ferradura em pedra. Claque, claque, claque. Rápido, galope de animal de grande porte, pesado, vindo em direção ao acampamento.
Geraldo ficou de pé. Os ajudantes não acordaram. O som cresceu, tornou-se mais perto, mais próximo, mais alto e depois parou. No meio do silêncio que veio depois, Geraldo esperou ver o animal aparecer à beira da luz da fogueira. Cavalo solto, talvez égua brava, algum animal que se tinha assustado com uma cobra e saído em carreira. Não apareceu nada.
O silêncio continuou. Faísca bufou nervoso e deu dois passos para trás, até onde estava amarrado, puxando a corda. Geraldo foi até ao cavalo, colocou a mão no pescoço do bicho. Faísca estava suado, suado do tipo que animal só fica quando está com medo a sério. Não suor de cansaço, não suor de calor, suor frio que cheira diferente, que qualquer vaqueiro que já passou anos com um cavalo reconhece sem ter de pensar.
Geraldo segurou o terço no bolso da camisa. Esteve acordado a noite inteira, não voltou a ouvir ferradura, não viu nada, mas o desconforto não desapareceu. ficou assente no peito, feito animal que encontrou abrigo e já não quer sair. De manhã, quando o sol clareou e os ajudantes acordaram, Geraldo foi verificar o chão do lado de onde tinha vindo o som.
Encontrou rasto, não de cavalo comum. O casco era grande, pesado, fundo no barro da beira do riacho, mas o rasto terminava a meio do chão aberto, sem explicação. Não tinha continuação, não tinha volta a dar, simplesmente parava, como se o animal tivesse desaparecido no ar a meio do galope. O ajudante mais velho, um cabôclo chamava-se Zé Preto, que tinha mais experiência de estrada do que aparentava, chegou perto, olhou para o rasto e ficou em silêncio durante um bom tempo.
Depois virou-se para Geraldo com uma expressão que não era de susto, era de reconhecimento de quem já viu este tipo de coisa antes e sabe o nome dela. Mula sem cabeça disse. Simples assim, sem enfeite. Geraldo não respondeu. Ela não apareceu de vez porque tem fé ainda. O Zé Preto continuou a olhar para o terço no bolso de Geraldo. Mas ela farejou-o e quando Mula sem cabeça farejar alguém, ela volta.
Geraldo olhou para o rasto no chão, para [pigarreia] ferradura funda no barro, para ausência de continuação. “Por que ela me farejou?”, perguntou mesmo sabendo a resposta. O Zé Preto olhou para ele de uma forma que não precisava de palavra e Geraldo [pigarreia] sentiu o peso do bónus no bolso do lado de dentro da camisa ficar mais pesado do que devia.
Zé Preto não falou mais sobre o assunto nessa manhã e essa foi a coisa mais pesada de todas. Não a conversa, mas o silêncio que veio depois dela. Silêncio de homem que sabe que o que tem de ser dito já foi dito e o resto é conta do outro pagar. Geraldo tocou a tropa em direção à Januária. O dia foi normal.
Sol alto, pó na estrada, o gado a andar no ritmo de sempre. Os ajudantes conversavam entre si. Faisca [pigarreia] caminhava sem o nervosismo da noite anterior, mas Geraldo estava diferente, não no que fazia. Fazia tudo igual, como o vaqueiro que o corpo já automatizou o ofício. Era diferente por dentro. Naquele lugar por baixo do pensamento onde a coisa sem nome vivia, tinha agora uma presença mais definida, como quando ouvimos o nome certo de um incómodo que carregava sem saber chamar.
E o nome, em vez de aliviar, pesa mais. Mula sem cabeça. Ele conhecia a história desde menino. Todo o sertanejo conhece. Animal de fogo e ferradura, que corre pela estrada nas noites de quinta-feira, que liberta faísca pelos cascos e fumo pelo pescoço sem cabeça. Assombração de mulher que fez uma promessa e não cumpriu, dizem alguns.
