Vista pela última vez em 1955: garçonete fechando a lanchonete — restos encontrados Emparedada

Vista pela última vez em 1955: garçonete fechando a lanchonete — restos encontrados Emparedada
Numa manhã fria de junho de 2024, uma equipe de demolição chegou ao que restava do antigo edifício São Jorge, no centro de Campinas, São Paulo. O prédio de três andares, construído na década de 1940, estava abandonado há mais de 15 anos e havia sido condenado pela prefeitura devido a graves problemas estruturais que tornavam a sua permanência um risco para os pedestres que passavam pela movimentada Avenida Francisco Glicério.
No piso térreo, outrora o bar Avenida, um estabelecimento extremamente popular na década de 1960, que havia fechado as portas permanentemente em 1973, quando o bairro iniciou o seu lento declínio urbano. Os operários começaram a demolir as paredes internas do antigo bar, seguindo o protocolo padrão de demolição que exige a remoção de divisórias.
Antes das estruturas de suporte, depararam-se com algo completamente impossível: uma parede de tijolos, não incluída nos plantas originais do edifício, cuidadosamente construída entre duas colunas estruturais de concreto armado, criando um espaço oculto de aproximadamente 1,5 m de largura por 2 m de profundidade e 2,10 m de altura. Quando derrubaram essa parede misteriosa com marteletes, o cheiro foi a primeira coisa que os atingiu.
Mesmo após tantas décadas, o odor de podridão antiga, misturado com mofo profundo e umidade concentrada, era inconfundível e fez com que vários operários recuassem imediatamente, alguns até vomitando. E ali, no espaço estreito e totalmente escuro que estivera selado durante 69 anos, jazia um esqueleto humano numa posição sentada, encostado na parede de tijolos original dos fundos do edifício, com as mãos ainda atadas atrás das costas por arame industrial enferrujado, mas surpreendentemente intacto, e os pés também atados com o mesmo tipo de arame.
Ao lado do corpo, espalhados pelo chão de cimento bruto, estavam os restos em decomposição de um uniforme de garçonete branco e vermelho, cujas cores ainda eram vagamente visíveis sob décadas de mofo e deterioração, uma carteira de trabalho com capa de couro sintético com o nome Berenice Silva Farias e um crachá de identificação de metal esmaltado do bar Avenida, com uma foto desbotada, mas ainda reconhecível, de uma jovem sorridente, de olhos brilhantes e uma cova no rosto.
Berenice Silva Farias tinha apenas 23 anos quando desapareceu em 1955. Era uma jovem de beleza simples, mas absolutamente cativante, daquelas pessoas que iluminam qualquer ambiente apenas com a sua presença, com 1,62 m de altura, corpo esbelto, porém forte, cabelos pretos lisos e brilhantes, que prendia num coque prático e bem-feito durante o trabalho, usando simples grampos de cabelo de metal, e olhos castanhos em formato de amêndoa que literalmente brilhavam quando ela sorria.
Ela tinha uma profunda cova do lado direito do rosto que aparecia todas as vezes que ria, fazendo com que os clientes habituais do bar comentassem que era o sorriso mais bonito de Campinas.
Ela tinha uma pele morena clara e uniforme, mãos pequenas, mas surpreendentemente fortes, resultado de trabalho duro desde a infância, e uma postura ligeiramente curvada, consequência de anos inclinada sobre incontables mesas para servir clientes apressados e exigentes. Nascida em Campinas em 12 de abril de 1932, Berenice era filha de Joaquim Silva, um ferroviário dedicado da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, que trabalhava em turnos brutais de 12 horas mantendo as locomotivas a funcionar, e de Sebastiana Faria Silva, uma dona de casa abnegada que criou sete filhos numa casa extremamente pequena e apertada de três cômodos no bairro do Cambuí, uma zona operária de Campinas onde viviam ferroviários, operários fabris e empregadas domésticas. Berenice era a quarta filha, meio perdida no meio de uma família numerosa e barulhenta, onde o dinheiro era sempre extremamente escasso, mas o amor e a união familiar nunca faltavam, mesmo nos momentos mais difíceis.
A infância de Berenice foi difícil, como a da maioria das crianças de famílias operárias nas décadas de 1930 e 1940. Ela frequentou a escola apenas até concluir o ensino primário aos 12 anos, porque a família simplesmente não tinha condições de mantê-la a estudar quando ela já tinha idade para trabalhar e contribuir para a renda familiar. Desde muito jovem, Berenice teve de trabalhar para ajudar nas despesas.
