UM HOMEM ESTAVA SENTADO NA LÁPIDE MAIS ANTIGA DO CEMITÉRIO… O QUE ELE ME REVELOU É INACREDITÁVEL 

UM HOMEM ESTAVA SENTADO NA LÁPIDE MAIS ANTIGA DO CEMITÉRIO… O QUE ELE ME REVELOU É INACREDITÁVEL

Em 31 anos de cemitério, aprendi a diferença entre o silêncio normal do lugar e o silêncio que antecede resposta. São coisas distintas, como são distintos o silêncio de casa vazia e o silêncio de casa com alguém lá dentro que não quer ser ouvido. Crescia a ouvir a minha avó, que era indígena e que sabia de coisas que a maioria das pessoas prefere não saber.

dizendo que o mundo dos vivos e o mundo dos mortos não estão separados por parede, são separados por respeito. E que quando o respeito desaparece, a separação desaparece junto. Levei isto comigo durante 84 anos e nunca precisei de questionar porque é que a vida foi confirmando aos poucos sem que eu pedisse confirmação.

 Aquele agosto de 1994, soube antes de terminar o serviço, que aquele enterro tinha atravessado uma linha que não devia ser ultrapassada. Filhos gritando à beira da cova aberta do próprio pai. Netos com gravador de fita cassete registando a discussão como se fosse documento de notário. Padre a ler o ritual, sem olhar para o caixão uma única vez, à maneira de quem está a cumprir obrigação e com a cabeça já no próximo compromisso [música].

Quando o último deles se foi embora e eu Fiquei sozinho com a pá e com o silêncio, que não era o silêncio normal, virei-me para pegar na pá que tinha deixado encostada à lápide mais velha do cemitério, [música] uma lápide de 1878 com a inscrição homem de bem e sem nome nenhum. E estava um homem sentado nela.

Paletó escuro, olhos cor de terra seca. mais velho do que qualquer pessoa viva que eu já tinha visto. Ele não abriu a boca, mas ouvi. O que ele comunicou dentro da minha cabeça naquele momento, ainda não tinha palavra para nomear, mas o corpo entendeu antes da cabeça, porque o corpo de quem cresceu com a avó indígena aprende cedo a receber este tipo de coisa.

sem travar. Comenta aqui se te acredita que o desrespeito no enterro acorda o que deveria continuar deitado. E deixe já o like, porque o que dona A Inácia revelou-me dias depois sobre a alma daquele lavrador e sobre o meu papel em tudo aquilo, foi a última coisa que eu esperava ouvir em 31 anos de cemitério.

O meu nome é Eustáquio Teixeira da Costa. Tenho 84 anos. Nasci no sertão do norte de Minas Gerais, numa fazenda que não existe mais. Filho de um vaqueiro e de filha de um indígena, que tinha descido do serrado, com a família ainda criança e que transportava consigo uma forma de ver o mundo, que não era o modo da maioria das pessoas em redor.

 Fui tropeiro desde os 16 anos. Passei décadas a conduzir o gado pelo sertão mineiro com aquele ritmo de quem aprende que a distância não assusta quando se conhece o caminho. E fui ficando nesta vida porque era a vida que eu sabia fazer e porque o sertão tem uma lógica que entra no sangue de quem cresce nele de uma forma que já não sai.

 Quando tinha 52 anos, o dono da quinta onde eu trabalhava vendeu tudo a um grupo de fora que não tinha interesse em manter um tropeiro, nem gado, [música] nem nada, que recordasse o que tinha sido aquele lugar. Fui-me embora com o que tinha, que era experiência de décadas em trabalho honesto e um conhecimento da terra e de silêncio, que poucos homens da minha geração ainda transportavam.

 A vaga de zelador no cemitério municipal de Montes Claros chegou por indicação de um conhecido da câmara municipal que sabia que eu procurava serviço e que achou que homem habituado, com silêncio e com trabalho ao ar livre ia dar-se bem naquilo. Eu aceitei sem grande deliberação porque precisava de rendimentos e porque há tipos de trabalho que se começa sem saber que vai ficar e que vão ficando de um ano para o outro.