De homem que vendeu a alma, dizem outros. As versões variam conforme o lugar e o contador, mas o aviso é sempre o mesmo: quem a mula farejar, a mula vai buscar. Na segunda noite de caminho, acamparam num troço aberto, sem monte por perto, [pigarreia] sem reentrância de terra que escondesse aproximação. Geraldo escolheu o local de propósito, tornou a fogueira maior do que o necessário, rezou o terço inteiro antes de deitar, pediu a São Benedito, com a humildade de quem sabe que deve, e [pigarreia] sabe que o Credor conhece o endereço, que tivesse
paciência, que ele voltaria, que cumpriria a promessa em dobro no ano seguinte. tentou dormir. Conseguiu por um tempo. Acordou quando a fogueira estava em brasa baixa e a noite estava no meio, àquela hora que o cabôclo velho chama de hora morta. Nem madrugada de vez, nem madrugada a passar. O meio exato, o silêncio mais profundo.
Faisísca não estava agitado desta vez. Faisísca estava completamente parado, imóvel, de uma maneira que cavalo não fica. nem a dormir, nem acordado. Um imóvel de bicho que congelou por dentro, que o todo o sistema travou de medo. Geraldo sentou-se devagar. O som veio de todos os lados ao mesmo tempo, e não de uma direção só como na noite anterior, de todos os lados, ferradura em pedra, em terra, em ramo seco, como se o animal circulasse o acampamento em órbita, num galope constante, sem diminuir e sem aumentar.
Claque, claque, claque, claque. Geraldo ficou imóvel, o terço na mão, os olhos abertos, respirando lentamente. Os ajudantes continuavam a dormir e Geraldo entendeu naquele momento que não não ouviriam nada, que aquilo era só para ele. Chamado [pigarreia] com endereço e nome, a luz apareceu antes do som parar.
Uma faísca laranja baixa no chão, do lado nascente do acampamento. Depois outra, depois outra, como casco batendo numa pedra e soltando fogo, mas sem o ruído correspondente. Luz sem som. Pior do que som luz, minha gente, porque luz sem som explicação que a razão alcance. Geraldo rezou: “Não, baixinho, não, em voz alta, firme, da maneira que rezadeira reza quando o caso é grave.
Pai nosso, ave Maria, o terço inteiro de novo, palavra por palavra, sem saltar, sem engolir sílaba. As faíscas continuaram por um tempo, depois foram diminuindo uma outra. A última piscou mais forte, como uma vela que apaga, e sumiu. O som de ferradura foi afastando devagar, desaparecendo no escuro da cainga, como uma coisa que vai, mas não vai de vez.
Vai com intenção de voltar. Geraldo ficou sentado até o galo cantar em alguma quinta longe. Quando o dia clareou, foi acordar o Zé Preto. Ela veio de vez, disse. O Zé Preto olhou para ele, depois olhou para o chão em redor do acampamento. Havia marcas de casco em círculo perfeito à volta da fogueira. Um círculo fechado, uniforme, como se o animal tivesse corrido em órbita durante a noite inteira.
E você ficou? Zé Preto disse: “Fiquei. Então ainda tem saída.” Chegaram a Januária, dois dias depois. Geraldo não foi para casa antes de ir à igreja de São Benedito, no centro do Arraial. Entrou sujo de estrada, com a roupa de vaqueiro e o cheiro dos dias de caminho. Ajoelhou-se em frente do santo com o terço na mão. Ficou ali um bom bocado.
Não rezou com palavra bonita. Rezou com a verdade que tinha, que tinha escolhido o dinheiro, que tinha escolhido o bónus, que sabia o que tinha feito e não ia fingir que não sabia, que pedia não absolvição, pedia um prazo, pedia uma hipótese de cumprir o que devia, com juros, com a devoção redobrada, com o resto da vida, se necessário fosse.
O padre que passava pela nave parou, olhou para o vaqueiro ajoelhado no chão e teve o bom senso de não perguntar nada. Só fez a bênção no ar, de longe, [pigarreia] foi embora. Quando Geraldo saiu da igreja, o sol da tarde batia quente na praça de terra batida. Faisca estava amarrado do exterior e pela primeira vez em dias o cavalo estava descontraído.
