VI ELE AO LADO DO PRÓPRIO TÚMULO APÓS O ENTERRO DE 1989… O QUE ACONTECEU DEPOIS, EU NUNCA ESQUECI
VI ELE AO LADO DO PRÓPRIO TÚMULO APÓS O ENTERRO DE 1989… O QUE ACONTECEU DEPOIS, EU NUNCA ESQUECI 
O enterro tinha terminado e não tinha mais ninguém ali. Eu já ia embora quando senti que alguém ainda estava naquele cemitério. Dei mais alguns passos e quando me virei, ele estava ali, o homem que eu tinha acabado de enterrar, parado junto do próprio túmulo. E nessa altura lembrei-me de algo que a minha avó sempre me dizia quando eu era mais novo.
O meu nome é Raimundo Alves, tenho 71 anos e esta é a minha história em minutos. Eu fui criado pela minha avó desde pequeno. Os meus pais trabalhavam muito. A vida em Iguatu, no interior do Ceará, é assim. E, por vezes, o filho está mais com os avós do que com os próprios pais. é a realidade de quem precisa de trabalhar arduamente para colocar comida na mesa todos os dias.
E foi com a a minha avó, vendo-a e ouvindo-a que aprendi o que sei sobre a vida. Ela não tinha religião, acreditava em Deus, mas à maneira dela, sem precisar que ninguém lhe dissesse no que acreditar. O que ela tinha era um conhecimento que veio da sua família, passado de geração em geração, de boca em boca, à maneira antiga.
Um conhecimento que ela levava a sério e que ela me foi passando. Esse conhecimento não era sobre reza, nem sobre o ritual. Era uma forma de entender o mundo, a vida e a morte. Ela falava sobre estas coisas com uma naturalidade que nunca vi em mais ninguém. Para ela, a morte não era um assunto proibido, não era coisa para se ter medo de referir, fazia parte da vida.
E ela me ensinava a encarar isso da mesma forma que ela encarava. Uma das coisas que ela mais repetia era sobre a alma depois da morte. Ela dizia que nem toda a alma sabe que partiu, que há gente que morre de uma forma tão rápida ou de uma forma tão confusa que a alma fica parada sem perceber o que aconteceu.
Ela chamava-lhe alma confusa. E eu cresci a ouvi-lo. Ela também dizia que se nós encontrar uma alma assim perdida, que não sabe que partiu, não podemos ter medo. E o que uma alma assim precisa é de calma, de alguém que fale com ela com respeito, com paciência, sem julgamento e sem pressas. Ela também me ensinava que precisamos de respeitar o que não se vê, que há coisas que existem que os olhos não alcançam e que ignorar isso não faz essas coisas desaparecer.
Eu ouvia tudo e ia guardando, mesmo sem compreender bem o peso do que ela me estava a ensinar. Em 1978, quando tinha 23 anos, a minha avó morreu. Ela já estava doente há um tempo, mas mesmo assim foi muito pesado. A gente prepara-se, sabe que vai chegar, mas quando chega de verdade, a dor vem do mesmo modo.
Perder quem te criou dói de uma forma que não tem explicação. E nesse dia fiquei a andar de um lado para o outro sem saber o que fazer. Naquela mesma noite, quando finalmente deitei-me, não esperava conseguir dormir, mas dormi e sonhei com ela. No sonho, ela estava de pé, olhando-me com aquele jeito calmo que ela sempre teve, sem dizer nada, apenas olhando.
Essa imagem nunca mais saiu de mim até hoje. O velório foi em casa na sala, como era costume no interior naquela época. A gente colocava o caixão no meio da sala, acendia as velas e a vizinhança toda vinha a velar. Todos sentados em volta, conversando baixo e rezando em silêncio. A noite foi comprido, a sala ficou cheia de gente conhecida e eu fiquei sentado perto do caixão quase todo o tempo.
E foi em algum momento daquela noite que senti uma coisa que não estava à espera. Eu estava parado, a olhar para as velas, quando Senti como se ela ainda estivesse ali do meu lado, como uma presença, uma coisa que sentia no corpo todo, que me dizia que ela ainda estava ali naquela sala.
Aquilo deu-me uma paz que eu não esperava ter naquela altura. Era como se ela tivesse ficado mais um bocadinho, só para me dizer que estava bem antes de ir de vez. Naquele velório do lado do caixão dela, percebi uma das coisas que ela mais me ensinava. Entendi que a presença de quem amámos, mesmo depois de partir, não é coisa para se ter medo.