 Até que olha-se para o espelho e vê-se um homem que esteve 31 anos num lugar e que não consegue mais imaginar ter sido diferente. O zelador de cemitério não é coveiro. Esta é uma distinção que importa. Coveiro abre e fecha. Zelador cuida do que fica aberto, cuida da manutenção, da limpeza, das estruturas, do estado geral de um local que recebe os mortos e que precisa de ser tratado com o mesmo cuidado com que se trata qualquer lugar, onde as pessoas vão buscar algo [música] que não encontram em mais nenhum outro endereço. Aprendi que

trabalho com o senhor Geraldo, que era o anterior zelador e que tinha 56 anos de cemitério nas costas quando cheguei, homem de poucas palavras e de uma sabedoria específica daquele ofício que foi-me passando aos poucos, não em conversa longa, mas da forma que os homens da nossa geração passam conhecimento, no gesto correto, feito no momento certo.

diante [canto] de quem está a prestar atenção. O senhor Geraldo ensinou-me uma coisa que eu já sabia de certa forma, mas que ele colocou em palavras que ficaram: “O cemitério não é lugar de morte, é um lugar de transição. E transição necessita de respeito dos dois lados para funcionar corretamente.

 Quando a transição é interrompida, quando o lado dos vivos não cumpre o que deve cumprir no momento que tem de ser cumprido, o lado que está à espera não sabe como proceder. E quando o lado que está à espera não sabe como proceder, o zelador é o primeiro a sentir, porque é ele que está no meio, quem conhece o lugar dos dois ângulos, quem tem responsabilidade sobre o que acontece no espaço entre uma margem e outra.

 Montes Claros, no norte de Minas, [música] tem uma qualidade de luz em agosto, que é específica daquele pedaço do Brasil. Uma luz seca e alta, que não tem sombra mole, que deixa tudo com arestas demasiado definidas, que faz com que o serrado parecer mais árido do que ele já é. Nessa altura do ano, eu conhecia aquela luz de décadas de trabalho ao ar livre e reconhecia nela cada variação de horário e de estação [música] com a precisão de quem não necessita de relógio para saber que horas são.

Naquele Agosto de 94, a luz estava como esteve sempre em agosto, alta e seca e sem misericórdia. E o cemitério estava com um movimento comum de uma tarde de semana. Algumas visitas dispersas em setores distantes. O silêncio que eu conhecia, como se conhece o silêncio da própria casa.

 O aviso do enterro tinha chegado dois dias antes. Agricultor da região, homem de posses consideráveis, que tinha nome na cidade, do tipo de nome que as pessoas pronunciam com o peso de quem está a falar de alguém que [música] importava. Morto de causa natural. aos 78 [música] anos depois de uma vida que, pelos relatos que me chegavam, pelo canal informal, pelo qual chegam sempre estas informações em cidade pequena, tinha sido vivida com a dureza e a autoridade de quem nunca teve motivo para amolecer.

 família numerosa, extensas propriedades, herança que todo o mundo em redor sabia que ia ser disputada, porque este tipo de herança é sempre disputada quando o homem que acumulou não teve o cuidado de resolver em vida o que sabia que ia precisar de ser resolvido depois. Eu preparei o que precisava de ser preparado com a antecedência de sempre.

 E no dia do enterro fiquei à distância com o cuidado de sempre, [ressonando] fazendo o meu serviço enquanto a família e o padre faziam o seu. Mas desta vez ficar à distância não foi suficiente para que eu não visse o que estava a acontecer. Porque o que estava a acontecer não era discreto, não era o tipo de coisa que a distância consegue apagar.

 A discussão entre os filhos começou antes do caixão ser posicionado e não mais parou, subindo e descendo de volume com a irregularidade de coisa que não tem controlo, com palavras a cruzar o ar do cemitério, que não eram palavras de despedida, nem de luto, nem de qualquer das coisas que aquele lugar foi feito para receber.

 Um dos netos, rapaz de uns 20 anos, tinha um gravador de fita cassete na mão e estava a registar a discussão com a expressão de quem está documentando algo que vai precisar como prova em algum momento futuro. O padre leu o ritual com os olhos no papel e com a voz de quem tem a cabeça noutro lugar, sem olhar para o caixão uma única vez em todo o tempo que durou a cerimónia.

 Quando o último membro da família foi-se embora, batendo o portão com uma força que ecoava pelo cemitério inteiro, fui terminar o serviço. O silêncio que ficou era o que eu tinha descrito antes, e não o silêncio normal. o outro, o que tem peso e temperatura e que a minha avó teria reconhecido antes de dar passos dentro daquele portão.