Orelha mole, cabeça baixa, um olho semicerrado de bicho que finalmente descansou. Geraldo encostou a testa ao pescoço do cavalo por um instante. No ano seguinte, Geraldo foi à festa de São Benedito em Itamarandiba, a pé, como prometido, com bolha no calcanhar e o coração cheio. Foi o ano seguinte também e o depois e o desde depois do depois, até ao ano em que as pernas não aguentaram mais a viagem inteira.
E mesmo assim foi de carroça até onde dava. e o restante a pé, porque uma promessa não tem cláusula de exceção. Nunca mais ouviu ferradura na noite. Nunca mais viu faísca de casco no escuro. Faísca, o cavalo viveu até aos 23 anos, idade de muito para animal de trabalho. E morreu numa tarde de sol, deitado no pasto, sem sofrimento aparente, como o bicho que cumpriu o que tinha de cumprir e foi-se embora em paz.
O Zé Preto, o ajudante, desapareceu das estradas do Velho Chico alguns anos mais tarde. Uns diziam que tinha ido para a Bahia, outros que tinha morrido numa travessia do rio. Ninguém sabia ao certo. Mas gente de estrada, minha gente, às vezes é assim. Vem de longe, fica o tempo que precisa de ficar, diz o que precisa de dizer e vai-se embora sem deixar morada, como se tivesse sido mandado com propósito.
E o propósito era esse, fazer parar o Geraldo, olhar para o rasto no chão e entender que conta aberta não desaparece com o tempo. E é assim, minha gente, promessa é contrato, não é com um homem, não é com um papel assinado, é com coisa maior que não precisa de notário e não aceita desculpa de prazo apertado.
O sertão ensina isso de forma dura. A fé que a gente tem na boa hora precisa de ser a mesma fé que honramos na hora difícil, porque na boa hora é fácil prometer. É na hora do bónus, na hora do atalho, na altura em que o dinheiro fala mais alto. É aí que a promessa é testada de verdade. E coisa que vive na noite, minha gente, não lê calendário, ela lê caráter.
Se este causo te arrepiou ou te fez lembrar alguma promessa que lhe deixou para trás, deixa o like, se inscreve-te no canal e conta-me aí nos comentários. Há promessa que ainda precisa de cumprir? Não precisa sequer responder-me. Responde-lhe mesmo à hora quieta do dia. Fica comigo, minha gente, que o votião ainda não apagou a fogueira.
O próximo causo não vem de estrada, não. Vem de dentro de casa, de quarto de fundo, de porta que a família sempre manteve fechada. daquele tipo de divisão que existe em casa velha de interior, que ninguém explica bem porque não usa. Só diz que aquele quarto é assim e muda de assunto. Este causo aconteceu em Propriá, no Sergipe, beirando o rio São Francisco, pelo lado de lá, nos anos de 1961.
Uma família que herdou a casa de um tio que morreu sem filhos e sem explicação de por quarto dos fundos tinha a fechadura virada para fora. Fechadura virada para fora, minha gente, para trancar por fora. Não para impedir ninguém de entrar, para impedir alguma coisa de sair. Esse é o aviso. O causo vem na sequência. Senta-te aí, minha gente.
Aproxima-se mais da fogueira que esta noite o votião do sertão tem um causo de dentro de casa. Não é de estrada, não é de ser tão aberto, é de quatro paredes, de tecto baixo, de porta fechada, daquele tipo de coisa que vive junto com a família, debaixo do mesmo telhado, comendo o mesmo ar, dormindo no mesmo silêncio.
Já deixa o like, subscreve o canal e me conta aí nos comentários de que cidade estás-me a ouvir agora, porque este causo começa por uma herança. E herança, minha gente, nem sempre é só bem. Às vezes é conta que o morto deixou aberta e alguém da família vai ter de fechar. Abre o ouvido.
Isso aconteceu em própria no Sergipe, nas margens do rio São Francisco, no ano de 1961. Quem a conhece sabe que é cidade de beira de rio, de casa senhorial antiga com varanda larga, de gente que fala devagar e observa rapidamente. Terra onde o calor do meio-dia para até o vento e a tarde só volta a respirar quando o sol começa a descer para o lado do rio.
