A Barraca Rasgada: O Mistério do Casal na Chapada

A Barraca Rasgada: O Mistério do Casal na Chapada
O vento cortava as formações de arenito com um assobio baixo e constante, carregando o aroma doce das árvores perenes, misturado ao cheiro de terra da vegetação rasteira úmida. O sol de setembro batia sem piedade contra as paredes rochosas da Chapada Diamantina, criando ondas de calor que distorciam a paisagem à distância.
Foi nesse cenário de beleza crua e silêncio absoluto que André Cardoso ajustou a alça da mochila pela décima vez naquela manhã.
— 22 de setembro de 2022. Você tem certeza de que este é o lugar certo? — Paula Menezes limpou a testa suada, protegendo os olhos do reflexo dourado emanado pelas rochas.
Aos 29 anos, ela carregava a energia inquieta de quem estava sempre buscando aventuras além das rotas convencionais. André, três anos mais velho, checou o GPS no celular novamente. Ainda havia um sinal fraco ali.
— De acordo com o Marcos, a trilha para a Cachoeira do Segredo fica a cerca de 2 km adiante. Vamos acampar lá e explorar a região amanhã.
André colocou o telefone no bolso do short. Ele conhecia Marcos havia 5 anos, desde que começara a frequentar o planalto. O guia local sempre falava sobre lugares escondidos, cachoeiras que nem os turistas mais experientes conheciam. Paula tomou um gole de água da garrafa térmica e olhou ao redor.
Eles haviam deixado o carro em uma estrada de terra quase três horas antes, seguindo uma trilha que começara bem marcada, mas que agora se tornava cada vez mais sutil entre as rochas e a vegetação espinhosa. O casal se conhecera dois anos antes em uma excursão ao Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Ele era contador em Salvador, ela professora de educação física. Nos finais de semana livres, eles sempre buscavam refúgio nas montanhas.
— Olha isso! — André apontou para uma formação rochosa que se erguia à direita da trilha. — Parece um castelo medieval.
Paula sorriu. Era o que ela mais gostava em André, sua capacidade de se maravilhar com os detalhes. Caminharam por mais uma hora, parando apenas para fotografar um grupo de urubus saltitando entre os galhos secos de uma jurema.
O sol já estava se pondo quando finalmente avistaram o brilho prateado da cachoeira ao longe.
— Droga! — Paula deixou a mochila escorregar dos ombros. — O Marcos não estava exagerando.
A Cachoeira do Segredo despencava por uma parede de rocha de quase 50 metros de altura, formando uma piscina natural cristalina cercada por enormes matacões de arenito. O som da água ecoava pela pequena gruta, como um sussurro amplificado. Não havia pegadas, lixo ou qualquer sinal de presença humana recente.
André montou a barraca em uma pequena planície de areia e cascalho, a cerca de 20 metros da borda da lagoa. Paula organizou os mantimentos enquanto ele testava a fogueira com gravetos secos que encontrara espalhados pelo lugar. Às 18h, o primeiro fogo estalou suavemente, projetando sombras dançantes nas paredes de pedra ao redor.
— Deveríamos vir aqui mais vezes — Paula murmurou, apoiando-se no peito de André.
Eles compartilharam uma xícara de café recém-passado, observando as primeiras estrelas surgirem no retalho de céu que se abria entre as paredes rochosas.
— Depois que eu resolver essa confusão no escritório, podemos planejar uma viagem mais longa, talvez 15 dias explorando todo o planalto.
André beijou o topo da cabeça dela.
— Já pensou em largar tudo e virar guia de ecoturismo?
Paula riu.
— E abandonar meus alunos da quinta série? Nunca.
Eles comeram sanduíches de queijo e presunto no jantar, acompanhados de suco em pó de caju. Paula tirou algumas fotos com o celular. Ainda captava um sinal muito fraco ali, um barrzinho intermitente que sumia e reaparecia. André anotou as coordenadas do acampamento em seu caderno de campo e fez um pequeno mapa da trilha que havia percorrido.