Aquilo ficou gravado dentro de mim de uma forma que não mais saiu. E anos depois, quando precisei, estava lá. O tempo foi passando, a vida foi seguindo e trabalhei em várias coisas nos anos que vieram depois de ela se foi. Em 1987, quando tinha 32 anos, fui parar a um emprego de coveiro num cemitério municipal aqui da região. Não foi uma coisa planeada.
Apareceu a vaga, eu precisava de trabalho e fui tentar. Mas com o tempo fui compreendendo que aquilo não tinha sido por acaso. Desde o primeiro dia dentro daquele cemitério, senti que era o lugar certo para mim estar. Não sei explicar esta sensação, mas ela estava lá desde o início. E foi naquele trabalho que os ensinamentos da a minha avó foram fazendo cada vez mais sentido.
Tudo o que ela me disse quando eu era pequeno foi-se encaixando no que eu vivia todos os dias. Eu carregava o que ela ensinou-me como se fosse uma ferramenta de trabalho. Em dois anos de trabalho, aprendi que nem todo o enterro é igual. Por fora, parece a mesma coisa. Mas não é. Há enterro que a gente sente diferente desde que chega perto, antes mesmo de compreender o que está a sentir.
E há um que nunca esqueci. Foi em 5 de Agosto de 1989, um dia que me ensinou na prática tudo que a minha avó me tinha dito, só com palavras quando era pequeno. Não foi fácil, mas foi a coisa mais certa que eu já fiz na minha vida inteira. Eu trabalhava há dois anos como coveiro e nesse dia eu tinha chegado cedo ao cemitério.
Tinha outros serviços pela manhã e o funeral do Luís Carlos estava marcado paraa tarde, mas atrasou e foi um dos últimos do dia. E quando começou de verdade, já estava a passar do horário que nós normalmente terminava. Luiz Carlos tinha 48 anos. Era camionista, um homem que passava vida na estrada carregando carga de um canto para o outro.
Não era vida fácil esta vida. A gente vive no interior sabe bem o que é ter um marido ou um pai, que passa semanas fora de casa. Eu conhecia-o, sabia quem era a sua mulher, os filhos. Não era um amigo próximo, mas era conhecido. Morreu de repente. Foi um enfarte, rápido, sem avisar. Estava trabalhar na estrada como qualquer no outro dia, e não voltou.
deixou a mulher, os filhos ainda pequenos e uma vida que estava no meio. Este tipo de a morte é difícil de enterrar, porque a família chega em choque, tentando ainda perceber o que aconteceu. E quando o caixão chegou, senti uma coisa diferente. Era uma inquietação, uma sensação que não soube nomear na hora, mas senti.
Ver aquele caixão fechado pesou de uma forma que eu não esperava. Quando conhecemos quem está dentro, não é a mesma coisa. A gente olha para o caixão e vê mais do que madeira. Vê as coisas que ele deixou para trás sem querer. Eu olhei para aquele caixão com tudo aquilo na cabeça. A mulher dele chegou com os filhos do lado. Ela mal conseguia manter-se de pé.
Uma vizinha segurava-a pelo braço o tempo todo, porque parecia que a qualquer momento ela ia cair. Eu vi-a olhando para o caixão com um olhar que eu não esqueci-me. Era o olhar de quem ainda não acredita no que os olhos estão a ver. Os filhos ficaram de um lado quietos. Os mais novos não percebiam bem o que estava a acontecer.
A gente via no rosto deles. Sabiam que era coisa séria, que a mãe estava a chorar, que tinha muita gente ali, mas o peso real daquilo, o que aquele dia ia significar paraas vidas deles, era demasiado grande para uma criança alcançar. Eu fiz o meu serviço, como sempre. Fiquei no meu lugar, cuidei do que tinha de cuidar. Mas aquele incómodo que começou quando o caixão chegou não foi embora.
Pelo contrário, durante o funeral foi crescendo. Era como se tivesse ali algo que eu não conseguia ver, mas que eu conseguia sentir. Uma presença que eu não sabia identificar ainda. O padre fez a oração como sempre faz. As pessoas rezaram em conjunto, alguns em silêncio, alguns em voz baixa. E fui fazendo o que tinha de fazer.
Mas alguma coisa dentro de mim dizia que aquilo ainda não tinha acabado. Não era medo, isto era diferente. Era mais sossegado, mais fundo. Era o tipo de coisa que a minha avó chamava de sinal. Quando o enterro terminou, as pessoas foram saindo aos poucos, foram dando o abraço à viúva, foram despedindo-se, foram embora. Em pouco tempo só ficou a família mais próxima.