Trabalhei em silêncio, tapei a cova com o cuidado habitual, compactei a terra, Posicionei a identificação e ao virar para apanhar [música] a pá que tinha deixado encostada à lápide mais velha do cemitério, parei. A lápide de 1878 ficava num canto do sector mais antigo que a maioria dos visitantes não alcançava porque não havia motivo evidente para lá ir.

 Não havia familiar conhecido enterrado nas proximidades. [música] Não havia nenhum caminho pavimentado que passasse por ali. Era uma lápide de pedra escura que o tempo tornara mais escura ainda, baixa, com a inscrição simples que o senhor Geraldo tinha-me mostrado quando cheguei e que ele descrevia com um respeito específico, que aprendi a partilhar sem que ele precisasse explicar o motivo.

 Homem de bem, sem nome, de um tropeiro, dizia a tradição oral daquele cemitério, enterrado sem documentação, num tempo em que documentação era privilégio de poucos. O homem de Paletó estava sentado nela. Era casaco escuro, surrado de um jeito que não era de pobreza, mas de tempo, de muito tempo, do tipo de desgaste que décadas produzem no tecido [música] que foi bom.

 O homem que o vestia tinha uma idade que não consigo precisar nem hoje, 84 anos depois, porque não era a idade de pessoa viva, era outro tipo de ancianidade, o tipo que advém de ter visto coisas que o tempo comum não fornece. Os olhos eram cor de terra seca, da terra específica do serrado mineiro em agosto, e estavam fixos em mim, com uma atenção que não era ameaçadora, mas que era absoluta, do tipo que não admite que você olhe para outro lado.

 Ele não abriu a boca. O que chegou [música] até mim chegou de outra forma, não como pensamento meu, não como memória, não como nenhuma das formas internas que a mente produz. Chegou como trovão que sente no peito antes de ouvir nos ouvidos, com aquela qualidade de algo que vem de longe, mas que chega com toda a a força quando chega.

 O que entrei em contacto não foi com palavras exatas, mas com um entendimento, com a clareza específica de quem recebe uma informação sem necessitar do canal habitual. Aquele lugar tinha sido deshonrado nesse dia. E quem deshonra o descanso dos mortos acorda o que deveria continuar deitado. Quando levantei os olhos da lápide, o homem já não estava lá.

 A pá estava encostada onde a tinha deixado. O cemitério estava quieto com o silêncio que não reconhecia como normal. [ressonando] E eu fui-me embora com aquela informação dentro do peito, como quem transporta coisa que sabe que vai precisar entregar, mas que ainda não sabe para quem nem quando. Na manhã seguinte, eu Cheguei ao cemitério no horário de sempre e fiz a minha ronda de início [música] de turno, como sempre fazia.

verificando o estado geral do local antes de os visitantes começarem a chegar. Tudo estava como devia estar, excepto as flores. Havia quatro vasos de flores que eu próprio tinha arrumado no dia anterior em túmulos do setor central. parte da manutenção de rotina de jazigos sem visitantes regulares.

 E todos os quatro estavam virados para baixo, não derrubados, não partidos, não espalhados, virados para baixo com uma precisão que não era de vento e não era de animal, era de mão. Mas não havia rasto de quem tivesse entrado depois de eu ter saído e o portão estava fechado com o cadeado que eu próprio tinha passado na noite anterior.

 Direitei os vasos e Continuei a ronda sem dizer nada a ninguém, da forma que aprendi com o seu Geraldo que se faz com certas coisas, porque há informação que só tem utilidade para quem sabe o que fazer com elas e que perdem alguma coisa essencial quando são transformadas em assunto de corredor. A terra sobre a cova do lavrador [música] estava molhada.

 Não era novidade que terra recém-coberta retivesse humidade. Isso fazia parte do processo normal. E conhecia de décadas. O que não era normal era o grau dessa humidade num dia de sol forte de agosto em Montes Claros, com a temperatura que estava e com o tempo seco que fazia as semanas. A terra estava com umaidade que parecia vir de dentro, e não de cima, como se a cova estivesse a transpirar de baixo para cima, contra toda a lógica climática que eu conhecia.

 Passei a mão na terra, trouxe no dedo a humidade, procurei e não encontrei [canto] explicação. Continuei o trabalho. [música] Na quarta-feira apareceu o primeiro filho. não me procurou especificamente, foi até a administração e falou com o funcionário da recepção, mas o cemitério é pequeno o suficiente e eu estava suficientemente próximo para que as palavras chegassem até mim com clareza suficiente.