Começou aos 12 anos, em 1944, praticamente ainda criança, lavando roupa para famílias de classe média do bairro, acordando às 5 da manhã para recolher os embrulhos de roupa suja, passando o dia esfregando, ensaboando, torcendo, estendendo no varal improvisado no quintal minúsculo e devolvendo tudo limpo, passado e a cheirar bem no fim do dia, por uma miséria que mal cobria o custo do arroz e do feijão.
Aos 15 anos, conseguiu um emprego ligeiramente melhor como ajudante numa padaria do bairro, acordando às 3 da manhã para ajudar a amassar a massa, encher formas, limpar fornos ainda quentes e servir os primeiros clientes do dia que vinham buscar pão quente antes de irem trabalhar. Aos 18 anos, em março de 1950, foi finalmente contratada como garçonete no bar Avenida, um estabelecimento que tinha acabado de abrir com grande pompa no piso térreo do imponente edifício São Jorge, na Avenida Francisco Glicério, a artéria principal e mais movimentada do centro comercial e financeiro de Campinas. O bar Avenida era absolutamente típico dos estabelecimentos da época, seguindo o modelo americano que se popularizava no Brasil pós-guerra: um balcão comprido de fórmica vermelha brilhante, bancos giratórios com assentos de couro sintético preto e cromado que as crianças adoravam rodar sem parar, mesas redondas de ferro fundido com tampos de mármore branco com veios cinzentos, e uma máquina de café expresso italiana gigantesca e reluzente que apitava, chiava e soprava constantemente, enchendo o ambiente com o inconfundível aroma de café fresco. O cardápio era extenso e variado, incluindo sanduíches americanos de fiambre e queijo, batidos cremosos de chocolate, morango e baunilha, café com leite servido em xícaras grandes, pão torrado com manteiga derretida e aqueles salgados enormes e crocantes recheados com carne moída temperada, que eram a especialidade absoluta da casa e atraíam longas filas à hora do almoço.
O bar funcionava das 6 da manhã à meia-noite todos os dias da semana, servindo trabalhadores apressados ao café da manhã, executivos de terno e gravata ao almoço, estudantes barulhentos à tarde a tomar batidos e a flertar discretamente nos cantos, e uma clientela extremamente variada à noite, desde famílias a lanchar antes de irem ao cinema até trabalhadores noturnos a fazer uma pausa.
Berenice era excepcionalmente boa no seu trabalho como garçonete, muito acima da média. Tinha memória fotográfica e era absolutamente excelente a tirar pedidos, conseguindo memorizar até seis pedidos diferentes simultaneamente sem precisar de anotar nada. Era rápida e eficiente nos movimentos, nunca deixando cair nada ou esquecendo itens.
E tinha sempre, sempre um sorriso genuíno e caloroso que encantava os clientes, fazendo-os sentir bem-vindos e especiais, o que os fazia voltar não apenas pela comida, mas também pelo atendimento. Os clientes regulares tinham preferências bem estabelecidas, e Berenice sabia de cor absolutamente tudo. O Sr. Arnaldo, o contador do banco da esquina, queria café forte e amargo sem uma gota de açúcar e pão com muita manteiga, sempre pontualmente às 7h15 da manhã. A Sra. Elisa, uma professora reformada que morava no prédio ao lado, preferia chá de camomila bem quente com torrada ligeiramente queimada, sempre às nove horas em ponto. O jovem estudante de direito, moreno e tímido, que vinha todas as tardes estudar numa mesa de canto, pedia sempre um batido de chocolate bem grosso e um salgado de carne bem crocante, e Berenice já tinha o pedido pronto quando ele chegava.
O dono do bar era um italiano de primeira geração chamado Giuseppe Moretti, a quem absolutamente toda a gente chamava carinhosamente de Pep, com aquele sotaque italiano grosso e característico. Ele tinha 52 anos quando Berenice começou a trabalhar para ele. Era viúvo, tendo perdido tragicamente a esposa Maria três anos antes num horrível atropelamento de bonde que chocou toda Campinas quando ela foi colhida ao atravessar os trilhos distraída. Era um homem baixinho e atarracado, com uma barriga proeminente que pendia sobre o cinto, um bigode preto espesso e bem aparado, sempre manchado de molho de tomate, por mais vezes que o limpasse durante o dia.