— Amanhã vamos subir até aquela crista ali — ele apontou para um afloramento rochoso que se elevava do lado oposto da cachoeira. — Deve dar para ver o planalto inteiro lá de cima.
Às 21h, recolheram-se à barraca. Paula também enviou uma mensagem rápida para a irmã em Salvador: “Chegamos bem. Este lugar é absolutamente lindo. Volto domingo à noite.” A mensagem ficou pendente por alguns minutos antes de ser finalmente entregue.
André adormeceu primeiro, embalado pelo som constante da cachoeira. Paula ficou acordada por mais tempo, ouvindo os barulhos noturnos da caatinga, o pio distante de uma coruja, o farfalhar de pequenos animais entre os arbustos, o vento que nunca cessava de assobiar pelas fendas nas rochas. Eram os sons do lugar mais selvagem que já haviam visitado.
Na manhã seguinte, André acordou com sede e olhou o relógio. 5h40. Paula ainda dormia profundamente ao seu lado. Ele saiu silenciosamente da barraca para buscar água na cachoeira, levando apenas uma garrafa térmica e uma pequena lanterna. Os primeiros clarões da alvorada pintavam as nuvens de rosa e laranja. André ajoelhou-se na borda da lagoa e mergulhou a garrafa na água gelada.
Foi quando ouviu um barulho ao longe que não conseguiu identificar. Parecia o motor de um carro ou de uma motocicleta, mas durou apenas alguns segundos antes de sumir no vazio. Ele voltou para a barraca, sem dar importância ao som. Havia várias estradas de terra na região, provavelmente usadas por moradores locais passando cedo a caminho do trabalho.
Paula ainda dormia. André deitou-se novamente e fechou os olhos, planejando mentalmente o roteiro do dia. Foram esses os últimos momentos de paz que o casal Cardoso Menezes vivenciaria naquele lugar.
Terça-feira, 27 de setembro de 2022. Beatriz Menezes checou o celular pela vigésima vez naquela manhã. A última mensagem da irmã, enviada na sexta-feira, ainda estava lá: “Chegamos bem. Este lugar é absolutamente lindo. Volto domingo à noite.”
Eram 10h e Paula não atendia o telefone havia três dias. Elas deveriam ter voltado no domingo. Beatriz disse isso ao marido, Rogério, enquanto preparava o café na cozinha do apartamento deles em Salvador.
— A Paula sempre me avisa quando chega. Sempre.
Rogério, que trabalhava na mesma firma de contabilidade de André, já havia ligado para o escritório na segunda-feira. André havia faltado sem avisar, algo sem precedentes em 5 anos de trabalho.
— Deixa eu ligar para o Marcos — sugeriu Rogério. — Foi ele quem indicou o lugar para eles.
Marcos Pereira, guia turístico em Lençóis, atendeu no segundo toque. Sua voz soou preocupada quando Rogério explicou a situação.
— Cara, eu falei da Cachoeira do Segredo para ele na semana passada, mas não era para ficarem lá mais do que dois dias. É um lugar muito isolado.
— Como a gente chega lá?
— Olha, é complicado. A trilha não é marcada e tem várias bifurcações. Sem guia, é fácil se perder.
Marcos fez uma pausa.
— Deixa eu ligar para os bombeiros. Eles têm experiência com resgates na Chapada.
Às 14h, Beatriz e Rogério estavam na estrada para Lençóis, a cidade base para a região da Chapada Diamantina. A viagem de 4 horas pareceu uma eternidade. Beatriz ligava para Paula a cada meia hora, ouvindo sempre a mesma mensagem gravada: “O número que você discou está fora da área de cobertura ou desligado.”
Em Lençóis, encontraram-se com Marcos na sede do Corpo de Bombeiros. O sargento Oliveira, responsável pelas operações de resgate na região, havia aberto um mapa topográfico sobre a mesa.
— A Cachoeira do Segredo fica localizada aqui — ele marcou um ponto com um círculo vermelho. — Área de difícil acesso, sem sinal de celular. Já tivemos alguns casos de pessoas que se perderam lá.
— Vocês vão começar as buscas hoje? — perguntou Rogério.
— Primeiro, precisamos localizar o carro deles.