A família se chamava-se Loureiro, seu antenor, a mulher dona perpétua e três filhos, dois rapazes e uma rapariga de 12 anos chamada Teresa. a mais nova, que será a parte mais importante desta história, como a gente vai compreender no tempo certo. A família vivia de renda numa casa pequena no centro da cidade, quando o tio de Antenor, um homem solitário chamado tio Nestor, que nunca casou, nunca explicou muito de si e morreu subitamente numa tarde de Outubro, sem deixar sinal de doença, deixou a casa grande pros loureiro em testamento. família tratou
como bênção. Casa grande, quintal com pé de manga, poço com água boa, três quartos na frente e um nas traseiras. Mudaram-se numa segunda-feira de novembro com a energia de família que finalmente tem o seu próprio chão. Só que na primeira visita à casa, ainda antes de iniciar a mudança, o seu antenor percebeu alguma coisa.
O quarto dos fundos tinha a fechadura virada para fora. Não era um pormenor pequeno, era o tipo de coisa que nós vê e o olho pára, mesmo sem querer, porque não se enquadra com o que deveria ser. Fechadura em porta de quarto fica do lado de dentro para quem está no quarto trancar quando quer privacidade. Aquela estava do lado de fora como porta de dispensa, como porta de galinheiro, como porta feita para ser trancada por quem está do lado de fora para segurar alguma coisa lá dentro.
Antenor puxou a maçaneta. A porta estava trancada. procurou a chave no molho que o cartório tinha entregue juntamente com o testamento. Tinha uma chave pequena, diferente das outras, sem etiqueta. Abriu. O quarto estava vazio, completamente vazio, sem móvel, sem prego na parede, sem marca de cama no açoalho, apenas as paredes caiadas de branco e o açoalho de madeira escura.
Mas havia uma coisa. No centro do açoalho, desenhado com o que parecia ser carvão ou fuligem escura, havia um círculo grande com cerca de 2 m de diâmetro, com riscos cruzados no interior. Não era desenho reconhecível, não era letra, não era figura de bicho ou de gente, era padrão, geométrico, repetido com cuidado, como quem copiou de algum lado com atenção de quem sabe que está a fazer.
Antenor ficou olhando por um tempo, depois fechou a porta, trancou, guardou a chave no bolso e não disse nada à dona perpétua. A família instalou-se nos três quartos da frente. O quarto dos fundos ficou como estava. trancado, ignorado, daquele maneira que a gente ignora coisa que não quer nomear.
A rotina começou normal, os filhos foram para a escola, o Antenor foi ao trabalho. A Dona Perpétua organizou a casa com aquela determinação de mulher que faz com que novo lugar se torne lar em questão de dias. O pé de manga deu fruta logo de início. O poço tinha água fria, mesmo no calor do meio-dia. A varanda de tarde era bom local para tomar café e ver o movimento da rua.
Durante uns 15 dias, tudo correu como devia. Foi Teresa quem percebeu primeiro. A Teresa era daquele tipo de criança a que o interior chama criança de olho aberto, não agitada, não demasiado faladora, mas observadora. O tipo que está quieta no canto e vê tudo, que os adultos por vezes esquecem-se que está no cómodo porque ela não faz barulho e de repente diz alguma coisa que mostra que estava a absorver cada detalhe.
[pigarreia] Foi a primeira a notar o cheiro. Não era cheiro a mofo, não era cheiro a bicho que entrou e morreu em algum canto. Era um cheiro específico que ela descreveu depois à mãe como cheiro de vela apagada. Aquela fumaça fina e gordurosa que fica no ar quando se sopra uma chama, só que mais forte e sem vela nenhuma acesa.
O cheiro vinha do corredor das traseiras, do lado da porta trancada. A Teresa contou à dona perpétua numa tarde, enquanto ajudava a descascar feijão na cozinha. Mãe, aquele quarto tem cheiro a vela. Perpétua parou por um segundo, depois continuou descascando. É o quarto fechado, cheiro de coisa antiga. Logo passa. Teresa ficou quieta, mas o olho dela foi para o corredor e ficou ali por um instante, não com medo, não com curiosidade de criança que quer abrir porta proibida, com atenção, com aquele tipo de atenção que não é escolhida, é convocada.