Tinha mãos grandes e calejadas de trabalhar com massas e fornos, e um temperamento explosivo e volátil, absolutamente típico do estereótipo italiano que os brasileiros adoravam, gritando em italiano misturado com português quando algo corria mal na cozinha. Mas por baixo da casca dura e do temperamento difícil, todos os funcionários e clientes regulares diziam que, no fundo, ele tinha um bom coração e era justo.
Pagava os funcionários estritamente a tempo, no final de cada mês, nunca roubava as gorjetas deixadas nas mesas, fechava religiosamente o bar em feriados religiosos importantes para que todos pudessem estar com as famílias e, ocasionalmente, dava comida de graça a trabalhadores desempregados que apareciam com fome. Berenice começou a trabalhar para Pep em março de 1950 e, durante cinco anos inteiros, foi uma funcionária absolutamente exemplar, pontual como um relógio suíço, nunca chegando sequer cinco minutos atrasada, uma trabalhadora incansável que não reclamava nem nos dias mais cansativos e caóticos, honesta ao ponto de devolver até os cêntimos deixados nas mesas pelos clientes. Com o tempo, tornou-se praticamente a gerente de fato do bar, supervisionando outros funcionários, encomendando suprimentos quando necessário, resolvendo problemas com clientes difíceis, embora o cargo oficial de gerente e, especialmente, o salário correspondente nunca tenham refletido a enorme responsabilidade que carregava.
Quando Pep precisava de sair mais cedo para lidar com fornecedores ou tratar de negócios no banco, ou simplesmente quando estava cansado e queria ir para casa descansar, era sempre Berenice que ficava encarregada de fechar o bar sozinha no fim da noite, trancando todas as portas com as chaves pesadas, contando meticulosamente todo o dinheiro da caixa registradora, conferindo duas vezes para garantir que estava correto, anotando o valor total no livro de contabilidade e guardando tudo cuidadosamente no cofre pequeno e robusto que ficava escondido na área de armazenamento dos fundos do bar, atrás de pilhas de sacos de farinha e latas de óleo.
Foi em janeiro de 1954, quatro anos depois de começar a trabalhar no bar, que Berenice conheceu finalmente o grande amor da sua vida: Paulo Henrique Alves de Castro. Ele tinha 28 anos, era contador formado e trabalhava num escritório de contabilidade respeitado a apenas duas quadras do bar, na mesma Avenida Francisco Glicério.
Alto e magro, com quase 2 metros de altura, porte atlético de quem jogava futebol aos domingos, cabelos castanhos lisos, sempre penteados para trás com gel caro, óculos de aro preto grosso, na moda na época, vestindo-se sempre impecavelmente com fato de três peças e gravata perfeitamente alinhada, mesmo com o calor sufocante do verão de Campinas.
Paulo começou a frequentar o bar Avenida diariamente para almoçar durante a sua pausa de uma hora e, muito rapidamente, reparou e interessou-se por Berenice. O relacionamento começou como todos os relacionamentos daquela época, com conversas extremamente casuais e respeitosas.
— Como está o salgado hoje, senhorita?
— Muito bom, quentinho e crocante, senhor. Acabou de sair do forno há 5 minutos.
Depois, gradualmente, perguntas ligeiramente mais pessoais, mas ainda muito respeitosas:
— Moro perto do centro?
— Não, senhor. Moro no Cambuí com a minha família.
— Há quanto tempo trabalha aqui no bar?
— Já faz 4 anos completos, senhor.
Berenice, inicialmente extremamente reticente e desconfiada, porque conhecia demasiado bem muitos homens que viam garçonetes jovens e bonitas como alvos fáceis para investidas desadequadas, abriu-se aos poucos e conversou mais. Paulo parecia genuinamente diferente dos outros, sempre respeitoso e educado, nunca fazendo comentários desadequados ou toques impróprios, interessando-se genuinamente por ela como uma pessoa complexa e interessante, e não apenas como uma garçonete bonita que servia café.
Em março de 1954, um ano inteiro depois de começarem a conversar diariamente, Paulo pediu-a finalmente e formalmente em namoro, seguindo todos os protocolos sociais da época.
— Senhorita Berenice, permita-me fazer um convite. Há um cinema novo que acabou de abrir na Rua 13 de Maio. Estão a passar um filme americano muito comentado com aquela atriz famosa, como é o nome dela mesmo? Bem, o nome não importa agora. Far-me-ia a honra de me acompanhar no próximo sábado à tarde?