E logo a seguir também eles foram. A mulher do Luís Carlos foi a última a sair. Eu vi-a olhar para o túmulo uma última vez antes de ir. A luz do dia estava a baixar e a claridade estava diferente. Era aquela luz de fim de tarde que muda a cor de tudo o que a gente vê. O cemitério ficou quieto de um maneira que só quem trabalhou naquele tipo de lugar sabe como é.
um silêncio que não é vazio, que tem peso. E eu fiquei ali com as minhas ferramentas a terminar o serviço, mas alguma coisa não estava certa. Eu sentia isso. Era o mesmo desconforto que começou quando o caixão chegou, só que mais forte agora. Eu juntei as minhas ferramentas e tentei deixar aquela sensação de lado, mas não dava.
Era como se alguma coisa estivesse segurando-me ali, não me deixando ir embora ainda. Eu nunca tinha sentido aquilo daquela maneira antes. Tem uma coisa que a gente aprende quando trabalha com o enterro. Quando um serviço está completo, a gente sente. Não tem como explicar bem, mas é real. E naquele momento parado do lado daquele túmulo recém fechado, não estava a sentir isso.
A Terra continuava solta, sem lápide nenhuma. Como toda a sepultura recém fechada, afastei-me do túmulo, Dei uns passos para trás, fui pegando as minhas coisas, preparando-me para ir embora. O sol estava a baixar rápido e sabia que em pouco tempo ia escurecer de vez. Estava na hora de ir. Foi quando o meu corpo travou.
Era uma coisa que parou o meu passo no meio. Era uma sensação clara, sem dúvida nenhuma. Eu não estava sozinho ali. Fiquei parado por um ou dois segundos sem mexer. O coração acelerou porque tinha a certeza de que estava alguém ali comigo ainda. Eu pensei em continuar a andar, mas quando se sente o que eu senti naquele momento, você vira. Não por bravura.
Você vira porque o corpo vira antes de si decidir. Então virei-me devagar e olhei para a direção do túmulo e estava lá uma figura parada. Não era sombra. Eu reconheci o rosto em menos de um segundo. Era o Luís Carlos, o mesmo homem que eu acabara de enterrar, parado lado do próprio túmulo me olhando.
Eu fiquei parado também, sem conseguir dar um passo. As pernas travaram, não obedeciam. Eu queria dar um passo atrás, queria respirar fundo, queria fazer alguma coisa, mas o corpo não obedeceu, ficou parado onde estava. Não me lembro de ter sentido medo assim antes na minha vida. Nós ficámos a olhar um para o outro por alguns segundos.
O Luís Carlos estava a olhar para mim com um olhar que não sei descrever bem. Não era raiva nem ameaça. Era um olhar de quem está perdido, de quem está à espera que alguém explique alguma coisa que ele não compreende. Ele não veio na minha direção e não fez qualquer gesto de ameaça.
Só ficou parado onde estava e foi isso que me impediu de sair a correr naquele momento. Passado um tempo, ele baixou o olhar e olhou para as próprias mãos. Vi-o virando as mãos para cima, para baixo, olhando como se não reconhecesse o que estava a ver, como se aquelas mãos não fossem dele, como se houvesse ali algo de errado que ele não conseguia compreender.
Depois olhou para o túmulo. Eu vi a expressão do rosto dele mudar enquanto ele olhava. Era como se ele estivesse a tentar juntar as peças de alguma coisa, tentando perceber o que significava, mas notava-se que não estava a conseguir. Depois ele olhou-me de novo, diretamente nos meus olhos. E foi nesse momento em que senti que ele ia falar.
Havia alguma coisa na maneira como ele me olhou que era diferente da primeira vez. Antes era um olhar perdido, agora era um olhar de quem precisa de uma resposta. A boca dele abriu-se e eu ouvi uma voz baixa, quase um murmúrio, mas que eu ouvi claro, como se estivesse do meu lado.
Ele perguntou porque é que a mulher dele não tinha respondido quando ele chamou e continuou. Disse que a tinha visto chorando. Perguntou o que tinha acontecido, o que lhe tinha dado. Falou isto com uma dor no rosto que eu não consigo esquecer. Era um homem que tinha visto a mulher que amava a chorar daquele jeito. E não sabia porquê. Não sabia que era a sua morte que tinha causado aquilo.
Depois perguntou por ela tinha ido embora sem falar com ele. Disse que tinha tentado chamar e ela não tinha respondido, que tinha ficado ali chamando e ela não tinha olhado em nenhum momento. Eu ouvia tudo aquilo e ia compreendendo cada vez mais o que estava acontecendo. Aquele homem não sabia que ela já não o podia ouvir.