 Disse que estava a ver o pai desde a noite do funeral, de madrugada, parado à soleira do quarto, sem falar, só olhando. disse que na primeira noite achou que era sono, na segunda achou que estava nervoso, na terceira foi até ao corredor com a luz acesa e não havia ninguém, mas havia um cheiro, disse, um cheiro a terra molhada que ficou até ao amanhecer.

O funcionário da recepção ouviu com aquela expressão de quem não sabe exatamente o que fazer com a informação que está a receber e anotou o contacto do homem. dizendo que ia verificar. Na quinta-feira apareceu o segundo filho. Não era o mesmo que tinha aparecido na quarta-feira, era outro mais novo, que chegou com uma agitação diferente do irmão, menos assustado e mais irritado, com a expressão de quem está à procura de uma explicação racional que ainda não encontrou e cuja ausência está a causar uma raiva que não tem para

para onde direcionar. A queixa era a mesma. O pai aparecendo de madrugada à soleira do quarto, parado, olhando, sem falar, o cheiro de terra molhada que não saía [música] depois de a aparição ir embora. E uma pormenor que este filho acrescentou e que o primeiro não tinha referido, que nos três dias de aparecimento, o pai estava com a mesma roupa do caixão.

 Na sexta-feira apareceu o terceiro. Eu não precisei ouvir o relato completo daquele, porque os dois primeiros já me tinham dado o que precisava de saber. Fui até à cova do agricultor depois do expediente, quando o cemitério já estava fechado e só havia eu e o silêncio daquele lugar. E fiquei de pé em frente daquela terra molhada, que não devia estar molhada.

 E pensei no que a minha avó teria dito sobre aquilo se estivesse aqui para dizer. Ela teria dito que alma presa por vergonha é a pior de todas, porque a vergonha não tem forma de ser resolvida pelo próprio morto. Depende dos vivos. e que quando os vivos que causaram a vergonha não têm condição de resolver, o lugar onde o morto está enterrado vai cobrando aos quem está por perto até que alguém entenda o que está a ser petido.

 Fui até dona Inácia no sábado de manhã. Dona A Inácia vivia no quilombo a uns 6 km do cemitério, numa casa de adobe que ela tinha herdado da mãe, que herdara da avó, numa terra que a família ocupava desde antes de qualquer documento que registasse ocupação. Tinha 91 anos e uma saúde que nos envergonhava 30 anos mais jovem.

 sentava-se no banco de madeira da varanda todas as manhãs com um chá de ervas que ela própria cultivava no quintal [música] e recebia quem precisava de receber, com aquela disposição quieta de quem não precisa de se preparar, porque nunca está despreaprado. Ela conhecia-me de décadas. Eu tinha ido até ela outras vezes, ao longo dos 31 anos de cemitério, [música] quando o lugar produzia algo que não conseguia resolver sozinho.

 E ela sempre me recebeu com o mesmo tratamento que dava a qualquer assunto, com total atenção e sem julgamento sobre o que estava sendo trazido. Sentei-me no banco ao lado dela [música] e contei tudo, desde o enterro, o comportamento da família, o padre distraído, o homem de casaco na lápide antiga, o que eu tinha entendido sem que ele falasse, as flores viradas, [música] a terra molhada, os três filhos com a mesma queixa em dias seguidos.

[música] Ela ouviu tudo sem interromper, com os olhos fechados e as mãos à volta da cuia de chá. E quando acabei, ficou em silêncio durante um tempo que aprendi ao longo dos anos a não tentar preencher. Porque o silêncio da dona Inácia, depois de receber uma história, fazia parte do processo. Era o tempo em que ela consultava algo que não estava naquela varanda, mas que ela acedia dali, com uma facilidade que só 91 anos de prática produzem.

 Quando abriu os olhos, disse que a alma do lavrador não estava presa por amor, não estava presa por arrependimento de coisa que fez em vida. estava presa por vergonha e explicou o que a minha avó [música] me tinha ensinado de forma diferente, mas que era a mesma verdade, que morto, que tem a sua despedida transformada em espetáculo, não consegue seguir, porque a vergonha é o único peso que o morto não carrega sozinho, que precisa de ser resolvido pelos vivos e que quando os vivos que causaram a vergonha não tem condição ou disposição, de resolver o local onde o