Berenice, corando visivelmente e sorrindo com aquela cova característica, disse timidamente que sim. Foi o seu primeiro verdadeiro encontro romântico, o seu primeiro namorado verdadeiramente sério em toda a sua vida. Durante um ano inteiro, namoraram, aderindo estritamente a todas as normas sociais extremamente conservadoras da época.
Os encontros eram sempre acompanhados pela irmã mais nova de Berenice, que tinha de ir junto e ficar a uma distância respeitosa, mas sempre a vigiar. Passavam as tardes tranquilas e públicas de domingo na floresta do Jequitibá, a tomar sorvete na famosa sorveteria americana, que era ponto de encontro dos jovens de campinas, e a ir ao cinema aos sábados, sempre à tarde, nunca à noite, pois isso seria impróprio. Paulo era atencioso e cavalheiro, trazia sempre flores modestas, mas bonitas, pagava absolutamente tudo sem permitir que Berenice gastasse um único centavo e tratava-a como uma verdadeira dama.
Em janeiro de 1955, exatamente um ano após o primeiro convite, Paulo pediu-a formalmente em casamento, seguindo todos os rituais tradicionais, indo pessoalmente à humilde casa dos pais de Berenice no Cambuí, conversando a sós com Joaquim durante mais de uma hora, pedindo formalmente permissão para casar com a filha e oferecendo um anel de ouro simples com uma pedra pequena, mas genuína, que custara três meses do seu salário. Berenice, absolutamente radiante e mais feliz do que jamais fora em toda a sua vida, aceitou imediatamente e com muita emoção. Marcaram a data do casamento para outubro daquele mesmo ano, dando a si mesmos tempo suficiente para juntar dinheiro suficiente para a cerimônia na igreja, uma recepção modesta, porém digna, e, o mais importante, para alugar e mobiliar um pequeno apartamento onde começariam a vida juntos.
Mas havia um problema sério e perigoso que Berenice absolutamente desconhecia e nem sequer conseguia imaginar. Seu Pep, o seu patrão, estava completamente obcecado por ela. Não era amor genuíno, nem sequer paixão normal; era algo muito mais sombrio e mórbido, era posse e controle absolutos. Desde o momento em que ela começara a trabalhar no bar, 5 anos antes, ele via-a como uma funcionária competente e dedicada, mas também como algo que literalmente lhe pertencia, como se ela fosse propriedade dele simplesmente por trabalhar no estabelecimento.
Inicialmente, durante os primeiros anos, Pep conseguiu manter essa obsessão como uma doença relativamente oculta e controlada: eram apenas olhares longos e intensos quando achava que ela não reparava, encontrar desculpas completamente desnecessárias para tocar levemente na sua mão ao dar o troco, ficar demasiado perto, invadindo o espaço pessoal ao explicar algo totalmente trivial sobre um item do cardápio, e fazer perguntas subtis sobre a sua vida pessoal que eram impróprias vindas de um patrão.
Quando Berenice começou a namorar Paulo publicamente, o seu patrão Pep ficou visivelmente e profundamente perturbado, embora tentasse disfarçar. Começou a fazer comentários cada vez mais duros e maldosos sobre Paulo:
— O seu namorado de fato caro parece muito pretensioso e convencido. Acha que é melhor do que os outros porque trabalha num escritório e usa óculos. Tenha cuidado, Berenice. Esses homens de escritório bem-educados só querem uma coisa das jovens. Depois de conseguirem, deixam-na sozinha com a barriga.
Berenice simplesmente ignorava estes comentários desagradáveis, achando que era apenas a natureza naturalmente rabugenta e ranheta do seu patrão italiano, que sempre reclamava de tudo. Mas quando ela finalmente anunciou o noivado oficial, mostrando orgulhosamente o anel aos colegas de trabalho e aos clientes regulares, algo definitivamente se quebrou dentro de Pep.
Ele chamou-a bruscamente para a sala dos fundos durante um momento calmo da tarde, bateu a porta pesada com força e confrontou-a diretamente:
— Não podes casar com ele. Eu não permito.
— O que quer dizer com não posso, Pep? O senhor não tem nada a ver com a minha vida pessoal.
— Tu não entendes, Berenice. Eu tomo conta de ti aqui. Dou-te bom trabalho, pago o salário a tempo todos os meses, protejo-te de clientes problemáticos. Deves-me lealdade. Deves-me gratidão.