O cunhado indicou onde haviam deixado o veículo. Marcos balançou a cabeça.
— Eu indiquei três pontos de partida possíveis para a trilha. Vocês vão ter que checar os três.
A equipe se dividiu. Marcos e dois bombeiros seguiram para o primeiro local, uma estrada de terra que levava a um antigo garimpo abandonado. Beatriz e Rogério acompanharam outro grupo até a segunda opção, uma estrada vicinal que cortava uma fazenda de gado.
Às 17h, encontraram o Civic prateado de André, estacionado em uma clareira na Gramada, a 15 km da sede da fazenda. O carro estava trancado, sem sinais de arrombamento ou danos. Pelas janelas, podiam ver mochilas pequenas no banco de trás, provavelmente contendo itens que não haviam levado para a trilha.
— Eles saíram daqui na sexta-feira de manhã — disse Seu Antônio, o caseiro da fazenda. — Eu os vi pegar a trilha lá no fundo. Rapaz e moça com mochilas grandes e barraca.
O sargento Oliveira organizou a primeira expedição de busca para a manhã seguinte: seis bombeiros, dois guias locais, um helicóptero do Grupamento Aéreo e um cão farejador do Batalhão da Polícia Militar.
— Vamos cobrir um raio de 10 km a partir da Cachoeira do Segredo — explicou ele à família. — É o protocolo padrão para pessoas perdidas na mata.
Beatriz passou a primeira noite em claro no hotel, imaginando Paula e André feridos, com fome e esperando por socorro. Rogério tentava consolá-la, mas ele próprio estava consumido por uma angústia crescente. André era meticuloso, cauteloso e jamais se perderia em uma trilha simples.
Na quarta-feira, a operação de busca começou antes do amanhecer. O helicóptero sobrevoou a região por 3 horas, com os pilotos escaneando sistematicamente os vales e formações rochosas. Os grupos terrestres percorreram as trilhas principais e várias secundárias, gritando os nomes do casal e ouvindo atentamente em busca de qualquer resposta.
Às 11h, a equipe liderada por Marcos encontrou a Cachoeira do Segredo. O lugar estava deserto. Não havia sinais de acampamento, fogueiras ou presença humana recente.
— Eles não ficaram aqui — falou Marcos pelo rádio. — Ou foram embora dias atrás, ou nunca chegaram.
— Impossível — Beatriz murmurou ao ouvir a notícia. — A Paula mandou mensagem dizendo que chegaram bem.
O sargento Oliveira consultou o mapa novamente.
— Há pelo menos cinco cachoeiras na região que poderiam ser confundidas com a do Segredo. Vamos ampliar a área de busca.
Durante quatro dias, as equipes exploraram cada trilha, cada ravina, cada formação rochosa em um raio de 20 km. Encontraram vestígios de outros acampamentos antigos, latas enferrujadas, restos de fogueira, até mesmo uma mochila abandonada de um turista alemão que se perdera ali anos antes, mas nenhum sinal de André e Paula.
Na sexta-feira, uma semana após o desaparecimento, a Polícia Civil de Lençóis abriu um inquérito oficial. O delegado Carvalho, um homem corpulento na casa dos cinquenta anos, recebeu Beatriz e Rogério em sua sala, que transbordava de arquivos.
— Tem certeza de que eles vieram para a Chapada? — perguntou, fazendo anotações em uma pasta amarelada.
— É impossível que tenham mudado de ideia e ido para outro lugar. A Paula me conta tudo — insistiu Beatriz. — Ela mandou mensagem de lá, do celular dela.
— A mensagem pode ter sido enviada de qualquer lugar. Sinal fraco. Essas torres de celular às vezes captam sinal de muito longe — o policial folheou alguns papéis. — Verificaram as contas bancárias? Cartão de crédito?
Rogério confirmou que não havia movimentação financeira desde sexta-feira. A última compra de André fora em um posto de gasolina na estrada para Lençóis. Paula sacara R$ 200 no caixa eletrônico da praça central da cidade.