Na terceira semana, a Teresa começou a acordar de madrugada, não gritando, não assustada. Acordava devagar, como quem foi chamado em voz baixa, e ficou sentada na cama, a olhar para o corredor que dava para os fundos. Dona Perpétua acordou junto numa das noites, foi até ao quarto da filha, encontrou a menina sentada, de olhos abertos, olhando para o corredor escuro.
Teresa, que foi? A menina virou o rosto para a mãe lentamente. “Há alguém a bater lá dentro”, ela disse com a voz serena de quem reporta facto, não de quem tem medo. Baixinho, como quem bate com um só dedo. Perpétua ouviu. O corredor estava em silêncio. “Sonhaste, minha filha?” Não tô a dormir, mãe. Perpétua foi até ao corredor.
Ficou parada em frente da porta dos fundos. Escutou com atenção, com a orelha quase a tocar na madeira. Nada. Voltou para o quarto, deitou-se a filha, esperou que ela adormecesse e foi-se deitar-se com aquela coisa no peito que toda a mãe conhece. Não é bem medo, não é bem preocupação. É a antesala dos dois.
Nessa mesma noite, ela acordou antenor. “Precisa de me contar o que tem naquele quarto.” Antenor ficou em silêncio por um tempo demasiado comprido. Depois sentou-se na cama, colocou os cotovelos nos joelhos e ficou a olhar para o chão do quarto. “Eu não sei o que tem lá”, disse com a voz de quem está a ser honesto e preferia não ser. Mas o tio Nestor sabia.
Perpétua esperou antes de ele morrer, cerca de dois anos atrás, disse-me uma coisa que eu não levei a sério na altura. Antenor fez uma pausa. Disse que a casa tinha um inquilino antigo, que este inquilino estava contido, que enquanto a porta ficasse trancada e o desenho no chão ficasse intacto, [pigarreia] estava tudo bem.
Olhou para a mulher, disse que se alguém apagasse o desenho ou abrisse a porta de vez, o inquilino ia sair. Perpétua ficou a olhar para o marido durante um tempo longo. E você abriu a porta quando é que chegámos? Antenor não respondeu. Não precisava. Do corredor dos fundos, no silêncio da madrugada, veio um som que os dois ouviram ao mesmo tempo.
Fraco, paciente, rítmico, como um dedo a bater na madeira de dentro. Toque, toque, toque. Antenor e Perpétua ficaram imóveis na cama. O som era exatamente o que Teresa tinha descrito, um só dedo, batendo com paciência de coisa que não tem pressa, porque sabe que o tempo está do lado dela. Não era barulho de bicho, não era madeira contraindo com o frio da madrugada, era comunicação, era intenção.
Antenor levantou-se, Perpétua segurou-lhe o braço. Não vai lá, preciso de ver. antenor. A voz dela não era de pedido, era de aviso. Daquele tipo de aviso que uma mulher dá uma vez com aquela certeza que vem de lugar que não é raciocínio, é instinto, é presença. É o mesmo sentido que faz animal parar antes da armadilha.
Ele parou. Ficaram os dois sentados na escuridão do quarto, à escuta. O som continuou durante uns 3 minutos. Depois parou limpo, sem diminuir, sem [pigarreia] afastar, parou como interruptor. E no silêncio que ficou, Antenor e Perpétua não voltaram a dormir. De manhã, antes de os filhos acordassem, Antenor dirigiu-se à porta dos fundos com a chave na mão.
Perpétua ficou no corredor, de braços cruzados, olhando. Ele abriu devagar. O quarto estava como sempre, vazio, paredes brancas. Asoalho escuro. O círculo no chão estava intacto, cada risco no lugar, a fuligem densa e definida, como se tivesse sido feita na véspera. Mas tinha uma coisa diferente. No centro do círculo, onde o açoalho estava limpo antes, havia uma marca, uma impressão ligeira na madeira, não arranhão, não entale, uma pressão como quando alguém fica de pé no mesmo lugar por muito tempo e o peso vai moldando o pavimento
com os anos. A marca tinha o formato de dois pés descalços, juntos, virados para porta. Antenor olhou para marca durante algum tempo, depois fechou a porta, trancou-a e foi tomar café sem dizer nada. Naquele [pigarreia] mesmo dia, dona Perpétua foi a casa da vizinha mais antiga da rua.