— Lealdade? Gratidão? Eu sou sua funcionária, trabalho duro, faço bem o meu trabalho. Não sou sua propriedade. O senhor não tem nenhum direito sobre a minha vida.
— Tu não vais casar com ele. Eu proíbo estritamente.
Berenice ficou completamente chocada e ofendida:
— O senhor não me pode proibir nada na minha vida pessoal. Se continuar a falar e a agir assim, vou pedir demissão do meu emprego imediatamente e procurar outro.
Foi um erro terrível, embora ela não pudesse sabê-lo. Seu Pep não estava de todo acostumado a ser desafiado ou contraditado, especialmente não por uma jovem garçonete que ele via como sua propriedade pessoal. A sua condição obsessiva e doentia, que anteriormente se mantivera relativamente sob controle superficial, transformou-se em algo muito mais sombrio, perigoso e letal.
Se ele não podia ter Berenice para si, se ela escolhia outro homem em vez de reconhecer que pertencia a ele, então simplesmente mais ninguém poderia tê-la. Nos meses seguintes, de março a julho de 1955, Pep tornou-se progressivamente mais errático e instável. Explodia violentamente por motivos completamente triviais e mesquinhos, acusava publicamente Berenice de erros que ela claramente não tinha cometido, humilhando-a na frente dos clientes, e cortou o seu salário em 20%, citando sérios problemas financeiros no bar, embora o estabelecimento estivesse claramente a ir muito bem com negócios firmes.
Berenice, que já planejava deixar o emprego permanentemente logo após o casamento em outubro, decidiu suportar e não o confrontar:
— Apenas mais alguns meses, e finalmente estarei livre desse homem estranho e assustador, casada com Paulo e a iniciar uma vida nova e feliz.
15 de julho de 1955 foi uma sexta-feira de inverno normal. Berenice estava a cumprir o turno completo da noite, das 18h até à meia-noite, hora em que o bar fechava. Paulo tinha combinado previamente apanhá-la quando terminasse o expediente para darem um passeio rápido pelo centro antes de ela ir para casa — um dos raros momentos de relativa privacidade que conseguiam desfrutar longe dos olhos vigilantes da família.
Mas por volta das 23h30, com o bar ainda aberto, mas com pouquíssimos clientes, Paulo ligou para o bar a partir do telefone público. Tinha trabalhado até muito tarde no escritório, fechando um balanço urgente, e estava absolutamente exausto:
— Poderíamos reagendar o encontro para sábado à tarde?
Berenice, embora visivelmente desapontada, entendeu perfeitamente:
— Claro, meu amor. Descansa bem. Vejo-te amanhã sem falta.
O que ela absolutamente não sabia… o que ela não podia ter imaginado era que o seu patrão Pep estava a ouvir atentamente toda a conversa telefónica, estrategicamente posicionado perto o suficiente para ouvir cada palavra. E o que ela definitivamente não podia saber era que aquela seria a sua última noite viva neste mundo.
O bar Avenida fechou pontualmente à meia-noite, como sempre. Os últimos retardatários saíram às 11h50, reclamando da noite fria, mas satisfeitos com o café quente. Berenice seguiu a sua rotina de 5 anos perfeitamente estabelecida, limpando metodicamente todas as mesas com um pano húmido, lavando cuidadosamente todas as xícaras e copos usados, guardando todos os alimentos perecíveis no frigorífico grande e varrendo minuciosamente o chão do salão.
Seu Pep estava aparentemente a trabalhar no armazém dos fundos, supostamente a fazer o inventário como fazia todas as sextas-feiras. Às 00h15, Berenice recolheu todo o dinheiro da caixa registradora, anotou o valor exato no livro e caminhou em direção ao armazém para colocar o dinheiro no cofre, como fazia todas as noites quando era responsável pelo encerramento sozinha.
Seu Pep estava à espera. No armazém mal iluminado, apenas com uma lâmpada fraca pendurada no teto a criar sombras agourentas, ele estava postado estrategicamente ao lado de uma parede que parecia estranhamente diferente do normal. Havia ali uma abertura retangular, cuidadosamente medida e cortada entre duas colunas estruturais de concreto, um espaço vazio que Berenice nunca tinha reparado antes em todos aqueles anos.