morto está absorve aquilo e começa a cobrar a quem tem responsabilidade sobre aquele chão. Eu disse que [a música] compreendia, que ia fazer o que precisava ser feito com os filhos, que ia tentar convencê-los a regressar ao cemitério e pedir perdão diante da sepultura. Dona Inácia ficou quieta por um momento e depois disse que não eram os filhos, que os filhos não tinham condições para fazer aquilo com a convicção necessária, que pedir perdão sem convicção era pior do que não pedir, porque produzia uma expectativa que não se cumpria e que

irritava mais do que aquiietava e que quem tinha de pedir perdão era eu, [música] que eu estava ali naquele enterro que vi o desrespeito e não disse nada porque não era o meu lugar, porque serviço é serviço. Porque aprendi que um zelador não intervém na cerimónia da família, que esta omissão, mesmo que correta dentro das regras do trabalho, colocava-me como testemunha que não reagiu e que o que estava naquela lápide de 1878 era alguém que não tinha tolerância para testemunha ou missa, porque tropeiro de bem não assiste à deshonra sem se

posicionar. Eu ouvi aquilo e fiquei em silêncio durante um tempo mais longo do que o normal para mim. Não porque discordava, que fique claro, porque a lógica era a mesma que a minha avó teria utilizado se estivesse sentada naquela varanda no lugar da dona Inácia. Fiquei em silêncio porque havia peso naquilo que precisava de um momento antes de ser aceite completamente.

 O peso de compreender que 31 anos de cuidados honestos com aquele lugar não me exentavam [música] de uma responsabilidade que não tinha visto como meu até àquele momento. A Dona Inácia disse que eu sabia o que fazer e quando fazer e que não havia mais nada que ela precisasse acrescentar. Levantei-me, agradeci da forma que se lhe agradece, que é sem palavras grandes, e fui-me embora pelo caminho de terra batida de volta ao cemitério, com o peso novo dentro do peito e com a clareza de quem recebeu uma instrução precisa e que sabe que vai cumprir.

Voltei ao cemitério nessa tarde e passei o resto do turno a fazer o trabalho de sempre, com a atenção dos sempre. mas com mais uma camada de presença naquilo que fazia, como se cada gesto de cuidado com aquele lugar fosse parte de uma preparação que não precisava de ser declarada para ser real. Antes de fechar o portão na noite desse sábado, fui até à cova do agricultor uma última vez.

 Olhei paraa terra molhada, que ainda estava molhada, apesar do sol forte desse dia, e disse em voz baixa, que regressava de manhã cedo. Cheguei às 4h30 da manhã de domingo. O Montes Claros, às 4h30 da manhã de domingo em agosto, há um silêncio que é diferente de qualquer outro silêncio da semana.

 é o silêncio da cidade que ainda não começou a mexer-se e que tem uma qualidade de suspensão de uma coisa entre dois estados. Abri o portão com a chave, Percorri o corredor principal com o pequena lanterna que trazia no bolso e fui até ao setor onde o agricultor estava enterrado. A terra estava molhada, como sempre tinha estado nessa semana.

 Ajoelhei-me na frente da cova. Os joelhos encontraram aquela humidade que eu conhecia desde amanhã, depois do enterro, fria e real. E eu Fiquei naquela posição por um momento, com as mãos espalmadas nas coxas e com o peso de 84 anos de vida e de 31 de cemitério como a única preparação que eu tinha disponível. Comecei a falar não com discurso preparado, não com oração aprendida, com o que havia disponível naquele momento, que era a verdade simples e direta da quem já não tem idade, nem paciência paraa linguagem que não serve. disse que

estava ali como zelador daquele lugar, como o homem responsável por aquele chão, e que vinha pedir perdão por ter assistido àquele enterro sem intervir, por ter ficado com a pá na mão, enquanto a despedida de um homem era tratada com o desrespeito que não devia ser tolerado, por ter escolhido o protocolo do trabalho acima do que sabia que era certo, independentemente de protocolo.

 Disse que não estava a pedir em nome dos filhos, que não tinha autoridade para fazer isso e que teriam de resolver com o seu próprio peso. Estava pedindo em nome do que merecia ter recebido nesse dia de agosto. E não recebeu o silêncio, a dignidade, o respeito mínimo de quem fica do lado enquanto a terra cobre.