E depois veio a última questão, a mais pesada de todas. Perguntou pelos filhos, disse que não os estava a ver em lugar nenhum, que queria saber onde estavam, que queria saber se estavam bem. E aquilo foi o momento mais pesado. Um pai perguntando pelos filhos sem saber que não ia mais vê-los da mesma forma que antes.
Cada pergunta que fazia caía mais pesada do que a anterior. Era porque ia percebendo o tamanho daquilo que ainda não sabia. E entendendo que aquele homem estava ali do lado do próprio túmulo, sem saber que estava morto, sem saber que era ele que estava enterrado ali debaixo. Não vou mentir. Senti o medo subir dentro de mim de uma forma que nunca tinha sentido antes.
Era mais o medo de estar perante algo que não tem explicação dentro daquilo que nós consideramos normal. Um medo que sentimos quando percebemos que aquilo que está a acontecer é real e não tem como deixar de ser. Mas, junto com o medo veio outra coisa, um reconhecimento. Eu tinha ouvido aquilo a toda a minha vida vindo da minha avó.
Ela tinha-me descrito exatamente isso. Uma alma que não sabe que partiu. Uma alma confusa que ainda está a tentar viver uma vida que já acabou, fazendo questões que o mundo em redor não consegue mais responder. Era exatamente o que estava à minha frente. E foi aí que a voz da minha avó veio. Eu ouvi-a dentro da minha cabeça, clara, do jeito que ela falava quando eu era pequeno.
perdida não faz mal. Alma perdida precisa de ajuda. Aquelas palavras me pararam. O Luís Carlos continuava ali a me olhando, à espera de alguma coisa. E eu Fiquei a olhar para ele com as palavras da minha avó dentro da cabeça, compreendendo o que eu precisava de fazer. Não era fácil.
Eu nunca tinha feito aquilo antes. Mas eu sabia o que era certo fazer. Assim, respirei fundo uma ou duas vezes e tentei colocar o coração no lugar. Tentei lembrar-me de tudo o que a minha avó me ensinou sobre este momento, sobre como tratar uma alma perdida assim, com calma, com respeito, sem susto e sem julgamento, sem pressas, como se estivesse a falar com uma pessoa normal, porque era exatamente o que ele era para ele próprio.
Ele ainda achava que era uma pessoa normal, vivendo a vida dele. Dentro de mim havia medo, isso eu não vou negar. Mas também tinha outra coisa. uma certeza de que eu estava ali naquele momento por algum motivo, de que os anos a ouvir a minha avó, o emprego de coveiro, tudo aquilo me tinha preparado exatamente para aquele momento.
Eu era a pessoa certa para estar ali naquela hora e eu sabia que precisava de fazer o que ela me tinha ensinado. Eu disse: “Baixo do forma mais calma que consegui.” Não era fácil manter a voz calma naquele momento, mas sabia que era necessário. A minha avó tinha-me ensinado isso.
A voz da gente precisa de transmitir calma, porque é a calma que uma alma assim precisa de sentir. Eu disse o nome dele primeiro, só o nome, para ele saber que eu o estava a ver de verdade. Ele reagiu quando eu disse o nome. Não foi um susto, foi uma coisa subtil. O olhar dele mudou um pouco, como se eu visse o próprio nome tivesse chegado de uma forma diferente.
Olhou para mim com mais atenção, como se de repente tivesse me tornado mais real para ele também. Eu Continuei a falar ainda baixo, ainda com cuidado. Eu disse-lhe que eu precisava de contar uma coisa importante, que ele precisava de me ouvir. Falei devagar, palavra por palavra, como a as pessoas fazem quando querem ter a certeza que a outra pessoa compreendeu.
disse que aquele túmulo que estava ao seu lado era o dele, que o enterro que tinha acontecido ali naquela tarde tinha sido o enterro dele, que já tinha partido. Ele não aceitou vir no rosto dele. O olhar ficou confuso de uma forma diferente. Ele abanou a cabeça de um lado para o outro levemente. Como quem diz que não. Como quem está a dizer que aquilo que eu falei não pode estar certo? Eu entendi.
A minha avó tinha-me preparado para isso também. Alma perdida não aceita na primeira vez. Repeti com paciência, com calma, sem alterar o tom. disse de novo que aquele era o seu túmulo, que eu tinha fechado aquela terra naquela tarde, que a sua mulher estava a chorar porque o tinha perdido, que os filhos estavam ali por isso, que tudo o que ele tinha visto naquela tarde, toda aquela dor daquelas pessoas era por causa da partida dele.