E junto à abertura misteriosa, havia novos tijolos empilhados ordenadamente, argamassa cinzenta já misturada e pronta num balde de metal, uma colher de pedreiro e uma pequena pá.
— Sr. Pep, o que é tudo isto? — perguntou Berenice, genuinamente confusa e a começar a sentir um mal-estar crescente.
Seu Pep virou-se lentamente para encará-la, e ela viu algo absolutamente aterrorizante nos seus olhos que a fez congelar completamente. Não era raiva explosiva como tinha visto antes; era algo muito pior, era determinação fria, calculada e letal.
— Berenice, eu avisei-te várias vezes. Avisou-te claramente que não podes casar com ele.
— Do que está a falar? Deixe-me passar agora. Preciso de ir para casa, a minha família está à espera.
Mas Pep bloqueou deliberadamente a única saída do armazém com o seu corpo e depois, com uma velocidade e agilidade absolutamente surpreendentes para um homem de 52 anos e constituição pesada, agarrou violentamente Berenice pelos braços. Ela tentou gritar desesperadamente por socorro, mas ele cobriu imediatamente a sua boca com força brutal, usando uma mão grande, enquanto com a outra segurava um pano dobrado. O pano estava embebido numa substância química com um cheiro extremamente forte e nauseabundo: clorofórmio, que ele tinha comprado discretamente a um fornecedor químico duas semanas antes, sob o pretexto de ser para a limpeza profunda dos pisos da lanchonete.
Berenice lutou com todas as forças, pontapeando, tentando morder, tentando libertar-se, mas o produto químico fez o seu trabalho de forma cruel e inexorável. Em menos de um minuto agonizante, ela estava completamente inconsciente, com o corpo mole nos braços do assassino. Seu Pep arrastou-a cuidadosamente para o espaço vazio entre as colunas estruturais, atou-lhe as mãos firmemente atrás das costas com arame industrial grosso, amarrou os pés juntos com o mesmo arame, garantindo que, mesmo que acordasse, ela não conseguiria escapar ou fazer muito barulho, posicionou-a sentada contra a parede de tijolos original dos fundos e depois, meticulosamente, com a paciência e o cuidado de um artesão experiente, começou a construir uma parede de tijolos sólida, selando aquele espaço tijolo por tijolo.
Trabalhou toda a noite sem parar, suando profusamente apesar do frio, aplicando argamassa com precisão, posicionando cada tijolo perfeitamente alinhado. Quando Berenice começou lentamente a recuperar a consciência, por volta das 3h da manhã, já estava completamente emururada. Os seus gritos desesperados e aterrorizados foram abafados pelas paredes espessas de tijolos e pela estrutura de concreto sólido do armazém. Ninguém na rua deserta lá fora conseguia ouvir nada. E seu Pep, do outro lado da parede que construía metodicamente, continuou a trabalhar em silêncio, colocando o último tijolo, a última camada espessa de argamassa, selando-a viva no seu túmulo.
Às 6h da manhã de sábado, quando o sol começava a nascer sobre Campinas, a parede estava completamente terminada, rapidamente pintada com tinta da mesma cor exata das outras paredes do armazém, parecendo perfeitamente parte da estrutura original do edifício. Ninguém jamais suspeitaria que ali, a poucos centímetros de distância, jazia uma pessoa viva morrendo lentamente. Seu Pep limpou minuciosamente o armazém, removeu qualquer evidência do seu trabalho noturno, guardou todas as ferramentas, lavou as mãos e o rosto e, quando abriu o bar normalmente às 6h30 da manhã, agia com total naturalidade, como se absolutamente nada de extraordinário tivesse acontecido durante a noite.
Berenice Silva Farias morreu emururada, provavelmente devido a uma combinação horrível de asfixia progressiva à medida que o oxigénio limitado no espaço selado se esgotava, desidratação severa e, eventualmente, falência múltipla de órgãos ao longo de vários dias agonizantes naquele espaço estreito, escuro, claustrofóbico e aterrorizante. Os seus gritos desesperados por socorro nunca foram ouvidos para além das paredes espessas que a aprisionavam. A sua ausência não foi imediatamente notada porque era fim de semana e muitas pessoas, incluindo a sua própria família, assumiram naturalmente que ela estava com Paulo, com amigos ou simplesmente a descansar em casa.