— E inimigos, problemas pessoais, dívidas, nada disso — falou Beatriz, impaciente. — São pessoas normais, trabalhadoras, sem problema com ninguém.
O delegado suspirou:
— Olha, serei franco com vocês. O planalto é grande demais, e há lugares onde uma pessoa pode se perder para sempre. Já tivemos casos de turistas que simplesmente sumiram sem deixar rastro.
Nas semanas seguintes, as buscas oficiais foram gradualmente reduzidas. O helicóptero foi deslocado para outros casos urgentes. Os bombeiros mantiveram rondas esporádicas, mas sem a intensidade inicial. Marcos continuava as buscas por conta própria, levando outros guias para explorar trilhas menos conhecidas.
Dois meses depois, Beatriz criou um grupo no Facebook chamado “Procurando André e Paula, desaparecidos na Chapada Diamantina”. Fotos do casal foram compartilhadas centenas de vezes. Turistas e moradores relatavam possíveis avistamentos: uma garota loira vista em Mucugé, um rapaz de boné em um posto de gasolina em Andaraí. Todas as pistas se provaram falsas.
O Natal de 2022 chegou de forma sombria para ambas as famílias. Beatriz não conseguia nem olhar para as fotos da última viagem com Paula em agosto, para as Cataratas do Iguaçu. Rogério tirou licença do trabalho; ele não suportava sentar-se à mesa e ver a cadeira vazia de André.
— Eles vão aparecer — repetia Marcos sempre que se encontrava com a família. — O planalto às vezes esconde as pessoas, mas com o tempo ele as revela.
Porém, o tempo passou implacável, e o silêncio da montanha não trouxe respostas.
Abril de 2023. Sete meses haviam se passado quando Joelson Silva, funcionário do ICMBio, foi encarregado de inspecionar uma área de preservação permanente próxima à Cachoeira do Segredo. Relatórios de satélite indicavam possível desmatamento ilegal em uma região que deveria ter permanecido intocada.
Joelson, um baiano de 45 anos e veterano de 20 anos na proteção ambiental na Chapada, conhecia cada centímetro daquela região melhor do que as linhas da própria palma da mão. Ele seguiu por uma trilha alternativa, mais íngreme e rochosa, que cortava uma formação rochosa conhecida localmente como Três Irmãs, três blocos de arenito dispostos em triângulo que criavam uma espécie de pátio natural entre eles.
Foi ali, naquele canto escondido a cerca de 800 metros da cachoeira principal, que Joelson faria a descoberta que mudaria tudo. Primeiro, ele notou algo azul-claro. Estava balançando, preso em um arbusto de mandacaru. Aproximou-se com cautela. Podia ser lixo deixado por turistas, mas quando puxou o objeto, seus dedos reconheceram imediatamente a textura de nylon ripstop. Era um pedaço de barraca de acampamento.
— Que diabo! — murmurou, examinando o fragmento.
O tecido estava desbotado pelo sol e pela chuva, mas a marca estampada, Náutica, um fabricante conhecido de equipamentos de camping, ainda era identificável. Joelson seguiu a direção de onde o vento poderia ter trazido o pedaço de tecido.
50 metros adiante, entre dois blocos de pedra que formavam uma espécie de corredor natural, ele encontrou o que restava da barraca completa. O que viu o fez parar instantaneamente, com o coração disparando. A barraca azul e cinza estava parcialmente soterrada sob uma camada de folhas secas, galhos e sedimentos trazidos pelas chuvas dos últimos meses.
Mas não era apenas o clima que havia danificado o equipamento. O tecido apresentava vários rasgos, alguns claramente feitos por objetos cortantes, outros que pareciam resultado de força bruta. A entrada frontal estava completamente aberta, com o zíper quebrado.
Joelson contornou a barraca com cuidado, sem tocar em nada. Sua experiência em fiscalização ambiental lhe ensinara a preservar cenas que podiam ser importantes. Foi quando notou as manchas. Na terra batida ao redor da barraca, mesmo após meses de chuva e sol, marcas escuras ainda eram visíveis, incrustadas entre as pedras menores e na areia compactada. As manchas tinham um padrão estranho: algumas circulares, outras formando trilhas irregulares que se espalhavam em um raio de 3 metros a partir da entrada da barraca.