Uma senhora chamada dona Eusébia, de 80 e poucos anos, que vivia na mesma casa desde que nascera e conhecia cada história de cada parede daquela rua, desde antes de qualquer dos loureiro ter chegado ao mundo. Dona Eusébia ouviu perpétua com atenção, sem interromper, sem fazer aquela expressão de quem está a decidir se acredita ou não.
Ouviu com a seriedade de quem reconhece o assunto. Quando Perpétua terminou, a velha ficou em silêncio durante um tempo. Depois disse: “Nestor herdou aquela casa do pai, que herdou do pai, que ali construiu pelos anos de 1880. Naquele tempo havia um homem que vivia nas traseiras daquela casa. Não era da família, era uma espécie de agregado.
Ninguém sabia de onde tinha vindo, ninguém sabia o nome certo. O povo da rua chamava-se O rezador. Perpétua esperou. Diziam que ele sabia fazer coisa, não coisa de mal, coisa de contenção. Gente vinha de longe para ele segurar má influência, para ele fechar corpo, para ele apartar espírito de lugar.
trabalhava com um círculo de proteção, com reza numa língua que ninguém entendia, com vela e carvão. Eusébia parou. Um dia desapareceu, sem aviso, sem explicação. Só deixou aquele quarto do forma que estava. E a família que vivia aí aprendeu que o quarto estava fechado, que o círculo não se tocava, que o que estava contido lá dentro era coisa que o rezador tinha aprendido, não coisa da família, não coisa da casa, coisa que tinha tirado de outro lugar e precisava de guardar em algum lugar enquanto tratava.
Perpétua sentiu o frio no calor que Gilberto Freire descreveria bem. aquele arrepio que não é temperatura, é reconhecimento. E ele nunca mais voltou para buscar, ela disse. A Dona Eusébia abanou a cabeça e a coisa ficou ali contida. Enquanto o círculo durar e a porta ficar trancada, ela fica, mas sabe que o rezador não volta e vez em quando ela bate à porta para ver se alguém do lado de fora esqueceu-se de travar. Silêncio.
O que eu faço? Perpétua perguntou. A velha olhou para ela com aquela expressão de quem vai dar resposta que não é simples, mas é honesta. Precisa de alguém que saber refazer o que o rezador fez, reforçar o círculo, renovar a contenção. Ela fez uma pausa ou precisa de sair daquela casa.
Perpétua regressou a casa com as duas opções pesando igual. Sair significava perder a única herança que a família tinha. recebido. Ficar significava conviver com uma coisa que batia à porta de madrugada e deixava marca de pé noalho. Ela chamou o Antenor, contou- tudo o que Eusébia tinha dito. Antenor ouviu sem interromper. Quando ela terminou, ele ficou a olhar para o quintal pelo lado de dentro da janela, ao pé de manga, para o poço, para a terra batida que os filhos já tinham começado a usar como campo de futebol improvisado.
“Há um benzedor em Neópolis”, disse por fim. “O senhor Firmino, toda a gente do O Rio conhece-o. Dizem que ele sabe lidar com estas coisas. Você acredita nisso?” Antenor virou o rosto da janela paraa mulher. Eu acreditei quando o tio O Nestor contou-me e fingi que não acreditei. Já era tarde depois disso. Ele respirou fundo. Agora acredito.
O seu Firmino chegou dois dias depois, homem de uns 70 anos, magro como um pau de marmelo, com olhos que ficavam a olhar para algum ponto ligeiramente atrás de quem estava à sua frente. veio com uma bolsa de couro que não abriu enquanto esteve na sala e ouviu a história inteira de Antenor, sem fazer uma pergunta sequer.
Quando Antenor terminou, Firmino pediu para ver o quarto. Antenor abriu a porta. Firmino entrou sozinho. Ficou lá uns 10 minutos. Os loureiros esperaram no corredor. Ninguém falou. A Teresa ficou entre os pais com a mão na mão da mãe. Quando Firmino saiu, o seu rosto estava igual, nem assustado, nem surpreendido, profissional como médico que olhou o exame e reconheceu o que estava a ver.