Eu vi o momento em que aquilo começou a chegar-lhe. Foi uma mudança no rosto, subtil, mas que eu não deixei passar. O olhar ficou diferente. Já não era a confusão de quem não compreende o que está a ouvir. Estava se tornando a dor de quem está a começar a entender. Continuei a falar. Diz que a mulher e os filhos iam ficar bem, que iam cuidar-se, que ele não precisava ficar preocupado com eles, que a melhor coisa que podia fazer agora era ir.
Ele ficou parado a ouvir. Eu não sabia se estava a perceber tudo, mas eu via que estava a ouvir. O olhar dele estava diferente. Agora aquela confusão toda, aquelas perguntas todas pareciam estar se assentando de um modo diferente dentro dele, mas ele continuava ali de pé, do lado daquele túmulo, a olhar para mim.
Repeti mais uma vez. Disse: “Pode ir, Luís Carlos.” Está tudo bem. Eu disse que com toda a calma que tinha dentro de mim naquele momento. Não sei de onde veio tanta calma, porque medo eu ainda tinha. Mas as palavras saíram-lhe do jeito certo, da forma que a minha avó teria ficado contente de ouvir se estivesse ali ao meu lado.
Foi então que eu Percebi que a figura dele estava diferente. Não tinha mudado de lugar nem se mexia, mas estava diferente. Era mais difícil de ver com clareza do que tinha sido uns minutos antes. Era como se a nitidez fosse diminuindo aos poucos, como se ele fosse ficando menos ali presente do que estava. Eu fiquei olhando sem pestanejar.
Era como se ele fosse misturando-se com o ar e com a luz fraca daquela hora. Ainda dava para ver o rosto. Ainda dava para reconhecer que era ele. Mas já não era da mesma forma que no início. Era como se ele estivesse indo aos poucos. E foi nesse momento que eu vi. Fez um aceno com a cabeça, leve, quase nada.
Um pequeno movimento de cima para baixo, uma única vez. Mas vi, tenho a certeza que vi. Não foi imaginação, foi um aceno do tipo que a as pessoas fazem quando entendem alguma coisa, quando concorda, quando está a dizer que está tudo bem. e desapareceu. Eu fiquei parado, olhando para o lugar onde ele estava, ainda com o coração acelerado e tentando processar tudo o que tinha acontecido nos últimos minutos.
Aquele cemitério vazio, aquela luz quase a ir, aquele silêncio. Passado um tempo, eu fui até ao local onde tinha deixado as minhas ferramentas e sentei-me no chão ali mesmo. Pensei na minha avó. Foi a primeira coisa que veio depois do choque foi passando um pouco. Pensei nela sentada na sala de casa, me ensinar aquelas coisas quando eu era criança, no seu velório, na presença que tinha sentido naquela noite e há quanto tempo tinha carregado tudo aquilo sem saber exatamente quando ia precisar. E nessa tarde eu tinha
precisado. Depois fiz uma coisa que nunca tinha feito antes. Falei com ela em voz alta. ali mesmo no meio daquele cemitério vazio. Eu disse: “Obrigado, avó, da forma simples, porque foi ela que ensinou-me o que eu sabia. Foi ela que tinha-me dado as ferramentas certas para fazer o que tinha feito naquela tarde.
Sem ela, não teria sabido o que fazer. Eu fico a pensar até hoje no Luís Carlos, no camionista que morreu de repente na estrada, longe de casa, e que não sabia que tinha morrido, que tinha ficado ali naquele cemitério tentando perceber o que estava a acontecer, chamando pela mulher, procurando os filhos. Depois daquele dia, nunca mais trabalhei num funeral sem se lembrar daquele momento, sem se lembrar do Luís Carlos do lado do próprio túmulo, das perguntas que fez e do aceno que deu antes de ir.
E nunca mais trabalhei num funeral sem pensar na a minha avó, porque foi ela que me preparou para aquele dia, mesmo sem saber que um dia ele ia chegar. Eu tenho 71 anos hoje. Trabalhei muitos anos naquele cemitério. Depois de agosto de 1989. Vi muita coisa, passei por muita coisa, mas aquela tarde foi diferente de tudo e ficou guardada dentro de mim.
Não porque foi assustador, embora o medo tenha sido real, mas porque foi a única vez na vida que senti que estava exatamente onde precisava de estar. Se chegou até aqui, muito obrigado por ouvir a minha história. E se acredita que estas coisas acontecem, escreve aqui em baixo: “Acredito. Quero saber quantas pessoas passaram por algo semelhante ou conhecem alguém que passou.
E se esse relato tocou-te de alguma forma, partilha com quem acha que vai querer ouvir. Fiquem com Deus. Um ótimo fim de semana e até ao próximo relato.