Ainda mais perturbador, havia manchas semelhantes no próprio tecido da barraca, principalmente na parte interna do que seria a área de dormir. Manchas que o tempo e a umidade não haviam conseguido apagar por completo. Joelson puxou o celular de trabalho e tirou dezenas de fotos de todos os ângulos possíveis. Em seguida, buscou outros objetos espalhados pela área.
Encontrou uma lanterna pequena com a lente quebrada, meio soterrada sob uma pedra; um cantil de alumínio amassado; uma sandália feminina rosa, tamanho 37, com a alça quebrada. Mas foi quando afastou com cuidado um monte de folhas secas que notou a parede rochosa que conduzia à descoberta mais chocante. Embrulhado em um saco plástico parcialmente rasgado, havia um caderno de capa dura azul-marinho. As páginas estavam úmidas e algumas coladas, mas ainda legíveis.
Joelson abriu-o com cuidado na primeira página e leu, escrito em uma caligrafia masculina firme: “Diário de Campo, André Cardoso, setembro de 2022.”
Suas mãos tremiam enquanto folheava rapidamente as páginas. Havia anotações sobre trilhas, coordenadas de GPS, descrições de cachoeiras e, nas últimas páginas escritas, algo que o fez suar frio mesmo no calor de abril:
“22/09 – 18:30. Chegamos à Cachoeira do Segredo. Lugar incrível, mas sensação estranha. Paula está inquieta desde que armamos a barraca. Ouvimos um barulho estranho hoje cedo, como um motor de carro ou moto. Não deveria ter ninguém aqui.
23/09 – 06:15. Paula acordou gritando. Disse que ouviu vozes do lado de fora da barraca. Eu não ouvi nada, mas ela insiste. Vamos desmontar acampamento e voltar hoje. Tem algo errado…”
A nota parava abruptamente no meio da frase. Joelson fechou o caderno com cuidado e guardou-o dentro da camisa. Olhou ao redor da cena mais uma vez: a barraca destruída, as manchas escuras, os objetos espalhados como se alguém tivesse fugido ou sido forçado a sair rapidamente.
Ele conhecia bem o caso do casal desaparecido. Por meses, equipes de busca vasculharam exatamente a área onde ele se encontrava agora. Como puderam passar por ali sem ver tudo aquilo?
A resposta veio quando observou a topografia do local mais de perto. As Três Irmãs ficavam em uma depressão natural, invisível tanto das trilhas principais quanto dos sobrevoos de helicóptero. Era preciso descer a trilha específica que ele havia usado naquele dia ou se aproximar de uma direção muito específica para descobrir o esconderijo entre as rochas.
Joelson correu de volta para onde deixara a moto e acelerou em direção a Lençóis. Uma hora depois, estava na delegacia da Polícia Civil, despejando as fotos que tirara e o caderno de André Cardoso sobre a mesa do delegado Carvalho.
O detetive examinou o material em silêncio por vários minutos. Depois, ergueu os olhos para Joelson com expressão séria.
— Você disse que conhece bem aquela região?
— Como a palma da minha mão, doutor. Trabalho lá há 20 anos.
— E essas manchas no chão, na sua opinião, o que podem ser?
Joelson respirou fundo antes de responder:
— Doutor, eu já vi muita coisa na mata, acidente com animal, turista machucado, até corpo em decomposição. E essas manchas têm a cor e o padrão de sangue derramado.
O delegado fechou o caderno lentamente.
— Vou chamar a equipe de perícia amanhã cedo e preciso localizar a família deles imediatamente.
Na mesma tarde, Beatriz Menezes recebeu a ligação que esperava havia sete meses intermináveis, mas não era a notícia que esperava ouvir.
— Você precisa vir a Lençóis com urgência — disse a voz do delegado Carvalho. — Encontramos algumas coisas que pertenceram à sua irmã e ao seu cunhado.
— Vocês os encontraram? — a voz de Beatriz saiu sufocada.
— Ainda não, dona Beatriz.