“O rezador era bom”, disse. O o trabalho dele ainda está de pé. só precisava de renovação, coisa que ele faria de 10, 15 em 15 anos se tivesse voltado. Olhou para Antenor. Faz há quanto tempo ele desapareceu, Antenor calculou. Uns 40 anos. Firmino assentiu como quem confirma o diagnóstico. 40 anos sem renovação.
O círculo ainda segura, mas está fraco. É por isso que ela bate. Ela sente que a parede está fina. Olhou para o corredor, mas ainda segura. Consegue renovar? Perpétua perguntou. Consigo. Pausa. Mas depois de o fazer, essa porta não abre mais por ninguém, por nenhum motivo. O quarto fica como quarto de contenção. Não é um quarto de dormir, não é um quarto de guardar coisa, é quarto que existe para uma função só. Ele olhou paraa família.
Conseguem viver com isso? Antenor e Perpétua entreolharam-se. Foi a Teresa que respondeu. A menina de 12 anos, que tinha estado quieta o tempo inteiro, olhou para o benzedor com aqueles olhos de criança de olho aberto e disse: “Nós consegue, desde que ela pare de bater.” O senhor Firmino olhou para a menina por um tempo, depois esboçou um pequeno sorriso.
O primeiro desde que chegou. Ela pára, ele disse. Firmino trabalhou no quarto durante duas horas. A família ficou na sala. Ninguém foi olhar, não por proibição, por respeito. Algumas coisas pedem testemunha de longe. Quando ele saiu, refez o carvão no círculo, renovou o que precisava de ser renovado com material da bolsa de couro e trancou a porta.
entregou a chave a perpétua, não a antenor, para perpétua, com uma intenção que ninguém teve de explicar. “Essa chave fica com a dona da casa”, ele disse. “E quando a senhora for um dia, passa para quem ficar”. Perpétua aguardou a chave dentro do terço que ficava na cómoda do quarto. Nessa noite, a família dormiu sem som de ferradura, sem cheiro a vela, sem Teresa a acordar para olhar pro corredor, silêncio limpo de casa que respirou.
Os Loureiro viveram naquela casa há mais de 30 anos. O quarto dos fundos nunca mais foi aberto. Os filhos cresceram sabendo que existia, que estava trancado, que não se perguntava por ele. Tornou-se parte da casa como parte do corpo que existe sem que precisamos de pensar. O coração batendo no peito, o pulmão enchendo e esvaziando, a função acontecendo sem chamar a atenção.
Teresa cresceu, casou, teve filhos. Quando a dona Perpétua morreu, deixou o rosário à filha. A chave do quarto estava lá dentro. Teresa compreendeu sem precisar que ninguém explicasse. Guardou a chave, passou a ser a dona daquele discreto segredo que vivia no fundo da casa. E o quarto ficou quieto, não porque a coisa lá dentro tinha ido embora, mas porque tinha aprendido, ou talvez sempre soubesse que parede refeita com intenção não cede, que a contenção renovada com respeito é parede que não tem porta e coisa que bate e não abre, minha gente, com o
tempo, deixa de bater. E é assim, a minha gente. Há herança que vem com terra e casa e pé de manga e poço de água boa. E há herança que vem com responsabilidade que o morto não explicou bem porque não sabia como explicar, ou porque tinha receio que a família não aceitasse o que vinha junto.
Mas herança é herança, vem inteiro ou não vem. E o que os loureiros aprenderam e que o votião lhe traz esta noite é que há coisa que não precisa de ser resolvida, precisa de ser respeitada, precisa de ser mantida, precisa de alguém que acorde todos os dias sabendo que tem uma porta ao fundo da casa que se mantém fechada e que essa é a obrigação mais importante de todas.
Não toda a contenção é prisão, às vezes é proteção. Dos dois lados da porta, se este causo arrepiou-te ou fez-te pensar na casa onde cresceu e naquele quarto que a família não explicava bem. Deixa o like, subscreve o canal e conta-me aí nos comentários. Tem porta na sua história que sempre esteve fechada sem explicação.
Agora vou deitar-me que amanhã a chave espera por mim. Boa noite, minha gente. E que Deus o guarde a si e aos seus. Yeah.