 O cerrado de Montes Claros às 5 da manhã. Tem pássaros que começam antes do sol e eu ouvi o primeiro deles algures enquanto eu falava. Aquele som específico de pássaro que canta no escuro porque não precisa do sol para saber que está na hora de cantar. Continuei. disse que aquele cemitério tinha sido construído e mantido com o respeito que os mortos merecem, que era o compromisso que o senhor Geraldo me tinha passado e que tinha honrado durante 31 anos e que o que tinha acontecido naquela tarde de [música] agosto tinha sido uma violação

desse compromisso que tinha testemunhado sem reagir e que estava reconhecendo agora como minha responsabilidade. [música] tanto como de qualquer outro que estava presente e pedi que fosse suficiente, não como regateio, não [música] como exigência, como pedido honesto de um homem velho que sabia o peso do que estava a pedir.

Quando terminei o silêncio, voltou por um momento que pareceu mais longo do provavelmente foi. E então senti. Não é fácil descrever o que senti, porque não não era de nenhum sentido específico. Não era cheiro, nem som, nem tato. Era uma percepção que vinha debaixo [música] e que subia pela terra molhada pelos joelhos e pelo corpo com uma calma que era o [música] oposto de tudo o que aquela semana tinha produzido.

 Era o assentamento. terra sobela cova assentou de um modo que senti com a precisão [música] de quem passou 31 anos a aprender a diferença entre terra que está quieta e terra que está à espera. quietou e depois desceu, não se sentiu físico de afundamento, no sentido de coisa que tinha estado suspensa e que encontrou finalmente o lugar onde devia estar desde o princípio.

 Levantei-me dos joelhos com o esforço de 84 anos, mas com uma leveza no peito que não estava lá quando me ajoelhei. O céu de agosto de Montes Claros começava a clarear a leste com aquela luz específica que antecede o sol no cerrado, cinzento e rosa, misturados de um maneira que só aquele pedaço do Brasil produz daquela forma.

 Fui buscar a pá que estava encostada no corredor. Fiz a minha ronda de início de turno, como fazia todos os dias. E quando passei pela lápide de 1878, Parei um momento. Não havia ninguém sentado nela. Havia apenas a pedra escura com a inscrição simples que o tempo não se tinha apagado. Homem de bem. Fiquei um tempo a olhar para aquelas palavras com o respeito que elas mereciam e que eu tinha aprendido a dar desde o primeiro dia em que o seu O Geraldo mostrou-me aquela lápide.

 E depois continuei a ronda. A terra sobre a cova do lavrador estava seca quando Passei por ela. Seca como devia estar num agosto de sol forte em montes claros, seca como terra de cemitério que está em ordem, que está a cumprir o que foi feito para cumprir, que não tem nada por baixo dela que não devia [música] estar onde está.

 Os filhos não voltaram à administração depois desse domingo. Aposentei-me 3 anos depois, com 31 anos completos de cemitério e vivo desde então na mesma pequena casa de Montes Claros, onde vivi durante todo este tempo, com a rotina de homem velho, que aprendeu que o dia tem o tempo certo para cada coisa e que não adianta apressar o que não tem de ser apressado.

 Às vezes vou ao cemitério, não com frequência, mas quando sinto que é a hora. E quando vou, passo sempre pela lápide de 1878 antes de sair. Não por obrigação, por respeito. Porque aquela pedra representa algo que aprendi naquele Agosto de 94, de uma forma que não há livro que ensine do mesmo modo, que é que o respeito pelos mortos não é uma formalidade religiosa, nem protocolo burocrático, nem obrigação social.

 é o reconhecimento de que a linha entre o que está aqui e o que está do outro lado existe, porque alguém a mantém. e que quando essa linha é cruzada por descuido ou por indiferença ou por herança, que importa mais do que dignidade, o trabalho de a manter cai sobre quem tem responsabilidade [música] sobre aquele chão, quer esse alguém tenha escolhido essa responsabilidade ou não.

 31 anos de cemitério me ensinaram que todo o trabalho honesto tem uma dimensão que vai para além do que está descrito no contrato e que a dimensão maior é sempre a que importa mais quando chega a hora de prestar contas. [música] Cuide dos seus mortos com o respeito que gostaria de receber quando for a sua vez, porque essa hora chega para todos sem aviso e sem negociação.

 E quando o peso do que está para além do visível parecer maior do que aquilo que consegue carregar sozinho, apeguem-se a Deus, porque foi ajoelhado naquela terra molhada às 5 da manhã, que entendi com mais clareza do que em qualquer outro momento dos meus 84 anos, que nenhum homem foi feito para carregar sozinho o que aquele momento exigia.

 E que a fé que a minha avó indígena me ensinou antes de qualquer padre ou qualquer escola, foi o que me manteve de joelhos até ao fim, sem recuar.

 

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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