Quando Paulo apareceu no sábado à tarde, conforme haviam combinado, e Berenice não estava à espera no local habitual, ele ficou inicialmente apenas ligeiramente preocupado. Foi à casa dela no Cambuí; a família não a via desde sexta-feira de manhã, quando ela saíra para o trabalho como de costume. A preocupação começou a crescer. Paulo correu praticamente até ao bar Avenida. Seu Pep, com uma expressão perfeitamente construída de preocupação genuína e convincente, disse calmamente:
— Berenice fechou o bar ontem à noite, como de costume, e foi-se embora, como sempre faz. Eu saí antes dela, por volta das 11h30. Deixei-a a terminar a limpeza e a trancar tudo. Pensei que tivesse ido direto para casa, como sempre.
No domingo, quando se tornou absolutamente claro que Berenice havia desaparecido por completo, a família desesperada foi à delegacia. O delegado de polícia de Campinas, Mário Nogueira Santos, um homem experiente na casa dos cinquenta anos, abriu imediatamente uma investigação formal, interrogando extensivamente seu Pep durante horas:
— Quando viu a senhorita Berenice pela última vez?
— Sexta-feira à noite, por volta das 11h30. Saí antes dela, como costumo fazer quando ela fecha. Ela ia trancar tudo e ir para casa. Parecia normal, preocupada com alguma coisa? Completamente normal. Até parecia feliz e contente, a trautear baixinho enquanto limpava as mesas.
Paulo também foi questionado com igual intensidade e suspeita: onde exatamente estava na sexta-feira à noite, entre as 23h e a 1h? Em casa sozinho, a dormir, a morar sozinho num pequeno apartamento, sem um álibi verificável. Tinha alguma razão possível para querer fazer mal a Berenice? Absolutamente nenhuma; estavam noivos e completamente apaixonados, a planear casar em outubro.
Mas o detetive Mário era naturalmente cético e desconfiado: casais noivos discutem frequentemente, casamentos são cancelados, e por vezes essas situações terminam de forma violenta e trágica. Buscas extensivas foram organizadas pela comunidade. O bar foi inspecionado superficialmente pela polícia, mas nada de obviamente suspeito foi encontrado. Toda a família de Berenice, irmãos, primos, vizinhos, vasculharam obsessivamente as ruas de Campinas durante semanas, mostrando a foto dela a todos, perguntando desesperadamente se alguém a tinha visto.
Os clientes regulares do bar foram todos questionados individualmente; todos confirmaram exatamente a mesma história: Berenice estava lá a trabalhar normalmente na sexta-feira à noite, sorridente e eficiente como sempre, tendo aparentemente saído quando o bar fechou à meia-noite para depois simplesmente desaparecer sem deixar rasto. A investigação durou oficialmente três meses intensos, sendo depois gradualmente abandonada devido à total falta de pistas.
Berenice Silva Farias foi declarada oficialmente desaparecida em novembro de 1955. O seu nome entrou para as estatísticas oficiais, mais um entre milhares de pessoas que simplesmente desapareceram misteriosamente. Paulo nunca casou com mais ninguém; passou os 52 anos restantes da sua vida completamente sozinho, profundamente convencido de que algo absolutamente terrível tinha acontecido a Berenice, mas totalmente incapaz de o provar. Morreu em 2007, aos 81 anos, carregando consigo a dor insuportável de nunca ter sabido a verdade sobre o destino da mulher que amava.
Seu Pep continuou a gerir o bar Avenida normalmente até 1973. Vinte e três anos após o crime, quando finalmente se reformou e vendeu o negócio, viveu mais 20 anos pacificamente, morrendo em 1993 aos 95 anos num lar de idosos. Nunca confessou nada, nunca deu o menor indício de culpa ou remorso; levou o seu segredo terrível para a sepultura.
E então, em junho de 2024, a ordem de demolição revelou finalmente a verdade. Quando os operários quebraram aquela parede misteriosa e encontraram Berenice, finalmente, 69 anos depois, a verdade veio brutalmente à luz. A perícia forense moderna confirmou definitivamente, através de múltiplas evidências, que Berenice tinha sido emururada viva ou imediatamente após ser drogada. A posição específica do esqueleto, o arame enferrujado ainda intacto que prendia os ossos dos seus pulsos e tornozelos, os arranhões profundos e desesperados nas paredes de tijolos onde ela tentara de forma impossível e desesperada cavar uma saída para fora — tudo contava a história horrível de um assassinato brutal e premeditado.
Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only.
Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously.
No real person or organization is intended to be portrayed.